segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Diário

Toda a vida quando escrevi,
Foi um pedido de socorro.
Que não leste, que não senti,
Ultrapassar o denso morro.
Corrigi a minha caligrafia,
Para que a mensagem voasse,
Fui esmorecendo em cada dia,
Sem que a resposta chegasse.
Vou apagar o escrever,
E o coração deixar calado.
Por mais cais a que vá ter 
Sou solidão em todo o lado.

sábado, 14 de outubro de 2017

Post.it: A viagem


Há um caminho que fazemos juntos, que temos de fazer, uns devagar e apreciando a paisagem, outros com pressa, ansiosos por chegar, por descobrir onde o caminho os leva.
Mas o caminho não leva ninguém, as pessoas é que vão nele, através dos seus passos, conduzidos pelo (coração), pela (razão).
E pelo caminho, vão falando, pensando, descobrindo-se, percebendo que tudo é tanto, mas muito pouco comparado com o que há para ser.
Sentimo-nos eternos discípulos da vida, humildes perante o mestre tempo que, na sua sabedoria, nos vai guiando. Com ela, as nossas dúvidas vão-se dissipando. Com ele, as nossas certezas vão crescendo.
E, nesse percurso , vamos dando algo de nós, vamos recebendo algo dos outros. A bagagem, por vezes, torna-se pesada, aqui e ali perdem-se algumas coisas, recuperam-se noutro sítio, tantas memórias, tantas histórias, coisas a que nos agarramos como um náufrago a uma bóia de salvação. Outras, simplesmente, deixamos que partam e sigam também elas o seu caminho.
O ideal seria prosseguir de mãos vazias mas de coração cheio, cheio de olhares que vêem para lá do crivo pessoal e cultural. Nem sempre crescemos bem, nem sempre, sequer, crescemos. Apenas vamos, andando, porque nos ensinam a andar, porque acreditamos que faz sentido andar.
Mas há momentos em que temos de parar, parar de procurar e perceber que encontramos, que estava guardado, escondido dentro d e nós. Por quê só agora, questionamos? A resposta fácil é que tudo tem a sua hora, o seu momento. A difícil é que dependeu sempre de nós, de a vermos, sentirmos e aceitarmos quem e como ela é. E isso é doloroso, chega a ser tenebroso. Somos nós a crescer por dentro, reconhecer que esteve sempre aqui, o que procurámos tão longe. Gastámos os passos, cansámos os sonhos, fizemos e continuamos a fazer o nosso caminho e, independentemente da estrada por onde vamos e formos, cresce-nos a certeza de que a viagem é, sobretudo, dentro de nós.


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Post.it: Depende...

As pessoas não nos decepcionam, nós é que nos iludimos acerca delas. Elas são o que são, não o que precisamos que sejam.
Somos uma multidão, uma civilização de pessoas, de mundos, um universo de existências, vivemos através dos nossos crivos culturais que nos identificam e distinguem, que nos tornam diferentes, únicos.
Sabemos isso, mas a verdade é que aqui e ali tentamos moldar os outros à nossa forma. Ou deixamos que nos moldem pelos meandros da ternura, sonhamos, idealizamos que essa alteração nos torna melhores e simultaneamente, complementares e completos.
Reconhecemos os contornos das margens que os especificam, identificamo-los como se nos fossem caminhos com trilhos que devemos evitar, mas também com outros por onde nos sentimos felizes por seguir.
No entanto, nem isso é totalmente exacto, somos seres complexos, intrincados de dor e de esperança, pessoas crescidas com sonhos de criança.
Porque há dias em que o céu nos escurece o olhar, nos tira o sorriso, nos rouba as palavras, nos usurpa o alento. Dias de nevoeiro e tudo o que nos acontece com os outros é tenso, é denso, parece que uma tempestade pode nascer de “um copo de água” que se entorna e de repente não nos conhecemos em nós nem nos outros.
Porque há dias em que se tivéssemos asas voaríamos por tanta leveza, tanta luminosidade que nos avassala o coração e nos faz acreditar que seres excepcionais, maravilhosos, que nos levam à lua apenas e só por se sentarem ao nosso lado, segurarem as nossas mães e dizerem que está tudo bem. 
Mas quantas vezes nos encontramos perdidos na multidão, sufocando de solidão. Quantas vezes nos sentimos tão acompanhados só por nós. Não por sermos perfeitos, não por sermos melhores, afinal também o nosso, eu,  por vezes, consegue decepcionar-nos, a diferença é que  apesar  de errarmos, da revolta, do diálogo exacerbado, do silêncio abismal das nossas guerras internas, sabemos, que estaremos sempre ali, presentes para o resto das nossas vidas. Quanto aos outros, nunca o saberemos,  talvez sim, talvez não, depende…

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Post.it: Saudade

Noutro dia ouvi alguém dizer que detestava a palavra saudade, soou-me estranho, contraditório com o povo que somos, tão agarrados à sua concepção. 
Mas depois, deixei os pensamentos navegar e comecei a sentir que também eu detesto a palavra saudade, essa expressão que nos seduz e de imediato nos aprisiona, a um momento, a um passado que nos deixou boas e más recordações.
Mas também uma outra saudade, que se torna a nossa segunda pele, quando ficamos incapazes de a despir, de afastar de nós os sonhos que sonhamos mas que não realizamos. Quanto tempo perdemos nesse mergulho de fantasia, quanto tempo ficámos sem ver a realidade, sem respirar a verdade que nos rodeava?
Depois caímos nos queixumes de que o tempo voa, que não sabemos para onde ele foi, que não demos conta de por nós passar.
Até aqui, nada de novo, afinal faz parte de nós, povo da beira-mar, deixarmos o pensamento velejar e, nesse erguer das velas com o pano da esperança, deixar que o vento nos venha de feição e nos conduza até ao nosso destino.
E a saudade, quer se goste ou não, está-nos entranhada no ADN, em cada célula de vida que nos mareia o corpo, como se fosse um barco condenado a viajar-nos. Nós, com passos deambulantes, entre o paraíso e o inferno vamos levando os nossos dias, as nossas noites de insónia e escrevendo, na estrada de tantos caminhos, a mesma palavra, o mesmo sentimento que não queremos lembrar mas tememos esquecer. 
Saudade, apenas te peço: se não podes mudar de nome, muda pelo menos de destino!



