segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Post.it: Chegar cedo


Cheguei primeiro, primeiro que o sol porque acordei cedo, primeiro que o vento porque quando  fui passear o cão ainda o vento dormia. Primeiro que todas as curvas porque o caminho foi quase todo feito por estradas de retas.
Cheguei primeiro que as notícias, as boas e as más, porque a papelaria ainda estava fechada, por momentos (sonhei) que nada no mundo tinha acontecido, mas logo de seguida abriram a porta e os jornais no escaparate já evidenciavam as letras grandes e as fotos das (desgraças).
Cheguei primeiro que o cheiro a bolos, não gosto de os comer pela manhã, mas gosto do odor adocicado que fica no ar, mas hoje cheguei cedo e só cheirava a noite mal dormida, cheirava a fadiga, a rio dormente, a perfume misturado com suor de quem saía das discotecas.
Cheguei primeiro que todos ao emprego para ouvir o silêncio de vozes, de passos, de portas, de armários, de teclas.
Cheguei primeiro que o cansaço, quando ainda as energias estavam em alta, dispostas a realizar todos os planos de hoje e os de ontem que ficaram por concretizar.
Cheguei primeiro que a esperança, nessa hora em que acreditamos que tudo de bom nos vai acontecer, porquê? Porque sim, não é esperança, não é fé, é plena confiança, como se tudo estivesse ao nosso alcance e para lá chegar só temos de estender a mão e agarrar o que é nosso.
Cheguei antes dos bons dias de quem passa e me olha com ar de quem não me quer ver, preferiam ter ficado aconchegados nos lençóis, abraçados à almofada. O meu bom dia, como que os desperta e os rouba repentinamente ao sono, quiçá ao sonho que era belo mas fugaz.
Sou mesmo essa formiguinha laboriosa, que anda na sua jornada de sol a sol como se cada minuto dependesse mim, como se só tivesse por objectivo a meta vencedora para receber a medalha de um recomeço, de uma folha em branco à espera de ser escrita com a tinta do querer.
E eu quero, quero muito chegar, mesmo que não seja a primeira, quero chegar a cada reencontro, acreditando que esse pode ser  o momento em que a felicidade espera por mim.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Post.it: Absolutos

Há dias que são… com os descrever? Absolutos!

Dias que nos são inteiros, que nos preenchem, que nos são bons, quase perfeitos e, só não o são porque nós, humanos, achamos que a perfeição é algo que está sempre mais além, que nunca a conheceremos, por isso, mesmo quando nos cruzamos com ela, não a reconhecemos, e continuamos com o nosso olhar sempre no longínquo.
Mas mesmo assim, reconhecemos esse dia, respiramo-lo com calma, devagar, com prazer, como quem prolonga até ao infinito aquele sopro de ar em forma de suspiro. Não, não é saudade, não é tristeza, é um suspiro de gratidão à vida e se não for na sua totalidade, até porque há dias bons e maus, agradecemos este dia, que nos é absoluto.
Sentimo-nos vivos, como se todas as células do corpo despertassem e corressem em plena alegria para uma festa estival. Há como que primaveras a despontar e cada recanto da alma. Nesse dia que se for inverno nos surgirá radiante de azul imáculo de nuvens. Mas se for verão, haverá nele uma brisa de outono para limpar as folhas secas e já sem função do nosso pensamento.
Quando o lusco-fusco se aproxima, recebemo-lo de sorriso aberto, porque o entardecer não é triste, este é um entardecer que rima com enternecer como se tivesse braços estendendo-se para carinhosos abraços do quase noite.
Porque nesse dia, até  a noite é perfeita, na sua luminosidade, no seu manto aconchegante de estrelas, no seu luar, no seu reflexo espelhado no mar, no cais onde adormecem os barcos, no leito onde a tranquilidade tem sabor de vitória e o prémio é a leveza de um sonho que nos faz voar em mundo onde o absoluto acontece todos os dias. Quando a realidade nos despertar, sorrimos, talvez o hoje não seja tão absolutamente belo como ontem, mas tem a singularidade de ser a ponte por onde passamos para o acordar de todos os amanhãs.




segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Post.it: Na minha pele

Eu, dentro de mim, deste corpo que é o meu. Eu, por baixo desta pele, desta carne, gordura, músculos, ossos.
Eu, por entre órgãos que vão cumprindo a sua função, como uma fábrica de funcionários, uns melhores que outros, uns mais lentos outros mais rápidos por despachar o trabalho e ir para casa no final do dia, dormir e sonhar.
Eu, por entre a realidade e a fantasia de cada noite e por vezes de cada dia. Eu, coberta de esperança, de espectativas, de metas, de desejos que se vão perdendo pelo caminho feito de tempo, de alegria  e de mágoa.
Eu, levando cada pé a tornar-se passo e cada passo a transformar-se em espaço, daqui para ali, para a frente e para trás, para longe ou para perto.
Eu, apenas célula, tão pequenina, tão insignificante, quase invisível, resquício, migalha, um quase nada de mundo e no entanto vida, ar impulso, construção, decisão, riso e lágrima.
Eu, dentro de mim, universo de constelações moleculares, átomos de energia anímica. Tudo, tanto, e no entanto, apenas um quase nada deste Eu, dentro de mim.



sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Post.it: Férias de verão

Férias, acordar tarde, aproveitar cada minuto do dia para fazer o que nos apetece.
Sair de casa com ou sem rumo. Ir para fora cá dentro,  visitar todas as feiras medievais e as actuais. Estar presente em todos os festivais de música, em todos os arraiais. Ir até à terra que nos viu nascer, a pequena aldeia, reencontrar familiares, amigos, aquelas pessoas que mesmo sem nos conhecerem nos dão os bons dias com voz de aconchego. Quase apetece ficar ali, para sempre, esquecer o barulho da cidade, a monotonia dos dias, a nostalgia das horas marcadas ao compasso de cada
compromisso que corremos para realizar.
Férias, também o ir para fora e meter cada experiência cá dentro, encher o olhar de novas cores, culturas, histórias da sua história. Por vezes também aí nos apetece ficar, para sempre, pela sua beleza e civilidade. Queríamos ser assim quando nos comparamos com as grandes culturas, ou, orgulhamos-nos de ser quem somos porque mesmo pequenos crescemos e temos capacidade para crescer mais.
Férias, não ir, ficar e simplesmente, relaxar, desligar o despertador, despir o espartilho da roupa profissional, trocar os saltos altos pelo básico chinelo. Caminhar pelas ruas, as nossas ruas, aquelas onde estamos o ano inteiro mas nem lhe conhecemos as curvas, só olhamos para a paragem do autocarro ou para a fila de trânsito. As explanadas que saem do café e invadem as calçadas, os parques verdes para passear com as crianças ou até fazer alguns exercícios nos aparelhos de ginástica. Reencontrar os vizinhos, os filhos dos vizinhos, como crescerem sem darmos conta. Ir para férias ou ficar em cada em férias, abrir aquele livro que nos deram no Natal, com um sumo de abacaxi, hortelã e gelo ao  lado, nesse espaço de silêncio com a companhia do  sol.
Férias é tempo de ter tempo, para nós, para os outros. Para o repouso do corpo e do espírito. Para contemplar a natureza, para o reencontro com o nosso “eu”. Para descobrir, para nos descobrirmos. 
Férias, em suma: descansar, ler, pensar e sorrir.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Sem planos...

Desejo com toda a sinceridade,
Que o sábado seja de amor.
O domingo de carinho e amizade,
E a segunda não traga mau humor.

Talvez a curar uma constipação,
A escrever um poema de amor,
Sem ser rasgado pela desilusão,
De um verso que rima com dor.

Numa poltrona estendida,
Com um bom livro na mão.
Ao romance totalmente rendida,
Entregando-lhe quiçá o coração.

Mas se o convite for para passear,
De mãos dadas ao sol ou ao luar,
Mesmo uma felicidade só no sonhar, 
Quem a pode de ânimo leve recusar...

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Férias


Post.it: Falo com as sombras

Era uma casa cheia de vida, de pessoas, de crianças, de vozes, de risos, de nomes gritados por entres as paredes, por entre as portas. Era uma casa cheia de passos quase sempre em corrida, de brincadeiras, algumas choradeiras, birras, cheias de palavras de amor, de carinho por entre ralhetes, faz parte de uma família.
Era uma casa cheia de luz, de um eterno verão, de janelas abertas mesmo no inverno, era uma casa cheia de livros, de cadernos espalhados pelas mesas, alguns pelo chão, “foi o gato à guerra com o cão”, desculpavam-se.
Era uma casa cheia de aromas que vinham da cozinha com tachos a fumegar, da colónia das crianças, de aftershave, de perfume de mulher, de comida granulada do cão, de patê para gato.
Era uma casa cheia de animação, de música, a de cada um, entoando em uníssono ritmos diferentes, de filmes passados na televisão, de histórias lidas à lareira, de jogos de tabuleiro, de cartas de jogar.
De repente, o silêncio, “os passarinhos voaram do ninho”, dizias com um sorriso nos lábios e uma lágrima escondida no canto dos olhos, “eles voltam, voltam sempre” respondia para te consolar, para me consular. E voltaram, só que, cada vez menos vezes, todos os fins-de-semana, depois todos os meses, nos aniversários e no Natal, quando a mãe partiu, partiram eles também, “de vez”. Passou a ser a “visita” apenas das suas vozes pelo telefone.
E eu, que sorria, deixei de sorrir, deixei de esconder a lágrima, afinal, pelo telefone, já não é preciso esconder a saudade. 
Nesta casa vazia, sem passos, sem correrias, sem luz, sem calor, sem animação, sem livros, sem aromas, até sem gato e sem cão. Nesta casa sem amor, sem família, sem som algum que não seja a minha voz, vou falando apenas com as sombras.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Post.it: Dias de verão

O verão tem dessas coisas, essa frescura que ao contrário da climática nos liberta, nos enche de asas, de brisas no pensamento e, voamos nos sonhos que queremos concretizar. Dessas coisas que ficam para as férias e depois ficamos tão cheios de uma bagagem feita de compromissos, que quase sem culpa arrumamos num canto da vida, quem sabe para o inverno, quando o frio e a chuva nos impedirem de sair de casa, aí sim arrumamos o que há para arrumar. Lemos os livros que queremos ler, o filme que queremos ler, o telefonema prolongado que precisamos de fazer.
Agora, o corpo, a alma, todo o nosso ser numa composição de realidade ou fé quer apenas sentir-se leve, liberto da rotina, dos horários, dos compromissos, dos chefes, das colegas, dos transportes públicos ou de não saber onde estacionar o privado.
Agora, finalmente é o arrumar das botas e enfiar o chinelo no pé, caminhar descalça em casa, rodopiar enquanto se abre as janelas para deixar entrar o sol, e ver nas janelas os vasos de flores, os lençóis estendidos, os fatos de banho. Porque sim, está na hora de ir a banhos de mar, abraçar as ondas, adormecer nas dunas. Comer gelados, que se lixe a dieta, no inverno ficamos a chá e torradas, prometo. Perdoe-me o guarda-roupa se não cumprir.
O verão é um tempo de passagem, está como nós em permanente viagem, se não o vivemos, passa e não deixa recordação alguma que nos aqueça nos dias de final de ano.
Vamos encontrar amigos, entre uma cerveja gelada e um prato de caracóis, o marisco dos pobres, dizem. Mas sinceramente, prefiro mil vezes uns caracolitos do que um refinado marisco com as suas requintadas calorias. E depois há as saladas, adoro saladas, as folhas verdes, o contraste coloridos do tomate, o minguado azeite casando com o recheado vinagre e para rematar montes de orégãos, quase afrodisíaco para as minhas pupilas gustativas.
Depois num verão que se prese não pode faltar uma rede entre duas árvores, o chilrear dos pássaros e o silêncio. 
Ainda dizem que o paraíso não existe, claro que existe, quem não o vê, quem não o sente, ou anda a dormir ou a deixar o verão passar!

