sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Post.it: As rosas de Malherbe

Apenas o momento basta, esse, onde cabe todo o tempo do universo numa só sensação, numa só emoção. Quando se vive uma vida inteira em busca do que nos completa, do que nos torna seres melhores. Quando se vive na esperança de se ser feliz, uma felicidade que seja eterna, numa eternidade sem tempo exacto, uma vida, um ano, um dia, o tempo de ser como as Rosas de Malherbe que só vivem (uma breve manhã). 
Mas mesmo que sendo curta a felicidade,  parece ainda assim difícil da encontrar, para muitos impossível de alcançar, de conhecer. Resta o sonho, resta a espera, resta a vida nas suas marés de mares que elevam ou afundam, que libertam e sufocam. Restam as primaveras coloridas, restam as rosas, mais duradouras que as Rosas de Malherbe. No entanto  o nosso olhar, por vezes tão ávido de paisagens longínquas, passa sem ver a beleza do que nos está perto. A felicidade que está no mais simples gesto, no mais doce rosto, no mais terno sorriso. Que nos surge escondida no silêncio e nós não o escutamos, não sentimos de tão inundados que estamos de palavras vazias à espera que se encham do que queremos escutar. 
Quando bastava todo o tempo perdido, todos os momentos esquecidos, tudo o que distraídos não observámos, tudo o que desvalorizamos, tudo o que diminuímos, tudo o que não quisemos por ser pouco para o tanto que ambicionávamos ter. Acabamos tantas e tantas vezes por termos tudo e continuamos a lamentar o que não temos. 
Se ao menos fossemos simples Rosas de Malherbe aproveitando, vivendo a longa e terna manhã, ensolarada de chuva,  inundada de luz, com ventos que nos dançam suaves nos cabelos e tudo o resto fosse um suspiro feliz de quem inspirou a emoção de ter vivido.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Post.it: Com medo do infinito

Tenho medo de me perder, perder na estrada, no caminho, na vida, no destino. E tenho medo porque me perco facilmente e demasiadas vezes. Sigo para a esquerda quando devia ter seguido para a direita. Admiro aquelas pessoas que se perdem e não temem esse perder, dizem com a maior confiança “hei-de ir dar a um lugar que conheço”. Mas eu, sei que nunca vou dar a um lugar que conheça, porque a dada altura, tudo me é estranho, novo, assustador. Simplesmente porque o observo por outra perspectiva, de outro lugar ou porque é noite e à noite tudo é escuro, desconhecido, quase tenebroso.
Comprei um GPS, coloquei-lhe um destino e fui, ultrapassando o medo e a dúvida de conseguir chegar, mas perdi-me de novo, agora não foi culpa minha, garanto, mas de algum satélite mal ajustado, talvez também ele tenha problemas de orientação no céu onde tudo parece igual e é infinitamente diferente.
Não desisti, procurei amigos que soubessem o caminho e fomos, eles sem rumo, eu acreditando que o tinham, perdemos-nos, algures na vida, algures no tempo, algures num lugar, num momento. Não os culpo, já basta de culpas. São opções, certas ou erradas logo se verá e quando se vir, vivemos bem ou mal com as nossas escolhas, um dia serão apenas histórias. 
Até ao dia em que por labirintos onde gosto de me perder, me vá encontrar, descobrir. Desenhei-me em mapa com traços do olhar, quase auto-retrato, quase metáfora de existir. Procurava longe o que estava aqui, por isso ia e me perdia. Percebi finalmente que não era perder que me fazia ter medo mas o próprio medo em si, então perdi-o e fui eu por inteiro, longa, inteira, intensa, Como se eu fosse feita de quilómetros, numa via rápida onde vou perdendo as saídas mas ganhando cada vez que me atrevo a entrar e a encarar a multiplicidade do horizonte infinito.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Post.it: Como se fosse ilha

Gosto de pensar em mim como se fosse uma ilha, não de solidão, mas de contemplação. E essa ilha tem um lago onde descansa a rebeldia dos verdes anos. E essa ilha tem um riacho, pequeno  e suave para transportar todas as minhas pequenas mágoas. Já foram grandes, ou melhor assim as considerei, mas o tempo  e a distância as tornaram minúsculas, quase insignificantes. 
E essa ilha tem uma vasta praia  de fina, branca e fofa areia para tornar mais fácil o caminho dos meus passos por vezes cansados. E essa ilha tem um mar com marés que em outros tempos fugiam mas que agora apenas regressam e adormecem aconchegadas por ternas e densas dunas.
E essa ilha tem árvores repletas de brisas que já não se deixam invadir pelos ventos tempestuosos de pessoas que nos querem devastar o corpo e a alma. E essa ilha tem um farol, não para que me encontrem nela, mas para que eu nunca me perca dela, da sua paz, da sua conciliação com o universo que a compõe. 
E essa ilha tem um cais ansioso por me receber, por me aconchegar em braços de mar, em beijos de terra, em sorrisos de céu. E essa ilha tem silêncio, como se fosse um vulcão que engoliu todas as palavras, por serem demasiado agrestes e deixou no ar não uma sensação de  vazio mas antes de plenitude. 
E essa ilha tem um segredo, uma paisagem interior que guarda, que é, quem sabe, o seu paraíso secreto.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A Obra

Toda a obra é imperfeita.
Toda a obra nasce por fazer.
Quando a curiosidade espreita,
Um olhar que quer nascer.

Coisa que ganha forma,
Coisa que ganha sentido.
Molde que a desenforma,
Limite por vezes sofrido.

Asas, precisa de asas,
Não só para poder voar.
Asas, desenhem-lhe asas,
Para conseguir sonhar.

