segunda-feira, 19 de junho de 2017

O mundo

Há qualquer coisa de silêncios,
Que te escuto suave na voz.
Oceanos há muito recônditos,
Que apenas te navegam a sós.

E as palavras que não dizes,
Talvez de todas as mais belas,
São olhos de inquietos petizes,
Abrem-se em claras janelas.

Sonhos que germinam sem dormir,
Que florescem de um viver acordado,
Acontecem no contínuo deixar-se ir,
Por rumo certo mas não determinado.

É então que tudo acontece,
Nesse renascer límpido de alma.
A uma velocidade que nos entontece,
Sem perceber a fluidez dessa calma.

Que inveja, que sensação de ternura,
Me desponta em jardins no peito.
Primaveras de tão simples candura, 
De um sentir e existir tão perfeito.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Post.it: A (descoberta)

Morrer faz bem! Uma grande descoberta. Talvez mais importante do que a descoberta da cura para o cancro. Uma revelação onde, se calhar gastaram-se anos de investigação, quantidades de dinheiro, diversos investigadores, cientistas com grande currículo e idêntica remuneração, tudo, para chegar à brilhante conclusão, que morrer faz bem!
Talvez, afinal, acabam-se os problemas de saúde, os problemas económicos, as duvidas, as angustias com o futuro, a tristeza com os fracassos, as depressões por sonhos não realizados.
Acabam-se as lutas, as rotinas, as discussões com os chefes, as disputas com os colegas. Terminam as esperas, na fila dos transportes, do trânsito, do supermercado, dos centros de saúde, nos hospitais, na pastelaria para obter um café. Nos correios para ir levantar a misera reforma, no cabeleireiro para ir cortar os cabelos brancos, porque os escuros vão rareando.
Termina a solidão, a falta de solidariedade, de carinho, a ausência dos filhos, a indiferença dos vizinhos, o aborrecimento de quem tem de atender.
 É um final para o que se vive, para o que se desejaria viver ou seja acaba-se tudo, ou quase tudo, surgem os problemas de se ter morrido, mas isso já não é importante para quem parte, apenas para quem fica.
Lá está a velha questão de que o que faz bem a uns por reflexo fará mal a outros.
Mas isso é o de somenos. O que importa é que morrer faz bem, por tudo o que resolve ou deixa sem solução. Pela partida, quem sabe pela viagem, há até quem acredite numa chegada, ao Paraíso?
Isso vai para além do nosso além de conhecimento. Aguardamos por novas grandes descobertas, que não sejam como esta, verdades de La Palisse.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Milagre de Sto. António

Ai meu Santo Antoninho,
Por quem tenho muita devoção,
Já nem a sardinha e o vinho,
Me livram de tanta aflição.

Peço-te Santo de Lisboa,
Para minha total felicidade,
Não amor nem coisa à toa,
Mas sem parquímetros esta cidade.

Lisboa virou-se para o turismo,
E na Câmara o Presidente,
Mergulhado em estrangeirismo,
Esquece o trabalhador e o residente.

Quem tem vontade de festejar,
O Santo António milagreiro,
Se só para o carro estacionar, 
Fica-se o mês todo sem dinheiro. 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Post.it: O que vale a pena recordar

Ontem recebi um telefonema, era um convite  para uma missa pelo aniversário de falecimento de uma amiga, uma simpática amiga, uma generosa amiga, suave, gentil extremamente polida, uma pessoa de outra geração, infelizmente já não há pessoas assim. Foi uma geração profundamente enraizada nos valores, educada na estima e pelos outros e respeito por todos, independentemente de tudo os que nos separa de vivências, de fé e crenças, de origens, de cor de pele, de local do mundo. Era uma amiga especial, porque era tudo isto numa só pessoa em (quase) todos os momentos em que a conheci, sim, quase, porque ninguém é perfeito e nós peças de uma sociedade nem sempre nos encaixamos em todas as arestas, alguma ficam a faltar ou a sobrar, ou simplesmente não têm a mesma forma.
Mas já faleceu, partiu para a viagem ao infinito, tão infinito que não tem regresso, podem dizer que as saudades a tornaram mais ideal ao meu sentir, que a memória a vai suavizando e colorindo, talvez, porque não, merece-o. A sua relação com os outros justifica-o. Já faz 2 anos e neste tempo foi construindo uma nova história, repleta de si. Por isso me magoa este convite, não pela lembrança da data porque essa permanece-me presente, mas pelo facto de ser esta mais claramente lembrada com honras de celebração litúrgica. Prefiro mil vezes recordar desse modo o dia do seu aniversário, o dia em que nasceu e durante muitos anos passados e futuro é seu.
Ontem quando recebi o telefonema, parei o pensamento, suspendi o sentimento e fui como ela e por ela, cordial, sim claro vou tentar ir… 
Não sei se irei, sinto que lhe estão a roubar a (vida) do que era, para apenas recordar a dor da partida. Não quero que doa mais, não irei. No dia do seu aniversário irei até ao mar, lançarei uma flor, quem sabe lhe chegará…

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Post.it: O espanto

Continuo a surpreender-me comigo, com os outros, com a natureza vegetal e animal. Continuo a descobrir-me em mim e nos outros. Continuo a crescer nos sorriso de uns ou a diminuir no silêncio de outro. Continuo a caminhar na direcção de quem me espera e a afastar-me na direcção de quem já nada me diz.
Continuo a ter coisas para dizer mas na maior parte das vezes nada digo, porque eles já sabem a verdade, para que repeti-la e voltar a tocar nas mais profundas feridas.
Continuo a fazer coisas, cada vez menos, falta-me o tempo, a vontade, o empenho, a dedicação, desculpas de quem já não as quer fazer, se ao menos aparecessem feitas…
Continuo a sonhar, cada vez mais, apenas quando durmo, e durmo cada vez menos, coisas do meu relógio biológico que passou a dormir nos minutos e a viver nas horas.
Continuo a virar a página do calendário, não para saber como se arrumam os dias nos mês seguinte mas para ter a certeza de que o mês anterior não se vá arrepender e querer repetir-se.
Continuo a contar a estrelas do céu, são cada vez mais, alegra-me a sua luz cintilante. Quando era criança diziam que eram a alma de quem tinha partido para o céu e eu incrédula na minha crédula expectativa procurava com olhar ávido pela prima Graciete, pelo Adelino, pelo Sérgio (da Conceição), se lá estavam não sei, mas entristece-me pensar que há cada vez mais estrelas, mais almas?
Continuo a deixar-me navegar por pensamentos e fantasias, este meu lado de criança que não cresce nem que viva 100 anos, que conheça da dureza da estrada mil vezes palmilhada, que me roubem os sonhos, que me queiram invadir de medos, que os fracassos superem as vitórias, haverá sempre em algum lugar de mim um velha e doce história, cheia de moral e de luz. Porque, sim, continuo a acreditar que há luz por detrás das nuvens mais cinzentas e que a chuva não serve apenas para nos molhar mas para fazer desabrochar no nosso jardim as flores da esperança.



