segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Post.it: Vaga lembrança

 Quem fui,  quem sou. Os caminhos que percorri, as sensações que senti.
Morri no dia em que esqueci.
Do meu passado, do meu presente. Das recordações que construí. Das vitórias, dos fracassos. De tudo o que fiz, do que ainda queria fazer. E tinha tanto por fazer. Lembro-me que tinha planos, mas não me lembro quais. Recordo-me que tinha esperança, não sei sobre o quê.
Morri mas ainda encontro a marca dos meus passos, ainda vejo o meu rosto no reflexo do espelho, embora não tenha a certeza de que seja eu, dizem que sim. Por vezes rio-me desse olhar perdido em busca de me encontrar. Num jogo de escondidas, em que estou aqui e não me encontro. Por vezes choro, porque estás ai e não te reconheço, há em ti, qualquer coisa de mim, não só no gesto simultâneo, mas na dor coincidente. Então estendo-te os braços, estendes-me os braços mas não acontece entre nós o abraço. Uma barreira que não consigo identificar. Um muro de medos, uma fronteira de escuridão, aumenta cada vez mais a nossa distância.
Hoje sem saber bem porquê, chamei-te Lembrança, talvez porque me tenha lembrado vagamente do teu nome, curioso, é igual ao meu.
Mas há dias em que te chamo Esquecimento, por similar razão, não me recordo do teu nome, dizem que é igual ao meu, mas, qual é o meu?
No princípio, tinha muitas questões e as respostas magoavam-me porque na verdade já as conhecia, doíam-me porque sendo de situações passadas as sentia novas, num passado que me estava sempre presente. 
Depois, até das perguntas me fui esquecendo e ninguém me veio dar respostas. Cresceu uma paz, um silêncio, um distanciamento, uma morte, como se a vida morresse, quando ela se esqueceu  de terminar e continuou a viver.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A partida do verão

Ainda te procuro em cada pegada,
Na praia que fica agora deserta.
Pegadas de gaivota cansada,
Por voar na corrente incerta.

Peço-lhe a asa, peço-lhe o olhar,
Aceno aos seus altos planos.
Vã esperança a de a encontrar
Em tão vastos e densos oceanos.

De vez em quando uma vaga,
Cresce e eleva-me o coração.
De vez em quando uma calma,

Vem falar-me ao ouvido baixinho,
As tempestades são como a paixão, 
Passam e delas nasce outro caminho.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Post.it: Tudo o que quero

Tudo o que quero é meu. Aquela amizade, aquele amor, aquele sorriso, aquele olhar que navega no meu.
Quero, quero tudo, mesmo que um dia se dilua no tempo, que parta com o vento, que se dissolva nas marés.
Hoje está aqui e pertence-me sem direito de posse, sem prisão de abraço, sem obsessão, sem loucura de paixão, sem gritos de chantagem, sem lágrimas apelativas, É meu  apenas porque quer ficar.
Porque deixo a gaiola aberta e escolhe que sou eu o seu lugar. Quem sabe, mude. Quem sabe o seu coração abra asas e voe para um destino que não já conflua com o meu, deixo-o ir.
Sim, é livre de partir, pura e simplesmente porque me agarro com todo o meu desespero à esperança que volte. Volte sempre e queira definitivamente ficar.
Tudo é meu, no agora em que me sorris, em que me dizes as palavras que preciso de ouvir, que me olhas e sinto que sou o teu mundo. Sou feliz, tão feliz…porque é meu, este infinito, segundo.


