quinta-feira, 21 de maio de 2015

Post.it: O ladrão

(Sou um ladrão, prendam-me. Roubei suspiros, assaltei corações. Furtei sonhos. Menti, sim menti, enganei, mas foi tudo por Amor. Acreditem!
Mas quem acredita num larápio de ilusões. Quem dá ouvidos a quem planta saudades nos seres mais incautos depois de lhes ter revelado o caminho suave da felicidade. Porque, sim, sou um malandro, daqueles que tem boas falas, gestos mansos, olhar envolvente e palavras que fazem voar os sentimentos. Surripiei beijos, rapinei desejos. Saquei vidas vazias de paixões. Defraudei fantasias. Gamei-lhes a paz, essa paz que tanto apregoam quando no fundo, bem lá no fundo das verdades omitidas, queriam muito conhecer o idílico sentimento amoroso. Neguem, neguem se puderem, envolvam-se em falsos pudores, mas foi no meu leito de ondulantes madrugadas que desposaram em mim os mais ternos recatos. Chamem-me todos os nomes que só um marialva deve escutar, mas depois, mesmo que seja muito depois, sequem as lágrimas de orgulho ferido, de ego magoado e reconheçam que fui a história mais complicada e mais ditosa que viveram. Reconheçam que o mar é lindo quando está pacifico mas, quem resiste à atracção de mergulhar nem que seja unicamente com o olhar nas mais fortes tempestades. Quem resiste a arriscar a vida por quimeras que se derramam pela margem e sucumbem na areia, foi feliz, foi doloroso, talvez, mas pela viagem repetiam uma, mil vezes...
Prendam-me, condenem-me ao cárcere por mil anos. Assumo, sou culpado, sim sou culpado, porque amei!)
Merece a liberdade quem ama, todas as vezes que o seu coração abraçar o sentimento. Merece a liberdade quem se entrega sem medo do futuro. Merece a liberdade quem rompe com as fronteiras do tempo e acende em alguém centelhas de eternidade. 
Condenados sejam os “juízes” que nos fazem prisioneiros do infortúnio em nome de uma felicidade ausente de emoções. Condenados sejam aqueles que não sabem amar.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Post.it: A vida resolve

Tudo vem tudo me passa e ao passar, minto, se disser que não me fica. Numa célula de vida, num recanto da alma, no esconderijo secreto do olhar. Mas passa, garanto que passa, com mágoa ou sem ela, com saudade ou esquecimento, passa. 
 No que fica, o vago embaraço da lembrança, os resquícios ténues do que foi esperança… Cresce a semente, um pouco mais de nós, numa centelha que altera por instantes o frágil timbre da voz. Um adeus que queremos e não queremos dizer. Um espaço que fica para um outro olá. Há quem desista dos recomeços, há quem não queira mais enfrentar os dias e sobretudo as noites que lhe são escuridão dentro do peito. Mas que pudemos fazer se as águas nos avassalam, se as ondas nos impelem a seguir. Remar contra a maré, ficar âncoras de orgulho? Não, não vale a pena, quando ainda há tanto céu para enchermos de estrelas, de luares, de sois, de madrugadas, de chuvas de Março que fazem despontar a primavera. Há sonhos para sonhar e uns quantos para concretizar. Não, não nos vamos agarrar ao passado quando à nossa frente o futuro nos estende os braços e nos incentiva a atravessar a ponte libertando-nos da prisão de ser finita margem. O horizonte pertence-nos, a estrada é o caminho certo, seja qual for a direção. E depois, mais tarde ou mais cedo há uma certeza que temos de reconhecer, que temos que repetir em todas as ocasiões quando a dúvida nos quer sufocar, vamos sorri, confia, que a vida resolve.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Post.it: O nosso impar...

 “Ninguém é igual a ninguém. Somos um estranho impar”. Há momentos em que procuramos a completude nos outros, mas acabamos sempre sozinhos, não falo em finais, em rompimentos, em adeus sem regresso. Mas de silêncios que nos crescem no peito, quando as palavras, todas elas, já foram ditas e, mesmo quando as repetimos apesar de nos parecerem novas, são as mesmas para semelhantes dilemas, ou para outros que entretanto criámos. Porque vá para onde formos. Porque mesmo quando crescemos e nos multiplicamos, somos e seremos sempre apenas nós, sós.
 Não porque o escolhemos, mas porque fomos escolhidos. Faz parte do que somos, esta necessidade de estar, de voar para longe de tudo e ficarmos mais próximos de nós. Às vezes, mas só mesmo muito às vezes, bem que nos apetecia que alguém viesse desarrumar a nossa vida, desordenar os nossos sentidos, um a um até só restar como primordial aquele que nos olha de frente como um abismo, quem sabe para mergulharmos, se ao menos tivéssemos coragem, de morrer, de renascer… 
Mas não, o silêncio já nos chama e nós como um filho do mar e da onda deixa-mo-nos ir nesse embalo, porque sabemos que nada é tão bom, tão doce, tão terno quanto esse abraço. Só tu me permites ser o que sou. Só tu entendes os meus silêncios, já os conheces, dizes que até já “gostas deles”. Porque tu, tal como eu, sabes, que fazemos, um impar perfeito.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Amostra

Se o destino me visse,
Se o destino me olhasse.
Talvez ele de mim se risse,
Talvez ele por mim chorasse.

Pelo caminho que já andei,
Pelo caminho que me falta andar.
Por tudo aquilo que lutei,
Por tudo o que deixei de lutar.

Entendam, sou humana,
Sou apenas o que faço.
Quando do amanhecer emana,
Um dia que leva ao cansaço.

O passado, já há muito passou,
O futuro, ainda demora para vir.
E eu, que simplesmente estou,
Continuo sem saber para onde ir.