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Post.it: Águas passadas

Importa o que se disse? Uma palavra, uma frase, um momento, é isso que nos define?
Penso que não, quero acreditar que não. Uma palavra,  um grão perdido num vasto areal.
Somos esse areal, por vezes moldados pelo vento, por vezes inundado pelo mar. Mas sobrevivemos, de quando em vez, até renascemos qual Fenix emergindo das cinzas. Porque somos mais, muito mais que uma palavra.
Por mais forte e vinculativa que ela seja, por mais dolorosa que nos tenha parecido. Por mais duramente que nos tenha atingido. Por mais pungente, cruel, até, nunca passará de uma palavra.
Que não é nada, perto de nós que somos tanto, que somos tudo o que somos. Porque somos tudo o que querem que sejamos. Quando querem sejamos sorriso e não  lágrima. Quando  querem que sejamos inteiros e  estamos tão espartilhados de mágoas. Quando querem que sejamos (mãe)  quando apenas queremos ser (filha), ter um colo e um abraço.
Mas as palavras inquietas, irreflectidas saem da nossa boca e deixam de nos pertencer. Tão rápidas que nem as sentimos, não eram para aquela pessoa, não eram para aquele momento, são o reflexo de um caminho, das pedras, do cansaço.
Depois, são águas passadas ou talvez não, porque a corrente do rio nem sempre tem forças para afastar de si todos os pequenos e grandes atritos. Como um moinho, continuamos a moer e a remoer as palavras na esperança de que passem a pó e o vento as leve consigo num voo de esquecimento.
Um dia percebemos finalmente que não são as palavras que nos magoam, somos nós que nos deixamos magoar por elas, a ferida aberta deixa-se tocar e a dor que já nos doía, apenas, dói mais.
É preciso curar a ferida para esquecer, depois de se cicatrizar a pele, cicatriza-se a alma para que um dia as palavras sejam apenas palavras e não sejam nós.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Boring

Andar na escola até à maioridade,
Ou até ao 12 ano completar.
É boring dizem na sua verdade,
De pouco vocabulário a empregar.

Trabalhar, sempre a levantar cedo,
Para ganhar uns trocos para a cerveja.
É boring e à saúde até mete medo,
Além disso não dá estilo que se veja.

Sair com uma miúda 6 meses,
É boring, é quase uma prisão.
Tentas olhar para o lado às vezes,
Mas ela quer engaiolar-te o coração.

Musica lenta, agarradinhos dançar?
É boring querer juntar os trapinhos.
Quero é  no hip hop me expressar,
O resto é coisa só para velhinhos.

Romantismo é treta e coisa à toa,
No princípio é love com fartura.
Acaba boring e por vezes magoa,
Porque a coisa sempre pouco dura.

A vida é boring, esta é a conclusão,
Para que não seja sempre igual,
É preciso arriscar, sair do chão,
E fazer do hoje um dia Brutal !!!!


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Que nos valha S. Pedro e S. Paulo

Resta-me S. Pedro, ou S. Paulo,
Aos dois venho aqui implorar. 
Que nos ajudem, mesmo ao estalo,
Para alguma (sabedoria) despertar.

As eleições estão quase a chegar,
Será que o vão reconduzir à cidade ?
Parvos os que se deixam conquistar,
Com passeios para terceira idade.

O Povo quer Lisboa mais bonita.
O Povo quer é festarola e bombos.
O Presidente da Câmara acredita,
Que o Povo é um conjunto de tolos.

Precisamos de santos mais milagrosos,
Para tanta indiferença derrotar.
Parecem ter santos mais poderosos,
Para do nosso dinheiro nos alienar.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Post.it: Os nossos "bichanos"

Os animais “humanizam-nos”. Na relação com os animais aprendemos o desprendimento, o carinho, estregamos-nos a esse cuidar e recebemos em troca um amor incondicional, neles não há crítica, não nos julga nem nos lança olhares desfavoráveis, quando muito há curiosidade, vontade de conhecer o que o rodeia, conhecer-nos para ficar mais próximo.
Os animais ajudam os humanos, salvam vidas, são para isso treinados, mas uma grande parte, a maior parte, está neles, na sua capacidade de descobrir, de se entregar, de ajudar, de partilhar o seu tempo, a sua vida, tão curta, em generosa oferta e tudo isso é feito sem aparente esforço, tudo parece divertimento, um jogo onde todos se envolvem para que vença um bem maior, a sobrevivência.
São cães polícias, são cães que auxiliam deficientes, que atenuam os sintomas de doenças, combatem a depressão, afastam a solidão, avisam do perigo eminente, protegem, guardam quem mais gostam, o seu dono, quer sejam crianças, adultos ou idosos. São sem dúvida alguma o melhor amigo do ser humano.
Para os cães basta-lhes a companhia, a comida no prato, e uma bola lançada ao ar num desafio para a brincadeira, correr, saltar e depois deitar-se junto daquele corpo por vezes enfermo, aquele amigo. E eles sabem que não há nada melhor do que ser e ter um amigo, muitos dizem que é um interesse reciproco, não, é muito mais do que isso, é um amor reciproco. 
Que importa se em cachorros nos roem os sapatos, os móveis, a roupa, ou até a nossa paciência. Se correm à nossa frente e quase nos deitam ao chão. Se saltam sobre nós molhados do mergulho na praia. Se nos fazem sair à rua quando a chuva inunda as ruas. Se nos acordam quase de madrugada indiferentemente se é dia da semana, fim de semana ou feriado. Se nos deixam a cara lambuzada de lambidelas. Se lançam sobre nós um olhar triunfante por ter feito o chichi no jornal, claro que as patas da frente entraram no espaço do jornal mas as de trás ficaram de fora tal como a pequena poça molhada. Se nos oferecem aquele  ar de missão cumprida quando nos trazem os chinelos, ou melhor, o que resta deles. Eles adoram-nos e nós, claro, a eles.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Viva o S. João

São João vou-te festejar,
Com alegria e aos gritos,
Para o Porto vou emigrar,
Lisboa agora é só para ricos.

Os transportes a aumentar,
No preço e não na frota.
Os carros sem poder entrar,
Ficam estacionados à porta.

São João que és o encanto,
Da tua devota população,
Nunca ponhas em cada canto,
Um parquímetro ladrão.

Com o ideal de Robin em perigo,
Lembre-o em justiça e lealdade,
Tornando-se um Presidente amigo, 
Para quem trabalha nesta cidade.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O mundo

Há qualquer coisa de silêncios,
Que te escuto suave na voz.
Oceanos há muito recônditos,
Que apenas te navegam a sós.

