sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

Post.it: É aqui que pertenço

“Não quero morrer sem ver a cor da liberdade” (Jorge de Sena)

“Não quero morrer sem ver a cor de um país sem crise” Acrescento…

Sempre que acordo, ouço nas notícias da rádio, novas soluções económicas, mais problemas para quem tem de as suportar. Essa curta manta que quando puxada para a cabeça destapa os pés,  (alusão a uma frase do Clube dos poetas mortos).
Pergunto-me se Jorge de Sena procurava a eternidade ou se acreditava realmente que um dia a cor da liberdade iria realmente surgir. Felizmente ela surgiu e ele pode descansar feliz.
Quanto a mim, confesso a minha cada vez menor crença e por isso, talvez, procure mesmo a imortalidade, uma desculpa para me eternizar neste recanto do mundo, que tem crises, erros numa suposta democracia, usurpações nos direitos do cidadão, nos direitos humanos, no direito de nascer e crescer feliz. Mas é este o meu pais, aquele que me foi pai  que me foi mãe, que me ensinou lições de humanidade, de cidadania, valores de moral e de ética, ainda que talvez com aquela máxima do “faz o que te digo, não faças o que eu faço”, mas não deixou de à sua maneira de faze-lo, de perpassá-lo do passado para o meu presente. Deixando-o como herança para o breve e o longínquo futuro.
Por vezes tal como um filho que lhe vê negado um pedido, revolto-me, grito, choro, amuo, faço silêncio sepulcral, ameaço partir e nunca mais voltar, mas fico. Que fazer? É aqui que pertenço, já conheço cada pedra da calçada, vou conhecendo/reconhecendo até cada buraco da estrada. Já conheço cada raio de sol, cada noite com ou sem luar, cada onda de intranquila maré que se estende suave no areal, cada grão dessa praia, cada estrela que brilha na escuridão.
Mas gostava, gostava mesmo de não morrer sem ver este país florescer, deixar de ser “lixo” para as estatísticas. Voltar a reacender o sentido e o gosto de ser português, um povo sereno, trabalhador, lutador, conquistador de mares desconhecidos, afável, bom anfitrião. Esse português latino de guerra e de pranto, lamechas, pessimista, mas todo ele uma fortaleza de excelsas vitórias. Com um fado que lhe cresce na alma, e a eterna saudade de ser um passado que deseja no futuro continuar a ser glorificado e a levar de si testemunho por todos os cantos e recantos do mundo. 
Não quero morrer sem que Portugal deixe na terra os contornos geográficos da esperança e todos nós rememos finalmente na mesma direcção, porque se for preciso navegar para conquistar a felicidade, navegaremos, com os olhos no mar e o coração em terra. Navegaremos e com cada gota de água salgada feita de lágrimas e de riso, construiremos o nosso pequeno/grande paraíso na face lunar do destino. Entretanto, vou acordando ao som das notícias, sempre pouco animadoras, mas no meu peito o coração rejubila de expectativa e espera, por vezes quase desespera, é hoje, é hoje que renascemos das cinzas como uma Fénix que vai finalmente levantar voo e voltar a ser na ponta da Europa um jardim à beira mar, com um largo e franco sorriso, porque finalmente tem motivos para sorrir. Não foi hoje, mas talvez não demore a chegar ao cais a solução. Eu acredito, sou assim, não consigo desistir de ter confiança, fé, desejo, vontade. Nunca deixarei de lutar, está-me no sangue de ser portuguesa!

sexta-feira, 10 de Outubro de 2014

Post.it: A alegria de ser triste

Levamos uma vida inteira em busca de algo. Damos-lhe um nome: Felicidade. Procuramos em  cada dia, em cada hora, em cada estrada, em cada esquina da vida, em cada noite desperta, em cada luar apagado. Em cada criança que nasce cheia de esperança, a sua, a nossa.
Procuramos em cada sonho dormido, em cada fantasia acordada, em cada desejo, em quase tudo, em todo o nada.
Buscamo-la na fé, seja de que religião for. Buscamo-la nos outros, em nós. Buscamo-la no amor, por vezes até a buscamos na solidão.
E quando, um dia, adormecemos para a vida,  quantas vezes e quantas vezes é uma partida marcada pela angústia de nunca ter encontrado esse algo, a que demos tantos nomes, o de pessoas, de lugares, de sorte, de um querer com tantos momentos em que quase, mas apenas quase, vislumbrámos esse ideal de perfeição com que somos brindados se o nosso caminho a ele nos conduzir.
Mas será assim, mesmo assim? Já vi pessoas maravilhosas viverem num contínuo inferno, já vi pessoas pérfidas viverem no mais plácido céu.
Onde está a justiça, o reflexo das nossas acções? Questionamos, uma, mil vezes. Cometemos um erro de lógica, quando nada na vida segue uma lógica na espera de  um eco que não se propaga.
Está mais do que na hora de deixar de procurar, deixar de esperar, para que a vida, tal como existe nos aconteça, e a vivamos sem questionar, sem revolta, sem comparação com o que poderia ser e nunca é. E a felicidade que procuramos como se fosse o mais precioso diamante, nada mais é do que pequenas gotas de orvalho reflectindo o sol da madrugada. “Só a realidade existe, só a verdade nos assiste. E a felicidade é de quem não desiste,  de viver a alegria de ser triste”.


segunda-feira, 6 de Outubro de 2014

Post.it: É longe...

É longe, é sempre tão longe antes de se dar o primeiro passo e o seguinte e o seguinte. De repente tudo fica mais perto. É claro que ainda não está suficientemente perto para lhe tocar com o olhar. Que ainda se estende para lá da linha do horizonte. Mas se cada passo continuar a seguir-se ao anterior e permanecer firme em busca do seguinte, um dia, o longe será perto.
Quase  o suficiente para lhe tocar com a ponta dos dedos, para o sentir a entrar no peito numa sensação de vitória. Porque nunca foi um sonho, mas um projecto, um início de percurso. Por uma estrada que mais tem mais do que esperança,  tem vontade, tem muito, tem quase tudo de nós.
“Já não tenho idade para reconstruir a vida, para me reinventar, para começar de novo, para voltar a acreditar”.
Mas o que tem tudo isto que ver com a idade? Tem apenas com a vontade. Tem que ver com o que somos quando nos libertamos do que fomos.
O futuro é essa porta que abrimos, é esse caminho que nos convida a segui-lo.
Sim, é longe, continuará a ser longe se não o encurtarmos.
E por mais longe que seja, certamente, lá chegaremos. 
Não perguntes “como”, pergunta antes “quando” e eu te responderei “quando tu quiseres”…

quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Post.it: A paisagem

A paisagem é sempre o que quisermos, essencialmente o que somos, porque ela é vista por um olhar, apreendida por uma consciência, valorizada por uma experiência, julgada por uma estética, apreciada por uma moral, desenvolvida por uma política. Quando a paisagem nos entra pelo olhar, sobe à consciência e é analisada pela experiência, tocada pela beleza da estética e observada pelos valores individuais de cada um. E numa tentativa de harmonia a razão insurge-se em prole do naturalismo com argumentos científicos, mas o coração, num compasso descompassado entra na discussão, acelera-se-lhe o sangue cresce o fulgor – a fé. Só a fé, responde – pode conceber tal natureza dessa paisagem que se nos oferece.
Enquanto isso, o sol, alheio aos debates da ciência, do humano ou da religião, continua no seu trabalho, quase missão de florescer primaveras, de aquecer verões, de iluminar invernos, de aconchegar outonos. O vento sopra gargalhadas pela vã disputa, as árvores erguem-se em majestosa indiferença, o céu desinteressado de tal disputa, continua a estender o seu manto azul sobre o dia, o mar no seu vai e vem tenta escutar, tenta quem sabe, até algo acrescentar mas o movimento contínuo das águas fá-lo desistir. As rochas numa imponência desafiante obrigam a um renovado e atento olhar, como as explicar?
De repente um silêncio que nos mergulha no peito, calam-se as dúvidas, emudecem as científicas certezas; quanto tempo se perde na tentativa do Saber e tão pouco nos fica para o Sentir.

sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

Era uma vez: Vida

Era uma vez…
Um grão pequenino, caído na terra.
Veio a chuva, o vento. Vieram o sol, as nuvens, a chuva e outra vez o vento.
No segredo da terra, o grão já era rebento, a  fazer-se raiz à procura do sustento e caule em busca de luz.
Nasceu, pequenino, verde, encarquilhado.
O sol sorriu-lhe e aqueceu-o
Ele espreguiçou as folhinhas enroscadas no caule e recebeu a luz e sentiu a frescura da brisa e bebeu do orvalho da manhã.
Confiou na terra, no sol, na chuva, no vento e deixou que a fizessem erva alta, a crescer em busca do céu. Frágil, bailando na brisa, depressa se fez forte, sustendo o esboço de espiga, querendo ser trigo.
E em redor, milhares, talvez milhões iguais a ela, um mar de verde a brilhar ao sol e a ondular ao vento. Verde, muito verde, à espera, confiando no sol que haveria de torná-la seara dourada.
E o verão chegou. Intenso, quente, luminoso.
A seara, dourada, bailava na brisa, à calma da tarde.
E a espiga, crescida baloiçava-se feliz, no topo do fino caule, debruçada sobre a terra que a fizera nascer.
A erva alta deixava-se embalar pelo vento e ouvia os grãos a crescerem na espiga, com ânsia de se fazerem pão. E ela, cansada, sentia uma alegria que não podia explicar.
Seria o sol? Seria o dourado da seara? Seriam os grãos a crescer?
Não!
Era simplesmente a vida, vivida, sentida, cumprida!
Deixou-se ficar serena, à luz da tarde, a saborear essa vida que recebera e agora oferecia.
E sorriu, de felicidade, simplesmente por existir.

Nota: Dedico este pequeno texto a Olhares, pelo seu aniversário. PARABÉNS, pelo que é, pelo que escreve e pelo que oferece à vida de todos nós.

quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

Post.it: O barulho

“O bem não faz barulho e o barulho não faz bem”.

Ouvi esta frase, que quase parece um trocadilho, há muito anos, tocou-me fundo no peito, moldou-me os sentidos, fez-me crescer num repentino despertar de aprendizagem.
Quem me dera que me tivesse sido dita antes, muito antes, quando ainda mal soletrava as letras, quando o mundo se revelava meu e eu ingenuamente, egoisticamente acreditava. Segui pela estrada fora exigindo a vassalagem das pedras, subordinação das árvores, submissão dos mares, sujeição dos ventos, exigindo um céu azul, um sol brilhante. Criticava a vida, obrigava, gritava direitos de puro nascimento, fazia barulho, tanto barulho que passado um tempo, só o silêncio escutava.
O silêncio que como um pai paciente e amoroso, esperou até aos últimos resquícios de fulgor, pelo pacificar da alma, pela ternura, pela calma. Então, só então, como quem fala de banalidades, lançou discretamente aquela frase.
 Escutei-a, repeti-a uma, mil vezes, buscando-lhe o sentido e de cada vez que a murmurava no pensamento, soava-me diferente, mais intensa, mais verdadeira, mais necessária, mais urgente.
Abracei-a, senti-me abraçada por ela, não como um encontro, mas um reencontro. Como quem sabe que algo de importante, de essencial existe mas que ainda não se cruzou com ela. Quando há o encontro, acontece o reconhecimento, envolta numa espécie de saudade “esperava por ti, como demoraste…” Sim, podia dizê-lo, porque o senti, mas o que importa…, o que importa é que chegaste.
Talvez na hora certa, quando estava finalmente preparada para ti. Para te receber em mim e te transportar no peito e quem sabe um dia oferece-la como se fosse banal, até porque devia ser, se nos fosse naturalmente inata, uma célula que herdamos ao nos tornarmos vida.
 E tu estás preparado para ela? Só tu, com todos os teus sentidos, todos os teus valores e vivências, o saberás. Se esta frase te tocar, te enlaçar e tirares dela algum sentido para o caminho, então, sim, estás...
O bem não faz barulho, cada oferta que damos à vida, de ser feita sem alarde, ela sabe agradecer, sabe retribuir.
O barulho não faz bem, incomoda, magoa. É um gesto de quem não se importa com o outro. Por vezes, muitas vezes, só o silêncio entende, só no silêncio está a solução, quando o barulho que nos vai crescendo por dentro já não consegue escutar a voz do coração.



terça-feira, 9 de Setembro de 2014

Post.it: Penso, logo insisto...