sexta-feira, 2 de junho de 2017

Post.It: A vida é simples

A vida podia ser simples, fácil de se viver. A vida podia ser feliz, não só num momento mas em todos. A vida podia ser o que quiséssemos sempre que  cada um de nós  quisesse ter uma boa vida. Mas complicamos, arranjamos problemas para a vida e ela responde-nos num aparentemente sem solução. Torna-se triste, combativa, deprimida, apática, revoltada, torna-se o que nós somos e nós o que ela nos é.
Passos sem destino, cansados, arrastando os dias como se lhe pesassem as toneladas de decisões, de acções. E poderia/deveria ser simples. Como?
Devem estar a questionar os que ainda procuram mudar o seu rumo.
Impossível. Murmuram os que já desistiram e instalaram-se na vida tal como ela é. Mas a maior parte, a que  não acredita nem deixa de acreditar, encolhe os ombros, deixa-se ir no arrasto da multidão.
A vida podia ser simples, para isso cada um devia pensar no que o incomoda, no que o desgosta,  não podemos mudar de lugar uma montanha, mas podemos apreciar a sua beleza sem a olhar só como um obstáculo. Se temos que a subir, que seja com prazer na jornada, pensando na chegada ao topo, na visão panorâmica que nos oferece, a essência do ar mais límpido. Subir que seja apenas a dificuldade de construir um caminho, depois de lá chegar tudo é mais claro, simples, fácil.
Viver podia ser simples, é simples, quem sabe se seguir pequenas regras essenciais:

Não faças aos outros o que não gostas que não te façam a ti.
Vive o hoje, pois o ontem já se foi e o amanhã pode não vir.
Tem paciência, tudo tem o seu tempo.
Superar é preciso. Seguir em frente é essencial.
A prepotência faz-te forte por um dia, a humildade para sempre.
A vida é um eco, se não gostas do que recebes, observa o que estás emitindo.
Viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe.
Queres saber o sentido da vida? Para a frente.
Ama a todos, confia em poucos e não faças mal a ninguém.
A consciência é a mais fofa almofada.
Da vida não querer muito. Apenas o que se tentou e pôde ter.
Deve-se falar sem aspas, amar sem interrogações, sonhar sem reticências, viver e ponto final.
A vida é simples, tu é que a complicas!



segunda-feira, 29 de maio de 2017

Post.It: Chuva de domingo

Caía uma chuva mansa, tristíssima, num domingo à tarde. Tinha tanto planos, todos eles secos, contando para isso com o sorriso amplo do sol. Mas o astro rei, domingou, descansou de um verão que parecia querer prematuramente invadir-nos, mas isso foi durante a semana, em dias de trabalho quando as temperaturas ultrapassaram os 30º. Começámos a desenhar planos, esboços de um fim-de-semana pleno de aventura, um mergulho no mar, um passeio pela costa litoral, um picnic, encher os olhos de azul, um encontro de amigos, uma mochila às costas e caminhar,  limpar os pulmões dos ares urbanos, expurgar os pensamentos da demasiada proximidade civilizacional.
 Sair da rotina, abandonar  o relógio na cómoda do quarto e guiarmo-nos apenas pelas sombras do sol, mas ele, revelou que  tinha outros planos, nos quais eu não estava incluída.
Senti-me abandonada, traída, senti o rosto molhado, mas eram as gotas de chuva a deslizar, perguntei-me se seria solidariedade ou qualquer espécie de vil castigo, revoltei-me, não o merecia. Ergui a minha espada de argumentos e esgrimi palavras desventuradas, nem o eco me respondeu.
Voltei para casa, despi a roupa molhada, fiz um café bem negro, como os meus sentimentos, deitei-me no sofá, acendi a televisão e continuei a ver a catrefada de episódios gravados da série Guerra do tronos, mergulhei naquele tenebroso   ambiente, senti-o  semelhante ao meu, também ele triste, solitário, de lutas perdidas, adormeci, cansada deste domingo, que me roubou todos os sonhos que me levaram uma semana inteira a criar, sonhei e nesse sonho reencontrei-me alegre, caminhando num verde infinito e o azul estava límpido de nuvens claras deixando aqui e ali escapar um raio de luz solar. 
Quando acordei, a noite já tinha chegado, levantei-me leve, vesti o impermeável e fui passear o cão. Senti que nada me tinha derrotado, nem o silêncio da escuridão, nem a chuva mansa, ela sim, tristíssima.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Post.it: Quantos olhares há nos olhos?

