sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Post.it: Só o hoje

Quem sabe amanhã, quando todos os ontens levarem as águas desse rio que já nos foi tempestade. Talvez amanhã quando as cascatas da lembrança descerem suaves ecoando melodias de deleitoso harmonia.
Talvez amanhã quando o despertar limpar do horizonte nuvens que nos encobrem a luminosidade do olhar. Talvez amanhã quando os sonhos renascerem, os projectos acontecerem, quando a esperança nos fizer acreditar que o novo dia é um convite do futuro para ser rescrito nas linhas e entrelinhas do destino.
Mas, e se o amanhã não vier? Questionam os mais pessimistas. Que importa, guardaremos o hoje, abraçando-o, aprisionando-o num recanto, quer seja no coração, na memória, numa célula que nos navegou o corpo em busca do caminho para a felicidade.
E mesmo que o ontem com maior ou menor saudade parta de nós, e mesmo que o amanhã não nos chegue a habitar, teremos este dia, 24 horas de possibilidades. 1440 minutos de oportunidades. 86400 segundos de ensejos, de confiança, de  alento, de expectativa, de vida que é nossa, totalmente nossa, como flor num jardim de primavera, a decisão é nossa, de a colher, de a admirar, de a deixar crescer e florir para encher de cor, de perfume. Este dia que pode ou não chegar a desenhar-se no horizonte do amanhã.
No entanto, até lá chegarmos, há uma promessa que nos grita no peito, vamos torna-lo feliz! Uma alegria de coisas pequenas que no seu conjunto são grandes porque nos definem enquanto gente que ama, chora, ri e sente.
Mas isto só se lá chegarmos porque todos os dias são de descoberta, no mistério de viver ou sobreviver às vitórias e derrotas de cada passo dado no escuro, se chegarmos, que não fique nenhum dia ávido de esperanças, que não fique nenhum sonho por ser sonhado, nenhuma lágrima por ser chorada, nenhum a gargalhada por ser solta, nenhum eco a silencie, antes, a repita, uma, mil vezes deixando no ar o som mais puro que emana da alma. 
Enquanto isso, o ontem já não nos pertence, o amanhã não se sabe se o tocaremos, mas  o hoje, o hoje estende-se para nós, repleto de toda a maravilha que é encontrar em cada recanto do caminho a folha em branco da nossa história.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Post.it: O sujeito e o verbo

 “Não se deve separar o sujeito do verbo”, uma regra básica e essencial da gramática portuguesa. Nunca a esqueci e tento que seja mais que uma regra da gramática,  mas também uma forma de existir (aí está o verbo).
Que nunca se separe o sujeito do amar, do conquistar o além de que faz parte, do lutar por atingir a sua meta, do sonhar para evoluir, do dar em amizade, em atenção, do cuidar de si, dos outros, estimar tudo aquilo que a vida nos oferece, do querer ser-se melhor, presentear a vida dos outros com um pouco de nós, do gostar do que temos mesmo quando não podemos ter o que desejaríamos, do perdoar para ficarmos libertos da mágoa que é guardar a dor de quem nos feriu, do admirar a natureza que nos rodeia e da que faz parte de nós humanidade. Do partilhar, respeitar, do ser o que gostaríamos de ser nos outros e em nós.
E assim vai a vida nos entretanto em que a alma nos permite vislumbrar sorrisos do sol, aconchegos da lua, então há uma neblina que nos eleva o pensamento para ti (gosto de personalizar), mesmo que o tu seja para todos os que fazem um pouco parte de mim no todo que me define. Porque nada sou sem o verbo do teu existir, aquele que escolho, aquele que me escolhe no momento vivente. 
Agora, já me despedindo de S. Valentim, acenando ao Cupido de falhada pontaria para uns, exata para outros e tudo o resto é Carnaval, folia para espantar o frio, os maus pensamentos, para sair da rotina de verbos nem sempre populares do ir e vir constante das madrugadas cansadas e das noites sem sonhos, “faz parte” ouço em redor, vozes que não sei se são de conformismo ou se de esperança, agarro nesse (faz parte) e redesenho-o com novos tons porque é preciso acreditar. 
Nem que seja nessa gramática aparentemente insípida de tantas regras, que contudo,  revela por vezes uma essencial  lição, “Não se deve separar o sujeito do verbo” e o verbo hoje é, bem-querer,  que nada o separe de cada um de nós.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Post.it: Feliz dia de S. Valentim

Aproxima-se um fim-de-semana especial para uns, normal para outros, que se ofereça uma palavra emergida do coração e se receba em troca um gesto que a completa e aconchega na vida em comum dos enamorados.
Porque:
Felizes são os corações que sabem palpitar aconchegados noutros.
Felizes os rostos que se vêem reflectidos em alegres olhos.
Felizes os sorrisos que têm motivos para continuamente sorrirem.
Felizes os lábios que têm as palavras de carinho para proferirem.
Felizes os braços que se oferecem e são simultaneamente abraçados.
Felizes os que conhecem o amor, os que rasgam as fronteiras do tempo e o tornam infinito. Felizes os que vencem a rotina e constroem os dias com sementes de paixão.
Que sejam muitos os Felizes, para que a terra continue a sentir-se amada e a vida continue a despertar sorridente em cada madrugada.
Que S. Valentim vos encha de Amor. Que o Cupido tenha pontaria certeira para unir corações. E que sejam todos, mas todos, muito Felizes. 
Os que amam, os que esperam ser amados. Os que já amaram e voltaram ou voltarão a amar. A todos os que escutam o coração e lhe seguem a voz até ao infinito do tempo e do espaço. E porque o amor tem muitas formas e expressões, que sejam felizes os amigos, os familiares, os que nascem neste dia, os que continuam nele a renascer ao celebrá-lo, os que sonham, os que acreditam, os que chegam mais além e não desistem de serem felizes. Essa felicidade de amar o hoje sem o  esquecer em busca de um melhor amanhã.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Inverno na aldeia

Na lareira gelou o carvão,
Cristalizaram os rios cantantes.
Mas bate suave o coração,
Com os sentidos ondulantes.