Porque o que sinto, vale a pena,
Porque o que sinto, vou sonhando.
Que a vida é amostra tão pequena, 
Do que de mim vos vou revelando.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Post.it: O nosso momento

Sou um rosto entre muitos outros, sou apenas um passageiro nos transportes públicos, tento ler, impossível a minha “vizinha” do lugar em frente está audivelmente entretida a conversar através do telemóvel. Olho-a sem ela me olhar, escuto-a não por curiosidade mas porque é impossível não ouvir o que diz. Em poucos minutos fico a saber tanto sobre si: Chama-se Raquel, “depois ela disse Raquel tem de ter atenção ao que faz”. O que fazia? Trabalhava numa agência de viagens “vai ter de remarcar aquela viagem e explicar a alteração ao cliente”. Estava chateada, sentia-se injustiçada, “mas a culpa foi dela que veio alterar a minha página no computador, agora diz que o erro foi meu”. Era casada, ainda apaixonada, “Sim amor eu sei, mas que queres irrita-me, um dia deste passo-me”. Tinha filhos “olha vais buscar as crianças à escola? É que eu já estou atrasa por causa daquela C***”. Não se importava com quem estava a seu lado “Estou a dizer asneira? Ora quero lá saber, quem não quiser ouvir tape os ouvidos, vivemos num país livre”. De repente senti-me envergonhada por estar a invadir a sua liberdade de estar, ensurdeci-me, fugi com o olhar para a janela. Por um curto instante, de imediato a minha atenção voltou a ficar presa nela, chorava (eram os nervos, o desabafo. Aquela estranha chorava e a mim doía-me como se a sua mágoa fosse igualmente minha. Porque também eu me tinha chateado no emprego nesse dia, também a mim me apetecia gritar impropérios adequados à atitude da minha colega, de C*** para baixo. Também me apetecia saber que regressava a casa e encontrava alguém amoroso à minha espera, as crianças a sorrir e aquela voz terna a dizer-me que o dia de amanhã será muito melhor. Fechava a porta, fechava as lembranças, fechava o dia, fechava por fim com o corpo o estreitamento daquele abraço. 
Quando desceu do autocarro, apeteceu-me oferecer-lhe um sorriso, um adeus, quem sabe, um até amanhã se vier de novo atrasada, ou um até nunca mais se apanhar o autocarro previsto. Adeus Raquel, continuará no seu emprego, a aturar a sua colega, a correr para os transportes, a correr para casa, para a família e a afastar-se de mim. Eu que nada signifiquei na sua vida, na curta viagem, não sabe nada sobre a minha pessoa, nem o nome, o que faço, como vivo. Não olhou sequer para o meu rosto, para ela continuei anónima. Para mim ela não é mais uma pessoa anónima, tornou-se uma companheira, uma “amiga” que me deu a conhecer um pouco da sua história e me fez acreditar que, aconteça o que acontecer, no final do dia, pode haver um momento, por pequeno que seja que é nosso, maravilhosamente nosso.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Post.it: A liberdade

“A liberdade está a passar por aqui”, (se não houver greve dos transportes públicos).
Uma liberdade que foi conquistada há cerca de 40 anos e que existe realmente… 
Há liberdade para se fazer greve. Mas que não altera nada as razões da sua luta. Pode-se expressar livremente, até porque já ninguém escuta. Tem-se direito de voto, escolher quem queremos que nos governe, mas não conseguimos obter o direito a que nos governe bem. Podemos pedir emprego e obter despedimento, aumento salarial e obter redução.
“A liberdade está a passar por aqui”, mas não é a nossa liberdade, não aquela que levou à revolução dos cravos. É a liberdade de quem pode despedir sem razões para isso, destituir cada um da sua dignidade, do direito à saúde. A liberdade de surripiar direitos há muito adquiridos, herança de tantas lutas passadas. 
“A liberdade está a passar por aqui” e a ir-se embora. Fica a história para assinalar a data, fica o feriado (por enquanto) para descanso do cidadão. Fica a esperança, que a liberdade não passe, que fique, que pertença a todos e que seja usada com rigor, com humanidade, em Democracia (cuja característica principal é a proteção dos direitos humanos fundamentais, como a liberdade de expressão, de religião, a proteção legal e cultural da sociedade, e o dever de participar no sistema político que vai proteger os seus direitos e liberdade). 

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Post.it: O dia da Terra

Que o mar a abrace e lhe seja cais de repouso, que o céu a cubra com o seu manto  azul, que o sol lhe sorria em tom de festa, que as árvores a cumprimentem dançantes, que as andorinhas, os pardais, melros e gaivotas unidos façam um coro de melodiosas e aniversariantes canções, que eu, (humanidade), que nada tenho para lhe dar, já que é ela que tudo generosamente me oferece, lhe dê a minha admiração, o meu cuidado, que a olhe com o coração, que lhe toque simplesmente com o olhar e lhe diga obrigada por existir e me permitir existir nele. Que eu, sem nada mais fazer, faça tudo o que ela precisa, que não a destrua, que não a magoe, que não a esqueça. 
Que faça dos meus passos uma leve caricia no seu caminho. Que faça dos meus gestos a ternura de quem cuida, e se dá em perfeita simbiose de sonhos, de construção, de futuro. Porque eu que sou apenas uma gota no seu oceano, um grão de areia no seu areal, uma partícula de azul no seu céu mas amo-a, com um amor tamanho de uma galáxia, e um querer tão imenso como o universo. Neste dia que de homenagem à Terra, quero juntar-me aos que a festejam e desejar-lhe que seja para sempre bela, generosa e tenha um dia, um ano, a eternidade, repleta de felicidade.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Um poema

Letra semeada na página branca,
Linha lavrada pela mão que a levanta.
Estrada regada de riso e de mágoa,
Emoção que segue na corrente da água.

Porque o poema dói ao não ser perfeito,
Como um filho que nasce dentro do peito.
Quem pode entender o que ele diz,
Se não souber o que o faz sentir-se feliz.

Uma felicidade que há tanto declama,
Tornada saudade que sempre o chama,
Pois não é mais que poesia carente.