E as palavras que não dizes,
Talvez de todas as mais belas,
São olhos de inquietos petizes,
Abrem-se em claras janelas.

Sonhos que germinam sem dormir,
Que florescem de um viver acordado,
Acontecem no contínuo deixar-se ir,
Por rumo certo mas não determinado.

É então que tudo acontece,
Nesse renascer límpido de alma.
A uma velocidade que nos entontece,
Sem perceber a fluidez dessa calma.

Que inveja, que sensação de ternura,
Me desponta em jardins no peito.
Primaveras de tão simples candura, 
De um sentir e existir tão perfeito.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Post.it: A (descoberta)

Morrer faz bem! Uma grande descoberta. Talvez mais importante do que a descoberta da cura para o cancro. Uma revelação onde, se calhar gastaram-se anos de investigação, quantidades de dinheiro, diversos investigadores, cientistas com grande currículo e idêntica remuneração, tudo, para chegar à brilhante conclusão, que morrer faz bem!
Talvez, afinal, acabam-se os problemas de saúde, os problemas económicos, as duvidas, as angustias com o futuro, a tristeza com os fracassos, as depressões por sonhos não realizados.
Acabam-se as lutas, as rotinas, as discussões com os chefes, as disputas com os colegas. Terminam as esperas, na fila dos transportes, do trânsito, do supermercado, dos centros de saúde, nos hospitais, na pastelaria para obter um café. Nos correios para ir levantar a misera reforma, no cabeleireiro para ir cortar os cabelos brancos, porque os escuros vão rareando.
Termina a solidão, a falta de solidariedade, de carinho, a ausência dos filhos, a indiferença dos vizinhos, o aborrecimento de quem tem de atender.
 É um final para o que se vive, para o que se desejaria viver ou seja acaba-se tudo, ou quase tudo, surgem os problemas de se ter morrido, mas isso já não é importante para quem parte, apenas para quem fica.
Lá está a velha questão de que o que faz bem a uns por reflexo fará mal a outros.
Mas isso é o de somenos. O que importa é que morrer faz bem, por tudo o que resolve ou deixa sem solução. Pela partida, quem sabe pela viagem, há até quem acredite numa chegada, ao Paraíso?
Isso vai para além do nosso além de conhecimento. Aguardamos por novas grandes descobertas, que não sejam como esta, verdades de La Palisse.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Milagre de Sto. António

Ai meu Santo Antoninho,
Por quem tenho muita devoção,
Já nem a sardinha e o vinho,
Me livram de tanta aflição.

Peço-te Santo de Lisboa,
Para minha total felicidade,
Não amor nem coisa à toa,
Mas sem parquímetros esta cidade.

Lisboa virou-se para o turismo,
E na Câmara o Presidente,
Mergulhado em estrangeirismo,
Esquece o trabalhador e o residente.

Quem tem vontade de festejar,
O Santo António milagreiro,
Se só para o carro estacionar, 
Fica-se o mês todo sem dinheiro. 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Post.it: O que vale a pena recordar

Ontem recebi um telefonema, era um convite  para uma missa pelo aniversário de falecimento de uma amiga, uma simpática amiga, uma generosa amiga, suave, gentil extremamente polida, uma pessoa de outra geração, infelizmente já não há pessoas assim. Foi uma geração profundamente enraizada nos valores, educada na estima e pelos outros e respeito por todos, independentemente de tudo os que nos separa de vivências, de fé e crenças, de origens, de cor de pele, de local do mundo. Era uma amiga especial, porque era tudo isto numa só pessoa em (quase) todos os momentos em que a conheci, sim, quase, porque ninguém é perfeito e nós peças de uma sociedade nem sempre nos encaixamos em todas as arestas, alguma ficam a faltar ou a sobrar, ou simplesmente não têm a mesma forma.
Mas já faleceu, partiu para a viagem ao infinito, tão infinito que não tem regresso, podem dizer que as saudades a tornaram mais ideal ao meu sentir, que a memória a vai suavizando e colorindo, talvez, porque não, merece-o. A sua relação com os outros justifica-o. Já faz 2 anos e neste tempo foi construindo uma nova história, repleta de si. Por isso me magoa este convite, não pela lembrança da data porque essa permanece-me presente, mas pelo facto de ser esta mais claramente lembrada com honras de celebração litúrgica. Prefiro mil vezes recordar desse modo o dia do seu aniversário, o dia em que nasceu e durante muitos anos passados e futuro é seu.
Ontem quando recebi o telefonema, parei o pensamento, suspendi o sentimento e fui como ela e por ela, cordial, sim claro vou tentar ir… 
Não sei se irei, sinto que lhe estão a roubar a (vida) do que era, para apenas recordar a dor da partida. Não quero que doa mais, não irei. No dia do seu aniversário irei até ao mar, lançarei uma flor, quem sabe lhe chegará…

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Post.it: O espanto

Continuo a surpreender-me comigo, com os outros, com a natureza vegetal e animal. Continuo a descobrir-me em mim e nos outros. Continuo a crescer nos sorriso de uns ou a diminuir no silêncio de outro. Continuo a caminhar na direcção de quem me espera e a afastar-me na direcção de quem já nada me diz.
Continuo a ter coisas para dizer mas na maior parte das vezes nada digo, porque eles já sabem a verdade, para que repeti-la e voltar a tocar nas mais profundas feridas.
Continuo a fazer coisas, cada vez menos, falta-me o tempo, a vontade, o empenho, a dedicação, desculpas de quem já não as quer fazer, se ao menos aparecessem feitas…
Continuo a sonhar, cada vez mais, apenas quando durmo, e durmo cada vez menos, coisas do meu relógio biológico que passou a dormir nos minutos e a viver nas horas.
Continuo a virar a página do calendário, não para saber como se arrumam os dias nos mês seguinte mas para ter a certeza de que o mês anterior não se vá arrepender e querer repetir-se.
Continuo a contar a estrelas do céu, são cada vez mais, alegra-me a sua luz cintilante. Quando era criança diziam que eram a alma de quem tinha partido para o céu e eu incrédula na minha crédula expectativa procurava com olhar ávido pela prima Graciete, pelo Adelino, pelo Sérgio (da Conceição), se lá estavam não sei, mas entristece-me pensar que há cada vez mais estrelas, mais almas?
Continuo a deixar-me navegar por pensamentos e fantasias, este meu lado de criança que não cresce nem que viva 100 anos, que conheça da dureza da estrada mil vezes palmilhada, que me roubem os sonhos, que me queiram invadir de medos, que os fracassos superem as vitórias, haverá sempre em algum lugar de mim um velha e doce história, cheia de moral e de luz. Porque, sim, continuo a acreditar que há luz por detrás das nuvens mais cinzentas e que a chuva não serve apenas para nos molhar mas para fazer desabrochar no nosso jardim as flores da esperança.