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Post.it: Lugares perigosos

O passado é um sítio muito perigoso para se visitar. Tem armadilhas, algumas prestes a explodir ao simples olhar, ao simples suspiro. De repente pode afogar-nos em lembranças, de repente pode fazer-nos vir à tona das nossas fantasias. Porque o passado, tem tanto de verdade como de imaginação, quando o tempo e a distância o tornam mais suave, quando as feridas se tornam lições que tivemos que aprender pelas réguadas da vida. E nós, esfregámos as mãos, para aliviar a dor. Secámos as lágrimas com lenços de esperança, ou desejo de retorquir, “quando eu for grande hei-de fazer-te o mesmo, vais ver se gostas!”. Mas felizmente passou, e ao passar mudou o pano de fundo da história, afinal não foi um deserto árido de ventura, até era um jardim repleto de primaveras. A verdade, o que realmente aconteceu, foi um inverno, gélido e magoado, mas que importa, já passaram tantos verões que todos os icebergues da vida se derreteram e tornaram-se praias douradas, com suaves ondas e fofas dunas.
O passado é um sítio inquietante, pelas aventuras, pelas ternuras. Pelo que foi, pelo que devia ter sido. De quando em quando, perdemo-nos no seu labirinto e vemo-lo através dos olhos da criança que fomos, tudo era tão grande, assustador, havia abismos em todos os lados, mas não os temíamos, eram desafios, só os fortes, só os bons venciam, e nós, éramos, frágeis, sim, mas bons, de alma e coração. Não sei porque  nos acusavam, de reguilas, rebeldes, desobedientes, irrequietos, do que na verdade éramos, crianças. Algo que os crescidos já tinham esquecido, talvez não tenham visitado o seu passado para recordar os bons e os maus momentos, talvez tenham apagado as cores do seu arco-íris e só se lembrem da copiosa chuva.
Mas o ciclo da vida contínua imparável, as crianças tornaram-se adultos, os adultos tornaram-se velhos e os velhos, uns mais do que outros, voltam a ser crianças, sem viverem aventuras mas recordando-as, quiçá, imaginando-as.
O passado, torna-se finalmente um lugar feliz, porque se descobre que apesar de tudo, éramos felizes. A felicidade é viver o ontem que seja para sorrir é olharmos para o amanhã com esperança,  mas sabermos que só no hoje é que podemos sentir-nos plenos de vida.


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Dá-me os parabéns

Dá-me os parabéns de nascimento,
Se o meu viver teve algum significado.
Se atenuei cada doloroso momento,
Se deixei  alegria por todo o lado.

Dá-me os parabéns se queres festejar,
A história deste já longo caminho.
Que em cada amigo encontrou lugar,
Para se dar e receber com carinho.

Dá-me os parabéns se valeu a pena,
Cada instante de amor e de amizade.
Se deixei a semente mesmo pequena
Que cresceu desabrochou em felicidade.

Dá-me os parabéns em prenda,
E que nela encontre ao desembrulhar.
Algo que alegremente me surpreenda,
Porque não existe em nenhum outro lugar.

Dá-me os parabéns pelo meu aniversário,
No desejo de uma  perpétua repetição.
Desta força de mar, desta doçura de rio,
Com que me recebeu cada coração.


Dia especial

Há dias diferentes,
dias especiais
dias de ficar contente e sorrir.

Esses dias são raros,
sentidos como únicos.

Este é um deles.
Não por ser 12,
a magia da perfeição,
Não por ser mês de semear,
de acreditar na promessa de vida.
Não, este dia é especial porque é teu.
Ele sentiu-te espreitar a vida
 e fez-te respirar.

E tudo mudou,
porque passaste a existir!

O mundo sorriu,
esperando o teu sorriso.
O mundo acreditou em ti,
que algo haverias de mudar.

E mudaste!

Tocas a vida de quem por ti passa,
de quem vai ficando
E espalhas sementes
  de acolhimento
  de verdade
  de generosidade
  de inspiração
  de amizade
  de confiança
  de amor!

É isso a vida: acolher, sentir e partilhar!

            Obrigada por existires!

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Aquela que sou

Aquela que sou,
Casa, hotel, banco de jardim.
Na certeza que sempre estou,
De portas abertas em mim.

Por quem passa, quem vem,
Quem em mim adormece.
Que me fica como alguém,
Que no coração permanece.

Casa que sonha ser lar,
Recanto de vivente felicidade.
Queria tanto aconchegar,
A vida em qualquer idade.

Resta agora o jardim,
Aqui e ali, quase outonal                       
Com recantos de jasmim.
Neste olhar de madrigal.

Aquela que sou,
Talvez, apenas caminho.
Quando por ele vou, 
Percorrendo o meu destino.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Post.it: Regresso