Não é mais que sonho dormente,
Na cama onde é poema acordado,
À espera do afago do céu estrelado.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Post.it: Sociedade

Viver em sociedade, na cidade, no campo, viver com pessoas, entre pessoas e às vezes tão longe delas. Acordar sozinha, conversando com os pensamentos. Há quem diga que já não existe solidão, há a internet essa rede que une galáxias mas unirá pessoas? Há o facebook, o twitter e mais umas quantas redes de amizade e “amizade”. Mas há diálogo, companheirismo, partilha? Há a presença de quem escuta, de quem aconselha, de quem apoia e eleva a moral? Há quem nos aconchegue com um abraço, nos olhe nos olhos, quem nos ampare uma lágrima, que nos faça sorrir, quem nos arranque uma inesperada gargalhada?
Vivemos em sociedade, mas o que é uma sociedade, alguém o sabe, alguém o vive verdadeiramente?
Por sociedade entende-se um conjunto de seres que convivem de forma organizada. Palavra que vem do latim e se define como “associação amistosa com outros”. Um colectivo humano que zela pelo bem-estar desse grupo.
Mas hoje  como se entende, como se vive nesta sociedade que se moderniza, que se individualiza?
Já tiveram a “sorte” de vos dizerem, “não sou uma pessoa sociável”, mas esperam, que os outros o sejam? Já vos aconteceu escrever um e-mail em que relatam os vossos queixumes e obter como resposta os queixumes dessa outra pessoa? Ficamos sem saber se devemos entrar em comparações e ficar por isso mais aliviados pela brandura das nossas inconstâncias.
A verdade, verdadinha, é que cada um construiu à sua volta um muro (por vezes de lamentações), uma ilha de desresponsabilização, um mundo de fronteiras pessoais. Para além destes novos universos, felizmente, ainda há os “clássicos”, os que entendem que a sociedade é um valor que personificamos, que nos edifica e humaniza. Que podemos viver sem muros, que nos podemos unir em múltiplas penínsulas, que contamos com os outros e os outros connosco, que espalhamos sementes, cuidamos delas e as vemos florescer à nossa volta como sociedade assente na valorização da Amizade.



sexta-feira, 10 de abril de 2015

Post.it: Carta ao coração

 Sempre quiseste voar e eu cortei-te as asas. Sempre quiseste sonhar e eu acordei-te. Sempre quiseste amar e eu contrapus a razão. Sempre quiseste ser feliz e eu apresentei-te a dura realidade. Sempre me deste o melhor de ti e eu fingi que não te via.
E apesar do teu querer e apesar do meu ser, sempre vivemos em quase e plena harmonia, claro que tivemos as nossas discussões, as nossas guerras, lágrimas, batemos com a porta, desistimos, quisemos partir, mas voltámos, voltamos sempre. Tu cedias, eu aceitava. Então prometíamos cuidar um do outro, respeitarmo-nos, cumpríamos…
E é nesta relação ondulante de altos e baixos, de chuva e de sol que nos amamos, que nos cuidamos, tu mais de mim do que eu de ti, é bem verdade, reconheço.
O passar dos anos vai-me acalmando, dando outra visão de ti, de mim, de nós. Se voltasse para trás, certamente voltaria a fazer tudo da mesma forma, está na minha natureza, esta luta, esta incerteza, este racionalismo sentimental. Continuaria a escutar a razão sem te ouvir a ti, coração. Mas tenho a certeza que posso mudar o futuro, porque vou descobrindo em mim uma pessoa com mais traços de ti. 
Quando me olho no espelho vejo o teu sorriso, o brilho do teu olhar. És cada vez mais tu que me defines, sinto-te, escuto-te, amo-te. Sim amo-te, sabes bem como me é difícil fazer esta declaração, fui sempre discreta, tímida, fria (dirás), mas não era verdade, era medo, medo de me perder em ti, de me perder por ti, ficar frágil, vulnerável, ferida, magoada ao caminharmos juntos pela mesma estrada. Mas já não temo, descobri que só se é feliz quando se vive a vida por inteiro, celebrando-a em todos os seus momentos: nos sucessos, e na superação dos fracassos. Suspiras-me no peito, há quanto tempo me esperas, toda a nossa vida passada e rejubilas por toda a nossa vida futura, agora que estamos finalmente juntos.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Post.it: Insónia


Insónia, velha amiga, companheira da longa caminhada das noites sem sonhos, só o tic tac do relógio permanece rompendo o vago silêncio. Porque as horas têm o seu próprio som e acompanha a melodia das estrelas, a toada madrugadora das aves, o sopro murmurante do vento, a dança dos ramos daa árvores, do cão que ladra a qualquer ameaça de invasão, do galo que confunde as horas, do gato que mia o desespero de a todo o custo conquistar a gata que o rejeita. Do carro que chega com roncos de motor cansado, vem de um longo turno de trabalho. Desse outro que num som diferente estremece a noite com arrancos de quem foi literalmente sonegado ao sono, quem sabe ao sonho dormente.
Insónia, velha amiga, que histórias escreve a noite, de vidas que vêm vão e de outras tantas que apenas estão inertes e confiantes que o amanhã chegará para o melhor das suas vidas. 
Acendo a tv, mas nada da sua programação me prende a atenção, não me acomoda. Acendo o rádio mas nem a sua música me aconchega, o mp 3 tem melodias que agora não me apetece ouvir; ler, sim podia ser uma opção, tenho tantos livros em aguardando a caricia de um olhar, o carinho suave dos dedos ao virar a página, mas dá-me preguiça tirar as mãos para fora das mantas. Restam-me os pensamentos, que me vêm em turbilhão como ondas gigantes de uma tempestade avassaladora, pouco a pouco vão-se aquietando, e de mansinho vão-me embalando, e quase, mas apenas quase me adormecendo. E nesse quase sono, por um instante vislumbro a portada dos sonhos, eis que o relógio despertador toca, insiste, ignoro-o, mas ele persiste. Que lhe importa o cansaço da noite não dormida, que lhe importa que as minhas horas tenham sido contrárias à tranquilidade das suas. Cumpre a sua missão como um soldado que ostenta a farda com estóica honra. Mais cinco minutos atrevo-me a pedir… 
Inflexível o relógio volta a repetir o seu toque estridente, como se fosse uma implacável ordem, quando o paro, o silêncio volta a envolver-me num abraço de esperança, “tem paciência, verás que logo à noite dormirás estes 5 minutos e muitos outros, suspiro conformada, mas ainda com forças para resmungar num sussurro, “pois sim, se a minha amiga insónia não me vier fazer companhia.”

