segunda-feira, 21 de maio de 2018

Post.it: A carta rasgada

Naquele dia, ele correu mais depressa que o habitual. Naquele dia, sentiu que voava, que o coração em alvoroço lhe saltava do peito.
Naquele dia chovia mas nem sem importou por ficar molhado. Naquele dia tudo estava igual, as mesmas pessoas na paragem, os mesmos cumprimentos, o mesmo atraso do autocarro, mas para ele tudo lhe parecia diferente, havia um sorriso no rosto de todas as pessoas ou era ele que o via mesmo que inexistente.
Tinha escrito uma carta de amor, a primeira da sua vida, mas a idade, já avançada, não lhe tirara a capacidade de amar, de acreditar que a felicidade ainda lhe podia acontecer.
Uma carta de amor, já não se usa, pensava, mas achava que era nisso que residia a sua magia, a timidez de quem escreve, a surpresa de quem lê e, depois, quem sabe, a resposta positiva mesmo que não fosse em palavras mas na beleza de um olhar radiante de luz. Porque ela, tinha esse olhar quando o olhava,
Chegou à paragem procurou desesperadamente aquele encontro, mas ela não estava, talvez já tivesse partido, talvez ainda não tivesse chegado. 
Não perdeu a esperança, esperou, passou um, dois, três autocarros, uma, duas, três horas e, nada. O seu olhar foi descendo, como uma flor que a haste murcha. 
De repente viu-a, a carta, caída no chão... rasgada!
Como ela, assim ficou o seu coração, rasgado em mil pedaços. 
Nesse instante, o dia escureceu, a chuva chorou copiosamente, voltou para casa, sentou-se no sofá, o gato saltou-lhe para as pernas, aninhando-se, pedindo-lhe afagos. 
Sorriu, sim, ainda conseguia sorrir, decidiu, amanhã vou mudar de paragem, de autocarro, de percurso para o emprego. 
Uma carta rasgada não pode significar um fim mas quem sabe, seja o princípio de uma outra história, esta, com um final feliz…

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Post.it: Estou doente...

Estou doente, completamente doente…

Dói-me a alma, as células e até as moléculas. Dói-me o oxigénio que inspiro, dói-me o cálcio ou a falta dele.
Doem-me os aminoácidos, talvez estejam a ficar alcalinos. Doem-me as proteínas vegetais porque nem gosto de carne.
Dói-me o ferro de estar a ficar tão ferrugenta. Até me dói a hemoglobina, por falta, quem sabe, de sangue azul..
Preciso de um comprimido que se chama Amizade.
De uma cápsula que seja de Solidariedade.
De uma injecção bem forte de Incentivo.
Estou ferida na alma, preciso de um penso rápido chamado Abraço. 
As minhas defesas estão em baixo, preciso de um antibiótico de Estimulo.
Um anti-inflamatório de Encorajamento para combater a febre de carência afectiva.
Dói-me a inconstância, preciso confiança da tua mão.
Dói-me a falta de paciência, preciso das tuas palavras de ternura.
Doí-me o coração, preciso  de ti para afastar a solidão.
Mas esta espera, esta tão longa demora, já me desespera, preciso de um calmante chamado Esperança.
Lá fora, o calor parece de Verão, dizem, porque dentro do peito sinto um inverno muito frio.
Lá fora há flores de primavera a colorir as ruas,  mas em mim to que desabrocha rapidamente  murcha.
Preciso urgentemente de me curar, preciso urgentemente de te encontrar, para voltar a sorrir.
Preciso de álcool para me desinfectar de todo este desanimo.
Vou, lavar o rosto, afogar de vez  o desgosto.
E sentir no meu sangue o caminho para a felicidade. 
Só preciso de um passo, e depois outro, todos juntos vão levar-me até ao infinito e se lá também houver dor, tenho confiança que ela será curada  pelo melhor medicamento que existe, o Amor.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Post.it: Cheguei e...

Cheguei e...
Nada! Não aconteceu nada, ninguém deu pela minha chegada. Tinha imaginado que faria uma  entrada triunfal, como se fosse um herói  que regressa da batalha.
Tinha vestido a minha melhor roupa, aquela que a minha mãe deixa guardada só para ir à missa e que ao chegar a casa de imediato me manda despir. 
Pus gel no cabelo, quer dizer, não é bem gel, mas o creme das mãos que a mãe usa, faz o mesmo efeito. Usei o mesmo creme para engraxar os sapatos e estes ficaram com aspecto de novos, apesar de já os ter herdado do meu irmão mais velho. 
- Estás tão lindo!, Dizia a minha avó e eu acreditei, apesar de ela ter cataratas há mais de 10 anos,   porque está na lista de espera para a cirurgia num hospital público. 
 Até pus perfume ou como disse a minha mãe,” tomei banho dele”, afinal nem é dos caros, compra-se nas lojas dos chineses, “mais barato que a água” diz o meu pai no seu avido de  que se devia evitar os banhos porque há falta de água  porque tem chovido pouco. 
A verdade é que estava um miúdo “brutal” de giro, como costuma dizer o meu irmão na sua gíria de adolescente. 
Sonhei tanto com esta festa, nem dormia só para a visualizar acordado, ia chegar, entrar e a Mariana, a miúda mais gira da escola,  ia olhar e ficar de imediato caidinha por mim. 
Por fim, alguém deu pela minha presença e, até elogiou a minha aparência... 
Alguém deu pela minha presença e até elogiou a minha aparência… 
- Joãozinho, estás tão bonito, pareces um homenzinho. Quem diria que tens 7 anos? 
Olhei-a com desagrado. 
- Hum? Indaguei num murmuro, um quase ronco. 
- João, sou a mãe da Mariana. 
Sorri, não um sorriso pleno, mas foi o melhor que consegui fazer naquele momento. 
Bem, pelo menos agradei à futura sogra. 
Só que cheguei e… nada, mas mesmo nada foi como eu sonhei…



sexta-feira, 11 de maio de 2018

Post.it: Esta juventude (quieta)

