sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Post.it: Olhando para trás

Há sempre os que nos esquecem. Há sempre os que como nós, esperam e de tanto esperar, já fizeram da sua vida, ausência e esquecimento. Doloroso no início, suavizando-se com o passar do tempo. Houve até momentos de lamento, de revolta, de culpa inocente. Exigimos o direito a ser feliz. Uma felicidade que julgamos estar no outro. Com ele a felicidade chegou, sem ele, a felicidade partiu.
Já dizia a sua avó, “depois do encanto fica o pranto”, e ela ria-se garantindo, “comigo nunca será assim, nunca hei-de ficar à espera”. Nunca hei-de perder “esse alguém”, em boa verdade, esse coração intrépido e rebelde como se quer nos verdes anos, não achava possível vir a conhecer tão maravilhoso, doloroso, grandioso, fantasioso, (preferia assim supor), sentimento.
Os pais riam-se da “santa” ingenuidade, os avós passavam-lhe a mão pelo rosto “ai criança, era bom que assim continuasses, mas há-de chegar o dia… Chega sempre, para quem o procura e para quem dele foge”.
Tinham razão, como não havia de não se  apaixonar se por tudo era uma apaixonada, nas descobertas da vida. Coisas da juventude, talvez, mas o tempo passou e continua a fazer tudo com paixão. A entregar o corpo, a alma, o coração. Continua a correr, a cair e a esfolar os joelhos. O sorriso continua a dançar-lhe nos lábios, a mesma gargalhada de menina, mas os olhos tornaram-se escuros, cada vez mais escuros.
De repente. Fecha-os envergonhada da sua transparência, sentindo-se invadida, revelada no seu mais intimo segredo. Tenta gracejar, “é a noite a chegar, já vivi o amanhecer, agora vou entardecendo”.
Há sempre os que nos esquecem, que fizeram parte do nosso projecto de futuro mas que nos passaram a ver apenas como o seu passado. “Faz parte da vida”. Tenta convencer-se acreditando que nos convence e que assim a deixamos entregue à sua nostalgia. “Temos que caminhar em frente”, reforça a ideia, numa tentativa gorada de curar as feridas do esquecimento.
Acabo por confirmar, só para não ser a voz discordante, mas uma frase me vai dançando no pensamento, “Sim, temos de caminhar em frente mesmo que com os olhos olhando para trás”.


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Tecendo a rede

Toda a vida é morte,
Diz cozendo a rede o pescador.
Desencontrado da sorte,
Em cada encontro com a dor.

Morreu-me a infância,
Partiu-se-me a juventude.
E com elas toda a alegria,
E com elas toda a virtude.

Morreu-me a madrugada,
Onde me crescia o sonhar.
Partiu até a mulher amada,
Levando-lhe os filhos do lar.

Morreu-me cada dia,
Em que o mar roubava vidas.
Vestiu-me de penosa maresia,
Em luto de tantas despedidas.

Toda a vida é morte,
Anos, meses, dias, horas.
Que partem para o desnorte, 
Na rede em que me demoras.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Post.it: Natal em Novembro


Gosto do Natal em Novembro, quando as luzes coloridas se começam a acender, quando as montras se enchem de coisas bonitas, quando as prateleiras das lojas se enchem de brinquedos sorridentes, reluzentes. Quando as caixas das bonecas ainda estão inteiras, quando as pilhas dos bonecos ainda funcionam e quando lhes tocamos nos dizem olá e outras palavras com infantil doçura. 
Quando as pessoas encasacadas e com cachecóis quase só deixando ver os olhos nos lançam um olhar brilhante e sorridente, parece estranho mas sem lhes ver a boca vemos-lhes o sorriso, estampado na face rosada de frio. 
Gosto do Natal em Novembro, quando ainda não há corrida para as compras, quando ainda não há fila para os embrulhos. Quando ainda sonhamos com um Natal perfeito, em que tudo vai correr bem, que todos vão receber a prenda que desejam, que não há lares de mesa vazia, lares sem família, lares de tristeza, de doença, onde a partida parece eminente onde a dor parece permanente, lares onde o Natal não entra pela porta nem pela chaminé. Mas em alguns desses lares, o amor sobrepõe-se às dificuldades e há noite contrariando o cansaço e o sono, alinhavam-se bonecas de pano, bolas de restos de tecido, para que os filhos tenham no sapatinho um pouco de Natal. E quando nem isso têm para lhes dar, passeiam de mãos dadas pelas ruas iluminadas, levam os filhos para ver as montras recheadas e deixam que sonhem, porque só o sonhar lhes podem oferecer, é grátis, dizem numa tentativa de esperança que a dureza dos dias frios ainda não lhes tirou. 
“À noite, um cházinho e uma fatia de bolo Rei que nos ofereceu a paróquia e está celebrado o Natal, para o ano será melhor, e olhe, desde que haja saúde já nos damos por felizes”, garante aquela senhora com idade indefinida, deve ser jovem, pelo menos olhando à idade dos filhos, essa prole de anos em escadinha que caminham em fila saltitante, são 4. “5 corrige-me a corajosa mãe, abrindo o casaco e revelando uma gravidez avançada, “deve nascer por volta do Natal, vai ser o meu menino Jesus e vai-se chamar Jesus!. Era costureira numa fábrica que dispensou mais de metade dos trabalhadores, e ela veio-se embora, agora faz pequenos arranjos de costura em casa e toma conta dos filhos, “sempre se poupa no infantário”. 
Gosto do Natal em Novembro quando a azáfama ainda não nos sufocou, quando o receio de esquecer alguém ainda não nos criou ansiedade. Quando os dias ainda têm 24 horas, porque depois sentimos que diminuem e rapidamente aproxima-se a festa do Menino. 
Gosto do Natal em Novembro, de o saborear entre um café e a companhia das amigas que começam sem pressa a planear o Natal, “este ano vai ser na casa dos meus sogros, o ano passado foi com os meus pais”, “os miúdos este ano passam a noite de Natal com o pai e a dia comigo”.  
Gosto do Natal em Novembro quando uma espécie de ternura nos começa a envolver e de repente outros Natais vêm-nos à memória, Natais da infância com os pais, avós, tios, primos, amigos, com os que ainda estão já mais velhos mas que ainda reconhecemos pela afabilidade das palavras e pela candura gestos de amizade, outros, já partiram, mas ficaram e estão connosco em todos os Natais.  
Gosto do Natal em Novembro, quando o Menino nos começa a “renascer” na alma e a preparar-nos para a sua festa em Dezembro.   
Quem me dera que o Natal fosse em Novembro, mas também em Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro, todo o ano, todos os anos, em todos os lares, em todos os corações. 


