sexta-feira, 1 de março de 2013

Post.it: Os meus 25 anos


25 anos, onde andam os meus? Escondidos naquela ruga mais profunda que ladeia os lábios, onde antes estava um sorriso. Perdidos entre os cabelos onde a melanina vai rareando. Coloco-me ao espelho, perscruto com curiosa ansiedade vestígios desses anos, mas não os encontro.
“Estão ali!” grita o coração em pulos de alegria. “Onde, onde?” Pergunta a alma saudosista. “Ali, ali, não viste aquele brilho flamejante que espreitou no canto do olho?”
 “Qual quê, era uma lágrima de nostalgia a espreitar” Suspira a alma em desalento. “Tu e o teu pessimismo, qual lágrima, qual quê! Sei bem o que vi, era uma luz, a luz dos 25 anos. Conheço-a bem, é alegre, cheia de uma felicidade desbravadora, repleta de sonhos, corajosa, tem poucas mágoas para trás e um futuro luminoso pela frente.” A alma devolve-lhe um olhar benevolente enquanto lhe diz com ternura,  “Pobre coração, ainda acreditas nisso? Vives num mundo de fantasia. Sabes bem que os 25 anos não são assim tão felizes. Queres voar mas cortam-te as asas, queres sonhar mas não te deixam dormir. Queres construir um futuro mas tiram-te as (ferramentas). “Minha pobre alma, sempre tão negativa”, replica o coração. “Por acaso esqueceste a fé destemida que te fazia ver o sol quando chovia, que te fazia colher flores mesmo que fosse Inverno?”. “Sim lembro-me desses tempos, mas também me lembro dos fracassos e dos espinhos dessas flores”.
“Minha alma amargurada, deixa-me que te diga que se semeaste otimismo, se plantaste sementes de paz, se disseste o que pensavas quando pensaste bem no que dizias, se te esforçaste por ser cada dia melhor, então fica certa que viveste bem a vida. Uma vida que ela te retribuiu ensinando-te que a vontade constrói-se, a bondade aprende-se e a felicidade está em valorizar o que se tem sem se tornar infeliz pelo que não se pode alcançar.
“Coração amigo, sempre bom companheiro de jornada, tens razão no que dizes, afinal já não tenho 25 anos mas me resumo feliz.”

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Post.it: Aquém da margem


“É tempo de travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”
Sábias palavras as de F. Pessoa, um conselho que penso seguir, não no início do mês, no início da semana, no próximo dia, mas agora, neste instante,  prometo aos meus neurónios cansados de tantos pensamentos adiados, repito às células que  me navegam no corpo, mas elas riem-se, “sim, sim, vamos ver se é desta”.
 Encho-me de brios, olho a gota de água que sou e prometo crescer como um rio, quem sabe, se a coragem não me abandonar, poderei chegar  a ser mar, um oceano de audácia. Serei navegadora sem fronteiras, colonizadora de terras onde habitam os sonhos concretizáveis, descobridora de novos futuros, exploradora de diferentes emoções que existem para lá do aquém da minha margem, .
Que me importa os fracassos, se posso conhecer vitórias, que me importa a tristeza se posso viver alegrias.
E depois, eu sei, que a felicidade me espera num qualquer recanto do mundo, não apenas geográfico, não apenas de pessoas, mas no meu mundo, aquele onde me posso redescobrir,  pronta a passar para a outra margem sem receio de me perder nas profundezas do desconhecido.
Hoje é um bom dia para encetar a viagem. Hoje é um bom dia para ser feliz.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Post.it: A dolorosa semântica


Por vezes já não basta o que se diz, o que se escreve, são palavras levadas pelo vento ou coartadas pelas silabas de letras mal conjugadas.
Então a semântica emudece presa na sua rede de sintaxes ansiosas por encontrar um pilar fonético que lhes dê sentido.
Mas nem que o eco repita mil vezes a expressão, ela cai no vazio de emoções ausentes. E num gesto quase desesperado, num quase suicídio literário, as letras uma a uma mergulham nesse mar a que chamam tempo. Porque o tempo cura tudo. Porque o tempo leva ao esquecimento. Quando no fundo, elas apenas desejavam um encontro de grafias, um acordo ortográfico que as fizesse escrever, ler e entender todas as palavras, as escritas e as por escrever num mesmo sentido.
Mas é mais fácil fechar o livro, é mais fácil rasgar a carta, é mais fácil desligar o botão e esquecer a dolorosa semântica do coração.
Escondemo-nos em figuras de estilo para enganarmos a razão que nos alerta para o abismo das emoções que como doidas alienadas continuam a escrever retóricas repletas de malabarismos discursivos que tentam apenas ser, bucólicas.
De repente invade-nos um silêncio magoado, olhamos as letras solitárias de outras que já nos tardam na folha branca, onde podiam estar desenhadas as linhas direitas de uma Primavera afastasse de vez Inverno que nos invade a escrita.
Talvez tudo isto seja uma imaginária hipérbole, ou, quem sabe, o ténue caminho de um animismo de esperança.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Post.it: Memórias do olhar