sexta-feira, 2 de junho de 2017

Post.It: A vida é simples

A vida podia ser simples, fácil de se viver. A vida podia ser feliz, não só num momento mas em todos. A vida podia ser o que quiséssemos sempre que  cada um de nós  quisesse ter uma boa vida. Mas complicamos, arranjamos problemas para a vida e ela responde-nos num aparentemente sem solução. Torna-se triste, combativa, deprimida, apática, revoltada, torna-se o que nós somos e nós o que ela nos é.
Passos sem destino, cansados, arrastando os dias como se lhe pesassem as toneladas de decisões, de acções. E poderia/deveria ser simples. Como?
Devem estar a questionar os que ainda procuram mudar o seu rumo.
Impossível. Murmuram os que já desistiram e instalaram-se na vida tal como ela é. Mas a maior parte, a que  não acredita nem deixa de acreditar, encolhe os ombros, deixa-se ir no arrasto da multidão.
A vida podia ser simples, para isso cada um devia pensar no que o incomoda, no que o desgosta,  não podemos mudar de lugar uma montanha, mas podemos apreciar a sua beleza sem a olhar só como um obstáculo. Se temos que a subir, que seja com prazer na jornada, pensando na chegada ao topo, na visão panorâmica que nos oferece, a essência do ar mais límpido. Subir que seja apenas a dificuldade de construir um caminho, depois de lá chegar tudo é mais claro, simples, fácil.
Viver podia ser simples, é simples, quem sabe se seguir pequenas regras essenciais:

Não faças aos outros o que não gostas que não te façam a ti.
Vive o hoje, pois o ontem já se foi e o amanhã pode não vir.
Tem paciência, tudo tem o seu tempo.
Superar é preciso. Seguir em frente é essencial.
A prepotência faz-te forte por um dia, a humildade para sempre.
A vida é um eco, se não gostas do que recebes, observa o que estás emitindo.
Viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe.
Queres saber o sentido da vida? Para a frente.
Ama a todos, confia em poucos e não faças mal a ninguém.
A consciência é a mais fofa almofada.
Da vida não querer muito. Apenas o que se tentou e pôde ter.
Deve-se falar sem aspas, amar sem interrogações, sonhar sem reticências, viver e ponto final.
A vida é simples, tu é que a complicas!



segunda-feira, 29 de maio de 2017

Post.It: Chuva de domingo

Caía uma chuva mansa, tristíssima, num domingo à tarde. Tinha tanto planos, todos eles secos, contando para isso com o sorriso amplo do sol. Mas o astro rei, domingou, descansou de um verão que parecia querer prematuramente invadir-nos, mas isso foi durante a semana, em dias de trabalho quando as temperaturas ultrapassaram os 30º. Começámos a desenhar planos, esboços de um fim-de-semana pleno de aventura, um mergulho no mar, um passeio pela costa litoral, um picnic, encher os olhos de azul, um encontro de amigos, uma mochila às costas e caminhar,  limpar os pulmões dos ares urbanos, expurgar os pensamentos da demasiada proximidade civilizacional.
 Sair da rotina, abandonar  o relógio na cómoda do quarto e guiarmo-nos apenas pelas sombras do sol, mas ele, revelou que  tinha outros planos, nos quais eu não estava incluída.
Senti-me abandonada, traída, senti o rosto molhado, mas eram as gotas de chuva a deslizar, perguntei-me se seria solidariedade ou qualquer espécie de vil castigo, revoltei-me, não o merecia. Ergui a minha espada de argumentos e esgrimi palavras desventuradas, nem o eco me respondeu.
Voltei para casa, despi a roupa molhada, fiz um café bem negro, como os meus sentimentos, deitei-me no sofá, acendi a televisão e continuei a ver a catrefada de episódios gravados da série Guerra do tronos, mergulhei naquele tenebroso   ambiente, senti-o  semelhante ao meu, também ele triste, solitário, de lutas perdidas, adormeci, cansada deste domingo, que me roubou todos os sonhos que me levaram uma semana inteira a criar, sonhei e nesse sonho reencontrei-me alegre, caminhando num verde infinito e o azul estava límpido de nuvens claras deixando aqui e ali escapar um raio de luz solar. 
Quando acordei, a noite já tinha chegado, levantei-me leve, vesti o impermeável e fui passear o cão. Senti que nada me tinha derrotado, nem o silêncio da escuridão, nem a chuva mansa, ela sim, tristíssima.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Post.it: Quantos olhares há nos olhos?

Que olhos nos olham? Com que desejo, perspetiva, com que sentido o da razão ou do coração. Nunca seremos totalmente quem somos, na leitura dos outros, na nossa própria leitura. Poderíamos ser diferentes, melhores, dizem os pais, os amigos, os amores. Mas aí, na verdade, seriamos nós?
Nós que somos imperfeitos, cheios de manias,  hábitos, de egoísmos, de narcisismos, daquilo que fez os outros aproximarem-se e, em algum momento até, gostarem de nós. Claro que a beleza física também é causa desta atracão, mas o que os faz ficar, depois já não é esse desfile de vaidade pela conquista, é antes o sentir-se de alguma forma, conquistado.
Terá sido o olhar, o sorriso, a tonalidade da voz, a sua inteligência, a sua generosidade, tranquilidade, confiança, talvez, tudo isso, talvez nada disso, apenas o nosso olhar sobre esse alguém que lhe deu a forma da nossa vontade.
Foi o encontro que esperávamos, que aconteceu e a partir daí tudo é composição, desenho da alma, esboço do nosso querer. Culpa do amor, que nos ama, que nos faz amar e que nos/vos idealiza, o amor dos pais, dos amigos, dos namorados…
Por vezes o amor vacila, há momentos em que nem sempre o sol brilha e quando isso acontece, veem o nosso (lado lunar). Não acreditam, acusam-nos de termos mudado, acusam-se de terem mudado, querem recuperar-nos no que eramos ou desistem e partem à procura de nós em outros, chegam a encontra-los ou a acreditar que sim. No fundo nunca foi a nós que viram, não foi a nós que amaram. Porque quem nos vê, quem nos (vê) realmente, com todos os sentidos, ama-nos, nos defeitos e nas virtudes. 
Ama-nos, não por sermos perfeitos mas porque de alguma forma as nossas imperfeições conjugadas com as suas complementam-nos, tornam-nos seres melhores e de vez em quando, até, mais felizes.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Post.it: Escapa-nos

