quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Post.it: A Hora

 “L´heure, c’est l’heure; avant l’heure, c’est pas l’heure; après l’heure, c’est plus l’heure”

Quantas vezes me citou este verso no seu francês melodioso, que até eu que sempre achei esta língua amarga e seca, gostava de ouvir e repetir. A tradução é menos bela, parece que se perde o sentido, que há algo do sentir que fica no eco perdido. 
“A hora é agora. Antes da hora ainda não é hora. Depois da hora já acabou a hora”.
A hora é agora, neste agora que não é meu mas seu, apenas seu. Nós que não temos este agora, desejamos que parta a hora e não leve embora quem queremos sempre e agora connosco. Mas eis que a hora reclama o seu momento neste exacto e triste agora levando-a de nós embora. Ela vai,  imagino, sorrindo, como sempre a vi sorrir. Nem a falta de saúde, nem as limitações lhe roubaram o sorriso nem as palavras sempre gentis e amigas, nem os gestos harmoniosos. O coração que era em tudo tão grandioso, parou naquela hora em que a vida se foi de si embora e nos deixou sem a sua amizade, o seu carinho neste vazio de agora. 
Não sei se reclama se implora o meu peito que por dentro a chora,  porque para mim veio demasiado cedo a sua hora. Era noite que se diluía pela madrugada fora. Pareceu-me que tudo acontecera sem demora e já o dia amanhecia, e já o sol se incandescia e um último abraço a envolvia. Depois, a suavidade de um silêncio, o vácuo daquela hora que suspensa na eternidade do instante, para depois continuar a sua jornada de cada momento, de cada hora, a que fica, a que se vai embora no seu tempo que é agora. Claro que o tempo se prolonga para além das vicissitudes de cada hora e fica e permanece sem do coração se ir embora. 
Obrigada por cada hora partilhada com a sua amizade que tornou a minha vida mais bela, e por isso, mais triste nesta hora.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Post.it: A escrita e o leitor

Continuas a ler-me, a saborear cada palavra minha como se fosse um reconfortante café da manhã. Continuas a procurar-me por entre as linhas para saberes quem sou, como estou e o que sinto. Continuas a entrar aqui, neste lugar vago de tempo, vazio de espaço em busca de mim, de ti, de nós.
Imagino que sim, então, escrevo, (escrevo-te), um rio de frases, ondas marítimas de suaves sensações, continuo a unir margens separadas  pela inacção de... sei lá, do tempo (desculpas esfarrapadas).
Mas é verdade, continuo a rescrever os caminhos perdidos. E até aqueles por onde nunca caminhei, embora tenha imaginado lá os meus passos. Continuo algures aqui, cada dia de  nós mais sós. Eu, pelo menos, porque embora me leias, nada de ti me contas, não deixas sequer  um rasto dessa leitura, que não sei se te tocou, se te fez voar pelas veredas verdejantes dos sonhos.
Porque a realidade. Ai a realidade, essa verdade que nos rouba as palavras, que nos silencia o peito, continua a aprisionar-nos a este solo pisado e repisado de ausências.
Enquanto a solidão mesmo não existindo, porque afinal continuamos aqui, vivendo vidas unicamente nossas, magoa, como aquela saudade que já referi anteriormente, essa que nunca chegou a ser vivida e que no entanto deixou-me na alma desnudada uma existência sentida. 
Louca, chama-me por te continuar escrever, por desejar que me leias, mas não me roubes o único alento de esperança que ainda consigo respirar, quando a caneta, as teclas, o papel, a tela correm a uma velocidade estonteante, para ti. E de cada vez que enceto esta viagem, paro, cansada e triste porque depois de tanto chão percorrer nunca chego a te encontrar

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Post.it: Casamento

Há diálogos de silêncio, palavras que nos dançam no pensamento, ideias que se enlaçam nos neurónios mas que simplesmente, não ganham som. Não as partilhamos, não as oferecemos, não as lançamos na tentativa vã de soltar a voz e trocar os ditongos silábicos do dizer.
Contudo, o diálogo permanece mudo, é certo, mas fervilhante de vida, de olhares, de espera, de ansiedade. Cresce-nos um deserto no peito e uma sede de sons independentemente dos tons mais ou menos harmoniosos, mais ou menos agrestes.
Se ao menos me gritasses ecos do coração, se ao menos me dissesses o que preciso escutar. Sim, bem sei que também esperas, que desesperas, mas o orgulho, esse maldito orgulho! Emudeceu-me, ensurdeceu-me, que se falasses, teria talvez, dificuldade em escutar-te.
Onde estão os momentos que prometemos viver para sempre? As promessas de que nunca haveria dor, nem traição, nem necessidade de perdão. Acreditámos nas rosas, desvalorizámos a possibilidade de surgirem espinhos. Não, isso nunca aconteceria a nós. Tínhamos tudo, mas tudo para dar certo, para termos um percurso diferente. Não cairíamos na rotina, nem no cansaço, nem na preguiça acomodativa dos dias e sobretudo das noites em que passámos a adormecer sem um beijo de despedida.
E afinal, tudo nos aconteceu. É verdade que o tempo, a vontade, o carinho, o querer, cura qualquer mágoa, resolve qualquer problema, mas fica a cicatriz transformada em ruidoso, doloroso, silêncio.
Há quanto tempo estamos juntos?
Muitos… Dirás.
Demasiados… Gritarei, apenas por soberba. 
Pouco, muito poucos, demasiado  poucos para o amor.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Post.it O dia da amizade

Dia da amizade, neste e em todos os que tenhamos vontade de partilhar um momento, mesmo que não seja o melhor, mesmo que seja de dor.
É dia de estar presente, mesmo que ausente na presença física. É dia de lembrar  a quem nunca esquecemos a amizade que lhe temos.
Podemos dar-lhe um jardim mas para um amigo, basta uma flor.
Podemos dar-lhe uma praia, mas para um amigo, basta um grão de areia.
Podemos dar-lhe o paraíso mas para um amigo, basta sempre um sorriso.
Podemos dar-lhe o mundo mas para um amigo, basta o mais belo segundo.
Porque, na realidade, para um amigo só a amizade basta.