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Momento adiado

Guardo de ti na memória,
A suavidade de um rosto lunar.
Guardo secreta a nossa história,
Onde só o coração pode guardar.

Nessa semi-escuridão,
Brilha o estranho mistério.
Que nos leva onde só vão,
Sonhos de um outro hemisfério.

Guardo de ti a voz calada,
Onde todas as palavras falavam.
Como se fosse a madrugada,
Onde os raios de sol brincavam.

Um ultimo sonho acalento,
Daquele adiado momento.
Saber do teu arrependimento, 
Por teres esquecido o sentimento.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Post.it: O dinheiro não compra...

Conheço pessoas impossíveis de se aturar, pessoas impossíveis de se gostar, no entanto casaram, tiveram filhos, pais, avós, tios, primos, etc. Questionamo-nos com, porquê? Alguns mais pragmáticos, sugerem que são pessoas “interessantes” pelo seu dinheiro. Que os seus bens compram o amor, a dedicação, a amizade e tudo o mais. Será? Custa-me a aceitar que o dinheiro tenha tal poder, mas por outro lado, quando essas pessoas abrem a boca e de lá sai um role de disparates, de insensibilidade, de agressividade, duvido das minhas próprias dúvidas e chego a acreditar que só o dinheiro pode comprar alguma paciência para os aturar, para os suportar.
Olho-os e procuro encontrar neles a criança que foram, estará lá em algum recanto do seu ser? Mataram-na, só pode! Garantem-me. São assassinos da ingenuidade, da humildade, da solidariedade, da esperança, do sonho. Acreditam, têm fé em si, instrumentos de guerra pessoal. E no entanto estes “grandes homens” tão “cheios de si”, que ofendem, que anulam, que usam, que pisam, são pequenos homens. Com gigantes medos, medo de não conquistar, compram, com medo de não receber, rodeiam-se de luxuosos brinquedos, com medo da solidão, compram a companhia. Um dia, mais tarde ou mais cedo, confessam-se “tão inteligente e tão parvinho”. E surpreendidos, vemos-lhes o medo, um medo de tudo e de todos, da vida, da morte. Um medo humano, não de carne e osso, mas de coração, de paixão. A criança que foram, afinal não lhes está completamente “morta”, esteve escondida, assustada, perdida. Nos momentos em que espreita, tem apenas um desejo voltar para lá, para a vida uterina, para antes de nascer, de ser e ter de fingir que não é o que é.
E reconhecem sem o dizer que “ nunca de lá deviam ter saído”. 
Quantos e quantos não estarão a concordar com esta afirmação. Eles e a história da humanidade no seu passado, presente e futuro, unem-se nesse mesmo desejo. 
Porque nós que não podemos “comprar” o seu silêncio, as suas acções imponderadas, os seus erros, as suas guerras, para que não cheguem a concretizar-se, resta-nos outras formas de luta através do medo que nos aumenta a coragem.


terça-feira, 15 de novembro de 2016

Post.it: Palavras molhadas

Lembro-me bem, era miúda que as palavras lhe caiam pelos olhos. Sim as palavras, não estou a dizer tolices, nem  iludida pelas memórias da infância. Também estranhei na altura, mas descobri depois, muito depois, que as palavras podem realmente ser expressas de diversas formas. Aquelas, juro, saiam-lhe pelos olhos em rios de água que emergiam do coração e caiam em cascatas incontroláveis no chão.  Lembro-me de pensar e se as palavras não parassem nunca mais? Devia surgir uma inundação e com ela nunca mais haveria silêncio, tremi. 
Eram lágrimas disseram-me, tentando explicar à minha tenra idade a ignorância manifesta do que dizia, mas insisti, “Não! São palavras molhadas de dor”. 
Já nessa altura, recordo, que me expressava de forma estranha para muitos, incompreensível para outros. “Esta miúda fala como se estivesse a falar de livros”. “Como se estivesse dentro deles” retorquía outra voz pesarosa do meu suposto defeito genético. Mais consolara outra voz dizia num suspiro reconfortado “ É o seu mundo…”. 
Sim era o meu mundo, com tantos amigos, com tantas histórias, mas não infantis, dessas não gostava, eram para adormecer bebés e eu já era crescida, apesar de ainda mal chegar à mesa das refeições. 
Preferia leituras “mais crescidas”, eram mais interessantes e continham subtis lições de vida. Que tardes amenas tristes e alegres passava na companhia de  Dostoievski, Tolstoi, Zola, Sartre, V. Hugo. Heróis sem capa e espada, mas com o poder de darem aos meus olhos de miúda, um antagónico  daltonismo que me fazia ver  tudo à  volta com cores que ninguém mais via: o azul que era mais azul que o céu; o branco mais branco que as nuvens; o verde mais verde que a natureza; o vermelho mais vermelho que o sangue; o amarelo mais amarelo que o sol; o preto mais preto que o luto, as lágrimas completamente opacas de palavras. 
Hoje,  as pessoas continuam a deixar cair pelos olhos algo que não sei se são palavras, vejo mas não escuto como escutava naquela altura, culpa minha por certo. Cresci e perdi a inocência, perdi as cores e já não encontro em nenhum olhar por mais magoado que esteja, aquelas palavras que lhe caiam pelos olhos. 