Por mais atentos que estejamos escapa-nos sempre algo, aquele instante que, quem sabe, teria sido o melhor da nossa vida.
A vida é feita de coisas boas que nos escapam e de outras más a que nos agarramos tentando dessa forma, esquecer. Porque tudo o que existe, existe no tempo, um tempo que se manifesta e prossegue na sua contínua viagem sem se deter, indiferente aos nossos desejos, indiferente ao nosso próprio tempo. Por vezes, esse tempo, parece até, rir-se de nós, quando o deixamos escapar, sem o abraçar, sem o sentir a crescer em nós, como se nos fosse semente de esperança, de energia impulsionadora para algo que poderíamos fazer e não fazemos.
Nem sempre temos noção desses momentos, passaram tão depressa que os sentimos como sopro de vento, então dizemos, poderia ter sido mas não foi, poderia ter-nos acontecido mas não aconteceu. Será que não aconteceu, ou fomos nós que deixamos passar o momento a oportunidade, por distracção, por medo de agir, por confiança de que surgirá outra. “Não era para acontecer”, como nos acomodamos nessa ideia de conforto, assim, a culpa, nunca é nossa, mas do destino. Pobre cruzado e cruxificado culpado sem culpa formada e condenado sem julgamento. 
Talvez, na realidade, independentemente da nossa vontade, da nossa força, da nossa coragem em agarrar tudo o que a vida nos oferece ou aquilo que conquistamos, mas ainda assim, escapa-nos, consegue fugir de nós e deixar-nos com a desilusão de quem quer reter a areia entre as mãos mas acaba sempre com elas vazias.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Post.it: Milagres

Foi um fim de semana de “milagres”, muitos assim lhe chamaram. E porque não? Tudo correu bem (para alguns), para muitos inclusive, não para todos, porque para haver uma vitória, quantas derrotas ficam por contar. Para haver um vencedor, há sempre um outro que perde, com mais ou menos fair play. A cada riso de quem toca o topo, quantas lágrimas ficam pisadas no chão.
Mas também há os que são mais positivos, os que nunca desistem, os que não deixam de regar a esperança impedindo que sucumba ao inverno da gélida negatividade, um dia, quem sabe também a vitória lhes sorrirá. Seja em que atividade for, em que língua aconteça, em que circunstancias ocorra, há-de suceder, porque não?
Afinal, por vezes,   os milagres acontecem. Aqui e ali, pequenos momentos que se concretizam, que nos realizam, que nos fazem voar mesmo sem asas, que nos fazem acreditar que conseguimos chegar mais além do limite delimitativo do nosso horizonte existencial.
Chamamos-lhes milagres, queremos que sejam milagres, porque acontecem inesperadamente, porque nos parece impossível e torna-se  possível, porque são aquilo que nem sequer nos permitimos sonhar, desejar, acreditar, lutar,  já quase tínhamos aceite como inexequível.
E no entanto quando acontece, há um silêncio, uma ausência de palavras, nem sequer chegámos a inventar um discurso de agradecimento. Mas até mesmo sem palavras, agradecemos com a comoção em uníssono de todos os sentidos. Rimos, choramos, pulamos, caímos de joelhos no chão, ou perante a surpresa, ficamos apáticos e, nesse instante, por milagre, por magia, por qualquer coisa em nós, escuta-se o coração não no seu batimento muscular, mas na sua explosão de emoções em devota e grata voz.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

Post.it: A ilha que sou

Por vezes imagino-me numa ilha, náufraga de sonhos perdidos, de fantasias perdidas. E nesse isolamento reencontro-me, sou-me parceira, amiga, sem contudo sentir de tudo o resto solidão. Há uma felicidade que me inunda, há uma paz que me aconchega. Deixo os passos na areia, sem outros por perto, regresso ao mesmo caminho só para lhes fazer companhia. Mergulho o olhar no oceano, ouço o seu doce murmurar em amena cavaqueira com o sopro do vento, conversam como se ninguém os estivesse a escutar, falam de tempos já perdidos por entre dunas de esperança. Eis que então, o mar  alteia uma crista de onda enquanto se ri de tão ridícula lembrança. A areia quente adorna suavemente o solo em volta das árvores num abraço tão familiar que nem o vento tem coragem para os tentar separar. Ao fundo uma montanha, não será muito alta, mas surge como que gigante perante a minha diminuta existência. Não sei se a suba, e se a subir não sei se a desça, gosto de a ver distante, encosta protectora das maiores tormentas, intempéries da terra e tempestades do mar. Lá de cima talvez veja tudo, este meu pequeno mundo, deserto de vidas humanas, vazio de existências vivas,  prefiro imaginá-lo grande, infinito, habitado pela bondade, pela consideração, dedicação, partilha e liberdade.

