sexta-feira, 15 de julho de 2016


Nem flor nem fruto

Se o coração fosse uma flor
Iria planta-la num jardim.
Onde quem sabe, o amor,
Ao passar olhasse para mim.

Mas nem flor, nem fruto,
Nem aroma perfumado.
Apenas um querer de luto,
E um sentir abandonado.

A Primavera o faz renascer,
O verão e paixão aquecer.
Ai outono que ao esmorecer,
Fá-lo no inverno perecer.

Mas o sol, o vento, o mar,
O verde, o azul, o infinito.
São asas que fingem voar,
E de novo, no voo acredito.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Ser do litoral

Ser daqui, do litoral,
Marca-nos o corpo e a alma.
É trazer nos lábios o sal,
Deste mar que nos acalma.

E no ventre vento e espuma,
De ondas que nos vão deslizar.
Por suaves céus desta bruma,
Que o sol leva ao madrugar.

A saudade ao nos delinear,
São abraços para o horizonte.
São águas deste navegar,
Que nos leva para tão longe.

Um longe aqui sempre perto,
No contorno desta velha costa.
Cais de espera, olhar inquieto, 
Por vezes sorri, outras desgosta.


sexta-feira, 8 de julho de 2016

Post.it: Trapos

Como somos, como nos vêem, a consonância, a discrepância. Apenas o olhar. Um olhar que nos adora, que nos odeia. Porque lhes somos semelhantes, porque lhes somos antagónicos.
Apenas o olhar, mas que nos aproximas, que nos afasta.
São panos, são cores. Usados mais acima, mais abaixo. Em desalinho que para quem usa parece alinhado.
Há quem diga que o que usamos nos define, nos revela o carácter, “diz-me o que vestes, dir-te-ei quem és”. Ou talvez não. Talvez te enganes, visto de preto mas não tenho a alma negra. Visto de vermelho e na verdade apesar do meu ar de festa, sinto-me triste. Por vezes, na maior parte das vezes (confesso) quero apenas ser aceite. Não é isso que significa andar na moda? Se gosto, bom no início, não. Mas depois de tantas vezes me cruzar com o mesmo modelito, o olhar acaba por ficar “conquistado”. Mas passado um tempo, canso-me, e começo a ver o mesmo por todo o lado e esse “mais do mesmo”, em vez de me seduzir, cansa-me.
Está na hora de mudar, de seguir outra moda. Quem sabe as calças subam, quem sabe as bainhas das saias desçam. Quem sabe se cubram as pernas e se tape o rabo, já cansa andar a ver cuecas, mesmo que seja de marca (compradas na loja do chinês).
Mas tudo isto são apenas “trapos”. Alguns com aspecto de velhos de tão rasgados, de tão corroídos, “nem para panos de chão os queria”, já dizia a minha avó. Mas que custam uma “pipa de massa”. Porque têm uma marca na etiqueta, porque são da loja mais “in” do momento. Mas a verdade dão um ar completamente “out”.
Mas o que importa para uns é estar  “cool”. Para outros o que importa é sentirmo-nos “cool”, mesmo que nos digam o contrário, que nos olhem com desdém, estamos bem connosco e é connosco que temos que viver, adormecer, acordar, crescer e aprender. Sem cair em narcisismos, em ou exacerbadas vaidades.
Bom seria que nos vissem para além das aparências, que chegassem mais perto, que não cedessem à tendência de criar inibidores rótulos. Que nos tocassem, humanos e não bonecos produzidos por uma sociedade de consumo imediato. E depois, que nós, fossemos nós, sem seguir modas só porque “sim”. Afinal, não precisamos de chocar, de conquistar, de chamar  a atenção, de sermos aceites. Precisamos unicamente de nos sentirmos bem na nossa pele, nos nossos trapos. Porque as modas mudam, nós permanecemos.


terça-feira, 5 de julho de 2016

Post.it: Apenas esse pouco

Não é o muito que nos preenche e sacia, mas o saborear de cada sensação, de cada momento.
Será que isto vos diz algo? Gostava que sim, que já tivessem sentido este sentimento, esta tranquilidade que os torna quando em nós vividos, verdade.
Fazer anos, somar aniversários, festas lembradas ou esquecidas, não é isto que nos torna melhores, mais sábios. Quando muito torna-nos menos “surdos” ao que nos rodeia, ao que é realmente importante.
E o importante, descobrimos um dia, é a tranquilidade com que vivemos cada dia, sem questionar o seguinte. Cada degrau daquela velha escada que já subimos e descemos tantas e tantas vezes, hoje cansa-nos mais, é verdade, mas vejamos pelo lado positivo, obriga-nos a subir de forma pausada, apreciando a paisagem e a descer admirando o horizonte.
Vamos perdendo… mas também ganhando… sobretudo vamos adaptando-nos, ao fim de algum tempo já sem queixumes e até, quem sabe, achando graça, à “desgraça” que é deixar de ser como eramos há 20 anos, mesmo quando nessa altura já tínhamos mais de 20 anos de existência.
A memória, essa leal mas também traiçoeira amiga, que um dia nos contará outras histórias, sobretudo as mais belas. Não sei se mais belas porque o tempo lhes conferiu encanto ou se foram realmente inesquecíveis. Muitas, poucas, que importância isso pode ter, quando se tem o suficiente e esse suficiente nos basta para sermos felizes
Vai-se-nos enevoando a visão, ela que nos encheu o olhar de tantas aventuras e tantos deslumbres, fechando os olhos, passamos a ver cada vez mais com o coração.
Também as forças vão diminuindo, já não erguem os filhos, quase que nem os netos, mas que ainda amparam e sobretudo acarinham com mais doçura.
E todos os anos, em que buscamos nas amizades uma harmoniosa companhia, descobrimos a melhor, paciente, silenciosa,  que esteve sempre connosco, a nossa.
Afinal não precisamos de conquistar o mundo, apenas necessitamos do nosso mundo.