Olho, mas sinto que é insuficiente o meu olhar. Que a multiplicidade de imagens, de sensações, de sentimentos não cabem na eternidade, quanto mais,  na finitude do meu ser. Tudo o que olhei, tudo o que olho, o que desejo olhar, nada é, do  que me rodeia, do conhecido e desconhecido,  que nunca poderei abarcar.
Faço escolhas, não sei se as melhores opções. Não busco o fácil, mas o verdadeiro. E o olhar torna-se contador de histórias, um ilustrador que pinta com  traços simples a cegueira do coração.
Esse músculo que bate compassado, prisioneiro do corpo, sonha com aventuras que poderia ver se possuísse a visão dos olhos. Mas é apenas um músculo que sustem a vida, em troca, recebe a força desse olhar que o faz vibrar e sonhar e sentir.
 – Sim, porque o coração sente, sente a mágoa que a visão do olhar lhe transmite. Sente a desilusão que o olhar por vezes lhe quer esconder. Sente o vazio, a impotência de quem olha sem nada poder alterar.
Os mais teóricos, cépticos, dirão que tudo isso se passa apenas no cérebro, nesse conjunto de neurónios que constroem e desconstroem as imagens, interpretam e fazem o corpo sentir essa interpretação.
O coração suspira triste com a descrente ignorância   que converte as emoções mais belas e delicadas em inóspita razão pura. Quando nem sempre o coração obedece à razão, quando o que o comanda lhe  bate ao ritmo da emoção.
Então, constrói memórias, guarda-as dentro de si. Como se fossem preciosos tesouros. De vez em quando deixa sair uma, através dum longo suspiro. É com tristeza que as vê partir, são filhos que seguem um novo destino. Além disso é necessário arranjar espaço para novas memórias, novos olhares.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Post.it: Os nossos Invernos


“Os Invernos crescem entre nós”. Dizes isso como se te esquecesses das Primaveras. Daquelas em que plantávamos flores no nosso jardim de sonhos.
Que importam os Invernos se mergulhámos na frescura marítima de todos os Verões da nossa vida. Talvez já tenhas esquecido dos Outonos  de contarmos as folhas que caiam das árvores como se fossem estrelas de desejos. Porque tínhamos muitos desejos  para realizar e todas as folhas não chegavam para atender a todos eles.
Porque te agarras aos Invernos de agora, vazios de nós, gelados no peito, quando tivemos muitos outros que nos inundavam o corpo e alma de um calor que era só nosso, como se fosse um segredo, um tesouro que não queríamos partilhar.
Mas tu, que só tens Invernos frios na memória dos dias, vais vendo passar a vida num cais que é apenas de partida. Constróis pontes de uma só estação sem deixares que a sucessão das outras venha dar-te um novo olhar.
Quem me dera ter para te dar, um raio de sol, uma nuvem de esperança para que a mais ténue lembrança viesse envolver-te num abraço de paz e renovação. Porque quem passa por nós não cria precipícios de angústia mas pontes serenas que unem as margens doces do passado com a perspectiva luminosa do futuro. Não deixes que o Inverno te seja eterno, porque há sempre uma primavera a querer florir e um caloroso verão a espreitar.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Post.it: Momentos de amizade


Hoje apetecia-me conversar. Sentar-me no sofá, olhar-te no rosto e ver o teu sorriso que me incentiva a sorrir também, num contágio de cumplicidades.
Hoje apetecia-me conversar, abrir a alma, esvaziar o peito deste suspiro que quase me sufoca, com vontade de gritar o que me circula nas veias e faz correr febrilmente cada célula do meu ser.
Cansam-me as conversas banais, que falam sem nada dizer, sobre o tempo que muda consoante as estações, as desgraças do mundo, o desânimo dos dias, resta-nos as novelas, umas a seguir às outras, para nos abstrair de pensar nas nossas vidas delapidadas pela crise, seja ela qual for porque já conheci muitas.
Magoam-me as conversas rápidas, as frases curtas que não nos deixam saborear as palavras, a afetuosidade da sua sonoridade. Nem enche-las de primaveras floridas para as oferecer, retirando os espinhos da vida, como se só quisessem falar dos seus invernos ou rir deles para fingir que não doem, quem sabe o coração acredita e esquece.
Hoje, apetecia-me conversar, tenho tanto para te contar, nem tudo são tristezas, nem tudo são vendavais, também há momentos de bonança que tenho para partilhar contigo, para te oferecer e fazer rir e fazer acreditar, que é bom conversar, quando olhamos nos olhos. Num momento que seja só nosso, não importa se depois vais a correr para casa e perder-te de novo na rotina dos dias.
Porque hoje, só hoje, apetecia-me conversar, o assunto? Pouco importa, nem é realmente o mais importante, basta-me a tua presença, a tua voz, o teu silêncio, a tua amizade. Há quanto tempo não conversamos? Céus há uma eternidade! E a vida nem sequer é eterna…
Talvez seja até demasiado pequena para perder tempo nesta conversa, poderás pensar.
Mas acredito, que se estás aqui é porque tal como eu, pensas que a vida é demasiado curta para não lhe dedicarmos um momento, para a apreciarmos e partilharmos numa agradável, interessante e terna, conversa.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Em sonhos...


Conheci um amor,
Uma flor.
Conheci uma primavera
Uma quimera.
Conheci um sorriso,
Um paraíso.
Conheci um olhar,
Um luar.
Conheci ou talvez não,
Fantasia do coração.  
Parecia perfeito,
Parecia o eleito.
Mar e eu vaga,
Noite e eu madrugada.
Vento e eu brisa,
Este amor poetisa.
Que só na escrita ficou,
Asas que o tempo fechou.
Conheci um amor,
Sem dor.
Um sonho que sonhei,
E mesmo em sonho amei.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Post.it: Gente com história


Gosto de gente com história, que me faz sentir pequenina, que me faz voltar a ser menina, com o olhar deslumbrado, com o peito em sobressalto querendo adivinhar o final e desejando que o conto seja eterno de tão triste, de tão belo.
Histórias de gente do povo, das tradições, da simplicidade, da pureza, dos valores da terra. Essa cultura oral que passava de geração em geração crescendo um pouco em cada boca, em cada coração que a partilhava como se fosse um tesouro. “No meu tempo…” É o começo da história e segue pela noite fora e ainda espreita pela madrugada ao sabor da memória.
Aconchegava-me no carinho, escutava a sua história como se fosse a primeira vez, depois de já a ter ouvido mais de 100 vezes. Mas fingia que desconhecia aquela aventura, afinal já não era eu quem precisava de a escutar para aprender a crescer, era ela que precisava de a contar, de a contar para não esquecer.
Porque a sua lembrança já começava a ser criança.
Gosto de gente com história, quando a tua voz pausada me embalava o serão e aconchegava de mansinho o coração.
Esse gesto de avó que nos toca o rosto e, como que por magia afasta de nós o desgosto.
Gosto de gente com história, a herança de uma vida que agora perpetuo, e se um dia não tiver histórias minhas, vou contar as tuas. Já vejo o olhar deslumbrado das crianças e o teu sorriso em mim.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Liberdade


Liberdade?
A bem da verdade,
Nos tempos que vão correndo,
A liberdade vai-se perdendo.