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Páscoa Amiga

Se me fosses Páscoa no peito,
A dor transformada em luz.
Sonho que não acorda desfeito,
E que pelo caminho me conduz.

Se me fosses Páscoa em cada dia,
Que busco o sentido da vida.
Quando a tristeza cede à alegria,
E a missão de viver é percebida.

Se me fosses Páscoa sem solidão,
Partilhada no bem-querer,
Que exulta do fundo do coração.

Numa Páscoa de felicidade,
Com o sentir do renascer, 
Na mais profunda amizade.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Post.it: Mentira

É mentira que o inverno que me deixaste no peito já deixou de invadir com a sua chuva os meus sentidos. É mentira que a primavera já tomou o teu lugar. É mentira que já não me navegas na esperança, que apaguei de ti toda e qualquer lembrança, é mentira.
Quantas vezes a mentira é a única forma de  verdade que temos, e sorrimos porque é preciso que o sol volte a brilhar. E sonhamos, agora só quando o sono nos acalenta, porque o dia já não tem mais fantasias. É mentira que o luar ainda nos abrace, que a noite nos concilie os sentimentos. É mentira que ainda existam em nós aqueles momentos. Mas seguimos o nosso caminho, agora que os passos se desencontraram e cada um vai à descoberta dos seus, vou à descoberta dos meus. É mentira que te deixo simplesmente partir, que te aceno sem tristeza. É mentira e só tu não vês, só tu acreditas nessa mentira que vou insistindo ser verdade. Como minto gritando ao coração que já não sinto. Que tudo o que vivi não tem grande importância, que fico bem, e consigo até rir para ti, ou rir de mim, sei lá...
Sempre detestei a mentira, e a minha vida sempre se pautou pela mais pura e gloriosa verdade, de repente, vejo-me envolta na mentira como um casaco quente, protector e acolhedor. Agarro-o, aperto-o contra a pele e faço dele uma parte de mim. Olho em redor e sem o olhar crítico de outros tempos, torno-me solidária, afinal, quantos e quantos de nós vivemos a mesma mentira só para não sofrer, só para esquecer, só para renascer. Um dia certamente apagaremos estas razões, estas desculpas, estas verdades mentidas, estas sensações fingidas.
Faz parte da viajem, de tudo o que começa e por vezes acaba, faz parte do sonhar que por vezes leva ao despertar. Será que se é verdadeiramente feliz? Questiono até mesmo aqueles que fazem exaltação das maiores alegrias, dos maiores sucessos, não terão de vez em quando a sua tristeza, o seu fracasso, a sua mentira?
Não, não me acusem das mentiras que visto, não é fingimento, tão pouco falsidade, é sobrevivência, é aprendizagem. Por vezes é preciso mentir, não para enganar os outros, mas para nos enganarmos a nós próprios,  dessa forma, quem sabe, um dia consigamos acreditar na mentira e ela pouco a pouco se torne verdade.



segunda-feira, 30 de março de 2015

Sempre

Sempre que o sol brilhar,
Sempre que a primavera florir.
Sempre que o mar ondular,
E um cais de abraços se abrir.

Sempre que a brisa dançar,
Sempre que a árvore se erguer.
Sempre que uma gaivota voar,
Sem do céu querer descer.

Sempre que o dia cansado partir,
Sempre que a escuridão regressar.
Sempre que a noite voltar a pedir,
Para o sonho te continuar a sonhar.

Será sempre, esse para sempre,
Porque o tempo o teima em guardar.
Esse sempre que não se desprende, 
Que partindo, sempre parece ficar.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Post.it: Nova oportunidade

 Quantas vezes inventamos os outros, reiventamo-nos a nós, não por uma mera fantasia, um sonho do qual acabamos por acordar, mas por um desejo, uma vontade que ergue velas e nos faz navegar. Então vemos tempestades num mar de bonança. Pegamos nos remos e queremos fugir. Fugir de um perigo que afinal não existe, é apenas o nosso peito triste que o cria, que o teme. É sempre difícil sair da nossa área de conforto e encarar o outro tal como ele é e não como o queremos consonante com a nossa maneira de ser. Acreditamos que é aí que está a paz e a felicidade e continuamos em crescente na nossa guerra. Mas o outro, será sempre o outro por mais que nos estime, admire, ame, não é um reflexo, uma extensão de nós, do nosso querer.
Podemos tocar, abraçar. Podemos dar-lhe o melhor do que somos e esperar não a reciprocidade, mas que continue a ser a pessoa que é que entrou na nossa vida porque deixámos entrar, que ficou porque deixámos ficar, não porque nos era um ideal mas porque era alguém que de alguma forma acrescentava algo em nós, que nos permitia ver algo que sozinhos não conseguimos ver. Porque nos fez sentir algo que sozinhos não conseguimos sentir. E por isso, nem que seja só por isso, ficamos gratos. Por esse encontro que podia nunca ter acontecido. Afinal há centenas, milhares de pessoas com quem nos cruzamos em toda a nossa vida, que bom que é que exista alguma que nos toca e que tocamos, ainda que por momentos, que podem durar meses, anos, quiçá, o resto da nossa vida em que lhe damos algo de nós e recebemos algo de si. Pode ser eterno num limite de tempo, mas pela intensidade, conquista dentro de nós a verdadeira eternidade. Depois, que importa o depois, não vamos tornar a primavera em gélido inverno, não vamos acrescentar espinhos às flores só porque nos perecem os amores, porque se afastam as amizades. São belos todos os momentos, magníficos e devem ser vividos como se não houvesse amanhã. E se o amanhã vier, será mais um feliz hoje. Se no entretanto, numa qualquer curva do destino, nos desencontramos, que nos fiquem motivos, muitos..., para guardar como semente para a próxima primavera, talvez assim  ela volte de novo a florir e a ser a mais bela e perfumada que não se deixou afogar na dor, que não se prendeu à saudade e que teve a coragem de abrir as pétalas ao futuro. O futuro que será sempre, sempre, não o que quisermos, o que idealizarmos, imaginarmos, sonharmos, mas unicamente o que nele somos de luminosidade, ou de penumbra. Por isso, se esperares, espera com um sorriso. Se lutares, luta com fé. Se encontrares, aprecia cada momento. Se perderes algo ou alguém, acredita que nunca será uma perda, mas antes o ganhar de uma nova oportunidade para recomeçar, para fazer melhor, com mais maturidade, com mais amor para dar e para saber receber.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Post.it: Já espreita pela janela