Que olhos nos olham? Com que desejo, perspetiva, com que sentido o da razão ou do coração. Nunca seremos totalmente quem somos, na leitura dos outros, na nossa própria leitura. Poderíamos ser diferentes, melhores, dizem os pais, os amigos, os amores. Mas aí, na verdade, seriamos nós?
Nós que somos imperfeitos, cheios de manias,  hábitos, de egoísmos, de narcisismos, daquilo que fez os outros aproximarem-se e, em algum momento até, gostarem de nós. Claro que a beleza física também é causa desta atracão, mas o que os faz ficar, depois já não é esse desfile de vaidade pela conquista, é antes o sentir-se de alguma forma, conquistado.
Terá sido o olhar, o sorriso, a tonalidade da voz, a sua inteligência, a sua generosidade, tranquilidade, confiança, talvez, tudo isso, talvez nada disso, apenas o nosso olhar sobre esse alguém que lhe deu a forma da nossa vontade.
Foi o encontro que esperávamos, que aconteceu e a partir daí tudo é composição, desenho da alma, esboço do nosso querer. Culpa do amor, que nos ama, que nos faz amar e que nos/vos idealiza, o amor dos pais, dos amigos, dos namorados…
Por vezes o amor vacila, há momentos em que nem sempre o sol brilha e quando isso acontece, veem o nosso (lado lunar). Não acreditam, acusam-nos de termos mudado, acusam-se de terem mudado, querem recuperar-nos no que eramos ou desistem e partem à procura de nós em outros, chegam a encontra-los ou a acreditar que sim. No fundo nunca foi a nós que viram, não foi a nós que amaram. Porque quem nos vê, quem nos (vê) realmente, com todos os sentidos, ama-nos, nos defeitos e nas virtudes. 
Ama-nos, não por sermos perfeitos mas porque de alguma forma as nossas imperfeições conjugadas com as suas complementam-nos, tornam-nos seres melhores e de vez em quando, até, mais felizes.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Post.it: Escapa-nos

Por mais atentos que estejamos escapa-nos sempre algo, aquele instante que, quem sabe, teria sido o melhor da nossa vida.
A vida é feita de coisas boas que nos escapam e de outras más a que nos agarramos tentando dessa forma, esquecer. Porque tudo o que existe, existe no tempo, um tempo que se manifesta e prossegue na sua contínua viagem sem se deter, indiferente aos nossos desejos, indiferente ao nosso próprio tempo. Por vezes, esse tempo, parece até, rir-se de nós, quando o deixamos escapar, sem o abraçar, sem o sentir a crescer em nós, como se nos fosse semente de esperança, de energia impulsionadora para algo que poderíamos fazer e não fazemos.
Nem sempre temos noção desses momentos, passaram tão depressa que os sentimos como sopro de vento, então dizemos, poderia ter sido mas não foi, poderia ter-nos acontecido mas não aconteceu. Será que não aconteceu, ou fomos nós que deixamos passar o momento a oportunidade, por distracção, por medo de agir, por confiança de que surgirá outra. “Não era para acontecer”, como nos acomodamos nessa ideia de conforto, assim, a culpa, nunca é nossa, mas do destino. Pobre cruzado e cruxificado culpado sem culpa formada e condenado sem julgamento. 
Talvez, na realidade, independentemente da nossa vontade, da nossa força, da nossa coragem em agarrar tudo o que a vida nos oferece ou aquilo que conquistamos, mas ainda assim, escapa-nos, consegue fugir de nós e deixar-nos com a desilusão de quem quer reter a areia entre as mãos mas acaba sempre com elas vazias.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Post.it: Milagres

Foi um fim de semana de “milagres”, muitos assim lhe chamaram. E porque não? Tudo correu bem (para alguns), para muitos inclusive, não para todos, porque para haver uma vitória, quantas derrotas ficam por contar. Para haver um vencedor, há sempre um outro que perde, com mais ou menos fair play. A cada riso de quem toca o topo, quantas lágrimas ficam pisadas no chão.
Mas também há os que são mais positivos, os que nunca desistem, os que não deixam de regar a esperança impedindo que sucumba ao inverno da gélida negatividade, um dia, quem sabe também a vitória lhes sorrirá. Seja em que atividade for, em que língua aconteça, em que circunstancias ocorra, há-de suceder, porque não?
Afinal, por vezes,   os milagres acontecem. Aqui e ali, pequenos momentos que se concretizam, que nos realizam, que nos fazem voar mesmo sem asas, que nos fazem acreditar que conseguimos chegar mais além do limite delimitativo do nosso horizonte existencial.
Chamamos-lhes milagres, queremos que sejam milagres, porque acontecem inesperadamente, porque nos parece impossível e torna-se  possível, porque são aquilo que nem sequer nos permitimos sonhar, desejar, acreditar, lutar,  já quase tínhamos aceite como inexequível.
E no entanto quando acontece, há um silêncio, uma ausência de palavras, nem sequer chegámos a inventar um discurso de agradecimento. Mas até mesmo sem palavras, agradecemos com a comoção em uníssono de todos os sentidos. Rimos, choramos, pulamos, caímos de joelhos no chão, ou perante a surpresa, ficamos apáticos e, nesse instante, por milagre, por magia, por qualquer coisa em nós, escuta-se o coração não no seu batimento muscular, mas na sua explosão de emoções em devota e grata voz.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

Post.it: A ilha que sou

Por vezes imagino-me numa ilha, náufraga de sonhos perdidos, de fantasias perdidas. E nesse isolamento reencontro-me, sou-me parceira, amiga, sem contudo sentir de tudo o resto solidão. Há uma felicidade que me inunda, há uma paz que me aconchega. Deixo os passos na areia, sem outros por perto, regresso ao mesmo caminho só para lhes fazer companhia. Mergulho o olhar no oceano, ouço o seu doce murmurar em amena cavaqueira com o sopro do vento, conversam como se ninguém os estivesse a escutar, falam de tempos já perdidos por entre dunas de esperança. Eis que então, o mar  alteia uma crista de onda enquanto se ri de tão ridícula lembrança. A areia quente adorna suavemente o solo em volta das árvores num abraço tão familiar que nem o vento tem coragem para os tentar separar. Ao fundo uma montanha, não será muito alta, mas surge como que gigante perante a minha diminuta existência. Não sei se a suba, e se a subir não sei se a desça, gosto de a ver distante, encosta protectora das maiores tormentas, intempéries da terra e tempestades do mar. Lá de cima talvez veja tudo, este meu pequeno mundo, deserto de vidas humanas, vazio de existências vivas,  prefiro imaginá-lo grande, infinito, habitado pela bondade, pela consideração, dedicação, partilha e liberdade.