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Post.it: Viagem à Índia

Não foi um passeio turístico, desses que se vai à procura do diferente, do exótico. Foi uma viagem do corpo, da alma, de dar e sobretudo de receber. Porque quando entramos num país como a Índia, na verdade deixamos o país entrar em nós. Mais do que a sua  alegria e a sua tristeza, mais do que a sua riqueza e sua pobreza, mais do que a sua cultura e os seus hábitos de vida fica-nos o olhar. Esse olhar que nem a diferença linguística consegue impedir de nos tocar, de nos falar e nós de coração aberto, escutamos e sentimos, a sua vida, a sua dor e sobretudo o seu amor. Aquele amor que resiste a tudo, que como uma flor emerge em beleza pura mesmo nas situações mais adversas. Esse amor, encontrei-o, abracei-o, mas senti-me quase minúsculo, quase fraco, e os meus braços foram demasiado pequenos para esse abraço que queria chegar a todos e chegou a tão poucos. 
Andei pelas ruas, entrei nas sua casas, bebi o chá que me ofereceram, era tudo o que tinham, não, tinham muito mais a generosidade da partilha, do fazer sentir este estranho sentir-se bem vindo. Andei sozinho e sempre me senti tão acompanhado, dos rostos das crianças, das cores das suas roupas, do seu alinhado desalinho, do brilho dos seus olhos ávidos de saber tudo da vida. A sobrevivência, a capacidade de viver e nessa vida encontrar pequenas grandes formas de ser feliz. 
Estive na Índia em vários e distintos lugares, cada um tão belo quanto o outro, na sua essência, na sua diferença, nas pessoas, nos espaços, nas cores, nos sabores, nos aromas, no alinhamento, do céu e da montanha, do verde e do castanho terra batida, pisada de tanta suave e árdua caminhada.
Na bagagem do regresso, trouxe as fotos, milhares, desejoso de partilhar o que vi, o que senti, mas talvez não chegue para entender cada sensação, é preciso lá ir, e depois disso, é preciso regressar.
Eles ficaram lá, queria trazer todos e trouxe, no coração.
 (Foto in Paulo Teia SJ, Namasté, Braga, Frente e Verso, 2016)

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Post.it: Fé

Pode aprender-se a ter fé? Pode ensinar-se a fé? Tenho para mim que a resposta é não para ambas as perguntas. A fé é cega mas vê, é surda mas ouve, é muda mas fala, fala-nos quando nós a sabemos ouvir. Um saber que não vem em nenhum manual, que não vem de nenhuma teoria, mas no sentir, quando há em nós a capacidade de a vivenciar. A fé vem ter connosco e simultaneamente caminhamos para ela, não por uma escolha consciente mas porque é para lá que os nossos passos se direcionam, é para esse lugar de espaço e tempo que olhamos, então, só então, conseguimos escutar aquele passarinho a chilrear por entre o barulho da cidade. Sempre lá esteve, sempre nos cantou, mas agora que o conseguimos isolar dos nosso ruído interior, das nossas rotinas apressadas, da nossa constante inconstância, escutamo-lo. Está ali, algures, não precisamos vê-lo, senti-lo fisicamente, basta-nos a entrega que nos dá, a entrega que lhe damos de nós, do nosso tempo. Assim deve ser a fé, uma paragem por mais ínfima que seja, uma entrega por mínima que seja, e de repente o vislumbre de algo, uma certeza, uma razão, uma resposta, uma certeza. 
A religião compreende-se, a cultura assimila-se, a educação aprende-se, mas a fé sente-se. Algumas pessoas dizem que a fé é um dom e fazem dela a sua forma de estar na vida. Outras dizem que é um chamamento e fazem dela a sua vocação. Uns e outros encontraram a fé não sei se a ensinam, sei apenas que a partilham com o entusiasmo intemporal de quem vive a descoberta da mais bela (a)ventura.


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Os barcos perdidos

Que saudades tenho,
Dos barcos perdidos,
Dos sonhos esquecidos,
Do lugar de onde venho.

Que saudades de mim,
Quando o sol era eterno,
Até mesmo no inverno,
Brilhava num sem fim.

Que saudades de nós,
Com a felicidade presente,
E a vida cá dentro se sente,
Vibrante num cantar sem voz.

Que saudades de tudo,
Quando o tudo me elevava,
E eu tão jovem, acreditava,
Na beleza humana do mundo.



segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Moda alentejana

 Fui à fonte buscar água,
Desculpa só para puder ver,
Esses olhos sem mágoa,
Que parecem rios a correr.

Fui à fonte buscar água,
Desculpa para te ouvir falar,
Palavras que sem mágoa,
Quer o coração escutar.

Fui à fonte buscar água,
Esperei até o dia anoitecer,
Na vasilha já secava a água,
Que dos teus lábios queria beber.

Fui à fonte buscar água,
E só uma gota te pedia,
Por essa gota de água,
Toda a minha alma floria.

