terça-feira, 9 de julho de 2013

Post.it: É por ti que escrevo

És tu que me faz soltar a alma com asas de sonho, em voos de esperança.
És tu que me tocas o coração, sem nunca me roçar a pele. És tu, cujo nome não sei e isso permite-me chamar-te aquilo que o meu peito ditar. És tu que me fazes parar, que me fazes pensar, que me fazes rir das minhas mágoas, porque as tuas, adivinho-as bem maiores. És tu me revelas o quanto sou feliz, que tenho tudo. És tu que não tens nada quem me oferece um sorriso, e eu que tenho tudo, tudo aquilo que não tens, olho as minhas mãos vazias e, ao vê-las fico triste, não porque estão vazias, mas porque não sabem encher-se do tão pouco que me pedes sem nada dizer. Uma entrega que já não consigo dar, fechei-me em mim, fiz-me prisioneira da minha solidão, da minha razão, da rotina mecanicista que me comanda os gesto e a vontade. 
No entanto temos algo em comum; vivemos sem pressa, um pensamento por dia, e pobres, tu de bens materiais, de um tecto, de uma cama quente e macia; eu, de espírito, de ânimo, de coragem para voar e levar-te comigo, nas asas do meu sonho de um dia ter a felicidade de te ver feliz.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Post.it: Uma pequena luz

 “Neste mundo desarticulado e cheio de pressa, estamos com os outros mas cada vez mais sós”. As pessoas vivem fechadas em mundos virtuais. Aparentemente com relações sociais à escala global. Temos a ideia de estar em todo o lado, vivendo sentimentos de pertença a uma humanidade comum. Mas, muitas vezes, não nos relacionamos sequer com o vizinho do lado. Há cidades inteiras que vivem num outro universo. Há ruas apinhadas de gente que vai falando pelo telemóvel com alguém distante e no entanto não vêem quem se cruza nesse instante consigo. De costas para os outros acusam-nos de estarmos de costas para eles. Iludidos com a quantidade, desprezam a qualidade. Têm muitos amigos, que na maior parte desaparecem quando se desliga o computador. Não chegam até nós quando precisamos de um ombro amigo, separados por redes binárias, estendem abraços nos cabos eléctricos mas não é o suficiente, o mundo virtual nunca conseguirá trazer-nos o calor humano.
Então descomprometo-me, prometo voltar e não volto, prometo escrever e não escrevo, prometo ficar e desligo-me de ti. Esquecendo-me, como tantos outros, que o meio de comunicação é virtual, mas que tu existes, que a tua dor existe, a tua mágoa magoa-te esse coração bem real. Estremeço, sinto-me invadida por um estranho receio, o de te ter perdido por entre os buracos dessa “rede” cibernética. Perscruto por entre o silêncio. “Onde estás?” Escrevo numa angústia que me sufoca o peito. A resposta tarda, não chega. O meu olhar permanece preso ao teu nome, numa espera infinita de minutos, de horas, de dias. Espero que a luz verde se acenda, um sinal que indica que estás ali. Por fim essa luz ilumina a escuridão como uma esperança que me alumia a vida. Uma luz silenciosa que não responde aos meus apelos mas que permanece fixa e isso basta para me tranquilizar. Na minha resignação, esse pequeno ponto luminoso, deixa-me feliz simplesmente por saber que existes.
De repente torna-te uma estrela a cintilar no meu ecrã, aparentemente tão perto que, quase, mas apenas quase te posso tocar, sentir. Mas longe, tão longe como as estrelas do céu e tão bela com todas elas.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Post.it: Um pouco mais...

Um pouco mais de céu e eu teria rasgado as fronteiras do horizonte.
Um pouco mais de sol e eu teria iluminado
cada sombra do luar.
Um pouco mais de tempo e eu teria descoberto
a harmonia do universo.
Um pouco mais de calma e eu teria chegado
bem fundo na tua alma.
Um pouco mais de mar e eu teria mergulhado
sem medo na forte maré.
Um pouco mais de noite e eu teria conquistado
um novo amanhecer.
Um pouco mais de vento e eu teria enviado
a mais bonita mensagem.
Um pouco mais de cor e eu teria feito
renascer a Primavera.
Um pouco mais de coração e eu teria encontrado
a coragem.
Um pouco mais de querer e eu teria alcançado
a mais longínqua felicidade.
Um pouco mais de ti e eu teria lutado
por mais um pouco mais de nós.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O aqui e agora

O meu país é o mundo inteiro,
A minha cidade o universo infinito.
A minha casa o cosmos soalheiro,
O meu quarto a galáxia que habito.

A minha vida é o eterno sonho,
Que vou realizando em cada hora.
Porque o momento onde me ponho,
É apenas o aqui, é apenas o agora.

Não tenho tempo para a infelicidade
Esse amanhã que olha para ontem.
Para quê viver agarrado à saudade,
Se o dia tanta felicidade contêm?

E se partir perto da chegada,
Sem descobrir o rumo da estrada.
Calem-se os galos da alvorada,
Adormeça a lua ensolarada.