Por vezes,  é preciso rir das nossas lágrimas, chorar do nosso riso. Encontrar no  contras-senso o consenso para que a vida tenha nexo, para que cada momento do dia ganhe sentido. E tudo são circunstâncias, coincidências de energias ou anomalias mais profundas da polaridade positiva ou negativa.
Em tempos cada vez mais remotos, ia-se à luta, conquistava-se o espaço e a ilusão de que também dominávamos tempo. Eramos heróis da nossa história, da que vivíamos, da que  inventávamos ou acrescentávamos às nossas memórias, e também às vossas. Precisávamos de preencher vazios, hiatos de vivências, chamámos-lhe sonhos, porque os criávamos e poucas ou nenhumas vezes os concretizávamos, mas isso, na verdade nem nos magoava.
Hoje espera-se, espera-se simplesmente porque “o que é nosso para nós virá”, dizem, nem sei se convencidos disso, ou se para justificar a sua inércia. E assim vão ficando, quem sabe se o vento ao virar para o seu lado  trouxer a concretização do seu direito por privilégio de nascimento, se as ondas fizerem de si seu cais. Porque já não remam contra ventos e marés, querem que venha, que os envolva com merecida de felicidade.
Sinto-me verdadeiramente “cota”, sou talvez de outra geração, de outra mentalidade, de outro fervor, de um tempo em que a felicidade conquistada nos enchia de orgulho, agora tudo parece encher-se de cansaço. A felicidade que chega e se oferece enche-os apenas de vaidade, olham sem a ver, recebem-na sem a abraçar. “Foi ela que quis vir, foi ela que me escolheu, para quê a sublimar, cuidar dela, afinal se ela partir, outras, muitas outras hão de vir”. Sim, talvez, ou quem sabe, não.
“Tudo acontece no momento certo, simplesmente porque tem de acontecer” e só têm de aceitar, sem valorizar, sem sequer saber apreciar, sem perpetuar.
Que saudade do tempo em que se plantava para colher, em que se desejava, lutava e quando lá chegávamos a conquista tinha o sabor doce da vitória, entrava-nos no peito, dançava-nos na alma, chorávamos de alegria, riamos até às lágrimas e de repente, tudo fazia sentido, tudo na vida se encaixava como se tivesse encontrado a sua forma perfeita. Mas eles, eles a quem tanto protegemos, que amparamos mesmo antes da queda, que suavizamos os passos, que curamos as feridas mesmo antes de se magoarem, caminhamos com eles no colo do coração, abraçamos, amamos, damos-lhes tudo o que nunca tivemos, damos-lhe o mundo e fazemos deles seres sem sonhos, sem metas, sem desejos por realizar. Porque é tudo deles pelo direito de nascer e de estar vivo.
É pena, mas eles acreditam que o universo é todo assim…



segunda-feira, 7 de maio de 2018

Post.it: Sobre as cartas de amor

Um dia pediram-me para escrever uma carta de amor, com toda a sinceridade tremi, ou melhor temi, pensando  que o meu racional me iria  impedir de o fazer.  Mas como em tudo, aceitei o desafio, é a minha fraqueza, não conseguir resistir a um bom desafio. Sentei-me em frente ao computador, olhei para o monitor, a imagem branca iluminada, não me iluminou a inspiração, como se ela também estivesse vazia. Desisti, carreguei no botão e desliguei a máquina, afastei o olhar desiludido do monitor agora preto como que acusador do meu fracasso. Tentei distrair-me com a paisagem, deixei os pensamentos navegarem por sobre as nuvens. Voltei a sentar-me, peguei numa caneta e num papel e, decidida, espremi as emoções. Sim, escrevi uma carta de amor, linda, dizem… Cheia de literatura, cheia de carinho, de mágoa, de queixumes, ingredientes de todas as cartas de amor e que, por isso, costumam dizer que são ridículas. Escrevi palavras com melodia, palavras com lágrimas, palavras que, tantas e tantas vezes, em resposta, recebem o silêncio e morrem esquecidas no fundo de uma gaveta ou rasgadas no cesto dos papéis. 
Esta, pouco me importava o seu destino, era apenas um desafio, não tenho jeito nenhum para este tipo de escrita, voltei a pensar. Nunca escrevi uma carta de amor, claro que já escrevi pequenos poemas, cartões para o Dia dos Namorados, eram de alegria, de gratidão, de enaltecimento ao outro, mas uma carta de amor em que revelamos o que o coração tem para dar e o que desejaria receber, nunca escrevi, era ridículo, um pouco até humilhante de tanta abnegação, pensei. 
Mas assim que a terminei de escrever, pasmei, reconheci as suas linhas, a sinuosidade acariciante das suas palavras, a quase lágrima, o quase sorriso, a humildade, a dádiva, aquele abraço que se estende e aperta muito mais que os simples braços, sim, já tinha escrito outras cartas de amor, muitas, aliás. 
Cartas de amor ao nascimento de novas vidas, cartas de amor a quem dela partiu, cartas de amor às quatro estações do ano, à chegada das andorinhas, às chuvas de Março, às ondas marítimas de Agosto, à queda das folhas em Setembro, aos teus 50 anos, aos vossos lindos 80, às Bodas de Ouro de um feliz casamento, ao sol e à lua, à infinitude do horizonte, cartas de amor a Deus, cartas… à vida,  aos seus momentos, do princípio ao seu términos. 
Sim, é verdade, já escrevi “cartas, muitas, cheias de amor.




sexta-feira, 4 de maio de 2018

Dia da Mãe

Todas as mães deviam ser abraço.
Todas as mães deviam ser regaço.
Deviam ser a paz e o doce embalo,
Deviam ser amor e terno consolo.