Insisto em prosseguir nesta viagem, descobri-la, construí-la com materiais que vamos ganhando, que vamos conquistando. Construí-la com o cerne do que somos e aí nos revelarmos corajosos prosseguidores, navegadores por entre vendavais; escultores de caminhos que adquirem o rosto do tempo.
Por vezes desenhando sorrisos que nos elevam e então, ganhamos asas e o caminho torna-se mais fácil, mais leve.
Uma viagem que nos leva longe, mesmo quando não saímos do local que nos viu nascer. Uma viagem que nos revela todos aqueles que estão próximos e todos os que se aproximam, que chegam e nos dão  testemunhos de um amor que se sobrepôs a tudo até à dor.
E nessa herança de experiências que partilham, dizem com ênfase de milenar sabedoria…
“É preciso insistir”,  para não ceder à vontade de desistir, de parar, de voltar para trás, e permanecer no velho  e conhecido conforto.
É preciso insistir porque há mares à espera de navios, há margens à espera de pontes, há desertos à espera de fontes. Nós temos tudo isso no peito, nos rios de vida que nos correm dentro das veias e nos fazem hastear velas de esperança aos ventos de nortada. Mas se o vento nos encaminhar para o abismo, para desnorte, vamos contrariar-lhe a direção e tomar firme nas mãos os remos de um novo rumo. Porque até a sorte se faz, no amassar dos dias, no levedar das noites, em fornos de alento. Pode ser duro o momento, mas dele sairá a mais prazerosa sensação de vitória.
Penso e porque penso sei…
Não tudo, apenas um pequeno nada, suficiente para que insista e tarde ou nunca desista. 
Penso, logo insisto que apenas existo para ser feliz…

segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Post.it: Setembro

Que nos traz Setembro? O começo de férias para uns, a nostalgia das férias passadas para outros. O regresso ao trabalho (para quem o tem) a espera de uma nova oportunidade. O cheiro a material escolar novo, a ânsia do reencontro de colegas de escola, a expectativa de novos rostos que olham os professores numa mútua descoberta. Um ano inteiro que se abre em portas e janelas. Um ano que no calendário se aproxima no seu ritmo certo para o final. Que na realidade nunca é um final, apenas e sempre um novo começo. Novas possibilidades, novas promessas, umas cumpridas, outras talvez não, fica para o ano...
Mas ainda estamos neste e não vamos apressar o tempo, nem antecipar o futuro. Vamos caminhar lado a lado, como se faz com um amigo que nos conta histórias e que ouve as nossas sem pressa de partir nem de chegar a algum lado. Sem ter outro lugar pra onde ir, está ali para nós, por nós, nas venturas e desventuras da vida.
Mas voltemos a Setembro que já estende a mão incentivando-nos a segui-lo na marcha dos dias, por entre o sol e a chuva.
Que sei do que se avizinha? Talvez os compromissos, as celebrações, coisa de agenda, coisas do coração, mas de tudo o resto que compõe a marcha das horas, que nos preenche os dias… 
 “Apenas sei das auroras/ e das sombras do luar/ do rodar das noras/ e das ondas do mar./ Apenas sei das ruas/ e das noites quentes./ De tantas mãos  nuas/De amores ausentes.” 
De tudo o resto sei pouco, muito pouco. O que desejo? Que cada dia acorde feliz e adormeça concretizado. 
Uns dirão que Setembro é apenas um mês no ano, mas ele é muito mais do que isso, é um mês repleto de coisas por realizar. 
É um dever torna-lo um pouco nosso, um pouco de nós na vontade de que seja vivido com muitos e bons momentos. Um mês que certamente ficará no passado, mas se ficar igualmente no futuro que seja por guardar boas memórias. Por tudo o que de bom nos deu, por tudo o que de bem lhe demos, nem que seja: um sorriso, um incentivo, uma presença, uma esperança, um estar aqui de alma e coração, para um amigo, um irmão, para “ninguém” que em algum momento se tornou para nós em alguém. 
Que nos exista uma felicidade em Setembro que se estenda aos próximos meses e porque não a todos os seguintes anos…



segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

Post.it: Agosto

E cá estamos, na última semana de agosto, como quem sente que é a despedida do verão. Um verão suave, sem grandes choques térmicos, sem grandes fogos, sem grandes histórias marítimas. Porque mesmo as pequenas já deixam as suas marcas, por vezes inesquecíveis. Mas o tempo passa e, dizem, tudo cura. Será?
Afinal, haverá outros agosto(s), a gosto de uns, com a tristeza de outros. E a vida segue o seu ritmo. Quem quiser, quem puder, que a acompanhe ou fique a ver passar, num qualquer cais de partida. Porque há sempre algo que nos parte, em cada dia. O sol, o luar, a onda que parece que volta, mas já não é a mesma, a que nos transporta o olhar, quem sabe, um pouco do sentir, do sonhar, do chorar. De esperanças que, no vai e vem, vão chegar, mesmo que depois tenham de partir. Pensemos positivo, uma tem de partir para que outras possam entrar na nossa vida e a levar para outras viagens.
São as viagens dos dias, dos meses, dos anos. E assim nasce a última semana de agosto, o único agosto do ano. Só sente saudade quem não o viveu em pleno ou quem pensa que nenhum mês será como ele. Mas pode ser. Afinal o que tem ele de especial?
- Nós, os amigos, o mar, o sol.
- Nós, que continuamos aqui pelo resto do ano.
- Os amigos, que também nos acompanharão.
- O mar, que está sempre à nossa espera em qualquer estação do ano.
- E o sol, que também nos brilha no peito quer faça chuva, sombra ou luz.
É apenas a última semana de um mês, prenúncio de outro. Apenas um mês, que existe para fazer a ponte com o seguinte e com a vida. A vida, que está sempre à nossa espera com mais um dia, uma semana, um mês… Só é preciso força e coragem para caminhar por ela e chegar. E lá chegaremos.


quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

Intervalo

Sou o intervalo que a vida fez,
Quando o dia na noite descansou,
Num abraço que nem o frio desfez,
O luar no raio solar se entrelaçou.

Nesse intervalo em que fui dia,
Nem impasse em que fui noite.
Mesmo na mais breve alegria,
O amor fez-me seu horizonte.

Longe, que de tão longe,
Só o alcança o meu olhar.
Esse ontem e esse hoje,
Por futuro tenho o sonhar.