Mas tardaste, voltei sem água,
Pelo meu caminho infeliz.
Fui à fonte, voltei com mágoa, 
E este quer que tanto te quis.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Post.it: Entre conversas

Lembro-me das nossas conversas de outros tempos, falávamos de amores, de encontros e desencontros, de namoros fracassados e de outros começados, de casamentos sonhados e alguns felizes, dos filhos que nasciam de como cresciam, das suas aventuras e cada vez menos das nossas. 
Depois dos 40 começamos a inserir nas conversar outros elementos mais dolorosos (as dores nas articulações e o stress) e outros menos gostosos (as dietas). Tornaram-se moda, de repente passaram a ser uma exigência, fossem magros ou mais cheinhos, todos faziam dieta,  passamos a comer bolos apenas com o olhar e a matemática tornou-se uma constante às refeições,  quase que de máquina de calcular em riste para contar calorias.
Continuámos a somar anos, desenganos, risos alegres e tristes, faz parte da vida vivê-los, faz parte da amizade essa partilha.
 Entrámos para o (clube) dos 50, e com eles outros assuntos inundaram as nossa conversas, mais tranquilos, mais ternos, mais seguros, mais angustiados, mais revoltados, mais receosos, mais felizes, mais infelizes, depende de cada um, da sua vida até aí, da sua maneira de ser e a forma como encara o futuro, “do seu crescimento depende o seu envelhecimento”. Porque é disso que se trata, de com envelhecer.
Falamos do filhos crescidos, com receio do seu futuro. Falamos  da demência dos nossos familiares mais próximos, da degradação da sua saúde, falamos de muitas partidas e de poucas chegadas ou seja, nascimentos.
Falamos entre gracejos e ensejos, da morte. Torna-se presente, latente, primeiro por medo, depois por aceitação, cada vez mais como mera constatação, não de lá chegar mas de viver com premência o antes, a viagem que desconhecemos qual a duração e contornos do percurso, por isso é bom precaver, levar o que se pode e que poderá ser-nos necessário, ou simplesmente nada, deixarmos que tudo aconteça pelo melhor.
- Por qual adjetivo queres ser recordada?
As respostas múltiplas não se fizeram demorar:
Generosa. Boa pessoa. Bonita. Alegre.  Leal, Amiga, Inteligente, Otimista, Bondosa, e tu?
Chegou a minha vez, posso escolher todos esses adjetivos? (pergunto em pensamento) claro não, que ambição desmedida, que falta de humildade, de justeza.
- E tu? Insistiram. 
- Gostava de ser recordada como uma pessoa discreta.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Post.it: És tu, sou eu

Olhas o mar com olhos de infinito, a linha do horizonte tornou-se uma fronteira que te sufoca os pensamentos. Os cabelos dançam a melodia do vento, parecem loucamente felizes, mas o rosto apático cria um alarmante contraste.
Estremeces, quase garanto que estremeces, um arrepio de alma que se aconchega na desculpa de que é o outono que já arrefece. Mas, o ar ainda está morno, foste tu que deixaste o inverno antecipar a sua chegada.
Quase te ofereço um casaco, um abraço de calor humano. Mas hesito, perscruto os teus devaneios, embarco na tua viagem assombrosamente estática. Que idade terás, assim à distância, pareces uma criança indefesa, mas não a tristeza, que é de pessoa adulta. Bebo-te os gestos num golo quase sôfrego, de bêbado deambulante, e nesses passos a medo, aproximo-me. Invade-me uma curiosidade de tudo o que é estranho e queremos conhecer, há um crescente de carinho quase maternal que me magoa. De repente tudo é apenas o nós numa envolvência de sentimentos, surpreendentes, sublimes, ternos, tão docemente humanos, solidários  mas também solitários.
Sinto-te carente, sim carente, desta dádiva que nos faz sentir inteiros,  verdadeiros,  puros. Pé ante pé com pegadas que ficam cravadas na vida em suspense de ser vivida, chego mais perto, e ainda um pouco mais. Não receio, é apenas uma pessoa perdida em busca de si ou de algo para além de si. Quase que te sinto o coração latejante no peito, quase que te ouço os pensamentos cheios de esvoaçantes ideias. Tantas, tão indefinidas, as tuas, as minhas, quem sabe ambas se tenham um dia cruzado, olhado, conversado na galáxia de paixões candentes. Mas agora só temos o silêncio, não precisamos de mais nada. Não te quero roubar as palavras que nunca me dirás.
Por fim a paz, a serenidade parecem ter chegado, vejo isso na mudança do teu olhar, dos gestos, os braços antes abraçados aos ombros, descem ao longo do corpo, as mãos encontram-se, os dedos entrelaçam-se apaziguados. O olhar afasta-se do infinito, aproxima-se de um plano mais curto. Olha-me com surpresa, assusto-me, assustas-te. Envergonhada pelo meu atrevimento, sorriu-te, envergonhada pelo teu afastamento, sorris-me. 
Percebo, és tu, melhor sou eu, a tua sombra.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Post.it: Sair para querer ficar