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Post.it: Escrever nas linhas da vida

Às vezes escrevemos o que a memória nos permite, o que a fantasia nos possibilita, o que a vontade de alcançar nos faculta. Mas são sempre histórias, as nossas, as dos outros e as daqueles que passam por nós e deixam uma qualquer inspiração.
 Nem tudo é verdade, nem tudo é mentira, depende de quem lê, a tornar a sua verdade ou a sua mentira ou apenas fantasia. “Lemos porque buscamos na leitura a história que não vivemos”. Lemos porque precisamos de sonhar ou por vezes de acordar.
Lemos para voar e cada página é uma asa aberta ao horizonte de infinitos. Lemos porque necessitamos de aterrar, de encontrar portos de abrigo para vencer as nossas tempestades.
Os livros nada mais são do que pedacinhos de nós. “A minha estante está cheia de gente”. E essa gente que tenho por amigos, fieis, companheiros, sempre presentes, quando, de repente, o silêncio enchesse de vozes, de palavras, de pensamentos.
Deitada no sofá, corro por cada página atrás de cada frase, que mais parece um comboio em permanente viagem. Cada momento empolgante, rouba-me o ar, o olhar fica em suspenso, preciso parar, preciso de retomar a história, percorrer o fio desses intrincados meandros.
Sofro, como sofro pelo sofrer de cada personagem. Apetecia-me rasgar aquela página, rescreve-la, dar-lhe um destino melhor.
Porque se na vida real não temos essa possibilidade na literatura “o céu é o limite”. Mas isso é roubar as palavras ao autor, furtar-lhe os pensamentos, distorcer-lhe os sentimentos, usurpar-lhe a intenção, invadir-lhe o coração e tornar nosso o que não nos pertence, mesmo que o tenhamos comprado, que esteja na nossa estante.
Nessa estante onde esteve toda uma vida quando por um qualquer acaso resolvemos folheá-lo e agora, agora estamos armados em críticos da sua inspiração. 
Que vaidade a nossa! Querermos rescrever uma obra editada, quando nem sequer conseguimos passar da escrita ingénua que desenhamos nas primeiras linhas da nossa vida…

quarta-feira, 29 de junho de 2016

S. Pedro

S. Pedro em final de festa te espero,
Santo que és da minha afeição.
Com o sentir quase em desespero
Para que me correspondam ao coração.

Santo António por aqui  passou,
Não atendendo ao nosso pedido.
São João na festa muito brincou,
Mas dos pedidos ficou esquecido.

Resta S. Pedro que lá do céu,
Olhe para a terra e nos sorria.
Para o festim que o povo lhe deu,
Nos ofereça a nossa maior alegria.

A dívida nacional quase a se extinguir,
Todos os impostos por fim a baixar.
Um emprego para todos a surgir,
E a conta bancária a aumentar.

Porque o amor e uma cabana,
Já não ilumina nem o alto luar.
Já que esta pobreza franciscana,
Nos tira o sono e rouba o sonhar.


sexta-feira, 24 de junho de 2016

Festa de S. João

S. João vem de martelinho na mão,
Recebo-o alegre e sem temor.
Porque sei que no meu coração,
Ele só vai tocar com uma flor.

É santo, quer para todos o melhor,
Que todos os anos a nossa devoção.
Lhe dedique uma festa cheia de cor,
Para que ele nunca responda não.

Aos pedidos dos seus foliões,
Que só lhe pedem a felicidade.
E lhe iluminam coloridos balões,
Repletos de ar, luz e saudade.

Este ano a festa está a acabar,
A fogueira na rua já se apagou.
Mas dentro do peito o sonhar,
Planeia a que ainda não chegou.


