sexta-feira, 28 de abril de 2017

Post.it: As companhias

As pessoas surpreendem-nos, chocam-nos, magoam-nos. Foi assim que reagi, com um destes sentimentos, talvez o menor, porque as notícias foram-me dadas a conta-gotas, como um medicamento que começamos com uma dosagem baixa, por não sabermos quais os seus efeitos secundários, só sabemos os sintomas da doença enquanto que os do tratamento, podem por vezes ser piores antes de começar a melhorar, antes de, com sorte, curar. 
Não soube como reagir, afinal já passaram 2 anos desde o acontecimento, mas soube-o agora,  magoou-me neste exacto momento, não como se tivesse passado tanto tempo, mas como se as palavras carregadas de hediondas expressões fossem neste preciso instante proferidas. 
 Não sei como reagir, zangar-me? Não parece ter sentido, nem sequer merece apena, pelo acontecimento e pela pessoa em causa. 
Acho que vou deixar passar outros tantos anos, talvez 20 e no entretanto, esquecer. Afinal já não faz sentido, aliás nunca fez, coisas que se dizem simplesmente porque as pessoas são pouco confiáveis, tanto as que por alguma razão que não compreendo, resolvem inventar coisas sobre nós, com até as outras que 2 anos depois resolvem contar essas “verdades”. 
O tempo e a erosão pessoal de cada um acaba por conferir a tudo outra dimensão, acrescentando-lhe um ponto, que se torna um conto, mistura inflamável de fantasia e rancor. 
As pessoas, são com que rios com águas, umas mais pacíficas, outras mais turbulentas, nem sempre chegam a formar tempestades, apenas insignificantes ondas de baixa auto estima que vão expandindo em círculos de má energia. 
Magoa-me porque deixo que me atinja no peito aberto e sem defesas, no sentimento crédulo de que as pessoas são necessariamente boas. Esqueço-me, demasiadas vezes, que as pessoas são o que são e que reagem por instinto básico às suas necessidades de sobrevivência. 
Magoa-me não perceber a sua dimensão, o seu mundo de interesses, a sua cadeia de conveniências. 
Mas também há surpresas, porque se me deixo magoar pelo inesperado, às vezes acontece o imprevisto, a humildade, a solidariedade, a credibilidade, por isso e apenas por isso, aceito as mágoas e faço delas um passo em frente. Tudo é caminho, as flores e os espinhos, o sol e a chuva, o cair e o levantar, o rir e o chorar, as chegadas e as partidas. Tudo é caminho acompanhados ou sozinhos, o importante é que nós sejamos a nossa mais agradável companhia.



segunda-feira, 24 de abril de 2017

Post.it: Liberdade sim...

Houve um tempo, demasiado tempo em que as vozes da liberdade combatiam  por entre sons de murmúrios. Havia medo, não das forças da autoridade enquanto forças de lei, que lhes dava mais incentivo, mais coragem,  mas da sua incompreensão e intolerância activa.     Lutava-se por causas justas, defendiam-se direitos de integridade, de legitimidade, de verdade, de liberdade. Queria-se ter o direito de dizer não e que cada sim fosse fruto de uma opção não condicionada.
Houve um tempo, lembro-me dele, mais pelo que me contaram do que por o ter vivido, ainda não tinha idade para compreender o que significava ter o espirito enclausurado, as ideias agrilhoadas, os sonhos acorrentados, os desejos presos condenados sem julgamento e sobretudo, sem culpa.
Houve um tempo que até era quase proibido rir, e com medo, riamos e chorávamos da nossa desgraça apenas nas quatro paredes do nosso lar.
Quarenta e alguns anos depois de acontecer o 25 de Abril, muito mudou, quase tudo mudou, ou talvez não.
Hoje tornou-se proibido proibir, e diz-se tudo, o importante e o que não interessa, porque há quem tem necessidade de falar gritando com palavras vãs, só para, talvez, ouvir mais alto que a voz dos outros, a sua.  Numa  “revolta” de tudo, ou apenas de não saber crescer com respeito pela sociedade onde vivem. Uma sociedade que talvez não os saiba abraçar, que  não os aconchega num leito de carinho, que  não lhes dá tudo o que desejam.
Mas, sempre assim foi,  a vida é feita de conquistas e não de direitos por nascimento.  Devemos-lhe respeito por todos os que a compõem  e sobretudo, respeito por nós que a pisamos, julgamos, condenamos esquecendo que ela é unicamente o  retrato de cada pessoa que a destrói em vez de a construir.
Hoje que há aparentemente liberdade para tudo, erguem-se bandeiras de alforria e aqui e ali rouba-se a liberdade dos outros, entram nas suas vidas, obrigam-nos a ouvir a sua “música” poluente dos nossos sentidos, aceleram nas estradas e atropelam-nos a vontade. Já não são as autoridades, são pessoas como nós, pessoas ávidas de si, indiferentes a todos os outros.
Precisamos,  não de outro 25 de Abril, mas de recordar os seus valores, de que liberdade ele nos trouxe. 
De homenagear os que pereceram ao lutar por ela, com respeito pela sua conquista, pela sua integridade e lealdade patriótica. Ainda há muitos direitos por conquistar, ainda há muita injustiça social, mas hoje, grita-se tão alto que já ninguém escuta. É preciso fazer silêncio para falar e para ouvir. É preciso fazer silêncio para que a liberdade fale em cada um de nós e nos una num todo de solidariedade, de humildade, de respeito, de maturidade e de plena humanidade.