Para conseguir a amizade de uma pessoa digna, é preciso desenvolvermos em nós mesmos as qualidades que naquela admiramos. Sócrates
                      (Só um coração bonito consegue reconhecer outro.)

A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro. Platão    
           (A felicidade dos outros engrandece a nossa.)

Não é amigo aquele que alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz… Machado de Assis
            (O que se sente é maior do que o que se diz, porque as palavras para o definir nunca são suficientes.)

Quem negligência as manifestações de amizade, acaba por perder esse sentimento. Shakespeare
             (Como uma flor, só sobrevive se for cuidada.)

Quem afasta a amizade da vida parece que arranca o sol do mundo. Cícero
             (Cada amigo é uma luz no nosso caminho.)

A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; ela exerce-se (é uma virtude). Simone Weil
            ( A virtude de amar está em nós, é preciso descobri-la e partilhá-la.)

Amigo é aquele que sabe tudo a seu respeito e, mesmo assim, ainda gosta de você. K. Hubbard
              (Não vamos mudar os outros para nos serem iguais, vamos amá-los pelo que são.)

Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos. M. Unamuno
              (Não pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos.)

As palavras de amizade e conforto podem ser curtas e sucintas, mas o seu eco é infindável. Madre Teresa de Calcutá
               (Pode haver feridas que não têm cura, mas uma palavra amiga pode sempre atenuá-las.)

Devemos nos comportar com os nossos amigos do mesmo modo que gostaríamos que eles se comportassem connosco. Aristóteles
            (Querer o melhor para os outros tal como o queremos para nós.)

O amigo: um ser que a vida não explica e o espelho de minha alma multiplica… Vinicius de Moraes
           (A amizade não se explica, aprofunda-se.)

Pode ser que um dia nos afastemos… Mas se formos amigos de verdade, a amizade nos reaproximará. Albert. Einstein
            (A amizade não conhece a palavra tempo, apenas momento.)


                        Que a nossa seja um eterno agora!

terça-feira, 28 de julho de 2015

Post.it: As saudades evitam-se

Li algures esta frase, era uma anúncio publicitário não reparei sobre  que produto, fixei-me na ideia, fez-me, pensar. É habitual ouvir esta expressão para as desculpas, para coisas negativas. Queremos evitar as saudades? Talvez, algumas, especificamente essas que nos marcaram não pelas melhores razões. 
As saudades evitam-se. Como? Vivendo cada momento como se não existisse amanhã. Sentindo a vida em pleno, dedicando a sua atenção a cada instante. Tocando cada coisa como se fosse a primeira vez e a última. Abraçando outras vidas nem que seja com o olhar embora saiba melhor se for com o coração. Não adiando nenhuma decisão, nenhum gesto, nenhuma intenção. Fazendo tudo, mas tudo o que está ao nosso alcance. Tudo, mas tudo o que podemos fazer, até nos sentirmos plenos de vida, até sentirmos de inteira e pacifica consciência, se por acaso as coisas não aconteceram de outra forma não foi culpa nossa, não foi por preguiça física, mental, social, não foi por negligência, nem tão pouco por abandono do que poderia ter sido e não foi. Se assim decorrer não nos fica a sensação de culpa nem tão pouco a de saudade. Essa saudade incumprida, essa saudade que deixou de ser vivida e que nos deixa por vezes uma mágoa, como se de uma ferida se tratasse, que dói sem sabermos bem qual a causa. O tempo se encarregará de a tratar ou melhor, camuflar. Porque ela fica lá, doendo de mansinho no corpo, na alma, na sensação de incompletude. Cresce como uma saudade de nós, do que poderíamos ter sido, do que poderíamos ter dado, do que poderíamos ter vivido… 
São essas saudades que se evitam porque, dependem unicamente da nossa vontade, do nosso querer. Quanto às outras saudades, essas que nos enchem de boas lembranças, essas nunca devemos evitar, devemos criar muitas. São as nossas pequenas ou grandes memórias que se tornam alicerces vivenciais, que marcando-nos definem-nos no melhor que somos. São o nosso caminho, feito não das quedas mas da forma como nos reerguemos. Não de finais mas de todos os começos, das esperanças, das expectativas. Não dos fracassos mas da forma como chegámos a cada vitória. Saudades, ai saudades, da infância divertida, da adolescência apaixonadamente sofrida. Do crescer, do aprender, dos encontros e até dos desencontros. Saudade não do que poderíamos ter sido, mas do que fomos, em boa verdade, do que somos. 
Uma saudade que não dói, antes cura, encoraja, fortalece e nos faz continuar a somar  muitas e novas saudades, das que nos orgulhamos de sentir. Das que não queremos nunca evitar.


