quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O tempo não passa

Afinal, o tempo não passa,
Não aqui, dentro do peito.
Para felicidade ou desgraça,
Se não corre ao nosso jeito.

E porque o tempo não passa,
No amor que em nós perdura.
Quando na vida nos trespassa,
Aquela doce seta da ternura.

Não há tempo perdido,
Nem tempo para mudar,
O sentimento bem vivido,
Que é o tempo de amar.

Em quanto que no rosto,
Um outro tempo parece falar.
Sem contornos de desgosto,
Mas dos ventos ao soprar.

Se pudesse o tempo rasgar,
Como folha de um calendário.
Para na vida inteira celebrar,
O renascer em cada aniversário.


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Post.it: Escrever

Escrever é traduzir para um código convencional, o que vemos, o que sentimos. É plantar nos outros a responsabilidade de se deixar tocar por cada semente de palavras que ecoam dentro do peito. 
Se não germinar, talvez seja culpa de quem escreve por não ter escolhido a melhor forma de oferecer cada partícula do seu sentir. 
Talvez seja culpa de quem lê por não ter em si desperto o código de sensações prontas a reconhecer o outro quando ele se lhe oferece. 
Talvez, não exista uma culpa nem um culpado e simplesmente seja intraduzível o que somos, o que sentimos, a forma como vemos o mundo à nossa volta. 
Talvez seja indizível a emoção que em certos grandes e pequenos momentos nos invade o ser. 
Talvez seja inexprimível o deslumbramento monumental que sentimos perante a mais pequena flor que nasce no solo mais árido e aparentemente do nada. 
Talvez seja inexpressável o momento fugaz em que a felicidade nos enche de plenitude. 
Talvez seja inexplicável a palavra que nos traça um rasto no caminho. Simplesmente, seguimo-lo, na esperança de a encontrar, de a pronunciar, de a viver. E com ela descobrir o sentido que nos faz continuar a escrever.




segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Memórias de petiz

Grandes são as memórias,
Que ainda contam histórias.
De uma vida ainda aprendiz,
Que por ser criança era feliz.

A lembrança das brincadeiras.
Das emoções tão verdadeiras.
Tudo era tão estranhamente belo,
Até o caminhar de raso chinelo.

O passado era tão recente,
O futuro parecia ausente.
Cada dia o simples despertar
Sempre trazia algo para revelar.

Quanto à dor, mas qual dor?
Do arranhão curado com amor?
Lágrimas do rosto a descer?
Que a brisa fazia desaparecer?

As memórias cresceram,
As histórias esmoreceram.
Até o sol pela noite apagado,
Obscureceu o olhar encantado.

Bem que tentou não crescer
Bem que lutou para não perder.
A criança feliz que então era,
Quem lhe roubou a Primavera?



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Post.it: O futuro

O futuro foi ontem, e eu estive lá, com todos os desejos, com todas as lutas, com todas as vitórias e alguns fracassos.  Sei como foi o futuro, porque o plantei, porque o cuidei, é verdade que nem sempre é o suficiente para que resulte em sucesso, há elementos que não controlamos, que nos escoam por entre os dedos em rios de vida. E tudo o que idealizámos, de repente segue um rumo diferente ou simplesmente não nos acontece.
O futuro que não se concretiza torna-se passado que arrumamos nos confins da nossa existência. De vez em quando revisitamos essas memórias, abraçamos com carinho aquelas que nos deixaram algumas saudades.
Porém, é uma visita que se quer breve,  para que não nos prenda na análise magoada do que foi, do que poderia ter sido, porque não foi, porquê. Porquê?
Não há resposta, nunca houve, além disso, à porta, o futuro clama por nós, exige a nossa atenção, dedicação, antes que também ele se torne passado repleto de dúvidas, de arrependimentos, de saudades que nos impedem os passos. E depois, como já dizia o meu avô na sua filosofia arrancada à aridez do solo no trabalho de sol a sol,  “o tempo não espera e cada minuto perdido, é um minuto não vivido”. 
O futuro foi ontem, o hoje é a sua materialização e o amanhã a recolha do fruto. Mais doce, mais amargo, consoante o grau de amenidade que caracteriza cada uma das suas moléculas de vida.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Post.it: O silêncio de um abraço


“Tudo o que tem de ser dado soletra-se no silêncio”.
- Então porque continuamos a falar, a questionar?
- Porque ainda não ultrapassamos a surdez do sentir.
Este poderia ser um diálogo, e é. São as questões que me coloco, são as dúvidas que vos coloco.
Se só o vosso silêncio me responder, congratulo-me, é porque ficaram a sentir, a reflectir,  a ter o aprazível encontro com o senso comum algo que sempre tive dificuldade em reconhecer na continua mutação de cada momento humano.
Como humilde ignorante, confesso  que os meus neurónios continuam aos gritos, ambiciosos no seu discurso de perscrutação. É bom querer saber, dizem. É saudável questionar para que se possa evoluir. 
Mas também é magnânimo reconhecer a verdade e o valor de tudo o que não se diz. Sentir que basta simplesmente aquietar o peito, a mente,  deixar que cada pensamento se livre da sua demanda e se permita levemente voar. 
 Para perceber que é naquele silêncio  que o melhor de nós é dado. Quando a oferta de um abraço contem e transmite todo o dicionário de sinónimos de afecto, de carinho, de amizade e amor.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Rimas magoadas

Tinha vontade de escrever,
De reinventar a poesia.
Sentia no peito a crescer,
Rimas de generosa alegria.