Mãe devia ser uma quase perfeição,
Mãe devia significar eterno perdão.
Mãe devia ser leito de suave água,
Que num abraço lava e leva a mágoa.

Mãe, devia ser sinónimo de segurança
Mãe, devia ser certeza de confiança.
Mãe, devia ser aquela aberta prisão,
Onde sempre pode regressar o coração.

Mãe, devia ser forte encorajamento,
Sorrir sem nunca revelar o lamento.
Mãe com invisível cordão umbilical,
Devia amparar e afastar todo o mal.


sexta-feira, 27 de abril de 2018

Post.it: Sorriso(s)

Os sorrisos, são todos diferentes, raramente reparamos nisso, mas é verdade, são diferentes. Como comparar o sorriso de uma criança, ainda tão cheia de confiança, tão cheia de futuro, tão dona do mundo, com o sorriso parco de quem já viveu todo esse futuro e lhe chama agora passado.
É diferente o sorriso de quem chega, do sorriso de quem parte. Um e outro carregam uma espécie de mágoa, a do regresso por ter partido, a de partir sem saber se regressa.
Se os sorrisos falassem, quantas coisas nos diriam, como nos surpreenderiam pela sua profundidade discursiva, pelas ideias, pelos sentimentos. A verdade é que os sorrisos falam, mas nós não conseguimos escutá-los com os olhos e ficamos a olhar para eles na esperança que sejam isso apenas, sorrisos…
Pensa-se que m sorriso é uma manifestação de alegria, uma espécie de felicidade contida, com receio de nos ser roubada pelos infelizes, esses que já nem sequer sabem sorrir.
Mas o sorriso tem muitos sorrisos contidos no seu, quando ele sorri até aos olhos, quando nos enche o rosto de orelha a orelha, também pode ser tímido, um tanto envergonhado por sorrir sem encontrar para isso uma razão, é apenas um gesto, que diz tudo, ou seja nada, porque quando as palavras já não fazem sentido para justificar a vida, encolhe-se os ombros e sorrisse, assim,  ninguém o questiona e com um pouco de sorte ainda o retribui.
E uma espécie de código, que usamos, que aceitamos, quando os outros nos calam com um sorriso. Quando nos desarmam com um sorriso e, nós, sorrimos também. Que fazer? Matar aquele sorriso? Arrancá-lo de um rosto e ver no seu lugar surgir um rio incontido de pranto? Não, que sorria, que acredite que é um sorriso de alegria, que nos faça acreditar que ele é o caminho para um por pôr-do-sol quando o astro rei, também ele, nos sorri, até mesmo quando chove…



segunda-feira, 23 de abril de 2018

25 de Abril

Com um pouco de boa vontade,
Com palavras de livre expressão,
Pode pelos rios da pura bondade,
Navegar livre e solidário o coração.

Quando o fim à xenofobia.
Der início a cada sorriso.
Onde a paz em cada dia,
Diz que lutar não é preciso.

Dizemos não às armas letais,
Dizemos não a qualquer prisão.
Que nos nega o sermos iguais,
Em direitos, verdade e razão.

Só então haverá democracia,
Só então haverá identidade.
Quando a popular soberania,
Festejar sem medo a Liberdade.

Venham os cravos mais de mil,
Vamos com eles fazer um jardim.
Para que o nosso 25 de Abril, 
Nunca venha a conhecer um fim.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Post.it: Medir a tensão


Agora tenho que medir regularmente a tensão arterial para aferir se aquele pique foi um episódio isolado ou se me tornei hipertensa, coisas de viver nesta vida, nesta sociedade, neste clima, nesta economia, nesta crise humana ou desumana. 
Enfim, faz parte, começo a mentalizar-me, as peças avariam, os feixes entram em colapso, o corpo em queda e a alma, quiçá, um dia em voou. Mas entretanto vou cumprindo as ordens médicas, e medir a tensão é uma delas. Ora lá vamos nós, tirar o aparelho da caixa, espera Polinho, já te mostro o que isto é, tira-te da frente, porque senão nem eu consigo ver como isto funciona. 
Então, colocar a braçadeira no braço, no meu braço, Polinho não no teu focinho peludo. Não espera, isto não é para roeres, ainda furas a câmara de enchimento. Ufa! Consegui prender isto ao braço, foram quantas tentativas? Umas 10, mas quem está a contar? Agora é encher com ar, carregar no botão (iniciar) e deixar a máquina fazer o seu trabalho. 
Não, Polinho era para ligar, não para desligar!
Ok, recomeçar, carregar no botão, desta vez o enchimento começou sem interrupções. Começo a alegrar-me com o facto, mas, Polinho! Sai de cima do aparelho, que apita ERRO, ERRO, ERRO!. Já ouvi, ó máquina, cala-te, ou melhor desliga-te!...
Novamente, respirar fundo, recomeçar… Iniciar, encher de ar e aguardar pelos valores lidos da minha tensão.
Com o braço direito imobilizado para fazer a medição, tento com o esquerdo segurar o irrequieto Polinho que tenta saltar de novo para cima do medidor de tensão. Tanto se mexe que lá consegue libertar-se da prisão do meu braço e aterra feliz sobre o aparelho, este em angústia grita de novo, ERRO. ERRO. ERRO.
Desisto, hoje não vou medir a tensão, mesmo que conseguisse iria certamente dar valores demasiado altos. E o médico se os visse na consulta afogava-me em medicação: hipotensores, calmantes, diuréticos, sei lá mais o quê. 
Enquanto eu, impávida e serena com o meu ar de (quase) infinita paciência, perguntar-lhe-ia, 
-  Posso dar algum deles ao meu cão?