E nesta ilha que imagino estar, neste paraíso onde em certas ocasiões habito, de tanto a querer, de tanto a sonhar, sinto por vezes a maravilha de nos mais belos momentos tornar-me nela…

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Post:it: Poemas com rima

Gosto de poemas com rima, dá-me  uma sensação de coisa arrumada. Gosto da cadência fonética, quando os sons parecem chuva de inverno, umas vezes mansa e suave, outras em força e brusquidão quase impositiva como que exigindo que a deixem entrar.
E nós em casa, sequinhas vamos gozando com as gotas grossas que embatem na janela e deslizam até ao chão, derrotadas na sua intenção de chegarem até nós e nos encharcarem de água.  E nós sequinhas dela, um quase luxo, um verdadeiro prazer, o nosso lar quente, aconchegante e lá fora uma inundação de mágoas do céu que vão formando  um rio sem rumo descendo a rua pisada pelos passos da indiferença.
Gosto de poemas que contam uma história mesmo quando não é feita de vitória. Porque contam a vida, por vezes a nossa, escondida numa qualquer combinação métrica.  A vida que não se inventa, por vezes recria-se dentro de nós, recomeçamos, mas  sem a fantasia romanceada de um breve folhetim.  Poemas de quem passa e mesmo passando, fica, quando lemos, quando sentimos o seu toque na pele dos sentidos.
Gosto de poemas que têm emoção, que caminham sem pressa e chegam ao coração. Poemas de começo de tarde, que nos aquecem, que nos enchem de palavras embalantes e buquês de flores campestres. Poemas com alma que nos adornam com uma tépida calma, gosto da sua voz que nos invade cada recanto silencioso dos nossos torpores, dores e medos, trocando-os por encantos, e encantados prantos, que nos adormecem e anestesiam as paixões, razões e contradições dos seres que irremediavelmente somos.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Sem utopias


De repente um deserto,
Invade toda a cidade.
Sem nada de certo,
Nem a própria idade.

De repente a escuridão,
Cega de tanta luz.
Como se ao coração,
Nem o amor o seduz.

De repente noites sem dias,
Amanhãs cheios de ontens.
Aprende-se a viver sem utopias,
Sem sonhos, sem miragens.

De repente cresce em nós,
Um tempo de arvoredo.
Foram filhos, pais, agora avós, 
E a vida é-nos magistral segredo.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Post.it: Outono

E o outono? E o outono? Gritam os fãs desta estação, sentindo-se quase que discriminados, ou totalmente esquecidos das minhas palavras. Não falei do outono, é-me difícil, porque o sinto tão profundo em mim, que tenho receio de que as minhas parcas palavras não lhe façam justiça. Uma estação, quase um apeadeiro, uma quase paragem, não para ficar de braços cansados e desistentes, mas de braços que oferecem abraços. 
Porque apetece abraçar as árvores que ofereceram sombra e no outono deixam as folhas cair, partir. Prometem voltar, mas quem não conhece as promessas vãs das partidas? Todos nós que já lhes acenámos, todos nós que sentimos uma fonte de saudade a invadir-nos o peito. Sim, há-de voltar mas se assim não for, que esteja onde estiver, feliz.
O outono seco, amarelo, dizem que murcho, triste, não! Apenas nostálgico, porque não tem a eufórica ventura do verão, mas rejubila por não ter igualmente a dureza do inverno. 
É uma estação de terna consolação. Uma cadeira no adormecer da noite, uma dolência na frescura das tardes. Aquela imagem das crianças quando vão para a escola, com roupas novas, com livros cheios de saberes, alegres por reencontrar amigos. As praias cada vez mais vazias, os parques da escola cada vez mais cheios, os risos são os mesmos, infantis, ingénuos, sonhadores, repletos de esperança. 
Os pássaros cantam suaves melodias, e com a sua música dizem aos filhos que está na hora de também eles voarem. Já apetece tapar os braços nus, já apetece apertar contra o peito o casaco de malha, já sabe bem caminhar por tapetes de folhas sem o calor nos cansar. Já apetece ficar a ver o mar sem desejo de nele mergulhar, sentindo-o embalante no seu movimento.
Mas ainda é cedo, demasiado cedo para receber o outono, para o viver, para o sentir, cada um à sua maneira, uns com vontade de voltar ao passado, outros com o anseio de chegar rapidamente ao futuro. Quanto a mim, não tenho saudades a prender-me ao ontem, nem tenho pressa do amanhã, quero simplesmente vivenciar o hoje, qualquer que seja a estação.




terça-feira, 2 de maio de 2017

Post.it: Há sempre uma outra primavera!


O inverno é mais belo quando se despede, porque fica dele a saudade, dos ventos que dançam nas árvores, das chuvas que nos encobrem as lágrimas e servem de desculpa para o riso adiado. Porque faz frio, porque me doem as mãos, a alma, o coração. Depois há a neblina, o denso nevoeiro, a solidão, a escuridão.
Mas quem esquece o calor da lareira ruborizando o rosto, o chá fumegante, a maciez de uma manta aconchegando o corpo. O livro que conta uma história diferente da nossa. A música que nos embala ternamente os sentidos.  
Mas eis o equinócio, odiamo-lo porque nos aproxima cada vez mais do verão, do seu intenso calor, da falta de brisas, do suor descendo em nós como se fossemos uma avenida de curvas e contracurvas, as roupas coladas à pele, as sombras na explanada todas ocupadas, os gelados que são frescos mas não refrescam e apenas nos oferecem dolorosas calorias, o mar convidando ao mergulho com ondas amigas ou traiçoeiras que nos abraçam mas também roubam vidas.
Ainda bem que pelo meio há uma suave pausa, um “feriado” no tempo, entre um adeus e um olá, a chegada branda e perfumada dos horizontes primaveris, a festa das andorinhas, o renascimento da natureza, os ovos despontando nos ninhos, o céu coberto de um azul brilhante, a vontade de olhar a vida com todas as cores do arco-íris, voltar a sonhar mesmo depois de acordar. 
E dentro do peito resplandece-me por instantes, a primavera de me sentir flor…