Mas parou-se-me a escrita,
Pereceu-me a inspiração.
A escrita já não acredita,
Que algures a escutarão.

Ficaram as emoções magoadas,
Ficaram as palavras ofendidas.
O vento não lhe apaga as pegadas,
O tempo não as torna esquecidas.

O Porque insiste a memória,
Em repeti-las quando tento.
Risca-las da minha história,
Varre-las do pensamento.

E às emoções que me eram rio,
A expressão “Verbo-de-encher”.
Ficou uma sensação de vazio,
Roubando a naturalidade ao dizer.

Agora, a rima no seu recanto,
Ainda semeia sem primavera,
Flores que não têm o encanto,
Que já tiveram numa outra era.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Post.it: Anestesia

Uma espécie de sono involuntário. Quando nos dizem “conte até 10”, mas só até ao 2 deve bastar. Depois o nada, o vazio, o infinito do espaço, o eterno do tempo. De repente, “roubam-nos um momento de vida, porque ficamos ali inertes, sem possibilidade de animicamente o viver.
“E se não acordar?” perguntam-me. (Maravilha das maravilhas), penso sem verbalizar. Ficar para sempre a sonhar e ninguém saber que sonho, sem o interromper. “Mas e o que fica por dizer, e o que fica por fazer?”. Se não se disse em algum momento, se não se fez em altura alguma, então,  não era para dizer, não era para fazer, nem que nos fosse permitido viver mais 100 anos.
E, confesso, é tão bom ficar anestesiada, nada sentir, nem dor, nem mágoa, nem alegria, nem tristeza.
Mas e se acordar? Se voltar à realidade sem sonhos concretizados? Aos dias de chuva que me inundam o coração? Às noites sem luar que me escurecem os pensamentos? Posso pedir mais um pouco de anestesia? Posso voar mais um pouco? Posso fugir? Posso lá ficar sem ter de regressar?
E o que fica por dizer, e o que fica por fazer? Ora, depois penso nisso. Tenho tempo. Quando voltar. Quando acordar. Quando deixar de sonhar, de acreditar.
Agora, feche os olhos e conte.
 1, 2, 3…

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Post.it: Nascendo

Quem somos? Sim quem somos? Depois de alguns anos, muitos, talvez, já sabemos tudo sobre nós, e às vezes numa falta de humildade, julgamos que sabemos tudo, ou quase tudo sobre os outros.
Mas que sabemos sobre nós, que sabem os outros do que somos? Altos, baixos, gordos, magros, loiros, morenos, brancos, pretos, mas isso é só a forma do “embrulho”, não nos revela, embora em muitos casos, condicione a forma de existirmos. Simpáticos, generosos, bondosos, benevolentes, amáveis, atraentes, francos, leias, persistentes, firmes, convictos lutadores, sim, tudo isto já são características do que somos em qualidades, possivelmente em defeitos.
Mas a verdade é que podemos ser mais, muito mais, coisas que nem nós que há tanto tempo nos “conhecemos”  sabemos. E de repente, por vezes, do nada, surge a revelação, surpreendemos os outros, surpreendemo-nos a nós. E a história, a nossa história muda por completo.
Olhamos para o passado em busca de um indício, lá onde tudo começou, no berço, na infância, na adolescência, nas relações, na solidão. Em algum tempo, em algum lugar, estava lá, não o vimos, não sentimos, ou não quisemos (por medo) sentir. Afinal, apenas queríamos ser “normais”, iguais aos outros, e igualmente felizes como eles. Mas tudo não passou de uma conveniente aparência, ilusão que criávamos não para iludir os outros mas sobretudo a nós.
Não, não era fingimento, como fingir o  que nem sabíamos que éramos? Ou sabíamos, no fundo sabíamos, mas era como que uma mágoa, uma dor fina que não chegava verdadeiramente a doer, uma loucura “pensava”. Disparates da juventude, mas queria, queria muito ser aquele outro que não era, num outro corpo, numa outra alma.
Mas numa torrente impossível de suster por mais tempo, surge, revela-se como um  susto de onda avassalava-me o peito, o desejo de calar um grito que me ecoa na veias. 
Depois, muito tempo depois,  num tempo que nos parece eternidade, uma calma de impotência, tinha de aceitar, de me aceitar. Que há de errado em se ser quem se é? E o que sou! Sim, o que sou? Não sei, vou-me nascendo, de dentro para fora. Um parto doloroso, mais de ansiedade do que de tudo o resto. Na ávida esperança de que um dia, um feliz dia, seja realmente Eu!...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Post.it: Dá-me...

