sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Post.it: Tudo depende da verdade


Tudo depende da maneira como as coisas são ditas. A verdade deve sempre ser dita, repetem todos, posso até concordar, mas a forma como se diz é que faz toda a diferença. A verdade é como uma pedra preciosa, se a lançarmos ao rosto de alguém pode ferir, se a lapidarmos pode tornar-se um belo diamante.
Conta-se que havia um Sultão muito feio que não encontrava noiva para casar, um dia finalmente casou, feliz com o matrimónio mandou chamar um adivinho e perguntou-lhe se iria ter filhos e se estes seriam bonitos. O adivinho respondeu que teria filhos mas que seriam muito feios. O sultão ficou zangado e mandou matar o adivinho. Depois consultou outro, este respondeu-lhe com um sorriso, “alegrai-vos meu sultão, terás muitos filhos e todos parecidos com o pai”.
Por isso “A verdade pode tornar-se inconveniente na boca de uns e conveniente no sorriso de outros”. Já que, “Algumas pessoas nunca dizem uma mentira, só se souberem que a verdade pode magoar mais” Mark Twain. Além de que, “ a mentira é apenas a verdade mascarada” George Byron. Podemos talvez concluir que “A única verdade que temos é a realidade”  Aristóteles.  Aquela “Que cada um absorve consoante o seu grau de miopia” Carlos D. Andrade. Mas antes de julgar todas as teorias e todas as verdades o melhor é concluir como Pablo Neruda, “A verdade é que não há verdade”.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Post.it: O filho do meio


Ser o filho do meio não é fácil, dizia-me o meu sobrinho, com o desalento próprio da sua idade (14 anos) pensei numa primeira observação.
Mas talvez seja injusto não lhe ceder um olhar mais atento. O primeiro filho, é o sonho concretizado e, simultaneamente a junção de todos os medos de uns pais na sua primeira viagem de pais. Tudo é novidade e vivido à flor de pele, se o bebé chora é o caus, o que quer, o que tem, o que pode acontecer se não o conseguimos silenciar? Os pais desejam que o tempo passe rápido para que o bebé fale e assim já  possa dizer o que o incomoda. E o tempo faz-lhes a vontade voa, de repente voltam um olhar saudosista para os momentos em que o bebé só comia e dormia. Agora corre tudo, cai, chora, grita, faz birras terríveis, os pais em desespero, telefonam, aos avós, aos irmãos, aos amigos. Depois vem o segundo filho, o primeiro entra numa fase complicada, como todas, já que vão descobrindo, que todas as fases têm a sua problemática. Não há muito tempo para divisão de atenções, ainda bem que o segundo bebé ainda está naquela fase maravilhosa do come e dorme e agora esperam que ela se prolongue por muito tempo. Quando se apercebem chega o terceiro filho, e o segundo que começara a saborear o papel de ser o mais novo vê-se deslocado para o centro. O mais velho, já conquistou alguma autonomia, o do meio sente-se “entalado” não foi o primeiro não recebeu a junção de todos os medos e expectativas, não é o mais novo, por isso não recebe os mimos de ser o último. Porque o último, esse sim, é agora o bebé, numa infância eternizada, sabe-se lá por quantas décadas. Os pais carentes de um caminho a dois criam esse espaço, dividem responsabilidades pelos irmãos, o mais velho, bate com a porta, está a entrar na fase da adolescência, um bebé nos braços é a última coisa que quer a impedi-lo de voar. O do meio, tem mais restrições, ainda é demasiado novo para sair com os amigos, fica em casa, embala o bebé, dá-lhe a papa, muda-lhe as fraldas. No início sente-se envaidecido com essa tarefa, com o reconhecimento de que é responsável, mas depois cresce-lhe um peso no peito, porque algures neste processo esqueceram-se que também ele era criança, que precisava de brincar, brincadeiras próprias da sua idade e não de adultos. Os pais só têm tempo para os problemas do filho mais velho e para mimar o mais novo, o do meio, claro que o vêm mas continuam a delegar-lhe demasiadas responsabilidades, tem que cumprir as expectativas que o primeiro filho não cumpre e, apreciar a infância do mais pequeno, prolonga-la porque sabem que esses momentos não voltam mais.
Mas e o filho do meio? Aquele que ficou “entalado” entre fases de quem cresce e quem nasce. Olho para o meu sobrinho do meio e desejo abraçá-lo, embalá-lo, quero  sentar-me no chão e construir com ele brincadeiras de uma infância perdida, antes que a adolescência o roube de mim e um adulto surja, incompleto no seu trajeto de crescimento.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Post.it: Ser feliz


