domingo, 27 de Julho de 2014

Post.it: O que nos define

Tenho um passado que vos quero contar. Um passado feito de ontens. De dias difíceis, de invernos em pleno verão, de chuva, de vendavais marítimos, de desertos em busca de oásis. Um passado que me fez nascer, crescer e chegar aqui, a este lugar carregado de dias, meses, anos nunca suficientes para chegar ao almejado futuro.
Nem sempre escolhi, nem sempre tive opção ou segunda oportunidade. Tomei as minhas decisões, dei os meus passos, em alguns recuei, em muitos outros avancei.
 O caminho é sempre o caminho, com as suas curvas, subidas e declives, de vez em quando surge um percurso em linha recta, em terreno plano, nele descansamos a vida,  nele encontramos forças e razões para continuar. Não foi fácil, nunca é, se fosse não lhe daríamos o devido valor, faz parte de nós vencer os desafios que o viver nos coloca, precisamos deles para nos sentirmos inteiros.
O passado cinzelou-me o carácter, deixou-me no rosto traços de crescimento, marcas do caminho. Deu-me à alma a erosão de cada momento que passou.
O hoje é apenas a antecipação do amanhã, uma chegada de uma viagem iniciada no ontem. O passado já não é o que fomos, nem o que somos, mas simplesmente o que depois de tudo seremos.
Porque o passado pode marcar-nos mas não podemos deixar que nos defina.

Afinal não vos contei o meu passado? Não, claro que não, não aqui, onde tudo se ganha e tudo se perde com a mesma facilidade, aqui onde os conteúdos ganham expressão e vida própria segundo cada leitura. Mas conto-vos, conto-vos sempre que o queiram ver, ele está escrito no meu olhar.

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

Post.it: A amizade

“Tenha sempre o entendimento de que as pessoas estão na sua vida por alguma razão. Pense qual é a mensagem que cada uma delas tem para si”

Não sei porque as pessoas entram na nossa vida, porque permanecem nela ou porque saem. Só sei que isso acontece, sem prévio aviso, sem nos pedirem para entrar, instalam-se e são causa de alegria e também de alguns momentos de alegria. São pessoas que ligam à vida, que nos fazem sair da nossa ilha de tranquilidades e inquietações. São pessoas que nos agitam os dias, que nos despertam nas noites e nós corremos para elas, para lhes dar aquele abraço, aquela palavra de encorajamento, aquele silêncio que diz tudo, tudo o que precisam de ouvir. São pessoas que estão nas nossas festas mas também nos nossos momentos de solidão, que nos chamam de tudo de amiga, de irmã, de aconchego, de porto de abrigo. E quando me lembro como chegaram, sem significar nada, de passos pequenos, de sorriso tímido, de olhar perdido; vejo, sinto, o quanto nos cresceram no peito e sei que estava a sua espera, que tinha um lugar para essa pessoa, que precisava dela para crescer, para aprender a ter uma alma esculpida com o carinho da amizade. Juntas todas essas pessoas, as que entraram, as que saíram,  as que permanecem, acrescentaram um pouco mais ao meu ser, dando-me tanto de si…  De cada uma delas ficaram células de encanto, moléculas de fascinação, estrelas que brilham durante o dia e se tornam partículas de luar durante a noite, foram o meu sol de inverno, o meu farol nos vendavais.
Por isso quero expressar-te a ti, a cada uma de vós em particular, a minha perpétua gratidão e confessar: que seria eu sem ti? Sim sem ti, que me enriqueceste o sonhar, que me fizeste acreditar no futuro, que me construíste pontes  que me libertaram dos limites da minha margem, que entraste na minha circunferência e me retiraste daquele canto onde me tinha refugiado com receio, de nunca, nunca encontrar alguém com tu…

sexta-feira, 11 de Julho de 2014

Post.it: Pare, escute, olhe = Viva

“Pare e escute veja com atenção a mensagem que estão a querer transmitir”


Talvez aquela pedra que me fez tropeçar e dessa forma já não apanhar o autocarro e ali fiquei na paragem mais 15 minutos, inspirando de impaciência expirando de consolação. O olhar balouça entre o nada e o coisa alguma, depois fixa-se nas pessoas que entretanto vão chegando, consultam os relógios, os telemóveis, ajustam a roupa, compõem o cabelo. Saíram de casa com pressa, penso. Que pressa é esta que nos faz correr até tropeçarmos, até pararmos? Que vontade é esta de chegar a algum lado? Que necessidade é esta de atingir uma meta? Que desejo é este de construir caminhos, sonhos… Será apenas um impulso, um gesto de rotina, uma conquista, uma realização? Cada um terá certamente as suas razões, a sua história, a sua mensagem. 
Eu no meu mutismo escondo a dor da quase queda e começo a ver o lado positivo do incidente, o olhar, o ver os outros, o descobrir que há vida para além do meu horário, da minha pressa. Pressa de quê? Nem eu sei, sei apenas que vou, que sigo na marcha dos dias, que cumpro o meu destino, como se só ele me tivesse destinado sigo pela cadência do meses e anos até… 
Até encontrar aquela pedra, um obstáculo, ou uma nova forma de me reencontrar? Na verdade apetecia-me sair da paragem e naquele dia seguir por um caminho diferente, fazer coisas diferentes, ou simplesmente não fazer nada apreciar apenas o sol que se desenha no céu, as nuvens que contam história que nunca, a dança das árvores, o canto dos pardais, a alegria celebrante das andorinhas, o voo marítimo das gaivotas. Há quanto tempo não tinha tempo para ver e admirar a natureza e no entanto ela tem estado sempre lá, à espera do meu olhar, de muitos e muitos olhares que a vejam. 
Bom mas o autocarro já lá vem, está na hora de vestir a rotina nos dias, mas este dia, graças a uma pedra, foi único, foi diferente…
Pedras no caminho? “Guardo todas, um dia vou construir […]” não “castelos”, mas recordações de cada momento em que algo me fez parar para viver.