terça-feira, 21 de julho de 2015

Post.it: És algo em mim

Alguma coisa em mim és tu. Tu que me ensinas-te os primeiros passos. Tu que me limpaste a primeira lágrima. Tu que me roubaste o primeiro beijo. Tu que me deste lições de vida e de moral. Tu que me revelaste onde estava o bem mas também o mal. Tu que me fizeste cair. Tu que me levantaste depois da queda. Tu que me levaste pelo braço. Tu que foste o mais sólido abraço. Tu que me aconselhaste a não ir por ali. Tu que perdoaste por ter ido pelo caminho errado. Tu que me deste o pão. Tu que apesar de tudo o que fiz me deste razão. Tu que me escutaste sem pressa para ir embora. Tu que por um demorado instante por mim paraste. Tu que me gritaste apelando há sensatez. Tu que me amaste sem me magoar o coração. Tu que me foste protectora sombra. Tu que me deste toda a doçura de uma brisa. Tu que me ofereceste uma flor. Tu que retiraste dela os espinhos que me causariam dor. Tu que abriste a porta para eu passar. Tu que me ajudaste a carregar o peso dos dias. Tu que tornavas a minha tristeza em alegria. Tu que em silêncio me soubeste acompanhar. Tu que me foste farol na noite escura. Tu que me foste cais de segurança. Tu que aguentaste o embate de todas as minhas tempestades. Tu que me fizeste sonhar acordada. Tu que me fizeste ver a beleza da realidade. Tu que me encheste de fé quando já não acreditava em nada. Tu que me fizeste levantar para cada nova madrugada.
Se me perguntarem quem és tu, não saberei responder numa só palavra, num só nome. Foram tantas as pessoas que deixaram alguma coisa em mim, que a dada altura, já não sei quem sou, sinto que no fundo, eu sou tu.


segunda-feira, 13 de julho de 2015

Post.it: Cheia de abraços

“Tens a camisa amachucada”, sim mas não faz mal, pelo contrário, faz bem. Tenho a camisa amarrotadas de muitos e longos abraços, tantos saudosos, tantos amorosos, tantos chorosos. Fazem parte da chegada, fazem parte da despedida. Um adeus que nunca conseguimos dar de coração leve. Um olá que não chega para compensar as saudades de tantos e tantos anos de distância. “Há quantos anos que não te via? “Trinta? Como o tempo passa”. “Estás na mesma, alguns cabelos brancos”. “Simpatia a tua porque são muitos, quase tantos quantos os dias desses 30 anos”.
Temos que deixar de nos encontrar assim, repetem, uns, outros e mais outros, sempre em funerais, porque para as festas nunca temos tempo, o emprego, os filhos, enfim nós e a nossa vida…
Para a morte teremos sempre tempo, para a dos outros e certamente para a nossa. Aí paramos, pensamos, sentimos (se tivermos tempo para isso).
A morte com tudo o que traz de tristeza, de afastamento, tem o seu reverso,  une, ou melhor reúne, a família que se encontra espalhada de norte a sul e além das fronteiras nacionais, os amigos e até os desconhecidos, porque depois de 30 anos, já mal sabemos quem é quem, nos entretanto do caminho,  a família foi aumentado com os casamentos, com os filhos, eles também já quase com 30 anos e com a sua própria descendência.
Onde tenho andado perguntam-me, pergunto-me, e a resposta parece ser sempre a mesma, tenho estado aqui tão perto, mas tão perto que em muitos momentos me pareceu longe. Momentos da nossa vida em que fomos na direcção oposta, em que fomos mais longe e ainda assim, não parámos a meio, sabe-se lá porquê, até porque no coração cresciam as saudades. Foi preciso aquela urgência, aquele medo que alguém partisse, foi preciso que nos dissessem que tínhamos que nos unir num abraço de solidariedade, de coragem, de incentivo como foi aquele jantar de primos há 10 anos, éramos bem mais de 30, mais de 60 braços estendidos para estreitar os sentimentos, as recordações, a vontade de transmitir um pouco de eternidade. E nesse momento sentimos que unidos vencíamos a doença, a dor, o medo, e vencemos.
Agora, aqui, toda a nossa força junta não chegou, a morte venceu, dizem alguns com profundo pesar. Não, dizem outros num tom de voz trémulo de lágrimas, a morte perdeu, venceu a vida, a que teve e a que espalhou em amizade, a prova disso é que aqui estamos, agradecidos e dizendo-lhe um “até breve”
Cheguei a casa, olhei para a minha camisa, não, não está amachucada apenas cheia de abraços, quem me dera guarda-los, na camisa não posso, mas vou guarda-los bem dentro do peito. Espero que não por mais trinta anos para os acrescentar a outros, espero que não seja preciso mais uma despedida para me amachucarem muitas e muitas vezes a camisa.


terça-feira, 7 de julho de 2015

Post.it: Aquela lágrima

O que se passa no interior de uma lágrima? Que ondas, que vendavais, que portos sem-abrigo, que cais sem esperança, que remoinhos de dor. Que saudades, que lembranças. De que caminhos vem cansada, de que sonhos vem abandonada.
Será uma gota de orvalho, caída das noites claras? Será o fechar de olhos do luar por saudades do luminoso sol? Será geada que estremece o inverno? Será a falta daquele quente e terno abraço que a copa das árvores aos ninhos se esqueceu de dar?
É tudo isso, é muito mais, é um retalho do que somos que ao morrer cai,  é uma  lágrima de vida que anseia por ser vivida.
E na transparência que nos ofusca, esconde o que lhe vai na alma, o que lhe vai no corpo. Na sua densidade, na sua imensidade, e no entanto, parece vazia. É o que  pensam os que lhe dedicam apenas um ligeiro observar. Mas não, olhem  bem, aproximem-se, atrevam-se a tocar-lhe com o olhar, escutem-na,  ela tem tanto para contar.  Mas permanece muda, num deslizar quase secreto, de quem nasceu e viveu, apenas e sempre para ser discreta.
 Há água, apenas água, na sua composição, dizem outros sem grande pesar, esses que não lhe auscultam o coração, esses que nunca lhe estendem a mão, que a deixam sem compaixão, deslizar e cair desamparada no chão.
Pessoas, talvez, também com as suas lágrimas. Pessoas que nunca se sentaram ao seu lado, que não a atenderam, que nem sequer por ela pararam. E ela segue o seu destino, de serenidade,  de missão cumprida. Um destino que talvez tenha sido de amar, cuidar, entregar-se a esse querer e acordar, algures, só no amanhecer…


quarta-feira, 1 de julho de 2015

Milagres

Ainda há quem peça milagres,
Quando milagre é existir.
Sobrevivendo às vontades,
De quem nos rouba o sorrir.