Porque eu confesso, fui feliz,
Tanto que não sei descrever.
Um todo que nem a voz o diz,
Nem o coração pode abranger.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Post.it: Espera por mim

Espera por mim, não te vás. Percebe que o meu coração já não voa para te acompanhar. Que  já não tem forças para se elevar nas asas da fantasia. Entende que sou um despojo de uma guerra que durou séculos de sentir. E hoje colando os retalhos da minha história, sou pouco, muito pouco do que era. 
Peço-te um direito que não tenho, uma espera que não garanto  que não seja infinita. Gostava de apagar o rasto do meu caminho, para não me lembrar de cada etapa em que me doeu mais o erguer do que a queda. 
Espera por mim, talvez a vida inteira. Ofereço-te a promessa de que sigo na tua direcção, que hei-de chegar, se no final souber que estás lá para me receber. Não será fácil a viagem, transporto demasiado peso na bagagem e, por mais que queira aliviar essa carga não posso deitar fora o que fui, o que sou para um dia conseguir verdadeiramente ser o que queres que eu seja. E no entanto ainda sorris complacente, paciente, um sorriso de cada vez mais desvanecido, e nos socalcos do rosto vejo escoar-se a juventude que me aguardou até esse dia que desejas ser só teu, ou melhor só nosso. 
 Há quanto tempo me acompanhas sem que eu esteja a teu lado? Demasiado, mas nunca consegui libertar-te de mim, e aprisionei-te nesse laço de esperança que não desato. Não te vás, deixa-me entrar novamente, se o teu coração ainda reconhecer o meu. Se lhe aceitares as marcas do seu viver, dos caminhos que erradamente escolheu. Quando o meu caminho, reconheço agora, devia ter sido sempre, feito do teu.

terça-feira, 2 de julho de 2013

A vida tem sempre razão

Mesmo quando nos faz cair no chão,
Mesmo quando nos enlameia a alma.
Mesmo quando nos tortura o coração,
E nos rouba a felicidade e a calma.

Diz que é tudo uma lição,
Provas que temos de vencer.
Ao tornar cada doloroso não,
Num sim que nos faz crescer.

Mas e se o dia escurece,
E se a noite fica acordada?
E se o sonho desaparece,
E nos deixa sem nada?

Mesmo assim a vida tem razão,
Que um dia iremos descobrir.
Quando a vida nos guia pela mão
E nos revela motivos para sorrir.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Post.it: Na fronteira

Tive a sensação que conheci a fronteira do mundo. Uma sensação que não foi feita de luzes, de reencontros com entes perdidos, de paz de ou de guerra. Talvez não tenha chegado tão perto, a essa transposição abismal.
A minha triste verdade é que não senti nada, absolutamente nada, só a surpresa e a dúvida, ou melhor a imensidão de dúvidas quando vi o resultado do exame e depois o vazio, como se me tivessem arrancado, não da vida, da vivência da morte. 
A médica sorriu, encolheu os ombros, que importava tudo isso se continuávamos ali, correu mal, sim correu, mas fora resolvido a tempo e mantido no segredo dos deuses. Restavam as imagens, um testemunho estranhamente mudo, e o relatório de procedimentos, uma injecção de adrenalina que paguei para nem sentir de olhos abertos a sua sensação.
Foi como se tivesse comprado o bilhete para fazer body jumping  e depois um outro compromisso me impedisse de concretizar esse objectivo. Com uma vantagem, pelo menos tinha conhecido o formigueiro da antecipação, neste caso, não senti nada, absolutamente nada, puseram-me o coração aos pulos, abanaram-me os sentimentos, estremeceram-me o passado, oscilaram-me o presente e  abalaram-me a estrutura  do futuro, por um segundo, um minuto, uma hora, não sei, apanharam-me a dormir e reescreveram-me o destino e eu o tempo todo a dormir, a sonhar talvez.... 
Depois, felizmente não me deu para encetar longas reflexões, sobre o que podia ter perdido, o que podia ter feito diferente, para grandes mudanças, grandes arrependimentos. Acordei nesse dia, continuei a acordar nos seguintes com o mesmo espírito a mesma vontade de caminhar não necessariamente para a fronteira do mundo mas para a fronteira da felicidade.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Post.it: Infâncias felizes

Por vezes visito o baú das memórias não que seja muito ligada ao passado, na verdade é que ele está ligado a mim, pelo que fui e sobretudo pelo que sou. Nesta visita, questionava-me sobre como era a infância sem tv 24 horas por dia, sem computadores, se consolas de jogos, sem telemóvel. Era uma infância feliz, sem vazios, sem angústias, sem competitividade. Inventávamos histórias em que éramos as suas personagens. Participávamos em jogos, engendrávamos brincadeiras. 
Cresci entre primos e primas, éramos ao todo 10, um  verdadeiro clube de aventuras. Partíamos de manhã e só nos voltavam a ver quando a noite nos chamava para o jantar, de mochila às costas preenchida com uma merenda colorida, fazíamos as nossas “viagens” não muito longe do olhar dos pais, dos tios, dos avós. Mas sentíamo-nos em plena liberdade e por isso mais responsáveis por nós e pelos outros. Acampávamos no pequeno riacho que banhava a quinta dos meus primos, nadávamos, jogávamos às cartas, líamos uns para os outros e adormecíamos felizes na frescura da tarde. 
Noutros dias andávamos a cavalo, corríamos atrás das ovelhas, das galinhas, acariciávamos os coelhos ou simplesmente ficávamos embalados pelo movimento do baloiço depois de termos tentado com ele tocar o céu com ele. Consoante as épocas tínhamos o jogo do pião, os berlindes, o jogo do lenço, o mata, a corda de saltar e tantos outros que já me esqueci. 
Fazíamos as nossas festas de gira-discos, os bailaricos, o saltar a fogueira, a dança da fita enrolada no poste, tínhamos os nossos festivais da canção em que éramos simultaneamente concorrentes e júris, mas não havia brigas, tudo acabava num sorriso sem vencedores nem vencidos. Nos aniversários, no Natal, na Páscoa não havia muitos presentes, mas havia sempre muita diversão, espírito de amizade, alegria e fantasia. 
Hoje dá-se tudo às crianças, dá-se tanto que parece  nunca chegar para preencher esse vazio que lhes cresce no peito, rasgam o papel ávidos de surpresas que rapidamente esmorecem, rapidamente caiem no esquecimento. Alimentamos uma ansiedade de algo que nem eles nem nós sabemos a causa. Tentamos trocar a falta de tempo, de atenção, por prendas. Tentamos colmatar a nossa culpa, a nossa ausência, e eles, atentos ao grito da nossa consciência tiram partido dela, pedem e exigem um mundo todo ao seu dispor. Entristeço-me por mim, entristeço-me sobretudo por eles, que não têm o mesmo sentido de amizade, a mesma capacidade de fantasiar, de voar sem ser através dos jogos virtuais. Nós tínhamos tão pouco, mas éramos felizes, eles têm tudo, tudo menos a ventura de reconhecerem a sensação de felicidade.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Estou em greve