Ai se as brisas falantes,
Contassem velhas histórias.
Ai se os rios andantes,
Não nos levassem as memórias.

Por entre o manto de neve,
Que torna o vale encantado,
A vida ao seu ritmo acontece.

Mas na tarde já bate o sino,
E ao longe responde o gado. 
Às horas que nos são destino.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Post.it: Uma mulher "feia"


“Já estou tão habituada a esta feiura que até me parece bela”. E quando me dizem ao passar “és tão feia” esse piropo que seria de impiedosa crítica soa-me a elogio de quem me vê, de quem me olha ao passar sem me ter indiferença.
E sorrio, sorrio sempre, (daí as minhas rugas bem dispostas), sorrio porque afinal há muitas pessoas que sendo belas, ninguém lhes liga, e passam como se não passassem, deixando a rua vazia. Vão sozinhas, tristemente bamboleando a sua vaidade, num desfile de mágoas. Quem lhes oferece um piropo, quem lhes oferece um olhar? Poucos, muito poucos, porque tal beleza não chega a ofuscar o sol, é efémera, é fugaz, é preciso mostra-la hoje porque quem sabe amanhã já se terá desfeito.
Quanto a mim, confesso, que feliz sou por me ver em tantos olhos que param nos meus, recebo até sorrisos dos homens por generosa ternura (talvez lhes lembre uma avó já distante, um colo, um aconchego. As avós não precisam de ser belas, elegantes, finórias, só precisam de ter rugas macias, mãos quentes e suaves abraços). Quanto às mulheres que comigo se cruzam, vejo-lhes regozijo no rosto, satisfação, segurança, uma certeza que lhes diz que são mais belas do que eu, que não lhes “roubo” os maridos, namorados, “amigos”. Sou apenas uma mulher feia.
De manhã olho-me no espelho, o seu reflexo amigo há muito que já não faz apreciações sobre a minha imagem, olha-me num silêncio  conciliador, de uma amizade de anos, muitos e muitos anos, por educação escusamo-nos a reflectir quantos são, nesse entretanto, conquistámos o respeito e admiração um do outro.
Nunca casei, nunca tive amores correspondidos, talvez por ser feia. Tive filhos, muitos filhos, todos das vizinhas, das colegas, das amigas, todos me acharam linda, (ainda acham) filhos do coração, que só com o coração me conseguem ver.
Um dia partirei, eu e a minha feiura, eu e o meu sorriso, eu e o meu abraço que a tantos abraçou. Partirei com tranquilas certezas, fui o que quis ser,  como quis ser. Se me perguntassem se queria ser bela, responderia sem mentir que “sim” mas só o desejei quando era nova, a vida revela-nos pouco a pouco a razão do que somos, se fosse “bela” nunca teria tido tantos e sinceros amigos. Não, não vou começar a dissertar floreados e lirismos, vãs retóricas sobre a beleza interior, vou apenas dizer que quem me amou conhecia-me nos valores que não são efémeros no tempo. 
Um dia, sim, lembro-me de um dia em que alguém com voz profunda e verdadeira disse-me ao ouvido, “és a mulher mais bonita que já conheci”, ofereci-lhe uma gargalhada cristalina de amizade, mas por dentro chorei, o pranto de tantos anos de espera por alguém que não só olhasse, alguém que também sentisse. Então amei-o, amei-o a vida inteira, mesmo quando seguimos caminhos diferentes, amei-o, porque sem saber ele ensinou-me também a amar-me. Continuo a ser feia mas a verdade é que às vezes, por um instante, quando me olho nos olhos, sinto-me “a mulher mais bonita que já conheci”.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

De coração


Estou aqui em tudo o que faço,
Neste mundo em tudo o que sou.
Em quantos de mim me desfaço
Querendo ir mais além do que vou.

Mas se a alma já não bastar,
Se a verdade tiver que mentir.
Peço à vida para me perdoar,
Esta maneira de ser e de sentir.

Tudo o que faço é “decoração”.
E enfeito os dias com sorrisos,
Tudo o que faço é do coração.

Para que a noite possa sonhar,
Com desertos tornados paraísos, 
Onde a felicidade pode repousar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Post.it: Não tenho jeito para viver

“Não tenho muito jeito para viver”