Depois quando for velhinha,
Obra tosca e inacabada.
Que o seja, mesmo sozinha,
E na sua imperfeição amada.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Post.it: O desencantamento do Natal

O que fica do Natal? Por vezes pouco mais que caixas de cartão rasgadas, de papéis coloridos estilhaçados, de brinquedos velhos deitados para a rua porque os novos tomaram o seu lugar. As luzes das ruas que se apagam, o pinheiro arrancado da terra jaz sem raízes tombado nos recantos da cidade. As pessoas voltaram a olhar apenas para o caminho e já não uns para os outros.
O Natal acabou, temo mesmo dizer que em alguns lares, em algumas vidas Ele simplesmente não aconteceu, porque embora tenham cumprido o seu ritual de compras, de troca de prendas, ou enfeitar da casa e da mesa, não receberam nos seus corações. Limitaram-se a “ir na onda”, a procurar satisfazer vontades próprias. Foi apenas uma festa, à qual faltou o festejado. A história de um menino que nasceu em Belém, torna-se longínqua, ténue na lembrança, coisas de criança, dizem. Agora é mais o Pai Natal e todos sabem que ele não existe, que não desce da chaminé nem recompensa os meninos bem comportados. E depois, já nem somos meninos, somos adultos, temos deveres, muitos, cada vez mais deveres. Sufocamos nos impostos, perdemos-nos nas burocracias, consumimos-nos nas rotinas de um ano inteiro e depois chega a um dia em que é Natal e querem, ou melhor esperam de nós, que sejamos apenas humanos, que revelemos a verdade do que somos, a criança que ensinámos a não chorar, a lutar para vencer e conquistar o seu lugar ao sol.
Não é fácil, tentamos, despimos cada camada defensora com que vestimos os dias, com que revestimos de apatia os meses e revelamos pouco a pouco, com receio de cada olhar mais crítico, a nossa alma pura e ainda crente na humanidade, sociável, solidária, tolerante, generosa, capaz de erguer presépios em cada lar, de aquecer com amor as palhinhas de um menino que embalamos e que nos embala o coração. 
Porque apesar desencantamento do Natal, do consumismo, da tecnologia, da cibernética, etc, etc., algures em nós há um Natal ansioso por nos nascer e se manifestar, na maior parte das vezes só surge em Dezembro, mas a história está replecta de Natais que acontecem quando menos se espera, quando alguém sorri para o outro, quando lhe estende a mão, quando partilha a sua sorte com quem não a tem. Heróis do nosso tempo, Pais Natais que nos chegam sem ser de trenó, Menino Jesus que se aconchega dentro de nós para se revelar na ocasião em que mais seja necessário e nem sequer precisa de ser Dezembro, basta apenas que seja Natal em qualquer momento do ano.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Post.it: O encantamento do Natal

Ainda a falar do Natal? Já quase vos adivinho a cansada surpresa, cansada porque ainda estamos mal recuperados do preparar a festa, do durante e agora do depois.
Ainda o Natal, sim, porque não? Se o Natal pode e deve ser todo o ano, e deve sê-lo na solidariedade, na partilha, na atenção e no cuidado que devotamos aos que amamos e aos que nos são desconhecidos mas que precisam do nosso auxílio, uma moeda, uma sopa, um cobertor ou até um cigarro para quem não suplanta o vício seja em que situação for.
É este o encantamento do Natal, não somente as luzes que iluminam as ruas e as nossas casas, mas também as que nos iluminam o coração para que possamos sentir melhor o que se passa à nossa volta. Não só as iguarias típicas da festa que nos adoçam a gulodice mas sobretudo aquelas que partilhamos com quem não as tem não só por dificuldades económicas mas também por motivos de saúde. Um Natal que é feito pela presença da família em redor de uma razão maior, a memória de um amor grandioso que se propagou pelo mundo e o juntou numa só fé, a do amor ao próximo. Uma família que pode ser feita por laços de sangue, por laços de amizade ou simplesmente por laços de generosidade aos que estão à nossa volta. Mas há ainda as prendas, ai as prendas que tantas dores de cabeça nos dão, para tentarmos agradar a todos, para chegar cada ano a mais. Prendas que não têm de significar coisas que embrulhamos para surpreender e receber em troca um maravilhado sorriso, as prendas mais importantes são as que não cabem num embrulho; a presença, a visita a um amigo, familiar, a um doente, a um vizinho solitário, dando-lhe apenas um sorriso, um momento de atenção, uns instantes de companhia. Pequenas coisas que têm tão grande valor, prometemos que vamos tornar a fazê-las durante o ano, não cumprimos, mas no Natal, recordamos a promessa e já não queremos adiar mais a vontade de partilhar e receber a dádiva da gratidão. 
Quando vem Janeiro, e a festa termina, tiram-se os enfeites, despem-se as ruas do seu colorido, há uma tristeza que nos invade, inconfessada, escondida, quase magoada de tão enternecida, é a saudade do Natal não do que se foi mas do que nos fica no peito, órfão de momentos que o tornam feliz na dádiva da humanidade a que nos orgulhamos de pertencer.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Post.it: Olá

Ouvi no rádio do carro quando vinha para o emprego, que hoje é dia de falar com quem não falamos há muito tempo. 
Para obedecer há “tradição” aqui estou, escrevendo, “falando”.
E de várias pessoas com quem não falo há muito tempo escolhi-te.
Porque tudo na vida, ou quase tudo, são opções.
De entre as pessoas que não falo há muito porque perdi o contacto, porque perdi a vontade, porque perdeu o sentido, porque se perdeu a amizade, porque nos perdemos voluntariamente ou por obra do acaso; outras há que sabe-se lá porquê, não as perdemos da lembrança, talvez porque tenhamos ainda algo de que falar, algum assunto para descobrir, alguma razão para sorrir. Não sei, não importa, só quero dizer um “Olá”. Não um desses  "olás" acenados ao vento e que nos voam sem nos tocar, não desses lançados apressadamente por entre os pingos da chuva e que acabam afogados nas poças de água na rua do esquecimento, ou ainda esses outros apenas murmurados de tão estranhamente arrancados à nossa vontade porque a boa educação o exige. Não é nenhum desses cumprimentos que quero aqui deixar e que me apeteceu neste dia oferecer. E lá dirás, que me lembrei apenas porque algo me obrigou a isso, tipo cumprir calendário. Talvez tenhas razão, mas não importa como um gesto começa, o importante é o que ele transporta. Neste caso, transporta, um breve, simples, despretensioso, atencioso e até afectuoso “Olá” desejando que hoje tenhas um de muitos dias felizes.
Oferece-me um "Olá" se te apetecer, ou oferece a quem não falas há muito tempo…


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Escutando os sentidos

No meio do tudo, sou apenas nada,
Um nada que é quanto me basta.
Como ao sol lhe basta a madrugada.
Que renasce e nunca parece gasta.

No meio do ruído, sou o silêncio,
Um silêncio que tudo e a todos diz.
Que na sua quietude não está vazio,
Que na sua eterna solidão está feliz.