Estou em greve ao pensamento,
Estou em greve ao sentimento,
Estou em greve à esperança,
Estou em greve à lembrança.
Estou em greve ao sonhar,
Estou em greve ao amar,
Estou em greve ao ser,
Estou em greve ao querer.
Estou em greve ao lutar,
Estou em greve ao conquistar,
Estou em greve ao sorrir,
Estou em greve ao existir.

Simplesmente, estou em greve!
Que espero, me seja breve.
Porque é preciso construir,
Para não deixar tudo ruir.
Porque é preciso acreditar,
Para conseguirmos ficar.
Porque é preciso ter no coração,
A noção de se ser cidadão.
Porque mais do que criticar,
É preciso fazer algo para mudar.
E erguer as mãos abertas,
Para agarrar outras desertas.



quarta-feira, 26 de junho de 2013

Post.it: Existimos por vós

Este é um assunto a que regresso, regresso a ele sempre que abro o blogue, sempre que escrevo e gravo uma mensagem, um pensamento, um olhar.
Regresso a ele porque me questiono sobre a sua existência, sobre o seu início sem grandes expectativas, porque não sou grande fã das coisas da web. Mas fui ficando, fui-me deixando embalar pelas opiniões, pelos corações generosos que me fazem companhia.  
Então regresso, regresso sempre porque este blogue pretende ir muito além do mero divertimento, ele quer ser vida, palpitante de histórias guardadas na memória. Comovente de momentos verdadeiros de partidas que permanecem em nós. Latejante de esperança, de sonhos, de mágoas vestidas de fantasia. Gritante de acontecimentos silenciados no corrupio dos dias, na rotina das horas, no virar da página que esquece sem apagar o que foi sentido, o que foi dito neste código milenar de sinais a que chamamos letras, que dão as mãos e formam palavras, que estendem abraços e constituem frases e que vão crescendo, até longe, tão longe quanto quiserem ler-nos, receber-nos no olhar, aconchegar-nos com algum afecto num recanto do peito e depois num click decidido saímos das suas vidas.
Enquanto nós, entre um suspiro e uma saudade nascente aguardamos a vossa visita para que esta alma cibernética volte a dar asas à sua virtualidade de existir e a conquistar um bite da vossa gentil atenção. Se vos fazemos sorrir, atingimos o nosso objectivo, se vos fazemos pensar um pouco atingimos o nosso propósito e se vos fazemos regressar, nem que seja por mais uma vez, então consideramos o nosso êxito total. Porque se nos lêem, logo, existimos.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Sonho que naufragou

Os poetas no seu escrever,
Dizem o que o mar,
Quer esquecer.
E do seu peito a chorar,
Saem ecos a cantar,
Que te querem amar.
Mas já as ondas em viagem,
Levam para longe um coração.
Que almejou uma margem,
E apenas encontrou solidão.
Poderá o vento dizer,
As palavras que não tenho,
Quando nelas tento escrever,
O sentir que no peito contenho?
Já que poeta não sou,
Nem sequer ninfa do mar,
Sou um sonho que naufragou.
Quando o querer encalhou,
Nessa noite sem luar,
Onde nenhum farol me guiou.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Post.it: Uma felicidade sem sorriso

Não sorri, mas também não é infeliz, uma frase que me ficou no pensamento. Imagino sempre que felicidade se vê no rosto, que se reflecte no sorriso. Que uma face séria não é feliz ou então está impregnada de botox
Na realidade pode-se ser feliz sem revelar a felicidade, pode esconde-la no peito, abraçar-se a ela à noite com receio que fuja na madrugada. Pode-se caminhar como se flutuasse numa nuvem e no entanto os passos mantêm-se firmes a quem olhar. 
Decidiu disfarça-la de solidão, decidiu guarda-la na algibeira não vá alguém rouba-la. Afinal, revela, já lhe furtaram tantas coisas ao longo da vida, roubaram-lhe a esposa, a filha, o emprego, a saúde, o dinheiro, até o sorriso, esse já nem se lembra quando lho roubaram, talvez naquele dia em que o trocou por um mar lágrimas que entretanto secaram em tantos lutos, em tantas batalhas perdidas.
Não sorri, mas também não é infeliz. Garante com a placidez dos anos passados. Aprendeu a viver a felicidade a conta-gotas, como se fosse um remédio para o coração e ele vai batendo devagar como se já tivesse poucas forças para levar o sangue ao lesse corpo carregado de anos, de lembranças, mágoas, mas também de alegrias, essas que agora o tornam menos infeliz, apesar de já não conseguir sorrir.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Post. O Verão já espreita