Se há milagre que ainda espere,
Se há milagre que ainda queira,
É que a esperança não desespere,
Nem perca a sua vontade pioneira.

Milagre é o dia que adormece,
Com a mais completa sensação,
De que a felicidade acontece.

Quando conseguimos tocar,
Ainda que com ligeira ilusão,
Alguém a quem sentimos amar.


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Santos da casa

Santos da casa não fazem milagres
Mas a esperança não pode acabar.
Quem sabe um dia mudem os ares,
E um coração venha aqui aportar.

Se S. Pedro não me escutar,
Afinal os anos já o ensurdecem.
Que venha S. Paulo para ajudar,
Todos os que de amor carecem.

Não se riam das mezinhas,
Para ao santo agradar.
Para que cheguem a velhinhas
Com o coração a saltitar.

Mas festa é sempre festa,
Com desejos realizados ou não.
Se o milagre não acontecer nesta,
Muitas outras depois ainda virão

O que não pode faltar é alegria,
Para festejar a vida e a ventura. 
De se encontrar em cada dia, 
Motivos  para oferecer ternura.

terça-feira, 23 de junho de 2015

S. João milagreiro

Ao São João que é milagreiro,
Peço com devoção e carinho.
Que engorde o meu mealheiro,
Porque ele anda tão magrinho.

Se a alegria não paga imposto,
O melhor é a festa aproveitar.
Com preço a que está o desgosto,
Ainda terei que me endividar.

De martelinho na mão vou brincar,
Festejando até deixar indisposto,
Quem gosta de para tudo inventar
Algum novo e doloso imposto.

Vou queimar na fogueira o alho-porro,
Fazendo ao Santo um pedido secreto.
Para que por quem tanto corro, 
Fique de mim cada dia mais perto.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Post.it: Dar e receber

Mais uma conversa de “Bus”. Gosto destas conversas, perdoem-me a cusquice,  mas quem passa horas neste meio de transporte, apertado como uma sardinha em lata, tem de se distrair para não entrar em stress, além disso acho algumas tão enriquecedoras desta nossa sociedade com todos os seus defeitos e virtudes que é impossível fechar os ouvidos, desviar o olhar , a menos que me ponha a ler ou a jogar com o telemóvel, coisa impossível para mim que neste tipo de situação fico tremendamente enjoada.
Porém, devo confessar com alguma nostalgia que tenho pena que estas conversas comecem a rarear, que cada vez mais cresça o silêncio, a distância entre companheiros de viagem. Mas vão surgindo outras que me chegam em mono, porque apenas ouço um dos interlocutores enquanto o outro unicamente o adivinho do outro lado da rede, algures na cidade, no país, no planeta. Mas quando há conversas entre duas pessoas presentes, que se olham cara a cara, não deixo de lhes prestar alguma atenção. Aqui fica um pequeno excerto, aquele que me interessou. 
 “ -  Mas tu ofereces para receber?” Perguntava alguém com ar de quem tudo sabe e por isso sente-se no direito de tudo criticar. O tom soou tão reprovador que de imediato a outra pessoa, que por um breve momento intentou responder num culpado encolher de ombros de assentimento positivo, o que podia ser interpretado como uma quase “ fraqueza humana”, perante aquele tom e olhar gravemente recriminatório que olharam os seus de forma desafiante, de imediato endireitou a coluna numa atitude de esforçado  brio e com o orgulho ferido e puxou pelos valores civilizacionais (porque ainda há quem os tenha) e respondeu com falsa firmeza.
 “ - Claro que não, dou sempre sem ficar à espera de receber algo em troca."
Sorri por dentro, chorei por dentro, porque eu, eu humana, frágil, sensível, sincera, verdadeira e cheia de coragem de o ser, que me perdoem se tudo isto é defeito, sim, confesso, dou e fico ansiosamente à espera de receber. 
De receber, tão somente, a ternura de um sorriso.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Post.it: Vá mas, fique

Que fazer com as lembranças se já não as podemos abraçar.  Que fazer com o que fomos se não voltaremos a ser. E as palavras, os silêncios, os sorrisos, a partilha, a amizade como a reter, parar no tempo e ficar aqui. Simplesmente aqui, nesta espécie de limbo de um tempo sem tempo, somente a sentir, a vivenciar.
 De repente, os pilares do que sou ficam abalados. O edifício da minha história estremece, quando tudo passa a ser apenas e só, memória. Não, não me venham com teorias vãs, essa imortalidade, que no fundo não o é, desculpas que inventamos para tentar acreditar, para tentar consolar o sentir e a solidão, para preencher os dias, os anos que ficam cada vez mais vazios de nós.
Era a minha referência, o meu exemplo de vida, quem me dera ficar com essa herança de tranquilidade, de felicidade, de beleza interior, de esplendor em cada gesto. Essa coragem de ser e revelar-se como era. Gravada em cada célula cada vez mais solitária tenho a sua voz baixa, suave, mas firme no que dizia, de tão certa do futuro, porque este era realmente seu. Pertencia-lhe por direito de conquista, de luta sem desistências. E no entanto, mantinha-se tão simples, tão discreta, tão verdadeira. “Tenho saudades suas”, lembro-me bem das vezes que a ouvi pronunciar esta frase sem mágoa, sem cobrança, era suave, envolvente, como deve ser a saudade, no que esta expressão encerra de ternura, de entrega, de dádiva, de gostar. Sim de gostar, um gostar que hoje tão dificilmente se encontra, livre de julgamentos, de críticas, de banalidades. Somente o gostar de estar, de reencontrar essa pessoa e partilhar a simplicidade do existir repartindo-se e ficando cada vez mais inteiro.
Hoje, agora com um coração “egoísta” digo, “não vá” mas a alma generosa conciliada e conciliadora  grita, “vá, vá depressa” para que a morte me doa no peito mas já não mais em si. Por fim quedo-me no mais profundo silêncio, um silêncio de ecos que se repetem pelos lugares mais recônditos do meu ser.
E num suspiro que invade o ar que nos envolve, o adeus, e o desejo mais profundo de que receba esse abraço, o último da vida, primeiro da partida e colha aquilo que sempre foi para os outros, amizade.



segunda-feira, 8 de junho de 2015

Festas da cidade

Lisboa já te espera.
Com o manjerico na mão.
Está velha mas não desespera,
Pelo viver tão grande paixão.