segunda-feira, 7 de Julho de 2014

Post.it: Novos lugares


  "Ao renunciarmos aos velhos padrões de comportamento, aquele espaço é preenchido naturalmente por algo novo, e a nossa vida torna-se especial"

Somos o que somos, o que vamos sendo. Somos o que nos fizeram e o que nós fizemos com o que nos fizeram. E cada lugar do que somos fica preenchido com estes pequenos  nadas. O lugar  das alegrias  que podiam ser mais, porque todas  elas, nunca  são  suficientes. O  lugar  das tristezas, mesmo  que  sejam  poucas,  são sempre  demais. O  lugar  dos  sonhos  que  está sempre em crescimento. O  lugar da  razão sempre  a  tentar  equilibrar-se  com  o  do  coração. O lugar  das   mágoas,   feridas,   dores, desgostos,  rancores, ressentimentos, ódios, animosidades, cresce, diminui, vai andando ao sabor dos dias, meses, anos. Vai-se acumulando desde o  passado, marcando o presente e norteando o futuro.
Lugares, uns mais preenchidos que outros, uns mais pesados que outros, uns mais luminosos que outros.
Somos o que somos, mas se quisermos, também podemos ser o que desejamos, podemos limpar certos lugares, aqueles que nos impedem de seguir em frente, que nos escurecem o olhar,  que nos roubam os sorrisos, que nos tornam ilhas.
Chega de culpar tudo e todos. Com culpas nada fazemos, precisamos de soluções, caminhos. Precisamos de deitar fora o supérfluo, o desnecessário, tudo o que nos pesa na alma, o que nos sufoca no peito, que nos impede de sonhar, de ganhar asas de esperança e de voar. O que nos impede de ser o que realmente somos. Pessoas livres e leves, com imenso espaço para nos reconstituirmos, para nos descobrirmos capazes de nos fazermos melhores seres.
Não nos devemos contentar com o que somos, não devemos acomodar-nos ao peso do nosso “fardo” quando há tantas coisas melhores para transportar: sorrisos do sol, abraços do luar, embalos do mar e amigos que nos fazem acreditar que a vida é realmente um lugar especial.



sexta-feira, 4 de Julho de 2014

Post.it: Somos felizes

“Quando existe contentamento, a minha atitude perante os problemas permite-me vê-los como se fossem pequenos”

Quando estamos felizes nada nos parece importante, nada tem maior grandiosidade do que a felicidade. Tudo parece tão insignificante, o sol, a chuva, o frio, o calor, até o fracasso tem sabor de vitória. 
Na verdade somos vencedores, encontrámos o sentido do nosso existir em sentir, em estar aqui por alguma razão. Não que tenhamos que fazer grandes obras, deixar grandes heranças. Basta para nós e para os outros, a alegria, a gentileza, a generosidade de atitude, basta sentirmos-nos bem connosco e logo de imediato ficaremos bem com os outros.
Que nos importa os seus queixumes, as suas futilidades, a sua insensibilidade, são suas apenas suas e na verdade só a si conseguem ferir. Não são pedras no nosso caminho, apenas areia que lima as arestas de cada passo que damos. Não são um problema, podem até significar a solução porque à sua maneira nos dizem para seguirmos noutra direcção talvez, para longe da sua. 
E depois há sempre tantas e tantas pessoas que nos querem acompanhar, para quê sofrer, para quê ter o desejo e a vontade de seguir ao lado de quem tem outro destino. Um destino que não é o nosso.
Porque o nosso, o nosso está feliz, está leve, verdadeiro, leal a si mesmo, companheiro o tempo todo de momentos que construímos com o coração liberto de mágoas, rancores, de desamores...
Com a alma esvoaçante de esperança, de luminosidade. Porque o mundo será sempre o que dele fizermos e nós, nós que valorizamos a sua importância, que o amamos, cuidamos e o fazemos girar, somos à nossa humilde maneira, o seu sol, o seu luar, o seu infinito, o eco de vida que faz o seu magma pulsar e expandir-se múltiplas e coloridas primaveras. 
Tudo isto só porque reconhecemos que somos tão simplesmente felizes.



quarta-feira, 2 de Julho de 2014

Post.it: Os quatro elementos

Todos devíamos ser terra:
 Ventre de vida, que acalenta a semente que faz germinar a esperança e a confiança no crescer.

Todos devíamos ser água:
 Ser a limpidez cristalina da nossa verdade, da nossa entrega e dádiva. Afinal tudo passa e corre pelo rio da vida até ao mar do descanso onde a paz e harmonia nos navega.

Todos devíamos ser fogo:
Esse que aquece cada inverno que invade o corpo e a alma, mas também a luz que alumia cada caminho que caiu em algum momento na mais profunda escuridão.

Todos devíamos ser ar:
 Brisa que sussurra à consciência o que somos e o que deveríamos ser. No entanto por vezes é necessário ser vento, um ar forte que nos empurra com veemência, impulsionando-nos a seguir em frente, a ganhar coragem de ser.

Todos devíamos os quatro elementos:
Ser  a terra onde nasce a vida, a água que a purifica seguindo a luz de um fogo que nos aquece o ar quando  sopra verdades que nos tornam humanamente melhores.