E nesta ilha que imagino estar, neste paraíso onde em certas ocasiões habito, de tanto a querer, de tanto a sonhar, sinto por vezes a maravilha de nos mais belos momentos tornar-me nela…

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Post:it: Poemas com rima

Gosto de poemas com rima, dá-me  uma sensação de coisa arrumada. Gosto da cadência fonética, quando os sons parecem chuva de inverno, umas vezes mansa e suave, outras em força e brusquidão quase impositiva como que exigindo que a deixem entrar.
E nós em casa, sequinhas vamos gozando com as gotas grossas que embatem na janela e deslizam até ao chão, derrotadas na sua intenção de chegarem até nós e nos encharcarem de água.  E nós sequinhas dela, um quase luxo, um verdadeiro prazer, o nosso lar quente, aconchegante e lá fora uma inundação de mágoas do céu que vão formando  um rio sem rumo descendo a rua pisada pelos passos da indiferença.
Gosto de poemas que contam uma história mesmo quando não é feita de vitória. Porque contam a vida, por vezes a nossa, escondida numa qualquer combinação métrica.  A vida que não se inventa, por vezes recria-se dentro de nós, recomeçamos, mas  sem a fantasia romanceada de um breve folhetim.  Poemas de quem passa e mesmo passando, fica, quando lemos, quando sentimos o seu toque na pele dos sentidos.
Gosto de poemas que têm emoção, que caminham sem pressa e chegam ao coração. Poemas de começo de tarde, que nos aquecem, que nos enchem de palavras embalantes e buquês de flores campestres. Poemas com alma que nos adornam com uma tépida calma, gosto da sua voz que nos invade cada recanto silencioso dos nossos torpores, dores e medos, trocando-os por encantos, e encantados prantos, que nos adormecem e anestesiam as paixões, razões e contradições dos seres que irremediavelmente somos.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Sem utopias


De repente um deserto,
Invade toda a cidade.
Sem nada de certo,
Nem a própria idade.

De repente a escuridão,
Cega de tanta luz.
Como se ao coração,
Nem o amor o seduz.

De repente noites sem dias,
Amanhãs cheios de ontens.
Aprende-se a viver sem utopias,
Sem sonhos, sem miragens.

De repente cresce em nós,
Um tempo de arvoredo.
Foram filhos, pais, agora avós, 
E a vida é-nos magistral segredo.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Post.it: Outono

E o outono? E o outono? Gritam os fãs desta estação, sentindo-se quase que discriminados, ou totalmente esquecidos das minhas palavras. Não falei do outono, é-me difícil, porque o sinto tão profundo em mim, que tenho receio de que as minhas parcas palavras não lhe façam justiça. Uma estação, quase um apeadeiro, uma quase paragem, não para ficar de braços cansados e desistentes, mas de braços que oferecem abraços. 
Porque apetece abraçar as árvores que ofereceram sombra e no outono deixam as folhas cair, partir. Prometem voltar, mas quem não conhece as promessas vãs das partidas? Todos nós que já lhes acenámos, todos nós que sentimos uma fonte de saudade a invadir-nos o peito. Sim, há-de voltar mas se assim não for, que esteja onde estiver, feliz.
O outono seco, amarelo, dizem que murcho, triste, não! Apenas nostálgico, porque não tem a eufórica ventura do verão, mas rejubila por não ter igualmente a dureza do inverno. 
É uma estação de terna consolação. Uma cadeira no adormecer da noite, uma dolência na frescura das tardes. Aquela imagem das crianças quando vão para a escola, com roupas novas, com livros cheios de saberes, alegres por reencontrar amigos. As praias cada vez mais vazias, os parques da escola cada vez mais cheios, os risos são os mesmos, infantis, ingénuos, sonhadores, repletos de esperança. 
Os pássaros cantam suaves melodias, e com a sua música dizem aos filhos que está na hora de também eles voarem. Já apetece tapar os braços nus, já apetece apertar contra o peito o casaco de malha, já sabe bem caminhar por tapetes de folhas sem o calor nos cansar. Já apetece ficar a ver o mar sem desejo de nele mergulhar, sentindo-o embalante no seu movimento.
Mas ainda é cedo, demasiado cedo para receber o outono, para o viver, para o sentir, cada um à sua maneira, uns com vontade de voltar ao passado, outros com o anseio de chegar rapidamente ao futuro. Quanto a mim, não tenho saudades a prender-me ao ontem, nem tenho pressa do amanhã, quero simplesmente vivenciar o hoje, qualquer que seja a estação.




terça-feira, 2 de maio de 2017

Post.it: Há sempre uma outra primavera!


O inverno é mais belo quando se despede, porque fica dele a saudade, dos ventos que dançam nas árvores, das chuvas que nos encobrem as lágrimas e servem de desculpa para o riso adiado. Porque faz frio, porque me doem as mãos, a alma, o coração. Depois há a neblina, o denso nevoeiro, a solidão, a escuridão.
Mas quem esquece o calor da lareira ruborizando o rosto, o chá fumegante, a maciez de uma manta aconchegando o corpo. O livro que conta uma história diferente da nossa. A música que nos embala ternamente os sentidos.  
Mas eis o equinócio, odiamo-lo porque nos aproxima cada vez mais do verão, do seu intenso calor, da falta de brisas, do suor descendo em nós como se fossemos uma avenida de curvas e contracurvas, as roupas coladas à pele, as sombras na explanada todas ocupadas, os gelados que são frescos mas não refrescam e apenas nos oferecem dolorosas calorias, o mar convidando ao mergulho com ondas amigas ou traiçoeiras que nos abraçam mas também roubam vidas.
Ainda bem que pelo meio há uma suave pausa, um “feriado” no tempo, entre um adeus e um olá, a chegada branda e perfumada dos horizontes primaveris, a festa das andorinhas, o renascimento da natureza, os ovos despontando nos ninhos, o céu coberto de um azul brilhante, a vontade de olhar a vida com todas as cores do arco-íris, voltar a sonhar mesmo depois de acordar. 
E dentro do peito resplandece-me por instantes, a primavera de me sentir flor…