Porque no intervalo fiquei,
Perdida no meio do nada.
Procurei, não encontrei,
Nada para além da estrada.

Feita de tantos passos por dar,
No seu contínuo e longo viajar.
Asa que foi condenada a voar,
Sem ter onde o cansaço pousar.


terça-feira, 19 de Agosto de 2014

Post.it: Agradeço a cada não...

Se queria algo e não o consegui, talvez não precisasse tanto daquilo como imaginava”.

E no entanto lutamos. Adormecemos e acordamos com o mesmo objectivo atingir a nossa meta. Todos os dias podem tornar-se iguais em batalhas e derrotas. Até que a um dado momento, percebemos o aviso da vida, do destino, das forças do universo, sei lá…
Algo que nos diz que se o que queríamos nunca o conseguimos, se o  que sonhámos não aconteceu, se aquilo que lutamos não conquistámos, então, não era mesmo para acontecer, não fazia parte da nossa existência e a verdade é que desistir não pode ser considerado uma fraqueza mas antes a coragem de reconhecer que está na hora de seguir em frente, de fazer outras escolhas. Afinal, tentamos, tentamos muitas vezes, demasiadas (dizem-nos), talvez, suficientes para por fim reconhecermos que já não valia a pena.
Por isso em cada hoje sinto que venci e agradeço a cada fracasso a capacidade, a coragem que me fez superar os mais difíceis obstáculos. Agradeço a cada “não” ter-me levado a procurar o “sim” com tenacidade e persistência.
Agradeço ao que não consegui, ter-me feito escolher outro caminho, que talvez tenha sido melhor que o anteriormente desejado.
Agradeço à razão ter superado o coração e evitando sucumbir à efemeridade da paixão, à futilidade do desejo.
Percebo então a verdade  desta frase, “Se queria algo e não o consegui, na realidade não o queria tanto como na verdade supunha…

segunda-feira, 11 de Agosto de 2014

Post.it: Viagens

Quem viaja diz que quer conhecer o mundo, outros povos, outras culturas, paisagens diferentes, monumentos, etc., tudo o que nos conta uma história, tudo o que nos revela o que fomos. 
Quem viaja quer partir à descoberta do que está longe, sair do seu conforto, desbravar caminhos da memória. E sem saber que esse mundo, esse povo, essa cultura, conta histórias não só dos outros mas a sua própria história. Na forma como se olha, na forma como se sente. 
Quem viaja parte, e parte porque quer regressar ao seu porto seguro, ao seu lar, a cada abraço que ficou à sua espera. Cada viagem é um nascimento, um peito que se abre e recebe cada outro. 
Cada passo não nos leva para outros horizontes, leva-nos para dentro de nós na revelação do nosso crescimento. “E há fronteiras exteriores que nos reenviam de forma persistente para uma fronteira interna e não há ninguém que caminhe sobre o mundo que não acabe a um certo momento por dar-se conta, talvez com alegria talvez com dor, que vem caminhando sobretudo dentro de si”. 
Porque nos buscamos aqui e em todos os lugares. Porque nos achamos nos mais recônditos espaços e rimos ou choramos de emoção perante uma paisagem, um monumento, uma lenda, uma pintura. Cada viagem é mais, muito mais do que o planeamento, a marcação de hotel, o arrumar da bagagem, o cumprir horários, o caminhar, o fotografar, implica sempre uma mudança em nós, na nossa rotina, uma adaptação, um confronto com cada desafio, e o reconhecimento de que algo nos falta, essa realidade, esse tempo, essa linguagem, essa memória, o deslumbramento, o momento. 
Já não nos basta a janela aberta, nem a porta que se abre ao mundo, é preciso sair por ela, caminhar, navegar, voar em nós. 
Porque sabemos que por cada rumo certo é preciso de vez em quando andar à deriva, ao sabor do vento, da maré, ao sabor do sentir. 
E numa qualquer viagem da nossa vida talvez venhamos a ter consciência de que “nenhum país é mais estrangeiro do que o nosso coração”.


sexta-feira, 8 de Agosto de 2014

Post.it: E assim me nascem as primaveras

Procuro a coerência, o consenso, o senso comum, a verdade, o equilíbrio, a harmonia das cores, das formas, o casar das letras, a descendência das palavras, a geração multiplicada das frases para que o futuro seja escrito com a tinta celular da vida. E que esse futuro conte uma história, aqui e ali colorida, limada nas suas pequenas mas dolorosas arestas, que se torne um testemunho de crescimento, que construa caminhos para se aproximar cada vez mais da meta de ser feliz. Que ajude nas mais difíceis subidas, que auxilie nas mais longas descidas. Que seja um par de asas para voar até ao universo dos sonhos, aqueles que nos surgem enquanto dormimos, aqueles que nos acompanham enquanto acordados.
Que nos seja um suspiro, uma lágrima sem tristeza mas porque tocada no mais sublime sentimento nos seja na finitude da existência um dos mais infinitos momentos. Então realidade e felicidade numa união de facto consolidada, nunca serão saudade mas sempre e só continuidade. 
E tudo porque as vogais deram as mãos às consoantes e num porvir que se aproxima do amanhã foram por fim ancoradas viajantes escrevendo nas calmas marés a mais suave curva do horizonte. 
Então nasceram estrelas no mar, então cintilaram astros no céu e a terra estendeu abraços e dançou com os oceanos. 
A escrita desenhava linhas de paraíso que partindo do coração, passavam pela mão e tornavam-se revelação exultante de nós, nascente fecunda de todas as primaveras.