A felicidade é agora, sim agora. Não inventes desculpas, não adies a alegria anulando-a com a tua negatividade. Não detenhas o teu sentir, não o coloques no barco das esperanças perdidas que anda à deriva algures no mar das ilusões. Não esperes pelo amanhã, vive o hoje. Vive a felicidade mesmo que sozinha, porque também se pode ser feliz sem mais ninguém, desde que estejamos bem connosco. Ou vive-a com alguém, alguém tão especial que cabe plenamente no nosso coração, que o aconchega em todos os seus recantos. Mas não te esqueças que “ninguém é responsável pela tua felicidade, somente tu”.
Deixa de colocar metas para a felicidade, quando crescer, quando sair da faculdade, quando tiver um bom emprego, quando casar, quando tiver um filho, ou dois, se primeiro não trouxer a felicidade prespectivada. Quando ficar mais bonita depois de um tratamento estético, talvez quando os filhos crescerem e saírem de casa, talvez nas férias, na próxima estação, no fim-de-semana, ou quem sabe num outro dia qualquer… amanhã? Hesitas em pedir, em esperar. E porque não hoje? Sim hoje, quem nos garante que a felicidade está no amanhã? Pode estar no agora, no momento em que decides que já viveste muitas destas metas e a felicidade não se cumpriu em nenhuma delas. Talvez descubras finalmente que não foi a felicidade que fugiu de ti, mas tu que a adiaste continuamente. Quando ficaste à espera que ela viesse ter contigo sem que fosses ter com ela. Talvez não soubesses que para isso bastava que lhe oferecesses um sorriso, ou aquela palavra que ficaste à espera de ouvir sem tomares a iniciativa de a dizer. Já te estou a ver pegar o telemóvel para enviar essa palavra, como se lesses neste texto quem sabe a mensagem impulsionadora para dar esse passo. Mais uma vez estás a colocar a tua felicidade noutra meta. Na leitura que precisas de fazer e não do que aqui está escrito. Mais uma vez vais insistir em viajar nesse navio fantasma que trazes do passado com desejo que ele tenha um futuro feliz. Não, não é isso que a felicidade te diz. Ela está à tua espera, neste momento para que a recebas, para que caminhes na sua direção. Ela está em cada passo que dás, em cada gesto que fazes consciente de que é para ela que te diriges e não para sonhos que terminam com o despertar. A felicidade não está além, mas em ti. Só tu a podes viver, sentir e oferecer. Agora sim, podes enviar uma sms, um telefonema ou um email, dizendo que estás feliz e que queres partilhar com alguém essa felicidade.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Quantos rios perdi


Quantos rios perdi,
Sem os levar para o mar.
Quantos momentos não vivi
E que se dissiparam no ar.

Quando o mar ali tão perto,
e os rios tão serenos…
O coração ficou-me deserto
De amores outrora plenos.

Quantos rios perdi
Quantos lagos secaram.
Quantas fontes não ouvi
De bem querer me falaram.

Hoje olho toda a secura
Nem um oásis antevejo.
Quando tive toda a frescura
Na ternura de um beijo. 


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Post.it: Momento outonal


O outono já se avizinha e uma nostalgia invade-nos, não desse verão que está de partida, não dessa primavera que já se despiu das flores, mas de tudo o que planeamos e não concretizámos. Por todas as esperanças que caem das árvores do nosso ser, transformando-se em folhas secas. Contamos cada uma delas, são tantas que aos poucos nos abandonam.
E um silêncio cresce-nos no peito, esse indecifrável momento em que o sol escurece e não é a noite a chegar, mas a neblina outonal de uma saudade secreta que nos dói profunda na alma.
Desse sonho que passou de estação em estação carregado no corpo que já não o consegue levar mais longe. Quem sabe no inverno, grita o sonho numa súplica desesperada, mas a alma já lança um olhar de despedida, a esse sonho que se tornou uma nuvem pesada de lágrimas.
Essa chuva que tenta cair, mas os olhos fechados impedem-lhe a passagem, um pouco de autoestima, sussurra-lhe conselheira uma voz amiga, talvez a da última brisa de verão, ou da última rosa que lhe tenta eternizar a primavera em algum lugar recôndito do seu ser.
Entretanto o outono está à porta, vai  batendo de mansinho sem nos querer magoar. Que fazer? Pergunta o coração ao pensamento, seguir em frente responde-lhe este, incapaz de lhe roubar o derradeiro alento, e acrescenta, talvez na próxima primavera uma andorinha te devolva o sonho de “voar”.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Post.it: O velho e a pétala


Outro dia estava a passear no jardim da Estrela, ao longe ouvi um burburinho, aproximei-me, um grupo de idosos jogava às cartas, ali perto num banco sentado, um idoso fazia questão de manter o recato da sua solidão, olhava para a sua mão como se nela estivesse algo de muito importante, no entanto nela repousava apenas uma pétala de flor. Imaginei-lhe o diálogo que não consegui escutar, entre o velho e aquela pétala.
A última que restou de uma qualquer primavera que não chegou ao inverno, segura-a na sua mão, olha-a e diz-lhe num afago de voz, “também já eu fui flor, belo, vistoso, atrás de mim seguia um rasto de suspiros que deixava pelo ar, orgulhoso, vaidoso até enquanto os deixava cair estéreis no chão. A pétala, repousando na sua mão, parecia atenta, aconchegada naquele contar de memórias. “Sabes, pétala, também o sol já me brilhou na vida, também o luar já me embalou a esperança.  Também eu, pétala de flor, também eu já fui criança, tal como tu já foste botão por desabrochar. Hoje olho-me no espelho, mal me reconheço do que fui, como se o vento me tivesse feito com os entalhes dolorosos do caminho”. Depois, acaricia a pétala com a delicadeza que as suas mãos um pouco desajeitadas lhe permitem. “Também de ti, o vento levou quase tudo, nem sei que flor já foste, imagino-te rosa, que um coração enamorado ofereceu para homenagear o seu amor, adivinho-te malmequer que a espectativa de felicidade fez ansiosamente desfolhar”.
Suspira devagar como se o ar lhe pesasse e nesse suspiro deixa um último desabafo.
“Agora vivo um dia de cada vez, assim “a vida, jamais se cansa”. Porque, flor, sabes bem, como demora até que uma nova primavera nos volte a encontrar, e as pétalas de amor a renascer-nos dentro do peito”. Por fim sorri, um sorriso de despedida.
“Flor, boa amiga, claro que te continuo a chamar flor, mesmo quando te vejo apenas pétala, porque um amigo verdadeiro consegue ver dentro de nós, tal como tu me vês, homem sem idade e não apenas um velho”.
Hesita antes de partir, que destino dar à pétala murcha? Incapaz de se separar dela, guarda-a no bolso do casaco e segue sozinho ou talvez não…

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O meu olhar no teu


Há tanto de mar no teu olhar.
Quanto de deserto há no meu.
Se eu pudesse no teu navegar.
Se tu quisesses perder-te no meu.