terça-feira, 1 de Julho de 2014

Post.it: A geografia da alma


Cai a noite mas em algum lugar da terra já é alta madrugada. Adormeço, sonho, esqueço, mas algum lugar da vida, alguém desperta para a luta dos dias, caminha, faz a sua estrada. “Vai, depois irei eu” sussurro-lhe em pensamento, quando tu já embalares a noite serei eu quem desperta o novo dia, quem o enche de momentos, de risos, de abraços, quem caminha para que ele desperte em ti e em mim adormeça. 
A alma que não conhece horizontes nem pontos cardeais, aconchega-se em nós, confiante de qua a conduziremos no “de lés a lés” da existência. De vez em quando algo a abala, estremece, espreita no olhar, chora essa dor e recolhe ao seu lugar no infinito recôndito do nosso ser e ali fica, com vontade de voar, com receio de cair. Porque voar implica conhecer os pontos de orientação, mas ela nada sabe de caminhos, só conhece o do coração e segue por ele ou simplesmente deixa-se ser levada conduzida com suavidade. 
Aventuras já não são para a alma amadurecida pelo tempo que só o tempo lhe conhece a idade. Afinal, dizem presumindo, que alma nunca é nossa já foi de outra vida e a outra depois de nós pertencerá. 
Apenas a guardamos, protegemos e tentamos que seja feliz. Quem sabe até encontre a sua alma gémea, neste lado do mundo, neste lado da vida. Mas se estiver na outra fase da lua, nunca encontraremos um luar comum, e o meu dia será eternamente a tua noite e a tua noite o meu dia. 
O teu sorriso a minha lágrima, o teu frio, o meu calor, mas nesta alma comum de sentimentos, a geografia não fará transtorno ao amor. E a Norte ou a Sul, Este ou Oeste, haverá um qualquer ponto cardeal que nos conduzirá na confluência de mares, rios, céus, estrelas, sol e lua, dias e noites, vida passadas, presentes ou futuras. 
Nem que seja necessário construirmos pontes, derrubarmos muros, cruzarmos fronteiras terrestres, marítimas ou celestes, um dia, haverá certamente um dia em que finalmente a minha alma encontrará a tua no mesmo lado do universo e dessa história por fim unida e galáxia festejará e dessa celebração nascerá uma estrela, a mais bela, a mais brilhante, única, nossa. Que existe só para nos iluminar e assim não nos voltarmos a perder por entre os meandros do sentir.

sexta-feira, 27 de Junho de 2014

S. Pedro


S. Pedro das chaves guardador,
Escolhe a certa para mim,
Aquela que me revele um amor,
Que me acompanhe até ao fim.

Serei grata por toda a vida,
E por toda a vida te celebrarei.
Por ver uma primavera florida,
No olhar de quem sempre amei.

Mas S. Pedro porque demoras,
Quando o dia já quase adormece,
Enquanto eu vou contado as horas,
À espera de quem me esquece.

Mas a sardinha já salta na brasa,
E o manjerico perfuma a noite.
S. Pedro não vou ficar em casa,
Vou para a festa à procura da sorte.


quinta-feira, 26 de Junho de 2014

Post.it: Aniversários

São datas que festejamos porque as gostamos de  recordar, de guardar algures na memória, algures no peito. Então abrimos as asas à alegria de poder repetir vezes sem conta essa celebração de continuidade. Porque essa data nos dá motivos para gostar dela, para a enaltecer. É o culminar de mais um ano, de momentos, talvez nem todos completamente perfeitos, “houve dias de sol, houve dias de chuva”. Mas a grande felicidade é que houve “dias” que se multiplicaram por semanas, meses, anos. Celebramos aniversários, que são sempre de nascimento, de surgimento de algo de bom na nossa existência: o começo do amor, o casamento, o nascimento dos filhos, o início de uma carreira, a concretização de um sonho, projectos, viagens e até o início de uma amizade.
Então festejamos sem nos cansarmos, repetindo em nós a sensação do seu começo, a novidade, a surpresa, a alegria, o salto descompassado do coração, o tocar o céu, desenhar as estrelas, a descoberta única de uma felicidade que nos atingiu em pleno no corpo e na alma.
Mas há datas que entretanto já não festejamos por razões que só a vida, mentora de realidades, gestora do tempo, o pode explicar. Porque nós, embora já não tenhamos motivos para celebrar essa data, continuamos a recordá-la, sem aquela grande alegria, é verdade, mas, guardamo-la num recanto muito íntimo de nós, esse lugar a que chamamos Saudade.
Para todos os que celebram aniversários de algo, parabéns.
Para os que já não celebram algumas datas, que lhes seja possível voltar a celebrá-las.
Para os que não têm datas para celebrar, recomecem novos aniversários, comecem agora a festejar, nem que seja o dia de hoje, 26 de Junho de 2014.

terça-feira, 24 de Junho de 2014

S. João

S. João estás no Porto,
Mas Lisboa não se importa.
Se nos levares o desgosto,
E o amor bater à nossa porta.

João que nos és santo,
Pelos milagres conhecido.
Torna a vida no encanto,
De ser um sonho acontecido.

E hoje que é o teu dia
Celebrado neste país.
Que só te pede a alegria,
De voltar a ser feliz.

quarta-feira, 18 de Junho de 2014

Post.it: Como não gostar do verão...

Gosto do verão e já os acalorados suspiram e abanam um leque ansioso por agitar o ar, por fabricar brisas de frescura. Enquanto outros mergulham de imediato no armário em busca de calções, camisolas de alças, de chinelos e todo o corpo grita por uma liberdade que os espartilhos do inverno agrilhoaram por um tempo que nos pareceu infinito na trilogia de chuva, vento e frio.
Gosto do verão atrevo-me a repetir enquanto olhares fulminantes parecem querer matar-me as palavras; ligam as ventoinhas, os ares condicionados, escondem-se nas sombras urbanas, bebem litros de água como se o calor lhes ardesse no peito, e arde, “é da idade” dizem entre um sorriso que se solta porque nem tudo na “idade” é mau, também cresce a tranquilidade, a sabedoria de quem percebe o sentido da vida: aprende-se a vive-la em todos os seus momentos e retirar de cada um o que tiver de melhor. Porque a “idade” ensina-nos que a vida é infinita se for vivida e apreciada mas rapidamente finita para quem estende o olhar, o coração ao horizonte longínquo e não vê, sente, o que lhe está perto. 
Gosto do verão, insisto, mesmo com todas as picadelas de insectos, que digo em tom de graça que são beijinhos, afinal nem chega a ser desgraça e tudo acaba com uma injecção antialérgica. Depois lá ando com coloridas protecções: pulseira amarela, ultrassons em tons de azul e branco e quando a escuridão desce do céu, à minha volta desenha-se o que poderia  ser uma cena de ultra-romantismo, mas é apenas um conjunto multicolor de velas repelentes de insectos.
Mesmo assim, permitam-se a repetição quase estóica, “gosto do verão”. Quando as noites tardam em chegar e o dia se prolonga numa ténue  luz que suavemente se  dissolve por entre os ramos das árvores, deleitando-se pelos telhados, estendendo-se lânguida e terna pelas ruas, tocando rostos, acariciado as flores que aos poucos se vão fechando recolhendo para um sono profundo. O dia adorna-se  com o mais belo pôr-do-sol que se dissolve gentil sobre um leito de mar, cresce um silêncio de profunda admiração pelo pintor celestial que compôs tão bela e harmoniosa paisagem. 
Como não gostar do verão…