quinta-feira, 7 de Agosto de 2014

Post.it: Em nome do futuro

Ao longo da vida todos perdemos algo ou alguém. Também ganhamos algo, muito, mas comparativamente com o que perdemos, nunca chega a preencher esse vazio.
É uma dor que nos magoa bem dentro do peito e dói como se fosse uma ferida que não se vê, mas sente. Porém a medicina que tanto tem avançado cientificamente, ainda não encontrou cura, para a tratar, para a arrancar de dentro de nós, e se houvesse um tratamento rápido e eficaz, na verdade não o queríamos, precisamos desse luto para que cada final nos seja um renascimento, uma transformação, uma pacificação. Precisamos da dor para fazermos as pazes com o mundo, para aceitarmos as regras do universo. Não é fácil, nem com o apoio sempre disponível dos outros, esses, que são uma extensão de nós na amizade e na plena dedicação. É-nos sempre estranho este sentimento de perda, quando a vida nos rouba o que temos de melhor, de maior. Quando a doença lhe põe termo, quando um acidente coloca um limite ao seu futuro, mesmo não querendo, aceitamos. Mas quando uma guerra (uma incoerência do Homem) é a causa de tanto flagelo, de tantos pais sem filhos, de tantos filhos sem pais, então, é-nos humanamente impossível de admitir que uma violência mate indiscriminadamente vidas inocentes. Sobretudo quando por humanidade se define que são gente, benevolência, benignidade, bondade, caridade, complacência, compaixão.
Como podemos aceitar, conviver ou fazer a guerra? Uma guerra que mata em nome da paz e dos direitos humanos. Na verdade não podemos, não conseguimos entender e no íntimo de nós cresce a revolta a incompreensão.
Ao longo da vida todos perdemos algo ou alguém, felizmente, nem todos conhecemos certas formas de perda, todas elas difíceis, todas elas dolorosas, mas umas doem mais do que outras, sobretudo quando nos são causadas por pessoas que deviam construir e garantir o nosso futuro, destroem-no, aniquilam-no definitivamente.
E na nossa dor individual, e na dor dos que nos são próximos, chegam-nos outras dores, que embora distantes nos tocam de uma forma sentida e que nos fazem refletir sobre a nossa pequenez em como devemos sair dela e abraçar a magnificência dos outros, aqueles que ultrapassam o sofrimento da perda com a maior coragem, a maior capacidade de amar. 
Quando recebi a imagem que publico, tive necessidade de lhe dar palavras, de a estender, de a levar mais longe, de lhe dar a merecida visibilidade, para que a humanidade a veja, sinta e a receba e abrace. Tentei escrever, mas senti que nenhum texto por melhor construído que seja, que nenhuma intenção por muito solidária que se manifeste, conseguirá transmitir a dimensão sofredora e humanitária que nos deixa esta imagem e a sua história, por isso fica a vontade, o desejo de que ela nunca mais se repita em nenhuma guerra, em nenhuma perda. Porque toda a vida merece um futuro longínquo de pais com os seus filhos, de filhos com os seus pais.

segunda-feira, 4 de Agosto de 2014

Post.it: Quem vive de perto, escreve de dentro

De dentro de nós, de onde uma estranha e terna voz nos embala os sentidos. Desse fundo, o nosso mundo por vezes tão singularmente profundo que nos anda quase sempre á flor da pele. Toca e é tocado, abraça e é braçado. E desse toque quase subtil germinam em nós primaveras no peito, o mais quente e doce leito. Mas que em outros momentos fazem  aflorar vendavais na mudança das marés que trazem ao convés da alma, vagas ondulantes de mágoa e de esperança. Sentimentos enevoados pelo torpor da crescente e longínqua lembrança que desmaia suave na quentura das praias já quase desertas ao entardecer.
Enquanto as palavras que se escrevem no fino areal desfazem-se nos afagos do mar. Nessas areias que num remoto passado já foram rocha, tão forte, tão erguida aos céus, tão frágil, tão desmoronada aos encantos do vento quando ele lhe soprou promessas sem nunca as cumprir. “Não importa”, murmura o eco na orla do horizonte, porque acreditar é ser feliz. Se não acontecer, se não se realizar, fica a alegria do ter sonhado, do ter sentido. E no intervalo da chuva há um pouco de nós que não é molhado, que não é magoado e esse pouco, sendo pouco, sabe a tanto, quando tanto se tem de capacidade para o sentir.
Afinal basta estar por dentro, afinal basta estar perto de quem escreveu, de quem viveu, de quem leu, para o sentir, para o guardar. Esse efémero momento quando o sol se ergue faminto de beijos e a lua sonolenta de tanta noite, parte levando um sorriso matreiro no dia cresce. 
A vida, essa continua e, o amor, quem sabe um dia acontece…

domingo, 27 de Julho de 2014

Post.it: O que nos define

Tenho um passado que vos quero contar. Um passado feito de ontens. De dias difíceis, de invernos em pleno verão, de chuva, de vendavais marítimos, de desertos em busca de oásis. Um passado que me fez nascer, crescer e chegar aqui, a este lugar carregado de dias, meses, anos nunca suficientes para chegar ao almejado futuro.
Nem sempre escolhi, nem sempre tive opção ou segunda oportunidade. Tomei as minhas decisões, dei os meus passos, em alguns recuei, em muitos outros avancei.
 O caminho é sempre o caminho, com as suas curvas, subidas e declives, de vez em quando surge um percurso em linha recta, em terreno plano, nele descansamos a vida,  nele encontramos forças e razões para continuar. Não foi fácil, nunca é, se fosse não lhe daríamos o devido valor, faz parte de nós vencer os desafios que o viver nos coloca, precisamos deles para nos sentirmos inteiros.
O passado cinzelou-me o carácter, deixou-me no rosto traços de crescimento, marcas do caminho. Deu-me à alma a erosão de cada momento que passou.
O hoje é apenas a antecipação do amanhã, uma chegada de uma viagem iniciada no ontem. O passado já não é o que fomos, nem o que somos, mas simplesmente o que depois de tudo seremos.
Porque o passado pode marcar-nos mas não podemos deixar que nos defina.

Afinal não vos contei o meu passado? Não, claro que não, não aqui, onde tudo se ganha e tudo se perde com a mesma facilidade, aqui onde os conteúdos ganham expressão e vida própria segundo cada leitura. Mas conto-vos, conto-vos sempre que o queiram ver, ele está escrito no meu olhar.