Se houvesse um caminho traçado,
Pela mais perfeita constelação.
O encontro há tanto esperado,
No universo onde vive a paixão.

Há tanto de céu no teu olhar,
Quanto de escuridão há no meu.
Que vejo estrelas a cintilar,
Nesse olhar e no sorriso teu.

Há tanto de felicidade no teu olhar,
Quanto de saudade há no meu.
Que desejaria no teu ficar,
Só para nele encontrar o meu.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Era uma vez... e o sol brilhou

Escondida, no segredo da terra, em silêncio, na quietude do sonho ainda incerto de nascer, foi sobressaltada por uma vontade compulsiva de por fim àquela espera quieta e silenciosa. Sentiu a vontade crescer em si e fazê-la grande. A terra também a sentiu e estremeceu! A vontade e o tremor juntaram-se e ela foi abalada, abanada e empurrada no escuro. Quis agarrar-se, recuperar o conforto do segredo quieto e silencioso. Mas a vontade fez-se maior que ela e o estremecer da terra abafou o seu grito. Deixou-se ir, receosa, temendo o fim, mas curiosa, talvez por adivinhar que seria o início de tudo.
E saiu, para o dia quente de final de verão.
A terra encheu-se de espanto ao vê-la. Não queria acreditar no que os olhos viam. Ouvira outros planetas falarem daquelas sementes, mas não acreditava que existissem.
Ela espantou-se com a quentura do ar, o dourado do chão e o vulto das árvores. Abriu mais os olhos e a luz que crescera no silêncio e na quietude da terra espreitou, piscou, saiu, correu a tocar o ar, o chão, as árvores…
A terra, ainda espantada, começava a acreditar que sem o saber tinha guardado em si, bem escondida, uma semente de luz que nascera para brilhar.
As flores ergueram as cabecinhas, os pássaros e os insetos acordaram e encheram a planície com os seus cantares e a água do ribeiro, de contentamento, saltou de pedra em pedra.
A Terra espantou-se de novo e estremeceu de alegria e esperança, ao ver como o sorriso dela iluminava e dava cor e brilho ao verde das árvores, ao dourado do trigo, ao azul da água, aos matizes das asas de pássaros e insetos e até à pele dos répteis….
Ela olhou a terra, intensamente. E a terra compreendeu que a sementinha de luz seria para sempre a sua vida.
Ela acenou à terra e com um piscar de olhos voou em direção ao alto. O céu abriu-se em azul e as nuvens afastaram-se à sua passagem num aceno carinhoso.
E lá no alto, no cimo de tudo, o sol brilhou!

PS: Há pessoas que nascem com a missão de iluminar a vida dos outros, como um raio de luz. Assim é "Olhares" a quem dedico este pequeno Era uma vez, como presente de aniversário. Parabéns!

Post.it: As nossas metas



Todos vivemos de metas que se vão estendendo para além do estabelecido, a dieta adiada, a arrumação que fica suspensa até um dia sempre diferente no calendário. A decisão retardada até que o inevitável aconteça, talvez alguém a tome por nós. O grande projeto de vida protelado à espera de um incentivo. Aquela compra atrasada com receio dos contornos da crise. A venda delongada porque nem a crise justifica tudo o que se perde. A vida pendurada no balanço de cada momento, diferida para um instante mais propício, prorrogada para que escoe livremente sem que tenhamos de a conduzir, de cavar sulcos, por onde siga no rumo certo. Porque concluímos um dia que não sabemos se o que julgamos certo neste momento não se revelará o mais incerto  no outro.
Mas quando foi que a coisa se começou a complicar?
Talvez, logo no dia em que nascemos. Bem podia ter nascido sob outro signo do zodíaco, quem sabe com outras características mais favoráveis. Ou num berço de ouro, protegida por fadas madrinhas sempre dispostas a agitar a sua varinha de condão para me cobrirem de mimos.
Ou quem sabe, noutro meio ambiente, nas profundezas marinhas, ou no reino animal. E hoje seria uma ninfa lusíada, ou uma leoa espraiada na minha corte de sol africano.
Em vez disso, sou o que sou, herdeira dos meus genes, filha desta terra, desta cultura, deste pessimismo lusitano.
De vez em quando, tento contrariar esta charneca em flor que me invade o peito e, mergulho o olhar na orla marítima para deixar o coração voar, atravessar as pontes e rir dos seus limites, porque as minhas asas não os conhecem e unem todas as margens com laços de amor infinito. Então orgulho-me das minhas células que ainda trazem ventos duma Ínclita geração de navegadores, entro na caravela, estendo as velas  ao vento e grito do cesto da gávea, “estou aqui!”, vestida de coragem, com sonhos que me fazem despertar e adormecer em cada dia, acreditando que conseguirei cumprir a minha meta.
Sem a adiar para outro dia, sem a suspender para uma altura mais oportuna, sem a retardar mais um minuto. Porque o tempo não para e cada segundo conta no relógio da vida.
Essa vida  que nos deram à chegada, para que lhe acrescentássemos um pouco de nós.  Talvez eu não tenha escolhido a vida que tenho, mas a vida que tenho escolheu-me para a representar, para levar mais longe o seu legado de futuro. Todos os anos, celebro-a para me lembrar de tudo o que fiz por ela e de tudo o ela fez por mim, afinal, quer queiramos ou não, estaremos juntas até à meta.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Post.it: Da mão à escrita