segunda-feira, 20 de junho de 2016

Post.it: Os jacarandás floriram

Já floriram os jacarandás, era sempre nesta época, perto do seu aniversário. Surgiam como uma prenda, como um sorriso florido de quem vem para uma festa e em festa porque o festejado é ele próprio essa alegria, oferecida, partilhada.
“Já floriram os jacarandás!” Repetia todos os anos como se fosse uma bênção da natureza, uma dádiva da vida. Eram o cumprimento de um ciclo, que de alguma forma nos modela a forma de sentir em cada estação do ano. A sua floração, anuncia o fim da primavera, o início dos dias longos e quentes de verão.
O ano passado os jacarandás floriram, errantes na nossa dor da sua partida, pensámos, é a última vez que os jacarandás vão florir. Contudo, passado um ano, a primavera desabrochou um jardim de flores sobre a paisagem, as árvores vestiram-se de verde, as andorinhas cantaram e dançaram a sua peculiar melodia, mas os jacarandás permaneciam despidos de cor.
Sim, era verdade, com ela partiu também a última flor do jacarandá da rua onde morava, das ruas onde passava, de todas as outras por onde passamos nós, mergulhados em pensamentos de solidão, em sentimentos de saudade. Até que uma flor me cai aos pés, reconheço-a de imediato, uma flor de jacarandá, murmuro surpreendida. Caiu-me a meus pés, como se me chamasse, como se quisesse ser olhada, contemplada, recebida e eu, confusa, atordoada com esta repentina chegada, olho-a por entre lágrimas contidas de um ano de ausência, de uma amiga, mas também de uma flor que ela apreciava, e que passou a ser um laço estreito de lembrança.
Mesmo depois da sua repentina partida os jacarandás continuaram a florir, recebo esta “prenda” da natureza com alguma mágoa, por estranho egoísmo, queria que também os jacarandás sentissem a sua falta e não mais florissem. 
Mas, floriram, ainda bem que floriram, porque isso significa renovação e nos faz recordar essa amiga e desejar assim que as jacarandás floresçam todos os anos para dar a cada flor o seu nome e à nossa saudade uma presença constante sempre que o olharmos florido vendo nele eternizado o seu sorriso e a sua voz quando dizia “olhem, os jacarandás já floriram!”.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

post.it: Ser como tu

Quem me dera ser como tu, penso nisto desde que te conheço, como tu a quem tudo acontece, tudo o que te poderia roubar a felicidade, apagar o sorriso, afogar o olhar, mas não, tudo te ergue mais forte, mais serena. Como se cada tempestade, fosse apenas o caminho impulsivo para chegar mais longe. E chegas, chegas sempre, com a mesma e sempre renovada placidez.
 Invejo-te, e temo a minha inveja, não quero ter semelhante destino, mas ambiciono por similar coragem. Onde, pergunto-me, pergunto-te, onde vais buscar tanto ânimo, tamanha bravura, para arregaçar as mangas e revelar uns braços sem músculos, com nódoas negras, que não doem, “já não doem”, mas contam histórias, “foi quando evitei a queda de alguém que me é muito querido”. Foram dores, que nem chegaram a doer, porque evitaram outras maiores.
Como consegues, recomeçar cada manhã? Adormecer em cada noite?
“Sendo mais forte que a minha maior desculpa”
E os anos, sim os anos, que levam anos a passar, pesados, demasiado para tão fraca estrutura humana, como consegues trazê-los a cada hoje, sem formares rios, sem te afogares nos teus mares?
"Aprende-se, aprende-se tudo, até a condensar numa só gota, todas as lágrimas do oceano".
Não lhe pergunto mais nada, embora, queira ainda, tudo aprender. 
Quem me dera ser como tu, dar valor às coisas pequenas e boas,  desvalorizando as grandes e difíceis de superar.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Parabéns

                                         Parabéns
            Quando a vida presenteia com a capacidade de sorrir,
                        E a vontade de partilhar o seu sentir.
                                         Parabéns
                          Quando se tem esse abraço de amizade,
                          Que nos preenche de renovada felicidade.
                                                                                                         Parabéns
                                      Por todos e muitos belos anos,
                                     Em que se tem sonhos e planos.
                                             Parabéns
                                      Por se fazer da vida uma missão,
                                    Que nos enche de carinho o coração.
                                          Parabéns
                          Pelo seu momento festivo de aniversário,
                       Por escrever com tinta de esperança um diário,
                         Que sem segredos se lê nas linhas do universo,
                          Para que a si conflua todo o amor disperso.



quinta-feira, 9 de junho de 2016

Festa de Santo António

Santo António virá molhado,
Neste ano tão chuvoso?
Chegará talvez afogado,
Em pedidos de amor formoso.

Não sei se os manjericos,
Resistiram a tanta água.
Ou se ficaram mais ricos,
Perfumadas rimas sem mágoa.

Mesmo se o sol não brilhar,
E o cravo de papel se molhar.
Santo António há de chegar,
E fazer de cada coração seu lar.

Afinal Lisboa é sempre bela,
Isso o revela em cada esquina.
Quando ao Tejo abre a janela,
Com o seu sorriso de menina.

A sardinha já está na brasa,
E os balões dançando no ar.
Lisboa entra em cada casa,
Com uma marcha a cantar.

Lá vai a nossa Lisboa,
Com o seu ar namoradeiro.
Esquecida do que a magoa, 
Procura um amor verdadeiro.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Post.it: Apenas pessoa

Cada pessoa é apenas uma pessoa. Não temos o direito de a escrever, de a desenhar, de querer que seja tal como a vemos, tal como a sentimos.