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

Post.it: A amizade

“Tenha sempre o entendimento de que as pessoas estão na sua vida por alguma razão. Pense qual é a mensagem que cada uma delas tem para si”

Não sei porque as pessoas entram na nossa vida, porque permanecem nela ou porque saem. Só sei que isso acontece, sem prévio aviso, sem nos pedirem para entrar, instalam-se e são causa de alegria e também de alguns momentos de alegria. São pessoas que ligam à vida, que nos fazem sair da nossa ilha de tranquilidades e inquietações. São pessoas que nos agitam os dias, que nos despertam nas noites e nós corremos para elas, para lhes dar aquele abraço, aquela palavra de encorajamento, aquele silêncio que diz tudo, tudo o que precisam de ouvir. São pessoas que estão nas nossas festas mas também nos nossos momentos de solidão, que nos chamam de tudo de amiga, de irmã, de aconchego, de porto de abrigo. E quando me lembro como chegaram, sem significar nada, de passos pequenos, de sorriso tímido, de olhar perdido; vejo, sinto, o quanto nos cresceram no peito e sei que estava a sua espera, que tinha um lugar para essa pessoa, que precisava dela para crescer, para aprender a ter uma alma esculpida com o carinho da amizade. Juntas todas essas pessoas, as que entraram, as que saíram,  as que permanecem, acrescentaram um pouco mais ao meu ser, dando-me tanto de si…  De cada uma delas ficaram células de encanto, moléculas de fascinação, estrelas que brilham durante o dia e se tornam partículas de luar durante a noite, foram o meu sol de inverno, o meu farol nos vendavais.
Por isso quero expressar-te a ti, a cada uma de vós em particular, a minha perpétua gratidão e confessar: que seria eu sem ti? Sim sem ti, que me enriqueceste o sonhar, que me fizeste acreditar no futuro, que me construíste pontes  que me libertaram dos limites da minha margem, que entraste na minha circunferência e me retiraste daquele canto onde me tinha refugiado com receio, de nunca, nunca encontrar alguém com tu…

sexta-feira, 11 de Julho de 2014

Post.it: Pare, escute, olhe = Viva

“Pare e escute veja com atenção a mensagem que estão a querer transmitir”


Talvez aquela pedra que me fez tropeçar e dessa forma já não apanhar o autocarro e ali fiquei na paragem mais 15 minutos, inspirando de impaciência expirando de consolação. O olhar balouça entre o nada e o coisa alguma, depois fixa-se nas pessoas que entretanto vão chegando, consultam os relógios, os telemóveis, ajustam a roupa, compõem o cabelo. Saíram de casa com pressa, penso. Que pressa é esta que nos faz correr até tropeçarmos, até pararmos? Que vontade é esta de chegar a algum lado? Que necessidade é esta de atingir uma meta? Que desejo é este de construir caminhos, sonhos… Será apenas um impulso, um gesto de rotina, uma conquista, uma realização? Cada um terá certamente as suas razões, a sua história, a sua mensagem. 
Eu no meu mutismo escondo a dor da quase queda e começo a ver o lado positivo do incidente, o olhar, o ver os outros, o descobrir que há vida para além do meu horário, da minha pressa. Pressa de quê? Nem eu sei, sei apenas que vou, que sigo na marcha dos dias, que cumpro o meu destino, como se só ele me tivesse destinado sigo pela cadência do meses e anos até… 
Até encontrar aquela pedra, um obstáculo, ou uma nova forma de me reencontrar? Na verdade apetecia-me sair da paragem e naquele dia seguir por um caminho diferente, fazer coisas diferentes, ou simplesmente não fazer nada apreciar apenas o sol que se desenha no céu, as nuvens que contam história que nunca, a dança das árvores, o canto dos pardais, a alegria celebrante das andorinhas, o voo marítimo das gaivotas. Há quanto tempo não tinha tempo para ver e admirar a natureza e no entanto ela tem estado sempre lá, à espera do meu olhar, de muitos e muitos olhares que a vejam. 
Bom mas o autocarro já lá vem, está na hora de vestir a rotina nos dias, mas este dia, graças a uma pedra, foi único, foi diferente…
Pedras no caminho? “Guardo todas, um dia vou construir […]” não “castelos”, mas recordações de cada momento em que algo me fez parar para viver.


segunda-feira, 7 de Julho de 2014

Post.it: Novos lugares


  "Ao renunciarmos aos velhos padrões de comportamento, aquele espaço é preenchido naturalmente por algo novo, e a nossa vida torna-se especial"

Somos o que somos, o que vamos sendo. Somos o que nos fizeram e o que nós fizemos com o que nos fizeram. E cada lugar do que somos fica preenchido com estes pequenos  nadas. O lugar  das alegrias  que podiam ser mais, porque todas  elas, nunca  são  suficientes. O  lugar  das tristezas, mesmo  que  sejam  poucas,  são sempre  demais. O  lugar  dos  sonhos  que  está sempre em crescimento. O  lugar da  razão sempre  a  tentar  equilibrar-se  com  o  do  coração. O lugar  das   mágoas,   feridas,   dores, desgostos,  rancores, ressentimentos, ódios, animosidades, cresce, diminui, vai andando ao sabor dos dias, meses, anos. Vai-se acumulando desde o  passado, marcando o presente e norteando o futuro.
Lugares, uns mais preenchidos que outros, uns mais pesados que outros, uns mais luminosos que outros.
Somos o que somos, mas se quisermos, também podemos ser o que desejamos, podemos limpar certos lugares, aqueles que nos impedem de seguir em frente, que nos escurecem o olhar,  que nos roubam os sorrisos, que nos tornam ilhas.
Chega de culpar tudo e todos. Com culpas nada fazemos, precisamos de soluções, caminhos. Precisamos de deitar fora o supérfluo, o desnecessário, tudo o que nos pesa na alma, o que nos sufoca no peito, que nos impede de sonhar, de ganhar asas de esperança e de voar. O que nos impede de ser o que realmente somos. Pessoas livres e leves, com imenso espaço para nos reconstituirmos, para nos descobrirmos capazes de nos fazermos melhores seres.
Não nos devemos contentar com o que somos, não devemos acomodar-nos ao peso do nosso “fardo” quando há tantas coisas melhores para transportar: sorrisos do sol, abraços do luar, embalos do mar e amigos que nos fazem acreditar que a vida é realmente um lugar especial.



sexta-feira, 4 de Julho de 2014

Post.it: Somos felizes

“Quando existe contentamento, a minha atitude perante os problemas permite-me vê-los como se fossem pequenos”