terça-feira, 17 de abril de 2018

Post.it: Boas leituras

Não gosto de escrever assim, como quem arranca flores à primavera e de repente, perdem-se as cores, perdem-se as sensações mais doces, resta apenas um certo vazio no peito, um opaco no olhar e na boca um silêncio cheio de palavras abstractas. Chamam-lhe escrita moderna, uma escrita que se lê veloz e se acaba cansado como quem vai ao ginásio exercitar o corpo e se esquece da mente. Como quem acelera o coração atrás de uma emoção e quando a apanha, sofre uma decepção, não era ela, apenas era parecida com aquela, aquela com que sonhamos e que acordamos sem a chegar a abraçar.
Sim, porque, hoje na escrita, fala-se com demasiada ligeireza de abraços, mas eles nunca nos chegam  a aconchegar. Fala-se de beijos que são deitados ao ar como se fosse um bouquet de noiva, que todos querem apanhar mas nunca apanham.
Mas é escrita moderna, quem não a reconhece, quem não a aprecia, é catalogado de antiquado, retrógrado e uns quantos mais piropos.
E depois, escrevem-se linhas e linhas com palavrões e ultrajes…, linguagem popular, dizem. Estão no dicionário, afirmam,  com as armas literárias de quem as usas sem ter noção do quanto podem ser letais. 
Então, pego nas minhas páginas rabiscadas, porque sim, é assim que as vejo quando as comparo com a tamanha eloquência da novas tendências de moda literária, arrumo-as na gaveta. Dizem que a moda é cíclica, quem sabe um dia, voltam a estar em voga os sentimentos mais ternos, as frases mais extremosas, as palavras mais polidas, a delicadeza dos termos, a cortesia das expressões e o que se escreve ganhe novamente um sentido de viagem que leva o leitor pelos rios da fantasia, desembocando no mar das emoções e depois de vendavais, a bonança de um fim, não necessariamente feliz, mas que nos deixe algo em que pensar, que nos preencha de prazer e de uma felicidade que só conhece quem lê um bom livro.


sexta-feira, 13 de abril de 2018

Post.it: Essa menina

Às vezes, sinto-me a menina que nunca fui. Com uma flor no cabelo, de saia florida, sapatinhos brancos e gestos de inspirada bailarina rodopiando sobre a relva. Às vezes sinto-me a criança que nunca fui, correndo num jardim, feliz, tão feliz que quase podia voar e ficar no céu a pairar na companhia das gaivotas. Uma menina que cresce sem mágoa, que tem no rosto o sorriso infantil de quem nada sabe da vida e acredita que tudo não passa de uma brincadeira. Só com a  preocupação de construir  casinhas de legos, arrumar as de panelinhas e fazer chás para as bonecas.
E à noite com o cansaço de quem teve tempo para brincar,  adormecer numa cama fofa como se fosse uma nuvem, num quarto que tem nas paredes desenhos de prados e animais da quinta e no tecto quando a luz se apaga cintilam luminosas  estrelinhas.
Dormir embalada pela  voz melodiosa de  quem conta uma história de aventuras de animais que são heróis, não por terem super-poderes mas porque ajudam os amigos sempre que eles estão em perigo.
Às vezes procuro por essa criança, algures,  dentro do peito, nos confins da memória, enquanto me olho no espelho em busca do sorriso dessa menina. Imagino-me, porque só a imaginação assim me consegue ver, só ela me consegue encontrar por entre os meandros da minha história, a minha verdadeira história.
Então rasgo cada recordação e escrevo em mim a menina que queria ter sido. Conto-me histórias e adormeço a sonhar com elas. Um dia vou ser essa menina e a flor no cabelo lembrar-me-á aquela eterna primavera, a saia florida dançará ao vento, e eu, pobre de mim tão pouco habilidosa para as artes da dança, ganho jeito e danço finalmente nas asas de uma gaivota. Com ela elevo-me até aquela estrela que nas alturas celestes me guia à noite e consigo vê-la mesmo de dia, dizem que é a alma de alguém que gosta de nós, por isso, gosto dela, mesmo sem lhe conhecer o nome.
Às vezes, sinto-me a menina que não fui, sinto-a pulando-me no peito, rindo-se nos meus olhos, estendendo-me as mãos e dizendo-me baixinho, que ainda temos muito que brincar antes que a noite chegue, antes que adormeça para no dia seguinte ao despertar voltar a ser, apenas o que sou.
Mas algures entre a linha do horizonte e a infinitude da vontade, lá, onde não existem delimitações temporais, por um breve instante, sou essa menina, acredito que sim, mesmo que seja apenas num sonho.


segunda-feira, 9 de abril de 2018

Post.it: Um sorriso

 “Tens  uma escrita urgente como se tivesses pressa de dizer tudo o que te vai no coração”. É o que me dizem, não comento, sorrio. Como em tudo na vida, sorrio. Sempre me pareceu a melhor solução, ou pelo menos a de efeito mais rápido.