Às vezes, mas tão somente às vezes, sinto vontade de sair deste lugar. Digo que isto me acontece às vezes, tão raramente que até a mim me surpreende. Sou reservada, pacata, não chego a ser tímida, apenas discreta. Embora o “discreta” não me assente bem, porque tenho uma vontade inquieta. Mas aquieto-me, tranquilizo-me, respiro, medito, aplaco a ira dos dias cheios de gente que contrasta comigo e que se diz na maior parte do tempo, amiga e até para cúmulo dos cúmulos, boa pessoa. Gente que se importa com tudo em geral, e nada em particular. Há tanto alter ego por aí, dourado mas que não é de ouro, nem sequer brilha, nem sequer encanta, cansa, esse vil engano em que cada um mergulha e acredita ou quer fazer acreditar que o é, sem nunca chegar a ser algo que valha a pena.
Então aí, somente aí, apetece-me sair e claro, voltar, porque vá para onde for, tudo/todos são tão similares que se torna  bom regressar e sentir que já conhecemos cada recanto desta casa a que chamamos vida.
Outro dia li esta frase “ A viagem começa nos outros”. Depois de tantas destas viagens, mudei de rumo, mudei de frase, mas também de fase, agora “A viagem começa em mim”. Não é por vaidade, reconheço que há muitos e melhores caminhos, mas para quê seguir estranhos rumos, quando ainda mal conheço os que me compõem? Não quero ser outro alter-ego, colocar-me num pedestal e um dia cair dele sem amparo. Apraz-me a sabedoria quando acompanhada de humildade. Gosto de quem muito sabe, porque teve o gosto de aprender. Gosto de milionários que abraçam grandes causas e não grandes luxos. Gosto de pintores que pintam do coração e não apenas para (de)coração.
Às vezes é preciso sair deste lugar, mesmo que seja apenas um partir nas asas do pensamento, do sentimento, sentir o vento no rosto, a caricia do sol,  os lampejos de chuva, algo que torne mais leve a nossa essência, algo que sopre para longe os mesquinhos devaneios, que incendeie e queime a gratuidade das palavras vãs e lave bem lavada a alma entorpecida da prisão onde nos colocam as horas com os seus aguçados ponteiros. 
É bom sair, saber que temos para onde ir, que há gente  diferente, que é e que torna o mundo contente, que o horizonte é infinito, que o tempo é perpétuo e o universo pacifico, algures, na liberdade de sonhar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O meu presente de aniversário


Ainda não vos apresentei,
É lindo, divertido, brincalhão.
É tudo o que sempre esperei,
Encontrar num aprendiz de cão.

Aprendiz pela tenra idade,
Do saltitante cachorrinho.
Que usufrui da liberdade,
De me mordiscar com carinho.

Quando corre de orelhas a voar,
Quase parece um aviãozinho.
Que infeliz fica o seu doce ar,
Quando o deixo em casa sozinho.

Já começa a ficar educado,
As necessidades faz no jornal.
Só as faz em qualquer outro lado,
Se as notícias, do país falarem mal.

Polinho? Perguntam com admiração,
Que nome tão estranho e diferente!
É o nome que me está no coração,
E agora espero, no de toda a gente.

O meu presente de aniversário,
Há tanto tempo que o queria.
O meu terno e fiel companheiro,
Que me enche a vida de alegria.



terça-feira, 11 de outubro de 2016

Post.it: A perpétua busca

“Toda a vida procurei a felicidade, amei, fui amada umas vezes, outras vezes não. Casei, descasei. Voltei a tentar, voltei a fracassar. Saltei, tentei, parti o orgulho, magoei a esperança.”

Hoje, depois de tudo ainda me sinto uma aprendiz, ainda persisto, talvez no erro, em busca da solução.
Depois de tanto cair e outras tantas vezes me levantar, fui compreendendo a lição, a minha lição, que não tem de ser igual para os outros. Aqui estou apenas a partilhar,  nada tenho para ensinar. Porque tal como vocês, tentei seguir o certo, aquilo que me diziam ser melhor. Foi? Não. Tive que caminhar com os meus próprios pés, ninguém pode ser os nossos passos. Podem dizer, não vás por aí, mas temos que ir, para perceber a razão dessa proibição. Por vezes é tudo uma questão de momento, se esse momento foi doloroso para uma pessoa, não o será necessariamente para outra. Claro que temos de ter alguns cuidados, ficar alerta, prevenidos, munidos de caixas com pensos rápidos, outras tantas com lenços de papel, para secar as lágrimas, nem todas de dor, algumas, muitas de alegria.
Toda a vida procurei a felicidade, houve momentos em que a senti perto, tão perto que quase a conseguia tocar, mas queria mais do que o seu toque, que o vislumbre do seu sorriso, queria, precisava, do seu abraço apertado e perpétuo. Sufocada, a felicidade partiu.
Voltei a procura-la, em rostos, em gestos, em corações, em primaveras floridas, em verões escaldantes, nos outonos e até no frio do inverno.
A dada altura de  tanto a procurar, começou a crescer-me a dúvida, será que ela existe? Será que  a vi e senti ou foi apenas uma ilusão?
Não, não acredito que tudo tenha sido uma fantasia  da minha ansiedade, do meu querer. Na verdade, conheci momentos belos, vivi tempos lindos, identifiquei um mundo repleto de coisas sublimes. Pode lá ser que não se sinta felicidade ao ver o azul límpido do céu, a vastidão ondulante do mar, a noite estrelada, o verde dos prados, as avenidas de árvores, o voo singelo das aves. 
Só então percebi, procurei toda a vida a felicidade,  mas em cada instante, foi sempre ela que me encontrou.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Post.it: Histórias como a nossa

Histórias, todos temos as nossas, que por serem histórias, são coisas do passado, embora, nem sempre coisas passadas. São situações vividas e que já não podemos repetir para reviver esse momento de felicidade. Coisas que não pudemos alterar para que corram de forma diferente, melhor, pensamos no nosso arrependimento, na nossa idílica esperança.
As novas histórias em nada se comparam com as “velhas”, ainda não ganharam o sabor que a maturidade e o passar do tempo lhes confere. São um pouco como a fruta, verde não sabe a nada, mas quando amadurece resplandece em doçura, em sabor que nos apetece saborear lentamente até ao fim.
Todos gostam de ouvir histórias, sobretudo se tiverem um conteúdo anedótico, essas “quedas” que damos na vida e a forma como lhe colocamos um final feliz que nem sempre teve. Mas só o facto de estarmos aqui para contar já pode ser considerado um final bem-sucedido.
Mas mais do que ouvir contar histórias, todos gostam de contar as suas, todos gostam de as colorir e se tiverem o dom da oratória, porque não ficcionar um pouco para prender a atenção do ouvinte? A vida já é uma chatice, um marasmo, um drama de contínuos actos, para quê ainda estar a partilhar a nossa desventura shakespereana?
Nós, todos nós somos uma escultura esculpida pelo tempo, pelo vento, o sol, pelo olhar dos outros. Sim pelo olhar dos outros, e isto,  de repente, trouxe-me à memória a frase de uma grande amiga “os outros não têm defeitos nós é que os vemos com defeitos, na realidade, o defeito está na nossa visão”. 
Só muito tempo depois é que percebi a sua amplitude. Ao longo da nossa história, na nossa busca incessante do outro, esse alguém que nos completa, que nos faz feliz, construímos um ideal, físico, psicológico, económico, familiar, etc, etc., etc. e etc. A dada altura parece-nos que sem esses predicados ninguém é o ser perfeito. Mas a verdade é que se for a pessoa que nos desperta sentimentos superiores, encontramos-lhe todas e mais algumas virtudes, mesmo que quando nos passe a “pancada” da paixão, acabemos por constatar que não as possui, enfim, lá ficamos nós com mais uma história, que está longe de ser perfeita, mas é a nossa…