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Post.it: Pequeno mundo

Sinto o papel a escrever-me nos dedos histórias que nem eu consigo inventar. E elas surgem detalhadas, precisas, cheias de vida, de vidas, da minha também. E nessa escrita apressada, há uma urgência de voz.
Por todos os silêncios que me ficaram calados ao longo do crescimento, da infância que de infância apenas teve o nome, a idade, porque sempre me senti adulta, na responsabilidade, nas tarefas, na exigência do parco existir.
Talvez por isso me tenha alimentado de fantasia. Até que um dia, as sensações, as emoções ganharam clamor e começaram a jorrar-me em cascatas oceânicas manchando de tormentoso azul o imaculado papel.
De repente, arrependo-me e num gesto aflito tento apagar tudo o que escrevi com a manga da camisola, mas a tinta derramada, insiste em permanecer e continua a estender-se em linhas que querem desenhar o infinito e ir para além dele.
Então, atrevo-me a sonhar, atrevo-me a voar e sou livre. Pela primeira vez sou criança sem idade, rio-me, sou inconsequente, nada temo, esqueço por um breve instante que sou uma vida sem sentido mas com uma direção, a de seguir, cumprir, obedecer, em silêncio de palavras, de olhares, de lágrimas. 
Mas isso é depois, agora permito-me ir além de tudo, do meu pequeno mundo, do quarto escuro, da sala de estar onde não tenho permissão para entrar sozinha, da cozinha que é o meu minúsculo pátio de recreio, contudo grande, imenso, para alguém que nunca aprendeu a brincar. Felizmente, aprendi a escrever e  com isso o direito e a liberdade de ser quem sou…

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Post.it: Onde vão dar os caminhos?

Andei por tantos caminhos na vida. Não sei se os escolhi se fui escolhida por ele. Não acredito no destino escrito com tinta de sangue e de lágrimas, idealizo que é desenhado com gargalhadas que fazem eco e chamam para si outras ainda mais felizes.
Claro que a felicidade não é eterna, mas o que é a eternidade para nós simples mortais?
Um minuto, em que olhamos o mundo e o conseguimos sentir com ternura dentro do peito?
Uma hora, em que o olhar é um veleiro de velas estendidas até à linha do horizonte oceânico?
Um dia, em que sentimos a plenitude a invadir-nos os sentidos como se fossem primaveras a desabrochar em cada molécula com flores de esperança?
Um mês, de coisas pequenas que crescem em nós como brisas que trazem cada amanhã repleto de sonhos que vamos concretizando?
Um ano, em que o paraíso dos impossíveis nos é possibilitado nos seus momentos únicos, nossos, tão nossos que quase, mesmo que por vezes apenas quase nos acontecem e parecem em tudo, perfeitos.
Mas tudo isto é apenas falar do tempo porque, a felicidade é uma delimitação imensurável, acontece, simplesmente, sem como, sem quando e, sobretudo, sem quanto. Faz parte do caminho, nem sempre daquele onde estamos, talvez, quem sabe do seguinte.
E depois de tantos passos dados, há tantos ainda que quero dar, não pela busca, mas por cada encontro, com flores, com pedras, com poças de água, pontes, montanhas, vales. 
Uma conclusão nos surge cada vez mais clara e reconfortante, apenas desejamos que todos os caminhos vão dar a uma familiar abraço…

segunda-feira, 10 de abril de 2017

À noite na praia

Na quase escuridão,
Só a brisa se sente.
O luar por iluminação,
A água em breve quente.

Na noite de quase verão,
As ondas vêm sombrias.
Murmurando a canção,
De esperanças vazias.

Com o areal despovoado,
Barcos a ranger de solidão.
O amor caminha abandonado,
Sem ter destino, apenas paixão.

Qual barco em terra encalhado,
E areal de mar quase despido.
Olha as estrelas esperançado, 
Que passam sem o ter percebido.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Post.it: Males necessários

Há dores que precisamos de sofrer não por masoquismo mas para perceber a felicidade que elas nos trouxeram. Controversa a ideia, afinal ninguém gosta de sofrer, pelo menos voluntariamente. Mas a verdade é que quando olhamos para trás contemplamos para essas dores com carinho, companheiras silenciosas dos nossos passos, avanços e recuos. 
Não nos deixam saudades, também é outra verdade, mas deixam lições que aprendemos com dificuldade, por vezes com recusa em encara-las, mas acabamos derrotados para um dia vencermos, dizem-nos vozes amigas com palavras que nos acariciam a auto-estima. 
Cada final por mais doloroso que seja, pode significar uma nova oportunidade, mas quantas oportunidades temos? Costuma-se dizer, que podemos ter uma segunda oportunidade, prefiro acreditar que temos todas, todas as que nos surgirem, todas as que construirmos, todas as que estejamos despertos e recetivos para elas. A vida está cheia de oportunidades, estão algures à nossa espera, desencontramo-nos de umas, mas há sempre outras para serem encontradas.
Claro que por vezes nada faz sentido e sentimos o destino perdido. Então paramos, tentamos encontrar o rumo da nossa história. F. Pessoa dizia que “somos autores da nossa história” e cada vida pode, talvez acrescentar; estamos de mão suspensa no tempo à espera de escrever o nosso futuro.
O sol brilha, é bonito, enche-nos de luz e de energia, de sorrisos, de planos para o convite do dia em ser plenamente vivido, sim; mas o sol também queima, magoa-nos a pele, encandeia o olhar. A noite é escura, mesmo nos dias de luar, a escuridão é má conselheira com ela tudo nos parece maior e mais doloroso nada, mas só na escuridão conseguimos ver as estrelas. Porque nada mas mesmo nada é inócuo de bom e de mau, é preciso em cada situação, em cada ferida aberta, encontrar a medida certa, o equilíbrio, a harmonia para a receber, para a curar, para a tornar menos dor e mais, cada vez mais, amor.
E lá volto a “ouvir” as palavras de Pessoa “Pedras do caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo”, tantos castelos que vejo por aí, alguns tão majestosamente erguidos, outros ainda em construção. Quero acreditar que o meu, um dia, terá a dimensão manifesta de tudo o que sou, espero, então, sentir-me grata por cada uma dessas pedras, reconhecendo a sua, talvez dolorosa ajuda, para criar  o caminho que me trouxe até ao que sou.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Sala de espera

Espero, da chamada nem sinal
Muitos outros me fazem companhia
Que na sua conversa banal
Trazem-me tristeza, dão-me alegria.

A campainha do painel, impertinente
Num tilintar que mais parece furioso.
Ou é a mim que irrita o som insistente
Parece correr mas é sempre vagaroso.