Um sorriso que a tudo parece responder, que com tudo parece concordar. Mas que penso, que sinto? Confesso que escrevo com pressa, num ritmo que nem eu consigo acompanhar a ordem ou desordem das minhas ideias. Tento apanhá-las, escapam algumas, não desisto da corrida e algures no tempo da escrita, encontro-as, sorrindo, sim, porque também elas sorriem, estão à minha espera.
Na verdade não querem fugir, mas ser apanhadas, captadas algures dentro do peito. Por vezes sinto-as como folhas esvoaçantes no vento, outras, simplesmente pairam no ar, pacientes de que as escreva, que lhes dê visibilidade.
Claro que também há momentos em que as palavras me pesam, me magoam como se para as pronunciar tivesse da as arrastar pela vida fora, aprisionam-me a um passado que quero distante. “Um dia destes emigro, abandono-vos e vou viver para o futuro”. Parece uma frase louca, mas loucura maior é ficar nesta “prisão” que não me redime, apenas me oprime.
Resta-me o sorriso, essa quase “mentira” de um músculo do rosto, o que importa é que acreditem e acreditam.
Já me chamaram emoji! Porquê, estou amarela?
-  Não, estás sempre a sorrir. Então rio ou talvez seja apenas uma ruga de expressão que dá essa sensação.
Viro as costas, meto as mãos nos bolsos e lá vou bamboleando um fado de viela, ou como já dizia o outro “ mais vale só que mal apaixonado”.
Gracejando como se o coração também me sorrisse, “mas para isso é preciso fazer cócegas na alma”. 
Afinal, o passado só está na nossa cabeça, já o futuro estará sempre nas nossas mãos.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

As duas margens

Eram duas margens,
Separadas pelo pôr-do-sol.
Eram duas miragens,
Embaladas pelo rouxinol.

Que numa épica canção,
Faz do sofrer uma melodia.
A história de uma paixão,
Que não saiu da fantasia.

Não, por ser proibida,
Não, por amor não ter.
Porque nasceu dolorida,
Antes mesmo de acontecer.

Amores desencontrados,
Nas margens e no querer.
Corações sem ser amados,
Por quem amado quer ser.

Assim canta o rouxinol,
No despertar da madrugada.
Quando já se avizinha o sol,
E no coração a emoção é calada.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Post.it: O pescador

Um dia, promete-me que irás contar-me o teu segredo, esse que te faz sorrir como se conhecesses todos os mistérios do universo. Um dia ainda me irás contar o que te faz contemplar cada dia com o olhar ainda maravilhado, como se fosses uma criança que só agora começa a descobrir a vida.
Um dia irás revelar-me a fonte de ternura que tens dentro de ti, de onde ela vem, que foz leva até esse rio caminho para o mar e a torna assim tão imensa,  tão inesgotável.
Diz-me por palavras, por gestos, por silêncios tão cheios de conversas, aí onde me desvendas quem és, nessa tranquilidade e nessa harmonia de existir.
Porque uns passam sem ver quem os rodeia, outros passam simplesmente sem ser vistos.
Uns e outros passam. Uns e outros ficam, algures, na história ainda que célere da nossa memória.
 “O que importa é a passagem e não o passar”, diz empertigado um intelectual com ares de filosofia egocêntrica e pouco, muito pouco metafisica.
O velho pescador não se perde em devaneios, ele que é, um mar com um rosto queimado de sol, com olhos cansados ainda conservam o olhar de farol cuja luz que se estende para lá do horizonte, já pouco ou nada tem para dizer, tudo lhe fica em silêncio no peito.
“Sei lá o que importa”, murmura com voz cavernosa de tantos cigarros chupados enquanto espera que o peixe morda o isco.
Talvez apenas o ar que nos enche os pulmões, o sol que nos inunda o olhar, as nuvens que nos são suaves sombras. Tudo o resto é filosofia, tudo o resto é fantasia. “Tudo o resto é gente nesta ilha que somos”. E o que somos é um pouco de tudo e um pouco de nada, como “o oceano que contém a gota de água mas também a gota de água contém o oceano”, nós contemos a pessoa humana, mas também a pessoa humana contém a humanidade.
“O que importa é passar, sinal de que se esteve”, comenta o velho lobo-do-mar enquanto remenda a rede de pesca.


quarta-feira, 28 de março de 2018

Post.it: Momentos

Por vezes agarramos o momento, mas o momento não era o nosso. Por vezes deixamos passar o momento quando o devíamos ter detido porque ele era, o nosso momento. É difícil gerir os momentos ou saber em que momento estamos.
E nesse decidir ou hesitar, eis que por nós passa a vida, como se fosse uma passadeira rolante com tantos momentos à nossa escolha e,  nós sem saber qual escolher.
Será pontaria?
Será do dia?
Será sorte ou azar?
Algo que anda no ar?
Rapidez, lentidão?
Escolher com a cabeça ou o coração?
Tão pouco sabemos, mas lá vamos vivendo, entre o certo e o errado, tentamos, sem conseguirmos passar nos intervalos da chuva sem nos molharmos, sem sofrermos a consequência das nossas escolhas. Claro que por vezes, muitas vezes, essas escolhas trazem-nos por consequência a alegria impar de nos abraçar e fazer-nos sentir afortunadas. 
Mas outras tantas vezes o cansaço de tantas escolhas, de tantos momentos,  diz-nos para nada fazermos, deixarmos a sorte navegar, quem sabe em vez de escolhermos, sejamos escolhidos, em vez de decidirmos, decidam por nós. Mas até isso é uma decisão, até isso é um momento, aquele em que resolvemos não agir quando, era mesmo ali que devíamos ter agido, escolhido, para vivermos o melhor possível, o momento.