Porque é bom sentir que se faz parte,
De um lugar que em tudo é como nós.
Como se fosse estranha peça de arte,
Que ouve os sentidos e lhes dá voz.

Até que de repente e já sem pressa,
Toda a vida nos desfila no caminho.
Já sem tempo que acelere e meça,
O que o coração nos diz baixinho.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Post.it: Sinta-se hygge

Hygge, (huga) como se pronuncia, é um termo que começamos a ouvir falar, Importado dos dinamarqueses, considerado o povo mais feliz do planeta, que nos revelam numa só palavra, o segredo da sua felicidade.
O conceito de hygge é a obtenção do contentamento, satisfação, uma felicidade ténue, compassiva mas que nos preenche, que nos sacia e afasta a angústia, a solidão. Sem a ansiedade da busca, de tentativa em a alcançar a qualquer custo, porque está ali, à distância da nossa mão, tão perto que podemos e conseguimos tocar-lhe.
O conceito de hygge é o cuidar de nós, não por narcisismos ou egocentrismos, mas antes um cuidar porque o merecemos e porque é um dever nosso mimar-nos, aconchegar-nos, depois de um dia cansativo de trabalho. A satisfação de um dever cumprido que nos faz sentir merecedoras de um pequeno mimo.
Em hygge, dá-se primazia aos sentidos, sentir a vida na ponta dos dedos, saborear devagar aquilo que mais gostamos, sem culpas, sem críticas entregues ao momento.
Dar atenção aos sons; o estalar da madeira na lareira, os pingos da chuva, o sopro do vento por entre as árvores, o canto dos pássaros no nascer do dia.
Respirar fundo e deixar que o ar replecto de aromas nos conduza para boas e longínquas memórias, o cheiro da relva acabada de cortar, a terra molhada, o pão acabado de fazer.
Mas também sentir o toque no rosto de uma manta macia e quente, e nos dedos a suavidade de uma pétala de rosa, ou uma escultura com linhas deleitosas, harmoniosas.
Olhar e ver com toda atenção, quase devoção, a dança das luzes, a descoberta das sombras, os raios de sol reproduzindo-se numa parede em convecção de cores, um quase arco-íris que podemos admirar de perto.
Hygge é plenitude, é dar a devida importância aos momentos mais simples. Para cada pessoa hygge pode ter o mesmo sentido mas significar uma escolha diferente, porque a felicidade é individual, uma opção particular, para uns pode ser o ficar deitado no sofá num domingo de inverno, vendo um bom filme com uma caneca de chá fumegante. Para outros basta-lhes desligar o telemóvel, o computador, colocar uma música que se gosta e deixar os sonhos fluírem dançantes.
Com hygge sentimo-nos mais tranquilos e em paz, aproveitando o aqui e o agora. 
Tudo isto é hygge, um sentimento suave e terno de felicidade, que nos embala, que nos acalma. Mas é mais, muito mais, é o que cada um quiser, o que cada um apreciar fazer, sentir, saborear. Porque hygge é uma atitude simples perante a vida, dedicando-lhe tempo. É qualquer coisa que nos reconforta a alma e podemos realizar facilmente e com a frequência que desejarmos. Afinal, a felicidade não é algo que se compra, é uma prática, dedicando-lhe tempo que é simultaneamente um tempo dedicado a si próprio. Em síntese, pode-se dizer que hugge significa, gostar de si e tornar-se feliz. Hoje imite os dinamarqueses, pratique hygge e sinta a felicidade em si.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Post.it: Conselhos a, talvez, seguir

Sou teimosa por vocação, persistente por querer, vou, insisto, sim, é verdade nem sempre dá certo, na maior parte das vezes. Mas detesto aquelas pessoas que nos estão sempre a “aconselhar”, quase a “proibir”, sempre a ver as coisas pelo lado negativo, “não vais conseguir”, “vais cair”. E caio, às vezes, quase sempre, mas a verdade é que me levanto, umas vezes a rir da queda, outras a chorar sem lágrimas, para que os “moralistas” não se fiquem a rir. Porque se riem, riem sempre, mesmo que façam um ar pesaroso e digam com carinho “eu bem que te avisei”. Pois avisaram, mas experimentar tem outro sabor, amargo, por vezes, mas um dia, ou melhor daí a muitos dias ou anos, esse amargo torna-se uma doce recordação e quando nada mais restar, contamos e recontamos essas pequenas aventuras.
Quando os amigos se forem, os familiares partirem, a saúde acabar, os anos se tornarem uma longa estrada com mais de passado do que de futuro, sabe bem sentarmo-nos no sofá, recostar a cabeça e lembrar, vamos rir das quedas e ficarmos, quem sabe até, gratos por cada uma.
Ainda bem que tentei, pelo menos mostrei garra, um pouco mais de sorte e teria conseguido. Mas e depois de vencer? “A felicidade é breve, a dor é longa”, uma companhia que se torna suave e doce. Também ela tem algo de bom, ensina-nos, faz-nos crescer. E eu cresci, como cresci. Tenho histórias que se tornam “velhas” amigas. Lembras-te?  Se me lembro, ainda bem que nunca desisti, de ti, de mim, de nós. Aprendi todas as lições que a vida me ensinou, porque estive presente e não porque me facilitaram a jornada.
Ao longo do tempo, a todos vou agradecendo: os avisos, o cuidado, agradeço sobretudo o depois, o amparo, a solidariedade, a amizade, o carinho… 
“Teimosa”, diziam-me os pais. “Tem cuidado”, repetiam os avós. “Não insistas”, replicavam os amigos. Bons conselhos, segui alguns, não a maioria, porquê? Porque é preciso viver a vida na pele, na carne, em cada lágrima e sobretudo no antes e no depois, em cada gargalhada.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Post.it: As dores