“Dou-te  para que me dês”, sim é verdade. Não o digo em tom de escondida confissão. Afirmo-o, reconheço-o. Não é egoísmo, não é fraqueza, é a necessidade humana de um feedback.
Pode não ser no agora, nem no hoje em que te dou, mas no amanhã, mesmo que num amanhã que ainda vem distante. Não entendes, dizes que não tens nada para dar, nem sequer dinheiro ou vontade para o comprar. Recebes com medo de um compromisso de reciprocidade, encolhes o gesto da recepção, estendes as mãos semi-fechadas, enclaustras o olhar, cerras o coração.
Mas eu insisto, continuo à tua  porta sem bater, à espera. Numa espera de esperança porque sei que o que me move és tu, a ausência desse sorriso que quero  ver de novo desenhado nos teus lábios.
Se não tiveres nada para dizer, nada digas. Prefiro o silêncio ao “obrigado” frio que obedece ao mero protocolo educacional, ou como reflexo condicionado. Até porque sei, sim sei ou acredito,  que o silêncio não será necessariamente o mutismo dos sentimentos.
Não, não temas, não precisas dar-me nada que exija gasto material, gasto de energia, ou de querer. Dá-me um dia, nesse dia em que o sintas em ti.
Dá-me, preciso de receber, o sol do teu olhar.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Feliz Ano Novo


       Neste quase final de Dezembro,
       Neste quase culminar de ano.
       Em que esqueço e relembro,
       Cada ventura e desengano.

       Foram tantos, tantos meses,
       De mágoa e de esperança.
       Chego aqui e os revezes,
       Tornam-se mera lembrança.

       É preciso continuar a sorrir,
       É preciso continuar a amar. 
       É preciso de novo repetir,
       O sonho para o alcançar.


      É disto que é feita a nossa vida,
      É disto que somos feitos nós.
      Quando vemos em cada subida,
      O desafio que nos cresce veloz.

       No final o que sempre resta,
       É esta vontade de recomeçar.
       Vamos deixar a porta aberta,
       Para o Novo ano possa entrar.

       Que seja um ano de felicidade,
       Que venha repleto de alegria.
       Para que toda a humanidade,
       Viva em paz e amor cada dia.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Post.ti: E depois do Natal?

E depois do Natal? Cabe a cada um cuidar da “prenda” que recebeu. Esse abraço quente, essa palavra amiga, esse sorriso franco, esse olhar que nos olha nos olhos. “Prendas” que esperámos o ano inteiro, que tardaram, dizem uns; que chegaram na hora certa, dizem os que as sabem receber. Porque até para receber é preciso saber. Receber sem criticar, sem analisar, sem esperar mais.
Porque receber é também dar, dar o agradecimento dessa chegada, dessa lembrança, dessa partilha. Lembro-me tantas vezes da minha avó “adoptiva”, das suas sábias e generosas palavras “tudo o que é recebido com gratidão é também dado com o coração”. 
Noutros tempos, quando era miúda, ouvia esta frase e não a entendia completamente, soava-me a ternura e por isso a acalentava no pensamento. Foi preciso crescer para não só a perceber, mas também a sentir. Por vezes temos de “crescer”, para as coisas mais simples nos começarem a fazer sentido dentro do peito.  
Coisas simples como o Natal, não a data, a azáfama das compras, a mesa recheada, as luzes a piscar. Porque se o Natal fosse apenas isso, o depois era triste, doloroso, a expectativa áurea da chegada o desalento da partida, os presentes transformados num monte de papeis rasgados,  a mesa replecta de pratos meio vazios, as luzes ainda a piscar em cores solitárias. 
Felizmente, o Natal é mais, muito mais do que isso. É a mensagem que nos fica a dançar nos sentidos, que nos faz prometer coisas que nunca conseguimos cumprir na sua totalidade, mas que desejamos tanto manter. 
O calor daquele abraço que nunca vamos esquecer, aquela palavra que fez todo o sentido no nosso rumo, aquele sorriso que nos prolongou a esperança mesmo que se torne um dia apenas lembrança, e aquele olhar, sim aquele olhar que nos diz tanto sem usar as palavras cansadas de serem ditas e por vezes esquecidas de serem verdadeiramente vividas. 
Não, o Natal não é fingimento, o Natal não é ficção, obrigação. Natal é  como estamos, por vezes com lágrimas, com solidão, com doença, com uma certa escuridão, mas Natal é também o que somos, a capacidade de transformar a dor em ternura, a solidão em carinho, a doença em luta e esperança na vitória e encontrar  algures em nós a luz do caminho. 
E depois do Natal? Volta a questão. Natal não deve ser um final, mas um começo. Abrimos as “prendas”, está na hora de as apreciar, de lhes dar uso. Vamos desembrulhar a esperança, desenvolver a confiança,  conservar a expectativa, aumentar o ânimo, guardar o alento, ampliar a fé, estimular a coragem,   sonhar mesmo quando a realidade nos acordar e acreditar que o Natal não tem um antes e um depois mas um contínuo presente.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Bom Natal