Não me chama e eu em espera,
Não vislumbro o grandioso momento
Em que hinos de gloriosa quimera
Poem fim ao meu perpétuo tormento.

Algo começa a gritar-me aos sentidos
Sai daqui, porque não te vais embora?
Vou arranjando uns nãos mal fingidos
Para combater com firmeza a demora.

Tento, a tensão não me deixa ler,
Quem sabe jogar no telemóvel.
Sem o tempo conseguir vencer, 
Torno-me da sala mais um móvel.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Post.it: As manhãs

Que palavras madrugantes me fazem erguer e ver o sol, cumprimentar a chuva, não sei, na verdade não as ouço, mas sinto-as a vibrar em cada célula do meu ser. Então corro, talvez já não tanto quanto corria noutros tempos, também já não tenho razão para isso, a vida espera-me em cada recanto, em cada esquina de uma rua, já não preciso de ir à procura dela. Não tenho mistérios para procurar, nem  curiosidade sobre o amanhã, tenho o hoje e vou vive-lo até ao último segundo da décima segunda badalada.
Instalei-me na rotina, talvez seja errado, mas sabe-me bem, como se fosse um sofá que já conhece cada curva do meu corpo e as contorna, acaricia e aconchega, é difícil sair desta área de conforto, sinto que a mereço, que a conquistei em batalhas ganhas e perdidas. 
Mas no final percebi que nada nem ninguém merece ser-me uma guerra, então sorriu, o sorriso é a única arma letal que agora uso para enfrentar as intempéries humanas, porque o hoje tem de adormecer tranquilo, sem motivos que me impeçam de sonhar, de acreditar que tudo se resolve e que não há dor alguma que valha apena causar ou sentir.
O sol volta a brilhar, a chuva volta a cair, o vento a chegar, a terra a florir e eu, simples pessoa, feliz por te ser anónima deixo-me navegar pela tua curiosidade, um olhar que tem palavras que não quero ouvir. Prefiro o edílico platonismo de cada encontro, e neste jogo de adivinhas, idealizo-te em voos de asas estendidas que desenham no céu hieróglifos modelares do coração. 
Sim porque só ele, o coração, consegue murmurar com voz de cânticos estivais, as palavras madrugantes que nos fazem acordar e continuar a sonhar deslumbrantes realidades.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Post.it: As visitas

Este fim de semana estive com os meus primos, há quanto tempo não nos encontrávamos? Há muitos. Não questiono as razões, já há muito que saí da idade dos porquês, prefiro aproveitar o momento presente sem questionar o passado. Claro que há culpas que nos ficam desse silêncio que o tempo no seu passar causou. 
Mas quando há amizade, afecto, o tempo não cria distância, talvez pelo contrário, as saudades tornam-se beijos e abraços repetidos e as novidades boas são muitas, as más, felizmente poucas.
Uma priminha casou, já tem um filho com quase um ano, lembro-me dela, era ainda uma menina. A outra já vai no segundo filho, é lindo loiro com cara de anjo e sorriso traquinas. 
Os pais vão envelhecendo, a doença torna-se uma presença quase constante, entristece-me, entristece-nos, tanta alegria, jovialidade de repente roubada pela violência da falta de saúde. A morte, sim também a morte foi notícia, uma notícia má, a pior, recente, sobretudo para quem a recebe inesperadamente.
A prima Conceição, partiu há 7 meses. Lembro-me dela, era a “festa” em pessoa. Enchia uma casa, a sua onde eu entrava e era recebida com “desaforos” algarvios, mas eram de alegria. Na minha casa onde vinha de quando em quando de repente havia uma luz mais luminosa, uma musicalidade de vozes.
Na casa da sua irmã em Sesimbra, aí então, eramos muitos na mesa comprida, mas nada parecia longe, e todos estávamos em harmonia familiar. 
Partiu, não, ficou! As pessoas que nos alegraram, que amamos, que nos amaram, ficam para sempre num recanto de nós. 
O seu marido parece uma vela apagada, caminha triste, devagarf, como quem não tem rumo, “faz-me falta”, foram quase 50 anos de casamento, quase porque faleceu um dia antes de os completar. 
Olho para os meus primos, vejo como estão, lembro-me de como eram, não se trata de alterações no corpo, na face nem os cabelos mais brancos ou a rarear, trata-se do brilho do olhar que lhes fugiu, trata-se do sorriso que empalideceu.
Então concluo, não importa no que nos tornamos, mas o que vivemos, isso permanece em nós. Permanece neles, apesar dos pesares, vejo-o no meu primo Zé Maria, que me ensinou a dançar quando eu tinha 10 anos, tinha vindo da praia com  um escaldão nas costas e nem a sua mão a tocar na pele queimada me doeu  tal era a sua delicadeza, tal era a minha alegria por estar a “dançar” porque realmente sempre fui um pouco “pés de chumbo”, de tão trapalhona, mas ele ria e pacientemente, ensinava-me. Apesar de ter sido um bom professor, confesso, não fui boa aluna.
Gostei de ver os meus primos, mesmo com as partidas, há sempre as novas chegadas para tentar compensar. É o ciclo da vida e aprendizagem que cada um faz dela, aprendi, continuo a aprender. 
A vida é para ser vivida ao longo do seu caminho, pode ser uma boa companhia depende de muitos factores, inclusive da forma como caminhamos também com ela.


sexta-feira, 24 de março de 2017

Verdades

Dantes fingia-se,
Gostava-se de toda a gente.
Dantes fingia-se,
E viva-se assim contente.

Hoje é-se verdadeiro,
Fria realidade.
Hoje é-se inteiro,
E vive-se sem amizade.

Porque a verdade,
É pico de roseiral.
Pétala de sinceridade,
Haste que nos faz mal.

Dizem é mau fingir,
Mas é bom sorrir.
Mesmo que a fingir,
Ou até sem sentir.

Um sorriso é abraço,
Um sorriso é solidariedade.
Encurta-nos o espaço,
Confere-nos humanidade.