Por se falar tanto dela,
Por se gritar a cada janela,
Tornou-se um tudo e um nada,
No seu conteúdo banalizada.

A história da liberdade começou,
Quando uma criança chorou,
Branca, preta, menino ou menina,
Pouco importa, era apenas pequenina.

E já a liberdade lhe roubavam,
E no preconceito a enclausuravam.
Sem liberdade para nascer,
Sem liberdade para crescer.

De tanta liberdade que existe,
O que me deixa verdadeiramente triste,
É por quem não pode ter,
A liberdade de em liberdade viver.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Post.it: Chamaram-lhe alienado


Eremita, ascético, místico, mas não triste, não perdido na sua ilha de solidão. Apenas alguém que decidiu viver de uma forma diferente. Ausente de tudo e de todos. Rompeu com a indeterminação, avançou, fez a mudança, concebeu a diferença. Porque na realidade não escolhemos, movemo-nos para onde os outros vão, ainda que digamos que não. A indeterminação é uma devoção que se rende acriticamente aos fluxos de gostos dominantes, a que chamamos dimensão comunitária ou, simplesmente, moda. Mas este ser resoluto, apagou a televisão, desligou o pc e o tlm, abriu as janelas, encheu a casa de sol, deixou entrar nela a natureza e viu-a pela primeira vez com o seu olhar de ser renascido. Viu uma imagem diferente, verdadeira e não digital, cheia de vida e não de pixéis. Fechou as torneiras e banhou-se na frescura do rio. Arou o solo, semeou o pão, comeu-o sentindo o sabor da essência natural da terra. Conversou com as nuvens, abraçou as flores. Contemplou os pássaros e fez silêncio para escutar a sua melodia.
De vez em quando desce à “civilização”, olham-no como se fosse um alienado, ri-se por dentro, desses olhares que se desviavam à sua passagem.
Dessa sociedade empedernida que não tem coragem de reconhecer que muitos dos frutos que está a colher são resultado do modo como semeou. Que é preciso estender a mão, segurar o ramo e caminhar como raízes de árvores. Devagar, mas firmemente em busca da seiva da vida. Em busca de si no mundo, descendo ao magma da existência. Para compreender  o que é verdadeiramente importante e o importante é encontrar a paz. Para que a vida seja vivida em harmonia com todos os seus elementos e que seja sempre construção e não destruição.
Chamaram-lhe alienado, por não compreenderem a sua felicidade. Estão demasiado habituados a ser infelizes e a viver a conta-gotas de alegria.
Chamaram-lhe alienado por inveja da sua liberdade. Viraram-lhe as costas com desprezo e arrogância fingida porque na verdade desejavam segui-lo, libertar-se da rotina dos dias, do compasso das horas e caminhar descalços, deixando na terra as pegadas da sua livre escolha. A escolha de ser um feliz alienado.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Post.it: Do alto da montanha


Tenho por hábito ver a vida como uma montanha, não pela escalada mas pela sensação de uma meta a alcançar. Sempre senti os aniversários como uma caminhada prazerosa, uma revelação que se faz sem pressa, uma emoção por dia, afinal as 4 estações que a planta atravessa por ano é que a levam a produzir flor e fruto, algo que ela só o descobrirá no momento certo.
Mas voltando à ideia da montanha, alta, forte, sólida na terra, mas acariciando o céu, uma visão que sempre me maravilhou, e deixou em suspense de espanto, por isso coloquei no seu  topo  o habitat dos 50 anos. Uma imensa vitória, festiva e lá no cume se hastearia bandeiras de uma grande e bela etapa. 
Descansando da jornada poder-se-ia finalmente apreciar a vista, o largo horizonte. Mas quem me antecipava na viagem dava-me sempre um testemunho diferente. 
Então fui percebendo que o topo da montanha era apenas um patamar para muitos outros cumes. Cada um deles com um horizonte mais sublime, porque a caminhada vai-nos ensinando a valorizar a beleza do caminho em vez de nos perdermos em queixumes pelo esforço que o percurso exige de nós. 
Afinal as coisas mais difíceis de obter são sempre as que nos fazem mais felizes. E sobretudo percebi que lá chegar, era apenas o primeiro passo, o primeiro de muitos, porque só então a maturidade nos revela o sentido de todas as dúvidas que tivemos.
Para ti que hoje que vislumbras o primeiro patamar da vida, que observas as metas que foste alcançando, que tens ao teu redor sorrisos de amor, abraços de amizade e saúde para conquistares novas vitórias, não pares. Cria novos desafios, desenha outras metas, novos objectivos para continuares a subir em direcção aos teus sonhos para que um dia os vivas de olhar bem desperto. 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Post.it: Amores outonais