Nunca espero pelas palavras, elas chegam sempre com pressa, atropelando-se umas às outras, gritando uma superioridade perante as que se colocam à sua frente. Como se fosse vantagem chegar primeiro, resmungam, a valorização devia vir do conteúdo e não da forma, argumentam.
Mas acabam por se colocar ordeiramente num comboio de frases que se vão estendendo pelas linhas, muitas ou poucas, depende das mãos que as escreve. Quando a dada altura param, não sei se por cansaço ou por ordem da inspiração. Param, simplesmente, desço o olhar para essas mãos que permanecem emudecidas, questiono-as, mas elas já não se movem, como se tivessem cumprido a sua frenética missão, a de escrever, deitar cá para fora algo que estava num misterioso interior. Não sei onde, se no cérebro, na alma, no coração ou se num diálogo desconcertante de células. A verdade é que, de repente, no branco do papel surge uma mancha de texto, coerente ou incoerente no seu assunto, que é apreciado ou abandonado num virar de página, ou, neste caso, deletando das suas vidas, dos seus pensamentos, com um simples clic de mouse ou com um ligeiro toque no ecrã táctil. Talvez com a mesma rapidez com que o escrevi, no entanto, escrever não é só este “parir”. Parir, sim parir, já estou a sentir uma suspensão na respiração de quem me lê, pela crueza quase animal desta expressão, mas gosto de a pronunciar, de sentir esta ligação à natureza no que ela tem de mais puro e essencial. Fico mais maternal e protetora desta,  “filha” banal, gramaticamente incorreta, esteticamente desacertada, literalmente barroca, mas estruturalmente livre, linearmente sonhadora, semanticamente sentimental, foneticamente gritante de amor, de amores, de lágrimas que afloram em olhares que se deixam espreitar nas janelas entreabertas. Por elas pego na caneta, por elas, deslizo nas teclas e desenho contornos de vidas, esboços de rostos, aqui e ali acrescento-lhes traços de esperança e projeto-lhes caminhos de felicidade. Com estas mãos que no seu silêncio são a voz de palavras apressadas, que se alinham à espera de um momento, aquele em que por magia cibernética são encontradas e recebem por um instante o sortilégio da vossa companhia.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Post.it: O Afonso vai para a escola


  Despedida do infantário
 
Convosco aprendi a crescer,
E sei que não me vão esquecer,
Afinal, fui o Rei da traquinice,
E um furacão de meninice.
Mas nem tudo foi confusão,
Espero que lembrem o coração,
Que também foi terno e feliz
E de tudo o mais alegre aprendiz.
Perdoem-me se não fui melhor,
Perdoem o meu entusiasmo e furor.
Entendam e acreditem, por favor
Que à minha maneira, foi amor.

                 * * *

O Afonso vai para a escola, o país para, (ou pelo menos aquele pedacinho do país), fica em suspenso, como vai ser o seu primeiro dia de aulas? Será que vai conseguir ficar um bocadinho sentado, atento? Será que vai dominar o seu olhar saltitante que quer ansiosamente ver tudo o que a vista alcança e sobretudo o que está para lá dessa linha de horizonte? Como adiar, conter, tanta vontade de viver, de correr, de estar aqui e ali, em todo o lado, como se o mundo lhe fosse demasiado pequeno e o dia excessivamente curto para todas as viagens imaginárias que deseja fazer.
O Afonso vai para a escola, repetem os avós com orgulho, os tios com inquietação, os amigos com curiosidade e os pais, ai os pais, com redobrada ansiedade. Quando a porta da sala de aula se fecha, há uma dor de parto longínqua doendo no peito. “Será que podemos espreitar na janela?” Pergunta a mãe em pensamento, envergonhada do seu sentimento de separação, não por receio do que possa acontecer ao seu menino, mas com medo que ele deixe ali, na porosidade daquelas brancas paredes, esquecida, por encanto, a terna rebeldia da sua infância.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O hoje


Nem só o amor dói,
Também dói,
Este existir.

Que vai para tantos lados,
E nos deixa cansados,
Sem saber para onde ir.

Esta espécie de onda,
Que sem ter onde esconda,
Este navegar sem tino.

Apenas deseja um areal,
Quente de sol e de sal,
Para aportar o destino.

E no sopro do vento,
Outrora de encantamento,
Cede-se ao embalo do mar.

Que leva para longe, tão longe,
Cada dia que foi hoje,
Para em ontem o transformar.