Quem sabe Sto. António atende,
O pedido desta bela cidade.
Que ao rio um suspiro estende,
Para que dele venha a felicidade

Enquanto o Tejo dividido,
Entre cada gentil margem.
Hesita no formal pedido,
E segue a contínua viagem.

Santo e amigo milagreiro,
Fica atento a tão longo amor.
Que por ser forte e verdadeiro,
Merece o teu especial favor.

Lisboa de cabelos brancos,
O Tejo carregado de passados.
Que por terem tantos encantos,
Vão ficar para sempre abraçados.



quinta-feira, 4 de junho de 2015

Post.it: Ventos e marés

Neste barco onde navego pelos mares do pensamento, vou ao leme conduzindo ou deixando-me conduzir. Por vezes em águas tranquilas, por vezes, atravessando bravias tempestades, vou ao leme (como quem nada teme), forte e firme no meu destino. 
Ergo as velas tento ir por ali, mas logo o vento me direcciona noutro sentido. Sonho com um cais onde aportar o sentir. Busco ilhas onde ancorar os sentidos, mas continuo a navegar. Continuo a naufragar, aqui e além nesta épica ventura de viver. 
Quem sabe surja um farol que me erga proa da esperança e me indique um mar mais sereno onde posse aportar a vida. Até lá, permaneço à deriva, até lá, vou-me navegando no que sou, até um dia, um qualquer dia, ano, hiato de tempo, descobrir finalmente para onde vou. Ou quem sabe, como qualquer marinheiro de semelhantes águas, descubro um dia que sempre estive no lugar certo, que este é o meu cais, que este é o meu porto seguro. 
Esteve sempre aqui para mim e eu que estendia o olhar para lá do horizonte estive “cega” de desejos, aspirações, sonhos, fantasias, ilusões, perdendo a oferta generosa da realidade que me estava, afinal, tão perto. 
Faz parte de nós o navegar, faz parte de nós esta inquietude de quem precisa de estar sempre mais além. 
Onde? Saberemos quando lá chegarmos, mesmo que esse lugar seja este onde sempre estivemos, será novo, e por isso mesmo aquele que procurámos a vida inteira. Porque não o vimos antes, porque não o sentimos antes? Porque era preciso viajar, viajar muito dentro de nós para chegarmos ao que somos. Isso leva tempo, por vezes muito tempo, depende… dos ventos e das marés.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Quando ainda somos...

Quando o meu nome for saudade,
E o meu ser liberto de vaidade,
Vaguear no mar da lembrança,
Que já foi grande e se torna criança.
Quando o meu nome quase calado,
Se tornar caminho abandonado,
Como primavera nascida sem flor,
Como coração que bate sem amor.
O ar que dado em breve suspiro,
No sonhar que já não inspiro,
E lá segue amena a madrugada,
Indiferente à noite tão cansada.

De me lembrar que é na vida,
Que se constrói a despedida.
De aprender que a felicidade,
Começa num acto de liberdade.
Percebo então o que deixei partir,
Sem para esse destino sorrir.
Só vemos a luz quando escurece,
Só sentimos o dia quando adormece.
A falta do sol vem quando o frio,
Nos enche de um inverno vazio.
E até mesmo do íngreme caminho,
Se sente falta quando se está sozinho.

Se há um momento, uma hora,
Que seja neste instante, agora.
Que ainda não somos lembrança, 
Que ainda somos esperança.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Post.it: O ladrão

(Sou um ladrão, prendam-me. Roubei suspiros, assaltei corações. Furtei sonhos. Menti, sim menti, enganei, mas foi tudo por Amor. Acreditem!
Mas quem acredita num larápio de ilusões. Quem dá ouvidos a quem planta saudades nos seres mais incautos depois de lhes ter revelado o caminho suave da felicidade. Porque, sim, sou um malandro, daqueles que tem boas falas, gestos mansos, olhar envolvente e palavras que fazem voar os sentimentos. Surripiei beijos, rapinei desejos. Saquei vidas vazias de paixões. Defraudei fantasias. Gamei-lhes a paz, essa paz que tanto apregoam quando no fundo, bem lá no fundo das verdades omitidas, queriam muito conhecer o idílico sentimento amoroso. Neguem, neguem se puderem, envolvam-se em falsos pudores, mas foi no meu leito de ondulantes madrugadas que desposaram em mim os mais ternos recatos. Chamem-me todos os nomes que só um marialva deve escutar, mas depois, mesmo que seja muito depois, sequem as lágrimas de orgulho ferido, de ego magoado e reconheçam que fui a história mais complicada e mais ditosa que viveram. Reconheçam que o mar é lindo quando está pacifico mas, quem resiste à atracção de mergulhar nem que seja unicamente com o olhar nas mais fortes tempestades. Quem resiste a arriscar a vida por quimeras que se derramam pela margem e sucumbem na areia, foi feliz, foi doloroso, talvez, mas pela viagem repetiam uma, mil vezes...
Prendam-me, condenem-me ao cárcere por mil anos. Assumo, sou culpado, sim sou culpado, porque amei!)
Merece a liberdade quem ama, todas as vezes que o seu coração abraçar o sentimento. Merece a liberdade quem se entrega sem medo do futuro. Merece a liberdade quem rompe com as fronteiras do tempo e acende em alguém centelhas de eternidade. 
Condenados sejam os “juízes” que nos fazem prisioneiros do infortúnio em nome de uma felicidade ausente de emoções. Condenados sejam aqueles que não sabem amar.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Post.it: A vida resolve