                        A todos um Bom Natal
                    Sejam e façam alguém Feliz
















terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Jasmim

Tu que buscas apenas com o olhar,
O que está para além dessa condição.
Aquilo que só  se pode encontrar,
Quando se busca com o coração.

Mas como algum dia tu verias,
Se em sonhos andas a navegar.
Por entre ideais  de  fantasias,
Onde nunca poderás encontrar.

Desce à terra e aceita,
Que a perfeição não existe.
Que não é dos deuses a eleita,
Nem da tristeza é a mais triste.

É apenas humana e assim,
Não como queres que seja.
Simples como flor de jasmim,
Que à rosa não causa inveja.

Mas se a vires, se lhe tocares,
Se a sentires em verdade.
Saberás, são cegos os olhares, 
Que não vêem a sua lealdade.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Post.it: Porque é Natal

Não sei o que significa para vós o Natal, certamente não estarão interessados em saber o que significa para mim, por isso abstenho-me de o fazer. Mas o Natal será sempre e apenas o que cada um o torna, para si e para os outros. Se é comprado, se é sentido, partilhado, solitário ou solidário, cada um é que sabe como o deve ou não celebrar. Se é apenas um dia, se sobrevive durante todo o ano, mesmo nos dias mais tristes, doentes, carentes, está em cada mão conduzi-lo nessa ou noutra direcção. Amado por uns, desprezado por outros. Olhado com indiferença, abraçado por qualquer crença, é o Natal com a sua história que se reacende na nossa particular memória. 
Acendem-se as luzes, e se nos permitirmos, acende-se a esperança. Apetece ser generoso nem que seja unicamente com palavras, num Bom dia ao dia que muitas vezes nos esquecemos de dar. Apetece olhar para aquela pessoa que tantas vimos sem realmente a ver. Apetece tocar aquele coração que parece por vezes tão distante. Ou abraçar alguém que se sente cada vez mais só. Apetece pegar no telefone e escutar do outro lado aquela carinhosa voz. 
Parece estranho porque tivemos um ano inteiro para fazer todas estas coisas, mas não fizemos, adiámos, arrumámos num canto qualquer da agenda, culpámos a rotina, o emprego, os filhos e no final de cada dia, murmurámos, talvez amanhã. Um amanhã que se prolongou até ao agora. Mas porquê agora? Questionamos, sabendo de ante mão a resposta. 
Porque é Natal e no Natal nada podemos adiar, há como que um apelo genético, cultural, social, religioso, consciencioso, chamem-lhe o que quiserem. Há um dever do coração, da alma, de todo o nosso ser, que nos relembra o que devemos a nós e aos outros.  “Obedecemos”, com vontade e sobretudo com ternura. Cumprimos a tradição, soltamos o perdão, atenuamos o olhar crítico, sorrimos às mágoas, suspiramos nos engarrafamentos de trânsito e de repente toda a pressa instalada de correr contra o relógio desaparece, como que por milagre, como se houvesse realmente milagres, apetece… Apetece, simplesmente agradecer, o quê? Tudo. “Como se caímos?” Mas o que importa é que nos levantámos. O Natal somos nós. Por isso que cada um o torne Feliz.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Post.it: O tempo pára