O verão chegou, o calor já espreita, será que vai ficar, será que vai partir? Depende das portas abertas que encontrar. Depende das janelas de persianas levantadas. Depende da resposta de cada um, se ainda permanece cinzento no seu céu, se ainda não aqueceu o coração, se ainda não despiu as mágoas, nem deixou que a brisa de cada flor lhe colorisse os sonhos.
O verão chegou, diz o calendário, diz a estação, dizem as andorinhas em voos festivos, mas e nós que reclamámos da sua demora, saberemos abraça-lo, saberemos sorrir-lhe? Saberemos suplantar as nossas crises e oferecer-lhe um espaço na nossa vida para que fique e só tenha de partir na próxima estação?
É tempo de arejar as ideias, tirar-lhes o pó de tantos meses nublados. É tempo de mergulhar na frescura retemperante das águas ondulantes. É tempo de caminhar com ou sem destino programado, ao sabor da luz solar. É tempo de acreditar que cada dia é uma generosa oferta da natureza revelada no seu manto verdejante. É tempo de encher o olhar de cor, de calor, do canto dos pardais, de deixar o peito correr, de sentir a alma voar e numa duna macia repousar.
O verão chegou, que seja para todos, que seja em todos, que seja bem vindo...

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Post.it: Temos pena


Eis uma expressão que ultimamente me anda a fazer “alergia nos neurónios” (outra expressão).
“Isto está errado!”. Resposta – Temos pena. “Estão a violar os meus direitos!” – Temos pena. “Não me dão solução!” – Temos pena. “Sou cidadã, mereço mais atenção!” – Temos pena.
Irrita, mas irrita mesmo, esta resposta que a nada responde. Vazia de conteúdo, desprovida de sentido. Que nos deixa sem acção cada vez mais “roubados” por dentro e por vezes também por fora.
Ainda por cima é uma frase que nos mente porque na verdade ninguém tem pena. Não há solidariedade por quem é atropelado por burocracias. Não há apoio moral a quem lhe sonegam os direitos conquistados por uma vida de trabalho.
Não, não têm pena, há muito que lhes cresceu uma indiferença “protectora” justificam, para não confessarem a incapacidade de sentir alguma pena/dor verdadeira por quem lhes pede um sentido quando já não vislumbram sentido algum para o seu futuro.
Há quem ainda entre no jogo e num jacto de raiva incontida responda tentando imitar o tom “penas têm as galinhas”.
Claro que a minha “pena” entende o lado de quem está no atendimento ao público, que ouve vezes sem conta as mesmas queixas, a mesma revolta, com a mesma impotência para lhe dar um  melhor desfecho.
No fundo, bem  no  fundo, apenas  precisávamos  de um sorriso, de uma  palavra conciliadora, mesmo que  depois se partisse sem  a solução mas com o peito aconchegado não por penas mas  por um  pouco do outro em nós, esse  pedacinho de  algo a que  chamamos  esperança. Não tenham  pena, sobretudo  dessas penas  que embora sejam muitas, pela sua indiferença não nos permitem voar...

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Não é fácil

Não é fácil voar,
Quando nos doem as asas.
Não é fácil sonhar,
Sonhos que não têm casas.

Não fácil caminhar,
Contra a força do vento.
Não é fácil lutar,
Contra o querer do sentimento.

Não é fácil vencer,
A chuva que nos molha.
Não é fácil esquecer,
A árvore que nos deu a folha.

Não é fácil fugir,
Do que nos prende o coração.
Não é fácil iludir,
Os caminhos da solidão.

Mas quando o sol brilhar,
E quando as nuvens partirem.
Fingirei que é fácil cantar,
Uma melodia de coragem.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Post.it: A vida tal como ela é

Esta é a vida que eu tenho, aquela onde me puseram e eu segui pelo caminho, mudando aqui e ali a tendência de quem vive fadado pelas limitações genéticas, sociais e culturais, talvez…
Porque nem tudo tem de ser assim tão linear: outro dia ouvia a explicação de um mecânico de automóveis sobre o impressionismo na pintura e fiquei deveras impressionada. 
Como se já não bastasse nesse dia a senhora da padaria resolveu fazer uma divagação sobre música clássica fascinada por nesse fim-de-semana ter assistido aos concertos dos Dias da música, quando vinha pela calçada acima encontrei o varredor da rua, mudei de passeio, acenei-lhe um bom dia fugidio, não fosse ele querer aproveitar a maré cultural para me falar de escultura, teatro, cinema ou outra arte. 
Este gesto aparentemente egoísta, fez-me sorrir por dentro, uma alegria de quem encontrou visível naquelas pessoas a possibilidade de se poder seguir por um caminho que não parecendo o melhor para si, o mais óbvio, conquista-o e simultaneamente desenha-lhe novos contornos. 
E é feliz por ser quem é, em vez de se acomodar à ideia que isso são coisas para quem tem outro padrão económico e social. Afinal crescer, amadurecer, aprender, querer conhecer, não tem de ter necessariamente altos custos mas enriquece-nos o espírito e melhora cada um de nós. 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Post.it: Escrevo porque espero uma resposta

Porque tudo o que escrevo é uma declaração de amor. Amor por tudo o que passa, por tudo o que fica. Amor pela vida, por cada chegada, por cada partida.
E porque espero por a resposta que um dia chegará nas asas do vento, ressoada pelos ecos da terra, soprada pelos ramos das árvores.
Escrevo porque espero uma resposta e deixarei de escreverei quando ela chegar. Passarei a viver esse amor, que escrevi durante anos e séculos de existência, não somente minha, mas unida a tantos outros escritores que escreveram em busca dessa mesma resposta e que desenharam uma ténue linha do horizonte, formada por todas as palavras, por todas as expressões, por todas as declarações infinitas desse amor, que nos faz continuar a escrever para que quem lê, se possa encontrar nas páginas que folheia. Para que possa desvendar o nosso coração palpitante de emoção, que lhe corresponda e lhe responda rasgando o silêncio de “100 anos de solidão”. E entenda  neste “Livro das confissões”, a grandiosidade deste “Coração, solitário caçador”, que foi continuamente “Deixado para trás”, “Em busca do tempo perdido”, quantas vezes a “Falar a verdade a mentir”.
Mas em cada Primavera ficaram as “Flores sem fruto” e em cada Outono apenas as “Folhas caídas”.
Até chegarmos a um Inverno, “E tudo o vento levou” até esse “Livro do desassossego” que ainda acreditou numa “Luz em Agosto” e permaneceu em “Mil noites de espera” ansioso por resplandecer “Na tua face”