sexta-feira, 23 de março de 2018

Port.it: Filas de trânsito

O trânsito está péssimo! Os combustíveis baixaram, o preço dos carros baixou, as cartas de condução baixaram, a crise “passou”. De repente tudo aumentou, a estatística dos acidentes, o número de carros em circulação, todos os membros da família na mesma casa passaram a ter carro, e que juntando ao seu carro ainda trás para casa o carro do serviço, os estacionamento diminuiu, as filas de trânsito aumentaram. “Levanto-me cada vez mais cedo, saio de casa muito antes do que antes saia e chego ao emprego cada vez mais tarde!”
 “Antigamente a fila de carros parecia apenas uma minhoca, agora são enormes serpentes”, comenta uma amiga.
Bem, do mal o menos, dá para ir apreciando a paisagem e de vez em quando para bisbilhotar os hábitos dos vizinhos de viagem, no carro vermelho ao lado (não se pode falar de marcas) 2 crianças dormem nas suas cadeirinhas, vão para o infantário, ou para a casa da avó? O veículo que está na faixa da esquerda fala sozinho e esbraceja, deve estar a falar para o telemóvel, hoje em dia já ninguém fala sozinho, há sempre um outro alguém do outro lado da linha.
À minha frente uma nuvem de fumo invade o habitáculo do veículo, por instantes assusto-me, mas depois percebo que é uma nuvem tabágica. O vizinho de trás vai bebendo um iogurte enquanto a mulher aproveita para fazer a maquilhagem que não teve tempo em casa. A fila anda um pouco e mudo de vizinhança, os da direita parecem estar a dormir de olhos abertos de tão estáticos que estão, o da esquerda debate-se com as andanças do seu cachorro dentro do veículo tentando a todo o custo passar para o volante fazendo as vezes do motorista, deve estar a pensar que quem sabe ele conduza mais depressa que o seu dono.
O sol brilha, uma quase raridade por estes dias de um inverno que nos tem chegado em versão condensada. Lá mais a diante no horizonte, um arco-íris com a beleza de todas as suas cores. Mas eis que de repente uma escuridão se aproxima, “vem lá chuva” dizem os olhares inquietos dos meus vizinhos. Quando atónica vejo uma nuvem pesada e grande que se vem aproximando devagar, desfilando graciosa, passa por mim no seu céu límpido e sem filas de trânsito para a minha frente. Alguém comenta, “Bolas até fui ultrapassada por uma nuvem”!

segunda-feira, 19 de março de 2018

Post.it: o último dia de Inverno

Hoje o calendário diz que é o último dia de Inverno,  apesar de ter sido uma estação cheia de “personalidade”, deixa-nos certamente alguma incerteza, será que para o ano regressa?
Porque, admitamos,  nunca um inverno foi tão desejado, tão esperado, tão ansiado,  segundo sei, chegaram a fazer missas, procissões, e longas e fervorosas orações.
Queríamos que viesse, mesmo que isso implicasse trazer a “família” e os “ amigos” em forma de ventos, tempestades,  trovoadas. E assim ela trouxe a Ana que nos abanou logo no início do ano, depois o Bruno, mais suave mas bem presente, o David não faltou à festa e deixou breves memórias, quanto à Ema a ilha da Madeira não se esquece dela nos tempos mais próximos, já o Continente sentiu bem a estadia do Félix, a última visita deste Inverno foi a Gisele que não se fez rogada em gargalhadas de vento e longos abraços marítimos. As consequências foram variadas e mal nos deixava um, ainda mal recuperados, já outro nos entrava pela casa a dentro, abanando portas e janelas, criando inundações, partindo vidros, arrancando telhados, dando asas às árvores e ondas aos rios mais serenos.
Foi realmente um inverno inusitado, dizem os estudiosos destes fenómenos meteorológicos que o futuro estará repleto deles.
Mas apesar de todos os problemas que causou, precisávamos deste Inverno, talvez não tão acentuado, mas precisávamos dele para evitar a seca, para nos apagar os fogos da lembrança, da dor que o verão deixou neste país escuro de queimada e de mágoa. Mas precisávamos dele também para nos trazer a Primavera, para que as flores voltem a desabrochar, para que as andorinhas nos voltem a visitar, para que os ninhos voltem a ter ovos, para que as abelhas voltem a produzir mel que nos faça esquecer de todo o fel.
Hoje também é dia Do Pai, fez-me lembrar uma história que me contaram em  criança,  “O Inverno era um pai, por vezes com voz forte e autoritária, mas também oferecendo caricias de chuva. Que a Primavera era a sua esposa e a mãe da natureza, quanto aos filhos: Verão, sempre rebelde, rasgando as ondas com o seu sorriso e uma quente e eterna jovialidade; o Outono, mais atinado, calmo, obediente, dando ares do pai nos tons cinzentos do céu, mas também parecendo-se com a mãe na forma como acalenta as folhas caídas sobre o chão”.
Uma família como a nossa, em que cada um com as suas características, cumpre o seu papel. Agradecemos ao Inverno a tarefa árdua de “regar” este jardim que é a terra e desejamos que as outras estações venham também elas na sua faceta de dar continuidade à subsistência da vida neste Planeta, quanto a nós, também temos um importante papel, o de respeitar e conservar o  meio ambiente, que é o nosso lar.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Post.it: Faz de conta...

Apõe-se no meu braço D. Joana. E ela apoia-se, mas nenhum apoio lhe é suficiente, os pés sem quererem caminhar, não lhe obedecem, o corpo não se move e a voz outrora sempre tão faladora faz um silêncio sepulcral.
 Páro, olho-a, as lágrimas deslizam-lhe pelo rosto e, no entanto, nem uma palavra, nem uma queixa.
A Dona Joana vai para um lar de idosos, hoje em dia têm nomes tão pomposos que  quase imaginamos uma estância de férias, mas não são; como a D. Joana diz, “são armazéns de velhos”.
Quer sair de casa, ou melhor não quer, precisa. Os filhos não podem cuidar dela, o marido partiu e ela hoje mais do que nunca, deseja ir para junto dele. Só conheceu duas casas, a da sua infância que era a casa dos pais e depois a sua, para onde foi depois de se casar, ali cresceram os filhos e os netos. Aquelas paredes contam histórias, no corredor ainda ouve os passos em corridas das crianças. Nos soalhos da sala ainda é visível a nódoa gasta de tão esfregada, quando o filho mais velho entornou a travessa do cabrito assado, foi um susto, se ele se queimasse, mas não, acabou tudo em risota, enquanto ele chorava, não de dor mas por pena de ter ficado sem refeição, foi um almoço de Páscoa diferente, feito de pizzas descongeladas à última hora.
Este ano também a Páscoa será diferente, sem filhos, sem netos, à volta da mesa, só rostos estranhos, com ar de condenados por um crime que desconhecem ter cometido. E à noite o quarto será partilhado com alguém a quem o destino sempre diferente, de repente, tornou-se comum. Talvez rezem juntas, talvez chorem juntas, talvez sonhem o mesmo sonho. Estão nas suas casas, com as suas famílias…
- Vamos D. Joana, a sua filha está lá, em baixo no carro, à espera.
Porque nem ela conseguiu arranjar coragem para ver a mãe sair daquela casa onde sempre a viu abrindo-lhe a porta, recebendo-a com um sorriso, beijos e abraços. – Ó mãe só fui passar o fim-de-semana fora. – Eu sei, mas no coração de mãe, as saudades não se medem em tempo mas em distância, e tu estavas muito longe, não te conseguia abraçar.
- Vamos D. Joana, deixe-me só fechar a porta. 
- Não, não feches a porta. Deixa-me fazer de conta que vou só ali e já volto…