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Post.it: Sou o dia que anoitece


Aconchego-me num leito de colinas. O céu escurece para me acalentar o sono.
O sol já se cobriu com o seu manto de sombra. E as horas, num compasso dolente, repetem baixinho, “Está tudo bem, a Terra pode agora descansar.
A penumbra estende-se suave como um rio de silêncio. A primeira estrela espreita no horizonte, olha, estremece e, chama pelas outras que vão salpicando de luz o prenúncio do entardecer.
A lua timidamente, pergunta se pode entrar, não vem sozinha, traz a noite pela mão. Uma noite que ainda se agita desperta e corre por entre a copa das  árvores, escorrega pela montanha e só serena quando um cometa lhe sopra com voz de gente crescida, uma ordem de quietude. Então, emudece o vento, silencia-se o tempo, porque algures no infinito, suspensa na galáxia, a Terra, adormece, no cansaço de ser para todos nós, eterna caminhada.
O meu coração divide-se entre o mar e o céu. O mesmo azul, o mesmo mistério de profundidade, o mesmo infinito. E se o mar me murmura um convite para ficar, o céu, sopra-me um desejo para voar.
Abro as asas sobrevoou-te, salpica-me a tua frescura, mas o céu, ah o céu, eleva-me às estrelas em pleno dia na descoberta do que existe mais além. Então, deixo-me conquistar por cada enamoramento, do céu, do mar, do vento. Preciso da liberdade e do sonhar. Preciso do encontro, da revelação, do infinito e do chão.
Preciso desse sol que me amanhece e do luar que me anoitece.


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Post.it: O tempo não volta


Outro dia estava a fazer zapping no comando da televisão, quando me deparei com um programa que fomentava o reencontro de pessoas que no seu passado tinham namorado e por razões diversas, tinham seguido rumos diferentes. Parei um pouco nesse canal televisivo, assisti aos reencontros com alguma curiosidade. A sensação que o programa queria passar era a de que a felicidade perdida pode ser recuperada, independentemente dos anos que tenham passado. Mas o efeito não foi o desejado. Nesses reencontros, eram visíveis alguns constrangimentos, e muitas decepções no olhar. Constava-se que os jovens de há 40 anos, já nada tinham daquela lembrança que os levara guardar no baú das memórias. O tempo deixara vincado no corpo os caminhos palmilhados. O tempo deixara na alma a amargura das suas múltiplas vivências. Algures pelo longo trajecto da vida tinham perdido, a inocência do sorriso, a ternura dos sonhos e a beleza, não a física mas aquela que só um coração apaixonado vê. Enquanto que a lembrança de cada momento, permanecera ingenuamente emoldurada de esperança. Talvez o tempo nos ensine o que nos recusamos aprender agarrados a uma memória que tentamos insistentemente guardar.
O tempo não volta para trás, porque esse retorno significa, na maior parte dos casos o perder da ilusão com que compomos as lembranças. A perfeição com que vamos retocando aqui e ali esse passado alicerçado de saudades. Aquele programa de Volta ao passado, encheu-me de tristeza por todos aqueles que desejando recuperar o amor perdido, perderam-no duplamente, do seu passado e para o seu futuro. Este reencontro roubou-lhes definitivamente uma parte das suas vidas e deixou-os vazios destas recordações.
É bem verdade que o “tempo une e separa as pessoas” (...) e que “nenhuma força é tão grande para fazer esquecer pessoas, que por algum motivo um dia nos fizeram felizes”. Mas também é verdade que “as águas que passam não voltarão a passar”.
Tiremos de tudo isto uma lição, em vez de irmos atrás do tempo já passado, devíamos ir atrás do tempo futuro.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Post.it: Lar, nosso lar


Onde moram as casas? Aquelas que nos abrem as portas para entrarmos e ficarmos até um dia, sem que esse dia chegue nunca. Mesmo que as janelas nos desafiem a outros voos, que nos criem ilusões de uma nova e bela paisagem, ficamos.
Afinal, não é todos os dias que encontramos uma casa que albergue generosamente as nossas manias, que aceite os nossos caprichos, que encha de sol todas as nossas manhãs e que nos aconchegue no seu conforto todas as noites. É certo que aqui e ali, vai manifestando o passar dos anos, uma parede que estala, um soalho que range, nada que um pouco de atenção e reconhecimento não cure, nada que um pouco de carinho não solucione.
Para quê mudar de casa, só porque esta já não tem a mesma aparência e o encanto das coisas novas que nos atraem com falsas promessas de conforto e felicidade?
Esta velha casa, já conhece todos os nossos segredos, as paredes têm nos seus poros esconderijos das nossas tristezas e das nossas alegrias, o chão nunca se queixa de ser mil vezes palmilhado pelas nossas noites de insónia. O teto que nos abriga condensa o calor da nossa história vivida a dois, as vigas continuam a ser firmes pilares, mesmo quando as nossas dúvidas nos fazem vacilar, quando a inquietude da nossa alma nos faz espreitar outras casas. Descobrimos sempre nelas a falta do seu calor, da sua cumplicidade, do nosso companheirismo, e regressamos, regressamos sempre para ela.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Atlântico


De todos os amores do mundo,
Aquele que encontrei mais profundo.
Este mar, amante grandioso e terno,
Perante o amor tornou-se pequeno.
 Minha esperança tomou como sua,
Este mar que me deixou a alma nua.
Numa ligação tão perfeita e feliz,
Que só sol mais radiante a diz.
Fui sua noiva de espuma vestida.
Fui sua esposa de amor rendida.
O vento entoou a marcha nupcial,
E serenou-me no peito o vendaval,
A lua foi minha dama de honor.
Quando me deu a sua luz em flor.
A areia foi meu leito de plena união
Onde lhe dei virgem o meu coração.
E o mar recebeu-me, suave,
Ondulante como um voo de ave.
A felicidade é o nosso lar
Entre o céu, a terra e o sonhar…