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Post.it: As companhias

As pessoas surpreendem-nos, chocam-nos, magoam-nos. Foi assim que reagi, com um destes sentimentos, talvez o menor, porque as notícias foram-me dadas a conta-gotas, como um medicamento que começamos com uma dosagem baixa, por não sabermos quais os seus efeitos secundários, só sabemos os sintomas da doença enquanto que os do tratamento, podem por vezes ser piores antes de começar a melhorar, antes de, com sorte, curar. 
Não soube como reagir, afinal já passaram 2 anos desde o acontecimento, mas soube-o agora,  magoou-me neste exacto momento, não como se tivesse passado tanto tempo, mas como se as palavras carregadas de hediondas expressões fossem neste preciso instante proferidas. 
 Não sei como reagir, zangar-me? Não parece ter sentido, nem sequer merece apena, pelo acontecimento e pela pessoa em causa. 
Acho que vou deixar passar outros tantos anos, talvez 20 e no entretanto, esquecer. Afinal já não faz sentido, aliás nunca fez, coisas que se dizem simplesmente porque as pessoas são pouco confiáveis, tanto as que por alguma razão que não compreendo, resolvem inventar coisas sobre nós, com até as outras que 2 anos depois resolvem contar essas “verdades”. 
O tempo e a erosão pessoal de cada um acaba por conferir a tudo outra dimensão, acrescentando-lhe um ponto, que se torna um conto, mistura inflamável de fantasia e rancor. 
As pessoas, são com que rios com águas, umas mais pacíficas, outras mais turbulentas, nem sempre chegam a formar tempestades, apenas insignificantes ondas de baixa auto estima que vão expandindo em círculos de má energia. 
Magoa-me porque deixo que me atinja no peito aberto e sem defesas, no sentimento crédulo de que as pessoas são necessariamente boas. Esqueço-me, demasiadas vezes, que as pessoas são o que são e que reagem por instinto básico às suas necessidades de sobrevivência. 
Magoa-me não perceber a sua dimensão, o seu mundo de interesses, a sua cadeia de conveniências. 
Mas também há surpresas, porque se me deixo magoar pelo inesperado, às vezes acontece o imprevisto, a humildade, a solidariedade, a credibilidade, por isso e apenas por isso, aceito as mágoas e faço delas um passo em frente. Tudo é caminho, as flores e os espinhos, o sol e a chuva, o cair e o levantar, o rir e o chorar, as chegadas e as partidas. Tudo é caminho acompanhados ou sozinhos, o importante é que nós sejamos a nossa mais agradável companhia.



segunda-feira, 24 de abril de 2017

Post.it: Liberdade sim...

Houve um tempo, demasiado tempo em que as vozes da liberdade combatiam  por entre sons de murmúrios. Havia medo, não das forças da autoridade enquanto forças de lei, que lhes dava mais incentivo, mais coragem,  mas da sua incompreensão e intolerância activa.     Lutava-se por causas justas, defendiam-se direitos de integridade, de legitimidade, de verdade, de liberdade. Queria-se ter o direito de dizer não e que cada sim fosse fruto de uma opção não condicionada.
Houve um tempo, lembro-me dele, mais pelo que me contaram do que por o ter vivido, ainda não tinha idade para compreender o que significava ter o espirito enclausurado, as ideias agrilhoadas, os sonhos acorrentados, os desejos presos condenados sem julgamento e sobretudo, sem culpa.
Houve um tempo que até era quase proibido rir, e com medo, riamos e chorávamos da nossa desgraça apenas nas quatro paredes do nosso lar.
Quarenta e alguns anos depois de acontecer o 25 de Abril, muito mudou, quase tudo mudou, ou talvez não.
Hoje tornou-se proibido proibir, e diz-se tudo, o importante e o que não interessa, porque há quem tem necessidade de falar gritando com palavras vãs, só para, talvez, ouvir mais alto que a voz dos outros, a sua.  Numa  “revolta” de tudo, ou apenas de não saber crescer com respeito pela sociedade onde vivem. Uma sociedade que talvez não os saiba abraçar, que  não os aconchega num leito de carinho, que  não lhes dá tudo o que desejam.
Mas, sempre assim foi,  a vida é feita de conquistas e não de direitos por nascimento.  Devemos-lhe respeito por todos os que a compõem  e sobretudo, respeito por nós que a pisamos, julgamos, condenamos esquecendo que ela é unicamente o  retrato de cada pessoa que a destrói em vez de a construir.
Hoje que há aparentemente liberdade para tudo, erguem-se bandeiras de alforria e aqui e ali rouba-se a liberdade dos outros, entram nas suas vidas, obrigam-nos a ouvir a sua “música” poluente dos nossos sentidos, aceleram nas estradas e atropelam-nos a vontade. Já não são as autoridades, são pessoas como nós, pessoas ávidas de si, indiferentes a todos os outros.
Precisamos,  não de outro 25 de Abril, mas de recordar os seus valores, de que liberdade ele nos trouxe. 
De homenagear os que pereceram ao lutar por ela, com respeito pela sua conquista, pela sua integridade e lealdade patriótica. Ainda há muitos direitos por conquistar, ainda há muita injustiça social, mas hoje, grita-se tão alto que já ninguém escuta. É preciso fazer silêncio para falar e para ouvir. É preciso fazer silêncio para que a liberdade fale em cada um de nós e nos una num todo de solidariedade, de humildade, de respeito, de maturidade e de plena humanidade.