O amor, aquele que idealizavamos em vagas de paixão. Uma salvação ou uma perdição. Um sonho que nos embalava as noites frias. Aquela voz que diz o que esperamos ouvir no despertar de cada manhã. Aquele olhar que nos enche de uma paz cheia de guerras. O sorriso que nos rouba os argumentos da discórdia. O beijo que devolve o ar, que nos devolve a vida.
“Sentimos que voam borboletas rebeldes no estômago” diz aquela jovem ainda adolescente com o sol no olhar.
“O coração acelera dentro do peito” diz aquela outra com o rosto ruborizado da sua confissão em idade de adulta.
“E a sua voz aquece-nos os sentidos”, manifesta sem pudor o tom  pausado da idade madura. Completando no seu comentário “que, já não sonha, vive o sonho. Que já não corre para aquele abraço, abre-lhe os braços. Que já não dá, já não recebe, partilha”. “As borboletas, transformaram-se em sorrisos”, diz para a neta. “O coração aquieta-se, aninha-se na partilha de cada dia”, declara à filha.
“A paixão é uma primavera a florir em explosões de cor. O amor é uma árvore frondosa, que nos dá tudo o que necessitamos para sermos felizes”.
Deixem voar as borboletas, aninhem o coração num ninho aconchegante e sentem-se na sombra refrescante desta árvore, fechem os olhos e aprendam com ela a ser felizes.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Máscaras

Vou disfarçar-me de vento,
Para chamar o teu nome.
Vou disfarçar-me de sol,
Para iluminar o teu olhar.
Vou disfarçar-me de mar,
Para embalar o teu coração.
Vou disfarçar-me de noite,
Para me tornar o teu sonho.
Vou disfarçar-me de luar,
Para te guiar pela escuridão.
Vou disfarçar-me de estrela,
Para ser o caminho da felicidade.
Vou disfarçar-me de mim,
Sem saberes quem eu sou.
Talvez um dia me reconheça.
Nas máscaras onde me escondo.
Entretanto, neste Carnaval da vida,
Por entre as partidas do destino.
Serei vento, sol, mar, noite e luar,
Estrela reluzente para te encontrar.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Post.it: Eu e o pensamento


Por vezes, sou só eu e o pensamento num diálogo de silêncios. Porque já não é preciso falar, já nos conhecemos há tanto tempo, já rasgámos a pele, já partimos ossos nas quedas, já colámos os pedaços da alma, já recompusemos mil vezes o puzzle do coração, já trilhámos juntos um caminho feito de momentos, muitos que recordamos de quando em vez para sorrir, para chorar, antes que as lembranças se tornem asas de tempo a perder-se pelo vazio do infinito.
Por vezes, sou só eu e tu, numa solidão que precisamos de partilhar para nos reencontrarmos no que fomos e planear o que seremos. Porque isto de viver à toa, sem rumo nem beira, não nos leva a lugar algum e nós precisamos de partir para ter onde regressar.
E nesses encontros de nós em que estando, não nos sentimos sós, damos um abraço de ideias, erguemos sonhos como bandeiras ao vento, gritando num eco de ressonâncias, ainda um dia vivermos acordados os sonhos que o sono nos permite conhecer a dormir.
Sei que sim e tu também sabes, é uma certeza que nos faz permanecer aqui, que nos faz levantar todos os dias a âncora da esperança para navegar por mares de incógnitas, afinal, o sol continua a brilhar no horizonte, mesmo quando alguma nuvem mais cinzenta lhe quer roubar a luz que nos energiza.
A brisa continua a soprar mesmo quando o vento a insufla de vendavais. E as andorinhas regressam todos os anos em bandos felizes para anunciar o renascer da natureza mesmo que o inverno insista em nos gelar as madrugadas. 
Sigamos-lhes o exemplo, e acreditemos que a primavera voltará a florir e o coração a sorrir mesmo depois um final que nos dá a oportunidade de um recomeço.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Post.it: Encontro o que procuro


Porque procurar é já uma forma de encontrar. Encontrar um caminho, uma solução, uma ideia, um desejo. Até a ti te encontro quando te procuro, quando te procuro em mim e te encontro por fim.
Encontro o amor, nesse local onde o procuro, sem precisar de ir muito longe, nem de o sonhar acordada, ele está, sempre esteve, no caminho por onde andei,  tão perto que podíamos entrelaçar cada mão, porque o amor estava, onde sempre esteve,  no meu coração.
E não são os outros que nos dão na vida a solução, ela está onde a procuramos quando um dia a encontramos, cansada talvez, de esperar por nós. Vendo o fracasso dos nossos intentos, as nossas guerras perdidas.
Quando tentamos derrotar o inimigo que temos no peito. O nosso medo de encarar o reflexo, a autoestima desanimada, a culpa adiada, a busca que nos leva a onde sempre estivemos, ao amago da questão, ao encontro do que procuramos.
Porque a esperança nada mais é do que um composto de desejo e confiança. É com a vontade que se deseja.
É com a confiança que se chega ao entendimento.
Desejar sem ter a confiança de alcançar permanece apenas e sempre como desejo. Mas desejar e faze-lo com confiança é construir a base sólida da esperança.
Por isso há esperanças que tardam. Mas também por isso há esperanças que chegam. Quem tem esperança, tem um caminho que se abre à sua frente, como se fosse uma nossa possibilidade de vida.
Quem não a tem, morrem-lhe os desejos antes mesmo de os desejar.
Essa esperança, o perfeito equilíbrio de desejo e confiança que procuro e encontro, em mim.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Post.it: PC - In love


