O caminho
Tudo se
esfuma na poeira do tempo, já não somos cada vez mais transformamo-nos num
fomos. Neste chão onde andamos vamos pisando as pegadas de quem veio antes de
nós, e aplanando o terreno para os que nos seguem, todos fazemos o mesmo caminho, unicamente
porque não há outro.
É o mesmo
planeta, debaixo do mesmo sol, vizinho da mesma lua. Bem podem construir
prédios, rasgar avenidas, arrancar as árvores velhas e plantar novas,
tenho a certeza de que a cada primavera,
nascem as mesmas flores.
Já quantas
vezes me cruzei com aquela papoila. Quantas e quantas vezes cheirei aquela
mesma rosa. Há quantos anos ando a despetalar aquele malmequer na esperança de
que um dia a última pétala me diga, bem-me-quer.
Mas todos os anos ele renasce resplandecente
de cor, espreguiça cada pétala e
desafia-me com ar trocista a tentar de novo, sabendo antecipadamente que vou
perder.
A cada passo
há pedras, também elas já velhas conhecidas, feitas de terra amassada com
chuva, mar e lágrimas, cristalizadas pelo frio e o calor, moldadas pelo vento.
Cá estão elas
no percurso, sendo o caminho que abraçamos ou rejeitamos e as lançamos em outra direcção. Mas, passados
poucos ou muitos anos dá-se o reencontro, tenho quase a certeza que já me
cruzei com aquela pedra.
Está
diferente, contudo reconheço-a, mais pesada, rugosa, áspera mas, tem algo
daquele tempo, a forma como se aconchega na minha mão. Desta vez não a lanço
para longe, vou levá-la comigo, não sei se tenho tempo para um novo reencontro,
vamos ficar por aqui, cruzando memórias de um mesmo caminho.
Sem comentários:
Enviar um comentário