Às vezes tem-se dores grandes, tão grandes que o nosso instinto de sobrevivência, a nossa capacidade de nos suplantar as torna pequenas, menores que nós. Então suportamos-las, superamos-las, vencemos-las e seguimos em frente, sentindo que somos heróis da nossa vida. Não da nossa história, porque também aqui somos grandes na humildade, na modéstia com que sentimos e declaramos-nos apenas humanos.
Às vezes tem-se dores pequenas, tão pequenas que nos dominam, afligem, corroem, minam-nos o corpo, a alma. Sem sabermos como, deixamos que se apoderem de nós, que nos vençam, tornam-se, nós, em pensamento, em existência.
Os amigos aconselham-nos, os familiares amparam-nos, empurram-nos para a sua visão da realidade, tentam mostrar-nos uma luz que não vemos, uma beleza que não sentimos existir.
Às vezes temos dores, simplesmente dores, não sabemos se grandes ou pequenas, porque na verdade a dimensão da dor é relativa a quem a sente e como a sente. Pode ser pequena para quem observa, aponta e crítica. Pode parecer enorme para quem, vê com maior acuidade e percebe a dimensão, não da dor mas da pessoa que a sente. Todas elas são dores, porque nos doem, porque estão em nós, não porque as queiramos, mas porque chegaram até nós, como órfãs em busca de um pouco de carinho, de um curativo que as faça ficar melhores, menos dolorosas.
Que remédio há para as dores? Depende do que as causa, ou do local onde elas estão instalada, responderam.
Mas, e quando um comprimido não resolve? Resta-nos, olhá-la de frente, tentar percebê-la, limpar-lhe as lágrimas depois de chorar com ela e sorrir-lhe, mostrar-lhe que para tudo há algo de positivo, até para as dores.
Fazem-nos andar mais devagar, olhar para nós e para os outros. Fazem-nos cuidar, fazem-nos curar, fazem-nos perceber a nossa dimensão. Não temos que ser super heróis, mas também não nos podemos entregar a ela e deixar que nos vença e convença que é mais forte que nós. 
A dada altura é bom haver uma separação, uma despedida. Acreditar que vamos conseguir caminhar sem “muletas”, que a nossa força nunca nos abandonou, nós é que nos esquecemos de a procurar no nosso íntimo. A nossa força está lá, para tornar as grandes dores em pequenas e as pequenas em nada. Há quem diga que as dores por vezes não necessárias, que nos alertam para evitarmos males maiores, pode ser, mas é sempre melhor viver sem elas.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Post.it: Gosto muito de ti

Há muito, muito tempo trabalhei num infantário, cada criança era linda à sua maneira, na sua diferença complementar de ser. Todos eram felizes, porque as crianças até nas maiores desgraças encontram formas de ser felizes. Aprendi isto com elas, a ter este olhar que vê para além da escuridão e encontra nelas as estrelas, mesmo até as que não brilham.
As crianças são alegres, são competitivas, competem desde cedo por tudo e por nada, por atenção, por carinho, por um colo, por estarem mais perto. E estão todas dentro do nosso coração. Mesmo as que fazem birra, porque depois da birra, sorriem, retomam a brincadeira como se nada tivesse acontecido. Mais uma das características que lhes invejo, esquecerem depressa a mágoa e seguirem em frente sem mitigarem os porquês de tudo o que lhe acontece.
As crianças amam sem limites, sem receios, sem pudores, são espontâneas, dão-se por inteiro. Manifestam esse amor a cada instante, não precisam de ocasiões especiais.
Na minha sala tinha diversas crianças, não me recordo de quantas, recordo-me daquelas que mais me tocaram pelo melhor e pelo pior, porque estar com crianças horas, dias, meses e anos seguidos tem de tudo um pouco, momentos em que nos apetece abraça-las, momentos em que nos apetece fugir e não voltar. Mas voltamos, porque já não conseguimos viver sem aqueles rostos que nos olham com um olhar límpido, que gritam, partem tudo, rasgam os cadernos, atiram os brinquedos ao ar mas que também nos abraçam, e com vozinha doce dizem “gosto de ti”, “gosto muito” dizia o outro querendo mostrar que gostava mais, mas logo outra vozinha se impunha nesta competitividade de afectos “eu gosto muitão”. Sim ele venceu, não por gostar mais, mas porque me fez rir, porque quebrou as minhas barreiras de adulto e me fez querer ser criança a seu lado e como ele inventar palavras maiores que as dos outros meninos, gostar mais, revelar mais, dar-me mais. 
Passaram-se anos, muitos anos, já não me recordo do seu nome, já nem dos seus traços, mas lembro-me da palavra que disse, nessa e em muitas outras ocasiões. Espero que ele, agora crescido, continue a gostar “muitão”, tal como eu gostei “muitão” do o ter conhecido.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Dia de Reis

Nos seus camelos montados,
Seguem por terras de ninguém.
Vêm de seus longínquos reinados,
E seguem em demanda a Belém.

Por guia a estrela uma brilhante,
Indica-lhes o caminho e dá-lhes luz.
Até ao Menino que na terra distante,
Nasceu e recebeu o nome de Jesus.

Os Reis levam prendas e sabedoria,
E recebem do Menino a esperança.
Que o seu nascimento seja de alegria,
E que ao crescer se mantenha criança.

Criança na sua força de acreditar,
E na sua eterna dádiva de amor.
Criança no seu sorrir, e no sonhar,
Com a sua generosidade e fulgor.




segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Post.it: Ano Novo na vida

Cá se fazem cá se pagam. “É karma” etc., sinceramente não acredito nestas frases feitas, mas para quem acredita, talvez lhe custe menos por aceitarem que estão a cumpria a sua “pena”.
Não acredito porque há tantas pessoas a fazerem o mal a tantos outros milhares e continuam impunes, não condenados pela humanidade nem julgados pela sua almofada. Dormem o sono dos “justos” convencidos que o são. Enquanto isso vão ceifando vidas em nome de causas próprias, mas que sei lá como ou porquê vão conquistando massas. Há quem diga que é fruto desta sociedade degradada, sem valores, de revoltas interiores e exteriores, de jovens que têm tudo mas que se sentem sem nada, outros que não têm nada e que acham que têm tudo pelo menos em direitos que reclamam seus por mera existência. Empunham uma arma, quer seja pistolas, veículos, explosivos, facas, etc., ou as próprias mãos e com elas exterminam seres inocentes que apenas viviam de forma pacata as suas vidas.
É neste impasse que estamos, depois do ano que passou, este que ainda mal começou e já carrega nos seus frágeis ombros a herança do descalabro que foi o seu antecessor. Nada se avizinha de bom de tal herança. Mas de vez em quando, os “filhos” conscientes de tudo isso negam-se a seguir as pegadas dos seus “pais” e é nesta esperança que acordamos todos os dias, que continuamos a trabalhar, a encarar os obstáculos e a superá-los um a um.
Prefiro abraçar a ideia de “Ano Novo vida nova”, não adianta lamentar o passado, mas torna-lo energia positiva para um amanhã quem sabe, menos cruel.
Houve um tempo em que as nossas ambições nos levavam a desejar habitar a Lua, visitar Marte, construir mundos virtuais, fazer amizade com extraterrestres, hoje com os pés mais assentes na terra, queremos apenas que a natureza não pereça, que a poluição não nos sufoque, que os vizinhos sejam nossos amigos e sobretudo que seja respeitada a dignidade humana na vida e na morte.
Que o ano de 2017 nos traga a concretização dos nossos desejos de Paz entre os Homens conscientes de que o “bem” não pode ser nunca conquistado com o mal.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Post.it: Quase Ano Novo