Regresso de férias, de uma outra rotina sem horas marcadas, de descanso, de cansaço da viagem, das limpezas, das arrumações. Regresso da paz ou da euforia, do sol, do mar, do caminhar, da roupa leve, do chinelo no pé, dos cabelos ao vento.
Mas antes, por um momento, antes do regresso, deixem-me encher o painel solar do coração com toda esta luminosidade antes que o inverno o invada de escuridão. Que os olhos se inundem de azul, de verde, de areais, de gente colorida, da espuma branca da última onda marítima. Que os lábios congelem ao prolongarem mais e mais o toque com o último Corneto de chocolate estaladiço, que o último jantar de férias seja uma bola de Berlim com um generoso sorriso de creme de pasteleiro. Hoje, mesmo que seja só hoje, vamos esquecer a dieta, o colesterol, a glicose, temos todo o inverno para nos penitenciarmos do pecado da gula.
Merecemos cada momento deste verão, destas férias, pela paciência e desgaste despendido ao longo do ano, com todos os sacrifícios que tivemos de fazer para conquistar o direito a uns dias no paraíso. Estes momentos nossos, só nossos para partilharmos com quem queremos, sem obrigações, sem ralações, sem discussões, sem colegas, sem patrões.
Mas eis que chega a altura de regressar, lembro-me que em tempos distantes, esta época era de alegria, de espectativa, significava reencontro, novidades, histórias partilhadas com os amigos da escola, mas também isso já passou e o regresso agora tem um sabor de reconforto, cada vez mais é um sabor de reconforto, cada vez mais é bom saber que se tem para onde regressar, e que é isso nos possibilita no próximo ano ter novas férias, pagar o conforto de um lar, ver os filhos crescer sem sentirem dificuldades e adormecer à noite no sofá da sala com o som embalador da televisão. Amanhã, regressamos, talvez não ao que mais desejaríamos, mas apreciando e valorizando o que temos e, se dermos o nosso melhor, quem sabe também ele seja melhor para nós, pelo menos na sensação de realização porque fizemos o que estava ao nosso alcance. 
A todos os que regressam, bem vindos.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Imprevistos

O imprevisto acontece,
Quando dia nos amanhece.
De repente um trambolhão,
E ficamos estendidos no chão.

Com o corpo todo dorido,
Com o orgulho quase ferido.
Depois é ver qual o estrago,
Quando o susto ainda é vago.

Nódoas negras, quiçá arranhões,
Com sorte na roupa alguns rasgões.
Talvez passe só  com um beijinho,
Ou não baste esse gesto de carinho.

Desinfectante ou até alguns pontos,
Que nos deixam de dor meio tontos.
Mas a situação pode ainda ser pior,
E temos que recorrer ao Sr. Doutor.

Para engessar-nos a alma magoada,
Cozer-nos a existência envergonhada.
Sem desanimar só por um imprevisto,
Quando viver é um maravilhoso risco.


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Post.it: Sempre com eles

Viver significa caminhar em frente enquanto outros ficam para trás ou desencontram-se da nossa direcção. Ficam ou vão, nós prosseguimos sem eles, outras vezes com eles, na memória, no coração. 
Uns amamos, outros apenas pouco mais conhecemos que o rosto, o nome, desconhecemos a sua história, a sua experiência de vida, as suas alegrias, as suas tristezas, de onde vêm, como aqui chegaram, mas mesmo esses, ao partirem, doem-nos algures no corpo.
Como se de alguma forma fizessem parte de nós e fazem, fizeram-nos rir, chorar, escreveram ou representaram papeis que marcaram os nossos momentos, cruzaram-se com os nossos dias, na paragem do autocarro, no café, no cabeleireiro, eram a caixa do supermercado onde vamos todas as semanas, estavam na papelaria onde vamos buscar o jornal, na padaria onde compramos o pão, algures num ponto de intersecção do nosso caminho.
Amigos, colegas, professores, vizinhos, conhecidos, desconhecidos, todos, tantos… 
Doem-nos, talvez porque partem demasiado cedo ou porque já os “conhecemos” há tanto tempo que criaram raízes na nossa história. Talvez pela forma como lhes “roubam” a vida, porque deixam de ilustrar a rotina da cada manhã, de cada anoitecer ou no fundo, num inconfessado sentimento; doem-nos porque de alguma forma nos relembram da nossa própria precariedade.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Post.it: Mar de agosto

O mar de agosto tem uma cor diferente, nuns sítios mais azul celeste, noutros mais verde prado. O seu ondular, também ele é diferente, mais harmonioso, mais doce leito. E o seu murmurar, único, especial,  mais cantante, mais relaxante. 
Não há mar como o de agosto que se estende num abraço pela praia, que lhe acaricia o areal, que lhe leva presentes; conchinhas, pedrinhas bem redondinhas. E à noite sob a luz do luar oferece-lhe estrelas que espelha nas suas águas só para a enfeitar. 
Até as vagas que conduzem os barcos aos cais são menos cavadas, menos apressadas, há que levar todos ao seu destino, na esperança que regressem com saudade deste mar, deste amar doce e sereno. 
O mar de agosto é uma festa de sons vibrantes, cores dançantes, os convidados vão chegando juntando-se à comemoração estival. Já se sente a brisa marítima, já se ouve o eco das falésias, o rumor amante das dunas, os ramos das árvores na orla da praia, o tilintar das conchas que vão indo e vindo com o embalo das ondas. 
Aqui e ali, há um salpico de gente, alegre, contente, suspiram como se quisessem levar nos pulmões esse mar, esse calor, essa paz, essa harmonia, esse mar que só agosto tem.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Uma pena

Era uma pena pousada,
Na ondulância do mar.
Era uma pena cansada,
De há tanto tempo voar.