quinta-feira, 12 de Junho de 2014

Milagres de Sto. António

Sto. António quantos pedidos,
Tens nesta época de atender.
Corações que andam perdidos,
Amores que se querem entender.

Mas os milagres já pagam imposto,
E não há descontos para a felicidade.
Grátis, só se for algum desgosto,
Em promoção, só se for a saudade.

Mas Sto. António ainda acreditas,
No poder da mais sincera oração.
E nas tuas festas alegres e bonitas, 
Lá vais pondo fim a muita solidão.

segunda-feira, 9 de Junho de 2014

Se Camões soubesse...

Se o amor soubesse,
Que amando sofreria.
Talvez amor não houvesse,
Para amar em cada dia.
Se o amor soubesse,
Ser a causa de tanto infortúnio.
Talvez o amor se escondesse,
No mais longo e profundo rio.
Se o amor soubesse,
Ser tão grande desventura.
Talvez já ao peito não viesse,
Revelar tanta amargura.
Mas o amor se verdadeiro,
Sabe que na sua realidade.
É um sentir bem fazeiro.
Que só traz felicidade.
Nunca pode a beleza do amor,
Magoar o mais nobre coração.
Lá porque o rimam com dor,
É a mais linda flor da emoção.
Se amor não houvesse,
Que nos declamaria Camões?
Um mundo que nos anoitece,
Sem nos iluminar os corações?
Agradeço ao amor por existir,
Agradeço aos poetas que o contam
Agradeço à primavera por florir,
Em todos os que o amor encontram.

quinta-feira, 15 de Maio de 2014

Por momentos...

Que dizer da minha noite? Nada, não me lembro de nada, nem de sonhos, nem de despertares. 
Dormi, penso que sonhei, que por momentos realizei desejos, conquistei ambições, fui o que não sou, o que nunca serei. 
Acreditei e ao acreditar fui feliz. Porque a felicidade, a verdadeira felicidade é acreditar, em nós, nos outros, na mudança das estações do ano, nas árvores que resistem a tudo até a nós, nos rios que por mais que lhes alteremos o percurso encontram sempre o caminho, o seu. Enquanto a humanidade continua na sua efémera eternidade em busca de um que lhe pertença.
Mas aqui, nesta noite, encontrei-o, penso que sim, porque acordei com aquela tranquilidade de quem teve a recompensa de um dia sôfrego de paz.
Acordei, espreguicei o olhar e apeteceu-me sorrir, abraçar o sol, moldar nas nuvens  palavras de alegria e depois caminhar sem destino ou sem saber, com um destino certo, aquele que me leva à noite, ao sonho, à felicidade de ser quem não sou, quem sabe, nunca serei, sem que isso me incomode, porque no fundo, bem lá no fundo sei que na realidade sou o meu sonho concretizado de uma forma ou de outra, esta jovialidade o que me dança no peito e que me faz ser o rio que encontra sempre o seu caminho através das curvas e arestas de cada margem da vida.

segunda-feira, 12 de Maio de 2014

Ele bate

Podem deixá-lo esquecido,
Mas ele bate, bate ferido.
Podem acusá-lo de frieza,
Mas ele bate, bate de tristeza.

Podem chamar-lhe pedra da calçada,
Mas bate, bate de alma magoada.
Podem condená-lo, por o achar frio,
Mas ele bate, bate por não estar vazio.

Podem apagá-lo da lembrança,
Mas ele bate, bate de esperança.
Podem passar sem que o vejam,
Mas ele bate, bate para que o sintam.

Podem pisá-lo até à dor,
Mas ele bate, bate de amor.
Podem julgá-lo duramente,
Mas ele bate, bate porque é gente.

terça-feira, 6 de Maio de 2014

Post.it: Final feliz

Quando tudo fica bem, o ideal acontece, o sonho realiza-se, o coração reconforta-se e a esperança renasce. 
Quem sabe, um dia, o impossível se torne igualmente possível para si, que não aconteça só nos filmes, nos livros, na vida dos outros. Quem sabe também nós tenhamos um dia o nosso Final Feliz.
Esta nossa ideia romântica da vida, este nosso desejo de felicidade, esta nossa ambição de atingir a perfeição das coisas leva-nos a ver, a sentir, este Final Feliz como algo de extraordinário. 
Mas vejamos o contrassenso que a expressão encerra, a oposição dos termos, como pode ser um Final Feliz, se está condenado a ser um final. 
Um final nunca é bom, porque nos reduz ao seu finito, porque nos deixa sem horizonte longínquo, porque nos rouba os sonhos futuros, porque nos impede de voar, porque nos tira a possibilidade de ir mais além, de conquistar novas oportunidades.
E no entanto, quantos de nós não trocaríamos tudo isto por esse Final Feliz, dure o tempo que durar, uma vida inteira, uma década, um ano, ou apenas e simplesmente uns breves meses. 
Acredito que aceitaríamos a proposta do destino, nem que fosse só pelo vislumbre dessa pequena mas imensa possibilidade…