Depois do Natal saboreiam-se os presentes, os doces, as alegrias, as lembranças dos adultos e das crianças, até das que já fomos.
Depois do Natal, contam-se ou descontam-se os dias, as horas, entra-se em balanço, para uns de cansaço, para outros de descanso.
Os anos que se despedem de nós, os anos que se aproximam. Anos de nascimentos, de ternura, de sofrimento, anos de paixão, de compaixão, de alegria, de sonhos que se ficaram apenas pela fantasia.
Anos de lamento, ai o lamento, essa marca do tempo, esse carimbo que nos estigma o coração, mas também uma aconchegante saudade. Por momentos é uma tristeza que nos invade, uma mágoa que não nos chega a magoar, como se nos fossem águas de um mar que não nos chega a afogar.
Um lamento que não é de arrependimento mas de pena por tudo o que passou por nós e não ficou, por tudo o que não fez de nós a sua casa, esse lampejo de vento, essa promessa de brisa, aquela onda que emergiu à superfície mas que não nos navegou, a doce melodia que não nos embalou, os ternos olhos que não nos chegaram a olhar. E no entanto houve sentimentos que nos inundaram o ar em oxigénio de esperança. Empregos, realizações, projetos, ideais que não se concretizaram. Não tinha que ser, não estava escrito, não era para fazer parte do nosso destino. Acreditámos e aceitámos a derrota. Quem sabe um dia e os dias tornaram-se meses, anos, um tempo cada vez mais distante, uma memória cada vez mais ténue.
Em cada Natal relembramos tudo isso, em cada final de ano, suspiramos.
Em cada Natal de espera, de quimera, que passou ou ficou(nos). Quem sabe trouxe o que desejamos, quem sabe ouvimos a palavra certa, aquela que preencheu cada alma deserta. Entretanto o ano já termina, ou melhor, um novo ano começa, só depende de nós se os prendemos às despedidas ou se estamos plenamente abertos às chegadas. 
Seja como for, independentemente da nossa vontade, do que acaba ou do que começa, 2017 já espreita, levanta o pano, ansioso por entrar. Vem tímido como uma criança em começo de vida, espera as boas vindas, espera os abraços, deseja ser acarinhado todos os dias, cuidado todas as noites em que adormece e nos permite sonhar com um ano repleto de momentos felizes.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Post.it: Um Natal diferente

Este Natal podia ter sido diferente, desculpa, não o consegui fazer assim. Estava cansada, cansada de ver as lojas cheias e os olhares vazios. Cansada de ver pessoas a sucumbir na pobreza enquanto outros exibiam a sua riqueza. O dinheiro passando de mão em mão enquanto aquela mão estendida continuava vazia.
Mas tentei, acredita que tentei, caminhei pelas ruas e procurei nelas o sentido para um Natal que me fosse sentido dentro do peito. Abri-lhe a porta, até as janelas, arregacei as mangas, amassei as filhoses, fritei as rabanadas, virei os sonhos na frigideira, pus o bolo rei no centro da mesa e esperei por Ti. Uns dizem que Vens pela chaminé, outros que Chegas sem bater à porta, cada um tem a sua fé, respeito e rezo, como dizia uma amiga, “para o santo que estiver disponível no momento”.
Peço um Natal, limpo, puro, menos consumista mais consumido em sentimentos. A festa que seja para Ele, por Ele. E que Ele se sinta bem vindo e resida em nós por todo o ano.
Tentei que fosse realmente Natal, não consegui, confesso o meu fracasso quando olho em redor e apenas vejo amontoados de papéis e caixas de cartão, de sacos com restos, garrafas vazias espalhadas pelo chão. Vestígios de festa, sim, é verdade, mas não da Tua festa. Encontraram-se as famílias, trocaram-se prendas, rimos, cantámos melodias de Natal, comemos, bebemos, festejámos. Desejámos tudo de bom para os amigos, colegas, conhecidos.
Lembrámos a dor dos que estão distantes, dos que vivem em clima de guerra, dos que têm fome, dos que sentem dor, dos que estão doentes, mas como a mera lembrança nada resolve, optámos por esquecê-los.
Encontrei esta acusação em diversos artigos que li em jornais e revistas e jurei que este ano faria um Natal diferente, que não iria esquecer, apesar de saber que este “esquecimento”  não é por egoísmo, mas por mágoa da nossa incapacidade para fazer mais e melhor.
Acendi a televisão, quis estar lá com eles e que Ele também lá estivesse, que a Sua festa acontecesse por entre as ruínas de uma guerra perdida. O mundo que por vezes nos parece tão pequeno foi afinal grande demais para mim, que estendi os braços e não os consegui abraçar. Então tentei abraçar os que me estavam próximos, fui para a festa dos sem abrigo da Comunidade Vida e Paz, chorei ao descascar sacas de cebolas, mas ri-me pelo banho que apanhei ao lavar 90 quilos de couves e depois de várias horas de partilha voluntária, saí sentindo que, de alguma forma, dei um pouco de mim para que alguns tivessem um melhor Natal e que de uma forma ou de outra, cada um à sua maneira festejou genuinamente o renascimento do Natal em si. 
Esta é a minha história, o meu Natal, quanto à vossa, se cada um ajudou o próximo, quem sabe, tenhamos chegado mais longe, ultrapassado fronteiras, quebrado barreiras, e levado o espírito de Natal até onde ele era mais preciso.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Parabéns hoje...