Quantas pessoas têm tempo para apreciar o tempo? Não o tempo a passar mas o tempo a pousar como se fosse um pássaro sobre o ramo da árvore da vida?
Poucas e no entanto o dia tem para todos, as mesmas horas, os mesmos dias, (às vezes) os mesmos meses, (às vezes) os mesmos anos.
 Todos temos tarefas, rotinas, os que têm muitas, encaixam-nas arrumadinhas em cada canto dos segundos, as que têm poucas (mas para si, sempre demasiadas), espalham-nas na desordem das horas. Depois, queixam-se que o tempo “voa”, que nem dão por ele passar. “Ainda ontem tinha 20 anos, hoje já tenho 80, como o tempo passa”, suspiram.
E no entanto há momentos em que o tempo parece parar e pousar sobre o nosso ombro sussurrando-nos melodias de vento. Mas nem um cabelo se agita, a vida de repente parece-nos um dos mais belos quadros de Renoir.
 O rosto de linhas suaves, os olhos parados querem beber o azul celeste, os lábios calados esboçam um quase sorriso de Mona Lisa, os ombros encaixam-se deleitosos no recosto da poltrona, parecem leves como quem se libertou do peso do seu viver, os braços em descanso, descem como um rio de graciosos contornos até ao seu leito/regaço para revelarem no seu términos duas mãos com dedos entrelaçados num abraço de quem reconhece e agradece a companhia partilhada.
As pernas surgem contraídas, numa posição rectilínea de tensão nervosa, os pés alinham-se sem se tocar, indiciando no entanto, o desejo de passos, de quem ainda  não desistiu totalmente do caminho, mesmo quando o corpo se entrega a um magistral cansaço, pés que irrequietos na sua aparente quietude revelam o desejo de continuar a palmilhar a vida. Para onde? Em frente, sempre em frente, há de ir dar a algum lugar..
Ao lado da poltrona, no chão, jaz um lenço, terá caído, terá sido abandonado, rejeitado? É um lenço de companhia que as senhoras gostam de usar para tornar discreto qualquer gesto necessário de ser feito.
Mas aquele lenço, ainda novo nas suas funções, identificável pelos os vincos engomados que trouxe da loja e no entanto já está no chão, caído, esquecido? Não, um olhar mais atento faz a sua revelação, por entre o bordado florido, uma lágrima, um quase lago tocando as flores. 
Uma história que só o tempo contará a quem tiver tempo de a ouvir. Podemos contudo acrescentar à contemplação que, o  tempo pára, mas pára mesmo, não só para quem parte, mas por momentos, também para quem fica.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Semente

Ando aqui a esperar-me,
Neste meu passo lento.
Ando por aqui a nascer-me,
Na ténue luz do lamento.

Porque não tenho medo,
Porque quero descobrir.
Este tão tarde que é cedo,
Para me navegar o partir.

Sou a semente lançada,
No colchão térreo da noite.
Para surgir na madrugada,
Seara ceifada pela foice.

Mas continuo a ter sois,
Espreitando-me na alma.
Ventos alvos, velas, lençóis,
Buscando marés de calma.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Post.it: Estive sempre lá


Estamos em Dezembro, o ano aproxima-se do seu términos, desejamos este fim pela esperança de um recomeço para o próximo ano, desejamos que não acabe, quando ainda falta tanta coisa para fazer neste ano. No entretanto, algures entre a espera do sono e o começo do sonho pensamos…
Talvez tenha sido curto o tempo, é sempre pouco para aquilo que gostamos. Então reclamamos, queremos mais, queremos repetir. Queremos voltar a sentir. Que o tempo regresse ao passado, que o passado seja novamente presente e o futuro a sua eterna reprodução. Queremos existir de novo, voltar a estar nesse lugar, com essa pessoa. Mas as primaveras partem, logo, logo chega o inverno com tal ansiedade de que ele nos seja leve e rápido nem sentimos que pelo meio floresceram outras estações. Estações de mar, de céu azul, de sol luminoso. Estações de despedida para que a natureza renasça,  onde os dias cheiram a erva cortada rente, a folhas secas são levadas pelo vento. Temos tanta pressa de chegar a esse lugar algures no desconhecido, que, quando nos cruzamos com ele, não o reconhecemos. Na verdade, não estamos prontos para lhe dar as boas-vindas, para o acompanhar. As marés partem, os dias adormecem, os luares suspiram por reencontros que rapidamente ofuscam a madrugada. 
De repente, cresce-nos no peito uma ausência, um vácuo de sonhos que nos esquecemos de sonhar enquanto construíamos outros para momentos perdidos no horizonte. Questionamos os anos, questionamos a nossa história, questionamos o que somos desencontrados do que queríamos ser. A mágoa enche-nos o peito, afoga-nos os sentidos. E no instante exacto em que a felicidade nos quer fugir, estendemos o braço, circundamo-la num abraço. Não é verdade que tudo tenha sido mau, triste, fugidio, não é verdade que colecionámos fracassos, temos alguns, muitos, sucessos, tantas e tantas razões para perceber que ela esteve, quase sempre presente e que nós, que eu ao longo do meu viver “existi nos melhores momentos que pude”.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Passos

Quem nos diz de onde vimos,
Para sermos o que somos.
Antes de sermos semente,
Antes de sermos um feto,
Ou caminho de doces afetos.
Quem nos diz por onde seguirmos,
Ou nos revela para onde vamos,
O quanto custa para se ser gente.
Ou para se alcançar um teto,
Num mar de afundados projetos.

E tudo o resto são apenas passos,
E tudo o resto são ávidos desejos,
Pequenos nadas que nos são tudo.
Quando são tudo o que nos resta,
Nesta pretensão de vaga miragem,        
Afinal somos nómadas cansados,
Afinal somos pastores de sonhos,
Tudo o que queremos é o mundo,
Para nele celebrarmos a festa,
Do viver com a nossa coragem.