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Folha de Outono

Gosto do dourado Outono,
Gosto de cada folha que cai.
Quando adormece num sono,
Que nas asas do vento se vai.

Paira suave, quase sem pressa,
Sem mágoa, talvez deslumbrada.
Com aquela eterna promessa,
De voltar na primaveril madrugada.

Apenas uma folha, dirão,
Perante o meu encantamento.
Não sei se ela tem coração,
Mas sinto-a no meu, nesse momento.

Sim, é uma folha, mais nada,
Das árvores que se estão a despir.
Mas dessa folha, no chão pousada, 
Não consigo, sem tristeza, me despedir.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Post.it: Vaga lembrança

 Quem fui,  quem sou. Os caminhos que percorri, as sensações que senti.
Morri no dia em que esqueci.
Do meu passado, do meu presente. Das recordações que construí. Das vitórias, dos fracassos. De tudo o que fiz, do que ainda queria fazer. E tinha tanto por fazer. Lembro-me que tinha planos, mas não me lembro quais. Recordo-me que tinha esperança, não sei sobre o quê.
Morri mas ainda encontro a marca dos meus passos, ainda vejo o meu rosto no reflexo do espelho, embora não tenha a certeza de que seja eu, dizem que sim. Por vezes rio-me desse olhar perdido em busca de me encontrar. Num jogo de escondidas, em que estou aqui e não me encontro. Por vezes choro, porque estás ai e não te reconheço, há em ti, qualquer coisa de mim, não só no gesto simultâneo, mas na dor coincidente. Então estendo-te os braços, estendes-me os braços mas não acontece entre nós o abraço. Uma barreira que não consigo identificar. Um muro de medos, uma fronteira de escuridão, aumenta cada vez mais a nossa distância.
Hoje sem saber bem porquê, chamei-te Lembrança, talvez porque me tenha lembrado vagamente do teu nome, curioso, é igual ao meu.
Mas há dias em que te chamo Esquecimento, por similar razão, não me recordo do teu nome, dizem que é igual ao meu, mas, qual é o meu?
No princípio, tinha muitas questões e as respostas magoavam-me porque na verdade já as conhecia, doíam-me porque sendo de situações passadas as sentia novas, num passado que me estava sempre presente. 
Depois, até das perguntas me fui esquecendo e ninguém me veio dar respostas. Cresceu uma paz, um silêncio, um distanciamento, uma morte, como se a vida morresse, quando ela se esqueceu  de terminar e continuou a viver.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A partida do verão

Ainda te procuro em cada pegada,
Na praia que fica agora deserta.
Pegadas de gaivota cansada,
Por voar na corrente incerta.

Peço-lhe a asa, peço-lhe o olhar,
Aceno aos seus altos planos.
Vã esperança a de a encontrar
Em tão vastos e densos oceanos.

De vez em quando uma vaga,
Cresce e eleva-me o coração.
De vez em quando uma calma,

Vem falar-me ao ouvido baixinho,
As tempestades são como a paixão, 
Passam e delas nasce outro caminho.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Post.it: Tudo o que quero

Tudo o que quero é meu. Aquela amizade, aquele amor, aquele sorriso, aquele olhar que navega no meu.
Quero, quero tudo, mesmo que um dia se dilua no tempo, que parta com o vento, que se dissolva nas marés.
Hoje está aqui e pertence-me sem direito de posse, sem prisão de abraço, sem obsessão, sem loucura de paixão, sem gritos de chantagem, sem lágrimas apelativas, É meu  apenas porque quer ficar.
Porque deixo a gaiola aberta e escolhe que sou eu o seu lugar. Quem sabe, mude. Quem sabe o seu coração abra asas e voe para um destino que não já conflua com o meu, deixo-o ir.
Sim, é livre de partir, pura e simplesmente porque me agarro com todo o meu desespero à esperança que volte. Volte sempre e queira definitivamente ficar.
Tudo é meu, no agora em que me sorris, em que me dizes as palavras que preciso de ouvir, que me olhas e sinto que sou o teu mundo. Sou feliz, tão feliz…porque é meu, este infinito, segundo.