Tudo vem tudo me passa e ao passar, minto, se disser que não me fica. Numa célula de vida, num recanto da alma, no esconderijo secreto do olhar. Mas passa, garanto que passa, com mágoa ou sem ela, com saudade ou esquecimento, passa. 
 No que fica, o vago embaraço da lembrança, os resquícios ténues do que foi esperança… Cresce a semente, um pouco mais de nós, numa centelha que altera por instantes o frágil timbre da voz. Um adeus que queremos e não queremos dizer. Um espaço que fica para um outro olá. Há quem desista dos recomeços, há quem não queira mais enfrentar os dias e sobretudo as noites que lhe são escuridão dentro do peito. Mas que pudemos fazer se as águas nos avassalam, se as ondas nos impelem a seguir. Remar contra a maré, ficar âncoras de orgulho? Não, não vale a pena, quando ainda há tanto céu para enchermos de estrelas, de luares, de sois, de madrugadas, de chuvas de Março que fazem despontar a primavera. Há sonhos para sonhar e uns quantos para concretizar. Não, não nos vamos agarrar ao passado quando à nossa frente o futuro nos estende os braços e nos incentiva a atravessar a ponte libertando-nos da prisão de ser finita margem. O horizonte pertence-nos, a estrada é o caminho certo, seja qual for a direção. E depois, mais tarde ou mais cedo há uma certeza que temos de reconhecer, que temos que repetir em todas as ocasiões quando a dúvida nos quer sufocar, vamos sorri, confia, que a vida resolve.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Post.it: O nosso impar...

 “Ninguém é igual a ninguém. Somos um estranho impar”. Há momentos em que procuramos a completude nos outros, mas acabamos sempre sozinhos, não falo em finais, em rompimentos, em adeus sem regresso. Mas de silêncios que nos crescem no peito, quando as palavras, todas elas, já foram ditas e, mesmo quando as repetimos apesar de nos parecerem novas, são as mesmas para semelhantes dilemas, ou para outros que entretanto criámos. Porque vá para onde formos. Porque mesmo quando crescemos e nos multiplicamos, somos e seremos sempre apenas nós, sós.
 Não porque o escolhemos, mas porque fomos escolhidos. Faz parte do que somos, esta necessidade de estar, de voar para longe de tudo e ficarmos mais próximos de nós. Às vezes, mas só mesmo muito às vezes, bem que nos apetecia que alguém viesse desarrumar a nossa vida, desordenar os nossos sentidos, um a um até só restar como primordial aquele que nos olha de frente como um abismo, quem sabe para mergulharmos, se ao menos tivéssemos coragem, de morrer, de renascer… 
Mas não, o silêncio já nos chama e nós como um filho do mar e da onda deixa-mo-nos ir nesse embalo, porque sabemos que nada é tão bom, tão doce, tão terno quanto esse abraço. Só tu me permites ser o que sou. Só tu entendes os meus silêncios, já os conheces, dizes que até já “gostas deles”. Porque tu, tal como eu, sabes, que fazemos, um impar perfeito.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Amostra

Se o destino me visse,
Se o destino me olhasse.
Talvez ele de mim se risse,
Talvez ele por mim chorasse.

Pelo caminho que já andei,
Pelo caminho que me falta andar.
Por tudo aquilo que lutei,
Por tudo o que deixei de lutar.

Entendam, sou humana,
Sou apenas o que faço.
Quando do amanhecer emana,
Um dia que leva ao cansaço.

O passado, já há muito passou,
O futuro, ainda demora para vir.
E eu, que simplesmente estou,
Continuo sem saber para onde ir.

Porque o que sinto, vale a pena,
Porque o que sinto, vou sonhando.
Que a vida é amostra tão pequena, 
Do que de mim vos vou revelando.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Post.it: O nosso momento

Sou um rosto entre muitos outros, sou apenas um passageiro nos transportes públicos, tento ler, impossível a minha “vizinha” do lugar em frente está audivelmente entretida a conversar através do telemóvel. Olho-a sem ela me olhar, escuto-a não por curiosidade mas porque é impossível não ouvir o que diz. Em poucos minutos fico a saber tanto sobre si: Chama-se Raquel, “depois ela disse Raquel tem de ter atenção ao que faz”. O que fazia? Trabalhava numa agência de viagens “vai ter de remarcar aquela viagem e explicar a alteração ao cliente”. Estava chateada, sentia-se injustiçada, “mas a culpa foi dela que veio alterar a minha página no computador, agora diz que o erro foi meu”. Era casada, ainda apaixonada, “Sim amor eu sei, mas que queres irrita-me, um dia deste passo-me”. Tinha filhos “olha vais buscar as crianças à escola? É que eu já estou atrasa por causa daquela C***”. Não se importava com quem estava a seu lado “Estou a dizer asneira? Ora quero lá saber, quem não quiser ouvir tape os ouvidos, vivemos num país livre”. De repente senti-me envergonhada por estar a invadir a sua liberdade de estar, ensurdeci-me, fugi com o olhar para a janela. Por um curto instante, de imediato a minha atenção voltou a ficar presa nela, chorava (eram os nervos, o desabafo. Aquela estranha chorava e a mim doía-me como se a sua mágoa fosse igualmente minha. Porque também eu me tinha chateado no emprego nesse dia, também a mim me apetecia gritar impropérios adequados à atitude da minha colega, de C*** para baixo. Também me apetecia saber que regressava a casa e encontrava alguém amoroso à minha espera, as crianças a sorrir e aquela voz terna a dizer-me que o dia de amanhã será muito melhor. Fechava a porta, fechava as lembranças, fechava o dia, fechava por fim com o corpo o estreitamento daquele abraço. 
Quando desceu do autocarro, apeteceu-me oferecer-lhe um sorriso, um adeus, quem sabe, um até amanhã se vier de novo atrasada, ou um até nunca mais se apanhar o autocarro previsto. Adeus Raquel, continuará no seu emprego, a aturar a sua colega, a correr para os transportes, a correr para casa, para a família e a afastar-se de mim. Eu que nada signifiquei na sua vida, na curta viagem, não sabe nada sobre a minha pessoa, nem o nome, o que faço, como vivo. Não olhou sequer para o meu rosto, para ela continuei anónima. Para mim ela não é mais uma pessoa anónima, tornou-se uma companheira, uma “amiga” que me deu a conhecer um pouco da sua história e me fez acreditar que, aconteça o que acontecer, no final do dia, pode haver um momento, por pequeno que seja que é nosso, maravilhosamente nosso.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Post.it: A liberdade