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Post.it: Um rosto lê-se

O rosto, essa  tela  de vida  que  surge  despida  perante  nós, não existe apenas para ser pintado mas para ser lido como um livro aberto que nem é preciso folhear, as noites e os dias encarregam-se disso.
Lemo-lo nos silêncios, nas linhas retas e curvas, nas mais ténues e nas mais profundas. Nas frases que saem do olhar. Nas palavras sussurradas que esvoaçam no respirar, como um vento, como um lamento.
Não, não o coloques entre as mãos, não lhes escondas a beleza mais profunda, não te envergonhes de cada ruga, exibe-a para que a possamos tomar como exemplo como lição de coragem. Não feches os olhos, porque precisamos de encontrar neles o nosso caminho, aquele que sabemos que podemos seguir porque tu já o aplanaste para nós. Não voltes o rosto para o horizonte como se fosses voar para bem longe, como se o mar te chamasse para uma derradeira viagem, regressa… Olha-nos de frente, deixa-nos ler na sombra do teu rosto, a possibilidade de uma luz que há de voltar a brilhar.
Um rosto lê-se e, leio no teu, generosidade. Leio-a na gentileza dos traços e descubro quem és, mesmo não sabendo o teu nome, de onde vens, para onde vais. Sei apenas o que o teu rosto me diz, quando me deixas ler nele, o teu coração.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Post.it: Vou tirar férias de mim


Eis um conselho que estou disposta a seguir, porque, sobre os outros não sei, mas reconheço que pode ser “cansativo ter de conviver comigo mesma 24 horas por dia, sem folga nem descanso”,  com todas as minhas “manias, achaques e manhas”. Não há como fugir, penso por vezes. Se fosse um marido, pedia-lhe o divórcio; se fosse um amigo, cortava os laços; se fosse um vizinho, fechava-lhe a porta; se fosse um conhecimento virtual fazia um rápido delete e desligava de imediato o computador. Mas e comigo o que vou fazer? “Não há esperança de escapar (…) da previsibilidade enfadonha”.
Quando li a sugestão, pensei, e porque não? Mas como todas as férias é, necessário planear o que fazer e nem sei por onde começar.
A sugestão do artigo dava algumas dicas: Aprender por modelagem. Observar, absorver, ensaiar, aprender. Tudo isto me pareceu uma brincadeira do faz-de-conta. Por uns momentos viajei para o passado, quando fazia de conta que era cantora e improvisava um palco com a plateia repleta de primos, não me saia nada mal... Mas acho que não tenho futuro nessa área. Depois lembrei-me que tinha sonhado noutra altura que era acrobata de circo, mas a carreira durou pouco porque caí e parti um braço.
Lembrei-me então do tempo em que tentava imitar os adultos, não aqueles chatos, enfadonhos, mas os outros, aqueles que tinham sempre um ar de felicidade estampada no rosto e pensava num raciocínio ainda mal organizado, “quando for grande também quero ser assim, também quero ser feliz”. É isso! Isso que quero fazer nestas férias longe de mim, calar os queixumes, desligar-me das maleitas e fingir, fingir que sou feliz….

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Post.it: Dom cidadão


Não tinha dom no nome mas na alma, sempre correto, cavalheiro, delicado no olhar, terno na voz. Nunca lhe ouvi um impropério mais agreste, nunca lhe conheci um tom mais azedo, nem um decibel mais alto do que o habitual. Sorria-lhe constantemente o rosto de faces alvas, como se o sol não o bafejasse com o seu doirado. Trajava com recato, “já não tinha idade para exuberâncias”, caminhava discreto como se não quisesse ser interpelado, e no entanto quando o cumprimentavam retribuía com um gesto de elevada gentileza e quase deferência. Dizem que vem de finas linhagens, que nasceu em berço de oiro, mas contínua discreto, sem fazer alarde de riquezas ou queixumes de pobreza.
Quando se cruza com uma briga, afasta-se com o sorriso condescendente, “que linguagem, que palavreado”, murmura a meio tom de voz. Provocam-no, espicaçam-lhe a sensibilidade, mas continua a sorrir, não porque não saiba responder, mas por não encontrar sentido na resposta.
Para quê atirar farpas de oralidade, ondas encadeadas de termos vãos, pedras de substantivos desadequados, com o intuito de magoar, ou com desejo de ferir, “não sabem eles que a fúria é como o álcool, aquece no momento mas depois deixa-nos uma enorme ressaca no peito? Com a desvantagem que a ressaca advinda do  álcool passa em poucas horas, no entanto, as ofensas podem ficar como uma sombra magoando-nos por toda a vida”.
Não tinha dom no nome, nem precisava, porque possuía nobreza no carácter, aristocracia no civismo, fidalguia de cidadão e  dignidade humana.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Post.it: Superstição ou talvez não