Cada pessoa é apenas uma pessoa, temos, talvez o direito de a sonhar e de por momentos, nesse sonho acreditar.
Depois, temos de acordar e deixar o sonho voar. Porque cada pessoa que amamos, não era ela, éramos nós, que estávamos cheios de amor para oferecer.
Cada pessoa que abraçamos não era ela, éramos nós, cheios de carinho para partilhar. Cada pessoa para quem sorrimos, não era ela, éramos nós cheios de alegria para dar.
Cada pessoa que nos fez chorar, não era ela, éramos nós, cheios de tristeza que já não podíamos no coração conter.
Podemos-lhe chamar pessoa amada, porque a amamos. Amiga, porque lhe damos a nossa amizade. Companheira,  porque a acompanhamos.
Mas cada pessoa é apenas uma pessoa, que fica, enquanto ficar. Que parte, quando tem de partir.
Porém, entre a chegada e a partida, fica a gratidão, o reconhecimento do que nos foi, na forma como nos melhorou, talvez não por ela, mas por nós que assim fomos, que assim sentimos. 
Cada pessoa é apenas uma pessoa e nós que olhamos para ela, vimos, na verdade, não o que ela é mas o que nós através dela somos.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Post.it: Aquele mês, aquele dia...

Cada pessoa tem o seu mês, o seu dia de “pavor”, de uma, cada vez mais velha, dor. Que se distancia, mas fica cravada algures no corpo como se nos fosse uma tatuagem invisível, pelo menos aos olhos dos outros. E é essa invisibilidade aparente que nos faz sobreviver a cada caos que nos atinge, que nos marca, restando uma sensação de sobrevivência, de quase, mas apenas quase felicidade, por a superarmos.
Mas hoje, quando olham para nós não percebem, aquilo que já fomos, o que já sentimos, as mágoas, o rio de águas que secamos no peito.
Levamos o ano inteiro a esquecer, há momentos que chegamos a acreditar que o conseguimos, que já passou e que nada, absolutamente nada dessa memória restou, apenas, quiçá, a data. Como um fantasma que de vez em quando ainda nos vem assombrar o sono, os sonhos.
No entanto, quando a proximidade se começa a fazer sentir, a angústia acentua-se, uma recordação eleva-se e entristece-nos, talvez menos, do que no ano passado, pensamos, porque na verdade, assim queremos supor. Mas será que é o que acontece em nós, no turbilhão das nossas emoções?
Afastamos os ventos da desgraça, queremos, precisamos, de sorrir. De contemplar cada dia e nele encontrar o brilho solar do nosso olhar. Afinal, neste ano aquele mês, aquele dia, já passou, no próximo estaremos melhor e a data, a terrível e temível marca da vida ter-se-á esbatido na nossa lembrança substituída cada vez mais pela crescente esperança de que realmente assim seja. 
Para outros, alguns,  ainda se aproxima esse mês, esse dia, que lembra o final de algo, ou o princípio de tudo: uma morte, uma doença, um acidente, um divórcio, uma catástrofe, uma tragédia, uma perda irrecuperável, um desencontro, outras, tantas e dolorosas vivências, histórias que ficam para sempre dentro da nossa história. 
Até que um dia, acredito que esse dia chegue, possamos aproximar-nos desse mês sem medo, sem revolta. Que o dia venha e passe com a mesma leveza de todos os outros dias. 
E quem sabe, em algumas situações, tenhamos, até vontade de o celebrar porque foi o percursor da mudança, significou apenas o fim do que tinha de acabar e o começo de algo que nos fortaleceu e conduziu a um futuro mais radiante.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Sem lar

Por caminhos incertos,
Com letras errantes.
Escrevo longos desertos,
De areais deslizantes.

Já que os passos insistem,
Em descobrir a direção.
Dos sonhos que persistem,
Em afastar a solidão.

Destas constantes ondas,
Destes mares de fantasia.
Que se tornam delongas,

Deste eterno navegar.
Na velha companhia,
Deste coração sem lar.


terça-feira, 24 de maio de 2016

Post.it: Quem não me deu amor

O amor pode estar tão perto e afinal, por vezes tão longe, uma distância que não é mensurável em metros, em quilómetros, mas em gestos, os que recebemos, os que damos, os que nos negam e que nos deixam repletos de ausências.
Medem-se também pelas palavras e por vezes, demasiadas, pelos silêncios.
Contudo, são tudo o que é nosso, por herança familiar, por amizade. São as nossas asas, quando nos deixam voar. São as nossas âncoras, quando nos transmitem segurança. São a possibilidade de crescermos,  de aprendermos, de sermos quem realmente somos.
Uma herança que não se recebe só quando alguém perece, é uma herança de genes,  mas também da partilha dos tesouros do seu coração.
 É certo que nem sempre nos trazem alegria, por vezes há mágoas à mistura, faz tudo parte dessa cada passagem de testemunho, das escolhas, de cada viagem, do enraizamento, de estar aqui com o olhar lá mas ficar. Um ficar que nem sempre sabemos a razão dessa força anímica que nos impele a agir, um dever moral, uma consciência,  que nos entra mesmo pela porta fechada e nós, cumprimos, respeitamos. 
Devia ser por amor, por vontade, por querer, devia ser natural, espontâneo, afinal, somos o fruto dessa árvore. Mas a verdade é que “quem não me deu amor, não me deu nada” (Ruy Cinatti), e esse nada é por vezes a nossa herança, aquela com que temos de viver. 
Se nos sobrar coragem e não nos faltar o carácter, vamos engrandecer, fazer do pó montanhas, transformar a indiferença em diferença e a distância repleta de gestos, ou palavras para que cresçam em tesouros passiveis de ser partilhados. Até que um dia seja o amor a herança que todos nós recebemos como a mais preciosa ao longo da vida.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Post.it: Os livros