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Esta (infelicidade)

 Sinto-me por vezes infeliz,
Pela tortura do que não fiz.
O amor não confessado,
O sonho sempre adiado.

Esse olhar que foi fugidio,
Esse inverno solitário e frio.
Foi por medo, por cobardia,
Que deixei partir esse dia.

Toda a minha vida vou sentir,
O que de nós podia existir.
A dúvida a me martirizar,
A incerteza a me magoar.

O passado que não tivemos,
O presente que não vivemos.
O futuro que de ti tão distante,
Este coração quase emigrante.

Se te contasse ririas, sei que sim,
Da saudade que navega em mim.
Os meus passos que sem direcção,
Perguntam pelos teus onde vão.



sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Post.it: Hábitos

Não tenho uma vida, tenho o hábito de viver. Não tenho um emprego, tenho o hábito de ir trabalhar, de me levantar cedo, tomar duche, engolir o pequeno almoço e sentar-me na paragem à espera do autocarro, que tem o hábito de se atrasar.
Por hábito, digo bom dia aos colegas, sorrio ou terá sido um espasmo muscular?
Pico o ponto, sento-me na cadeira giratória em frente à secretária e começo a “falar” com o computador, mais do que um hábito, começa a ser uma fiel amizade, ele está sempre presente nos meus dias, meses, anos, ali, constante das 9 às 18 horas, de segunda a sexta. Se falta a luz é uma catástrofe, como se tivesse morrido um parente próximo, um amigo do peito. Fico sem norte, sem sul, sem rumo, sem hábito, perco-me de mim. Número de cidadão, de NiF, de NiB, etc., etc., não sei, está tudo no computador! Eu estou no computador! A minha identidade, os meus segredos, sonhos, vitórias, fracassos. Porque, a dada altura tornou-se um hábito, um quase vicio, partilhar a vida com o meu PC.
À noite, regresso a casa, mas antes disso, por hábito, sigo os mesmos caminhos, conto os mesmos passos até à esquina, antes de atravessar na passadeira, sento-me no mesmo banco de jardim, dou pão aos mesmos pombos, bebo um café, ouço as mesmas conversas. Por hábito, apanho o mesmo autocarro, com as mesmas pessoas, já nos cumprimentamos.
"A Joana hoje não vem?"
"Atrasou-se, tinha uma reunião" 
"E a Teresa, não a tenho visto, estará doente?"
"Não, está grávida, mas como é de risco devido à idade, tem de ficar de repouso nos primeiros meses". 
"Hoje o autocarro vai mais cheio, começaram as aulas, lá vêm os miúdos carregados com as mochilas furando pelo corredor!” 
”Pois é, já me tinha habituado ao sossego neste autocarro, agora é uma algazarra de gritos e conversas, só espero que não haja muito trânsito para chegar a casa depressa e relaxar um pouco, antes dos filhos chegarem com o pai”. 
Porque a dada altura já não se tem um casamento, tem-se um hábito.
Adaptamo-nos, moldamo-nos, encaixamo-nos, acomodamo-nos, aceitamo-nos a nós e aos outros, por amor, amizade, ou quem sabe, por hábito.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Post.it: Este Outono

O outono bateu-me à porta, vinha suave, tímido, como um namorado arrependido. Não foi uma chegada mas um regresso, afinal, quantos outonos já conheci? Muitos, começo a somá-los, devagar, porque a dada altura da vida, já não se tem pressa, chega-se lá é a nossa cada vez maior convicção e por lá entenda-se a um destino que por vezes existe paralelo aos nossos desejos. 
No entanto, outono, o nosso outono, acrescenta em nós uma gratidão que nos era desconhecida nos áureos tempos de natural rebeldia. É normal, faz parte, de se começar a “crescer”, porque é isso que sente, um crescimento prazeroso. 
 Uma amiga que tenho sempre bem-humorada, começou a ganhar alguns quilinhos mais, fez dietas, todas as que ouviu na rádio, na televisão, na internet, fechou a boca, bebeu litros de água, por fim, reflectiu e desistiu, “não estou gorda, estou é cheia de sabedoria!”. 
Quem me dera ter a sua sabedoria humana, a sua capacidade de caminhar sobre as folhas de outono sem as amachucar, com a leveza da sua cordialidade. 
O outono bateu-me à porta, abri-a devagar com receio que as promessas de fidelidade, de carinho, de companheirismo não fossem cumpridas e que as folhas voassem no primeiro sopro de vento e ele entrou, sentou-se na minha sala com um sorriso renovado, pediu-me esperança e eu voltei a acredita, pediu-me confiança e eu confiei.  
Como negar-lhe que entre, que fique e que faça da minha vida a sua terna morada? Somos cada época, cada estação, florindo, rejubilando de sol, somos folhas que caiem para que se possam renovar, somos frio, vento e por vezes chuva, para que tudo comece, recomece, renasça e volte a ser com promessas mesmo que não cumpridas o melhor de nós.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Post.it: Por este rio