 A frase não é minha, mas concordo, é preciso ter jeito para viver…
Será que alguém já descobriu a fórmula para melhor conduzir a vida, esse veículo que por vezes nos parece desgovernado, que corta a curvas, que acelera nas retas, que se lança afoito nas descidas e que não desiste de enfrentar com fervor as subidas?
Mas, sim, é preciso ter jeito, encontrar a forma de suavizar as horas agrestes, de tornar mais leves aqueles dias que nos deixam de rastos, com um cansaço milenar de vidas passadas ou  de vidas ainda não vividas.
Claro que também há momentos em que tudo faz sentido, em que por um instante nos parece, que por fim lhe encontrámos o jeito, que descobrimos a regra para ser feliz. É a hora de não ligar a nada, de nos deixarmos ir na maré, de acreditar, de lutar, de ter fé. Porque se aprendeu a lição, não vamos repetir os mesmos erros,  não vamos ser precipitados, impulsivos. Podemos afirmarmo-nos, marcar a nossa posição, esperar que tudo venha ter connosco ou irmos ter com o momento.
Se ao menos tivéssemos uma segunda chance para voltar quem sabe, a errar, ou uma terceira oportunidade para recomeçar, uma outra quarta para tentar acertar. Mas não temos para viver, apenas esta vida, o que aumenta a responsabilidade, o medo que por vezes é um gerador de coragem. Além da certeza de que tudo é incerteza, e que nesse mistério reside a beleza de existir, esse receber uma espécie de prenda, um embrulho nem sempre fácil desembrulhar.
Pode nem ser o que desejamos e mesmo quando é, constatamos depois que não terá sido a melhor escolha para nós, para a nossa vida. Mas tínhamos que tentar, que realizar o sonho em vez de nos limitarmos a sonha-lo. Devíamos isso a nós, à vida, para a construir, para lutar por ela e torna-la, supostamente, melhor.
Esse é o nosso eterno desejo, a nossa efémera utopia. Mas também é essa a nossa força, aquilo que nos define, que nos faz avançar e recuar sempre que necessário, desistir e persistir quando achamos certo. O tempo vai passando, ou melhor vai “voando” enquanto nós, enredados no ciclo infinito de acerto e de erro, vamos tentando, mas tentando mesmo, aprender a ter jeito para viver  a vida que nos calhou em sorte. 


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Post.it: Perdão

Na primeira sessão de ioga de 2015, a professora, desejou a todos um bom ano e num gesto de oferta pediu-nos que escolhêssemos uma carta com mensagens e que ficássemos com ela para nos lembrar o que devíamos fazer neste ano. Vi sair cartas de Perseverança, de Sabedoria… a mim calhou-me o Perdão. Primeiro não a recebi com bom agrado, sim é verdade, há muito perdão que me é devido, que há muito o espero dos lábios calados, de vidas que continuam a seguir em frente sem olhar um só instante para as pegadas mal desenhadas que ficam na estrada.
Foi um breve momento, que me fez viajar por muito pensamentos, até todos eles confluírem para o mesmo rio, o sentido único do perdão
O perdão dado, recebido? O perdão no seu todo, na sua capacidade de entender que nem tudo é  como queremos, nem  todos são  como desejamos, nem  mesmo  os que amamos embora os continuemos a amar. 
Temos que  perdoar o que não é sinónimo de aceitar, de nos submetermos à vontade dos outros. 
Perdoar-nos por não termos atingido os nossos objectivos, por não termos vencido todas as  batalhas. Por não sermos o que esperamos e o que esperam de nós. 
Perdão por não sermos perfeitos apesar de tentarmos melhorar a cada dia. 
Perdão por não sentirmos o que querem que sintamos.
Perdão por não dizermos o que esperam ouvir da nossa boca, do nosso coração.
Perdão pelo que fizemos sem a intenção do sentido que tomou, da dor que causou. Perdão pelo que não fizemos, deixando na espera, na ausência desse gesto quem o devia receber porque lhe era devido.
Mas também o perdão que nos devemos pelos gestos impensados dos outros, que na sua pressa, rotina, indiferença ou mera característica de assim ser, nos laceraram a esperança, a confiança…
Perdão por todos aqueles que nunca o pediram, porque não acharam necessário, porque não se aperceberam das consequências dos seus actos, porque não lhe deram importância, ou simplesmente porque acharam que o perdão não existe, nem o erro, nem a culpa. Que vivemos passando sem nos determos na forma como marcamos o caminho.
Temos sempre de perdoar, perdoar-vos, perdoar-nos, para não deixar que uma dor nos fique indefinidamente a magoar, como um espinho cravado na alma.

“Ser feliz é encontrar força no perdão, esperanças nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros” F. Pessoa

“O fraco nunca pode perdoar. Perdão é um atributo dos fortes” M. Gandhi


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Post.it: 2015 com amizade


Há pessoas que na sua passagem pela nossa vida, nos tocam, nos preenchem, nos completam. Fazem-nos crescer, rir, chorar; fazem-nos querer ter asas e com elas, voar.
Há pessoas que nos ficam algures nos rios celulares da existência, e mesmo quando a memória atenua de lembranças os longos anos, podemos já não recordar o seu nome, relembramos certamente o seu sorriso, o seu carinho, as histórias, os segredos que escrevemos no vento e que o vento prometeu não revelar.
E mesmo aquelas pessoas que na sua passagem, apenas nos deixaram picos de flor, pedras no caminho, mesmo essas, guardamos num recanto magoado da alma, quem sabe um dia, encontramos uma forma de lhes agradecer a chegada, porque agora ainda só conseguimos agradecer a partida.
Há pessoas que só nos tocando com o olhar transmitiram o calor de um abraço amigo. Há pessoas que mesmo nos beijando só com um sorriso, deixaram-nos inscrito no coração, o amor mais puro e infinito.
E não foi preciso encenar as palavras, os gestos, ser estrela da moda, criar cenários, inventar aventuras, oferecer o céu, deitar-se no chão, bastou que existissem e a dada altura, cruzarem-se algures no nosso caminho.
Às que estão, às que vêm, às que vão… A minha estima e admiração.
Ainda me falta conhecer tantas pessoas. Talvez me vá magoar, mas a verdade, é que não sei viver pela metade, não sei erguer muros, criar fronteiras entre mim e a vida. Sou o que sou, bem sei que nunca serei mar mas gosto de ser esta gota de água transportada pela orla marítima. Nunca serei a rocha mas a cada beijo da brisa transformar-me-ei na mais leve poeira e um dia, hei-de subir às nuvens e tocar o esplendor do rosto lunar.
A todas as pessoas, obrigada por esse tempo, que nem o calendário nem o relógio pode quantificar, um tempo que pode ser curto na alma, mas longo no peito e quem diz que tudo o que existe é finito, mente ou não sabe, que quem passa pela nossa vida, para sempre nela fica. Por isso desejo que depois de 2014 continuem comigo em 2015 e todos os anos seguintes no caminho comum da amizade, saúde e felicidade.