Quem lê o que escrevemos, lê mais do que letras à solta, lê mais do que linhas alinhadas, mais do que palavras, ideias, mensagens, emoções.
Na verdade quem lê não lê, embora o acredite, não o que está escrito mas quem o escreveu. Porque em cada acto de leitura somos nós que somos lidos por vocês leitores que nos “escrevem” com as vossas expectativas, com as vossas angústias. E depois, quantas vezes, muitas, deitam-nos fora, apagam-nos, riscam-nos, atiram-nos à parede, deixam-nos abandonados numa estante cada vez mais lá para o fundo, para o lugar do esquecimento.
 E porquê? Porque não leram em nós aquele abraço, aquele aconchego, a palavra amiga, o sonho que queriam concretizar no sonho.
Não encontraram em página alguma a compreensão, o apoio, a ternura que buscavam. Leram cada letra, cada silaba, cada frase ávidos de esperança, de que nós tenhamos escrito que estávamos lá para vós.
Depois de tantas horas, de tantas noites de insónia, de meses perdidos, desistem da leitura, com amargura, dor e no sarcasmo onde escondem a decepção,  esboçam um sorriso e pronunciam triunfantes a sentença “este livro não presta!” Condenado ao lixo por anos infinitos de segregação na estante dos fundos.
Mas, que culpa tem quem escreve da descoberta falhada do seu leitor. Dessa aventura de encontro consigo que não aconteceu. Da mal sucedida decifração do seu eu na evocação da sua história, no mergulho profundo e afogante na sua desconsolada memória.
Não nos culpem da vossa desventura. Olhem para nós, olhem por nós, saibam que “Os livros também têm memória e não esquecem!”. Acreditem nas suas palavras, sintam-nas latejantes de emoção,  “quando lidos profundamente eles estão incrivelmente vivos”.
Todos os livros são infinitos. Começam no texto e estendem-se pelo coração.


sexta-feira, 13 de maio de 2016

Post.it: Saudade

“Saudade é um sentimento que quando não cabe no peito escorre pelos olhos”
Um dia li esta frase, e guardei-a algures na memória, algures no peito. Um dia encontrei-a no olhar de alguém e em vez de chorar com ela, ri-me, senti-me feliz por ela. 
Afinal chorava por toda felicidade que já conhecera e não por estar triste, nem por mágoa ou revolta. De repente, não partilhámos lágrimas mas a leveza do riso. 
Contou-me a sua história e eu guardei-a comigo, como quem guarda um amigo. Revelou-me cada saudade que lhe inundara o peito e transbordara pelos olhos, e eu ouvi em  quase invejoso silêncio. 
O sol já se tinha deitado, a lua já espreitava, céu já se cobria com um manto sonolento, a primeira estrela cintilava qual menina traquina ansiosa por ir brincar e, eu escutava. Escutava cada gota da água que lhe caia dos olhos em notas de melodiosa sinfonia de sentimentos, aqui e ali mais esvoaçantes, aqui e ali mais pesarosos. 
O que me prendeu não foi a sua história mas a forma como foi contada, a vontade de ser mundo e a humildade de se sentir apenas um grão de mostarda. Nesse aparentemente nada que no entanto torna o tudo mais completo. 
Enquanto falava sorria, sorria sempre como se cada momento tivesse sido belo, quase sublime. Não me contive, impetuosa, descrente, perguntei-lhe… “- Mas foi sempre feliz, de tudo guarda saudade?”.
 “– Sim sempre fui feliz e a saudade é a maior prova de que o passado valeu a pena”.


segunda-feira, 9 de maio de 2016

Post.it: imPossível

Enquanto o difícil não for impossível nunca hei-de desistir, de tentar, mesmo sem conseguir. Quem sabe, um dia, mesmo que nunca. Há quem diga que “mais do que conseguir o importante é tentar”.
É isso que nos define, que nos revela o carácter. Esse carácter que “custa caro, mas também há quem diga “pago o preço”. Por algo cada vez mais “raro” e porque de bom carácter “padeço”.
Doença que quero incurável, que chega a ser-me dolorosa e até “dispendiosa”, porque perco, não dinheiro, mas “amigos”. Esses que não “padecendo” da mesma maleita. Vivem de vida aparentemente escorreita, mais torta que direita. Felizes, há sua maneira. Contentes ou ocultando o seu descontentamento. Desistiram de ultrapassar o difícil sentindo-o como impossível. Vestem a camisola de um clube “vencedor” que vence tudo, talvez até “vença a dor” desse conflito moral, desse grito de consciência, silenciado com a prática dos anos.
Mas que fazer, se o fingimento não me preenche, se a felicidade aparente não me satisfaz? Continuar na senda do que sou, no agreste caminho por onde vou e se for só, que assim seja, vou apreciar a minha companhia. É tudo uma questão de escolha, de se querer, o difícil, talvez, nunca se torne fácil, mas o sabor de o cumprir torna-nos mais leves, mais completos, em harmonia connosco.
Para quê, se tudo passa, sim é verdade. Mas fica, fica esse instante, esse dia, o tempo em que estamos aqui. O que fica, somos nós, nas pegadas, nos traços de um sorriso que causamos, nas sombras e luminosidades do caminho, nos gestos, nas palavras, no que demos, no que de nós demos. Nesse instante, o impossível concretiza-se e o difícil, se o era,  deixou de o ser…