Pode não haver bolo nem prendas.
Pode não haver festa nem velas.
Desde que exista a família
Desde que exista alegria
Que se tenha um lar com calor
Que more no coração o amor.

Pode não haver canção de aniversário.
Pode não haver um dia solidário.
Desde que exista sol na alma,
Desde que a saúde esteja calma.
Desde que o sorriso consiga sorrir.
E que os amigos não deixem de vir.

Pode ser apenas a celebração de um dia,
Pode partir no seguinte como maresia.
Desde que seja eterno o agora,
Desde que de ti nunca se vá embora.
Parabéns por hoje e por toda a vida,
Que ela te seja leve, feliz e divertida.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Post.it: Um lugar chamado Natal

Algures entre o céu e a terra, algures entre os pólos, na linha central, um Equador que há em nós, em todos nós. Uns libertam-no, outros aprisionam-no com receio de o revelar de tão sensível ou quem sabe, pensam que libertando-o o perdem por entre os labirintos e fronteiras humanas.
Algures nesse espaço imenso ou minúsculo existe um lugar chamado Natal. Um lugar com muitas histórias, a de cada um. Um lugar de sorrisos, de sonhos partilhados e alguns até concretizados. Histórias de lágrimas por alegria, histórias de lágrimas por tristeza.
Um lugar que cada um enfeita com as suas mais belas emoções, sensações, recordações. Um lugar tão cheio do que somos, que nos revela, que nos torna melhores, mais verdadeiros, mais inteiros no nosso querer. Não, não é um lugar de mentiras, de falsidades, de hipocrisias, quando muito, se lhe queremos apontar defeitos,  diria que é um lugar que por vezes esquecemos que nos existe no peito, que está dormindo o sono de quem espera  e acredita. Não é por isso que é menos belo, não é por isso que  nos é menos puro.
 É verdade que nem sempre sabemos como o partilhar, oferecer, então tentamos tudo, compramos sonhos embrulhados em papel colorido. Oferecemos esperança, que escolhemos criteriosamente numa loja cheia de gente. Damos amor e amizade e colocamo-los em caixinhas junto da árvore de Natal.
Coisas, apenas coisas, podem dizer, mas são muito mais do que isso, são “coisas” que desejamos dar de nós, desse lugar secreto onde cabem tantos, todos os que nos tocam no afecto, na comoção, um irmão, um amigo, um desconhecido. 
Esse lugar chamado Natal que reencontramos todos os anos no nosso caminho interior quando decidimos que afinal queremos caminhar sempre com os outros. Independentemente da data, do momento, o que importa é o lugar e esse lugar está-nos no coração.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Post.it: Uma viagem de sonho

As coisas que se podem fazer com o olhar, um simples olhar que nada tem de simples. E um universo desconhecido torna-se conhecido, entra-nos na pele e todas as células de vida se agitam. Querem dar-se, querem receber, querem estar, ficar para a eternidade daquele momento. Quanto durou? Um tempo que nos pareceu infinito e curto, o tempo de uma viagem de Lisboa ao Porto. Porque foi nessa viagem que nos conhecemos. Conhecer, palavra tão concreta nesta nossa história que nem história chegou a ser.
Olhei para ti, olhas-te para mim e ficamos parados nesse olhar. Tu estavas acompanhado, eu sozinha, como sempre nos meus “cem anos de solidão” como lhe costumo chamar. Um olhar bastou-nos, bastou-me para ser feliz. Mergulhei nele, afoguei-me, morri, renasci, sorri, quantas? Tantas vezes e abraçámo-nos, beijámo-nos, amámo-nos, tu aí sentado, 4 bancos a seguir na fila contrária, eu aqui no meu lugar perto da janela. Não sei o teu nome nem tu sabes o meu, mas o que é um nome? Define-nos? Não! Nem somos nós que o escolhemos, alguém nos coloca essa etiqueta   sem sequer saber se tinham cara de Maria ou de Ana, de José ou João. Não sei quem és, não sabes quem sou e no entanto sabemos um do outro o que importa, o nosso olhar revelou tudo, ficámos nus perante ele, sem pudores, sem medos, sem promessas que não poderemos cumprir, sem compromissos que não poderemos assumir.
Ficámos assim, nesse espécie de transe amoroso até que um estremecimento de uma travagem algo brusca nos fez afastar o olhar, lá fora o mundo, o real, concreto de vivência, chamou por nós. Tínhamos chegado ao nosso apeadeiro. Um último olhar tocou o teu e deixou-se tocar, era um adeus?
Quem sabe, até uma próxima viagem...
Tocaram-me no ombro, sobressaltei-me, era o revisor. “Chegamos à última paragem”. 
Sorri, levantei-me e agradeci, ‘desta vez a viagem foi rápida’, pensei, quando acordei do meu sonho. Sonho? Ou talvez não, porque à minha frente estavam realmente uns olhos à procura dos meus, “um, nãa, não deve ser para mim ou então ainda estou a sonhar”. Sacudi a cabeça, baixei o olhar, saí do comboio e perdi-me na multidão.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

A vida já não me chega

A vida já não me chega,
Preciso de toda a eternidade.
Já a noite não me aconchega,
Se no peito cresce a saudade.

Os anos não passam, voam,
Para longe do meu caminho.
São flores que desperdiçam,
O cantar de cada passarinho.

A primavera já partiu,
Sem me criar um jardim.
O inverno alongou o frio,
Semeando neve em mim.

Resta-me a negrura da terra,
Solo em que planto a esperança.
Agora que aplaco cada guerra,
E me aconchego na lembrança.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Post.it: Cartas de amor, são ridículas