Imagino o tempo como se fosse um rio, um rio que passa lá fora e eu numa das margens, observo-o e deixo-o passar. Sinto que passa por mim, por vezes passa em mim, e nesse passar vai deixando fios de neve no meu cabelo enquanto o rosto outrora liso e luminoso ganha socalcos de foz e sombras de luar.
Há quem veja esse rio repleto de lágrimas, de histórias sofridas. Há quem apenas o veja com declives, pejado de pedras rolantes, frio, apressado, que correndo para a meta quase revela uma cascada para onde caiem os sonhos, as esperanças, os desejos, a confiança.
Pobre rio, penso ao olhá-lo, que incompreendido és…
Navega na sua placidez até que uma vida mais tempestuosa o agita, turva-lhe as águas e afoga nele os seus medos. Procuramos culpados para as nossas culpas, perdidos por entre os labirintos humanos, baixamos os braços, deixando que o rio feito de tempo navegue e nos conduza ao longo da corrente. Por vezes sufocado pelas margens dos nossos condicionalismos morais, sociais, educacionais mas  também isso é apenas uma desculpa, uma tábua a que nos agarramos evitando a morte certa de tudo aquilo que somos.
Há quem tenha forças para ir mais além, verdadeiros heróis que tentamos sem conseguir, imitar. Aqueles que não temem a morte, essa morte que permite o renascimento. Sair da sua área de conforto, sair do rio, mergulhar em pleno no mar, afogando-se no peso da sua história construída como o cimento de toda uma vida de padrões, de grilhões herdados do ontem e carregados ao longo dos ‘hojes’ transportados por outros tantos ‘amanhãs’.
É cada vez mais necessário libertar-se, vir à tona da água e respirar o ar fresco de quem encontra outro caminho que abraça como seu. 
Imagino o tempo nessas águas onde sou barco por vezes à deriva, por vezes remando com todas as forças da fé, outras sonhando que tenho o motor e vou mais rápido mas sem pressa. Afinal beleza do tempo está no nosso modo de o olhar, se o olhar a partir do rio só vemos o sufoco das margens mas, se for partir das margens, conseguimos ver o tempo/rio tal como é no deslizar suave das águas. Cada cabelo branco, cada ruga é consequência  do seu embalo.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Chovia de alegria

Quando nasci, chovia,
Não sei se de tristeza ou alegria.
O céu em tom de profecia,
Olhava-me do alto e não sorria.

Quando nasci era manhã,
Minha mãe em estranho afã.
Com tanto ainda por fazer
Antes de me fazer nascer.

E eu buscando a luz,
Que ainda hoje me seduz,
Como se uma vida de escuridão
Me toldasse já o coração.

Mas a magoada profecia,
Que me acompanhava noite e dia,
Anos depois se desvaneceu,
Quando o meu sobrinho nasceu.

No dia do seu nascimento, chovia,
Não de tristeza, mas de alegria.
Eram lágrimas minhas e do céu,
Que cada um em amor lhe ofereceu.


domingo, 17 de setembro de 2017

Post.it: O segredo dos segredos


O segredo do perdão é olhar sem julgamento
O segredo da fé é não esperar por provas
O segredo do carisma é olhar com amor
O segredo da saúde é sentir e manter a alegria
O segredo da força é fazer vencer a vontade
O segredo do amor é amar com inteligência
O segredo do destino feliz é ir pelo caminho positivo
O segredo da paz é encontrar em si o equilíbrio
O segredo da harmonia é observar a natureza
O segredo da beleza é ver com o coração
O segredo dos sonhos é tentar concretizá-los
O segredo do caminho não é a meta mas a viagem
O segredo de um bom dia é cuidar dele de manhã à noite
O segredo de obter respeito é saber respeitar-se
O segredo da escuridão é que ela permite ver as estrelas
O segredo da chuva é que faz renascer as flores
O segredo da vida perfeita é apreciar tudo o que ela nos dá
O segredo dos segredos é estar atento para os descobrir


terça-feira, 12 de setembro de 2017

Post.it: Saudades do futuro

Haverá quem se ria deste título, pessoas racionais, pessoas com tanto medo do futuro que apenas conseguem criar saudades do passado, pessoas que não conseguem abrir as asas da esperança e voar pelos ideais que gostariam de conquistar.
Mas há quem, como eu, tenha saudades do futuro, essa sensação existe em nós, cresce-nos no peito como algo que calamos ou que gritamos quantas vezes num longo suspiro.
Esse momento em que quase tocamos no futuro e quase de imediato ele se torna passado, esse dia que tentamos apanhar na fronteira que chegamos quase a não dormir com receio que o breve fechar de olhos lhe permita fugir de nós. Quando a noite num suave parto faz nascer a manhã  que rapidamente se torna luz, ténue entardecer e escuridão. 
De repente o amanhã tornou-se hoje e quase simultaneamente, ontem.
Nesses ontem, ficaram perdidos os nossos sonhos não realizados, as nossas esperanças não alcançadas, as nossas lutas derrotadas, o nosso querer adiado, a nossa vontade anulada. Resta-nos a saudade desse futuro, agora, passado, continuamente protelado.
Saudade, é apenas isso que nos resta. Saudade é apenas isso que nos faz seguir em frente, deixando para trás o que passou, acreditando ainda no que há-de vir e se não vier será apenas mais uma doce e terna saudade. Já nos habituamos a ver passar os dias, a olhar para os meses, a abraçar os anos com a ternura de quem já não se revolta por não ter chegado à meta desejada, por ter aprendido ao seu ritmo a apreciar o caminho. 
Aprendemos a ser felizes por continuarmos a desenhar no horizonte fantasias de algodão e esperanças de areia, porque o verdadeiro prazer, não está no concretizar mas no que de nós pomos no projecto de sonhar e criar um futuro, mesmo que feito de saudades.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Post.it: Partilhar?