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Poetando

Olho a pedra e não vejo pedra,
Olho a queda e não vejo mágoa.
Olho a morte e não vejo guerra,
Olho o mar e não vejo a água.

Porque tenho nos olhos amor,
E os sentidos esvoaçantes.
Da primavera só vejo a flor,
E do futuro sonhos navegantes.

São os olhos do coração,
A sentir para além do ver.
E os pés sem tocar o chão,
E o sorriso a falar sem o dizer.

A vida mesmo quando ferida,
Tem uma felicidade só sua.
Que deixa a dor esquecida,
E os pensamentos na lua.


terça-feira, 3 de maio de 2016

Post.it: Navegando

Somos um mar ondulante de emoções. Temos rios a correr-nos nas veias cansadas de nos navegar.  Contemos um lago onde os pensamentos vêm por vezes descansar. Mas de vez em quando há um cais que nos abriga das eternas viagens em ondas desconhecidas de sol e de paixão.
Afinal, vivemos em busca de nós, em busca de um chão, terra firme onde repousar a vida tão rapidamente vivida. Em itinerários de velozes alterações, metamorfoses do ser, do crescer, do amadurecer. E isso acontece-nos mesmo quando julgamos que estamos parados em algum porto de abrigo, tempo breve de tranquilidade, porque a qualquer inesperado momento somos atirados para o meio do oceano, onde uma tempestade nos impele a prosseguir por entre vagas que nos levam aos de cumes e aos baixios, afogando-nos e erguendo-nos como se fossemos uma jangada de pedra em súbito desespero por um farol que nos ilumine a escuridão de cada dia.
Sonhamos com macias dunas onde pousar a cabeça, ansiamos por uma brisa que nos leve a magoada memória desse mar, desse sal doendo no corpo.
 Enquanto o horizonte se estende para lá do nosso querer, dizendo que é longo o caminho, num convite, num desafio, enquanto cada braço estendido se depara com o limite de uma margem, que não sei se nos abraça, não sei se nos oprime.
Por vezes visualizamos pontes, quase parece fácil atravessa-las quando acreditamos que do outro lado há uma chegada festejada, mas é difícil encontrar o passo quando nos habituámos a mergulhar sem vir à superfície. 
 Quando nos esquecemos de respirar e morre-nos nos alvéolos pulmonares o oxigénio da última esperança. Quando na crista da onda, ela não é celebrante mas desenraizante da fé, do alento desse lugar para onde queremos ir. Talvez, porque esse lugar na realidade nos seja apenas uma ilha de fantasia, e entre nós e os oceanos somente exista o reflexo silencioso das noturnas estrelas.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Post.it: Sempre que houver amanhã

Nem sempre é esquecimento, mas sim um adiamento, é verdade que por vezes, infinito. Mas está lá, algures em nós, na promessa que fazemos aos outros e que nos repetimos. Porque não cumprimos? Cumprimos, a verdade é que cumprimos sempre, um dia, naquele dia, inadiável em que nada, mas mesmo nada nos impede de o cumprir. Antes que seja tarde, às vezes tarde demais para chegarmos e nos unirmos naquele abraço que sentimos vontade de dar e necessidade afectuosa de receber.
Contamos com ele, firme, apertado, caloroso, que nos ampara, mesmo quando só queremos amparar o outro. Continuamos a arruma-lo nas margens do tempo como se o tempo nos fosse eterno.
Sabemos que o sentimento é inabalável, que não sucumbe às intempéries. Está lá, perdoando o esquecimento, a ausência, o silêncio. Mas tudo isto é egoísmo da nossa parte, porque acreditamos que podemos sempre voltar com o mesmo sorriso e não perceber que do outro lado o sorriso mudou.
Sim, mudou, não por ressentimento, mas porque os rios já passaram vezes sem conta por debaixo daquela ponte, já  a erosão dos ventos lhe esbateram os traços ternos a que nos habituamos. E a grande mágoa sua e nossa é que não estivemos lá, para partilhar, para amparar.
De repente, percebemos, que outra história foi escrita e nós desconhecemos-lhe o conteúdo dos seus capítulos.
E compreendemos  que o que fomos, já não somos, já não seremos.
E agora? Não sei, responde-me confusa a consciência.
Vamos recomeçar, diz-me o coração. Desta vez, prometo que não vou esquecer, que vou estar sempre aqui. Talvez, nem sempre.
Mas quase, quase, sempre quando a saudade, a vontade de partilhar, de revelar, de não conter a tristeza, de desabafar uma mágoa, de compartilhar a alegria. 
Sempre, mas mesmo sempre que a felicidade nos reencontrar.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Post.it: A revolução dos Cravos