Troca-se tudo pela ilusão,
Em nome da sinceridade,
Que parece dar ao coração,
Incerta e aparente liberdade.


segunda-feira, 20 de março de 2017

Post-it: Bem vinda Primavera

Todos os anos me surpreende a chegada da Primavera, pela gentileza das suas flores, pelo aroma da terra, pela luz do seu céu, pela festa dos pardais, pelo voo celebrante das andorinhas. Tudo isto e muito mais no oferece esta estação do ano, depois de um inverno fustigante e frio, depois da nossa pegada humana pisar com indiferença cada flor em luta para sobreviver às intempéries, à poluição e à inundação do betão citadino.
A Primavera com a sua vontade de florir, de renascer espreita primeiro sorrateira, depois, quando damos conta, está em cada recanto, até mesmo naqueles em que nos parece impossível aparecer. Deslumbra no seu colorido, com tons que os mais famosos pintores tentaram reter na tela sem o conseguir na sua totalidade, porque a natureza tem tonalidades inigualáveis. Tem formas únicas, aromas ímpares, suavidades próprias.
A primavera que também nos acontece quando o coração descongela do frio emocional. Quando o olhar se enche de cores de esperança, quando aqui e ali nos renascem sonhos floridos, quando os pulmões inspiram aromas já esquecidos.
“Todos os verões hão-de arrefecer nos ventos marítimos, todos os Outonos hão-de partir nas folhas amarelas, todos os  Invernos hão-de ser apenas o caminho para a Primavera sorrir”.
E mesmo “Que o inverno me cubra a cabeça a eterna Primavera vive no meu coração”.
Por isso, “Não me falem do aproximar da velhice, mas apenas de Primaveras antigas”.


sexta-feira, 17 de março de 2017

Post.it: Sabe-me bem ler-te

Gosto de te ler, mesmo que sejam apenas umas poucas linhas, umas poucas frases, algumas poucas, palavras. Leio-te, releio-te. Encontro as tonalidades da escrita, os diferentes sons que parecem mudar, enriquecer-se a cada leitura.
Ouço-lhe risos, sinto-lhe abraços. Por vezes até lhe encontro uma lágrima caída na perna de uma letra que discretamente se aninha na outra, como se se quisesse esconder, uma pequena gota de água, incauta, e fugidia, mas que se revela na sua timidez envergonhada.
 Olho-a, sinto-a, quase, apenas quase que a recebo nas minhas mãos, com o carinho de quem percebe e compartilha de tal mágoa.
Mas nesse momento, também eu escondo na mais displicente vírgula, quem sabe escorregue e se afogue na branca folha, já não de papel.
Estamos noutra era, dizem os entendidos, que assim seja, pouco importa se os tempos mudam desde que os sentimentos continuem a aflorar com melancólica alegria, com melódica tristeza, é isso que nos define humanos, verdadeiros no sentir mesmo que escondido, disfarçado nos espaços entre linhas, encoberto na ténue união das letras, camuflado no sentido das palavras.
Por isso, gosto de te ler, de te encontrar, em cada linha pintada de sentidos furtivos, de devaneios ocultos, de sonhos secretos.
Gosto de te ler, mesmo quando as palavras demoram, é sempre com alegria da chegada que te recebo. É suave a dor da espera, a ansiedade pela antecipação de algo bom que vamos receber. Pode ser uma missiva curta, um diálogo sem grande conteúdo, mas que importam os grandes lirismos repletos de artificiais sentidos? Basta um olá, de letras pequenas, redondas, carregadas de amizade, carinho, ou apenas de atenção, respeito, admiração. Olá, respondo, Olá? Pergunto, como estás, quero que estejas, onde estiveres, estejas muito bem.
Aí a minha imaginação, aí o meu incongruente coração. Fantasias da solidão? Talvez, quem sabe. 
Só sei dizer que me sabe bem, ler-te…

segunda-feira, 13 de março de 2017

Post.it: As nossas nuvens cinzentas

Ainda o inverno mal se acomodou sobre a terra ainda ávida das suas águas, já primavera ressoa nas vozes que a esperam com braços de abraços de flores e andorinhas. É o tempo  a voar-nos num sopro de vida, e nós incautos sonhadores de pensamentos ao vento, deixamos que nos roubem momentos em que queremos apenas aprecia-los,  senti-los, vivê-los como se tudo parasse e nada tivesse pressa de chegar a algum lugar por longe que seja, por necessário que fosse lá estar em breve.
Assusta-me a primavera, este cheiro respirante de flores que começam a exalar e ainda são apenas botões que não se adivinha a espécie colorida que vai emergir.
Em breve será verão, os sorriso das crianças que se lhes desenha no rosto, fala de férias, de manhãs tardias, de noites longas,  mergulhos na praia, as corridas na areia, anseiam por despir as camadas de roupa e libertar a pele do jugo do frio.
De repente, abraço-me à camisola felpuda, mergulho no quente dos cobertores e sonho que o tempo é a infinitude da vontade de cada um e eu quero, que o inverno seja lento e aconchegante no seu passar, não tenha pressa em regar as flores, em soprar para longe as nuvens e o nevoeiro que nos acalenta.
Sim bem sei que cada estação vem na sua data, que tudo acontece no tempo certo indiferente ao nosso tempo, mas gosto, acreditem que gosto do inverno. Essa estação do ano incompreendida, mal amada, mal resolvida por sentimentos sombrios. Porque quem tem luz no olhar, não são as nuvens cinzentas que vão escurecer o seu céu de esperanças esvoaçantes, de sonhos cantantes.
Não culpem o inverno das vossas dores, da vossa tristeza, quando são vocês, apenas vocês que são tristes.
Afinal não é o verão que os vai animar, que vai curar as vidas magoadas, queixam-se do calor, que sufocam, anseiam por ventos e marés, pelo assentar da poeira das estradas e dos passos cansados.
O tempo, leva sempre com as culpas, as nossas culpas, porque nos foge, porque não nos leva no seu voo em direcção ao infinito. Prossegue a sua marcha sem que consigamos calçar os seus sapatos.


sexta-feira, 10 de março de 2017

Soneto do desencanto

Era a cidade,
Era o sol.
Era a saudade,
Era um rouxinol.