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Post.it: O nosso mundo

Por vezes o mundo parece-me pequeno, demasiado pequeno, que as fronteiras me sufocam, que aqui e ali me acotovelo com outras nações que passam por mim indiferentes na sua ânsia de chegar a algum lugar mais feliz, mais pacífico, sem guerra, sem fome, sem sonegação dos direitos humanos, sem discriminação das  mulheres, sem xenofobia, sem racismo,  sem politiquices e tudo em nome da democracia, da liberdade, tudo em nome de Deus, um Deus que muda de nome, de valores, de amores e causa tantos, demasiados horrores. 
O passado remoto ou próximo está cheio destas tristes memórias. E o mundo que dantes me parecia enorme, que pouco ou nada sabia dele, que pouco ou nada me tocava, tornou-se minúsculo, tão minúsculo que o que acontece a milhares de quilómetros me entra pela casa adentro, ressoa pelas paredes da sala e o sofá que me era tão confortável torna-se doloroso, de repente, aquelas imagens invadem-me os olhos, espantam-me a boca que não consegue soltar qualquer som, enquanto no cérebro os pensamentos gritam-me não sei que palavras de estranha dor. 
Lá fora continuam os gritos, o terror, o temor, aqui na minha sala, o silêncio questiona tudo, questiona o mundo, incapaz de obter uma resposta pelo sofrer global da humanidade, restam-me as lágrimas as minhas, as vossas; será que Deus poderá alguma vez secá-las? Do rosto sim, mas da alma irremediavelmente ferida pelas vidas violentamente roubadas, nunca.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Post.it: Até um dia...

Há sempre algo que fica por dizer, algo que fica por fazer, mesmo quando achamos que dissemos tudo, que estivemos sempre presentes, que demos tudo o que poderíamos dar. Há sempre algo, e é esse algo que nos dói profundo no peito. É esse algo que nos aumenta a saudade, que nos deixa inquietos, revoltados, até mesmo zangados  com a vida no que ela é de tempo. Afinal bastava, talvez, mais um dia, aquele em que poderíamos ter feito o que ficou por fazer. Bastava aquele abraço, aquele adeus que acabámos por não dar. Mas a verdade é que mais um dia, um mês, um ano, qualquer tempo, nunca chegaria, porque temos sempre muito mais para dar.
Perante aqueles que amamos, o que temos para dar em termos de amizade e de carinho, nunca se esgota. E depois, passe o tempo que passar, mesmo quando sabemos que cada momento pode ser de quase partida, nunca lhe poderemos dizer adeus. Riscámos essa palavra do nosso dicionário de existência, apagámo-la do nosso coração a partir do momento em que abrimos a porta a essa pessoa, ela entrou e nele permaneceu e permanecerá.
Querida professora, as suas aulas não foram somente lições de filosofia, foram sobretudo lições de vida e houve uma frase, entre muitas outras, que me disse num dia particularmente difícil, e que ainda hoje quando necessito, a ela recorro “Lembre-se de esquecer”.
Eu tento, tento esquecer tudo o que me magoa, mas nunca esquecerei o que me fez feliz, nem as pessoas que para isso contribuíram e nas quais a incluo. Admirei sempre a sua atitude de coragem, “ o que não podemos curar devemos suportar”. Ambas sempre fomos Kantianas por isso despeço-me com uma frase desse filósofo, para atenuar a mágoa do caminho. “Se vale a pena viver e se a morte faz parte da vida, então, morrer também vale a pena” e nesta fé, despeço-me  até um dia, para então, retomarmos as nossas conversas filosóficas.


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Post.it: Liberdade

Liberdade, o maior bem que a vida nos dá. Uma liberdade que nasce connosco, que nos é inata, que nos é inerente ao processo natural de crescer. Uma liberdade vivida, sentida com todos os sentidos.
Uma liberdade que nos abre janelas quando encontramos as portas fechadas. Que nos permite ver o horizonte por entre as frestas das montanhas. A liberdade de navegar mesmo que tenhamos de remar contra a maré. De caminhar de atingir metas, mesmo que tenhamos que ir a pé. A liberdade de voar com o peito aberto aos desafios, mesmo que nos cortem as asas.
Sim, somos livres, apesar de todas as prisões, de todas as limitações. De todas as restrições sociais, das determinações culturais, das delineações políticas. Somos livres, apesar de todas as fronteiras naturais e humanas. E a nossa liberdade acontece a cada passo que damos, quando optamos por seguir esse destino. Acontece sempre que dizemos sim à justiça, sempre que negamos o preconceito, sempre que abrimos os braços e abraçamos uma causa em defesa do bem comum, em prole da felicidade.
Temos a liberdade de ficar, de partir, de chorar, de rir. Temos a liberdade de acreditar, temos a liberdade de ser o que somos.
Mas se nos roubarem a liberdade de existir, de escolher, de lutar, de vencer. Nós, humanidade nunca desistimos, enquanto tivermos, a liberdade de desejar.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A vida tem dias...