Foi uma Revolução de cravos, porque se calaram as armas, porque se emudeceram as revoltas, porque se ergueram os braços para festejar a vitória e se acenaram flores. 
Porque se atiraram pétalas de esperança numa primavera que renasceu, livre para florir palavras sem medo. 
Porque o vermelho agitou-se nas mãos e não era sangue, mas como ele significava vida, vibrante e renovada. 
Recordada em cada recordação do ontem  um novo sol brilhava em cada rosto de expectativa e de confiança. Afinal “foram anos a esperar por um só dia”, até encontrar “em cada esquina um amigo”,  “em cada rosto igualdade”. 
Entretanto, continuamos a celebrar, embora, cada vez menos a recordar, porque cada geração que nasce, nasce em liberdade e longe da sua ideia está qualquer forma de repressão. E mesmo aqueles que olham para o hoje e sobretudo para o amanhã com olhar crítico e magoado, não lhe é tirada a razão mas cada momento histórico tem os seus dissabores, comparar o passado com o presente é relativizar a luta de quem sofreu o peso constante de uma ditadura e que se libertou pela força da união. 
Há quem diga que devia acontecer uma nova revolução, prefiro pensar que o que necessitamos é de uma nova união. Talvez seja preciso colher todas as flores da primavera não para aplacar as armas mas para apaziguar os corações que se sentem traídos nos seus ideais de Abril. 
E para que estes ideais não esmoreçam vamos construir em Abril a continuidade auspiciosa de cada mês, de cada dia em que vejamos nos outros o reflexo do nosso sorriso na oferta generosa do seu. 
Para que os cravos de Abril de 1974 continuem acenando objectivos conquistados, na certeza de que vão ser eternos na primavera de cada vida que nasce e cresce livre para ser Feliz...




terça-feira, 19 de abril de 2016

Quando eu nasci

Quando eu nasci o sol brilhou,
A lua ofereceu o seu maior luar.
No céu o número de estrelas aumentou,
E o mar fez cada onda o dia embalar.

Quando eu nasci os ventos cantaram,
As árvores em abraços dançaram.
Os pássaros por instantes não voaram,
E os rios em suspense quase pararam.

Quando eu nasci já o verão se despedia,
E a suave manhã começara a despontar.
Cada pessoa olhava para a outra e sorria,
Das nuvens nem uma gota se queria soltar.

E mesmo com a minha mãe meio a chorar,
Pela tristeza de eu não ter nascido rapaz.
Senti que havia algum amor a me rodear,
E que no meu crescer teria harmonia e paz.

Tudo isto aconteceu no dia em que eu nasci,
E embora não tenha sido pelo meu nascimento.
Ao mundo com gratidão eternamente agradeci, 
Por ao nascer me dar o seu mais belo momento.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Post.it: Relações

Quando olhamos para lá do olhar. Quando ouvimos para lá das palavras. Quando sentimos mesmo que à margem do toque. Quando compreendemos para lá da frase. Quando inspiramos a tristeza calada. Quando devolvemos a dor curada. Quando somos nós para os outros. Quando sentimos os outros em nós. 
 Somos por fim vida, plena, inteira, cumprida, vivida, sem fugas, suplantando medos, abrindo o peito aos perigos e vencendo-os. Nem sempre é fácil, por vezes é mesmo muito difícil. É preciso fazer silêncio, quando por dentro tudo nos grita tempestades que nos naufragam os sonhos. 
Mas também há faróis, jangadas de esperança desbravando caminhos marítimos nos nossos desertos de ânimo. Porque as forças humanas se revelam nos momentos certos sobre humana, e o animal feroz que nos quer devorar, lambe-nos a feridas, aconchega-nos do frio. 
Somos nós células que nos percorrem com pressa simplesmente de fazer a cíclica viagem, porque não há saída. E mesmo assim, não há repetição, cada caminho, sempre o mesmo, aparentemente igual é eternamente diferente. 
Porque o olhar olhou, porque as palavras ganharam sentido, porque o toque, sem tocar sentiu-se tocado. Porque cada frase criou o diálogo. Porque a tristeza se alegrou e a dor saiu definitivamente de cada molécula magoada. 
Assim se estabelece uma relação: de amizade, de amor, ou do simples desconhecido que se torna agora conhecido.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Post.it: Silêncio