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Post.it: Pequeno mundo

Sinto o papel a escrever-me nos dedos histórias que nem eu consigo inventar. E elas surgem detalhadas, precisas, cheias de vida, de vidas, da minha também. E nessa escrita apressada, há uma urgência de voz.
Por todos os silêncios que me ficaram calados ao longo do crescimento, da infância que de infância apenas teve o nome, a idade, porque sempre me senti adulta, na responsabilidade, nas tarefas, na exigência do parco existir.
Talvez por isso me tenha alimentado de fantasia. Até que um dia, as sensações, as emoções ganharam clamor e começaram a jorrar-me em cascatas oceânicas manchando de tormentoso azul o imaculado papel.
De repente, arrependo-me e num gesto aflito tento apagar tudo o que escrevi com a manga da camisola, mas a tinta derramada, insiste em permanecer e continua a estender-se em linhas que querem desenhar o infinito e ir para além dele.
Então, atrevo-me a sonhar, atrevo-me a voar e sou livre. Pela primeira vez sou criança sem idade, rio-me, sou inconsequente, nada temo, esqueço por um breve instante que sou uma vida sem sentido mas com uma direção, a de seguir, cumprir, obedecer, em silêncio de palavras, de olhares, de lágrimas. 
Mas isso é depois, agora permito-me ir além de tudo, do meu pequeno mundo, do quarto escuro, da sala de estar onde não tenho permissão para entrar sozinha, da cozinha que é o meu minúsculo pátio de recreio, contudo grande, imenso, para alguém que nunca aprendeu a brincar. Felizmente, aprendi a escrever e  com isso o direito e a liberdade de ser quem sou…

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Post.it: Onde vão dar os caminhos?

Andei por tantos caminhos na vida. Não sei se os escolhi se fui escolhida por ele. Não acredito no destino escrito com tinta de sangue e de lágrimas, idealizo que é desenhado com gargalhadas que fazem eco e chamam para si outras ainda mais felizes.
Claro que a felicidade não é eterna, mas o que é a eternidade para nós simples mortais?
Um minuto, em que olhamos o mundo e o conseguimos sentir com ternura dentro do peito?
Uma hora, em que o olhar é um veleiro de velas estendidas até à linha do horizonte oceânico?
Um dia, em que sentimos a plenitude a invadir-nos os sentidos como se fossem primaveras a desabrochar em cada molécula com flores de esperança?
Um mês, de coisas pequenas que crescem em nós como brisas que trazem cada amanhã repleto de sonhos que vamos concretizando?
Um ano, em que o paraíso dos impossíveis nos é possibilitado nos seus momentos únicos, nossos, tão nossos que quase, mesmo que por vezes apenas quase nos acontecem e parecem em tudo, perfeitos.
Mas tudo isto é apenas falar do tempo porque, a felicidade é uma delimitação imensurável, acontece, simplesmente, sem como, sem quando e, sobretudo, sem quanto. Faz parte do caminho, nem sempre daquele onde estamos, talvez, quem sabe do seguinte.
E depois de tantos passos dados, há tantos ainda que quero dar, não pela busca, mas por cada encontro, com flores, com pedras, com poças de água, pontes, montanhas, vales. 
Uma conclusão nos surge cada vez mais clara e reconfortante, apenas desejamos que todos os caminhos vão dar a uma familiar abraço…

segunda-feira, 10 de abril de 2017

À noite na praia

Na quase escuridão,
Só a brisa se sente.
O luar por iluminação,
A água em breve quente.

Na noite de quase verão,
As ondas vêm sombrias.
Murmurando a canção,
De esperanças vazias.

Com o areal despovoado,
Barcos a ranger de solidão.
O amor caminha abandonado,
Sem ter destino, apenas paixão.

Qual barco em terra encalhado,
E areal de mar quase despido.
Olha as estrelas esperançado, 
Que passam sem o ter percebido.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Post.it: Males necessários

Há dores que precisamos de sofrer não por masoquismo mas para perceber a felicidade que elas nos trouxeram. Controversa a ideia, afinal ninguém gosta de sofrer, pelo menos voluntariamente. Mas a verdade é que quando olhamos para trás contemplamos para essas dores com carinho, companheiras silenciosas dos nossos passos, avanços e recuos. 
Não nos deixam saudades, também é outra verdade, mas deixam lições que aprendemos com dificuldade, por vezes com recusa em encara-las, mas acabamos derrotados para um dia vencermos, dizem-nos vozes amigas com palavras que nos acariciam a auto-estima. 
Cada final por mais doloroso que seja, pode significar uma nova oportunidade, mas quantas oportunidades temos? Costuma-se dizer, que podemos ter uma segunda oportunidade, prefiro acreditar que temos todas, todas as que nos surgirem, todas as que construirmos, todas as que estejamos despertos e recetivos para elas. A vida está cheia de oportunidades, estão algures à nossa espera, desencontramo-nos de umas, mas há sempre outras para serem encontradas.
Claro que por vezes nada faz sentido e sentimos o destino perdido. Então paramos, tentamos encontrar o rumo da nossa história. F. Pessoa dizia que “somos autores da nossa história” e cada vida pode, talvez acrescentar; estamos de mão suspensa no tempo à espera de escrever o nosso futuro.
O sol brilha, é bonito, enche-nos de luz e de energia, de sorrisos, de planos para o convite do dia em ser plenamente vivido, sim; mas o sol também queima, magoa-nos a pele, encandeia o olhar. A noite é escura, mesmo nos dias de luar, a escuridão é má conselheira com ela tudo nos parece maior e mais doloroso nada, mas só na escuridão conseguimos ver as estrelas. Porque nada mas mesmo nada é inócuo de bom e de mau, é preciso em cada situação, em cada ferida aberta, encontrar a medida certa, o equilíbrio, a harmonia para a receber, para a curar, para a tornar menos dor e mais, cada vez mais, amor.
E lá volto a “ouvir” as palavras de Pessoa “Pedras do caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo”, tantos castelos que vejo por aí, alguns tão majestosamente erguidos, outros ainda em construção. Quero acreditar que o meu, um dia, terá a dimensão manifesta de tudo o que sou, espero, então, sentir-me grata por cada uma dessas pedras, reconhecendo a sua, talvez dolorosa ajuda, para criar  o caminho que me trouxe até ao que sou.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Sala de espera

Espero, da chamada nem sinal
Muitos outros me fazem companhia
Que na sua conversa banal
Trazem-me tristeza, dão-me alegria.

A campainha do painel, impertinente
Num tilintar que mais parece furioso.
Ou é a mim que irrita o som insistente
Parece correr mas é sempre vagaroso.

Não me chama e eu em espera,
Não vislumbro o grandioso momento
Em que hinos de gloriosa quimera
Poem fim ao meu perpétuo tormento.

Algo começa a gritar-me aos sentidos
Sai daqui, porque não te vais embora?
Vou arranjando uns nãos mal fingidos
Para combater com firmeza a demora.