segunda-feira, 12 de março de 2018

Post.it: Perder o medo

Um dia, deixamos de ter 20 anos e, de repente, os 30 anos já passaram. Os 40, foram um saltinho, apenas um saltinho para os 50. Assim nos foi a vida, um carrossel giratório, uma montanha russa de altos e baixos, de curvas apertadas. Quantas vezes pensamos que ia ser o colapso, mas não. Foi apenas o começo de novos momentos.
Contaram-me em miúda uma história… Havia um menino a quem o Medo chateava e humilhava com brincadeiras que o deixavam triste e só. Um dia ele decidiu combater o Medo à sua maneira e dai em diante ignorou-o, desprezou-o como se ele não existisse. O Medo remetido à solidão, ficou fraco e triste, primeiro, encolheu-se num canto, depois, foi-se embora e segundo dizem, nunca mais ninguém o viu. Moral da história, porque estas histórias tinham sempre uma, o miúdo tinha medo de quase tudo, mas cansou-se de ser gozado pela sua “fraqueza”, por isso, escondeu o medo no recanto mais profundo do seu ser e dessa forma, revelou uma força de vontade capaz de superar o seu medo e, daí em diante, todos os o invejaram e o João-com-medo passou a ser chamado João- coragem.
Histórias infantis, pequenas lições de crescimento. Porque um dia, seja ele qual for, todos nós “esconderemos” os nossos medos para que eles não nos dominem e, nessa altura, vinda não se sabe de onde, surgirá a nossa coragem.
É quando vamos perceber que, na vida, o importante não é ter ou querer ter muito, mas que o suficiente nos basta. Desde que tenhamos tentado tudo para vencer.
Que somos felizes com tudo o que temos, que amamos o que devíamos e, se perdemos, perdemos apenas o que, no fundo, nunca foi nosso.
Perdemos o medo, mas em troca ganhámos a coragem.


terça-feira, 6 de março de 2018

Quase segredo

Não chega a ser segredo,
Esse trépido e doce medo,
Em que a alma quase nua,
Dança suave na luz da lua.

Por entre a sombra do amor
Debruça-se em haste de flor.
Tão simples, quase desajeitado
Mas serenamente, encantado.

Lábios sedentos de mil fontes,
Gestos ávidos de horizontes,
Só o luar não ilumina os corações,
De olhos que são constelações.

Depois alegres em sonhos cansados,
Adormecem o amor ainda abraçados.
Se a vida fosse flor, seria malmequer,
Despetalada ganharia o bem-me-quer.




sexta-feira, 2 de março de 2018

Post.it: Dramas de uma mulher do século XXI

Sou uma mulher ciumenta, assumo! Mas que fazer sinto-me demasiadas vezes sozinha, traída, abandonada, esquecida…
O meu marido fica horas a ver televisão, sobretudo os jogos de futebol, o meu filho leva o dia inteiro a jogar na consola de jogos, a miúda está sempre a teclar no smartphone conversando com as amigas, até o mais pequeno prefere brincar com o tablet do que ir correr no parque, porque está sol, está frio, sei lá que mais...
Outro dia fui ao médico, que diga-se em boa verdade também não me ligou a mínima, entrei e mal me olhou, baixou os óculos “tirou-me as medidas” e  voltou a fixar o olhar no computador, - Ora diga lá o que a traz cá.
-  Cansaço, tristeza, solidão, uma dorzita aqui, outra acolá… Respondi-lhe.
Não me deu resposta, escreveu, escreveu e depois tentou imprimir uma receita para me  despachar, a consulta só pode demorar no máximo 15 minutos,  mas a impressora não quis colaborar, teve um bloqueio “existencial” e lá ficámos ambos a olhar com curiosidade para ver se a dita  cuja, maquineta ia ou não “cuspir” a folha com o nome do remédio milagroso para as minhas maleitas. Coisas “próprias da idade” dizem-me para me consolar, mas tenho para mim que a causa principal, está nas novas tecnologias que me vão fazendo sentir cada vez mais “dispensável”. Confesso já lhes tenho raiva, fico furiosa de ciúmes!
Uma noite destas quando estava com uma das minhas insónias, o meu marido deixou escapar num suspiro o nome de uma Sofia enquanto sonhava, surpreendida, abaneio até o acordar.
- Estavas a sonhar com uma Sofia? Quem é essa?
Estremunhado de sono e surpresa, disse que no seu sonho estava na web summit a falar com a robot Sophia, aquela criatura de inteligência artificial que disse com ar arrogante que nos vinha roubar os empregos, mas será que também vem “roubar” maridos?
Desabafei com uma amiga os dissabores da minha vida, mas ela estava demasiado ocupada em encontrar no GPS uma forma mais rápida de ir até ao centro comercial fazer compras.
Cheguei a casa a atirei-me para cima do sofá, quase de imediato recebi o meu cachorro aos pulos sobre mim.
– Só tu é que me ligas não é meu cãozinho?
Como se me quisesse dizer algo, lambeu-me a cara e correu para a máquina lançadora de bolas automático, num apelo saltitante.
– Ok, já percebi, queres que ligue a maquineta para jogares à bola, não é? Nem tu precisas de mim para  brincar, basta que ligue o botão e ficas horas a apanhar bolas que a dita máquina te lança. 
Bom, do mal, o menos, pelo menos não preciso de cozinhar, a Bimby encarrega-se disso. Ponho a roupa na máquina e ela lava-a, tiro dessa e coloco na outra que a seca. A loiça também vai para a máquina e pronto fico com mais tempo para conversar com… alguém, no facebook.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Post.it: O nosso tempo