A Primavera já espreita pela janela, vem cheia de luz, de cor, de perfumes florais. Inunda-nos o olhar, invade-nos os pulmões com um ar leve e esvoaçante. Por ela dançam-nos os pensamentos, renascem os mais ternos sentimentos.
O Inverno com o seu ar entristecido, quem sabe por se sentir preterido, acena ventos de despedida, o frio suaviza e descongela-nos o querer, e queremos, queremos com a maior ansiedade, despir o casaco, as camisolas grossas e mergulhar em pleno numa planície de girassóis, de papoilas, de açucenas, de alecrim e alfazema.
Precisamos desse céu límpido de nuvens outrora carregadas com tantas e magoadas águas.
De repente num voo rasgado de esperança surge uma andorinha, depois outra e mais outra, vêm felizes anunciando a chegada da nova estação. Incrédula, baixo o capuz, solto o cachecol, apuro o ouvido, perscruto o horizonte, é verdade, a Primavera está a chegar! Rejubilam-me os sentidos, correm-me os passos sem sair do lugar e vão através do imaginário explorar caminhos floridos. Estendo as mãos, quase, mas apenas quase acaricio as brandas pétalas, eis que inesperadamente majestosas gotas de água caiem sobre a terra, contrariando o antecipado festejo. Por instantes sinto que vou ceder à tentação de juntar a chuva do olhar à chuva do céu, mas logo de seguida o coração sorri, “é só por hoje, amanhã, uns dias mais…” 
Em breve, muito em breve a Primavera chegará e ficará durante o tempo que quisermos que fique, em presença ou em recordação, até lá fica-nos a certeza que ela vem, que já espreita pela janela.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Quem passa...

“Quem passa pela nossa Vida não passa em vão
Deixa uma semente de si no nosso coração”

Sei que passa, e que ao passar,
Um dia apenas que seja,
Quanto nos pode tocar,
Que se sente sem que se veja.

Como então vamos esquecer,
Como então dizer que não.
Ao que nos fez de novo viver,
Um minuto mais de ilusão.

E mesmo que doa a lembrança,
Que nos faça sorrir ou chorar.
Como é bom guardar a esperança,
De a voltar sempre a recordar.

O tempo que nos acalenta,
O tempo que nos parece cura,
O tempo que tanto lamenta,
Não ser eterna toda a ternura.

O tempo, não sei se mente,
Para nos dar melhor solução.
Ao que cá dentro se sente, 
Quando o escondemos da razão.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Post.it: Só o hoje

Quem sabe amanhã, quando todos os ontens levarem as águas desse rio que já nos foi tempestade. Talvez amanhã quando as cascatas da lembrança descerem suaves ecoando melodias de deleitoso harmonia.
Talvez amanhã quando o despertar limpar do horizonte nuvens que nos encobrem a luminosidade do olhar. Talvez amanhã quando os sonhos renascerem, os projectos acontecerem, quando a esperança nos fizer acreditar que o novo dia é um convite do futuro para ser rescrito nas linhas e entrelinhas do destino.
Mas, e se o amanhã não vier? Questionam os mais pessimistas. Que importa, guardaremos o hoje, abraçando-o, aprisionando-o num recanto, quer seja no coração, na memória, numa célula que nos navegou o corpo em busca do caminho para a felicidade.
E mesmo que o ontem com maior ou menor saudade parta de nós, e mesmo que o amanhã não nos chegue a habitar, teremos este dia, 24 horas de possibilidades. 1440 minutos de oportunidades. 86400 segundos de ensejos, de confiança, de  alento, de expectativa, de vida que é nossa, totalmente nossa, como flor num jardim de primavera, a decisão é nossa, de a colher, de a admirar, de a deixar crescer e florir para encher de cor, de perfume. Este dia que pode ou não chegar a desenhar-se no horizonte do amanhã.
No entanto, até lá chegarmos, há uma promessa que nos grita no peito, vamos torna-lo feliz! Uma alegria de coisas pequenas que no seu conjunto são grandes porque nos definem enquanto gente que ama, chora, ri e sente.
Mas isto só se lá chegarmos porque todos os dias são de descoberta, no mistério de viver ou sobreviver às vitórias e derrotas de cada passo dado no escuro, se chegarmos, que não fique nenhum dia ávido de esperanças, que não fique nenhum sonho por ser sonhado, nenhuma lágrima por ser chorada, nenhum a gargalhada por ser solta, nenhum eco a silencie, antes, a repita, uma, mil vezes deixando no ar o som mais puro que emana da alma. 
Enquanto isso, o ontem já não nos pertence, o amanhã não se sabe se o tocaremos, mas  o hoje, o hoje estende-se para nós, repleto de toda a maravilha que é encontrar em cada recanto do caminho a folha em branco da nossa história.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Post.it: O sujeito e o verbo