Feita por vezes de uma alegria,
Que parece que não se gasta.
Outras vezes é-nos água fria,
Que nos magoa e desgasta.

Tem dias que nos acorda luzindo,
Com sol por dentro e por fora.
Tem dias que lá vamos iludindo,
Para que de nós não se vá embora.

Mas depois há aquele sorriso,
Mas depois há aquele abraço,
Que nos eleva ao doce paraíso,
Que afasta de nós o cansaço.

E aos dias que são de pranto,
E aos dias vazios e sem calor.
Outros há que são de encanto,
Muitos há que são de amor.

Na vida todos os dias são novidade,
Entre momentos alegres e tristonhos.
Por vezes vislumbramos a felicidade, 
Nem que seja no mundo de sonhos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Post.it: Ainda ontem...

Ainda ontem tinha 18 anos, o rosto resplandecente de sorrisos, os cabelos castanhos de seara ao vento. Subia as montanhas em corrida, saltava riachos, subia às arvores mais altas sem medo da queda. O tempo era lento demais para os meus passos e as estradas as únicas decisões difíceis de tomar.
Ainda ontem tinha 18 anos, não tinha cansaço de tudo, as letras não me fugiam dos olhos, os ossos não me doíam no final do dia, os cabelos não se tornavam veios brancos aumentando e conquistando espaço numa luta desigual com os escuros que vão pacificamente aceitando a derrota. Os pensamentos não me magoavam, os sonhos ainda se concretizavam sem se tornarem bolas de sabão explodindo antes mesmo de adquirirem contornos palpáveis.
Ainda ontem tenho 18 anos olhava os rostos conhecidos com expectante angustia por os ver a mudar, a murchar nos sulcos marcantes de cada dia, por olhar para olhos que empalideciam, por lhes notar os sorrisos cada vez mais retraídos, as mãos que já não apertam com a mesma força de esperança que antes lhes conheci.
De repente olhei-me no espelho, espantei-me, esses rostos eram em tudo o meu.
Ainda ontem tinha 18 anos, corria, caia, levantava-me, sorria e seguia, como se nada importasse, com se nada me atingisse, sentia-me heroína e escritora da minha própria história. 
Ainda ontem tinha 18 anos, amava, chorava, conquistava, era feliz, tão feliz e não o sabia. 
Tu, que te estreias agora nos 18 anos, parabéns e peço-te nunca os percas, guarda-os no peito como se fosse (e é) o mais doce tesouro que temos na vida, vive-os com o sentido de eternidade, de lealdade, de vontade, de liberdade para que, daqui a alguns anos os sintas ainda em ti, como felicidade e não com resignada saudade.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Post.it: Cada vez mais distante

- Como está o nosso amigo? 
- Cada dia mais distante. 
À velha e eterna questão que leva a vida para o seu final, nunca me tinham respondido assim, com tal serenidade, a quietação de quem aceita a partida ou com tranquilidade por quem parte. 
Um tema que a todos parece assustar de uma ou de outra forma, dito desta maneira, sentido assim, tudo suaviza, pacifica, concilia com a sensação leve de viagem. É certo que sempre foi um caminho, um percurso individual mesmo quando colectivo porque é de todos, um percurso de altos e baixos, de curvas e contracurvas. 
Mas dizerem isto assim, deu-me outra consciência, a plena noção de que não tem de ser necessariamente mau, doloroso, angustiante. Que não temos que ficar vazios dos outros, quando afinal fomos por eles tão preenchidos. 
Como quem agarra uma onda, aprisiona-a na mão fechada, vê-a, sente-a a escoar-se por entre os dedos, não morre, simplesmente fica de nós cada dia mais distante. 
É a transição do que somos, o aqui e ali onde paramos, ficamos, dando, partilhando e depois seguimos viagem. 
Há quem tenha uma meta e a persiga na tentativa de a tocar. Há quem simplesmente prefira o viver, no prazer da viagem sem projectar mais além o objectivo de chegar porque sempre acabamos por chegar a um tempo, a um lugar. O enigma torna-se a grande e por vezes maravilhosa surpresa da passagem por locais, pessoas, a incógnita das vivências que todos nós conhecemos em qualquer momento da vida. 
Partimos? Acredito, ou melhor preciso de acreditar que não, só se nos esquecermos, só se formos esquecidos, só vamos ficando cada vez mais distantes…




quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Post.it: Olá...?