segunda-feira, 5 de Maio de 2014

Post.it: Morada de vida

Nova semana, nova vida? E porque não? Por vezes, as mudanças acontecem, sobretudo quando não as esperamos. E, se forem boas, são sempre bem vindas. Mas o melhor é encarar o dia com a preguiça saborosa de sempre, abrir um olho e depois o outro, espreitar o dia, escutar o silêncio. Este pequeno instante, antes de as portas começarem a abrir e a bater com maior ou menor violência, o motor dos carros, os passos apressados, as birras de sono das crianças. Só o Micas, o cão da minha vizinha, salta e rodopia, feliz por estar vivo, por ir passear, cheirar as flores, cumprimentar o sol.
Enquanto nós continuamos a despertar cada parte do nosso corpo, depois dos olhos, os braços e as pernas, os pés que se fincam no chão e esperam a ordem de um cérebro dormente, que lhes diga para onde seguir. E lá vão sem saltos nem rodopios. Como invejo o Micas e a sua alegria. Respiro fundo, encho o peito de ar e espero que ao conjunto químico seja acrescentado um pouco de esperança. Esperança de que hoje, nem que seja só por hoje, as pessoas vão cumprimentar-se com um sorriso, sem atropelos na corrida de chegar o mais depressa possível ao final do dia, ao regresso. Porque a alegria de partir, de abandonar o leito que nos abraça é a promessa de um regresso.
E quando me questiono sobre o que fazemos aqui, não tenho resposta, não daquelas eruditas, metafísicas. Sinto apenas que estamos aqui para voltar ao nosso lugar. Um lugar que é nosso, que nos recebe, que nos aconchega, que nos protege, que se molda a nós, que reflete os nossos gostos, um pouco do que somos e o muito do que desejaríamos ser, talvez mais organizados, mais amplos de luz e espaço. E quando aquela porta se abre, quando o cheiro de morada nos invade a alma, entramos sem pressa, só para sentir a suavidade de cada passo, a certeza de que estamos aqui, talvez sem grande missão, quem sabe não por muito tempo, talvez sem uma grande meta, mas para regressar ao útero de vida a que chamamos lar e outras espécies, ninho, gruta, porto seguro...
Não se mede em metros quadrados, nem pelos objetos de decoração, mas pela vida que pulsa nela, a nossa. Sem a nossa morada não passamos de nómadas, perdidos de nós em busca de um luar que não nos gele e de um sol que não nos queime a réstia de esperança e de dignidade humana.
Por tudo isto, despertamos, abrimos um olho e depois o outro, colocamos os pés no chão e caminhamos para aquele abraço humanizado com o nosso calor e cada passo que damos é na direção do mais feliz regresso.

quinta-feira, 24 de Abril de 2014

Post.it. Pátria

“A minha pátria é a língua portuguesa”
(F. Pessoa)

A minha língua é uma história feita de caminhos nómadas, na estrada escavada pela erosão dos ventos, delineada nas escarpas rochosas pela chuvas intemporais, no romper dos mares pela terra adentro, e pelo embalo das ninfas vozes oceânicas. Esta língua que adquiriu matizes de humanidade, laivos solares da sua cultura ocidental e pigmentos terminológicos de longínquos povos. 
Esta pátria linguística desde há muito mesclada de tantas tonalidades e expressões, corre-nos nas veias em células de povos fenícios, gregos, celtas, bárbaros, de impérios erguidos de conhecimento e desmoronados de ambição. 
Porque a língua é uma arma poderosa: serve para declarar a guerra mas também para exprimir sonhos de paz e de amor. Tem genes de reconciliação, é uma ponte que une as margens separadas, cria encontros, estabelece laços, num diálogo de aproximação mas também, quantas vezes, de  separação.
Uma língua que nos conquista, com a doçura da sua fonética, com este sentimento de saudade de quem fomos e de quem somos, um sentir que se agarra à nossa pele, povoa o nosso sangue, faz parte intrínseca de nós. Por isso é custosa a mudança que se queira fazer à língua que bebemos com o leite materno, é como mudar o corpo, tatuá-lo de vivências que não são as nossas. Arrancar letras ou acentos das palavras que nos habituamos a desenhar com a ternura de uma mão incerta, que vai adquirindo o jeito e começa a abrir as asas e a voar para além dos limites do papel. 
É certo que as línguas são organismos vivos, nascem, crescem modelam-se, modelam-nos, perduram, continuam a espraiar-se longamente para além de nós. Tornam-se infinitas, imortalizam-nos nessa herança que recebemos e que passamos como testemunho de vida, de luta, de glória. 
Mátria língua, semente de esperança, entranhada neste peito luso, que  se ergueu majestosa de alento e uniu num só ideal todo o nosso Portugal. Em homenagem ao passado, que quis no seu presente conquistar a Liberdade do futuro. Usando apenas como armas: a Coragem, o Coração e os Cravos. 