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Post.it: Deste teu amigo…

Não desistas de mim, mesmo que na vida nada te corra bem. Encontra-me nas pequenas coisas, no sol de inverno, na flor que nasceu por entre o betão, nas folhas de outono, nas crianças a brincar, nas aves a voar, nas ondas a embalar a praia...
Abre-me a porta do teu lar para que o encha de mim. Abre uma janela no teu peito para que do frio da noite me possa aconchegar.
Olha em teu redor, vê-me nos olhos tristes que tu podes alegrar. Reconhece-me em cada vida solitária e faz-lhe companhia. Escuta-me em cada sopro do vento que geme um lamento que tu poderás atenuar com o teu carinho.
Não me abandones, nem às memórias de uma infância cheia das nossas histórias natalícias. Não penses em mim perdido por entre presentes e laços, encontra-me entre muitos sorrisos e outros tantos abraços.
Não te esqueças de mim, seja em que data for, não precisas de me celebrar somente em Dezembro, celebra-me quando tiveres vontade de ser solidária com um amigo, gentil com um desconhecido, cortês com um inimigo.
E se as luzes das ruas te encandearem o sentir, se os objectos nas montras te baralharem o querer, se a multidão com que te cruzas só te oferecer solidão, não lhe vires as costas, estende-lhes a mão, oferece-lhe a tua atenção, dá-lhes os teus votos de um belo e Feliz Natal.
Não me julgues hipócrita, consumista, egoísta, falso, porque na verdade eu sou o que tu quiseres: serei a lealdade, o carinho, se  cuidares de mim como se fosse uma flor que apenas te pede a bênção do teu calor; mas também poderei ser fugaz, a prenda que nem vejo desembrulhar, o compromisso sem sentimento, a breve história de um vulgar momento.
Acredita em mim, porque isso significa que acreditas em ti, que regressas de vez em quando à criança que acalentava a esperança de tornar o mundo melhor.
Recebe de mim, um abraço natalício com muito carinho e vontade de contribuir, para tornar a tua vida um pouco mais feliz. Tal como tu tornas feliz a minha, sempre que me sentes, e que me ofereces aos outros, em bens materiais, em emoção, em amizade. Porque todas as formas, todos os gestos, são sempre belos quando brotam do mais terno coração.
                                                                                     
Um abraço deste teu amigo, 
             Natal
                                                                                                                                                                           

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Post.it: A poética vivencial da palavras

Costumam dizer que falar muito com poucas palavras é próprio da poesia. Mas há que enquadra-las, harmoniza-las, humaniza-las. E também dar-lhes asas, solta-las ao vento e ter a certeza que o seu voo nunca será uma partida mas sempre um regresso. Uma chegada que recebemos, recolhemos, para lermos, saborearmos e sentirmos em momentos que delas precisamos para nos preencher o vazio de outras palavras que já tardam.
Serão talvez, estas apenas substitutas dessas outras, dizendo algo que pode ser sentido, porque tem real sentido. Palavras que  condensam uma verdade que nos guia e nos define enquanto ser emocional.
Mas no fundo não é  preciso dizer muito, nunca foi, basta dizer o essencial, deixar no horizonte das palavras a porta aberta para que outras  a elas se venham juntar numa relação feliz e quem sabe até geradora de novas palavras na construção de  um caminho comum, feito por lugares de paz, lugares de harmonia. Há quem considere as palavras ambíguas, passiveis de múltiplas leituras, há quem as acuse de se esconderem com receio da frontalidade, da verdade. É possível, tudo é possível, porque são lidas com diversos feixes de emoção. As palavras podem revestir-se de alguma opacidade abrindo a porta a múltiplas vias de interpretação, até porque elas serão sempre a conjugação do que somos, desse passado que nos fez crescer com personalidade e valores educacionais concretos. De um presente trilhado por cada dia, por cada hora, em cruzamentos, encontros e desencontros de horas solares, de nuvens que nos fazem companhia em ondas de diferentes (a)mares. 
Não desvalorizem as palavras, ela são  um composto de letras dispostas segundo uma objectiva intenção. Elas têm sempre algo para dizer, são um depósito de sensações, são braços que se estendem quando as lemos e encontramos nelas um elo de cumplicidade, recebemos então esse abraço  que há tanto tempo espera por ser dado, lido, compreendido e quem sabe, igualmente abraçado...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Post.it: O nosso tempo