Mas mais uma vez fecharam o livro, mais uma vez calaram-lhe a  alma, e emudeceram o sentimento com que foi escrito. Todas as declarações de amor, todos os beijos, todos os abraços ficaram na “Sombra do vento”, algures num “Labirinto perdido”, que se chama simplesmente, “Saudade”.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Post.it: Parabéns

Para certas pessoas que me são ternas e seguramente eternas tenho sempre alguma dificuldade em dar-lhes os Parabéns pelo seu aniversário. Porque sinto que quem está de parabéns sou eu, que as conheço e que faço parte desse círculo de ouro que é a amizade.
Tento oferecer-lhes uma palavra especial, um gesto exclusivo de carinho, mas também aí falho porque numa amizade verdadeira nunca há dádiva unilateral mas partilha. Então recolho com humildade o meu pequeno gesto, junto-o ao teu e ele cresce na reciprocidade que nos torna amigas. 
 A sabedoria popular usa expressão “Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. Mais uma vez a mutualidade. És uma pessoa especial e perto de ti gosto de sentir que também o posso ser. És atenciosa, generosa, és inteira no que fazes, em quem amas. Tento igualar-te, numa missão que nem sempre é fácil. És o sentir puro e verdadeiro de um universo sem mágoas que nos prendem mas antes libertam, o passado foi uma escada para o presente e uma passadeira vermelha para o futuro. Invejo-te a sensatez, a verdade que construíste sem pilares de obstinação, com fluidez, com ternura. Talvez por tornares a lição aprendida, numa lição a ensinar (ossos do ofício?) E eu aprendo, ávida do teu saber. Parabéns, é tudo o que posso dizer e nesta palavra condenso todo o desejo de felicitar o teu aniversário, a tua vida, e a nossa amizade.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

O Santo e a crise

Santo António no seu altar,
Olha para o país desolado.
Como pode ele trabalhar,
Com paixões em mau estado?

Como pode ser casamenteiro?
Guardião dos namorados.
Se há pouco amor e dinheiro,
Para os manter apaixonados?

O Santo já sem profissão,
Reza para a crise passar.
Para que em cada coração,
O amor possa habitar.

Quanto à questão financeira,
O Santo pouco pode fazer.
Resta a esperança derradeira,
De um milagre acontecer.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Post.it: Amores impossíveis

Ainda há quem fale em amores impossíveis, entre Romeus e Julietas, entre ricos e pobres, brancos e pretos, homens e homens, mulheres e mulheres.
Ainda há quem desenvolva ódios clubísticos, erga muros sociais, crie fronteiras culturais, alimente fobias raciais, gere separações religiosas.
Ainda há quem viva e sustente preconceitos, quem veja nos outros apenas defeitos.
Por ser  gordo, magro, feio, bonito, alto, baixo, inteligente, ignorante, varredor de rua, administrador de empresa, por ganhar tostões ou ganhar milhões.
Ainda há quem critique, quem satirize, quem reprove, quem veja no outro não o que é mas o que tem, “quando a sua essência não se define pelos seus bens”.
Ainda há quem apenas identifique o mal e não conceba o bem nas relações humanas. Porque ainda há quem não tenha cruzado o olhar com outro olhar, o sorriso com outro sorriso, quem não tenha sentido o coração  bater mais forte e todos os sentidos  ficarem sem norte. 
Nesse instante nada sabemos: quem é, o que faz, o que tem, os seus ideais, a sua opção religiosa, a sua carga genética, sentimos apenas a felicidade de reconhecer que “o coração tem razões que a razão desconhece”.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Post.it: Não partas

Não partas antes de fazeres 8, 10, 18, 20, 30, 50 ou 80 anos. Não partas antes de chegar o verão para te ver a mergulhar nas ondas e fazer castelos de areia na praia. Não partas antes de termos as nossas primeiras discussões sobre as tuas notas escolares, sobre as tuas namoradas, sobre as noites de farra e as minhas insónias e os meus medos de que te perdesses por maus caminhos. Só queria que os chegasses a conhecer e que depois, optasses por não os seguir.
Não partas mesmo que um dia usasses as calças rasgadas nos joelhos e descaídas na cintura. Que optasses por um corte de cabelo penteado pelo vento. Que fumasses às escondidas e disfarçasses o cheiro com pastilhas elásticas. Que me rebentasses os ouvidos com o som dos Heavy metal,  tão diferente das baladas que te cantava até entrares no mundo dos sonhos.
Não partas mesmo que um dia quisesses ser gótico, amisch ou budista. Mesmo que discutíssemos sobre incompatibilidades geracionais. Mesmo que me gritasses que querias o mundo como oferta na tua mão, porque achavas que tinhas direito a tudo por teres nascido de um desejo maternal e não da tua exclusiva vontade.
Mesmo que fizesses muitas escolhas erradas, mesmo que seguisses um destino distinto de tudo o que ambicionei para ti, mesmo assim, continuaria a pedir-te, não partas. Porque se não partires, terei mais tempo para tentar fazer de ti uma pessoa feliz.
Olho para ti, e já não consigo desenhar-te um futuro mais longínquo, se não a distância que vai do teu coração ao meu.
Quando ainda queria fazer tantas coisas: ensinar-te a andar de bicicleta, a lançar papagaios de papel, a fazer truques de magia, a identificar as estrelas pelo seu desenho no céu.
Queria tanto continuar a ler-te histórias para adormeceres sem medo dos sonhos maus.
Queria mais que tudo, parar o tempo, parar a doença, parar as dores, parar a ameaça diária da tua partida.
Ainda bem que não percebes esta dor que me corrói o corpo e a alma, ainda bem que não sabes que o teu caminho é curto e que por isso não temes nada, e que continuas a sorrir nos poucos momentos bons que ainda consegues ter.
Em mim, em nós, que sentimos cada vez mais a proximidade de tua ausência, só conseguimos pedir-te que não partas, porque chegaste há tão pouco tempo, ainda mal conheces o mundo, ainda mal viveste a vida, como podes partir dela sem aumentares as tuas e as minhas, as nossas recordações?
Mas se tiveres de partir, leva a certeza de  que ficas para sempre entre nós, e que te veremos cada vez que olharmos o céu, e nele encontrarmos  a tua presença na estrela mais brilhante que nos lembrará  o teu eterno sorriso iluminando o horizonte da noite.