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Post.it: Lugares perigosos

O passado é um sítio muito perigoso para se visitar. Tem armadilhas, algumas prestes a explodir ao simples olhar, ao simples suspiro. De repente pode afogar-nos em lembranças, de repente pode fazer-nos vir à tona das nossas fantasias. Porque o passado, tem tanto de verdade como de imaginação, quando o tempo e a distância o tornam mais suave, quando as feridas se tornam lições que tivemos que aprender pelas réguadas da vida. E nós, esfregámos as mãos, para aliviar a dor. Secámos as lágrimas com lenços de esperança, ou desejo de retorquir, “quando eu for grande hei-de fazer-te o mesmo, vais ver se gostas!”. Mas felizmente passou, e ao passar mudou o pano de fundo da história, afinal não foi um deserto árido de ventura, até era um jardim repleto de primaveras. A verdade, o que realmente aconteceu, foi um inverno, gélido e magoado, mas que importa, já passaram tantos verões que todos os icebergues da vida se derreteram e tornaram-se praias douradas, com suaves ondas e fofas dunas.
O passado é um sítio inquietante, pelas aventuras, pelas ternuras. Pelo que foi, pelo que devia ter sido. De quando em quando, perdemo-nos no seu labirinto e vemo-lo através dos olhos da criança que fomos, tudo era tão grande, assustador, havia abismos em todos os lados, mas não os temíamos, eram desafios, só os fortes, só os bons venciam, e nós, éramos, frágeis, sim, mas bons, de alma e coração. Não sei porque  nos acusavam, de reguilas, rebeldes, desobedientes, irrequietos, do que na verdade éramos, crianças. Algo que os crescidos já tinham esquecido, talvez não tenham visitado o seu passado para recordar os bons e os maus momentos, talvez tenham apagado as cores do seu arco-íris e só se lembrem da copiosa chuva.
Mas o ciclo da vida contínua imparável, as crianças tornaram-se adultos, os adultos tornaram-se velhos e os velhos, uns mais do que outros, voltam a ser crianças, sem viverem aventuras mas recordando-as, quiçá, imaginando-as.
O passado, torna-se finalmente um lugar feliz, porque se descobre que apesar de tudo, éramos felizes. A felicidade é viver o ontem que seja para sorrir é olharmos para o amanhã com esperança,  mas sabermos que só no hoje é que podemos sentir-nos plenos de vida.


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Dá-me os parabéns

Dá-me os parabéns de nascimento,
Se o meu viver teve algum significado.
Se atenuei cada doloroso momento,
Se deixei  alegria por todo o lado.

Dá-me os parabéns se queres festejar,
A história deste já longo caminho.
Que em cada amigo encontrou lugar,
Para se dar e receber com carinho.

Dá-me os parabéns se valeu a pena,
Cada instante de amor e de amizade.
Se deixei a semente mesmo pequena
Que cresceu desabrochou em felicidade.

Dá-me os parabéns em prenda,
E que nela encontre ao desembrulhar.
Algo que alegremente me surpreenda,
Porque não existe em nenhum outro lugar.

Dá-me os parabéns pelo meu aniversário,
No desejo de uma  perpétua repetição.
Desta força de mar, desta doçura de rio,
Com que me recebeu cada coração.


Dia especial

Há dias diferentes,
dias especiais
dias de ficar contente e sorrir.

Esses dias são raros,
sentidos como únicos.

Este é um deles.
Não por ser 12,
a magia da perfeição,
Não por ser mês de semear,
de acreditar na promessa de vida.
Não, este dia é especial porque é teu.
Ele sentiu-te espreitar a vida
 e fez-te respirar.

E tudo mudou,
porque passaste a existir!

O mundo sorriu,
esperando o teu sorriso.
O mundo acreditou em ti,
que algo haverias de mudar.

E mudaste!

Tocas a vida de quem por ti passa,
de quem vai ficando
E espalhas sementes
  de acolhimento
  de verdade
  de generosidade
  de inspiração
  de amizade
  de confiança
  de amor!

É isso a vida: acolher, sentir e partilhar!

            Obrigada por existires!

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Aquela que sou

Aquela que sou,
Casa, hotel, banco de jardim.
Na certeza que sempre estou,
De portas abertas em mim.

Por quem passa, quem vem,
Quem em mim adormece.
Que me fica como alguém,
Que no coração permanece.

Casa que sonha ser lar,
Recanto de vivente felicidade.
Queria tanto aconchegar,
A vida em qualquer idade.

Resta agora o jardim,
Aqui e ali, quase outonal                       
Com recantos de jasmim.
Neste olhar de madrigal.

Aquela que sou,
Talvez, apenas caminho.
Quando por ele vou, 
Percorrendo o meu destino.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Post.it: Regresso

Regresso de férias, de uma outra rotina sem horas marcadas, de descanso, de cansaço da viagem, das limpezas, das arrumações. Regresso da paz ou da euforia, do sol, do mar, do caminhar, da roupa leve, do chinelo no pé, dos cabelos ao vento.
Mas antes, por um momento, antes do regresso, deixem-me encher o painel solar do coração com toda esta luminosidade antes que o inverno o invada de escuridão. Que os olhos se inundem de azul, de verde, de areais, de gente colorida, da espuma branca da última onda marítima. Que os lábios congelem ao prolongarem mais e mais o toque com o último Corneto de chocolate estaladiço, que o último jantar de férias seja uma bola de Berlim com um generoso sorriso de creme de pasteleiro. Hoje, mesmo que seja só hoje, vamos esquecer a dieta, o colesterol, a glicose, temos todo o inverno para nos penitenciarmos do pecado da gula.
Merecemos cada momento deste verão, destas férias, pela paciência e desgaste despendido ao longo do ano, com todos os sacrifícios que tivemos de fazer para conquistar o direito a uns dias no paraíso. Estes momentos nossos, só nossos para partilharmos com quem queremos, sem obrigações, sem ralações, sem discussões, sem colegas, sem patrões.
Mas eis que chega a altura de regressar, lembro-me que em tempos distantes, esta época era de alegria, de espectativa, significava reencontro, novidades, histórias partilhadas com os amigos da escola, mas também isso já passou e o regresso agora tem um sabor de reconforto, cada vez mais é um sabor de reconforto, cada vez mais é bom saber que se tem para onde regressar, e que é isso nos possibilita no próximo ano ter novas férias, pagar o conforto de um lar, ver os filhos crescer sem sentirem dificuldades e adormecer à noite no sofá da sala com o som embalador da televisão. Amanhã, regressamos, talvez não ao que mais desejaríamos, mas apreciando e valorizando o que temos e, se dermos o nosso melhor, quem sabe também ele seja melhor para nós, pelo menos na sensação de realização porque fizemos o que estava ao nosso alcance. 
A todos os que regressam, bem vindos.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Imprevistos

O imprevisto acontece,
Quando dia nos amanhece.
De repente um trambolhão,
E ficamos estendidos no chão.