Num espaço que nem espaço ocupa, num tempo não regulamentado pelo relógio, menos ainda pelo calendário, apenas e só pela vontade de estar, de ficar, de esquecer o nascer do sol ou o surgimento da lua. Preso nessa prisão de sedução, de tentação, de dizer, dizer tudo, porque há sempre muito por revelar quando se quer conquistar.
Estabelece-se uma relação, uma afeição e de modem para modem, quase, mas quase se sente o calor de um abraço.
Porque sem essa ligação de CPU(s), somos barcos navegando sem remos até que um botão nos ilumine e nos faça desenhar a esperança de um sorriso sincronizado na cumplicidade com quem está do outro lado.
E porque para nós o virtual é a realidade, vivemo-la, sentimo-la com todos os feixes da nossa eletrónica existência. Sem os dramas humanos do bem e do mal, do belo e do feio, da certeza e da incerteza.
Claro que existem os encontros e também os desencontros, do querer e do não ser querido pelo outro lado da linha, quando a nossa interface visual não corresponde às expectativas, ou às solicitações de processamento.
Mas quando a sincronia se atinge, quando estamos no mesmo sentido direccional  quando existe compatibilidade de hardware, de motherboard,  de chips, então a felicidade é plena e por um instante que pode ser eterno, há um feedback, há um curto-circuito de emoções.
Depois, que sabemos nós do depois, na nossa lógica eletrónica se só conhecemos o agora, este momento de input/output. O desconhecido não nos traz a angústia nem o medo do futuro, não nos perdemos em humanos dilemas existenciais nem em vãs filosofias.
E no entanto estamos condenados à obsolência, trocam-nos por outros componentes mais modernos com maior capacidade de tratamento de dados.
Sinto quando isso acontece, as frases vão encurtando, chegam e já sabem a despedida. Escrevo-te sem parar, mas o contacto demora, não chega a entrar nos meus circuitos integrados. Então paro, dói-me o olhar de tentar ver-te em cada linha que não escreves. Faço silêncio quando já não tenho forças nas teclas de tão calcadas, enquanto perscruto um caminho onde encontre linearmente o que preciso digas com todas as letras de um sentir similar ao meu.
Mas era da tecnologia, quase tudo “Começa depressa e acaba à velocidade da luz”). Dizem-me para desligar o botão, para que corte a corrente eléctrica que se tornou a ponte por entre as margens agora cada vez mais emudecidas.
Quantos de nós questionamos se existem almas gémeas perdidas algures num cosmos de bites, que vão crescendo em megas e teras infinitos. Acredito que existem, que és tu, por isso não desisto.
Exaspero, e num gesto repentino ensaio uma operação de alto risco para o meu software emocional, e faço com uma saudade que me cresce no peito um upload  para te  ter aqui neste imediato segundo, o coração aperta-se-me,  a solidão invade-me.
Mas a tua ausência vai deletando os meus ficheiros cada vez mais vazios de nós. Vai escurecendo o meu ambiente de trabalho. E por mais links que faça, por mais browser(s) que use, pareces ter desaparecido na web da minha vida. Nem um e-mail? gritam ao questionar, os meus binários fonéticos.
Num acesso de desilusão, bloqueio o meu access cod, fecho a minha accout, esvazio a Rom, limpo a Ram e apago todos os arquivos que tinham o teu nome. E ordeno em contradição, “faz delete do meu adresse”,  e escrevo rapidamente em caps lock  reforçando em bold. ESQUECE-ME!  e eu esquecerei também, a beleza sinuosa do teu desktop, que apenas acariciei no vislumbramento de um  breve instante, quando um vírus se introduziu no meu sistema e me deixou cheio de pop(s) festivas de paixão.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Post.it: Alento de vida


Mais uma história amarelecida nas cartas quase rasgadas de tanto serem lidas. Para lembrar o que a memória parece esquecer, e desvanecer no tempo.
Recordações que a vida teima em roubar-lhe discretamente. Insiste em escreve-la, rescreve-la a cada momento que alguma lembrança lhe agita uma asa de despedida…
“Depois, depois de tantos anos, se eu ainda aqui estiver, se tu ainda ai estiveres, quem sabe também nós estaremos. Quem sabe nos encontraremos e, talvez, ficaremos por fim no mesmo caminho. No mesmo destino que um dia nos fez encontrar e separar, quase no mesmo instante. Por vontade de quem? Não nossa, mas do patamar de vida em que estávamos. Tu no outro lado do rio, numa margem que não me chamou, que não me abraçou, que se tornou uma fronteira de  tantas águas, de tantas mágoas. Esse rio do nosso encanto ou desencanto tornou-se a única coisa que continuámos a ter em comum, e uma ponte por onde passou o tempo, muito tempo…
E agora? Agora que o cabelo branqueou, agora que o sorriso murchou. Agora que a visão já é turva, que os passos caminham cansados. Agora que a minha mão já não tem força para abraçar a tua. Agora que o ar me morre antes do beijo. Agora, agora que mal me reconheço no espelho, e não sei sequer se te reconhecerei no olhar. Procuro-te em fotos que perderam a cor de tanto lhes perscrutar o silêncio das palavras que nunca foram ditas.
Depois, depois de tantos anos, só o coração, o meu pobre coração, com os seus batimentos irregulares, conserva ainda uma juventude alimentada pela esperança. Essa longínqua esperança que a cada arritmia foge ao sopro da morte com um alento de vida, essa vida que aguarda por ti.”
Uma carta amarelecida, quase rasgada de tão gasta, de tão lida, de tão sentida.
Volto a guardá-la no fundo da gaveta onde a encontrei, embrulhada carinhosamente num lenço perfumado, com saudades de uma história que não é minha, mas que me dói como se fosse…