Era uma pena calada,
Com uma história para contar.
Talvez amarga ou deslumbrada,
Do que um dia chegou a sonhar.

E a gaivota que a pena perdeu,
E a gaivota que sem ela existe.
Quem sabe já a esqueceu,
Deixando-a ainda mais triste.

Era apenas uma pena perdida.
Uma pena e  mais nada.
Ficou uma memória querida,
Dentro da minha alma fascinada.


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Post.it: Solidão

O meu amanhecer é à noite, quando só as estrelas me olham e partilham comigo esse olhar de quem tem tempo para ficar, de quem tem tempo para brilhar. Então, a  lua parece sorrir-me, um sorriso de quem entende, um sorriso de quem se estende em neblinas de escuridão, em névoas de solidão.
A solidão, pobre palavra tão maltratada, tão dolorosamente magoada, porque dói, dizem. Porque mata, defendem. Mentira! Mentira, garanto-vos. Como é terna a solidão, quando o seu silêncio nos envolve no mais doce abraço.
Então o corpo dolente de tempos idos, deixa-se navegar nos pensamentos, longe, cada vez mais longe dos lamentos. Dando-se ao luxo de sentir. De se sentir invadido por uma paz conciliadora dos sentidos, como quando a alma e o espírito se casam e prometem ser felizes para sempre. 
Num para sempre, que dura… O que durar. Mas enquanto dura, permite-nos num vislumbre de felicidade, contemplar o infinito. Esse finito que agora, liberto dos limites do horizonte espraia-se para além do existir condensado em nós. E nós, os que reverenciam a noite como se nos fosse madrugada, tornamo-nos estrelas, solar de lua, luminosa escuridão e agradecemos cada sensação que só o silêncio, que só a solidão consegue ouvir com o coração…

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Férias e mar

Depois de muitos passos dados,
De tantas viagens de encantar,
Acabamos de olhos mergulhados,
No mais sereno azul do mar.

Como se nos fosse morada,
Leito de sonhos perdidos.
Vida que a ele confessada,
Nos deixa menos feridos.

Mas férias devem ser alegria,
Paz, desordem, libertação.
Cumprir a velha fantasia,
De agir só pelo coração.

Mas o mar, o mar já chama,
Para um abraço de regresso.
Naquele silêncio que reclama,
Toda a atenção do universo.

Pergunto, quanto de mim há nele,
Escondido na sua transparência?
Como se me fosse segunda pele,
Na mais sublime e terna inocência.

Nado, afasto-me da orla do cais,
Torno-me em si uma pequena ilha.
Onde deflagram os grandes vendavais,
Do oceânico pai com as marés da filha.

sexta-feira, 15 de julho de 2016


Nem flor nem fruto

Se o coração fosse uma flor
Iria planta-la num jardim.
Onde quem sabe, o amor,
Ao passar olhasse para mim.

Mas nem flor, nem fruto,
Nem aroma perfumado.
Apenas um querer de luto,
E um sentir abandonado.

A Primavera o faz renascer,
O verão e paixão aquecer.
Ai outono que ao esmorecer,
Fá-lo no inverno perecer.

Mas o sol, o vento, o mar,
O verde, o azul, o infinito.
São asas que fingem voar,
E de novo, no voo acredito.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Ser do litoral

Ser daqui, do litoral,
Marca-nos o corpo e a alma.
É trazer nos lábios o sal,
Deste mar que nos acalma.

E no ventre vento e espuma,
De ondas que nos vão deslizar.
Por suaves céus desta bruma,
Que o sol leva ao madrugar.

A saudade ao nos delinear,
São abraços para o horizonte.
São águas deste navegar,
Que nos leva para tão longe.