“A liberdade está a passar por aqui”, (se não houver greve dos transportes públicos).
Uma liberdade que foi conquistada há cerca de 40 anos e que existe realmente… 
Há liberdade para se fazer greve. Mas que não altera nada as razões da sua luta. Pode-se expressar livremente, até porque já ninguém escuta. Tem-se direito de voto, escolher quem queremos que nos governe, mas não conseguimos obter o direito a que nos governe bem. Podemos pedir emprego e obter despedimento, aumento salarial e obter redução.
“A liberdade está a passar por aqui”, mas não é a nossa liberdade, não aquela que levou à revolução dos cravos. É a liberdade de quem pode despedir sem razões para isso, destituir cada um da sua dignidade, do direito à saúde. A liberdade de surripiar direitos há muito adquiridos, herança de tantas lutas passadas. 
“A liberdade está a passar por aqui” e a ir-se embora. Fica a história para assinalar a data, fica o feriado (por enquanto) para descanso do cidadão. Fica a esperança, que a liberdade não passe, que fique, que pertença a todos e que seja usada com rigor, com humanidade, em Democracia (cuja característica principal é a proteção dos direitos humanos fundamentais, como a liberdade de expressão, de religião, a proteção legal e cultural da sociedade, e o dever de participar no sistema político que vai proteger os seus direitos e liberdade). 

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Post.it: O dia da Terra

Que o mar a abrace e lhe seja cais de repouso, que o céu a cubra com o seu manto  azul, que o sol lhe sorria em tom de festa, que as árvores a cumprimentem dançantes, que as andorinhas, os pardais, melros e gaivotas unidos façam um coro de melodiosas e aniversariantes canções, que eu, (humanidade), que nada tenho para lhe dar, já que é ela que tudo generosamente me oferece, lhe dê a minha admiração, o meu cuidado, que a olhe com o coração, que lhe toque simplesmente com o olhar e lhe diga obrigada por existir e me permitir existir nele. Que eu, sem nada mais fazer, faça tudo o que ela precisa, que não a destrua, que não a magoe, que não a esqueça. 
Que faça dos meus passos uma leve caricia no seu caminho. Que faça dos meus gestos a ternura de quem cuida, e se dá em perfeita simbiose de sonhos, de construção, de futuro. Porque eu que sou apenas uma gota no seu oceano, um grão de areia no seu areal, uma partícula de azul no seu céu mas amo-a, com um amor tamanho de uma galáxia, e um querer tão imenso como o universo. Neste dia que de homenagem à Terra, quero juntar-me aos que a festejam e desejar-lhe que seja para sempre bela, generosa e tenha um dia, um ano, a eternidade, repleta de felicidade.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Um poema

Letra semeada na página branca,
Linha lavrada pela mão que a levanta.
Estrada regada de riso e de mágoa,
Emoção que segue na corrente da água.

Porque o poema dói ao não ser perfeito,
Como um filho que nasce dentro do peito.
Quem pode entender o que ele diz,
Se não souber o que o faz sentir-se feliz.

Uma felicidade que há tanto declama,
Tornada saudade que sempre o chama,
Pois não é mais que poesia carente.

Não é mais que sonho dormente,
Na cama onde é poema acordado,
À espera do afago do céu estrelado.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Post.it: Sociedade

Viver em sociedade, na cidade, no campo, viver com pessoas, entre pessoas e às vezes tão longe delas. Acordar sozinha, conversando com os pensamentos. Há quem diga que já não existe solidão, há a internet essa rede que une galáxias mas unirá pessoas? Há o facebook, o twitter e mais umas quantas redes de amizade e “amizade”. Mas há diálogo, companheirismo, partilha? Há a presença de quem escuta, de quem aconselha, de quem apoia e eleva a moral? Há quem nos aconchegue com um abraço, nos olhe nos olhos, quem nos ampare uma lágrima, que nos faça sorrir, quem nos arranque uma inesperada gargalhada?
Vivemos em sociedade, mas o que é uma sociedade, alguém o sabe, alguém o vive verdadeiramente?
Por sociedade entende-se um conjunto de seres que convivem de forma organizada. Palavra que vem do latim e se define como “associação amistosa com outros”. Um colectivo humano que zela pelo bem-estar desse grupo.
Mas hoje  como se entende, como se vive nesta sociedade que se moderniza, que se individualiza?
Já tiveram a “sorte” de vos dizerem, “não sou uma pessoa sociável”, mas esperam, que os outros o sejam? Já vos aconteceu escrever um e-mail em que relatam os vossos queixumes e obter como resposta os queixumes dessa outra pessoa? Ficamos sem saber se devemos entrar em comparações e ficar por isso mais aliviados pela brandura das nossas inconstâncias.
A verdade, verdadinha, é que cada um construiu à sua volta um muro (por vezes de lamentações), uma ilha de desresponsabilização, um mundo de fronteiras pessoais. Para além destes novos universos, felizmente, ainda há os “clássicos”, os que entendem que a sociedade é um valor que personificamos, que nos edifica e humaniza. Que podemos viver sem muros, que nos podemos unir em múltiplas penínsulas, que contamos com os outros e os outros connosco, que espalhamos sementes, cuidamos delas e as vemos florescer à nossa volta como sociedade assente na valorização da Amizade.