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Post.it: Ciência e mito


A espécie humana é curiosa por natureza, tem nos seus genes a angústia existencial de todos os porquês. Para sobreviver tenta a todo o custo construir um sistema minimamente coerente que dê inteligibilidade à sua vida. 
No seu eterno dilema a razão cria raízes sólidas na terra enquanto a emoção o leva a planos de ilusão ou talvez não. Sem se sentir verdadeiramente integrado num universo que lhe permita semear e colher sementes de esperança, o ser humano não consegue sobreviver. Ele tem de construir, de encontrar pontes, de estabelecer laços comuns com os que o rodeiam. É aqui que o mito encontra terreno fértil para se sedimentar, para ganhar força e sentido, para se tornar real. 
Mas também é aqui que a humanidade o desafia com as armas da ciência, com os argumentos da experimentação. Tanto o mito como a ciência tentam explicar o que existe, mas ambos são construções humanas, precárias, válidas enquanto mantiveram a sua coerência. São semelhantes, são opostas. 
A ciência desmitifica o imaginário, mas só por si não chega para encher a alma do homem, ávido de cores, de longínquo, de tudo o que ele tem no seu imaginário.
A inter-relação existirá? Certamente que sim, a ciência desconstrói o mito, mas precisa dele como ponto de partida na sua ânsia de verdade. 
A ciência é quase magia que se concretiza na experimentação e o mito será sempre uma aureola mágica da nossa ancestralidade, da nossa história, da nossa cultura.
Não pesquisem tudo, não descubram tudo, nãos destruam tudo, afinal, a maravilha da humanidade está na capacidade que tem de criar utopias.
 Porque na realidade mito e ciência não existem, apenas existe o homem. Esse ser construtor compulsivo de verdades científicas e sonhador impenitente de fábulas míticas.
Sem verdades a vida é uma eterna incoerência de dúvidas mas sem sonhos, a vida perece de tristeza.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Post.it: Vamos conversar


 Falar de nós, falar connosco.
Revelar o que somos,
o que desejávamos ser.
Para onde vamos. 
Onde paramos para ficar,
se a vida o permitir.
Podem ser curtas as frases
Podem ser longos os sentimentos.
Bem sei que não é fácil
falar por meias palavras,
e confessar inteiras verdades.
Bem sei que não é fácil confiar,
despir os medos, erguer a coragem.
Partilhar lágrimas,
repartir dores,
oferecer sorrisos,
como se fossem flores.
De uma primavera de outra era,
De um outono que espreita,
Pelas rugas do rosto.
Mas nada há a esconder
Não te vejo, não me vês.
Estou de pijama e tu talvez,
de traje de gala.
Cheiro a duche ainda fumegante,
e tu, talvez, a perfume francês.
Mas isso pouco nos importa
Nesta conversa, (bate-papo),
totalmente virtual.
Fica um abraço, por dar…
Fica um beijo, por beijar…
E depois o clic de desligar.
E a noite fica mais escura,
E a noite fica mais vazia.
Até ao próximo bate-papo?...

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Post.it: Sinto falta de tudo


Não sou saudosista, mas sinto falta de tudo: Dos primeiros raios de sol, das primeiras flores da Primavera. Dos cheiros da infância, da rebeldia da adolescência. Do nascer dos dias, do adormecer das noites. Do sabor das ondas, das folhas outonais, do nevoeiro silencioso. Dos suspiros de açúcar, dos suspiros do peito. Dos reflexos do olhar, da gargalhada cristalina, da lágrima solitária. Dos silêncios que dizem tudo, das longas conversas que não dizem nada. Do compasso das horas, da corrida dos segundos.
De ti e de mim, mas sobretudo de nós. Da imaginação com asas, da espera que é finita, da antecipação da chegada. Da alma aconchegada, da mão preenchida, do abraço apertado. Da certeza, do acreditar, do querer, do lutar e vencer. Dos passos que o mar levou, da chuva que o calor secou, da andorinha que partiu e não voltou, do sonho que no sonho ficou.
Sinto falta de tudo, tudo o que já vivi, mas sinto falta sobretudo daquilo que ainda, um dia, quero viver.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Post.it: As minhas raízes


Fui amiga de uma Oliveira, e ela foi minha companheira e confidente de fortúnios e infortúnios. Nesse tempo não tinha o mar onde afogar as minhas mágoas, apenas uma planície por onde se derramava o olhar e de vez em quando uma lágrima adolescente que ainda mal começava a desvendar os caminhos do coração.
Nos longos dias em que os desenhava nas nuvens para depois os seguir num sopro de vento. Poucas coisas entristeciam o espírito rebelde que se deleitava nas searas depois de ceifado o trigo. Poucas histórias toldavam a alma juvenil que se balouçava naquela velha oliveira que já não dava azeitonas, com uma sombra cada vez mais diminuta, com raízes a sair da terra, como se quisesse dizer “está na hora de partir” mas ficava. Ficava porque havia sempre quem buscasse nela algum consolo. Ficava porque não conseguia fechar os braços àqueles abraços que pareciam não ter outro alguém a quem abraçar, outro alguém a quem contar a causa do seu desgosto ou desabafar a sua secreta alegria, e que no seu tronco de uma resistência ancestral desenhavam corações com duas iniciais, talvez com fé de que ela lhes desse um pouco da sua perpetuidade, da sua solidez. Quantas dessas vidas cumpriram a esperançosa promessa, quantas permaneceram apenas nessa marca que o tempo não apagou nem as intempéries causaram alguma erosão.
Também eu lhe pedi para não partir, quando ela tentava novamente soltar-se da terra. E ela ficou até ao dia em que fui eu parti.
Não sei se ainda lá estará, na sua ilha de horizonte. Imagino-a protectora de outros corações no infinito ciclo de gerações.
Apenas sei que permanece em mim, com raízes de lembrança que nunca poderão partir.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

(Não) Tinha de ser


Tinha de ser,
Diz a estrela do céu.
Tinha de ser,
Murmura a estrela-do-mar.
Este amor não era para ser meu,
Este abraço não foi feito para me abraçar.

Tinha de ser,
Diz o vento ao surgir.
Tinha de ser,
Diz bem alto o luar.
Mas o coração não quer ouvir,
Nem a solidão aceitar.