 “Não se deve separar o sujeito do verbo”, uma regra básica e essencial da gramática portuguesa. Nunca a esqueci e tento que seja mais que uma regra da gramática,  mas também uma forma de existir (aí está o verbo).
Que nunca se separe o sujeito do amar, do conquistar o além de que faz parte, do lutar por atingir a sua meta, do sonhar para evoluir, do dar em amizade, em atenção, do cuidar de si, dos outros, estimar tudo aquilo que a vida nos oferece, do querer ser-se melhor, presentear a vida dos outros com um pouco de nós, do gostar do que temos mesmo quando não podemos ter o que desejaríamos, do perdoar para ficarmos libertos da mágoa que é guardar a dor de quem nos feriu, do admirar a natureza que nos rodeia e da que faz parte de nós humanidade. Do partilhar, respeitar, do ser o que gostaríamos de ser nos outros e em nós.
E assim vai a vida nos entretanto em que a alma nos permite vislumbrar sorrisos do sol, aconchegos da lua, então há uma neblina que nos eleva o pensamento para ti (gosto de personalizar), mesmo que o tu seja para todos os que fazem um pouco parte de mim no todo que me define. Porque nada sou sem o verbo do teu existir, aquele que escolho, aquele que me escolhe no momento vivente. 
Agora, já me despedindo de S. Valentim, acenando ao Cupido de falhada pontaria para uns, exata para outros e tudo o resto é Carnaval, folia para espantar o frio, os maus pensamentos, para sair da rotina de verbos nem sempre populares do ir e vir constante das madrugadas cansadas e das noites sem sonhos, “faz parte” ouço em redor, vozes que não sei se são de conformismo ou se de esperança, agarro nesse (faz parte) e redesenho-o com novos tons porque é preciso acreditar. 
Nem que seja nessa gramática aparentemente insípida de tantas regras, que contudo,  revela por vezes uma essencial  lição, “Não se deve separar o sujeito do verbo” e o verbo hoje é, bem-querer,  que nada o separe de cada um de nós.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Post.it: Feliz dia de S. Valentim

Aproxima-se um fim-de-semana especial para uns, normal para outros, que se ofereça uma palavra emergida do coração e se receba em troca um gesto que a completa e aconchega na vida em comum dos enamorados.
Porque:
Felizes são os corações que sabem palpitar aconchegados noutros.
Felizes os rostos que se vêem reflectidos em alegres olhos.
Felizes os sorrisos que têm motivos para continuamente sorrirem.
Felizes os lábios que têm as palavras de carinho para proferirem.
Felizes os braços que se oferecem e são simultaneamente abraçados.
Felizes os que conhecem o amor, os que rasgam as fronteiras do tempo e o tornam infinito. Felizes os que vencem a rotina e constroem os dias com sementes de paixão.
Que sejam muitos os Felizes, para que a terra continue a sentir-se amada e a vida continue a despertar sorridente em cada madrugada.
Que S. Valentim vos encha de Amor. Que o Cupido tenha pontaria certeira para unir corações. E que sejam todos, mas todos, muito Felizes. 
Os que amam, os que esperam ser amados. Os que já amaram e voltaram ou voltarão a amar. A todos os que escutam o coração e lhe seguem a voz até ao infinito do tempo e do espaço. E porque o amor tem muitas formas e expressões, que sejam felizes os amigos, os familiares, os que nascem neste dia, os que continuam nele a renascer ao celebrá-lo, os que sonham, os que acreditam, os que chegam mais além e não desistem de serem felizes. Essa felicidade de amar o hoje sem o  esquecer em busca de um melhor amanhã.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Inverno na aldeia

Na lareira gelou o carvão,
Cristalizaram os rios cantantes.
Mas bate suave o coração,
Com os sentidos ondulantes.

Ai se as brisas falantes,
Contassem velhas histórias.
Ai se os rios andantes,
Não nos levassem as memórias.

Por entre o manto de neve,
Que torna o vale encantado,
A vida ao seu ritmo acontece.

Mas na tarde já bate o sino,
E ao longe responde o gado. 
Às horas que nos são destino.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Post.it: Uma mulher "feia"


“Já estou tão habituada a esta feiura que até me parece bela”. E quando me dizem ao passar “és tão feia” esse piropo que seria de impiedosa crítica soa-me a elogio de quem me vê, de quem me olha ao passar sem me ter indiferença.
E sorrio, sorrio sempre, (daí as minhas rugas bem dispostas), sorrio porque afinal há muitas pessoas que sendo belas, ninguém lhes liga, e passam como se não passassem, deixando a rua vazia. Vão sozinhas, tristemente bamboleando a sua vaidade, num desfile de mágoas. Quem lhes oferece um piropo, quem lhes oferece um olhar? Poucos, muito poucos, porque tal beleza não chega a ofuscar o sol, é efémera, é fugaz, é preciso mostra-la hoje porque quem sabe amanhã já se terá desfeito.
Quanto a mim, confesso, que feliz sou por me ver em tantos olhos que param nos meus, recebo até sorrisos dos homens por generosa ternura (talvez lhes lembre uma avó já distante, um colo, um aconchego. As avós não precisam de ser belas, elegantes, finórias, só precisam de ter rugas macias, mãos quentes e suaves abraços). Quanto às mulheres que comigo se cruzam, vejo-lhes regozijo no rosto, satisfação, segurança, uma certeza que lhes diz que são mais belas do que eu, que não lhes “roubo” os maridos, namorados, “amigos”. Sou apenas uma mulher feia.
De manhã olho-me no espelho, o seu reflexo amigo há muito que já não faz apreciações sobre a minha imagem, olha-me num silêncio  conciliador, de uma amizade de anos, muitos e muitos anos, por educação escusamo-nos a reflectir quantos são, nesse entretanto, conquistámos o respeito e admiração um do outro.
Nunca casei, nunca tive amores correspondidos, talvez por ser feia. Tive filhos, muitos filhos, todos das vizinhas, das colegas, das amigas, todos me acharam linda, (ainda acham) filhos do coração, que só com o coração me conseguem ver.
Um dia partirei, eu e a minha feiura, eu e o meu sorriso, eu e o meu abraço que a tantos abraçou. Partirei com tranquilas certezas, fui o que quis ser,  como quis ser. Se me perguntassem se queria ser bela, responderia sem mentir que “sim” mas só o desejei quando era nova, a vida revela-nos pouco a pouco a razão do que somos, se fosse “bela” nunca teria tido tantos e sinceros amigos. Não, não vou começar a dissertar floreados e lirismos, vãs retóricas sobre a beleza interior, vou apenas dizer que quem me amou conhecia-me nos valores que não são efémeros no tempo. 
Um dia, sim, lembro-me de um dia em que alguém com voz profunda e verdadeira disse-me ao ouvido, “és a mulher mais bonita que já conheci”, ofereci-lhe uma gargalhada cristalina de amizade, mas por dentro chorei, o pranto de tantos anos de espera por alguém que não só olhasse, alguém que também sentisse. Então amei-o, amei-o a vida inteira, mesmo quando seguimos caminhos diferentes, amei-o, porque sem saber ele ensinou-me também a amar-me. Continuo a ser feia mas a verdade é que às vezes, por um instante, quando me olho nos olhos, sinto-me “a mulher mais bonita que já conheci”.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

De coração


Estou aqui em tudo o que faço,
Neste mundo em tudo o que sou.
Em quantos de mim me desfaço
Querendo ir mais além do que vou.