quinta-feira, 6 de junho de 2013

Post.it: Pensamentos positivos

Não tenho um emprego de sonho, mas nos tempos que vão correndo, dou-me feliz por ter emprego.
Não tenho o mais adorável companheiro, mas nos tempos que vão correndo, dou-me feliz por não conhecer a solidão.
Não tenho os filhos mais dedicados, mas nos tempos que vão correndo, dou-me feliz por não se meterem em drogas e afins.
Não tenho o animal de estimação mais amoroso, mas nos tempos que vão correndo, dou-me feliz por não me roer os sapatos nem  arranhar o sofá.
Não tenho o melhor país do planeta, mas nos tempos que correm, dou-me por feliz por ele ter paz.
Não tenho a família mais calorosa, mas nos tempos que vão correndo, dou-me por feliz por se lembrarem de vez em quando dos meus anos.
Não tenho uma casa com muitas divisões, mas nos tempos que vão correndo, dou-me feliz por não ter muito que arrumar.
Não tenho a melhor saúde, mas nos tempos que vão correndo, dou-me por feliz por estar viva.
Não tenho os melhores pais do mundo, mas nos tempos que vão correndo, dou-me por feliz, porque me fizeram nascer.
Não tenho grande beleza física mas nos tempos que vão correndo, dou-me por feliz por me considerarem gentil.
Não tenho muitos amigos, mas nos tempos que vão correndo, dou-me feliz por ter bons amigos.
Não tenho as melhores colegas, mas nos tempos que vão correndo, dou-me por feliz, afinal (chateiam-me, logo existo).
Não faço férias em paraísos turísticos, mas nos tempos que vão correndo, dou-me feliz por ter uma longa costa marítima no meu país.
Não realizo os meus sonhos, mas nos tempos que vão correndo, dou-me feliz por sonhar enquanto durmo.

Não cheguei a horas à reunião da escola dos miúdos, mas nos tempos que vão correndo, dou-me por feliz por ter sido multada por um polícia giro.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Post.it: A vida é um barco navegando sem mar

Somos senhores do nosso destino, somos o comandante do  navio. Direccionamos as velas, contrariamos os ventos, desafiamos as vagas.
E no entanto deixamo-nos navegar e, no entanto deixamo-nos guiar por um leme que nem sempre nos evita as tempestades mas que, sem sabermos bem como, acabamos sempre por sair delas, mais fortes, mais firmes na coragem de as ultrapassar.
E ao ritmo das marés vamos ansiando por  enseadas de descanso. É a nossa viagem, é a nossa passagem, há quem nela estenda remos infinitos  no ensejo de chegar mais depressa, quem reme contra as tormentas, quem arrisque tudo e atire-se ao mar para nele se salvar. Mas no fundo, bem no fundo apenas queremos encontrar terra segura. Porque a vida é um barco navegando sem mar, entre portos de abrigo, entre cais de partida há um desejo de ficar, preso num abraço de rocha protectora e nos revela suave que esse sempre foi o nosso lugar.


terça-feira, 4 de junho de 2013

Post.it: Não há amor como o primeiro?

“Não há amor como o primeiro” Diz a sabedoria popular. A sabedoria do tempo que vai ultrapassando gerações, que vai tocando vidas, que aqui e ali vai despoletando novas emoções.
Mas ainda diz quem sabe, que pode-se amar uma segunda, uma terceira, talvez até mais…?
Mas há um silêncio que responde apenas com o desviar do olhar, quando mergulha numa onda e se deixa levar por uma maré de lembranças cada vez mais distante mas insistentemente saudosas.
Já não tanto desse amor sentido com todo o fulgor de um coração que acaba de o descobrir aos 15, aos 18, aos 30 ou quem sabe aos 50, 60… A vida tem dessas coisas, não as podemos adivinhar nas estrelas nem nas linhas da mão.
É verdade que se pode amar de novo. Reafirma  com convicção quem já amou mais de uma vez.
A resposta não se faz esperar, ela surge numa espécie de brisa, discreta, quase inaudível mas consistente no seu sentir magoado. “Depois do primeiro amor tudo será diferente, já sabemos que os sentimentos não são eternos, que as palavras não são verdades absolutas, que nem os sonhos são perfeitos. Perdemos a ingenuidade, perdemos a esperança, perdemos a fantasia que nos faz acreditar no futuro, no nosso futuro.
Depois, já não há descobertas ansiosas por mais revelações, e há um constante sinal de alerta, que nos prende à razão.
Que nos agrilhoa o coração já não voar nos ternos enleios da paixão, começa-se a dar passos pequenos, passos que sondam o seguinte e a firmeza do chão.
Em cada começo há um pouco do final anterior. Em cada princípio há um fim que nos ensombra o peito. E dizemos para nos desculpar, que faz parte do crescimento, que é  a maturidade dos sentimentos, escondendo de nós esse nevoeiro que nos invade a alma, numa saudade de um amor que já vivemos e sobretudo da pessoa que um dia fomos, límpida de ideais, constante nos afectos, que conjugava o verbo amar num horizonte de infinito”.
No entanto volta a erguer-se a voz da sabedoria com lições de vida que só o tempo ensina, e, com uma firmeza que faz estremecer as nossas dúvidas. Eleva-se dos confins oceânicos, ressoa dos choques tectónicos, clama do magma que explode em vulcões de sensatez, “segue em frente!” Parecem dizer. “Não olhes para trás!” Insistem. “Há uma página em branco à tua espera!”. E por fim quando as nuvens se afastam, há um sol que nos parece sorrir, como se dissesse “Não há amor como o primeiro nem tão feliz como o último”. 
Quanto a mim, confesso que nada sei, que nesta vida ainda não aprendi todas as lições, mas o tempo que é tão velho que nem sabe o tempo que tem, deve saber o que diz, por isso o melhor é seguir-lhe o conselho: "viver tudo como se fosse a primeira vez e acreditar como se fosse a última".