Há coisas que não partilhamos, nem com os melhores amigos, nem com os companheiros, familiares, nem connosco. Segredos nossos, tão nossos que os escondemos da luz do sol, da escuridão da lua. Não sei se  é por medo, por vergonha, por qualquer sentimento que nos impede de os soltar e deixar voar. 
Segredos que por vezes nascem na tenra idade e a dada altura deixamos de os sentir como segredos e passam a ser em nós como um membro, um braço ou uma perna, algo que por vezes nos dói, afinal,  os nossos membros em certas alturas também nos doem. Somos feitos de carne e osso e muito mais, somos feitos de sensações e outras, muitas questões.
É difícil partilhar, abrir o coração, deixar alguém entrar, ver-nos, sentir-nos, desnudar-nos a alma, visitar em nós cada recanto e recanto. 
Depois, nada fica como era, a nossa “casa”, tocada, mexida, quiçá até desarrumada por essa visita muda algo em nós. Quem sabe melhora-nos, quem sabe piora-nos. Com um pouco de sorte, pós de magia, centelhas de milagre, faz-se-nos caminho e acompanha-nos ao longo dele. Torna-se um pouco de nós, tornamos-nos um pouco ele.
Mas, ainda assim, há coisas que não partilhamos, lembro-me em miúda ter ouvido uma frase que se tornou lição “somos escravos do que dizemos, somos reis do que escondemos”, e cada um de nós no seu “trono real”, acabamos por gostar dos nossos segredos, aquilo que nos dá uma espécie de garantia de que nunca seremos “roubados” ao mais íntimo de nós.
O que começa como uma dúvida, uma angústia que nos atormenta, constrange, que nos causa amargura de repente torna-se um “tesouro”, a riqueza do que somos, nos individualiza, caracteriza, torna-nos únicos, especiais, torna-nos unicamente nós.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Post.it: Síndrome de Garfield

“Sê mais forte do que a tua maior desculpa”.
Li esta frase e ela fez-me sentido, ser mais forte para vencer as desculpas, os medos, o comodismo. Deixar de adiar, a decisão, o final, a chegada, a partida, a vitória como receio da derrota e depois, um dia, dizer simplesmente que não aconteceu porque não era para acontecer, frases feitas que nos tentam consolar. Há pessoa extraordinárias com uma força, com uma coragem que admiro, que tento, (juro) que tento mas acho que sofro do síndrome de Garfield, (sabem aquele gatinho fofo, cheio de uma preguiça colossal) mas que consegue atingir os seus objectivos e sem se cansar. Talvez seja melhor ser inteligente/esperto do que ter um corpo de Hércules abdicando das coisas “gulosas” da vida. Porque será que o que é bom, “é imoral ou engorda”, mas sabe bem dizem as “desculpas”. Esses “anjinhos diabólicos” que nos enchem os sentidos com com argumentos “impossíveis” de rebater. Mas somos fortes, dia sim, dia não, resistimos à preguiça e damos tudo por tudo no ginásio, ficamos de rastos e temos que repor as energias com algo substancial, merecemos, vencemos a indolência, espantámos o nosso “Garfield” do sofá e fizemo-lo correr e suar por todos os poros, alguém sugere “que tal um gelado?”, todas a olhamos com um olhar fulminante; ela hesita, pensa, “será que devia começar a fugir, pedir mil desculpas, oferecer-lhes o mais humilde sorriso em arrependimento pela sugestão?
O silêncio parece demorar uma eternidade, por fim, todas concordam, “um gelado, boa ideia, as férias já terminaram, não faz mal se o resto do ano não couber no bikini”. “Amanhã regressamos ao ginásio e gastamos todas as calorias que vamos saborear”. 
“Ainda não foi desta que fui mais forte que as (vossas) desculpas”. Entretanto, chego a casa, felizmente tenho um cão e não um gato, vou à rua com ele, fazemos uma longa caminhada e gastamos o gelado e a preguiça, ele olha para mim com um sorriso arfante como quem pergunta, “Quando chegarmos a casa vamos jogar à bola, não vamos?”. Claro! Sorriu, acho que ainda tenho um iogurte grego de stracciatella para a sobremesa…

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Post.it: O regresso

O regresso, tem sempre uma sensação diferente para cada um. Depende de onde se regressa, depende de para onde se regressa. O que termina, o que recomeça, por vezes, raras vezes, o regresso trás consigo mudanças, novidades, expectativas. Fica-se sem saber o que sentir, alegria, receio, vontade de saber, de conhecer, de ir mais além. Por vezes há uma tristeza que não se prende com o regresso mas com a proximidade de uma outra mudança; a Reforma esse “papão” para uns, essa concretização de sonhos, para outros, nuns e noutros, uma certeza, o tempo foge, corre, e não se deixa apanhar. Longe disso estão uns, muitos, um “longe” que se aproxima devagar/depressa.
Mas agora, este regresso é das férias ou da pausa voluntária/forçada e independente das razões, independentemente de ter sido por motivos agradáveis ou não, voltar à rotina dos dias, ao ligar e desligar do despertador deixa em nós uma espécie de mágoa, uma saudade que se aloja em nós, por mais que a queiramos espantar, alegando que “para o ano há mais”. Sim, sim, claro que sim, mas agora, hoje, quando o despertador me faz saltar da cama e ainda o dia não amanheceu, apetece-me resmungar contra todas as frases feitas, porque nenhuma me consola.
Dentro em breve o verão terá partido em seu lugar fica o outono com o seu manto de nostalgia preparando o caminho para o inverno, bem sei que será uma estação breve, mas de repente, não contendo a melancolia que me começa a invadir como se o inverno viesse quase eterno, intenso, imenso. Com um frio que nos magoa, que nos congela a vontade, que nos derrota o querer, “acho que influência da série Guerra do tronos na qual me confesso (viciada)”. 
Será que vamos vencer os nossos “medos” numa realidade que tem os seus dias de horror com atentados, catástrofes naturais, com a eminência de guerras, de políticas ditatoriais. Nas férias não pensamos nisso, não queremos pensar, mergulhamos nas ondas e esquecemos, suspendemos até há hora do regresso.
Até hoje, agora, mas depois há quem nos receba bem, quem nos faça sentir bem-vindos, quem nos diga que está tudo bem e até que pode melhorar. Acreditamos, precisamos de acreditar, precisamos de esperança para levar cada manhã até ao anoitecer com um sorriso nos lábios. Por isso, mesmo que seja só por isso, é bom regressar.