segunda-feira, 21 de Abril de 2014

Post.it: Amar é um dom

     Amar é um dom, um dom que nos nasce, um dom que nos faz crescer inteiros, preenchidos de vida, de encontros, de gestos, de boas vontades, afagos e afectos.
Reconhecer o que nos é dado como testemunho de caminho é a extensão do que somos, de onde viemos, para onde vamos, afinal todos somos uma obra inacabada dos outros, “a nossa história começou antes de nós e persistirá depois”. Mas também nos que estão presentes ausentando-se por vezes sem contudo partirem.
Amar é um dom que nos confirma humanos, de braços que se estendem para dar e receber. Porque se nos darmos pode ser difícil, saber receber não é tarefa fácil. A gratidão é mais do que um “obrigado” lançado ao vento e que de tão leve de conteúdo dilui-se antes de nos alcançar, antes de nos entrar no peito, reconfortar e apaziguar as incertezas da alma. Agradecer tornou-se um mero gesto de “boa educação”. Até porque desde crianças nos habituamos a receber coisas fabricadas em série, coisas que todos têm e nada, nada mesmo nos parece especial.
Mas amar é um dom, que ultrapassa os mecanismos, a industrialização, o consumismo, o comum e que o vê e o sente individual, único na atitude de oferta não de “objecto”, mas da intenção que cria o gesto da compra, do embrulhar até à mão estendida que oferece, quando nesse afago se dá a si também em amizade, em carinho, em amor.
Amar é um dom, reafirmo, um dom que não vejo em alguns olhares, em alguns corações que ainda não o sentiram desperto e mesmo quando vêm de mãos estendidas, quando chegam de braços abertos, dão, e no entanto, sem se dar.
Mas não vou acumular ressentimentos pela aparente falta de gratidão, não vou prantear a dureza de um silêncio que não ganhou voz. Vou olhar tudo isto como uma etapa de crescimento  e perceber que a proximidade tem sempre uma distância que medeia a realidade do que cada um é  e a idealização que dele fazemos. E porque amar é um dom, sem sabermos bem como, vamos amando e acreditando que a “verdadeira riqueza humana, não está no que se vê, mas no que cada um traz no coração”.

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Post.it: Eu e o meu "Eu"

O problema é o Eu, não eu enquanto pessoa, enquanto ser social, mas o meu Eu, ego, auto-estima, vaidade, desejo e vontade.
O problema é o Eu, que exige direitos que quer que sejam seus, unicamente seus. Que reclama atenções que acha, lhe são devidas, porque afinal esse Eu, é boa pessoa, exigente mas generosa, custava que lhe dessem um pouco da medida que dá?
Talvez sim, porque quem recebe, nem se apercebe da dimensão de cada gesto, de cada pensamento, de cada sentimento. Não percebe que cada letra escrita, cada palavra verbalizada vem de dentro, não do espaço das banalidades mas da fonte mais profunda,  de onde brotam as emoções.
Então o meu Eu fecha-se dentro do peito, inventa a sua ilha e sonha que em algum lugar existe um mundo mais verdadeiro, mais inteiro, mais palpável. Que em alguém há num qualquer lugar do seu um coração que saiba sorrir, uma alma que saiba dar de si sem querer apenas receber, guardar, e apreciar sem reconhecer, sem retribuir.
 Mas no fundo bem no fundo, o meu Eu sabe que esse lugar não existe que esse Outro nunca será  um encontro. Que a vida é feita mais de desencontros do que encontros. Que tudo neste universo de vidas é uma mera passagem, que tudo é finitude e que mesmo o infinito de um momento único e belo nem sempre chega a existir.
Porque por mais que façamos, por mais que nos reinventemos, adaptemos, tentemos conquistar e quase ser idênticos aos nossos semelhantes, seremos sempre nós, e dentro de cada um de nós, este Eu.
Um Eu Honóris Causa, porque tem apenas um direito constituído de aparências. Uma capa, que nos envolve o dia e adormece a noite desamparada de coincidências.
Na realidade estaremos sempre sós,  apenas nós e o nosso Eu, mais ou menos adaptado, mais ou menos feliz com as pequenas coisas, mas também, quiçá, infeliz com todas as outras, perspetivadas, ambicionadas, sonhadas, mas que tarde ou nunca chegam a acontecer.
Os outros serão sempre os outros, mesmo quando entram na nossa vida, mesmo quando marcam o nosso passado, mesmo quando definem o nosso presente, não os devemos prender nem os tornar a causa do nosso futuro, um futuro que pode nunca acontecer da forma como o idealizamos, como construímos esse que é apenas um castelo de cartas. Não podemos viver com receio de ventos, de chuvas, de intempéries que desmoronem os nossos sonhos, temos de construir as bases sólidas 
de um castelo emocional para que não se desvaneça com a erosão do tempo, nem a cada obstáculo, a cada curva mais apertada da nossa estrada de crescimento.
Como o fazer? Talvez nunca o saibamos, vamos tentando descobrir em cada momento que a vida nos proporciona.
E um dia, talvez um dia o meu Eu se encontre comigo, num desses encontros felizes em que a emoção e a razão fazem as pazes e partem de mãos dadas pela vida fora num horizonte de Happy end(s)

sexta-feira, 21 de Março de 2014

Post.it: O tempo e os lugares do nossos caminhar

É assim que o tempo passa, umas vezes sem darmos por ele, outras arrastando-se ou arrastando-nos para onde queremos ou não queremos ir. Mas chegamos aqui. A lugares que não idealizamos mas que de uma forma ou de outra nos fizeram chegar. Era bom pôr a culpa no destino, nessa mão invisível que vai escrevendo (direito) por linhas tortas, por vezes muito tortas. Mas será que é mesmo assim? Não seremos uma pequena bola que vai batendo em outras bolas e fazendo uma onda de energias e reações? Talvez todas as coisas tenham as suas consequências. Os pais, os lugares, os amigos, os inimigos, e no somatório de tudo isto, nós. Em alguns casos, a continuação de nós, nos elos entrelaçados de genes, de fugas à tradição, à imposição. Mas no fundo, bem no fundo, não podemos fugir. Cada fuga de um para outro lugar, de uma para outra situação é apenas e sempre o nosso caminho. Não há como voltar atrás e remediar o que está errado. Resta-nos tentar fazer do presente um futuro que quando for passado não nos crie arrependimentos, que nos faça sentir que até gostamos do passar do tempo, das suas rugas, das suas feridas saradas. Leve o tempo que levar. Leve-nos ele para onde nos levar.

segunda-feira, 23 de Setembro de 2013

Lágrimas

“As lágrimas lavam os olhos e limpam a alma!”
Um ditado, como tantos outros. 
Às vezes verdade outras nem tanto.
As lágrimas deixam os olhos salgados
Vermelhos, inchados
Ardidos e doridos pelas lágrimas que os lavaram.