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Post.it: As companhias

As pessoas surpreendem-nos, chocam-nos, magoam-nos. Foi assim que reagi, com um destes sentimentos, talvez o menor, porque as notícias foram-me dadas a conta-gotas, como um medicamento que começamos com uma dosagem baixa, por não sabermos quais os seus efeitos secundários, só sabemos os sintomas da doença enquanto que os do tratamento, podem por vezes ser piores antes de começar a melhorar, antes de, com sorte, curar. 
Não soube como reagir, afinal já passaram 2 anos desde o acontecimento, mas soube-o agora,  magoou-me neste exacto momento, não como se tivesse passado tanto tempo, mas como se as palavras carregadas de hediondas expressões fossem neste preciso instante proferidas. 
 Não sei como reagir, zangar-me? Não parece ter sentido, nem sequer merece apena, pelo acontecimento e pela pessoa em causa. 
Acho que vou deixar passar outros tantos anos, talvez 20 e no entretanto, esquecer. Afinal já não faz sentido, aliás nunca fez, coisas que se dizem simplesmente porque as pessoas são pouco confiáveis, tanto as que por alguma razão que não compreendo, resolvem inventar coisas sobre nós, com até as outras que 2 anos depois resolvem contar essas “verdades”. 
O tempo e a erosão pessoal de cada um acaba por conferir a tudo outra dimensão, acrescentando-lhe um ponto, que se torna um conto, mistura inflamável de fantasia e rancor. 
As pessoas, são com que rios com águas, umas mais pacíficas, outras mais turbulentas, nem sempre chegam a formar tempestades, apenas insignificantes ondas de baixa auto estima que vão expandindo em círculos de má energia. 
Magoa-me porque deixo que me atinja no peito aberto e sem defesas, no sentimento crédulo de que as pessoas são necessariamente boas. Esqueço-me, demasiadas vezes, que as pessoas são o que são e que reagem por instinto básico às suas necessidades de sobrevivência. 
Magoa-me não perceber a sua dimensão, o seu mundo de interesses, a sua cadeia de conveniências. 
Mas também há surpresas, porque se me deixo magoar pelo inesperado, às vezes acontece o imprevisto, a humildade, a solidariedade, a credibilidade, por isso e apenas por isso, aceito as mágoas e faço delas um passo em frente. Tudo é caminho, as flores e os espinhos, o sol e a chuva, o cair e o levantar, o rir e o chorar, as chegadas e as partidas. Tudo é caminho acompanhados ou sozinhos, o importante é que nós sejamos a nossa mais agradável companhia.



segunda-feira, 24 de abril de 2017

Post.it: Liberdade sim...

Houve um tempo, demasiado tempo em que as vozes da liberdade combatiam  por entre sons de murmúrios. Havia medo, não das forças da autoridade enquanto forças de lei, que lhes dava mais incentivo, mais coragem,  mas da sua incompreensão e intolerância activa.     Lutava-se por causas justas, defendiam-se direitos de integridade, de legitimidade, de verdade, de liberdade. Queria-se ter o direito de dizer não e que cada sim fosse fruto de uma opção não condicionada.
Houve um tempo, lembro-me dele, mais pelo que me contaram do que por o ter vivido, ainda não tinha idade para compreender o que significava ter o espirito enclausurado, as ideias agrilhoadas, os sonhos acorrentados, os desejos presos condenados sem julgamento e sobretudo, sem culpa.
Houve um tempo que até era quase proibido rir, e com medo, riamos e chorávamos da nossa desgraça apenas nas quatro paredes do nosso lar.
Quarenta e alguns anos depois de acontecer o 25 de Abril, muito mudou, quase tudo mudou, ou talvez não.
Hoje tornou-se proibido proibir, e diz-se tudo, o importante e o que não interessa, porque há quem tem necessidade de falar gritando com palavras vãs, só para, talvez, ouvir mais alto que a voz dos outros, a sua.  Numa  “revolta” de tudo, ou apenas de não saber crescer com respeito pela sociedade onde vivem. Uma sociedade que talvez não os saiba abraçar, que  não os aconchega num leito de carinho, que  não lhes dá tudo o que desejam.
Mas, sempre assim foi,  a vida é feita de conquistas e não de direitos por nascimento.  Devemos-lhe respeito por todos os que a compõem  e sobretudo, respeito por nós que a pisamos, julgamos, condenamos esquecendo que ela é unicamente o  retrato de cada pessoa que a destrói em vez de a construir.
Hoje que há aparentemente liberdade para tudo, erguem-se bandeiras de alforria e aqui e ali rouba-se a liberdade dos outros, entram nas suas vidas, obrigam-nos a ouvir a sua “música” poluente dos nossos sentidos, aceleram nas estradas e atropelam-nos a vontade. Já não são as autoridades, são pessoas como nós, pessoas ávidas de si, indiferentes a todos os outros.
Precisamos,  não de outro 25 de Abril, mas de recordar os seus valores, de que liberdade ele nos trouxe. 
De homenagear os que pereceram ao lutar por ela, com respeito pela sua conquista, pela sua integridade e lealdade patriótica. Ainda há muitos direitos por conquistar, ainda há muita injustiça social, mas hoje, grita-se tão alto que já ninguém escuta. É preciso fazer silêncio para falar e para ouvir. É preciso fazer silêncio para que a liberdade fale em cada um de nós e nos una num todo de solidariedade, de humildade, de respeito, de maturidade e de plena humanidade.


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Post.it: Pequeno mundo

Sinto o papel a escrever-me nos dedos histórias que nem eu consigo inventar. E elas surgem detalhadas, precisas, cheias de vida, de vidas, da minha também. E nessa escrita apressada, há uma urgência de voz.
Por todos os silêncios que me ficaram calados ao longo do crescimento, da infância que de infância apenas teve o nome, a idade, porque sempre me senti adulta, na responsabilidade, nas tarefas, na exigência do parco existir.
Talvez por isso me tenha alimentado de fantasia. Até que um dia, as sensações, as emoções ganharam clamor e começaram a jorrar-me em cascatas oceânicas manchando de tormentoso azul o imaculado papel.
De repente, arrependo-me e num gesto aflito tento apagar tudo o que escrevi com a manga da camisola, mas a tinta derramada, insiste em permanecer e continua a estender-se em linhas que querem desenhar o infinito e ir para além dele.
Então, atrevo-me a sonhar, atrevo-me a voar e sou livre. Pela primeira vez sou criança sem idade, rio-me, sou inconsequente, nada temo, esqueço por um breve instante que sou uma vida sem sentido mas com uma direção, a de seguir, cumprir, obedecer, em silêncio de palavras, de olhares, de lágrimas. 
Mas isso é depois, agora permito-me ir além de tudo, do meu pequeno mundo, do quarto escuro, da sala de estar onde não tenho permissão para entrar sozinha, da cozinha que é o meu minúsculo pátio de recreio, contudo grande, imenso, para alguém que nunca aprendeu a brincar. Felizmente, aprendi a escrever e  com isso o direito e a liberdade de ser quem sou…