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Post.it: Pausa

De vez em quando, é preciso uma pausa…
Parar o “mundo” o nosso mundo, cheio de rotinas, de hábitos, dos nossos usos e costumes.
Poderiam ser férias, se fosse essa a razão, partir à aventura,   despirmos-nos de nós prisioneiros do que somos durante o ano inteiro, mas não, não são propriamente férias, é uma pausa,  algo que fazemos não para “fugir” de nós mas para nos encontrarmos connosco. Para ouvir o pensamento, para sentir o coração, para olhar com olhos límpidos sem obrigações.
De vez em quando temos de fazer uma pausa para contemplar sem a pressa de cada dia. É um intervalo de sossego, de serenidade.
Precisamos de sentir uma pausa, esse silêncio entre as palavras, a suspensão do movimento, a interrupção momentânea de toda a acção.
Pausa, um instante em que nos é permitido vaguear, quase sonhar, quase sair da realidade e ser o sonho. Pode ser apenas para tomar um café, para fazer uma cirurgia, para mudar, melhorar ou para voltar a ser quem sempre fomos, com a tranquilidade e a expectativa do momento seguinte, o voltar, o acordar.
Seja qual for a razão dessa pausa, na verdade uma pausa não precisa de qualquer razão para o ser. 
E eu silenciosamente vou deixa-la habitar em mim sem lhe perturbar a paz. 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Post.it: Chegar cedo


Cheguei primeiro, primeiro que o sol porque acordei cedo, primeiro que o vento porque quando  fui passear o cão ainda o vento dormia. Primeiro que todas as curvas porque o caminho foi quase todo feito por estradas de retas.
Cheguei primeiro que as notícias, as boas e as más, porque a papelaria ainda estava fechada, por momentos (sonhei) que nada no mundo tinha acontecido, mas logo de seguida abriram a porta e os jornais no escaparate já evidenciavam as letras grandes e as fotos das (desgraças).
Cheguei primeiro que o cheiro a bolos, não gosto de os comer pela manhã, mas gosto do odor adocicado que fica no ar, mas hoje cheguei cedo e só cheirava a noite mal dormida, cheirava a fadiga, a rio dormente, a perfume misturado com suor de quem saía das discotecas.
Cheguei primeiro que todos ao emprego para ouvir o silêncio de vozes, de passos, de portas, de armários, de teclas.
Cheguei primeiro que o cansaço, quando ainda as energias estavam em alta, dispostas a realizar todos os planos de hoje e os de ontem que ficaram por concretizar.
Cheguei primeiro que a esperança, nessa hora em que acreditamos que tudo de bom nos vai acontecer, porquê? Porque sim, não é esperança, não é fé, é plena confiança, como se tudo estivesse ao nosso alcance e para lá chegar só temos de estender a mão e agarrar o que é nosso.
Cheguei antes dos bons dias de quem passa e me olha com ar de quem não me quer ver, preferiam ter ficado aconchegados nos lençóis, abraçados à almofada. O meu bom dia, como que os desperta e os rouba repentinamente ao sono, quiçá ao sonho que era belo mas fugaz.
Sou mesmo essa formiguinha laboriosa, que anda na sua jornada de sol a sol como se cada minuto dependesse mim, como se só tivesse por objectivo a meta vencedora para receber a medalha de um recomeço, de uma folha em branco à espera de ser escrita com a tinta do querer.
E eu quero, quero muito chegar, mesmo que não seja a primeira, quero chegar a cada reencontro, acreditando que esse pode ser  o momento em que a felicidade espera por mim.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Post.it: Absolutos

Há dias que são… com os descrever? Absolutos!

Dias que nos são inteiros, que nos preenchem, que nos são bons, quase perfeitos e, só não o são porque nós, humanos, achamos que a perfeição é algo que está sempre mais além, que nunca a conheceremos, por isso, mesmo quando nos cruzamos com ela, não a reconhecemos, e continuamos com o nosso olhar sempre no longínquo.
Mas mesmo assim, reconhecemos esse dia, respiramo-lo com calma, devagar, com prazer, como quem prolonga até ao infinito aquele sopro de ar em forma de suspiro. Não, não é saudade, não é tristeza, é um suspiro de gratidão à vida e se não for na sua totalidade, até porque há dias bons e maus, agradecemos este dia, que nos é absoluto.
Sentimo-nos vivos, como se todas as células do corpo despertassem e corressem em plena alegria para uma festa estival. Há como que primaveras a despontar e cada recanto da alma. Nesse dia que se for inverno nos surgirá radiante de azul imáculo de nuvens. Mas se for verão, haverá nele uma brisa de outono para limpar as folhas secas e já sem função do nosso pensamento.
Quando o lusco-fusco se aproxima, recebemo-lo de sorriso aberto, porque o entardecer não é triste, este é um entardecer que rima com enternecer como se tivesse braços estendendo-se para carinhosos abraços do quase noite.
Porque nesse dia, até  a noite é perfeita, na sua luminosidade, no seu manto aconchegante de estrelas, no seu luar, no seu reflexo espelhado no mar, no cais onde adormecem os barcos, no leito onde a tranquilidade tem sabor de vitória e o prémio é a leveza de um sonho que nos faz voar em mundo onde o absoluto acontece todos os dias. Quando a realidade nos despertar, sorrimos, talvez o hoje não seja tão absolutamente belo como ontem, mas tem a singularidade de ser a ponte por onde passamos para o acordar de todos os amanhãs.




segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Post.it: Na minha pele

Eu, dentro de mim, deste corpo que é o meu. Eu, por baixo desta pele, desta carne, gordura, músculos, ossos.
Eu, por entre órgãos que vão cumprindo a sua função, como uma fábrica de funcionários, uns melhores que outros, uns mais lentos outros mais rápidos por despachar o trabalho e ir para casa no final do dia, dormir e sonhar.
Eu, por entre a realidade e a fantasia de cada noite e por vezes de cada dia. Eu, coberta de esperança, de espectativas, de metas, de desejos que se vão perdendo pelo caminho feito de tempo, de alegria  e de mágoa.
Eu, levando cada pé a tornar-se passo e cada passo a transformar-se em espaço, daqui para ali, para a frente e para trás, para longe ou para perto.
Eu, apenas célula, tão pequenina, tão insignificante, quase invisível, resquício, migalha, um quase nada de mundo e no entanto vida, ar impulso, construção, decisão, riso e lágrima.
Eu, dentro de mim, universo de constelações moleculares, átomos de energia anímica. Tudo, tanto, e no entanto, apenas um quase nada deste Eu, dentro de mim.



sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Post.it: Férias de verão

Férias, acordar tarde, aproveitar cada minuto do dia para fazer o que nos apetece.
Sair de casa com ou sem rumo. Ir para fora cá dentro,  visitar todas as feiras medievais e as actuais. Estar presente em todos os festivais de música, em todos os arraiais. Ir até à terra que nos viu nascer, a pequena aldeia, reencontrar familiares, amigos, aquelas pessoas que mesmo sem nos conhecerem nos dão os bons dias com voz de aconchego. Quase apetece ficar ali, para sempre, esquecer o barulho da cidade, a monotonia dos dias, a nostalgia das horas marcadas ao compasso de cada
compromisso que corremos para realizar.
Férias, também o ir para fora e meter cada experiência cá dentro, encher o olhar de novas cores, culturas, histórias da sua história. Por vezes também aí nos apetece ficar, para sempre, pela sua beleza e civilidade. Queríamos ser assim quando nos comparamos com as grandes culturas, ou, orgulhamos-nos de ser quem somos porque mesmo pequenos crescemos e temos capacidade para crescer mais.
Férias, não ir, ficar e simplesmente, relaxar, desligar o despertador, despir o espartilho da roupa profissional, trocar os saltos altos pelo básico chinelo. Caminhar pelas ruas, as nossas ruas, aquelas onde estamos o ano inteiro mas nem lhe conhecemos as curvas, só olhamos para a paragem do autocarro ou para a fila de trânsito. As explanadas que saem do café e invadem as calçadas, os parques verdes para passear com as crianças ou até fazer alguns exercícios nos aparelhos de ginástica. Reencontrar os vizinhos, os filhos dos vizinhos, como crescerem sem darmos conta. Ir para férias ou ficar em cada em férias, abrir aquele livro que nos deram no Natal, com um sumo de abacaxi, hortelã e gelo ao  lado, nesse espaço de silêncio com a companhia do  sol.
Férias é tempo de ter tempo, para nós, para os outros. Para o repouso do corpo e do espírito. Para contemplar a natureza, para o reencontro com o nosso “eu”. Para descobrir, para nos descobrirmos. 
Férias, em suma: descansar, ler, pensar e sorrir.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Sem planos...

Desejo com toda a sinceridade,
Que o sábado seja de amor.
O domingo de carinho e amizade,
E a segunda não traga mau humor.

Talvez a curar uma constipação,
A escrever um poema de amor,
Sem ser rasgado pela desilusão,
De um verso que rima com dor.

Numa poltrona estendida,
Com um bom livro na mão.
Ao romance totalmente rendida,
Entregando-lhe quiçá o coração.

Mas se o convite for para passear,
De mãos dadas ao sol ou ao luar,
Mesmo uma felicidade só no sonhar, 
Quem a pode de ânimo leve recusar...

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Férias


Post.it: Falo com as sombras

Era uma casa cheia de vida, de pessoas, de crianças, de vozes, de risos, de nomes gritados por entres as paredes, por entre as portas. Era uma casa cheia de passos quase sempre em corrida, de brincadeiras, algumas choradeiras, birras, cheias de palavras de amor, de carinho por entre ralhetes, faz parte de uma família.
Era uma casa cheia de luz, de um eterno verão, de janelas abertas mesmo no inverno, era uma casa cheia de livros, de cadernos espalhados pelas mesas, alguns pelo chão, “foi o gato à guerra com o cão”, desculpavam-se.
Era uma casa cheia de aromas que vinham da cozinha com tachos a fumegar, da colónia das crianças, de aftershave, de perfume de mulher, de comida granulada do cão, de patê para gato.
Era uma casa cheia de animação, de música, a de cada um, entoando em uníssono ritmos diferentes, de filmes passados na televisão, de histórias lidas à lareira, de jogos de tabuleiro, de cartas de jogar.
De repente, o silêncio, “os passarinhos voaram do ninho”, dizias com um sorriso nos lábios e uma lágrima escondida no canto dos olhos, “eles voltam, voltam sempre” respondia para te consolar, para me consular. E voltaram, só que, cada vez menos vezes, todos os fins-de-semana, depois todos os meses, nos aniversários e no Natal, quando a mãe partiu, partiram eles também, “de vez”. Passou a ser a “visita” apenas das suas vozes pelo telefone.
E eu, que sorria, deixei de sorrir, deixei de esconder a lágrima, afinal, pelo telefone, já não é preciso esconder a saudade. 
Nesta casa vazia, sem passos, sem correrias, sem luz, sem calor, sem animação, sem livros, sem aromas, até sem gato e sem cão. Nesta casa sem amor, sem família, sem som algum que não seja a minha voz, vou falando apenas com as sombras.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Post.it: Dias de verão