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Post.it: Intemporal

Einstein não acreditava no “tempo” mas na intemporalidade, onde, em simultâneo, coexistem  o passado, o presente e o futuro.
Como se um dos nossos pés estivesse sempre preso ao que fomos, o outro ao que somos e nesse mesmo instante,  uma mão se estendesse esperançosamente em direcção ao futuro.
Na realidade o “tempo” não existe, fomos nós que o criamos, na nossa necessidade de organizar, de arrumar, de catalogar cada momento da vida.
O que existe é o (agora), um agora, sem horas,  sem dias, meses, anos, sem calendário. Um agora que é apenas o momento em que o sentimos, que o vemos, em que o tocamos e  tiramos dele algo de bom para recordarmos, algo de doloroso para tentarmos esquecer mas que fica guardado no “tempo”, como se ele fosse uma caixa onde arrumamos cada memória, cada pedacinho da nossa história, cada retalho de nós.
E o “tempo” vai passando, por vezes voando, por vezes demorando. E nós que também temos o nosso “tempo”, acreditamos nessa sucessão de “agoras”, de instantes, compostos de sol e chuva, de luz e sombra, de estrelas e de luar, de flores que nascem, de folhas que caiem. Acreditamos nesse marco  que nos faz nascer e ser cinzas do tempo. Precisamos desse conceito para um qualquer período a que chamamos felicidade e que nos revela  a insignificância da  finitude perante a nossa intemporalidade.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Post.it: Para nós (crianças)

Para todas as crianças que ainda se maravilham com o nascer do sol, com o desabrochar das flores. Que se encantam com as cores do arco-íris, e que deixam o seu sorriso afluir pela coisa mais simples.
Que ainda acreditam numa humanidade mais humana. Que ainda acreditam num mundo melhor. Que fazem o universo girar quando se levantam, que cumprem a suas tarefas sem as deixar cair na rotina. Que ainda brincam com o olhar, que desenham nuvens no céu da sua fantasia. Que caem e levantam-se, enxugam as lágrimas e seguem, tentando esquecer a dor.
Para quem a ingenuidade não é um defeito mas a capacidade de reaprender a vida sem lhe fechar as portas, sem lhe bloquear as janelas do acreditar.
Que descobrem novas formas de fazer o caminho quando ele se torna difícil de prosseguir. Que encontram em cada momento negativo um lado positivo, que tentam de novo, mesmo se tiverem de começar do zero, sem desistir, sem ceder à primeira contrariedade.
Que sentem as dificuldades como desafios e tentam superá-los. Que valorizam mais o prazer da vitória do que tristeza da derrota.
Para os que ainda são assim, que saboreiam os sonhos que ainda conseguem sonhar  acordados.
Que no dia 1 de Junho, despem  a envergadura de ser adulto, libertam a criança que há em si e sentem a entrar-lhes pela alma a vontade e  o desejo de trocar alegremente meia dúzia de compromissos por um momento de prazer à sombra de uma árvore, ou um passeio à beira mar, de mão dada, talvez com outra criança que também se recusa a crescer e a perder a capacidade de ser infantilmente feliz.
“Nunca ninguém conseguirá ir ao fundo de um riso de criança, se conseguisse certamente encontraria lá o seu”.



quinta-feira, 30 de maio de 2013

Post.it: Coisas

Sou uma pessoa arrumada, talvez excessivamente arrumada. Gosto de caixas, de caixinhas, de gavetas e de gavetinhas. Tenho de ser arrumada porque gosto de guardar tudo, já que tudo são recordações, contam  histórias, momentos áureos de um brilho especial. E mesmo que hoje já tenham perdido a cor e sobretudo a sua função.
Como vou deitá-las fora, abandoná-las só porque estão velhas, só porque já não têm beleza, só porque já não me ligam à pessoa que as ofereceu, só porque a lembrança de uma outra pessoa me magoa através dos objetos que nos uniram.
Sou incapaz de me separar delas, de as deixar órfãs, sem a carícia de um olhar, sem o toque sereno de uma lembrança,  como se me posso separar desse pedacinho de   mim, arrumo-as em caixas e caixotes de onde talvez nunca mais de as volte a retirar. Mas dá-me tranquilidade sabê-las ali, para um dia em que precise delas para receber um abraço da lembrança, para compor com elas o puzzle da minha vida.
“São apenas coisas”, dizem-me com uma indiferença que me magoa. “Objectos velhos, estragados, partidos, esbatidos na sua cor, amolgados”, para os vossos olhos são apenas isso para mim são muito mais. São a infância que ainda ouço nas gargalhadas felizes quando brincava com os meus primos. Aquela flor seca entre as folhas de um livro, foi a primeira que romanticamente me deram, perdeu o cheiro mas não o som das palavras que acompanharam a oferta.
E se um dia um ladrão me invadisse a casa, me invadisse a alma, me despisse das minhas memórias, se me roubasse cada pedacinho do que fui e que estava guardado nessas gavetas e caixas,  que usurpasse o meu espaço tratando as minhas “pequenas riquezas” com desdém e revolta por não valerem  nada, por não significarem nada para si, mas tanto para mim.
Ficaria mais pobre, porque são coisas, apenas coisas, pequenas coisas, muito do que aprendi a ser, de tudo o que sou.