sexta-feira, 10 de abril de 2015

Post.it: Carta ao coração

 Sempre quiseste voar e eu cortei-te as asas. Sempre quiseste sonhar e eu acordei-te. Sempre quiseste amar e eu contrapus a razão. Sempre quiseste ser feliz e eu apresentei-te a dura realidade. Sempre me deste o melhor de ti e eu fingi que não te via.
E apesar do teu querer e apesar do meu ser, sempre vivemos em quase e plena harmonia, claro que tivemos as nossas discussões, as nossas guerras, lágrimas, batemos com a porta, desistimos, quisemos partir, mas voltámos, voltamos sempre. Tu cedias, eu aceitava. Então prometíamos cuidar um do outro, respeitarmo-nos, cumpríamos…
E é nesta relação ondulante de altos e baixos, de chuva e de sol que nos amamos, que nos cuidamos, tu mais de mim do que eu de ti, é bem verdade, reconheço.
O passar dos anos vai-me acalmando, dando outra visão de ti, de mim, de nós. Se voltasse para trás, certamente voltaria a fazer tudo da mesma forma, está na minha natureza, esta luta, esta incerteza, este racionalismo sentimental. Continuaria a escutar a razão sem te ouvir a ti, coração. Mas tenho a certeza que posso mudar o futuro, porque vou descobrindo em mim uma pessoa com mais traços de ti. 
Quando me olho no espelho vejo o teu sorriso, o brilho do teu olhar. És cada vez mais tu que me defines, sinto-te, escuto-te, amo-te. Sim amo-te, sabes bem como me é difícil fazer esta declaração, fui sempre discreta, tímida, fria (dirás), mas não era verdade, era medo, medo de me perder em ti, de me perder por ti, ficar frágil, vulnerável, ferida, magoada ao caminharmos juntos pela mesma estrada. Mas já não temo, descobri que só se é feliz quando se vive a vida por inteiro, celebrando-a em todos os seus momentos: nos sucessos, e na superação dos fracassos. Suspiras-me no peito, há quanto tempo me esperas, toda a nossa vida passada e rejubilas por toda a nossa vida futura, agora que estamos finalmente juntos.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Post.it: Insónia


Insónia, velha amiga, companheira da longa caminhada das noites sem sonhos, só o tic tac do relógio permanece rompendo o vago silêncio. Porque as horas têm o seu próprio som e acompanha a melodia das estrelas, a toada madrugadora das aves, o sopro murmurante do vento, a dança dos ramos daa árvores, do cão que ladra a qualquer ameaça de invasão, do galo que confunde as horas, do gato que mia o desespero de a todo o custo conquistar a gata que o rejeita. Do carro que chega com roncos de motor cansado, vem de um longo turno de trabalho. Desse outro que num som diferente estremece a noite com arrancos de quem foi literalmente sonegado ao sono, quem sabe ao sonho dormente.
Insónia, velha amiga, que histórias escreve a noite, de vidas que vêm vão e de outras tantas que apenas estão inertes e confiantes que o amanhã chegará para o melhor das suas vidas. 
Acendo a tv, mas nada da sua programação me prende a atenção, não me acomoda. Acendo o rádio mas nem a sua música me aconchega, o mp 3 tem melodias que agora não me apetece ouvir; ler, sim podia ser uma opção, tenho tantos livros em aguardando a caricia de um olhar, o carinho suave dos dedos ao virar a página, mas dá-me preguiça tirar as mãos para fora das mantas. Restam-me os pensamentos, que me vêm em turbilhão como ondas gigantes de uma tempestade avassaladora, pouco a pouco vão-se aquietando, e de mansinho vão-me embalando, e quase, mas apenas quase me adormecendo. E nesse quase sono, por um instante vislumbro a portada dos sonhos, eis que o relógio despertador toca, insiste, ignoro-o, mas ele persiste. Que lhe importa o cansaço da noite não dormida, que lhe importa que as minhas horas tenham sido contrárias à tranquilidade das suas. Cumpre a sua missão como um soldado que ostenta a farda com estóica honra. Mais cinco minutos atrevo-me a pedir… 
Inflexível o relógio volta a repetir o seu toque estridente, como se fosse uma implacável ordem, quando o paro, o silêncio volta a envolver-me num abraço de esperança, “tem paciência, verás que logo à noite dormirás estes 5 minutos e muitos outros, suspiro conformada, mas ainda com forças para resmungar num sussurro, “pois sim, se a minha amiga insónia não me vier fazer companhia.”

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Páscoa Amiga

Se me fosses Páscoa no peito,
A dor transformada em luz.
Sonho que não acorda desfeito,
E que pelo caminho me conduz.

Se me fosses Páscoa em cada dia,
Que busco o sentido da vida.
Quando a tristeza cede à alegria,
E a missão de viver é percebida.

Se me fosses Páscoa sem solidão,
Partilhada no bem-querer,
Que exulta do fundo do coração.

Numa Páscoa de felicidade,
Com o sentir do renascer, 
Na mais profunda amizade.