 “Eu venho dum tempo que por vezes me parece perdido no tempo, de uma geração que se deixou influenciar pela anterior e esta pela que a precedeu. Hoje as gerações influenciam, contagiam na ordem inversa já não do passado para o presente mas do presente para o passado, para que não se sintam, humano-excluídas num fosso de diálogo e de conhecimento.
Não sou saudosista do tempo mas das coisas boas, verdadeiras, de saber que se pode caminhar por ali e se nos perdermos alguém nos trará de volta, alguém que se interessa, que se importa com o seu semelhante.
Lembro-me de me dizerem que simpatia gera simpatia; que o bem gera o bem, mostrando que a boa vontade é contagiosa. Mas quem se deixa contagiar? O bem passou a ser aquele que recebemos, não o que fazemos. A simpatia é a que exigimos mas não a que partilhamos.
E todos os dias mergulhamos nas nossas preocupações, nos caminhos da cibernética e sentimos que temos uma multidão à nossa volta, no entanto quando desligamos o botão, só ouvimos o silêncio e o eco que escutamos é unicamente o som solitário dos nossos passos. O mundo cresceu e no entanto conseguimos tocar-lhe com a ponta dos dedos. Sabemos tanto de tudo e no entanto sabemos tão pouco de nós e cada vez menos dos outros. Que posso deixar de testemunho às gerações vindouras? Nada! Elas querem aprender com o futuro e não com as lições do passado. E as pontes são cada vez mais elos de afastamento e os mares cada vez mais ondas de lonjura. Não sei se os barcos voltarão ao nosso cais, não sei os passos pisaram as finas areias da nossa praia. Não sei se partilharemos o mesmo olhar delineando as fronteiras do horizonte. Não sei se teremos algo em comum que não seja apenas o que somos na individualidade, na indiferença, na ausência que nos torna ilhas de estéril sentir. Que me o diga o tempo, já não aquele de onde venho mas o tempo  que vai partindo de nós.”
Eu, sou desse tempo, não na sua cronologia, mas em valores e sentimentos, em entrega, não sei o quanto há de verdade na sua verdade, que sem querer sinto-a um pouco minha. No entanto,  recuso-me a aceitar como definitiva essa possibilidade. Recuso-me a pensar que são causas perdidas. Que as gerações são fronteiras intransponíveis. Que os valores se perderam em definitivo. como deixar de acreditar quando uns olhos pequeninos mergulham nos meus, quando uma mão minúscula segura com firmeza o meu dedo. Sim ele acredita em mim e eu preciso de acreditar nele. Quem sabe o tempo seja um dia, finalmente nosso.



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Post.it: Espera...

Este verbo “esperar” que nos é por vezes tão doloroso, de ansioso,  de querido. Um querer que ultrapassa a vontade e se torna  desejo. “Felizes aqueles que esperam” li outro dia num livro peculiar, que fala de espera, uma espera que nunca se desalenta. Que revela  um tempo infinito mas que na sua real finitude diz-nos que se chega lá, devagar…, depressa…, num tempo que sendo nosso, na realidade,  não nos pertence, não o  podemos manipular segundo as nossas opções de vida, a nossa vontade de obter aquele momento, aquele instante que nos surge mágico na beleza que tem ou na que lhe imaginamos depois de tão demorada espera.
Mas chegar lá nem sempre significa obter o fruto do nosso querer, essa tal magia nem sempre acontece. Então que fazer, desistir? Não! Continuamos à espera,  mesmo quando só a sabedoria popular nos anima “quem espera sempre alcança”. Ainda que demore, demore muito, por vezes tanto, demasiado mesmo que o pensamento esquece, que o coração arrefece, que o sonhar adormece em cada dia que amanhece e nada, mas mesmo nada acontece. Então começamos a acreditar noutra expressão popular que cada vez mais ganha sentido “quem espera desespera”.
Claro que não é essa espera que o livro descreve, ele fala de uma espera da qual nunca se desiste, porque a esperança nos diz que vale a pena esperar, porque até a espera é consoladora, faz-nos companhia nas horas passadas e nas que chegarão em breve.
E assim se vive, por vezes uma vida inteira, numa espera que não é acomodação, que não é de desistência, falta de objectivos, fraqueza de carácter, até para esperar, é preciso ter coragem, é necessário lutar e lutar muito, contra a descrença, a nossa e a dos outros que nos aconselham a deixar essa espera e a seguir, talvez para outra espera. No entanto já nos habituámos a esta, já a acomodámos no peito, já dorme aconchegada no nosso abraço, já sonha connosco os mesmos sonhos…
Com abandoná-la, como edificar outra e esquecer esta, quando ela sempre nos foi a expectativa de uma estrada, de um reencontro, o vislumbre de um sorriso por entre a penumbra da noite, que sempre nos foi a eterna espera de uma chegada.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Nunca parte...

Pereceram-me células do ser,
Doeu-me forte na emoção.
Por cada amigo a desaparecer,
Aumentando a minha solidão.

Mas nunca parte quem nos fica,
Guardado na nossa lembrança.
Quem sem acreditar, acredita,
Que no futuro a vida o alcança.

Mas eis o Natal já a chegar,
E a festa quase a acontecer.
Que fazer se o peito a chorar,
Não consegue o Natal receber.

Mas os braços vão-se abrindo,
E até o olhar se vai iluminando.
Como receber o Natal senão sorrindo,
Como viver o Natal senão amando.

E afinal a morte é uma ilusão,
Um erro da vista, chegam a dizer.
Porque quem nos vive no coração
Existe sem o conseguirmos ver.