Um longe aqui sempre perto,
No contorno desta velha costa.
Cais de espera, olhar inquieto, 
Por vezes sorri, outras desgosta.


sexta-feira, 8 de julho de 2016

Post.it: Trapos

Como somos, como nos vêem, a consonância, a discrepância. Apenas o olhar. Um olhar que nos adora, que nos odeia. Porque lhes somos semelhantes, porque lhes somos antagónicos.
Apenas o olhar, mas que nos aproximas, que nos afasta.
São panos, são cores. Usados mais acima, mais abaixo. Em desalinho que para quem usa parece alinhado.
Há quem diga que o que usamos nos define, nos revela o carácter, “diz-me o que vestes, dir-te-ei quem és”. Ou talvez não. Talvez te enganes, visto de preto mas não tenho a alma negra. Visto de vermelho e na verdade apesar do meu ar de festa, sinto-me triste. Por vezes, na maior parte das vezes (confesso) quero apenas ser aceite. Não é isso que significa andar na moda? Se gosto, bom no início, não. Mas depois de tantas vezes me cruzar com o mesmo modelito, o olhar acaba por ficar “conquistado”. Mas passado um tempo, canso-me, e começo a ver o mesmo por todo o lado e esse “mais do mesmo”, em vez de me seduzir, cansa-me.
Está na hora de mudar, de seguir outra moda. Quem sabe as calças subam, quem sabe as bainhas das saias desçam. Quem sabe se cubram as pernas e se tape o rabo, já cansa andar a ver cuecas, mesmo que seja de marca (compradas na loja do chinês).
Mas tudo isto são apenas “trapos”. Alguns com aspecto de velhos de tão rasgados, de tão corroídos, “nem para panos de chão os queria”, já dizia a minha avó. Mas que custam uma “pipa de massa”. Porque têm uma marca na etiqueta, porque são da loja mais “in” do momento. Mas a verdade dão um ar completamente “out”.
Mas o que importa para uns é estar  “cool”. Para outros o que importa é sentirmo-nos “cool”, mesmo que nos digam o contrário, que nos olhem com desdém, estamos bem connosco e é connosco que temos que viver, adormecer, acordar, crescer e aprender. Sem cair em narcisismos, em ou exacerbadas vaidades.
Bom seria que nos vissem para além das aparências, que chegassem mais perto, que não cedessem à tendência de criar inibidores rótulos. Que nos tocassem, humanos e não bonecos produzidos por uma sociedade de consumo imediato. E depois, que nós, fossemos nós, sem seguir modas só porque “sim”. Afinal, não precisamos de chocar, de conquistar, de chamar  a atenção, de sermos aceites. Precisamos unicamente de nos sentirmos bem na nossa pele, nos nossos trapos. Porque as modas mudam, nós permanecemos.


terça-feira, 5 de julho de 2016

Post.it: Apenas esse pouco

Não é o muito que nos preenche e sacia, mas o saborear de cada sensação, de cada momento.
Será que isto vos diz algo? Gostava que sim, que já tivessem sentido este sentimento, esta tranquilidade que os torna quando em nós vividos, verdade.
Fazer anos, somar aniversários, festas lembradas ou esquecidas, não é isto que nos torna melhores, mais sábios. Quando muito torna-nos menos “surdos” ao que nos rodeia, ao que é realmente importante.
E o importante, descobrimos um dia, é a tranquilidade com que vivemos cada dia, sem questionar o seguinte. Cada degrau daquela velha escada que já subimos e descemos tantas e tantas vezes, hoje cansa-nos mais, é verdade, mas vejamos pelo lado positivo, obriga-nos a subir de forma pausada, apreciando a paisagem e a descer admirando o horizonte.
Vamos perdendo… mas também ganhando… sobretudo vamos adaptando-nos, ao fim de algum tempo já sem queixumes e até, quem sabe, achando graça, à “desgraça” que é deixar de ser como eramos há 20 anos, mesmo quando nessa altura já tínhamos mais de 20 anos de existência.
A memória, essa leal mas também traiçoeira amiga, que um dia nos contará outras histórias, sobretudo as mais belas. Não sei se mais belas porque o tempo lhes conferiu encanto ou se foram realmente inesquecíveis. Muitas, poucas, que importância isso pode ter, quando se tem o suficiente e esse suficiente nos basta para sermos felizes
Vai-se-nos enevoando a visão, ela que nos encheu o olhar de tantas aventuras e tantos deslumbres, fechando os olhos, passamos a ver cada vez mais com o coração.
Também as forças vão diminuindo, já não erguem os filhos, quase que nem os netos, mas que ainda amparam e sobretudo acarinham com mais doçura.
E todos os anos, em que buscamos nas amizades uma harmoniosa companhia, descobrimos a melhor, paciente, silenciosa,  que esteve sempre connosco, a nossa.
Afinal não precisamos de conquistar o mundo, apenas necessitamos do nosso mundo.