Escrevo-te, parece tão fora de moda, mas que fazer quando todos os outros meios por modernos que sejam não são tão claros, íntimos, sensíveis ao que te quero dizer.
Porque não falar contigo directamente, olhar-te nos olhos e revelar-te o que me vai no coração? Não! Que susto, só de pensar apetece-me fugir, esconder-me num recanto escuro e profundo, onde não me possas encontrar. E no entanto quero tanto estar perto de ti, ser clara, luminosa, sem pieguices, como tu costumas dizer “chega de pieguices”, tento mas de repente todas as palavras mesmo aquelas que penso, repenso, analiso ao pormenor e que não me parecem lamechas, quando as ouço a saírem-me da boca, têm esse tom que não queres ouvir, calo-me, e escrevo, no desespero de conseguir acompanhar o pensamento, o sentimento que me fazes sentir. Tão feliz, tão miseravelmente infeliz…
Porque para mim é tudo, és a minha vida, os meus dias, horas, sonhos, pensamentos, ausências, momentos, és tudo, tudo em mim.
Morro de ciúmes, não, ciúmes não, é demasiado forte, dramático, vais rir-te, vais quem sabe, fugir de mim, dos meus medos, das minhas inseguranças.
Tenho inveja, sim, é isso, tenho inveja do ar que respiras e que te preenche os pulmões, que te afaga os alvéolos, que te faz ruborizar o rosto. Tenho inveja desse frio que te entra pelas narinas e se distribui por caminhos traçados da tua anatomia. Tenho inveja, sim, confesso envergonhada, mas sim confesso. Porque na minha fantasia, patética, dirás, queria ser o sabonete que todas as manhãs te navega o corpo, que conhece cada recanto da tua pele, que inala o teu odor, que conhece o teu calor.
Escrevo-te, disparates, bem sei, que queres sou ainda menina, aprendiz nas artes do amor, anda faço esboços mal traçados enquanto tu já tens na tua vida obras de arte que exibes com orgulho de macho conquistador, não sabes, ou melhor, não queres saber da dor que me causas, quando me olhas como me dissesses, “pobre criança, vê lá se cresces” e eu tento “crescer” aliás tenho crescido, deito-me no sofá empanturro-me de bolachas e chocolates que me alimentam o ego magoado.
Resta-me esta carta, que escrevo com medo de escrever. Com receio de me revelar. Com medo de que ainda não tenha “crescido” o suficiente para ti, que não chegue a ser  amada como já amaste outras. Vou dar-te a carta e pedir em silêncio, “lê-me, lê-me de imediato, agora, não esperes, não me faças esperar! Não, não leias! Rasga a carta, rasga-me o peito, os sonhos. Esquece que te escrevi, esquece que gostei de ti, esquece que existo. Ou melhor que não existo para ti, que me vês sem ver, que me ouves sem perceberes as palavras que te digo por entre aquelas que escutas sem entender nelas uma só silaba da minha vontade”. 
Escrevo, continuo a escrever, hoje e talvez para sempre, agora, com uma estranha alegria. Agora com uma doce felicidade, decidi que não te vou amar nunca mais! Não  vou pelo menos dizer-te. Decidi, aliás, que não te vou dar esta carta, porque é demasiado ridícula, não é? Não, não respondas. Prefiro saber que sim mas, acreditar que não.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Tive

Tive asas,
Mas não me deixaram voar.
Tive casas,
Onde não me deixaram morar.

Tive sonhos,
Que não se tornaram realidade.
Tive olhos,
Que se encheram de saudade.

Tive amigos,
Quase todos já partiram.
Tive inimigos,
Esses, por mais tempo ficaram.

Tive tudo,
Pensei que não tinha nada.
Porque queria o mundo,
E apenas tive a estrada.

Mas nela estava o caminho,
Que me trouxe a este lugar.
Aqui, onde o terno carinho, 
Parecia estar a me esperar.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Post.it: Olhando para trás

Há sempre os que nos esquecem. Há sempre os que como nós, esperam e de tanto esperar, já fizeram da sua vida, ausência e esquecimento. Doloroso no início, suavizando-se com o passar do tempo. Houve até momentos de lamento, de revolta, de culpa inocente. Exigimos o direito a ser feliz. Uma felicidade que julgamos estar no outro. Com ele a felicidade chegou, sem ele, a felicidade partiu.
Já dizia a sua avó, “depois do encanto fica o pranto”, e ela ria-se garantindo, “comigo nunca será assim, nunca hei-de ficar à espera”. Nunca hei-de perder “esse alguém”, em boa verdade, esse coração intrépido e rebelde como se quer nos verdes anos, não achava possível vir a conhecer tão maravilhoso, doloroso, grandioso, fantasioso, (preferia assim supor), sentimento.
Os pais riam-se da “santa” ingenuidade, os avós passavam-lhe a mão pelo rosto “ai criança, era bom que assim continuasses, mas há-de chegar o dia… Chega sempre, para quem o procura e para quem dele foge”.
Tinham razão, como não havia de não se  apaixonar se por tudo era uma apaixonada, nas descobertas da vida. Coisas da juventude, talvez, mas o tempo passou e continua a fazer tudo com paixão. A entregar o corpo, a alma, o coração. Continua a correr, a cair e a esfolar os joelhos. O sorriso continua a dançar-lhe nos lábios, a mesma gargalhada de menina, mas os olhos tornaram-se escuros, cada vez mais escuros.
De repente. Fecha-os envergonhada da sua transparência, sentindo-se invadida, revelada no seu mais intimo segredo. Tenta gracejar, “é a noite a chegar, já vivi o amanhecer, agora vou entardecendo”.
Há sempre os que nos esquecem, que fizeram parte do nosso projecto de futuro mas que nos passaram a ver apenas como o seu passado. “Faz parte da vida”. Tenta convencer-se acreditando que nos convence e que assim a deixamos entregue à sua nostalgia. “Temos que caminhar em frente”, reforça a ideia, numa tentativa gorada de curar as feridas do esquecimento.
Acabo por confirmar, só para não ser a voz discordante, mas uma frase me vai dançando no pensamento, “Sim, temos de caminhar em frente mesmo que com os olhos olhando para trás”.


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Tecendo a rede

Toda a vida é morte,
Diz cozendo a rede o pescador.
Desencontrado da sorte,
Em cada encontro com a dor.

Morreu-me a infância,
Partiu-se-me a juventude.
E com elas toda a alegria,
E com elas toda a virtude.

Morreu-me a madrugada,
Onde me crescia o sonhar.
Partiu até a mulher amada,
Levando-lhe os filhos do lar.

Morreu-me cada dia,
Em que o mar roubava vidas.
Vestiu-me de penosa maresia,
Em luto de tantas despedidas.