Quando estamos felizes nada nos parece importante, nada tem maior grandiosidade do que a felicidade. Tudo parece tão insignificante, o sol, a chuva, o frio, o calor, até o fracasso tem sabor de vitória. 
Na verdade somos vencedores, encontrámos o sentido do nosso existir em sentir, em estar aqui por alguma razão. Não que tenhamos que fazer grandes obras, deixar grandes heranças. Basta para nós e para os outros, a alegria, a gentileza, a generosidade de atitude, basta sentirmos-nos bem connosco e logo de imediato ficaremos bem com os outros.
Que nos importa os seus queixumes, as suas futilidades, a sua insensibilidade, são suas apenas suas e na verdade só a si conseguem ferir. Não são pedras no nosso caminho, apenas areia que lima as arestas de cada passo que damos. Não são um problema, podem até significar a solução porque à sua maneira nos dizem para seguirmos noutra direcção talvez, para longe da sua. 
E depois há sempre tantas e tantas pessoas que nos querem acompanhar, para quê sofrer, para quê ter o desejo e a vontade de seguir ao lado de quem tem outro destino. Um destino que não é o nosso.
Porque o nosso, o nosso está feliz, está leve, verdadeiro, leal a si mesmo, companheiro o tempo todo de momentos que construímos com o coração liberto de mágoas, rancores, de desamores...
Com a alma esvoaçante de esperança, de luminosidade. Porque o mundo será sempre o que dele fizermos e nós, nós que valorizamos a sua importância, que o amamos, cuidamos e o fazemos girar, somos à nossa humilde maneira, o seu sol, o seu luar, o seu infinito, o eco de vida que faz o seu magma pulsar e expandir-se múltiplas e coloridas primaveras. 
Tudo isto só porque reconhecemos que somos tão simplesmente felizes.



quarta-feira, 2 de Julho de 2014

Post.it: Os quatro elementos

Todos devíamos ser terra:
 Ventre de vida, que acalenta a semente que faz germinar a esperança e a confiança no crescer.

Todos devíamos ser água:
 Ser a limpidez cristalina da nossa verdade, da nossa entrega e dádiva. Afinal tudo passa e corre pelo rio da vida até ao mar do descanso onde a paz e harmonia nos navega.

Todos devíamos ser fogo:
Esse que aquece cada inverno que invade o corpo e a alma, mas também a luz que alumia cada caminho que caiu em algum momento na mais profunda escuridão.

Todos devíamos ser ar:
 Brisa que sussurra à consciência o que somos e o que deveríamos ser. No entanto por vezes é necessário ser vento, um ar forte que nos empurra com veemência, impulsionando-nos a seguir em frente, a ganhar coragem de ser.

Todos devíamos os quatro elementos:
Ser  a terra onde nasce a vida, a água que a purifica seguindo a luz de um fogo que nos aquece o ar quando  sopra verdades que nos tornam humanamente melhores.

terça-feira, 1 de Julho de 2014

Post.it: A geografia da alma


Cai a noite mas em algum lugar da terra já é alta madrugada. Adormeço, sonho, esqueço, mas algum lugar da vida, alguém desperta para a luta dos dias, caminha, faz a sua estrada. “Vai, depois irei eu” sussurro-lhe em pensamento, quando tu já embalares a noite serei eu quem desperta o novo dia, quem o enche de momentos, de risos, de abraços, quem caminha para que ele desperte em ti e em mim adormeça. 
A alma que não conhece horizontes nem pontos cardeais, aconchega-se em nós, confiante de qua a conduziremos no “de lés a lés” da existência. De vez em quando algo a abala, estremece, espreita no olhar, chora essa dor e recolhe ao seu lugar no infinito recôndito do nosso ser e ali fica, com vontade de voar, com receio de cair. Porque voar implica conhecer os pontos de orientação, mas ela nada sabe de caminhos, só conhece o do coração e segue por ele ou simplesmente deixa-se ser levada conduzida com suavidade. 
Aventuras já não são para a alma amadurecida pelo tempo que só o tempo lhe conhece a idade. Afinal, dizem presumindo, que alma nunca é nossa já foi de outra vida e a outra depois de nós pertencerá. 
Apenas a guardamos, protegemos e tentamos que seja feliz. Quem sabe até encontre a sua alma gémea, neste lado do mundo, neste lado da vida. Mas se estiver na outra fase da lua, nunca encontraremos um luar comum, e o meu dia será eternamente a tua noite e a tua noite o meu dia. 
O teu sorriso a minha lágrima, o teu frio, o meu calor, mas nesta alma comum de sentimentos, a geografia não fará transtorno ao amor. E a Norte ou a Sul, Este ou Oeste, haverá um qualquer ponto cardeal que nos conduzirá na confluência de mares, rios, céus, estrelas, sol e lua, dias e noites, vida passadas, presentes ou futuras. 
Nem que seja necessário construirmos pontes, derrubarmos muros, cruzarmos fronteiras terrestres, marítimas ou celestes, um dia, haverá certamente um dia em que finalmente a minha alma encontrará a tua no mesmo lado do universo e dessa história por fim unida e galáxia festejará e dessa celebração nascerá uma estrela, a mais bela, a mais brilhante, única, nossa. Que existe só para nos iluminar e assim não nos voltarmos a perder por entre os meandros do sentir.

sexta-feira, 27 de Junho de 2014

S. Pedro


S. Pedro das chaves guardador,
Escolhe a certa para mim,
Aquela que me revele um amor,
Que me acompanhe até ao fim.

Serei grata por toda a vida,
E por toda a vida te celebrarei.
Por ver uma primavera florida,
No olhar de quem sempre amei.

Mas S. Pedro porque demoras,
Quando o dia já quase adormece,
Enquanto eu vou contado as horas,
À espera de quem me esquece.

Mas a sardinha já salta na brasa,
E o manjerico perfuma a noite.
S. Pedro não vou ficar em casa,
Vou para a festa à procura da sorte.


quinta-feira, 26 de Junho de 2014

Post.it: Aniversários

São datas que festejamos porque as gostamos de  recordar, de guardar algures na memória, algures no peito. Então abrimos as asas à alegria de poder repetir vezes sem conta essa celebração de continuidade. Porque essa data nos dá motivos para gostar dela, para a enaltecer. É o culminar de mais um ano, de momentos, talvez nem todos completamente perfeitos, “houve dias de sol, houve dias de chuva”. Mas a grande felicidade é que houve “dias” que se multiplicaram por semanas, meses, anos. Celebramos aniversários, que são sempre de nascimento, de surgimento de algo de bom na nossa existência: o começo do amor, o casamento, o nascimento dos filhos, o início de uma carreira, a concretização de um sonho, projectos, viagens e até o início de uma amizade.
Então festejamos sem nos cansarmos, repetindo em nós a sensação do seu começo, a novidade, a surpresa, a alegria, o salto descompassado do coração, o tocar o céu, desenhar as estrelas, a descoberta única de uma felicidade que nos atingiu em pleno no corpo e na alma.
Mas há datas que entretanto já não festejamos por razões que só a vida, mentora de realidades, gestora do tempo, o pode explicar. Porque nós, embora já não tenhamos motivos para celebrar essa data, continuamos a recordá-la, sem aquela grande alegria, é verdade, mas, guardamo-la num recanto muito íntimo de nós, esse lugar a que chamamos Saudade.
Para todos os que celebram aniversários de algo, parabéns.
Para os que já não celebram algumas datas, que lhes seja possível voltar a celebrá-las.
Para os que não têm datas para celebrar, recomecem novos aniversários, comecem agora a festejar, nem que seja o dia de hoje, 26 de Junho de 2014.