Era a praia,
A onda quebrada.
O vento na saia,
O cheiro a madrugada.

Era o horizonte,
Era tudo tão longe,
Que se tornou ponte,

Para unir o nosso recanto.
Era o amanhã, era o hoje, 
Mas só ficou o desencanto.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Post.it: Placebo

“Sempre tive muita imaginação e devido a isso sou uma pessoa feliz”. Eis uma frase que me disse muito, claro que para isso tive de usar a imaginação e tal como a autora dela, felizmente também tenho muita o que algumas vezes me tornou uma pessoa feliz.
Quando era criança, imaginava os brinquedos que não tinha e brincava com eles horas infinitas. Um dia resolvi levar a imaginação mais longe e imaginei que tinha os pais perfeitos e na minha imaginação, foram-no.
Como deu resultado, continuei a imaginar e imaginei a irmã perfeita, os amigos perfeitos, as relações perfeitas, os empregos perfeitos, os colegas perfeitos, os chefes perfeitos. E o meu mundo, era dentro da minha imaginação, perfeito, quase sólido, quase palpável e com algum, por vezes muito, esforço, quase verdadeiro.
No yoga aprendemos, com muita prática, que os pensamentos podem ser mudados, orientados e que o cérebro aprende a acreditar que são autênticos e por isso relaxa e envia mensagens de positividade ao corpo. Desaceleram-se as células, distendem-se os músculos, pacifica-se o coração.
E isso resolve? Não. E isso cura? Não. Mas tal como um placebo, atenua os efeitos do problema. Só é preciso acreditar que o placebo é afinal o medicamento certo. Que tem nele a dose certa de esperança, com uns pozinhos de ilusão, outros tantos de confiança ao qual se acrescentam alguns de expectativa e sobretudo muitos, mas muitos mesmo de ousadia e de desejo.
 Depois, temos que acreditar, acreditar bastante, diminuindo as nossas exigências, baixando o nosso índice critico. Aprendendo a aceitar sem recriminar. Cada um é como é. Só a nós podemos mudar para caber na imaginação dos outros, porque também eles querem, filhos perfeitos, pais perfeitos, amigos perfeitos, empregados perfeitos… 
No fundo tudo se resume à dose certa de imaginação, terreno fértil para as nossas verdades, jardins onde um dia colheremos, quem sabe, botões de felicidade.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Post.it: Dias de chuva

A chuva, coitada, mal amada, rejeitada por ventos e marés. É a culpada de tudo, da subida das águas, da correnteza dos rios, das ondas dos mares, das poças que um carro ao passar levanta e nos  banha, de nos deixar molhadas encharcadas até à alma. A chuva que leva com as maiores culpas, com todas aliás, até a de solidão, porque nos isola dentro de casa, porque nos impede de ver além dos pingos, entristece-nos, sufoca-nos com o seu barulho ao cair sobre as pedras da calçada, das goteiras, batendo nos carros, nos vidros da janela.
Sim a culpa é da chuva, porque nos sentimos assim, como se nos chovesse por dentro. E no entanto, confesso, já fui muito feliz em tantos dias de chuva, em que chovia lá fora, mas aqui, dentro do peito havia um sol radiante. “O tempo de fora não conta quando é verão dentro de nós”.
É verdade que quando o céu fica cinzento, como se fosse um espelho reflete-se em nós e os nossos olhos incapazes de brilhar por si só, ficam também eles cinzentos, murchos, tristes. Uma tristeza que vem do horizonte, que nos entranha pela pele, que nos chega a todas as células de energia anímica.
De repente, somos nuvens carregadas de mágoa. De repente, somos vidas carregadas de um vazio que nos pesa toneladas, de uma solidão que nos invade os pensamentos, os sentimentos. Mais uma vez, pensamos, desejamos, que a culpa seja da chuva.
Mas não é, neste caso, não é. Porque a solidão não é viver só, a solidão é sermos capazes de fazer companhia a nós próprios.
E a chuva, quer queiramos, quer não, faz-nos companhia. Rega as plantas e os campos, enche barragens para termos água e energia, lava as ruas, lava a poluição do ar, enche os rios, os mares para ser caminho de barcos. 
É tudo uma questão e se ver com o olhar límpido, com o coração leve, com um sorriso. Se chove, vamos dançar com a chuva mesmo que com o guarda-chuva aberto.

quarta-feira, 1 de março de 2017

O lar das memórias

Que bom é ser-se velhote,
A quem tudo é desculpado.
Ser recebido até sem dote,
No “lar” de regime fechado.

À noite ressona um vizinho,
O estranho que se torna amigo.
Porque não me deixa sozinho,
E partilha os seus dias comigo.

Quando as nossas memórias,
Começam a contar histórias,
Por vezes de mera confusão,
Que o tempo tornou perdão.

Talvez com alguma verdade,
Ou num misto de invenção.
Mas crescem em saudade,
E nos embalam o coração.

Amores quiçá, sonhados,
Só em nós concretizados.
Quando a ideada felicidade, 
Nos preenche a realidade.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Post.it: As nossas guerras