Toda a vida é morte,
Anos, meses, dias, horas.
Que partem para o desnorte, 
Na rede em que me demoras.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Post.it: Natal em Novembro


Gosto do Natal em Novembro, quando as luzes coloridas se começam a acender, quando as montras se enchem de coisas bonitas, quando as prateleiras das lojas se enchem de brinquedos sorridentes, reluzentes. Quando as caixas das bonecas ainda estão inteiras, quando as pilhas dos bonecos ainda funcionam e quando lhes tocamos nos dizem olá e outras palavras com infantil doçura. 
Quando as pessoas encasacadas e com cachecóis quase só deixando ver os olhos nos lançam um olhar brilhante e sorridente, parece estranho mas sem lhes ver a boca vemos-lhes o sorriso, estampado na face rosada de frio. 
Gosto do Natal em Novembro, quando ainda não há corrida para as compras, quando ainda não há fila para os embrulhos. Quando ainda sonhamos com um Natal perfeito, em que tudo vai correr bem, que todos vão receber a prenda que desejam, que não há lares de mesa vazia, lares sem família, lares de tristeza, de doença, onde a partida parece eminente onde a dor parece permanente, lares onde o Natal não entra pela porta nem pela chaminé. Mas em alguns desses lares, o amor sobrepõe-se às dificuldades e há noite contrariando o cansaço e o sono, alinhavam-se bonecas de pano, bolas de restos de tecido, para que os filhos tenham no sapatinho um pouco de Natal. E quando nem isso têm para lhes dar, passeiam de mãos dadas pelas ruas iluminadas, levam os filhos para ver as montras recheadas e deixam que sonhem, porque só o sonhar lhes podem oferecer, é grátis, dizem numa tentativa de esperança que a dureza dos dias frios ainda não lhes tirou. 
“À noite, um cházinho e uma fatia de bolo Rei que nos ofereceu a paróquia e está celebrado o Natal, para o ano será melhor, e olhe, desde que haja saúde já nos damos por felizes”, garante aquela senhora com idade indefinida, deve ser jovem, pelo menos olhando à idade dos filhos, essa prole de anos em escadinha que caminham em fila saltitante, são 4. “5 corrige-me a corajosa mãe, abrindo o casaco e revelando uma gravidez avançada, “deve nascer por volta do Natal, vai ser o meu menino Jesus e vai-se chamar Jesus!. Era costureira numa fábrica que dispensou mais de metade dos trabalhadores, e ela veio-se embora, agora faz pequenos arranjos de costura em casa e toma conta dos filhos, “sempre se poupa no infantário”. 
Gosto do Natal em Novembro quando a azáfama ainda não nos sufocou, quando o receio de esquecer alguém ainda não nos criou ansiedade. Quando os dias ainda têm 24 horas, porque depois sentimos que diminuem e rapidamente aproxima-se a festa do Menino. 
Gosto do Natal em Novembro, de o saborear entre um café e a companhia das amigas que começam sem pressa a planear o Natal, “este ano vai ser na casa dos meus sogros, o ano passado foi com os meus pais”, “os miúdos este ano passam a noite de Natal com o pai e a dia comigo”.  
Gosto do Natal em Novembro quando uma espécie de ternura nos começa a envolver e de repente outros Natais vêm-nos à memória, Natais da infância com os pais, avós, tios, primos, amigos, com os que ainda estão já mais velhos mas que ainda reconhecemos pela afabilidade das palavras e pela candura gestos de amizade, outros, já partiram, mas ficaram e estão connosco em todos os Natais.  
Gosto do Natal em Novembro, quando o Menino nos começa a “renascer” na alma e a preparar-nos para a sua festa em Dezembro.   
Quem me dera que o Natal fosse em Novembro, mas também em Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro, todo o ano, todos os anos, em todos os lares, em todos os corações. 


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Momento adiado

Guardo de ti na memória,
A suavidade de um rosto lunar.
Guardo secreta a nossa história,
Onde só o coração pode guardar.

Nessa semi-escuridão,
Brilha o estranho mistério.
Que nos leva onde só vão,
Sonhos de um outro hemisfério.

Guardo de ti a voz calada,
Onde todas as palavras falavam.
Como se fosse a madrugada,
Onde os raios de sol brincavam.

Um ultimo sonho acalento,
Daquele adiado momento.
Saber do teu arrependimento, 
Por teres esquecido o sentimento.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Post.it: O dinheiro não compra...

Conheço pessoas impossíveis de se aturar, pessoas impossíveis de se gostar, no entanto casaram, tiveram filhos, pais, avós, tios, primos, etc. Questionamo-nos com, porquê? Alguns mais pragmáticos, sugerem que são pessoas “interessantes” pelo seu dinheiro. Que os seus bens compram o amor, a dedicação, a amizade e tudo o mais. Será? Custa-me a aceitar que o dinheiro tenha tal poder, mas por outro lado, quando essas pessoas abrem a boca e de lá sai um role de disparates, de insensibilidade, de agressividade, duvido das minhas próprias dúvidas e chego a acreditar que só o dinheiro pode comprar alguma paciência para os aturar, para os suportar.
Olho-os e procuro encontrar neles a criança que foram, estará lá em algum recanto do seu ser? Mataram-na, só pode! Garantem-me. São assassinos da ingenuidade, da humildade, da solidariedade, da esperança, do sonho. Acreditam, têm fé em si, instrumentos de guerra pessoal. E no entanto estes “grandes homens” tão “cheios de si”, que ofendem, que anulam, que usam, que pisam, são pequenos homens. Com gigantes medos, medo de não conquistar, compram, com medo de não receber, rodeiam-se de luxuosos brinquedos, com medo da solidão, compram a companhia. Um dia, mais tarde ou mais cedo, confessam-se “tão inteligente e tão parvinho”. E surpreendidos, vemos-lhes o medo, um medo de tudo e de todos, da vida, da morte. Um medo humano, não de carne e osso, mas de coração, de paixão. A criança que foram, afinal não lhes está completamente “morta”, esteve escondida, assustada, perdida. Nos momentos em que espreita, tem apenas um desejo voltar para lá, para a vida uterina, para antes de nascer, de ser e ter de fingir que não é o que é.
E reconhecem sem o dizer que “ nunca de lá deviam ter saído”. 
Quantos e quantos não estarão a concordar com esta afirmação. Eles e a história da humanidade no seu passado, presente e futuro, unem-se nesse mesmo desejo. 
Porque nós que não podemos “comprar” o seu silêncio, as suas acções imponderadas, os seus erros, as suas guerras, para que não cheguem a concretizar-se, resta-nos outras formas de luta através do medo que nos aumenta a coragem.