Tento, a tensão não me deixa ler,
Quem sabe jogar no telemóvel.
Sem o tempo conseguir vencer, 
Torno-me da sala mais um móvel.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Post.it: As manhãs

Que palavras madrugantes me fazem erguer e ver o sol, cumprimentar a chuva, não sei, na verdade não as ouço, mas sinto-as a vibrar em cada célula do meu ser. Então corro, talvez já não tanto quanto corria noutros tempos, também já não tenho razão para isso, a vida espera-me em cada recanto, em cada esquina de uma rua, já não preciso de ir à procura dela. Não tenho mistérios para procurar, nem  curiosidade sobre o amanhã, tenho o hoje e vou vive-lo até ao último segundo da décima segunda badalada.
Instalei-me na rotina, talvez seja errado, mas sabe-me bem, como se fosse um sofá que já conhece cada curva do meu corpo e as contorna, acaricia e aconchega, é difícil sair desta área de conforto, sinto que a mereço, que a conquistei em batalhas ganhas e perdidas. 
Mas no final percebi que nada nem ninguém merece ser-me uma guerra, então sorriu, o sorriso é a única arma letal que agora uso para enfrentar as intempéries humanas, porque o hoje tem de adormecer tranquilo, sem motivos que me impeçam de sonhar, de acreditar que tudo se resolve e que não há dor alguma que valha apena causar ou sentir.
O sol volta a brilhar, a chuva volta a cair, o vento a chegar, a terra a florir e eu, simples pessoa, feliz por te ser anónima deixo-me navegar pela tua curiosidade, um olhar que tem palavras que não quero ouvir. Prefiro o edílico platonismo de cada encontro, e neste jogo de adivinhas, idealizo-te em voos de asas estendidas que desenham no céu hieróglifos modelares do coração. 
Sim porque só ele, o coração, consegue murmurar com voz de cânticos estivais, as palavras madrugantes que nos fazem acordar e continuar a sonhar deslumbrantes realidades.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Post.it: As visitas

Este fim de semana estive com os meus primos, há quanto tempo não nos encontrávamos? Há muitos. Não questiono as razões, já há muito que saí da idade dos porquês, prefiro aproveitar o momento presente sem questionar o passado. Claro que há culpas que nos ficam desse silêncio que o tempo no seu passar causou. 
Mas quando há amizade, afecto, o tempo não cria distância, talvez pelo contrário, as saudades tornam-se beijos e abraços repetidos e as novidades boas são muitas, as más, felizmente poucas.
Uma priminha casou, já tem um filho com quase um ano, lembro-me dela, era ainda uma menina. A outra já vai no segundo filho, é lindo loiro com cara de anjo e sorriso traquinas. 
Os pais vão envelhecendo, a doença torna-se uma presença quase constante, entristece-me, entristece-nos, tanta alegria, jovialidade de repente roubada pela violência da falta de saúde. A morte, sim também a morte foi notícia, uma notícia má, a pior, recente, sobretudo para quem a recebe inesperadamente.
A prima Conceição, partiu há 7 meses. Lembro-me dela, era a “festa” em pessoa. Enchia uma casa, a sua onde eu entrava e era recebida com “desaforos” algarvios, mas eram de alegria. Na minha casa onde vinha de quando em quando de repente havia uma luz mais luminosa, uma musicalidade de vozes.
Na casa da sua irmã em Sesimbra, aí então, eramos muitos na mesa comprida, mas nada parecia longe, e todos estávamos em harmonia familiar. 
Partiu, não, ficou! As pessoas que nos alegraram, que amamos, que nos amaram, ficam para sempre num recanto de nós. 
O seu marido parece uma vela apagada, caminha triste, devagarf, como quem não tem rumo, “faz-me falta”, foram quase 50 anos de casamento, quase porque faleceu um dia antes de os completar. 
Olho para os meus primos, vejo como estão, lembro-me de como eram, não se trata de alterações no corpo, na face nem os cabelos mais brancos ou a rarear, trata-se do brilho do olhar que lhes fugiu, trata-se do sorriso que empalideceu.
Então concluo, não importa no que nos tornamos, mas o que vivemos, isso permanece em nós. Permanece neles, apesar dos pesares, vejo-o no meu primo Zé Maria, que me ensinou a dançar quando eu tinha 10 anos, tinha vindo da praia com  um escaldão nas costas e nem a sua mão a tocar na pele queimada me doeu  tal era a sua delicadeza, tal era a minha alegria por estar a “dançar” porque realmente sempre fui um pouco “pés de chumbo”, de tão trapalhona, mas ele ria e pacientemente, ensinava-me. Apesar de ter sido um bom professor, confesso, não fui boa aluna.
Gostei de ver os meus primos, mesmo com as partidas, há sempre as novas chegadas para tentar compensar. É o ciclo da vida e aprendizagem que cada um faz dela, aprendi, continuo a aprender. 
A vida é para ser vivida ao longo do seu caminho, pode ser uma boa companhia depende de muitos factores, inclusive da forma como caminhamos também com ela.


sexta-feira, 24 de março de 2017

Verdades

Dantes fingia-se,
Gostava-se de toda a gente.
Dantes fingia-se,
E viva-se assim contente.

Hoje é-se verdadeiro,
Fria realidade.
Hoje é-se inteiro,
E vive-se sem amizade.

Porque a verdade,
É pico de roseiral.
Pétala de sinceridade,
Haste que nos faz mal.

Dizem é mau fingir,
Mas é bom sorrir.
Mesmo que a fingir,
Ou até sem sentir.

Um sorriso é abraço,
Um sorriso é solidariedade.
Encurta-nos o espaço,
Confere-nos humanidade.