O verão tem dessas coisas, essa frescura que ao contrário da climática nos liberta, nos enche de asas, de brisas no pensamento e, voamos nos sonhos que queremos concretizar. Dessas coisas que ficam para as férias e depois ficamos tão cheios de uma bagagem feita de compromissos, que quase sem culpa arrumamos num canto da vida, quem sabe para o inverno, quando o frio e a chuva nos impedirem de sair de casa, aí sim arrumamos o que há para arrumar. Lemos os livros que queremos ler, o filme que queremos ler, o telefonema prolongado que precisamos de fazer.
Agora, o corpo, a alma, todo o nosso ser numa composição de realidade ou fé quer apenas sentir-se leve, liberto da rotina, dos horários, dos compromissos, dos chefes, das colegas, dos transportes públicos ou de não saber onde estacionar o privado.
Agora, finalmente é o arrumar das botas e enfiar o chinelo no pé, caminhar descalça em casa, rodopiar enquanto se abre as janelas para deixar entrar o sol, e ver nas janelas os vasos de flores, os lençóis estendidos, os fatos de banho. Porque sim, está na hora de ir a banhos de mar, abraçar as ondas, adormecer nas dunas. Comer gelados, que se lixe a dieta, no inverno ficamos a chá e torradas, prometo. Perdoe-me o guarda-roupa se não cumprir.
O verão é um tempo de passagem, está como nós em permanente viagem, se não o vivemos, passa e não deixa recordação alguma que nos aqueça nos dias de final de ano.
Vamos encontrar amigos, entre uma cerveja gelada e um prato de caracóis, o marisco dos pobres, dizem. Mas sinceramente, prefiro mil vezes uns caracolitos do que um refinado marisco com as suas requintadas calorias. E depois há as saladas, adoro saladas, as folhas verdes, o contraste coloridos do tomate, o minguado azeite casando com o recheado vinagre e para rematar montes de orégãos, quase afrodisíaco para as minhas pupilas gustativas.
Depois num verão que se prese não pode faltar uma rede entre duas árvores, o chilrear dos pássaros e o silêncio. 
Ainda dizem que o paraíso não existe, claro que existe, quem não o vê, quem não o sente, ou anda a dormir ou a deixar o verão passar!

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Post.it: Águas passadas

Importa o que se disse? Uma palavra, uma frase, um momento, é isso que nos define?
Penso que não, quero acreditar que não. Uma palavra,  um grão perdido num vasto areal.
Somos esse areal, por vezes moldados pelo vento, por vezes inundado pelo mar. Mas sobrevivemos, de quando em vez, até renascemos qual Fenix emergindo das cinzas. Porque somos mais, muito mais que uma palavra.
Por mais forte e vinculativa que ela seja, por mais dolorosa que nos tenha parecido. Por mais duramente que nos tenha atingido. Por mais pungente, cruel, até, nunca passará de uma palavra.
Que não é nada, perto de nós que somos tanto, que somos tudo o que somos. Porque somos tudo o que querem que sejamos. Quando querem sejamos sorriso e não  lágrima. Quando  querem que sejamos inteiros e  estamos tão espartilhados de mágoas. Quando querem que sejamos (mãe)  quando apenas queremos ser (filha), ter um colo e um abraço.
Mas as palavras inquietas, irreflectidas saem da nossa boca e deixam de nos pertencer. Tão rápidas que nem as sentimos, não eram para aquela pessoa, não eram para aquele momento, são o reflexo de um caminho, das pedras, do cansaço.
Depois, são águas passadas ou talvez não, porque a corrente do rio nem sempre tem forças para afastar de si todos os pequenos e grandes atritos. Como um moinho, continuamos a moer e a remoer as palavras na esperança de que passem a pó e o vento as leve consigo num voo de esquecimento.
Um dia percebemos finalmente que não são as palavras que nos magoam, somos nós que nos deixamos magoar por elas, a ferida aberta deixa-se tocar e a dor que já nos doía, apenas, dói mais.
É preciso curar a ferida para esquecer, depois de se cicatrizar a pele, cicatriza-se a alma para que um dia as palavras sejam apenas palavras e não sejam nós.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Boring

Andar na escola até à maioridade,
Ou até ao 12 ano completar.
É boring dizem na sua verdade,
De pouco vocabulário a empregar.

Trabalhar, sempre a levantar cedo,
Para ganhar uns trocos para a cerveja.
É boring e à saúde até mete medo,
Além disso não dá estilo que se veja.

Sair com uma miúda 6 meses,
É boring, é quase uma prisão.
Tentas olhar para o lado às vezes,
Mas ela quer engaiolar-te o coração.

Musica lenta, agarradinhos dançar?
É boring querer juntar os trapinhos.
Quero é  no hip hop me expressar,
O resto é coisa só para velhinhos.

Romantismo é treta e coisa à toa,
No princípio é love com fartura.
Acaba boring e por vezes magoa,
Porque a coisa sempre pouco dura.

A vida é boring, esta é a conclusão,
Para que não seja sempre igual,
É preciso arriscar, sair do chão,
E fazer do hoje um dia Brutal !!!!


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Que nos valha S. Pedro e S. Paulo

Resta-me S. Pedro, ou S. Paulo,
Aos dois venho aqui implorar. 
Que nos ajudem, mesmo ao estalo,
Para alguma (sabedoria) despertar.