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Post.it: Escrever nas linhas da vida

Às vezes escrevemos o que a memória nos permite, o que a fantasia nos possibilita, o que a vontade de alcançar nos faculta. Mas são sempre histórias, as nossas, as dos outros e as daqueles que passam por nós e deixam uma qualquer inspiração.
 Nem tudo é verdade, nem tudo é mentira, depende de quem lê, a tornar a sua verdade ou a sua mentira ou apenas fantasia. “Lemos porque buscamos na leitura a história que não vivemos”. Lemos porque precisamos de sonhar ou por vezes de acordar.
Lemos para voar e cada página é uma asa aberta ao horizonte de infinitos. Lemos porque necessitamos de aterrar, de encontrar portos de abrigo para vencer as nossas tempestades.
Os livros nada mais são do que pedacinhos de nós. “A minha estante está cheia de gente”. E essa gente que tenho por amigos, fieis, companheiros, sempre presentes, quando, de repente, o silêncio enchesse de vozes, de palavras, de pensamentos.
Deitada no sofá, corro por cada página atrás de cada frase, que mais parece um comboio em permanente viagem. Cada momento empolgante, rouba-me o ar, o olhar fica em suspenso, preciso parar, preciso de retomar a história, percorrer o fio desses intrincados meandros.
Sofro, como sofro pelo sofrer de cada personagem. Apetecia-me rasgar aquela página, rescreve-la, dar-lhe um destino melhor.
Porque se na vida real não temos essa possibilidade na literatura “o céu é o limite”. Mas isso é roubar as palavras ao autor, furtar-lhe os pensamentos, distorcer-lhe os sentimentos, usurpar-lhe a intenção, invadir-lhe o coração e tornar nosso o que não nos pertence, mesmo que o tenhamos comprado, que esteja na nossa estante.
Nessa estante onde esteve toda uma vida quando por um qualquer acaso resolvemos folheá-lo e agora, agora estamos armados em críticos da sua inspiração. 
Que vaidade a nossa! Querermos rescrever uma obra editada, quando nem sequer conseguimos passar da escrita ingénua que desenhamos nas primeiras linhas da nossa vida…

quarta-feira, 29 de junho de 2016

S. Pedro

S. Pedro em final de festa te espero,
Santo que és da minha afeição.
Com o sentir quase em desespero
Para que me correspondam ao coração.

Santo António por aqui  passou,
Não atendendo ao nosso pedido.
São João na festa muito brincou,
Mas dos pedidos ficou esquecido.

Resta S. Pedro que lá do céu,
Olhe para a terra e nos sorria.
Para o festim que o povo lhe deu,
Nos ofereça a nossa maior alegria.

A dívida nacional quase a se extinguir,
Todos os impostos por fim a baixar.
Um emprego para todos a surgir,
E a conta bancária a aumentar.

Porque o amor e uma cabana,
Já não ilumina nem o alto luar.
Já que esta pobreza franciscana,
Nos tira o sono e rouba o sonhar.


sexta-feira, 24 de junho de 2016

Festa de S. João

S. João vem de martelinho na mão,
Recebo-o alegre e sem temor.
Porque sei que no meu coração,
Ele só vai tocar com uma flor.

É santo, quer para todos o melhor,
Que todos os anos a nossa devoção.
Lhe dedique uma festa cheia de cor,
Para que ele nunca responda não.

Aos pedidos dos seus foliões,
Que só lhe pedem a felicidade.
E lhe iluminam coloridos balões,
Repletos de ar, luz e saudade.

Este ano a festa está a acabar,
A fogueira na rua já se apagou.
Mas dentro do peito o sonhar,
Planeia a que ainda não chegou.