Troca-se tudo pela ilusão,
Em nome da sinceridade,
Que parece dar ao coração,
Incerta e aparente liberdade.


segunda-feira, 20 de março de 2017

Post-it: Bem vinda Primavera

Todos os anos me surpreende a chegada da Primavera, pela gentileza das suas flores, pelo aroma da terra, pela luz do seu céu, pela festa dos pardais, pelo voo celebrante das andorinhas. Tudo isto e muito mais no oferece esta estação do ano, depois de um inverno fustigante e frio, depois da nossa pegada humana pisar com indiferença cada flor em luta para sobreviver às intempéries, à poluição e à inundação do betão citadino.
A Primavera com a sua vontade de florir, de renascer espreita primeiro sorrateira, depois, quando damos conta, está em cada recanto, até mesmo naqueles em que nos parece impossível aparecer. Deslumbra no seu colorido, com tons que os mais famosos pintores tentaram reter na tela sem o conseguir na sua totalidade, porque a natureza tem tonalidades inigualáveis. Tem formas únicas, aromas ímpares, suavidades próprias.
A primavera que também nos acontece quando o coração descongela do frio emocional. Quando o olhar se enche de cores de esperança, quando aqui e ali nos renascem sonhos floridos, quando os pulmões inspiram aromas já esquecidos.
“Todos os verões hão-de arrefecer nos ventos marítimos, todos os Outonos hão-de partir nas folhas amarelas, todos os  Invernos hão-de ser apenas o caminho para a Primavera sorrir”.
E mesmo “Que o inverno me cubra a cabeça a eterna Primavera vive no meu coração”.
Por isso, “Não me falem do aproximar da velhice, mas apenas de Primaveras antigas”.


sexta-feira, 17 de março de 2017

Post.it: Sabe-me bem ler-te

Gosto de te ler, mesmo que sejam apenas umas poucas linhas, umas poucas frases, algumas poucas, palavras. Leio-te, releio-te. Encontro as tonalidades da escrita, os diferentes sons que parecem mudar, enriquecer-se a cada leitura.
Ouço-lhe risos, sinto-lhe abraços. Por vezes até lhe encontro uma lágrima caída na perna de uma letra que discretamente se aninha na outra, como se se quisesse esconder, uma pequena gota de água, incauta, e fugidia, mas que se revela na sua timidez envergonhada.
 Olho-a, sinto-a, quase, apenas quase que a recebo nas minhas mãos, com o carinho de quem percebe e compartilha de tal mágoa.
Mas nesse momento, também eu escondo na mais displicente vírgula, quem sabe escorregue e se afogue na branca folha, já não de papel.
Estamos noutra era, dizem os entendidos, que assim seja, pouco importa se os tempos mudam desde que os sentimentos continuem a aflorar com melancólica alegria, com melódica tristeza, é isso que nos define humanos, verdadeiros no sentir mesmo que escondido, disfarçado nos espaços entre linhas, encoberto na ténue união das letras, camuflado no sentido das palavras.
Por isso, gosto de te ler, de te encontrar, em cada linha pintada de sentidos furtivos, de devaneios ocultos, de sonhos secretos.
Gosto de te ler, mesmo quando as palavras demoram, é sempre com alegria da chegada que te recebo. É suave a dor da espera, a ansiedade pela antecipação de algo bom que vamos receber. Pode ser uma missiva curta, um diálogo sem grande conteúdo, mas que importam os grandes lirismos repletos de artificiais sentidos? Basta um olá, de letras pequenas, redondas, carregadas de amizade, carinho, ou apenas de atenção, respeito, admiração. Olá, respondo, Olá? Pergunto, como estás, quero que estejas, onde estiveres, estejas muito bem.
Aí a minha imaginação, aí o meu incongruente coração. Fantasias da solidão? Talvez, quem sabe. 
Só sei dizer que me sabe bem, ler-te…

segunda-feira, 13 de março de 2017

Post.it: As nossas nuvens cinzentas

Ainda o inverno mal se acomodou sobre a terra ainda ávida das suas águas, já primavera ressoa nas vozes que a esperam com braços de abraços de flores e andorinhas. É o tempo  a voar-nos num sopro de vida, e nós incautos sonhadores de pensamentos ao vento, deixamos que nos roubem momentos em que queremos apenas aprecia-los,  senti-los, vivê-los como se tudo parasse e nada tivesse pressa de chegar a algum lugar por longe que seja, por necessário que fosse lá estar em breve.
Assusta-me a primavera, este cheiro respirante de flores que começam a exalar e ainda são apenas botões que não se adivinha a espécie colorida que vai emergir.
Em breve será verão, os sorriso das crianças que se lhes desenha no rosto, fala de férias, de manhãs tardias, de noites longas,  mergulhos na praia, as corridas na areia, anseiam por despir as camadas de roupa e libertar a pele do jugo do frio.
De repente, abraço-me à camisola felpuda, mergulho no quente dos cobertores e sonho que o tempo é a infinitude da vontade de cada um e eu quero, que o inverno seja lento e aconchegante no seu passar, não tenha pressa em regar as flores, em soprar para longe as nuvens e o nevoeiro que nos acalenta.
Sim bem sei que cada estação vem na sua data, que tudo acontece no tempo certo indiferente ao nosso tempo, mas gosto, acreditem que gosto do inverno. Essa estação do ano incompreendida, mal amada, mal resolvida por sentimentos sombrios. Porque quem tem luz no olhar, não são as nuvens cinzentas que vão escurecer o seu céu de esperanças esvoaçantes, de sonhos cantantes.
Não culpem o inverno das vossas dores, da vossa tristeza, quando são vocês, apenas vocês que são tristes.
Afinal não é o verão que os vai animar, que vai curar as vidas magoadas, queixam-se do calor, que sufocam, anseiam por ventos e marés, pelo assentar da poeira das estradas e dos passos cansados.
O tempo, leva sempre com as culpas, as nossas culpas, porque nos foge, porque não nos leva no seu voo em direcção ao infinito. Prossegue a sua marcha sem que consigamos calçar os seus sapatos.


sexta-feira, 10 de março de 2017

Soneto do desencanto

Era a cidade,
Era o sol.
Era a saudade,
Era um rouxinol.

Era a praia,
A onda quebrada.
O vento na saia,
O cheiro a madrugada.

Era o horizonte,
Era tudo tão longe,
Que se tornou ponte,

Para unir o nosso recanto.
Era o amanhã, era o hoje, 
Mas só ficou o desencanto.