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Post.it: Apenas "poesia"

O que somos? Um mundo, um universo de estrelas, de sois, de luas. Uma galáxia de sensações, de vivências que nos moldam, que nos definem.  
Somos uma mão estendida, que quer dar, que quer receber. Amparar, erguer ou ser erguida.  
E essa dádiva de existir, de prosseguir, deixando no caminho as pegadas ligeiras do coração,  revela-nos  o quanto está cheio e simultaneamente leve. Tão leve que ganha asas, tão ténue que flutua na mais delicada brisa. 
No que somos, estamos inteiros, partilhando-nos, dando-nos. Afinal temos tanto para dar quando a vida que nos preenche já nos deu muito, em experiência, em amor… 
Bem sei que há dias em que o mar nos inunda os olhos, que a dor nos supera. Mas o que aprendemos a ser, reinventa-nos um sorriso e sem sabermos bem como, esse dia passa como uma nuvem cinzenta num céu que se torna límpido de esperança. E não há nada que nos roube a essência do que nos fizeram ser, crescer, transformar. Mesmo quando desejamos ser ilhas, há sempre uma ponte que se estende para nós, um barco que se dirige para o nosso cais, ele vem, vem sempre, vem a remos, vem a nado, não desiste de nós. Vem amparar-nos, engrandecer-nos, preencher-nos. Como podemos então desistir? Como não reconhecer o que nos dão e multiplica-lo por mil, para retribuir quando chegar a nossa vez de sermos a ponte, o remo, o abraço. 
Essa deve ser a nossa natureza, só temos que encontrar a fonte, que quanto mais se dá mais tem para dar. Já não precisa de receber, quem tem tanto no peito… 
E mesmo que seja apenas “poesia”. Mesmo que para alguns não passe de “verbo encher”, era tudo, apenas tudo para fazer alguém feliz. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A chuva

A chuva não molha,
Apenas te quer abraçar.
São gotas com que sonha, 
Transportar o seu doce amar.

Mais do que simples flor,
Como se fosses primavera.
O seu tão distante amor,
A sua tão grande quimera.

Por isso a chuva cai,
Num copioso adorar.
De quem sem soltar um ai
Cai sem medo de se magoar.

Não há distância para o sentir,
Não há dor que tanto doa.
Que impeça o destino de fluir,
Que o contenha de voar à toa.

A chuva, não é somente água fria,
Nem só pequenas gotas cristalinas.
É uma felicidade que ela queria,
Grande nas coisas mais pequeninas.



quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A lua me magoa

Como a lua me magoa,
Com a sua solidão.
Gaivota que tanto voa,
Sem pousar o coração.

Nem o sol seu companheiro,
Entende os suspiros do luar.
Que deixam o céu inteiro,
Sem o reflexo de estrelas no mar.

Nem o vento que a embala,
Entende o meu murmuro.
A estranha dor que cala,
No lado que tem mais escuro.

Nem a flor que exala perfume,
Nem a nuvem com o seu abraço,
Conseguem afastar o queixume,
Que vem do mais alto espaço,

Como eu consigo entender,
O que a lua só a mim revela.
A vontade de um dia ser,
O mais ágil barco à vela.

Para cruzar o extenso mar,
Para atravessar o universo.
E então mergulhar no olhar,
Que descreve em cada verso.


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Post.it: Recordações

Recordações, tudo são recordações, as Primaveras que chegaram, os Invernos que as levaram. As rosas que murcharam, os malmequeres desfolhados de bem-me-quer. Os arco-íris desvanecidos. Os rios de chuva descendo a calçada. Os corações desenhados no embaciamento da janela fechada.
Os passos que vão encurtando o caminho, o olhar que se estende para lá do horizonte e que sem alcançar o objecto da sua contemplação espera, quase desespera.
Recordações de histórias, de fracassos, de vitórias.  Também das quedas, das lágrimas, das feridas curadas e dos sorrisos trocados.
Quantos foram os planos, os desenganos. Os ideais e até os finais. As coisas simples que nos encheram o peito de alegria. As complicadas que conseguimos ultrapassar e vencer. Éramos felizes, sim éramos felizes e não o sabíamos…
Mas a cada recordação que parte desvanecendo-se do nosso ser, outras espreitam, ansiosas por nascer, crescer e brilhar na nossa vida.
E todas as noites as recordações que o dia escreveu no livro da  memória,  transformam-se em sonhos que as estrelas iluminam e o luar docemente embala.
E todas as manhãs as recordações despertam, são girassóis que espreguiçam as pétalas, enquanto viram o rosto  para cumprimentar o sol, são nuvens que estendem um branco manto sobre o azul celeste, são   fontes que  cantam ao desafio com os pardais que se escondem por entre os ramos das árvores.
Depois vem a tarde conciliadora, depois vem noite enternecedora. Depois vem cada momento que se vai no momento seguinte. E até o dia de ontem já se tornou para o  hoje, uma recordação…

Grata recordação dos Cats.
Memory. All alone in the moonlight. I can smile at the old days. I was beautiful then. I remember the time I knew what happiness was. Let the memory live again.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Post.it: É aqui que pertenço

“Não quero morrer sem ver a cor da liberdade” (Jorge de Sena)