E a alma?
Liberta-se só por um momento!
Uma lágrima chama outra e outra e outra
Tantas, tantas !
Um pranto de profunda dor
que deixa cair em lágrimas
os gritos que não pode gritar
as revoltas que minam e tem de calar.
os segredos que doem e não pode contar.

E a alma?
Fica limpa de tanto chorar?
Deixa cair a dor em pingos de sal a rolar
Mas não limpa, esvazia!
Porque são gotas de esperança a fugir
que deixam a alma pequena e a fazem mirrar.

E quando o pranto se cansa e se esgota o chorar
Secam-se as lágrimas e fica apenas o sal 
Tornam-se mágoas com arestas de cristal
Que se escondem e fingem sarar
Mas rasgam, cortam e abrem feridas que nunca vão fechar.
As lágrimas não aliviam nem curam
Só cansam os olhos
Estalam a pele
E nem impedem o coração de estoirar!

terça-feira, 17 de Setembro de 2013

É o futuro

Voltar à escola
Que emoção!
Um mundo de caras novas
Passam, falam, riem…
Eu passo, chego.
Nem reparam em mim.
Sustenho a respiração.
Donde vêm?
Onde quererão ir?
Saberão?
É o futuro
À espreita
Em espera
Ainda por decidir.
Abro a porta.
Quererão vir?

quinta-feira, 12 de Setembro de 2013

Setembro

Setembro
é especial
é início
é projecto
desejo de caminhar.

Mas é fim de verão
princípio de outono
e anuncia o inverno!

Sim, têm razão!
Mas é tempo de recomeçar!
a aprender
a trabalhar
a viver.
É tempo de acreditar no futuro.
Sim, aquele que temos de construir
se quisermos "passar"!

E para quem neste mês nasceu
é o tempo de festejar
a prenda que a vida lhes deu,
que a saibam aproveitar!

Para alguém muito especial
que a vida sabe merecer
que setembro seja mês feliz
por todos os anos que viver!

Nota: Uma pequena "prenda"para Olhares, pelo seu aniversário. Alguém que torna setembro e a vida muito mais luminosos. Parabéns por seres quem és!

quarta-feira, 11 de Setembro de 2013

Ainda há quem tenha brio?

Palavra pequenina, a traduzir desejo grande:
  . querer fazer bem feito
  . aperfeiçoar-se, para evoluir, para fazer melhor!
Palavra pequenina para tão grande vontade!
Sinto falta deste brio em quase tudo:
  . Nos bens e serviços, em que cada vez mais tudo é feito a despachar, com preocupação de aparência, mas tantas vezes sem inteligência funcional e com uma durabilidade só “até que me paguem”.
  . Na vida profissional em que cada um vai fazendo o suficiente, porque “não me pagam para mais”, em que o “mais” significa empenho, vontade, compromisso de merecer o salário e de contribuir para a sustentabilidade do seu emprego.
  . Na família e nas relações, em que cada um se vai mantendo acomodado à sua preguiça e escudado na sua maneira de ser, sem a generosidade de colaborar e de aplanar caminho até aos outros.
  . No plano político, em que cada partido, cada deputado, secretário ou ministro gasta mais tempo a promover a sua cor partidária ou a sua imagem e a garantir o seu futuro do que a procurar soluções e formas de valorizar os recursos naturais e humanos do país.
E, assim, a falta de brio pessoal e profissional passa a falta de consciência, a negligência, a logro, a roubo e…, evidenciando o nível de egoísmo em que as pessoas e a sociedade caíram.
Chamam-lhe direito ao individualismo, direito a ser quem é, direito a ter o que se deseja, direito a …
Talvez seja antiquada, de um tempo em que, a cada direito, correspondia um dever e em que o individualismo era considerado defeito.
Talvez seja antiquada, de um tempo em que ainda se acreditava que as relações, a família e a sociedade se baseiam mais no dar do que no receber.
Talvez seja antiquada, de um tempo em que se  dizia que só a contribuição briosa de todos pode garantir o bem-estar presente e a sustentabilidade do futuro.
Afinal, concluo: ter brio é querer fazer bem, mas leva-nos muito mais longe – torna-nos capazes de construir pontes, de aplanar caminhos e de criar bases sólidas para a durabilidade dos bens, das relações, das famílias, das empresas e do país.

segunda-feira, 9 de Setembro de 2013

Família

Fim-de-semana
Começa com F de Família
Rima com gente que se ama
Tal como cada dia
No calor dessa chama

Família
Princípio
Crescimento
Permanência
Longa duração
Mesmo quando a vida é dura
Até mais do que quando é canção

Família
Do lado do pai 
Da parte da mãe
Cresce
Do lado de cada irmão
E cresce
Do lado dos filhos e sobrinhos
A mesa vai-se fazendo maior

Família
É esta, do sangue
Onde cabe a outra
De encontro e escolha
Que entra
Fica
Permanece
E a família também cresce 
Do lado do coração.

sexta-feira, 6 de Setembro de 2013

Era uma vez: Sei de uma árvore.