Mas se a alma já não bastar,
Se a verdade tiver que mentir.
Peço à vida para me perdoar,
Esta maneira de ser e de sentir.

Tudo o que faço é “decoração”.
E enfeito os dias com sorrisos,
Tudo o que faço é do coração.

Para que a noite possa sonhar,
Com desertos tornados paraísos, 
Onde a felicidade pode repousar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Post.it: Não tenho jeito para viver

“Não tenho muito jeito para viver”

 A frase não é minha, mas concordo, é preciso ter jeito para viver…
Será que alguém já descobriu a fórmula para melhor conduzir a vida, esse veículo que por vezes nos parece desgovernado, que corta a curvas, que acelera nas retas, que se lança afoito nas descidas e que não desiste de enfrentar com fervor as subidas?
Mas, sim, é preciso ter jeito, encontrar a forma de suavizar as horas agrestes, de tornar mais leves aqueles dias que nos deixam de rastos, com um cansaço milenar de vidas passadas ou  de vidas ainda não vividas.
Claro que também há momentos em que tudo faz sentido, em que por um instante nos parece, que por fim lhe encontrámos o jeito, que descobrimos a regra para ser feliz. É a hora de não ligar a nada, de nos deixarmos ir na maré, de acreditar, de lutar, de ter fé. Porque se aprendeu a lição, não vamos repetir os mesmos erros,  não vamos ser precipitados, impulsivos. Podemos afirmarmo-nos, marcar a nossa posição, esperar que tudo venha ter connosco ou irmos ter com o momento.
Se ao menos tivéssemos uma segunda chance para voltar quem sabe, a errar, ou uma terceira oportunidade para recomeçar, uma outra quarta para tentar acertar. Mas não temos para viver, apenas esta vida, o que aumenta a responsabilidade, o medo que por vezes é um gerador de coragem. Além da certeza de que tudo é incerteza, e que nesse mistério reside a beleza de existir, esse receber uma espécie de prenda, um embrulho nem sempre fácil desembrulhar.
Pode nem ser o que desejamos e mesmo quando é, constatamos depois que não terá sido a melhor escolha para nós, para a nossa vida. Mas tínhamos que tentar, que realizar o sonho em vez de nos limitarmos a sonha-lo. Devíamos isso a nós, à vida, para a construir, para lutar por ela e torna-la, supostamente, melhor.
Esse é o nosso eterno desejo, a nossa efémera utopia. Mas também é essa a nossa força, aquilo que nos define, que nos faz avançar e recuar sempre que necessário, desistir e persistir quando achamos certo. O tempo vai passando, ou melhor vai “voando” enquanto nós, enredados no ciclo infinito de acerto e de erro, vamos tentando, mas tentando mesmo, aprender a ter jeito para viver  a vida que nos calhou em sorte. 


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Post.it: Perdão

Na primeira sessão de ioga de 2015, a professora, desejou a todos um bom ano e num gesto de oferta pediu-nos que escolhêssemos uma carta com mensagens e que ficássemos com ela para nos lembrar o que devíamos fazer neste ano. Vi sair cartas de Perseverança, de Sabedoria… a mim calhou-me o Perdão. Primeiro não a recebi com bom agrado, sim é verdade, há muito perdão que me é devido, que há muito o espero dos lábios calados, de vidas que continuam a seguir em frente sem olhar um só instante para as pegadas mal desenhadas que ficam na estrada.
Foi um breve momento, que me fez viajar por muito pensamentos, até todos eles confluírem para o mesmo rio, o sentido único do perdão
O perdão dado, recebido? O perdão no seu todo, na sua capacidade de entender que nem tudo é  como queremos, nem  todos são  como desejamos, nem  mesmo  os que amamos embora os continuemos a amar. 
Temos que  perdoar o que não é sinónimo de aceitar, de nos submetermos à vontade dos outros. 
Perdoar-nos por não termos atingido os nossos objectivos, por não termos vencido todas as  batalhas. Por não sermos o que esperamos e o que esperam de nós. 
Perdão por não sermos perfeitos apesar de tentarmos melhorar a cada dia. 
Perdão por não sentirmos o que querem que sintamos.
Perdão por não dizermos o que esperam ouvir da nossa boca, do nosso coração.
Perdão pelo que fizemos sem a intenção do sentido que tomou, da dor que causou. Perdão pelo que não fizemos, deixando na espera, na ausência desse gesto quem o devia receber porque lhe era devido.
Mas também o perdão que nos devemos pelos gestos impensados dos outros, que na sua pressa, rotina, indiferença ou mera característica de assim ser, nos laceraram a esperança, a confiança…
Perdão por todos aqueles que nunca o pediram, porque não acharam necessário, porque não se aperceberam das consequências dos seus actos, porque não lhe deram importância, ou simplesmente porque acharam que o perdão não existe, nem o erro, nem a culpa. Que vivemos passando sem nos determos na forma como marcamos o caminho.
Temos sempre de perdoar, perdoar-vos, perdoar-nos, para não deixar que uma dor nos fique indefinidamente a magoar, como um espinho cravado na alma.