“Não quero morrer sem ver a cor de um país sem crise” Acrescento…

Sempre que acordo, ouço nas notícias da rádio, novas soluções económicas, mais problemas para quem tem de as suportar. Essa curta manta que quando puxada para a cabeça destapa os pés,  (alusão a uma frase do Clube dos poetas mortos).
Pergunto-me se Jorge de Sena procurava a eternidade ou se acreditava realmente que um dia a cor da liberdade iria realmente surgir. Felizmente ela surgiu e ele pode descansar feliz.
Quanto a mim, confesso a minha cada vez menor crença e por isso, talvez, procure mesmo a imortalidade, uma desculpa para me eternizar neste recanto do mundo, que tem crises, erros numa suposta democracia, usurpações nos direitos do cidadão, nos direitos humanos, no direito de nascer e crescer feliz. Mas é este o meu pais, aquele que me foi pai  que me foi mãe, que me ensinou lições de humanidade, de cidadania, valores de moral e de ética, ainda que talvez com aquela máxima do “faz o que te digo, não faças o que eu faço”, mas não deixou de à sua maneira de faze-lo, de perpassá-lo do passado para o meu presente. Deixando-o como herança para o breve e o longínquo futuro.
Por vezes tal como um filho que lhe vê negado um pedido, revolto-me, grito, choro, amuo, faço silêncio sepulcral, ameaço partir e nunca mais voltar, mas fico. Que fazer? É aqui que pertenço, já conheço cada pedra da calçada, vou conhecendo/reconhecendo até cada buraco da estrada. Já conheço cada raio de sol, cada noite com ou sem luar, cada onda de intranquila maré que se estende suave no areal, cada grão dessa praia, cada estrela que brilha na escuridão.
Mas gostava, gostava mesmo de não morrer sem ver este país florescer, deixar de ser “lixo” para as estatísticas. Voltar a reacender o sentido e o gosto de ser português, um povo sereno, trabalhador, lutador, conquistador de mares desconhecidos, afável, bom anfitrião. Esse português latino de guerra e de pranto, lamechas, pessimista, mas todo ele uma fortaleza de excelsas vitórias. Com um fado que lhe cresce na alma, e a eterna saudade de ser um passado que deseja no futuro continuar a ser glorificado e a levar de si testemunho por todos os cantos e recantos do mundo. 
Não quero morrer sem que Portugal deixe na terra os contornos geográficos da esperança e todos nós rememos finalmente na mesma direcção, porque se for preciso navegar para conquistar a felicidade, navegaremos, com os olhos no mar e o coração em terra. Navegaremos e com cada gota de água salgada feita de lágrimas e de riso, construiremos o nosso pequeno/grande paraíso na face lunar do destino. Entretanto, vou acordando ao som das notícias, sempre pouco animadoras, mas no meu peito o coração rejubila de expectativa e espera, por vezes quase desespera, é hoje, é hoje que renascemos das cinzas como uma Fénix que vai finalmente levantar voo e voltar a ser na ponta da Europa um jardim à beira mar, com um largo e franco sorriso, porque finalmente tem motivos para sorrir. Não foi hoje, mas talvez não demore a chegar ao cais a solução. Eu acredito, sou assim, não consigo desistir de ter confiança, fé, desejo, vontade. Nunca deixarei de lutar, está-me no sangue de ser portuguesa!

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Post.it: A alegria de ser triste

Levamos uma vida inteira em busca de algo. Damos-lhe um nome: Felicidade. Procuramos em  cada dia, em cada hora, em cada estrada, em cada esquina da vida, em cada noite desperta, em cada luar apagado. Em cada criança que nasce cheia de esperança, a sua, a nossa.
Procuramos em cada sonho dormido, em cada fantasia acordada, em cada desejo, em quase tudo, em todo o nada.
Buscamo-la na fé, seja de que religião for. Buscamo-la nos outros, em nós. Buscamo-la no amor, por vezes até a buscamos na solidão.
E quando, um dia, adormecemos para a vida,  quantas vezes e quantas vezes é uma partida marcada pela angústia de nunca ter encontrado esse algo, a que demos tantos nomes, o de pessoas, de lugares, de sorte, de um querer com tantos momentos em que quase, mas apenas quase, vislumbrámos esse ideal de perfeição com que somos brindados se o nosso caminho a ele nos conduzir.
Mas será assim, mesmo assim? Já vi pessoas maravilhosas viverem num contínuo inferno, já vi pessoas pérfidas viverem no mais plácido céu.
Onde está a justiça, o reflexo das nossas acções? Questionamos, uma, mil vezes. Cometemos um erro de lógica, quando nada na vida segue uma lógica na espera de  um eco que não se propaga.
Está mais do que na hora de deixar de procurar, deixar de esperar, para que a vida, tal como existe nos aconteça, e a vivamos sem questionar, sem revolta, sem comparação com o que poderia ser e nunca é. E a felicidade que procuramos como se fosse o mais precioso diamante, nada mais é do que pequenas gotas de orvalho reflectindo o sol da madrugada. “Só a realidade existe, só a verdade nos assiste. E a felicidade é de quem não desiste,  de viver a alegria de ser triste”.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Post.it: É longe...

É longe, é sempre tão longe antes de se dar o primeiro passo e o seguinte e o seguinte. De repente tudo fica mais perto. É claro que ainda não está suficientemente perto para lhe tocar com o olhar. Que ainda se estende para lá da linha do horizonte. Mas se cada passo continuar a seguir-se ao anterior e permanecer firme em busca do seguinte, um dia, o longe será perto.
Quase  o suficiente para lhe tocar com a ponta dos dedos, para o sentir a entrar no peito numa sensação de vitória. Porque nunca foi um sonho, mas um projecto, um início de percurso. Por uma estrada que mais tem mais do que esperança,  tem vontade, tem muito, tem quase tudo de nós.
“Já não tenho idade para reconstruir a vida, para me reinventar, para começar de novo, para voltar a acreditar”.
Mas o que tem tudo isto que ver com a idade? Tem apenas com a vontade. Tem que ver com o que somos quando nos libertamos do que fomos.
O futuro é essa porta que abrimos, é esse caminho que nos convida a segui-lo.
Sim, é longe, continuará a ser longe se não o encurtarmos.
E por mais longe que seja, certamente, lá chegaremos. 
Não perguntes “como”, pergunta antes “quando” e eu te responderei “quando tu quiseres”…