Com o corpo todo dorido,
Com o orgulho quase ferido.
Depois é ver qual o estrago,
Quando o susto ainda é vago.

Nódoas negras, quiçá arranhões,
Com sorte na roupa alguns rasgões.
Talvez passe só  com um beijinho,
Ou não baste esse gesto de carinho.

Desinfectante ou até alguns pontos,
Que nos deixam de dor meio tontos.
Mas a situação pode ainda ser pior,
E temos que recorrer ao Sr. Doutor.

Para engessar-nos a alma magoada,
Cozer-nos a existência envergonhada.
Sem desanimar só por um imprevisto,
Quando viver é um maravilhoso risco.


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Post.it: Sempre com eles

Viver significa caminhar em frente enquanto outros ficam para trás ou desencontram-se da nossa direcção. Ficam ou vão, nós prosseguimos sem eles, outras vezes com eles, na memória, no coração. 
Uns amamos, outros apenas pouco mais conhecemos que o rosto, o nome, desconhecemos a sua história, a sua experiência de vida, as suas alegrias, as suas tristezas, de onde vêm, como aqui chegaram, mas mesmo esses, ao partirem, doem-nos algures no corpo.
Como se de alguma forma fizessem parte de nós e fazem, fizeram-nos rir, chorar, escreveram ou representaram papeis que marcaram os nossos momentos, cruzaram-se com os nossos dias, na paragem do autocarro, no café, no cabeleireiro, eram a caixa do supermercado onde vamos todas as semanas, estavam na papelaria onde vamos buscar o jornal, na padaria onde compramos o pão, algures num ponto de intersecção do nosso caminho.
Amigos, colegas, professores, vizinhos, conhecidos, desconhecidos, todos, tantos… 
Doem-nos, talvez porque partem demasiado cedo ou porque já os “conhecemos” há tanto tempo que criaram raízes na nossa história. Talvez pela forma como lhes “roubam” a vida, porque deixam de ilustrar a rotina da cada manhã, de cada anoitecer ou no fundo, num inconfessado sentimento; doem-nos porque de alguma forma nos relembram da nossa própria precariedade.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Post.it: Mar de agosto

O mar de agosto tem uma cor diferente, nuns sítios mais azul celeste, noutros mais verde prado. O seu ondular, também ele é diferente, mais harmonioso, mais doce leito. E o seu murmurar, único, especial,  mais cantante, mais relaxante. 
Não há mar como o de agosto que se estende num abraço pela praia, que lhe acaricia o areal, que lhe leva presentes; conchinhas, pedrinhas bem redondinhas. E à noite sob a luz do luar oferece-lhe estrelas que espelha nas suas águas só para a enfeitar. 
Até as vagas que conduzem os barcos aos cais são menos cavadas, menos apressadas, há que levar todos ao seu destino, na esperança que regressem com saudade deste mar, deste amar doce e sereno. 
O mar de agosto é uma festa de sons vibrantes, cores dançantes, os convidados vão chegando juntando-se à comemoração estival. Já se sente a brisa marítima, já se ouve o eco das falésias, o rumor amante das dunas, os ramos das árvores na orla da praia, o tilintar das conchas que vão indo e vindo com o embalo das ondas. 
Aqui e ali, há um salpico de gente, alegre, contente, suspiram como se quisessem levar nos pulmões esse mar, esse calor, essa paz, essa harmonia, esse mar que só agosto tem.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Uma pena

Era uma pena pousada,
Na ondulância do mar.
Era uma pena cansada,
De há tanto tempo voar.

Era uma pena calada,
Com uma história para contar.
Talvez amarga ou deslumbrada,
Do que um dia chegou a sonhar.

E a gaivota que a pena perdeu,
E a gaivota que sem ela existe.
Quem sabe já a esqueceu,
Deixando-a ainda mais triste.

Era apenas uma pena perdida.
Uma pena e  mais nada.
Ficou uma memória querida,
Dentro da minha alma fascinada.


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Post.it: Solidão

O meu amanhecer é à noite, quando só as estrelas me olham e partilham comigo esse olhar de quem tem tempo para ficar, de quem tem tempo para brilhar. Então, a  lua parece sorrir-me, um sorriso de quem entende, um sorriso de quem se estende em neblinas de escuridão, em névoas de solidão.
A solidão, pobre palavra tão maltratada, tão dolorosamente magoada, porque dói, dizem. Porque mata, defendem. Mentira! Mentira, garanto-vos. Como é terna a solidão, quando o seu silêncio nos envolve no mais doce abraço.
Então o corpo dolente de tempos idos, deixa-se navegar nos pensamentos, longe, cada vez mais longe dos lamentos. Dando-se ao luxo de sentir. De se sentir invadido por uma paz conciliadora dos sentidos, como quando a alma e o espírito se casam e prometem ser felizes para sempre. 
Num para sempre, que dura… O que durar. Mas enquanto dura, permite-nos num vislumbre de felicidade, contemplar o infinito. Esse finito que agora, liberto dos limites do horizonte espraia-se para além do existir condensado em nós. E nós, os que reverenciam a noite como se nos fosse madrugada, tornamo-nos estrelas, solar de lua, luminosa escuridão e agradecemos cada sensação que só o silêncio, que só a solidão consegue ouvir com o coração…