quarta-feira, 29 de maio de 2013

Post.it: A tarde da vida

Quando é que a vida nos começa a entardecer? Ou seja quando é que se entra na velhice? Esta pergunta é cada vez mais subjectiva, sobretudo com o claro aumento da esperança média de vida, na Idade Média era-se velho aos 30 anos e hoje? Em termos demográficos coloca-se a baliza nos 65 anos mas esta convenção tende a dilatar-se. O Estado determina que a velhice oficial é marcada pela entrada na idade da reforma, cujos limites também têm vindo a ser alterados. Biologicamente considera-se que a mulher entra num processo de envelhecimento com o final da sua capacidade reprodutora, mas e então a do homem será marcada pela andropausa? Apesar de manterem ainda a sua fertilidade intacta?
A verdade, dizem os cientistas, é que a velhice começa logo com o nascimento de uma vida. Já ouvimos diversas vezes alguém referir-se a uma criança de 2 anos como sendo mais velha que outra com apenas 1 ano.
Afinal em que ficamos? No fundo a velhice é em grande parte um factor psicológico, independentemente das doenças e das marcas do tempo que se desenham na pele, “Os anos enrugam a pele, mas renunciar ao entusiasmo enruga a alma”.
Independentemente da soma cada vez mais infinita de anos, “a velhice não se abate sobre nós de repente avança lentamente”, dando-nos oportunidades de escolha. Podemos optar por ficar prostrados vendo o tempo passar por nós, roubando-nos o ânimo ou fazer de cada pequena dificuldade um grande desafio. Porque está também comprovado que a velhice é um estado de espírito.
Por isso em vez de denegrirmos a velhice,  devemos valoriza-la no que ela tem de melhor: a experiência vivencial, a sabedoria da longevidade, porque só “a tarde conhece aquilo que a manhã nunca suspeitou”.



terça-feira, 28 de maio de 2013

Post.it: Basta ser rio

Habituamo-nos a esta certeza e isso dá-nos confiança. A garantia de que o caminho mais tarde ou mais cedo ou mais tarde encontra o seu rumo. 
Só temos que esperar, só temos que deixar que a terra gire, que os mares ondulem, que as nuvens cinzentas passem, que o sol volte a brilhar depois de cada nosso inverno, que as flores a renasçam e desvende diante do nosso olhar uma nova Primavera.
Só temos que ter as mãos abertas prontas para receber outras que se estendem para nós, um  coração de portas abertas  para que entrem e se aninhem.
 Não devemos inventar desculpas, levantar dificuldades, sentir que há um rio, uma fronteira, um muro, entre nós e os outros. Não devemos culpar o tempo, a ausência do momento, a chuva o vento, o relógio que nos afasta.

 Basta a vontade, para que asas se estendam e cruzem os céus, basta a generosidade para que os braços se fechem num abraço, basta o querer que libertará o sentimento. Basta ser rio e navegar até ao mar da felicidade.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Post.it: Flores de solidão

Falamos tanto que nos esquecemos de ouvir. Deves ter coisas para me contar dos teus desertos, dos teus passos cansados, das páginas que viraste, das lembranças, do esquecimento. Porque tudo o resto já sei. Os sonhos que desenhaste nas nuvens e que nunca aterraram, “nem nos dias de nevoeiro”, dizias tentando gracejar.
Bem sei que te afoguei nas minhas teorias, e tu encolhias os ombros, incapaz de as refutar.
Percebias que era o furor da fugaz  adolescência, as primeiras pisadas na vida adulta. Quando eu achava que sabia tudo e tu dizias que não sabias nada, nem sequer para onde ir. A minha escolha estava feita, queria ser intelectual, “mas isso é lá profissão?! Rias com ternura perante a minha orgulhosa ingenuidade, “Sei lá, mas quero pensar, filosofar, emaranhar-me nas teorias e extrair delas a lógica das coisas”.
 Tu, fazias silêncio, não me contavas os teus planos. Pareciam-te demasiado simples perto dos meus, afinal, apenas querias ser feliz, encontrar a tua alma gémea e em conjunto rumarem placidamente em direcção a um  futuro perfeito. “Fantasias” clamava com jovial desprezo e tu baixavas os olhos envergonhada das tuas cálidas emoções.
Hoje sou eu que baixo os olhos com vergonha da minha altivez, bem sei que faz parte do crescimento, da necessidade de afirmação, mas não, não quero fazer disso uma explicação para me alhear da minha culpa, da minha indiferença. Hoje já não quero falar, percebi que sabia melhor ouvir, aprender sem julgar. Tenho saudades das tuas fantasias, tenho inveja da tua capacidade de acreditar e de construir. Porque tu construíste um lar, enquanto eu, semeei no horizonte flores de solidão.