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Post.it: A paisagem

A paisagem é sempre o que quisermos, essencialmente o que somos, porque ela é vista por um olhar, apreendida por uma consciência, valorizada por uma experiência, julgada por uma estética, apreciada por uma moral, desenvolvida por uma política. Quando a paisagem nos entra pelo olhar, sobe à consciência e é analisada pela experiência, tocada pela beleza da estética e observada pelos valores individuais de cada um. E numa tentativa de harmonia a razão insurge-se em prole do naturalismo com argumentos científicos, mas o coração, num compasso descompassado entra na discussão, acelera-se-lhe o sangue cresce o fulgor – a fé. Só a fé, responde – pode conceber tal natureza dessa paisagem que se nos oferece.
Enquanto isso, o sol, alheio aos debates da ciência, do humano ou da religião, continua no seu trabalho, quase missão de florescer primaveras, de aquecer verões, de iluminar invernos, de aconchegar outonos. O vento sopra gargalhadas pela vã disputa, as árvores erguem-se em majestosa indiferença, o céu desinteressado de tal disputa, continua a estender o seu manto azul sobre o dia, o mar no seu vai e vem tenta escutar, tenta quem sabe, até algo acrescentar mas o movimento contínuo das águas fá-lo desistir. As rochas numa imponência desafiante obrigam a um renovado e atento olhar, como as explicar?
De repente um silêncio que nos mergulha no peito, calam-se as dúvidas, emudecem as científicas certezas; quanto tempo se perde na tentativa do Saber e tão pouco nos fica para o Sentir.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Era uma vez: Vida

Era uma vez…
Um grão pequenino, caído na terra.
Veio a chuva, o vento. Vieram o sol, as nuvens, a chuva e outra vez o vento.
No segredo da terra, o grão já era rebento, a  fazer-se raiz à procura do sustento e caule em busca de luz.
Nasceu, pequenino, verde, encarquilhado.
O sol sorriu-lhe e aqueceu-o
Ele espreguiçou as folhinhas enroscadas no caule e recebeu a luz e sentiu a frescura da brisa e bebeu do orvalho da manhã.
Confiou na terra, no sol, na chuva, no vento e deixou que a fizessem erva alta, a crescer em busca do céu. Frágil, bailando na brisa, depressa se fez forte, sustendo o esboço de espiga, querendo ser trigo.
E em redor, milhares, talvez milhões iguais a ela, um mar de verde a brilhar ao sol e a ondular ao vento. Verde, muito verde, à espera, confiando no sol que haveria de torná-la seara dourada.
E o verão chegou. Intenso, quente, luminoso.
A seara, dourada, bailava na brisa, à calma da tarde.
E a espiga, crescida baloiçava-se feliz, no topo do fino caule, debruçada sobre a terra que a fizera nascer.
A erva alta deixava-se embalar pelo vento e ouvia os grãos a crescerem na espiga, com ânsia de se fazerem pão. E ela, cansada, sentia uma alegria que não podia explicar.
Seria o sol? Seria o dourado da seara? Seriam os grãos a crescer?
Não!
Era simplesmente a vida, vivida, sentida, cumprida!
Deixou-se ficar serena, à luz da tarde, a saborear essa vida que recebera e agora oferecia.
E sorriu, de felicidade, simplesmente por existir.

Nota: Dedico este pequeno texto a Olhares, pelo seu aniversário. PARABÉNS, pelo que é, pelo que escreve e pelo que oferece à vida de todos nós.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Post.it: O barulho

“O bem não faz barulho e o barulho não faz bem”.

Ouvi esta frase, que quase parece um trocadilho, há muito anos, tocou-me fundo no peito, moldou-me os sentidos, fez-me crescer num repentino despertar de aprendizagem.
Quem me dera que me tivesse sido dita antes, muito antes, quando ainda mal soletrava as letras, quando o mundo se revelava meu e eu ingenuamente, egoisticamente acreditava. Segui pela estrada fora exigindo a vassalagem das pedras, subordinação das árvores, submissão dos mares, sujeição dos ventos, exigindo um céu azul, um sol brilhante. Criticava a vida, obrigava, gritava direitos de puro nascimento, fazia barulho, tanto barulho que passado um tempo, só o silêncio escutava.
O silêncio que como um pai paciente e amoroso, esperou até aos últimos resquícios de fulgor, pelo pacificar da alma, pela ternura, pela calma. Então, só então, como quem fala de banalidades, lançou discretamente aquela frase.
 Escutei-a, repeti-a uma, mil vezes, buscando-lhe o sentido e de cada vez que a murmurava no pensamento, soava-me diferente, mais intensa, mais verdadeira, mais necessária, mais urgente.
Abracei-a, senti-me abraçada por ela, não como um encontro, mas um reencontro. Como quem sabe que algo de importante, de essencial existe mas que ainda não se cruzou com ela. Quando há o encontro, acontece o reconhecimento, envolta numa espécie de saudade “esperava por ti, como demoraste…” Sim, podia dizê-lo, porque o senti, mas o que importa…, o que importa é que chegaste.
Talvez na hora certa, quando estava finalmente preparada para ti. Para te receber em mim e te transportar no peito e quem sabe um dia oferece-la como se fosse banal, até porque devia ser, se nos fosse naturalmente inata, uma célula que herdamos ao nos tornarmos vida.
 E tu estás preparado para ela? Só tu, com todos os teus sentidos, todos os teus valores e vivências, o saberás. Se esta frase te tocar, te enlaçar e tirares dela algum sentido para o caminho, então, sim, estás...
O bem não faz barulho, cada oferta que damos à vida, de ser feita sem alarde, ela sabe agradecer, sabe retribuir.
O barulho não faz bem, incomoda, magoa. É um gesto de quem não se importa com o outro. Por vezes, muitas vezes, só o silêncio entende, só no silêncio está a solução, quando o barulho que nos vai crescendo por dentro já não consegue escutar a voz do coração.