“Ando na guerra”. Foi assim que uma amiga descreveu os seus dias, uma luta constante e quando a noite chega, soma batalhas ganhas e batalhas perdidas, porque uma vez é-se vencido outras vencedor.
No dia seguinte retoma a actividade, veste a armadura, ergue o escudo, empunha a espada e vai para a “guerra”. A sua “guerra” necessariamente diferente da de cada um, embora desse cada um, alguns, entrem directamente no seu confronto bélico de emoções, de tentativa de soluções para os problemas diários. Porque algumas dessas batalhas são mesmo diárias, a escola e os filhos, a doença da mãe, o marido, os colegas, os chefes, os amigos, os vizinhos, o homem do café, o do talho, da caixa do supermercado, o da bomba de gasolina, os das filas de trânsito. As suas/nossas pequenas e grandes lutas.
E à noite continuamos a enfrentar contendas que por vezes nem são nossas, as dos filmes, das telenovelas, dos telejornais, está na hora de mudar de canal e ver apenas o Canal Baby, porque até o canal juvenil conta histórias demasiado violentas de guerras entre o bem e o mal. Talvez o melhor seja desligar a tv por completo, acender o computador, entrar no facebook verificando que também ali há “guerras” informativas, desinformativas, cusquices, gargalhadas que tentamos mas que já não conseguimos dar. Ou escolher o tablet, jogar um jogo que não nos derrote, mahjong, tetris, candy crasch, desisto já perdi em todos eles. Talvez um livro, um romance com final feliz, mas que até chegar a esse prelúdio, quantas batalhas se travaram, quantas derrotas se somaram… 
Chega! Já tenho as minhas, as tuas, não quero ter também as vossas. Nada como fechar os olhos, dormir, quem sabe sonhar sonhos que não sejam de lutas travadas ou por travar. Que sejam de encontros, de sorrisos, de abraços, de conversas amenas, de plácida natureza, de calmo mar, de dias solarengos, de nuvens brancas, de chuvas deleitosas, de brisas aprazíveis.  De paz, serena e longa, eterna nos dias, nas horas em que precisamos de a encontrar dentro de nós.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Somos metade da realidade

 
Somos 20 por cento de ira,
Por 80 por cento de perdão.
Quando a saudade nos tira,
O ímpeto da mais forte razão.

Somos 70 por cento de água,
Somos 30 por cento de rio.
Somos muito por cento mágoa,
E outro tanto de ser solitário.

Somos 50 por cento coragem,
Somos 50 por cento de ilusão.
Vivendo numa eterna viagem,
Que vai do olhar ao coração.

Somos 100 por cento de destemor,
Somos 100 por cento de esperança.
Uma grande percentagem de amor,
Em mistura de felicidade e lembrança.

Mas da nossa efémera realidade,
Desta inconstante humanidade.
Só conhecemos na verdade,
1 por cento ou apenas metade.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Post.it: As rosas de Malherbe

Apenas o momento basta, esse, onde cabe todo o tempo do universo numa só sensação, numa só emoção. Quando se vive uma vida inteira em busca do que nos completa, do que nos torna seres melhores. Quando se vive na esperança de se ser feliz, uma felicidade que seja eterna, numa eternidade sem tempo exacto, uma vida, um ano, um dia, o tempo de ser como as Rosas de Malherbe que só vivem (uma breve manhã). 
Mas mesmo que sendo curta a felicidade,  parece ainda assim difícil da encontrar, para muitos impossível de alcançar, de conhecer. Resta o sonho, resta a espera, resta a vida nas suas marés de mares que elevam ou afundam, que libertam e sufocam. Restam as primaveras coloridas, restam as rosas, mais duradouras que as Rosas de Malherbe. No entanto  o nosso olhar, por vezes tão ávido de paisagens longínquas, passa sem ver a beleza do que nos está perto. A felicidade que está no mais simples gesto, no mais doce rosto, no mais terno sorriso. Que nos surge escondida no silêncio e nós não o escutamos, não sentimos de tão inundados que estamos de palavras vazias à espera que se encham do que queremos escutar. 
Quando bastava todo o tempo perdido, todos os momentos esquecidos, tudo o que distraídos não observámos, tudo o que desvalorizamos, tudo o que diminuímos, tudo o que não quisemos por ser pouco para o tanto que ambicionávamos ter. Acabamos tantas e tantas vezes por termos tudo e continuamos a lamentar o que não temos. 
Se ao menos fossemos simples Rosas de Malherbe aproveitando, vivendo a longa e terna manhã, ensolarada de chuva,  inundada de luz, com ventos que nos dançam suaves nos cabelos e tudo o resto fosse um suspiro feliz de quem inspirou a emoção de ter vivido.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Post.it: Com medo do infinito

Tenho medo de me perder, perder na estrada, no caminho, na vida, no destino. E tenho medo porque me perco facilmente e demasiadas vezes. Sigo para a esquerda quando devia ter seguido para a direita. Admiro aquelas pessoas que se perdem e não temem esse perder, dizem com a maior confiança “hei-de ir dar a um lugar que conheço”. Mas eu, sei que nunca vou dar a um lugar que conheça, porque a dada altura, tudo me é estranho, novo, assustador. Simplesmente porque o observo por outra perspectiva, de outro lugar ou porque é noite e à noite tudo é escuro, desconhecido, quase tenebroso.
Comprei um GPS, coloquei-lhe um destino e fui, ultrapassando o medo e a dúvida de conseguir chegar, mas perdi-me de novo, agora não foi culpa minha, garanto, mas de algum satélite mal ajustado, talvez também ele tenha problemas de orientação no céu onde tudo parece igual e é infinitamente diferente.
Não desisti, procurei amigos que soubessem o caminho e fomos, eles sem rumo, eu acreditando que o tinham, perdemos-nos, algures na vida, algures no tempo, algures num lugar, num momento. Não os culpo, já basta de culpas. São opções, certas ou erradas logo se verá e quando se vir, vivemos bem ou mal com as nossas escolhas, um dia serão apenas histórias. 
Até ao dia em que por labirintos onde gosto de me perder, me vá encontrar, descobrir. Desenhei-me em mapa com traços do olhar, quase auto-retrato, quase metáfora de existir. Procurava longe o que estava aqui, por isso ia e me perdia. Percebi finalmente que não era perder que me fazia ter medo mas o próprio medo em si, então perdi-o e fui eu por inteiro, longa, inteira, intensa, Como se eu fosse feita de quilómetros, numa via rápida onde vou perdendo as saídas mas ganhando cada vez que me atrevo a entrar e a encarar a multiplicidade do horizonte infinito.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Post.it: Como se fosse ilha