- Olá, onde estás?  Lembro-me de nós quando o tempo pára por instantes numa longínqua recordação. A pergunta eleva-se no  pensamento, e o silêncio é a única e dolorosa resposta. Por tudo o que se passou entre nós, porque naquele momento se acreditou que o tempo era infinito. Que tudo podia acabar e recomeçar vezes sem conta. Que tudo estava bem, ou iria ficar, tudo era nosso e o futuro era uma estrada florida à nossa espera.
Porque fazia parte de mim e  porque depois de tudo  se tornou uma ausência? A dada altura adquire-se a noção de que um pouco do que se é, a determinada altura se perdeu algures pelo caminho.
- Olá, onde estás?  Tenho ainda o teu número mas nem vale a pena ligar, de certeza que já não é o mesmo. De certeza que já não somos os mesmos. Há coisas que são de um lugar, que são de um tempo, de um momento e que por mais que tenham sido bonitos, já não voltam. Não podem voltar,  até porque mudámos,  crescemos e a beleza que víamos, que  sentimos naquela altura é tão diferente da que  hoje conseguimos ver e sentir. Perdemos a ingenuidade, trocamo-la pela “maturidade”, repetimos como forma de reconforto. Mas, não sei, não sei se não trocaria toda a aprendizagem, todo o viver, por toda aquela doçura, por toda aquela ternura que nos dá o  acreditar, o sonhar. Por aquele brilho do olhar, por aquele sorriso espontâneo, por toda a esperança, por toda a ilusão, por todas as sensações que nos fervilhavam no coração.
- Olá, onde estás?  Quem sabe feliz, quem  sabe infeliz, será que ainda te lembras de mim, será que tens saudade de nós? Será que também te perdeste de quem eras, será que amadureceste, envelheceste, que as rugas apagaram o teu sorriso que ainda recordo menino, será que o teus olhos ainda são sois e à noite luares, será tens o mesmo forte abraço, será que ainda acreditas e fazes os outros acreditarem que o mundo é um lugar perfeito?
- Olá, onde estou? Será que alguma vez te perguntas?
Estou aqui, aparentemente tão perto, certamente tão longe do que fomos. Lembro-me de ti, lembro-me sobretudo de nós e tenho saudades, infinitas saudades de mim de quando eramos entusiasticamente e candidamente nós.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O Sol à Lua

O teu nome é Navegar,
E sendo nós ondas de um mesmo mar,
Nunca na costa nos iremos encontrar.

O teu nome é Sonhar,
E sendo nós estrelas do mesmo luar,
Nunca a noite nos irá embalar.

O teu nome é Amar,
E sendo nós corpo do mesmo caminhar,
Nunca o nosso ser se irá enlaçar.

Porque o mar é tão ampla imensidão,
Porque o luar revela ao céu demasiadas fases
Porque o corpo tem um único coração.

Mesmo que as ondas sigam o rumo certo,
E as estrelas continuem a ser brilhantes luzes,
O abraço que demora torna-me deserto.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Post.it: O outro

O outro será sempre o outro porque não é eu. E eu sou diferente do outro, por vezes, demasiadas vezes lhes indiferente. O outro, esse que julgo, que me julga. Que se sente melhor, ou até mesmo superior, e não sinto isso eu também? Então critico, sou criticada e nesse jogo de desresponsabilização cresce feroz um ego magoado ganhando nome: Aceitação. Porque no fundo, mesmo que bem lá no fundo, só queremos ser aceites, tal como somos. Nas coisas semelhantes, mas sobretudo nas diferenças. Afinal que culpa temos, dos genes que herdámos, das células que nos definem, da sociedade que nos moldou, do bairro onde crescemos, dos bolsos vazios, dos sapatos rotos, do ar desalinhado. Quem nos olha com o coração de ver e vê a alma pura e límpida que temos?
Adultos, jovens, crianças, vidas escritas a cada passo, por cada sim, por cada não. Então alguém ousa perguntar aos mais jovens o que têm de negativo os adultos. “O seu egoísmo e individualismo, o seu gosto mórbido pelo dinheiro, pensarem que já sabem tudo, a falta de esforço para entenderem os jovens e os seus problemas, a negação quase sistemática ao diálogo”. É a vez de fazer colocar esta mesma questão aos adultos na relação com os mais jovens, não vale a pena referir o que respondem, é uma quase perfeita cópia do que os jovens disseram sobre eles. Estranha esta coincidência de opiniões, ou talvez não.
A grande diferença é que os jovens acusam os adultos de já não sonharem. Enquanto os adultos acusam os jovens de ainda não terem aprendido a sonhar.
Falta fazer a ponte, seja qual for a distância. Falta dar o passo em direcção ao outro e  compreender definitivamente de que para o outro, nós somos é que o somos o outro.
Falta reconhecer o percurso da felicidade no exercício da liberdade individual e colectiva e compreender que “A Liberdade consiste em fazer tudo que não prejudica os outros(Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão).
Porque o outro será sempre o outro, que um dia encontre em si o Eu.
Por fim, falta que uns não percam a capacidade de sonhar e que outros a encontrem muito em breve.