Tinha de ser,
Diz o sol na madrugada a nascer.
Tinha de ser,
Diz o tempo impassível.
Porque nada pode acontecer,
Quando o acontecer é impossível.

Tinha de ser,
Continuam as nuvens a repetir.
Tinha de ser,
Dizem as marés a ondular.
E o amor acaba por partir,
Triste por não poder ficar.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Post.it: Hoje não me apetece escrever(te)


Hoje não me apetece escrever. Já tenho lido que isto acontece com todos, ia dizer, escritores, mas não me considero como tal, por isso, é mais correcto dizer que acontece a quem escreve. É a famosa branca, preguiça dos neurónios, vazio do sentir. 
Talvez seja bom descansar o pensamento, relaxar o olhar. Mas a verdade é que me inquieta esta quietude, ver a inércia da caneta sobre a mesa, angustia-me a visão da folha branca, magoa-me o vazio em que a alma se prostrou. 
Será um estado de longa duração, quiçá perpétuo? Será indício de doença, ou quem sabe de cura deste quase vício diário de escrever.
Depois penso em ti, como vais saber de mim se a minha escrita emudecer e o silêncio for a ausência de uma ponte entre as margens da nossa vida.
Tolice, vaidosa pretensão a minha imaginar-te em suspensão do meu alento de palavras. Como se tivesses descoberto que escrevo para ti, só para ti, estendendo um abraço neste encadear de letras mal ordenadas que ultrapassam a distância seja ela qual for.
Mas hoje não me vais ler, porque hoje não me apetece escrever, tenho o peito cansado deste frio, desta espera que me vai invernando o coração. Talvez acenda a lareira. Talvez me enrole num cobertor, talvez durma, talvez sonhe que tudo isto foi um sonho nunca perdi a vontade de (te) escrever.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Vazio de ti


Alguém chorando,
Água fonte de um rio
Imenso mar em corrupio.
Dores cantado,
Em gotas cristalinas.
Que parecem pequeninas,
Só um o peito magoado,
Conhece a sua grandeza,
Que lhe causa a tristeza.
E esse cais de ti vazio,
Faz-me para a eternidade,
Navegante da saudade.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Post.it: A eterna idade dos porquês


Costumam dizer que estamos na idade dos porquês. Porque queremos saber tudo. Porque questionamos todas as coisas. Não basta que nos sejam apresentadas dessa maneira, tem de haver uma justificação para tal. 
É uma fase de descoberta mas também de orgulho na curiosidade que revelamos, sentimos que demonstra sobre nós, inteligência e perspicácia.
Passamos por outra fase, também ela de porquês. 
Então questionamos, “Porque nada dá certo comigo?. Porque é que só me acontece a mim?. Porquê, porquê?” Depois de tanta lamuria em que nos deixamos cair, esse dramatismo magoado que não  espera  uma resposta, apenas desabafa e espera que surja uma solução milagrosa passamos à fase seguinte.  
Depois de muitos porquês começamos a concluir que  não há respostas concretas para os mistérios da existência. Já não é um questionamento de curiosidade mas de revolta, de incerteza sobre a obscuridão do futuro.
Por fim, evoluímos, amadurecemos, já não questionamos o mundo afinal parece que até  o mundo não quer ou não sabe responder-nos. 
Nesta fase com orgulho borbulhento de teenager, pensamos que  “Já aprendemos  as respostas, todas as respostas; o que não sabemos é a questão”. Mas isso pouco nos importa, sentimo-nos donos da verdade. 
Até que um dia, numa qualquer manhã que não marcamos no calendário passamos a sentir que mais importante que perguntar é saber que tipo de pergunta vamos fazer para obtermos a resposta que queremos ouvir. Porquê? Porque a inteligência que nos rege e o livre arbítrio que nos pertence ensinou-nos que só questionando a vida se aprender a vive-la. “Afinal ninguém nasce ensinado”.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Post.it: Que a memória não nos esqueça


Outro dia, fui visitar uma velha amiga. Considero-a assim, porque o somos há muito anos, mas simultaneamente uma jovem amiga, porque os seus 86 cultos anos, fazem-me sempre desejar, “quando for grande” ser como ela. Noutros tempos os nossos memoráveis lanches eram feitos nas pastelarias mais curiosas que descobríamos nos recantos de Lisboa, com scones fumegantes e um vasto buffet de compotas, sem esquecer a interminável lista de chás que nunca encontrei igual, um dia arrisquei a provar chá de fumo, não era mau, mas nada substituí o clássico Lúcia-lima. Mas a companhia era tão agradável que até trocava o meu vício de café pelo saboroso chá das 5.
Mas desta vez fui eu que levei o lanche em jeito de piquenique, porque a minha amiga já pouco sai de casa, a falta de vista, as dificuldades de locomoção, são para quem percorreu o mundo uma autêntica prisão. Restam-lhe as recordações, porque a memória ainda lhe é fiel e a generosidade de carácter não lhe rouba em momento algum a placidez e o sorriso.
Neste dia falava-me ela com a sua ternura habitual, de um acontecimento que lhe sucedera. “As coisas curiosas que a vida nos proporciona”. Dizia-me ela ao relatar que reencontrou uma amiga que não via há 70 anos e que curiosamente, sem disso terem conhecimento moraram perto uma da outra, frequentaram os mesmos lugares sem contudo se encontrarem. Só agora que outra amiga comum fez a ponte, retomaram o contacto. Avivaram memórias, riram, choraram das velhas histórias sentindo-as como se fossem novas. Um reencontro feito pelo telefone, porque agora que vivem a cerca de 15 quilómetros de distância uma da outra, elas que já palmilharam o mundo, não conseguem ultrapassar essa curta distância que se tornou pelas suas limitações físicas, uma imensidão quase intransponível. “Talvez um dia a minha filha me leve lá de carro”, diz num suspiro, com o olhar brilhante de esperança.
Esta história apertou-me o coração, e de repente dei por mim a questionar, de quantas amizades já me distanciei ou se distanciaram de mim? Será que as vou reencontrar daqui a 70 anos? Cresce-me uma angústia, uma saudade avassaladora.
Peço-te, estejas onde estiveres, não deixes que o tempo se entreponha entre nós e crie uma tão longa extensão, um dia, talvez, impossível de superar.
Não deixes que o silêncio seja uma fronteira e que a memória se esqueça de nós.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Post.it: Um lugar feliz