Supersticiosa? Eu? Cruzes canhoto! Longe de mim tal ideia, dizemos como quem enxota os ventos do mau agoiro.
Mas quem é que admite que vacila com receio que a  ténue  linha de fonteira que separa  a sorte do azar , quem admite que apesar da sua fé, não bate na madeira, e se deixa cair facilmente na crença ou descrença?
 Porque como se costuma dizer “Não acredito em bruxas, mas que las ai, ai” E isto não é só para os nossos vizinhos, de onde dizem,” não vem bom vento nem bom casamento”. Seja como for é melhor não brincar com a sorte para não atrair o azar., palavra que uma amiga minha eliminou definitivamente do seu dicionário, substituindo-a por má sorte. Não vá atrair ventos contraproducentes.
Os mais cépticos, riem de tudo isto e dizem que são meras superstições, convicções, crendices, energias negativas, etc.
Seja o que for, cada um tem o direito de acreditar no que lhe aprouver. Porque isso faz parte da sua herança cultural, de histórias que lhes contaram em criança. Desconhecendo que a verdadeira intenção de muitas destas histórias seria certamente refrear-lhes as traquinices. Histórias que adquiriram raízes na memória, e sem perceberem,  começaram a deixar em cada um de nós, recantos sombrios no espirito. Cantos, onde por vezes, é difícil entrar o sol racional. E lá vamos abrindo as revistas em busca da secção dos horóscopos, das cartas do tarot, consultando as linhas da mão, questionando o oráculo…
 Supersticiosa? Eu? Bom, não sei, porque no fundo, bem lá no fundo, acredito que “há muito mais entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia alcança”.  E que ” O coração tem razões que a razão desconhece”, mesmo que o “pai dele me dê azar”.
 O melhor é abrir as janelas da alma, arejar os pensamentos e deixar que toda a negatividade siga para bem longe num sopro vento.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Post.it: O tempo e esquecimento


“Nunca te questionas sobre os encontros e desencontros da vida, nas suas causa e consequências? Porque todos eles são importantes, são eles que nos levam mais adiante, que nos ensinam a crescer dentro de nós. É por isso que me questiono, para que nenhum encontro seja esquecido e nenhum desencontro se transforme num muro mas antes num caminho…”
Talvez nunca te tivesse encontrado se não te tivesse procurado, se não me tivesses buscado, não importa em que momento, em que lugar entre o sol e a lua.
Mas foi bom, reconheço que na verdade foi bom, como o são todos os encontros que nos fazem renascer, voar na expectativa, flutuar em nuvens de esperança.
Mas se não te tivesse procurado e encontrado, também não te teria desencontrado, não teria partido desse cais temporário onde por um momento atraquei o navio da minha vida, por um instante que me soube a pouco porque sempre desejamos muito, muito mais.
Mas porque as asas do destino já se estendiam ao vento, obedeceu-lhe o coração, seguindo em frente com o olhar preso na direção oposta, num local que nos fica cada vez mais longe.
Qualquer dia, sussurra-nos uma voz no pensamento, na tentativa frustrada de calar a voz do sentir que ainda nos avassala as emoções, qualquer dia, repete, esquecerás… Daqui a muitos meses, anos, quem sabe daqui a um século, já riremos de tudo isto sem chorar por dentro. E a dor ter-se-á transformado numa flor que vai perdendo os espinhos.
Apaziguada, sei que, quando te esquecer, terei aprendido a “amar-te com a ternura que só o tempo é capaz”….

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Post.it: Daqui a 5 mil milhões de anos


Uma estrela devorou um planeta”, mas continuava a notícia do matutino, “tal fenómeno vinha confirmar a teoria dos astrónomos de que o planeta terra poderia vir a conhecer idêntico destino daqui a cerca de 5 mil milhões de anos”, isto se a nossa pesada pegada humana não antecipar este desfecho.
Confesso que fiquei deveras preocupada com esta possibilidade, porque segundo as minhas contas posso estar por essa altura numa das minhas (reencarnações). Que me desculpem os fervorosos crentes destas teorias mas não devemos levar demasiado a sério estas questões, correndo o risco de nos prendermos excessivamente a elas e não exercermos o nosso livre arbítrio. Mas voltando ao fio da meada, dizia eu, que poderia estar nessa altura numa das minhas passagens por cá e, fazendo jus a filosofias ancestrais, talvez esteja a seguir o ciclo de purificação e aperfeiçoamento. Como costumávamos brincar nas aulas de Filosofia do 10º que os apresentava através de uma lógica em que colocava o reino vegetal na base, sendo, por conseguinte, o mais insignificante, ascendendo depois para o reino animal. Perante isto reconheço que passarei de rabanete, vegetal que o meu paladar rejeita, evoluindo, quem sabe, talvez para pulga, gato, cão, etc., passando depois para mulher e se tiver sorte (ainda segundo os antigos filósofos) ascenderei a homem. Mas como sou uma pessoa de fortes convicções, acredito que entretanto, depois de tanta tentativa e erro, teremos encontrado a solução, para não sermos devorados por uma estrela, mas para nos transformarmos numa, não tão quente reluzente como o sol, mas com similar beleza. Que irá finalmente iluminar o rumo da humanidade em plena harmonia com a natureza e todos os outros seres que nela habitam. Só espero não termos que aguardar 5 mil milhões de anos…