segunda-feira, 20 de junho de 2016

Post.it: Os jacarandás floriram

Já floriram os jacarandás, era sempre nesta época, perto do seu aniversário. Surgiam como uma prenda, como um sorriso florido de quem vem para uma festa e em festa porque o festejado é ele próprio essa alegria, oferecida, partilhada.
“Já floriram os jacarandás!” Repetia todos os anos como se fosse uma bênção da natureza, uma dádiva da vida. Eram o cumprimento de um ciclo, que de alguma forma nos modela a forma de sentir em cada estação do ano. A sua floração, anuncia o fim da primavera, o início dos dias longos e quentes de verão.
O ano passado os jacarandás floriram, errantes na nossa dor da sua partida, pensámos, é a última vez que os jacarandás vão florir. Contudo, passado um ano, a primavera desabrochou um jardim de flores sobre a paisagem, as árvores vestiram-se de verde, as andorinhas cantaram e dançaram a sua peculiar melodia, mas os jacarandás permaneciam despidos de cor.
Sim, era verdade, com ela partiu também a última flor do jacarandá da rua onde morava, das ruas onde passava, de todas as outras por onde passamos nós, mergulhados em pensamentos de solidão, em sentimentos de saudade. Até que uma flor me cai aos pés, reconheço-a de imediato, uma flor de jacarandá, murmuro surpreendida. Caiu-me a meus pés, como se me chamasse, como se quisesse ser olhada, contemplada, recebida e eu, confusa, atordoada com esta repentina chegada, olho-a por entre lágrimas contidas de um ano de ausência, de uma amiga, mas também de uma flor que ela apreciava, e que passou a ser um laço estreito de lembrança.
Mesmo depois da sua repentina partida os jacarandás continuaram a florir, recebo esta “prenda” da natureza com alguma mágoa, por estranho egoísmo, queria que também os jacarandás sentissem a sua falta e não mais florissem. 
Mas, floriram, ainda bem que floriram, porque isso significa renovação e nos faz recordar essa amiga e desejar assim que as jacarandás floresçam todos os anos para dar a cada flor o seu nome e à nossa saudade uma presença constante sempre que o olharmos florido vendo nele eternizado o seu sorriso e a sua voz quando dizia “olhem, os jacarandás já floriram!”.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

post.it: Ser como tu

Quem me dera ser como tu, penso nisto desde que te conheço, como tu a quem tudo acontece, tudo o que te poderia roubar a felicidade, apagar o sorriso, afogar o olhar, mas não, tudo te ergue mais forte, mais serena. Como se cada tempestade, fosse apenas o caminho impulsivo para chegar mais longe. E chegas, chegas sempre, com a mesma e sempre renovada placidez.
 Invejo-te, e temo a minha inveja, não quero ter semelhante destino, mas ambiciono por similar coragem. Onde, pergunto-me, pergunto-te, onde vais buscar tanto ânimo, tamanha bravura, para arregaçar as mangas e revelar uns braços sem músculos, com nódoas negras, que não doem, “já não doem”, mas contam histórias, “foi quando evitei a queda de alguém que me é muito querido”. Foram dores, que nem chegaram a doer, porque evitaram outras maiores.
Como consegues, recomeçar cada manhã? Adormecer em cada noite?
“Sendo mais forte que a minha maior desculpa”
E os anos, sim os anos, que levam anos a passar, pesados, demasiado para tão fraca estrutura humana, como consegues trazê-los a cada hoje, sem formares rios, sem te afogares nos teus mares?
"Aprende-se, aprende-se tudo, até a condensar numa só gota, todas as lágrimas do oceano".
Não lhe pergunto mais nada, embora, queira ainda, tudo aprender. 
Quem me dera ser como tu, dar valor às coisas pequenas e boas,  desvalorizando as grandes e difíceis de superar.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Parabéns

                                         Parabéns
            Quando a vida presenteia com a capacidade de sorrir,
                        E a vontade de partilhar o seu sentir.
                                         Parabéns
                          Quando se tem esse abraço de amizade,
                          Que nos preenche de renovada felicidade.
                                                                                                         Parabéns
                                      Por todos e muitos belos anos,
                                     Em que se tem sonhos e planos.
                                             Parabéns
                                      Por se fazer da vida uma missão,
                                    Que nos enche de carinho o coração.
                                          Parabéns
                          Pelo seu momento festivo de aniversário,
                       Por escrever com tinta de esperança um diário,
                         Que sem segredos se lê nas linhas do universo,
                          Para que a si conflua todo o amor disperso.



quinta-feira, 9 de junho de 2016

Festa de Santo António

Santo António virá molhado,
Neste ano tão chuvoso?
Chegará talvez afogado,
Em pedidos de amor formoso.

Não sei se os manjericos,
Resistiram a tanta água.
Ou se ficaram mais ricos,
Perfumadas rimas sem mágoa.

Mesmo se o sol não brilhar,
E o cravo de papel se molhar.
Santo António há de chegar,
E fazer de cada coração seu lar.

Afinal Lisboa é sempre bela,
Isso o revela em cada esquina.
Quando ao Tejo abre a janela,
Com o seu sorriso de menina.