“Ser feliz é encontrar força no perdão, esperanças nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros” F. Pessoa

“O fraco nunca pode perdoar. Perdão é um atributo dos fortes” M. Gandhi


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Post.it: 2015 com amizade


Há pessoas que na sua passagem pela nossa vida, nos tocam, nos preenchem, nos completam. Fazem-nos crescer, rir, chorar; fazem-nos querer ter asas e com elas, voar.
Há pessoas que nos ficam algures nos rios celulares da existência, e mesmo quando a memória atenua de lembranças os longos anos, podemos já não recordar o seu nome, relembramos certamente o seu sorriso, o seu carinho, as histórias, os segredos que escrevemos no vento e que o vento prometeu não revelar.
E mesmo aquelas pessoas que na sua passagem, apenas nos deixaram picos de flor, pedras no caminho, mesmo essas, guardamos num recanto magoado da alma, quem sabe um dia, encontramos uma forma de lhes agradecer a chegada, porque agora ainda só conseguimos agradecer a partida.
Há pessoas que só nos tocando com o olhar transmitiram o calor de um abraço amigo. Há pessoas que mesmo nos beijando só com um sorriso, deixaram-nos inscrito no coração, o amor mais puro e infinito.
E não foi preciso encenar as palavras, os gestos, ser estrela da moda, criar cenários, inventar aventuras, oferecer o céu, deitar-se no chão, bastou que existissem e a dada altura, cruzarem-se algures no nosso caminho.
Às que estão, às que vêm, às que vão… A minha estima e admiração.
Ainda me falta conhecer tantas pessoas. Talvez me vá magoar, mas a verdade, é que não sei viver pela metade, não sei erguer muros, criar fronteiras entre mim e a vida. Sou o que sou, bem sei que nunca serei mar mas gosto de ser esta gota de água transportada pela orla marítima. Nunca serei a rocha mas a cada beijo da brisa transformar-me-ei na mais leve poeira e um dia, hei-de subir às nuvens e tocar o esplendor do rosto lunar.
A todas as pessoas, obrigada por esse tempo, que nem o calendário nem o relógio pode quantificar, um tempo que pode ser curto na alma, mas longo no peito e quem diz que tudo o que existe é finito, mente ou não sabe, que quem passa pela nossa vida, para sempre nela fica. Por isso desejo que depois de 2014 continuem comigo em 2015 e todos os anos seguintes no caminho comum da amizade, saúde e felicidade.



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Post.it: Deste teu amigo…

Não desistas de mim, mesmo que na vida nada te corra bem. Encontra-me nas pequenas coisas, no sol de inverno, na flor que nasceu por entre o betão, nas folhas de outono, nas crianças a brincar, nas aves a voar, nas ondas a embalar a praia...
Abre-me a porta do teu lar para que o encha de mim. Abre uma janela no teu peito para que do frio da noite me possa aconchegar.
Olha em teu redor, vê-me nos olhos tristes que tu podes alegrar. Reconhece-me em cada vida solitária e faz-lhe companhia. Escuta-me em cada sopro do vento que geme um lamento que tu poderás atenuar com o teu carinho.
Não me abandones, nem às memórias de uma infância cheia das nossas histórias natalícias. Não penses em mim perdido por entre presentes e laços, encontra-me entre muitos sorrisos e outros tantos abraços.
Não te esqueças de mim, seja em que data for, não precisas de me celebrar somente em Dezembro, celebra-me quando tiveres vontade de ser solidária com um amigo, gentil com um desconhecido, cortês com um inimigo.
E se as luzes das ruas te encandearem o sentir, se os objectos nas montras te baralharem o querer, se a multidão com que te cruzas só te oferecer solidão, não lhe vires as costas, estende-lhes a mão, oferece-lhe a tua atenção, dá-lhes os teus votos de um belo e Feliz Natal.
Não me julgues hipócrita, consumista, egoísta, falso, porque na verdade eu sou o que tu quiseres: serei a lealdade, o carinho, se  cuidares de mim como se fosse uma flor que apenas te pede a bênção do teu calor; mas também poderei ser fugaz, a prenda que nem vejo desembrulhar, o compromisso sem sentimento, a breve história de um vulgar momento.
Acredita em mim, porque isso significa que acreditas em ti, que regressas de vez em quando à criança que acalentava a esperança de tornar o mundo melhor.
Recebe de mim, um abraço natalício com muito carinho e vontade de contribuir, para tornar a tua vida um pouco mais feliz. Tal como tu tornas feliz a minha, sempre que me sentes, e que me ofereces aos outros, em bens materiais, em emoção, em amizade. Porque todas as formas, todos os gestos, são sempre belos quando brotam do mais terno coração.
                                                                                     
Um abraço deste teu amigo, 
             Natal
                                                                                                                                                                           

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Post.it: A poética vivencial da palavras

Costumam dizer que falar muito com poucas palavras é próprio da poesia. Mas há que enquadra-las, harmoniza-las, humaniza-las. E também dar-lhes asas, solta-las ao vento e ter a certeza que o seu voo nunca será uma partida mas sempre um regresso. Uma chegada que recebemos, recolhemos, para lermos, saborearmos e sentirmos em momentos que delas precisamos para nos preencher o vazio de outras palavras que já tardam.
Serão talvez, estas apenas substitutas dessas outras, dizendo algo que pode ser sentido, porque tem real sentido. Palavras que  condensam uma verdade que nos guia e nos define enquanto ser emocional.
Mas no fundo não é  preciso dizer muito, nunca foi, basta dizer o essencial, deixar no horizonte das palavras a porta aberta para que outras  a elas se venham juntar numa relação feliz e quem sabe até geradora de novas palavras na construção de  um caminho comum, feito por lugares de paz, lugares de harmonia. Há quem considere as palavras ambíguas, passiveis de múltiplas leituras, há quem as acuse de se esconderem com receio da frontalidade, da verdade. É possível, tudo é possível, porque são lidas com diversos feixes de emoção. As palavras podem revestir-se de alguma opacidade abrindo a porta a múltiplas vias de interpretação, até porque elas serão sempre a conjugação do que somos, desse passado que nos fez crescer com personalidade e valores educacionais concretos. De um presente trilhado por cada dia, por cada hora, em cruzamentos, encontros e desencontros de horas solares, de nuvens que nos fazem companhia em ondas de diferentes (a)mares. 
Não desvalorizem as palavras, ela são  um composto de letras dispostas segundo uma objectiva intenção. Elas têm sempre algo para dizer, são um depósito de sensações, são braços que se estendem quando as lemos e encontramos nelas um elo de cumplicidade, recebemos então esse abraço  que há tanto tempo espera por ser dado, lido, compreendido e quem sabe, igualmente abraçado...