Gosto de pensar em mim como se fosse uma ilha, não de solidão, mas de contemplação. E essa ilha tem um lago onde descansa a rebeldia dos verdes anos. E essa ilha tem um riacho, pequeno  e suave para transportar todas as minhas pequenas mágoas. Já foram grandes, ou melhor assim as considerei, mas o tempo  e a distância as tornaram minúsculas, quase insignificantes. 
E essa ilha tem uma vasta praia  de fina, branca e fofa areia para tornar mais fácil o caminho dos meus passos por vezes cansados. E essa ilha tem um mar com marés que em outros tempos fugiam mas que agora apenas regressam e adormecem aconchegadas por ternas e densas dunas.
E essa ilha tem árvores repletas de brisas que já não se deixam invadir pelos ventos tempestuosos de pessoas que nos querem devastar o corpo e a alma. E essa ilha tem um farol, não para que me encontrem nela, mas para que eu nunca me perca dela, da sua paz, da sua conciliação com o universo que a compõe. 
E essa ilha tem um cais ansioso por me receber, por me aconchegar em braços de mar, em beijos de terra, em sorrisos de céu. E essa ilha tem silêncio, como se fosse um vulcão que engoliu todas as palavras, por serem demasiado agrestes e deixou no ar não uma sensação de  vazio mas antes de plenitude. 
E essa ilha tem um segredo, uma paisagem interior que guarda, que é, quem sabe, o seu paraíso secreto.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A Obra

Toda a obra é imperfeita.
Toda a obra nasce por fazer.
Quando a curiosidade espreita,
Um olhar que quer nascer.

Coisa que ganha forma,
Coisa que ganha sentido.
Molde que a desenforma,
Limite por vezes sofrido.

Asas, precisa de asas,
Não só para poder voar.
Asas, desenhem-lhe asas,
Para conseguir sonhar.

Depois quando for velhinha,
Obra tosca e inacabada.
Que o seja, mesmo sozinha,
E na sua imperfeição amada.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Post.it: O desencantamento do Natal

O que fica do Natal? Por vezes pouco mais que caixas de cartão rasgadas, de papéis coloridos estilhaçados, de brinquedos velhos deitados para a rua porque os novos tomaram o seu lugar. As luzes das ruas que se apagam, o pinheiro arrancado da terra jaz sem raízes tombado nos recantos da cidade. As pessoas voltaram a olhar apenas para o caminho e já não uns para os outros.
O Natal acabou, temo mesmo dizer que em alguns lares, em algumas vidas Ele simplesmente não aconteceu, porque embora tenham cumprido o seu ritual de compras, de troca de prendas, ou enfeitar da casa e da mesa, não receberam nos seus corações. Limitaram-se a “ir na onda”, a procurar satisfazer vontades próprias. Foi apenas uma festa, à qual faltou o festejado. A história de um menino que nasceu em Belém, torna-se longínqua, ténue na lembrança, coisas de criança, dizem. Agora é mais o Pai Natal e todos sabem que ele não existe, que não desce da chaminé nem recompensa os meninos bem comportados. E depois, já nem somos meninos, somos adultos, temos deveres, muitos, cada vez mais deveres. Sufocamos nos impostos, perdemos-nos nas burocracias, consumimos-nos nas rotinas de um ano inteiro e depois chega a um dia em que é Natal e querem, ou melhor esperam de nós, que sejamos apenas humanos, que revelemos a verdade do que somos, a criança que ensinámos a não chorar, a lutar para vencer e conquistar o seu lugar ao sol.
Não é fácil, tentamos, despimos cada camada defensora com que vestimos os dias, com que revestimos de apatia os meses e revelamos pouco a pouco, com receio de cada olhar mais crítico, a nossa alma pura e ainda crente na humanidade, sociável, solidária, tolerante, generosa, capaz de erguer presépios em cada lar, de aquecer com amor as palhinhas de um menino que embalamos e que nos embala o coração. 
Porque apesar desencantamento do Natal, do consumismo, da tecnologia, da cibernética, etc, etc., algures em nós há um Natal ansioso por nos nascer e se manifestar, na maior parte das vezes só surge em Dezembro, mas a história está replecta de Natais que acontecem quando menos se espera, quando alguém sorri para o outro, quando lhe estende a mão, quando partilha a sua sorte com quem não a tem. Heróis do nosso tempo, Pais Natais que nos chegam sem ser de trenó, Menino Jesus que se aconchega dentro de nós para se revelar na ocasião em que mais seja necessário e nem sequer precisa de ser Dezembro, basta apenas que seja Natal em qualquer momento do ano.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Post.it: O encantamento do Natal

Ainda a falar do Natal? Já quase vos adivinho a cansada surpresa, cansada porque ainda estamos mal recuperados do preparar a festa, do durante e agora do depois.
Ainda o Natal, sim, porque não? Se o Natal pode e deve ser todo o ano, e deve sê-lo na solidariedade, na partilha, na atenção e no cuidado que devotamos aos que amamos e aos que nos são desconhecidos mas que precisam do nosso auxílio, uma moeda, uma sopa, um cobertor ou até um cigarro para quem não suplanta o vício seja em que situação for.
É este o encantamento do Natal, não somente as luzes que iluminam as ruas e as nossas casas, mas também as que nos iluminam o coração para que possamos sentir melhor o que se passa à nossa volta. Não só as iguarias típicas da festa que nos adoçam a gulodice mas sobretudo aquelas que partilhamos com quem não as tem não só por dificuldades económicas mas também por motivos de saúde. Um Natal que é feito pela presença da família em redor de uma razão maior, a memória de um amor grandioso que se propagou pelo mundo e o juntou numa só fé, a do amor ao próximo. Uma família que pode ser feita por laços de sangue, por laços de amizade ou simplesmente por laços de generosidade aos que estão à nossa volta. Mas há ainda as prendas, ai as prendas que tantas dores de cabeça nos dão, para tentarmos agradar a todos, para chegar cada ano a mais. Prendas que não têm de significar coisas que embrulhamos para surpreender e receber em troca um maravilhado sorriso, as prendas mais importantes são as que não cabem num embrulho; a presença, a visita a um amigo, familiar, a um doente, a um vizinho solitário, dando-lhe apenas um sorriso, um momento de atenção, uns instantes de companhia. Pequenas coisas que têm tão grande valor, prometemos que vamos tornar a fazê-las durante o ano, não cumprimos, mas no Natal, recordamos a promessa e já não queremos adiar mais a vontade de partilhar e receber a dádiva da gratidão. 
Quando vem Janeiro, e a festa termina, tiram-se os enfeites, despem-se as ruas do seu colorido, há uma tristeza que nos invade, inconfessada, escondida, quase magoada de tão enternecida, é a saudade do Natal não do que se foi mas do que nos fica no peito, órfão de momentos que o tornam feliz na dádiva da humanidade a que nos orgulhamos de pertencer.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Post.it: Olá