A sardinha já está na brasa,
E os balões dançando no ar.
Lisboa entra em cada casa,
Com uma marcha a cantar.

Lá vai a nossa Lisboa,
Com o seu ar namoradeiro.
Esquecida do que a magoa, 
Procura um amor verdadeiro.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Post.it: Apenas pessoa

Cada pessoa é apenas uma pessoa. Não temos o direito de a escrever, de a desenhar, de querer que seja tal como a vemos, tal como a sentimos.

Cada pessoa é apenas uma pessoa, temos, talvez o direito de a sonhar e de por momentos, nesse sonho acreditar.
Depois, temos de acordar e deixar o sonho voar. Porque cada pessoa que amamos, não era ela, éramos nós, que estávamos cheios de amor para oferecer.
Cada pessoa que abraçamos não era ela, éramos nós, cheios de carinho para partilhar. Cada pessoa para quem sorrimos, não era ela, éramos nós cheios de alegria para dar.
Cada pessoa que nos fez chorar, não era ela, éramos nós, cheios de tristeza que já não podíamos no coração conter.
Podemos-lhe chamar pessoa amada, porque a amamos. Amiga, porque lhe damos a nossa amizade. Companheira,  porque a acompanhamos.
Mas cada pessoa é apenas uma pessoa, que fica, enquanto ficar. Que parte, quando tem de partir.
Porém, entre a chegada e a partida, fica a gratidão, o reconhecimento do que nos foi, na forma como nos melhorou, talvez não por ela, mas por nós que assim fomos, que assim sentimos. 
Cada pessoa é apenas uma pessoa e nós que olhamos para ela, vimos, na verdade, não o que ela é mas o que nós através dela somos.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Post.it: Aquele mês, aquele dia...

Cada pessoa tem o seu mês, o seu dia de “pavor”, de uma, cada vez mais velha, dor. Que se distancia, mas fica cravada algures no corpo como se nos fosse uma tatuagem invisível, pelo menos aos olhos dos outros. E é essa invisibilidade aparente que nos faz sobreviver a cada caos que nos atinge, que nos marca, restando uma sensação de sobrevivência, de quase, mas apenas quase felicidade, por a superarmos.
Mas hoje, quando olham para nós não percebem, aquilo que já fomos, o que já sentimos, as mágoas, o rio de águas que secamos no peito.
Levamos o ano inteiro a esquecer, há momentos que chegamos a acreditar que o conseguimos, que já passou e que nada, absolutamente nada dessa memória restou, apenas, quiçá, a data. Como um fantasma que de vez em quando ainda nos vem assombrar o sono, os sonhos.
No entanto, quando a proximidade se começa a fazer sentir, a angústia acentua-se, uma recordação eleva-se e entristece-nos, talvez menos, do que no ano passado, pensamos, porque na verdade, assim queremos supor. Mas será que é o que acontece em nós, no turbilhão das nossas emoções?
Afastamos os ventos da desgraça, queremos, precisamos, de sorrir. De contemplar cada dia e nele encontrar o brilho solar do nosso olhar. Afinal, neste ano aquele mês, aquele dia, já passou, no próximo estaremos melhor e a data, a terrível e temível marca da vida ter-se-á esbatido na nossa lembrança substituída cada vez mais pela crescente esperança de que realmente assim seja. 
Para outros, alguns,  ainda se aproxima esse mês, esse dia, que lembra o final de algo, ou o princípio de tudo: uma morte, uma doença, um acidente, um divórcio, uma catástrofe, uma tragédia, uma perda irrecuperável, um desencontro, outras, tantas e dolorosas vivências, histórias que ficam para sempre dentro da nossa história. 
Até que um dia, acredito que esse dia chegue, possamos aproximar-nos desse mês sem medo, sem revolta. Que o dia venha e passe com a mesma leveza de todos os outros dias. 
E quem sabe, em algumas situações, tenhamos, até vontade de o celebrar porque foi o percursor da mudança, significou apenas o fim do que tinha de acabar e o começo de algo que nos fortaleceu e conduziu a um futuro mais radiante.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Sem lar

Por caminhos incertos,
Com letras errantes.
Escrevo longos desertos,
De areais deslizantes.

Já que os passos insistem,
Em descobrir a direção.
Dos sonhos que persistem,
Em afastar a solidão.

Destas constantes ondas,
Destes mares de fantasia.
Que se tornam delongas,

Deste eterno navegar.
Na velha companhia,
Deste coração sem lar.