O tempo passa, dizem. Mas talvez não passe, e sejamos nós não quem passa por ele. Nós com os nossos dias e a nossas noites. Com as pessoas que nos entram pela vida e as que saem avisando ou não. Pessoas que nos preenchem ou pessoas que nos esvaziam. Por entre as flores que nascem e murcham. Por entre árvores vestidas no calor ou se folhas despidas por um sopro de vento. Por entre as altas ondas e a doce acalmia. Por entre cais que são de chagada mas também de partida para  outros.
O tempo é sempre o mesmo, existe sem tempo, sem demarcação, não começa, não acaba, apenas existe. Nós gostamos de o rotular, de lhe colocar por datas, de o acondicionar nas páginas de um calendário, de o aprisionar em correntes de horas, em laços de meses, em fios de anos. Guardamo-lo em pedaços de memórias e chamamos-lhes, recordações. Sufocamo-lo no peito e chamamos-lhe saudade.
Enquadramo-lo segundo o frio e o calor, entre a chuva e o nascimento das flores e chamamos-lhes estações do ano, apeadeiros de encontros e desencontros.
Vem ao mundo e chamamos-lhe nascimento, damos-lhe a mão e dos passos periclitantes aos passos firmes chamamos-lhe crescimento.
A tecnologia expande-se, as pessoas mudam, chamamos-lhe evolução. A economia tem ganhos, tem perdas, a política manda e desmanda em todos os destinos e nós chamamos-lhe desenvolvimento. Cansamos-nos do nosso tempo, zangamos-nos com ele e chamamos-lhe revolução.
Culpamos o tempo da sua pressa, quando é nossa a lentidão. Acusamo-lo de morosidade, quando somos nós quem vai demasiado depressa.

O tempo não existe, o tempo não é alegre ou triste. Não tem principio, não tem fim. São definições nossas, num tempo que não é tempo, é o nosso tempo a permitir-nos sermos apenas nós.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Post.it: Do your mind

Outro dia li um titulo,  nesta moda de se escrever, de se dizer tudo em inglês, “Do you mind?”. Já comentei que um dia o inglês vai torna-se a nossa língua oficial, mas dizia eu que li esta frase, mas como nos é habitual lia apreendendo a ideia em geral, sem ler o lá estava realmente escrito, e o que  li foi “ Do your mind”.
Achei curioso o engano, talvez influenciado por uma corrente de pensamento que tem vindo a ganhar forma, que nos demonstra que somos o que pensamos, que o nosso cérebro por vezes condicionado pelos nossos receios e angústias nos engana, nos condiciona, apresenta-nos perigos que não existem.
Dá-nos receios sobre acontecimentos num futuro que podem nem suceder, mas nesse entretanto criámos expectativas, ansiedades desnecessária. Ora se o cérebro nos engana, nós também o podemos enganar, dizia-me outro dia a minha mestre de ioga. Vamos dizer ao cérebro que estamos bem, que estamos felizes, que a dor não nos dói assim , tanto 
Testei a hipótese, depois de muita insistência em querer contrariar a tendência de ser condicionada, pasmei; o cérebro acreditou em mim! E devagar, muito devagarinho, foi relaxando, foi sorrindo, foi-se aconchegando na mensagem de tranquilidade que lhe ia enviando.
É verdade, mesmo verdade que nós podemos fazer o nosso cérebro pensar algo positivo em vez de nos deixarmos dominar por pensamentos negativos que ele cria, quando ele nos diz que vamos cair, não nos está a evitar o perigo, como sempre nos fez acreditar, na verdade está a criar em nós o medo da queda, quando nos diz que estamos a ser traídos, humilhados, não é verdade, quem nos está a magoar são os nossos pensamentos, os nossos medos infundados, as nossas inseguranças a falarem mais alto, a gritarem dentro nós.
Está na altura de sermos nós a falar, a contrariar a tendência que temos em nos acomodarmos, de nos deixarmos guiar pela imaginação, pelos nossos fantasmas e assim vermos/sentirmos coisas que na realidade não existem.
Que tal ganharmos força e coragem não para vencer os outros, mas para vencermos as nossas próprias condicionantes. Alguns passos:
“Goste mais, acredite mais e seja mais feliz.”
“Os problemas têm a exacta importância que lhes damos.”
Até pode ser que não aconteça mas visualizar um momento bonito viver faz-nos felizes adormecer.
Limpe a mente e cultive apenas bons pensamentos.
“Não podemos ter todos os dias bons mas podemos ter algo bem todos os dias.”
O cérebro precisa de motivação, incentive-o, encoraje-o.
O cérebro precisa de inspiração, diga-lhe coisas bonitas. Afaste os pensamentos negativos. Nada é tão mau quanto parece. 
Se o seu cérebro dominar o seu espaço não viva com esse nó, faça um laço…