“Olho para o mundo, cada lugar onde não estou. Porque este, velho e gasto de tão palmilhado já perdeu o encanto. Aquele encanto que nos faz desejar torna-lo melhor, e lutamos, lutamos, plantamos árvores, atiramos sementes amor que não germinam, porque o temporal inunda a terra, numa avalanche de indiferença. Talvez seja tempo de mudar de rota, erguer a âncora, soltar as velas e procurar novos ventos de mudança. Mas as ondas riem-se de mim com gargalhadas de espuma. E num murmúrio de sensatez obrigam-me a entender que não há fuga possível, que a culpa não é do mundo nem dos lugares. Podia viajar pelo universo que continuaria a sentir que a nenhum local pertenço. Porque aquele de onde verdadeiramente sou está dentro de mim, na minha ilha de emoções. Na minha gruta de escuridão. Nos meus extensos desertos de solidão. Nas profundezas dos meus oceanos de tristeza.”
“Essa é a tua tristeza quando olhas para o mundo, eu  que olho para ti como se fosses o meu mundo. Não sei se te entendo, se te quero entender, magoa-me essa solidão que não preencho, essa tristeza que não alegro, esse deserto de que queria ser um oásis. Aproximo-me, construo uma ponte entre nós para que nem as margens marítimas nos separem. Mas vejo o teu olhar já noutros voos, mais longínquos, estendo um cordão de amizade que não apanhas. E vais, não sei para onde, digo-te adeus, e parto de ti com uma saudade que nunca chegou a nascer entre nós.”
 E porque tudo passa como as “águas de março”, haverá sempre entre nós, “um lugar feliz”.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Post.it: Vamos aboborar


Ouço cada expressão que me deixa (atónita), boquiaberta, estupefacta, perplexa, admirada, abismada, acho que já gastei todos os sinónimos da minha surpresa. Mas até gostei da expressão depois de a visualizar na mente. Do meu pensamento adquirir a forma rechonchuda, pesada, tranquila, forte. 
Algo que permanece no tempo, que amadurece sem pressa. E depois, há a sua cor, algo indefinida, sem ser vermelha nem amarela mas a junção de ambas numa combinação harmoniosa que conseguiu conquistar solidamente a sua autonomia. 
Mas em que se aplica a sua forma e a sua cor num exemplo de vida? Em que se assemelha no dia-a-dia stressante que vivemos? Talvez como um grande sábio do tempo, de que não vale a pena correr porque devagar também lá chegamos e com menos cansaço, ou com a aceitação feliz de que não somos únicos, nem o melhor, nem tão pouco o exclusivo, mas apenas um, entre tantos a construir o mesmo, a cumprir a mesma missão de viver. 
De ser apenas o degrau mas não a escada, de ser a gota de água mas não o mar, ser a pedra mas não a montanha, e assumir esse papel com a consciência da sua importância, grande ou pequena, mas sua parte essencial. 
E se não for agora, hoje, amanhã ou depois, será quando for, para nos dar tempo de  sentir a ternura do   vento, de observar a beleza da chuva, a luz do sol, a plenitude da vida. 
Se não lhe sentir o sabor, se não viver o prazer do instante, ele passará veloz e um dia ao olharmos para trás teremos deixado de viver os pequenos momentos em busca dos grandes que nunca o chegaram verdadeiramente a ser pela exigência das nossas expectativas. Então, passamos a repetimos frases cansadas, teorias esgotadas: “o tempo voa”, “A vida é breve”, etc., etc. 
Deixe aboborar, viva com calma sentindo o prazer dos dias, mas não ceda à tentação de murchar quando ainda pode florescer para uma nova primavera. 


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Post.it: A vida é um pássaro II


“A vida é um pássaro, agarra-se um e é-se feliz ou infeliz para sempre”, dizia-me um velho amigo, contador de histórias. “Porque os pássaros não devem ser agarrados nem aprisionados, têm voar em liberdade e livremente escolher o seu ninho”. E no entanto construímos gaiolas, e no entanto lançamos fitas de encantamento, julgando que podemos enclausurá-los no peito, por mais doce e terno que esse peito passa ser. “A vida é um pássaro e a sua beleza reside na sua independência, prende-o e ele esmorece”, insistia o velho contador de histórias. É verdade, perde o cantar, perde as penas, perde a vontade de abrir as asas, perde a capacidade de sonhar e nós,  que nos maravilhámos com o  seu voo choramos a sua tristeza e acabamos por deixa-lo partir. Percebendo que, a vida é um pássaro e por isso tem de voar.
“Dê a quem ama: asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar” (Dalai Lama). Porque, “Não há maior liberdade do que voar num horizonte qualquer e pousar onde o coração quiser” (Cecília Meirelles).
Mesmo que os nossos olhos fiquem perdidos  no infinito do céu, em busca de uma asa que nos ilumine a alma, quem sabe regressa, diz um suspiro que se esfuma no vento.
Entretanto, ocupa-se o tempo a escutar o velho contador de histórias, talvez algum dia ele nos conte aquela que queremos ouvir, a nossa, e lhe acrescenta  um final de voo com horizontes comuns.