Sei de uma árvore!
É alta, parece ainda forte e frondosa, como a querer tocar o céu e abraçar o sol.
Às vezes também olha para baixo e descobre a penumbra da sua sombra, as pequenas fendas que vão rasgando o tronco e as rugas cada vez mais fundas do seu casco.
Se o vento sopra mais forte, sente que já não o enfrenta com a mesma firmeza.
Se o sol se entusiasma no seu luminar, percebe que as folhas já se vão encarquilhando e deixando que finos raios cheguem ao chão, onde começam a despontar pequenas flores e ervas de um verde mais tenro.
Recorda os anos de juventude, em que o seu olhar se voltava apenas para cima, em busca da luz e do céu.
Depois, começaram a aparecer as flores, depois os frutos que, em cada ano, amadureciam e saciavam as aves, os pequenos roedores que subiam sem esforço pelo seu tronco ainda liso, e enchiam de alegria o agricultor, que vinha, de vez em quando, alisar a terra e cuidar para que as suas raízes estivessem sempre cobertas e que as ervas daninhas e os insectos nocivos ficassem sempre longe.
Foram anos felizes, de crescimento e esperança, ainda de olhar o céu, com uma ou outra olhadela ao chão, que não desistia de a chamar e atrair.
Nem se apercebeu do tempo passar, tão ocupada estava em procurar o céu, cuidar das flores, esperar os frutos, oferecê-los e sentir a alegria e o bem que ofereciam.
O agricultor deixou de vir. Passou a vir o filho. Depois vinha o neto
Foi feliz!
Sem dar conta, o tronco tinha engrossado e enrugado. A seiva subia mais lentamente. As flores demoravam e floriam cada vez menos. Os frutos eram em menor número e menos suculentos. O neto do agricultor vinha cada vez mais espaçadamente, até que envelheceu e mais ninguém veio.
Só as aves continuavam a querer os seus ramos e o sol continuava a acariciar as suas folhas, com o mesmo calor e a iluminar a sua copa com o mesmo entusiasmo.
Ainda era alta. Parecia forte e frondosa, mas já não tinha o mesmo vigor, já não dava os mesmos frutos.
Mas não entristeceu.
Vira outras vidas nascer, crescer e transformar-se em nova vida.
Crescera, oferecera a sua sombra, o seu tronco, os seus ramos, as suas folhas.
Tinha florido e amadurecido frutos vezes sem conta.
Oferecera-os todos. Vira a alegria com que tinham sido recebidos e compreendera a felicidade.
E ainda tinha o sol.
E tinha o chão.
Dera-lhe sempre pouca atenção e, agora, finalmente, respondia à sua voz e percebia que fora sempre ele o seu grande sustento.
E tornou-se amigo do chão.
Ainda é feliz!
Já não procura tanto o céu e o sol. Descobriu que eles estão já dentro de si, fazem parte do seu tronco enrugado, dos seus ramos que começam a decair, das suas folhas que já deixam passar a luz.
E tem o chão.
E  a luz que ilumina a terra e as suas raízes à superfície.
A mesma luz que faz nascer a erva mais verde e anima as flores a multplicarem-se e dá energia às borboletas, joaninhas e abelhas, que esvoaçam numa dança sem fim e lhe prendem os olhos e lhe enchem o coração.
Enche-se de alegria.
É uma alegria diferente, menos de si e mais dos outros.
É a alegria da vida recebida, saboreada e oferecida.
Agora, sim. É verdadeiramente feliz!


quarta-feira, 4 de Setembro de 2013

Onde está a esperança?

Um vazio, um nada assustador crescia, minava-o e deixava-o à beira da queda sem volta.
Lembrava-se do nada que, na História Interminável, ia invadindo o reino de Fantasia. De como ele se expandia e engolia e deixava atrás de si, o vazio. 
Fora um menino Atreyu que o vencera. Que, depois de muitas provas e obstáculos, muitos riscos e de quase morrer, descobrira a razão do tal nada que esvaziava Fantasia e ameaçava a vida da sua princesa. 
Uma razão simples, mas tão poderosa: a esperança estava a desaparecer do coração das pessoas e elas já não sonhavam, já não acreditavam.
E, assim, desaparecia um reino, por falta de esperança!   
Vira o filme, relera o livro e julgara ter compreendido a mensagem: a esperança é que motiva e move, a esperança é que faz viver.
Nessa época gloriosa dos “trintas” com os filhos pequenos, com uma vida longa pela frente (assim esperava) acreditava que nunca deixaria morrer a esperança em si! Tantos projectos tinha e de tal modo gostava de viver!
Ainda esperava tudo da vida. Não, não desejava ser rico, nem famoso, nem alcançar grandes feitos.
Apenas poder ganhar o necessário para criar e educar dignamente os filhos, vê-los crescidos, a tomarem conta de si próprios e a serem pessoas de bem.
Apenas poder contar com um futuro que o seu esforço e as suas contribuições lhe prometiam.
Apenas poder amar e ser amado, como o seu coração desejava e merecia.
E, nessa época, tudo isso lhe parecia tão simples, tão natural, tão espectável, tão alcançável.
Nessa época, a esperança era possível. Pela idade, pelo caminho de crescimento em que o país parecia ter finalmente embarcado, à boleia de uma Europa que considerava sólida e, depois de duas guerras, finalmente sábia.
E, sobretudo, havia ainda tantos anos pela frente! O seu coração tinha ainda tanto tempo! Havia ainda tantas possibilidades!
Mas … 20 anos passaram... Depois de tanto caminho feito, percebera dolorosamente o real significado do nada que ameaçava Fantasia. Porém, agora, esse reino era dentro de si e estava a ser invadido, a transformar-se em nada, em vazio.
Não, não perdera a esperança. Ela é que se fora embora.
Levara-a a falta de caminho para os filhos, num país saqueado e à deriva.
Levara-a a falta de um futuro para si, com as suas contribuições desbaratadas pelos salteadores ou piratas que se arvoram em donos de tudo e de todos, que mandam e desmandam, sempre em seu proveito e raramente a pensar no bem comum.
Levara-a a perspectiva de trabalhar até morrer, se tiver a sorte de não ser despedido.
Levara-a o passar dos anos sem encontrar resposta à capacidade de amar e de se dar.
Um dia acordara e descobrira o nada dentro de si. 
O seu vazio, o seu cheiro, a sua náusea, a sua escuridão.
Agora, luta diariamente por vencê-lo, percorre todos os caminhos em busca da esperança. Em vão. Ela não se deixa encontrar, ou talvez tenha emigrado.
Agora, já não conta com a vida toda pela frente. Vê-a atrás de si e resta tão pouco tempo para ainda sonhar e acreditar!
Mais uma vez acordou sozinho. Sentiu o nada a alastrar, o vazio a crescer.
"Onde estás esperança?"
Só o nada respondeu.
Sentiu-se perdido.
Como viver mais um dia sem esperança, sem a sua promessa de que tudo vai correr bem?