As eleições estão quase a chegar,
Será que o vão reconduzir à cidade ?
Parvos os que se deixam conquistar,
Com passeios para terceira idade.

O Povo quer Lisboa mais bonita.
O Povo quer é festarola e bombos.
O Presidente da Câmara acredita,
Que o Povo é um conjunto de tolos.

Precisamos de santos mais milagrosos,
Para tanta indiferença derrotar.
Parecem ter santos mais poderosos,
Para do nosso dinheiro nos alienar.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Post.it: Os nossos "bichanos"

Os animais “humanizam-nos”. Na relação com os animais aprendemos o desprendimento, o carinho, estregamos-nos a esse cuidar e recebemos em troca um amor incondicional, neles não há crítica, não nos julga nem nos lança olhares desfavoráveis, quando muito há curiosidade, vontade de conhecer o que o rodeia, conhecer-nos para ficar mais próximo.
Os animais ajudam os humanos, salvam vidas, são para isso treinados, mas uma grande parte, a maior parte, está neles, na sua capacidade de descobrir, de se entregar, de ajudar, de partilhar o seu tempo, a sua vida, tão curta, em generosa oferta e tudo isso é feito sem aparente esforço, tudo parece divertimento, um jogo onde todos se envolvem para que vença um bem maior, a sobrevivência.
São cães polícias, são cães que auxiliam deficientes, que atenuam os sintomas de doenças, combatem a depressão, afastam a solidão, avisam do perigo eminente, protegem, guardam quem mais gostam, o seu dono, quer sejam crianças, adultos ou idosos. São sem dúvida alguma o melhor amigo do ser humano.
Para os cães basta-lhes a companhia, a comida no prato, e uma bola lançada ao ar num desafio para a brincadeira, correr, saltar e depois deitar-se junto daquele corpo por vezes enfermo, aquele amigo. E eles sabem que não há nada melhor do que ser e ter um amigo, muitos dizem que é um interesse reciproco, não, é muito mais do que isso, é um amor reciproco. 
Que importa se em cachorros nos roem os sapatos, os móveis, a roupa, ou até a nossa paciência. Se correm à nossa frente e quase nos deitam ao chão. Se saltam sobre nós molhados do mergulho na praia. Se nos fazem sair à rua quando a chuva inunda as ruas. Se nos acordam quase de madrugada indiferentemente se é dia da semana, fim de semana ou feriado. Se nos deixam a cara lambuzada de lambidelas. Se lançam sobre nós um olhar triunfante por ter feito o chichi no jornal, claro que as patas da frente entraram no espaço do jornal mas as de trás ficaram de fora tal como a pequena poça molhada. Se nos oferecem aquele  ar de missão cumprida quando nos trazem os chinelos, ou melhor, o que resta deles. Eles adoram-nos e nós, claro, a eles.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Viva o S. João

São João vou-te festejar,
Com alegria e aos gritos,
Para o Porto vou emigrar,
Lisboa agora é só para ricos.

Os transportes a aumentar,
No preço e não na frota.
Os carros sem poder entrar,
Ficam estacionados à porta.

São João que és o encanto,
Da tua devota população,
Nunca ponhas em cada canto,
Um parquímetro ladrão.

Com o ideal de Robin em perigo,
Lembre-o em justiça e lealdade,
Tornando-se um Presidente amigo, 
Para quem trabalha nesta cidade.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O mundo

Há qualquer coisa de silêncios,
Que te escuto suave na voz.
Oceanos há muito recônditos,
Que apenas te navegam a sós.

E as palavras que não dizes,
Talvez de todas as mais belas,
São olhos de inquietos petizes,
Abrem-se em claras janelas.

Sonhos que germinam sem dormir,
Que florescem de um viver acordado,
Acontecem no contínuo deixar-se ir,
Por rumo certo mas não determinado.

É então que tudo acontece,
Nesse renascer límpido de alma.
A uma velocidade que nos entontece,
Sem perceber a fluidez dessa calma.

Que inveja, que sensação de ternura,
Me desponta em jardins no peito.
Primaveras de tão simples candura, 
De um sentir e existir tão perfeito.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Post.it: A (descoberta)

Morrer faz bem! Uma grande descoberta. Talvez mais importante do que a descoberta da cura para o cancro. Uma revelação onde, se calhar gastaram-se anos de investigação, quantidades de dinheiro, diversos investigadores, cientistas com grande currículo e idêntica remuneração, tudo, para chegar à brilhante conclusão, que morrer faz bem!
Talvez, afinal, acabam-se os problemas de saúde, os problemas económicos, as duvidas, as angustias com o futuro, a tristeza com os fracassos, as depressões por sonhos não realizados.
Acabam-se as lutas, as rotinas, as discussões com os chefes, as disputas com os colegas. Terminam as esperas, na fila dos transportes, do trânsito, do supermercado, dos centros de saúde, nos hospitais, na pastelaria para obter um café. Nos correios para ir levantar a misera reforma, no cabeleireiro para ir cortar os cabelos brancos, porque os escuros vão rareando.
Termina a solidão, a falta de solidariedade, de carinho, a ausência dos filhos, a indiferença dos vizinhos, o aborrecimento de quem tem de atender.
 É um final para o que se vive, para o que se desejaria viver ou seja acaba-se tudo, ou quase tudo, surgem os problemas de se ter morrido, mas isso já não é importante para quem parte, apenas para quem fica.
Lá está a velha questão de que o que faz bem a uns por reflexo fará mal a outros.
Mas isso é o de somenos. O que importa é que morrer faz bem, por tudo o que resolve ou deixa sem solução. Pela partida, quem sabe pela viagem, há até quem acredite numa chegada, ao Paraíso?
Isso vai para além do nosso além de conhecimento. Aguardamos por novas grandes descobertas, que não sejam como esta, verdades de La Palisse.