terça-feira, 24 de Junho de 2014

S. João

S. João estás no Porto,
Mas Lisboa não se importa.
Se nos levares o desgosto,
E o amor bater à nossa porta.

João que nos és santo,
Pelos milagres conhecido.
Torna a vida no encanto,
De ser um sonho acontecido.

E hoje que é o teu dia
Celebrado neste país.
Que só te pede a alegria,
De voltar a ser feliz.

quarta-feira, 18 de Junho de 2014

Post.it: Como não gostar do verão...

Gosto do verão e já os acalorados suspiram e abanam um leque ansioso por agitar o ar, por fabricar brisas de frescura. Enquanto outros mergulham de imediato no armário em busca de calções, camisolas de alças, de chinelos e todo o corpo grita por uma liberdade que os espartilhos do inverno agrilhoaram por um tempo que nos pareceu infinito na trilogia de chuva, vento e frio.
Gosto do verão atrevo-me a repetir enquanto olhares fulminantes parecem querer matar-me as palavras; ligam as ventoinhas, os ares condicionados, escondem-se nas sombras urbanas, bebem litros de água como se o calor lhes ardesse no peito, e arde, “é da idade” dizem entre um sorriso que se solta porque nem tudo na “idade” é mau, também cresce a tranquilidade, a sabedoria de quem percebe o sentido da vida: aprende-se a vive-la em todos os seus momentos e retirar de cada um o que tiver de melhor. Porque a “idade” ensina-nos que a vida é infinita se for vivida e apreciada mas rapidamente finita para quem estende o olhar, o coração ao horizonte longínquo e não vê, sente, o que lhe está perto. 
Gosto do verão, insisto, mesmo com todas as picadelas de insectos, que digo em tom de graça que são beijinhos, afinal nem chega a ser desgraça e tudo acaba com uma injecção antialérgica. Depois lá ando com coloridas protecções: pulseira amarela, ultrassons em tons de azul e branco e quando a escuridão desce do céu, à minha volta desenha-se o que poderia  ser uma cena de ultra-romantismo, mas é apenas um conjunto multicolor de velas repelentes de insectos.
Mesmo assim, permitam-se a repetição quase estóica, “gosto do verão”. Quando as noites tardam em chegar e o dia se prolonga numa ténue  luz que suavemente se  dissolve por entre os ramos das árvores, deleitando-se pelos telhados, estendendo-se lânguida e terna pelas ruas, tocando rostos, acariciado as flores que aos poucos se vão fechando recolhendo para um sono profundo. O dia adorna-se  com o mais belo pôr-do-sol que se dissolve gentil sobre um leito de mar, cresce um silêncio de profunda admiração pelo pintor celestial que compôs tão bela e harmoniosa paisagem. 
Como não gostar do verão…

quinta-feira, 12 de Junho de 2014

Milagres de Sto. António

Sto. António quantos pedidos,
Tens nesta época de atender.
Corações que andam perdidos,
Amores que se querem entender.

Mas os milagres já pagam imposto,
E não há descontos para a felicidade.
Grátis, só se for algum desgosto,
Em promoção, só se for a saudade.

Mas Sto. António ainda acreditas,
No poder da mais sincera oração.
E nas tuas festas alegres e bonitas, 
Lá vais pondo fim a muita solidão.

segunda-feira, 9 de Junho de 2014

Se Camões soubesse...

Se o amor soubesse,
Que amando sofreria.
Talvez amor não houvesse,
Para amar em cada dia.
Se o amor soubesse,
Ser a causa de tanto infortúnio.
Talvez o amor se escondesse,
No mais longo e profundo rio.
Se o amor soubesse,
Ser tão grande desventura.
Talvez já ao peito não viesse,
Revelar tanta amargura.
Mas o amor se verdadeiro,
Sabe que na sua realidade.
É um sentir bem fazeiro.
Que só traz felicidade.
Nunca pode a beleza do amor,
Magoar o mais nobre coração.
Lá porque o rimam com dor,
É a mais linda flor da emoção.
Se amor não houvesse,
Que nos declamaria Camões?
Um mundo que nos anoitece,
Sem nos iluminar os corações?
Agradeço ao amor por existir,
Agradeço aos poetas que o contam
Agradeço à primavera por florir,
Em todos os que o amor encontram.

quinta-feira, 15 de Maio de 2014

Por momentos...

Que dizer da minha noite? Nada, não me lembro de nada, nem de sonhos, nem de despertares. 
Dormi, penso que sonhei, que por momentos realizei desejos, conquistei ambições, fui o que não sou, o que nunca serei. 
Acreditei e ao acreditar fui feliz. Porque a felicidade, a verdadeira felicidade é acreditar, em nós, nos outros, na mudança das estações do ano, nas árvores que resistem a tudo até a nós, nos rios que por mais que lhes alteremos o percurso encontram sempre o caminho, o seu. Enquanto a humanidade continua na sua efémera eternidade em busca de um que lhe pertença.
Mas aqui, nesta noite, encontrei-o, penso que sim, porque acordei com aquela tranquilidade de quem teve a recompensa de um dia sôfrego de paz.
Acordei, espreguicei o olhar e apeteceu-me sorrir, abraçar o sol, moldar nas nuvens  palavras de alegria e depois caminhar sem destino ou sem saber, com um destino certo, aquele que me leva à noite, ao sonho, à felicidade de ser quem não sou, quem sabe, nunca serei, sem que isso me incomode, porque no fundo, bem lá no fundo sei que na realidade sou o meu sonho concretizado de uma forma ou de outra, esta jovialidade o que me dança no peito e que me faz ser o rio que encontra sempre o seu caminho através das curvas e arestas de cada margem da vida.