Ouvi no rádio do carro quando vinha para o emprego, que hoje é dia de falar com quem não falamos há muito tempo. 
Para obedecer há “tradição” aqui estou, escrevendo, “falando”.
E de várias pessoas com quem não falo há muito tempo escolhi-te.
Porque tudo na vida, ou quase tudo, são opções.
De entre as pessoas que não falo há muito porque perdi o contacto, porque perdi a vontade, porque perdeu o sentido, porque se perdeu a amizade, porque nos perdemos voluntariamente ou por obra do acaso; outras há que sabe-se lá porquê, não as perdemos da lembrança, talvez porque tenhamos ainda algo de que falar, algum assunto para descobrir, alguma razão para sorrir. Não sei, não importa, só quero dizer um “Olá”. Não um desses  "olás" acenados ao vento e que nos voam sem nos tocar, não desses lançados apressadamente por entre os pingos da chuva e que acabam afogados nas poças de água na rua do esquecimento, ou ainda esses outros apenas murmurados de tão estranhamente arrancados à nossa vontade porque a boa educação o exige. Não é nenhum desses cumprimentos que quero aqui deixar e que me apeteceu neste dia oferecer. E lá dirás, que me lembrei apenas porque algo me obrigou a isso, tipo cumprir calendário. Talvez tenhas razão, mas não importa como um gesto começa, o importante é o que ele transporta. Neste caso, transporta, um breve, simples, despretensioso, atencioso e até afectuoso “Olá” desejando que hoje tenhas um de muitos dias felizes.
Oferece-me um "Olá" se te apetecer, ou oferece a quem não falas há muito tempo…


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Escutando os sentidos

No meio do tudo, sou apenas nada,
Um nada que é quanto me basta.
Como ao sol lhe basta a madrugada.
Que renasce e nunca parece gasta.

No meio do ruído, sou o silêncio,
Um silêncio que tudo e a todos diz.
Que na sua quietude não está vazio,
Que na sua eterna solidão está feliz.

Porque é bom sentir que se faz parte,
De um lugar que em tudo é como nós.
Como se fosse estranha peça de arte,
Que ouve os sentidos e lhes dá voz.

Até que de repente e já sem pressa,
Toda a vida nos desfila no caminho.
Já sem tempo que acelere e meça,
O que o coração nos diz baixinho.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Post.it: Sinta-se hygge

Hygge, (huga) como se pronuncia, é um termo que começamos a ouvir falar, Importado dos dinamarqueses, considerado o povo mais feliz do planeta, que nos revelam numa só palavra, o segredo da sua felicidade.
O conceito de hygge é a obtenção do contentamento, satisfação, uma felicidade ténue, compassiva mas que nos preenche, que nos sacia e afasta a angústia, a solidão. Sem a ansiedade da busca, de tentativa em a alcançar a qualquer custo, porque está ali, à distância da nossa mão, tão perto que podemos e conseguimos tocar-lhe.
O conceito de hygge é o cuidar de nós, não por narcisismos ou egocentrismos, mas antes um cuidar porque o merecemos e porque é um dever nosso mimar-nos, aconchegar-nos, depois de um dia cansativo de trabalho. A satisfação de um dever cumprido que nos faz sentir merecedoras de um pequeno mimo.
Em hygge, dá-se primazia aos sentidos, sentir a vida na ponta dos dedos, saborear devagar aquilo que mais gostamos, sem culpas, sem críticas entregues ao momento.
Dar atenção aos sons; o estalar da madeira na lareira, os pingos da chuva, o sopro do vento por entre as árvores, o canto dos pássaros no nascer do dia.
Respirar fundo e deixar que o ar replecto de aromas nos conduza para boas e longínquas memórias, o cheiro da relva acabada de cortar, a terra molhada, o pão acabado de fazer.
Mas também sentir o toque no rosto de uma manta macia e quente, e nos dedos a suavidade de uma pétala de rosa, ou uma escultura com linhas deleitosas, harmoniosas.
Olhar e ver com toda atenção, quase devoção, a dança das luzes, a descoberta das sombras, os raios de sol reproduzindo-se numa parede em convecção de cores, um quase arco-íris que podemos admirar de perto.
Hygge é plenitude, é dar a devida importância aos momentos mais simples. Para cada pessoa hygge pode ter o mesmo sentido mas significar uma escolha diferente, porque a felicidade é individual, uma opção particular, para uns pode ser o ficar deitado no sofá num domingo de inverno, vendo um bom filme com uma caneca de chá fumegante. Para outros basta-lhes desligar o telemóvel, o computador, colocar uma música que se gosta e deixar os sonhos fluírem dançantes.
Com hygge sentimo-nos mais tranquilos e em paz, aproveitando o aqui e o agora. 
Tudo isto é hygge, um sentimento suave e terno de felicidade, que nos embala, que nos acalma. Mas é mais, muito mais, é o que cada um quiser, o que cada um apreciar fazer, sentir, saborear. Porque hygge é uma atitude simples perante a vida, dedicando-lhe tempo. É qualquer coisa que nos reconforta a alma e podemos realizar facilmente e com a frequência que desejarmos. Afinal, a felicidade não é algo que se compra, é uma prática, dedicando-lhe tempo que é simultaneamente um tempo dedicado a si próprio. Em síntese, pode-se dizer que hugge significa, gostar de si e tornar-se feliz. Hoje imite os dinamarqueses, pratique hygge e sinta a felicidade em si.