Silêncio, adoro escutar-te, nesse vazio preenchido de rubor solar, de horizontes de azul e verde. Gosto até mesmo das cores da cidade, das gentes, quando as observo por detrás da vidraça, em silêncio. 
Esse silêncio que adoro abraçar quando ele me desperta dos sonhos com a suavidade de um quase beijo. Não chego a aborrecer-me por me roubar à delicia dos sonhos, mesmo dos mais belos, avassaladores, das aventuras em que corro, voo, até das quedas que não chegam a doer nem a gemer, porque estás lá, silêncio, enchendo de ti cada recanto desse mágico encanto. 
Despertar contigo é continuar essa ventura, sinto-te no calor do leito, vejo-te na luz amena que entra pelas frinchas da janela e inunda as paredes do meu quarto sem me ferir o olhar. Peço ao relógio que cale o seu tic tac, que a terra suspenda o seu girar, por um instante, apenas um instante, para prolongar a brandura deste silêncio. Tão curto no tempo do tempo, tão eterno na sensação do sentir. 
 Não tarda, o bulício de mil despertares vão irromper pela madrugada, com vozes de impaciência, então ressoam motores famintos de combustível, entoam buzinas no alarido de frenesim, chiam travões buliçosos, saltos de sapatos magoam a calçada na sua pressa desassossegada, cães ladrando na excitação de tanta confusão que festejam sem entender o motivo, enquanto os pássaros mais afoitos tentam sobrepor o seu canto ao desencanto social que o quer sufocar. Num hiato de silêncio, pasmo, na indiferença de uns, no alheamento de um som, uma quase melodia. É um grilo, grita feliz uma criança. Sim é um grilo que dá o seu último trinado noturno,  confundido, talvez com a rápida invasão do sol que lhe roubou a protetora escuridão quando ele tímido na sua figura minúscula, tentava encantar a lua com uma serenata de um amor improvável. 
Silêncio onde tens morada? Nas bocas caladas, cujos pensamentos em ebulição ameaçam alagar as vozes? Nos olhos fechados que se recusam a verter mais alguma lágrima que ameaça banhar o rosto? No sorriso que esconde retraidamente a mais profunda e verdadeira gargalhada de felicidade? 
Não, não é esse silêncio que busco, esse silêncio magoado, esse silêncio aprisionado. Quero-o livre, esvoaçante, leve. O silêncio escolhido, amado. O silêncio que nos enche de paz, tranquilidade, que nos aquieta a alma, que nos aconchega as emoções. Que vence o barulho numa guerra em que o derrotado celebra também ele a vitória do vencedor. Porque também ele quer o silêncio aquietando-lhe a intempéries das citadinas horas. 
Quem não o quer? Todos, suponho, até mesmo aqueles que o negam por medo de se “viciarem” na harmonia da sua existência.



sexta-feira, 8 de abril de 2016

Sempre flores

Que a vida seja presente,
Para a todos oferecer.
Que o amor não seja ausente,
De todo o meu viver.

Que encontre sempre flores,
No jardim de cada dia.
Mesmo com picos e dores,
Que se tornem em alegria.

E cada passo que já foi dado,
E cada passo ainda por dar.
Me faça ultrapassar o cansaço,
Para continuar a caminhar.

E se um dia a solidão,
Me vier fazer companhia.
Vou recebe-la no coração,
Vou embala-la na maresia.

Porque cada gota de água,
Merece encontrar o mar.
Porque cada simples mágoa,
Merece tornar-se sonhar.



terça-feira, 5 de abril de 2016

Post.it: I'm sorry

“Que diz o teu olhar?” Pergunta o locutor de um programa de televisão. O meu olhar diz tanta coisa que não há palavra suficientes para o relatar, talvez, por isso responde o silêncio, só ele pode em alguns momentos dizer fielmente o que vai no meu olhar.
“Alguém te deve um pedido de desculpa?” Mais uma pergunta que me faço e confirmo que sim, devem-me alguns pedidos de desculpa e que neste caso, sobretudo neste, o silêncio nunca é resposta, ou melhor, a resposta que gostaria de obter. Porque o silêncio é sempre uma resposta, nem que seja aquela que não queremos receber. Mas voltando à questão, “devem-me um pedido de desculpa?” Sim. Mas nunca o vou receber. Porquê? Porque para haver esse pedido, teria de haver reconhecimento de que se errou e isso é algo que nem todas as pessoas têm a coragem de admitir.
Se devo um pedido de desculpa a alguém? Não sei, penso que não, tento que não.
Pedir desculpa não é necessariamente mudar a nossa opinião, mas obriga a uma mudança de atitude. “Não temos que dizer tudo o que nos vai na alma mas somente o que é necessário”. Não temos dizer algo como se fossemos arremessar pedras, quando em vez disso, elas podem ser colocadas uma a uma com prudência para formar um suave caminho. Pedir desculpa é a maior prova de respeito e de consideração para com o outro, esse que estimamos e não queremos em momento algum ser a causa da sua mágoa. Para que o lugar da amizade, do afecto não seja ocupado por dor e ressentimento, quando basta um pedido de desculpa sincero para tornar alguém feliz e ser ponto de reencontro.
Quando era jovem achava que tinha de me afirmar, de mostrar que tinha opinião. Ser quem era,  com algum menosprezo, alguma insensibilidade para com os outros, confesso. Hoje, como é bom “envelhecer”, amadurecer, crescer e perceber que só ganho na medida em que não perco, sobretudo os amigos. Percebi que não havia razão para me impor e que era muito mais agradável caminhar lado a lado, cada um com a sua maneira de ser conciliada.
Somos humanos, erramos, talvez não pela forma como somos mas por aquela em que  usando a nossa possibilidade de escolha, da melhor ou da pior forma, agimos.