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Post.it: Fingimento


“Talvez diga que não, talvez finja que já não me importo. Tens razão, finjo mal. Embora tente, insista, ainda não cheguei à perfeição. Tu sabes bem porquê, afinal, também finges. Finges que ficas, quando já partes. Finges que entras quando já cá não estás. Na realidade, fingimos todos, em algum momento da nossa vida, aquele em que garantimos que já esquecemos, que juramos a ‘pés-juntos’ que já não dói. Mas dói. Dói sempre esta dissonância do tempo individual, quando para nós ainda é cedo e para os outros, talvez, já seja tarde demais.
Digo que não sinto, não penses que minto, apenas, finjo. Quem sabe um dia destes esse sentir depois de se esconder durante tanto tempo nas profundezas do meu ser, esqueça-se definitivamente do acontecimento que o causou, esqueça-se definitivamente de ti.
Porque aos pouco vamo-nos habituando a acumular ausências, a esquecer lembranças, derrotas que assimilamos até já não sentirmos a sua amargura a sombrear-nos os dias e a assombrar-nos as noites.”
Até lá, não vamos mentir, vamos simplesmente continuar a fingir, a fingir mal dizem uns, a fingir bem, porque os outros nem notam.
 Até lá continuaremos a dizer que é um sorriso e não uma lágrima, aquela gota cristalina que nos espreita sorrateira por detrás de uns óculos escuros que nos esconde o olhar. Esse olhar que vai fingindo, uns dias bem, outros dias mal…


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Post.it: Todos os lugares


Já fui a tantos lugares. Novos, velhos, diferentes, iguais. Procurei em todos eles um caminho, uma certeza. Procurei em todos eles a essência do que sou, mas não me encontrei. Percorri-os com coragem, percorri-os com expectativas. Parti cheia de esperança, cheguei carregada de desalento. Olhei cada lugar com olhos de promessa,
Quis que fossem o meu destino, que me construíssem, que me fizessem renascer. Desenhei neles a sombra dos meus passos, mas, ao despedir-me desses lugares, verifiquei que não ficava neles nada mais do que uma pegada de lembrança.
Já estive em muitos lugares e depois de lá ter estado percebi que o único elemento de semelhança em cada um deles, era o meu eu, perdido, algures nessa imensidão de espaços. Eu, que me levei inteira, de sonhos, de memórias, de boas e más histórias.
Estive em muitos lugares, tantos que a certa altura todos eles me pareciam iguais. Fui  percebendo então que,  não eram eles que eram iguais, nem sequer semelhantes, eu  é que ao chegar a cada um deles,  permanecia tal como era,  imutável no espaço e no tempo.
Por fim parei, já não quero ir a outros lugares, porque vá para onde for, continuarei aqui, dentro do meu existir a correr, em busca de uma saída, de uma forma de ser feliz. E como essa felicidade não está em lugar algum, decidi construi-la no peito, esse lugar que depois de ter viajado por tantos outros me fez entender que o único que me realiza, que me concebe há tantos anos permanece afinal em mim…

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Post.it: O colecionador de desertos


Nunca estive no deserto, nem sequer naqueles dias desertos de acontecimentos porque surge, sempre algum oásis que me afasta dessa sensação e vem dar-me alguma frescura e sombra ao passar das horas.
Mas a impressão que tenho quando penso num deserto é de vazio. Esse vazio que encontro em alguns olhares, aqueles que me olham sem me ver, que se fixam nos meus olhos sem os refletirem, há neles uma imensa escuridão que nenhum sol consegue iluminar.
Bem sei que de vez em quando todos atravessamos desertos interiores. Travessias que nos são dolorosas, que tornam penosos os passos, cansados de um caminho sempre igual e sem o vislumbramento da meta. Cresce-nos dentro do peito  uma sede que nem a mais cristalina água consegue saciar, porque é sede de sensações, de serenidade, de harmonia, de amor…
Mas aquele rosto distingue-se dos outros, pelo deserto da expressão, pela secura da voz, pelos passos perdidos, pelas mãos vazias, pela aridez do coração, prende a minha atenção, e no silêncio que me oferece ouço claramente a voz da sua alma cansada de desertos que me revela histórias de uma longa jornada,  “já atravessei desertos, muitos desertos, desertos de amor, da falta de alguém, da falta de saúde, de dinheiro, de alento, de abraços, a cada passo ambiciono que seja o último, mas há sempre outro a seguir, como houvesse uma força que me empurra a seguir em frente em busca do final deste meu deserto”.
Nenhum deserto nos derrota, quando vivemos na antecipação de um milagre, essa chuva ocasional que nos lava o pó da caminhada e nos inunda de esperança. Uma esperança que não nos chega a formar um oásis no peito mas que o deixa enunciado num sopro do olhar, afinal, sabemos que  nem os desertos são infinitos e, não devemos permitir que a vida nos escoe por entre os dedos.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Post.it: Somos mar


Todos nós somos mar. Com tempestades de caos que nesse breve instante nos faz sentir a duração de uma eternidade, com marés que chegam sem prévio aviso e transbordam a dolência das manhãs ou alagam a ternura das tardes. Com ondas que podem ser um embalo de acalmia ou subirem vigorosas no desejo de tocar o infinito do céu.
Todos nós somos mar na viagem incessante dos dias e nele remamos para contrariar o destino que nos leva para onde não queremos ir.
Todos nós somos mar, na procura incessante de um cais para atracar a dor e aí encontrar a paz, a certeza de que esse é o nosso lugar, ou em busca de uma enseada onde ancorar a vida por um tempo que não obedece ao mecanismo do relógio, nem à luz solar ou à sucessão das estações mas ao querer desse mar que habita castelos de areia.
Todos nós somos mar, quando ele nos corre na alma e inunda de água salada o nosso longínquo olhar. Quando nos desliza nas veias sentindo o contorno das margens que podiam ser um abraço mas que se tornam uma asa de vento que nos entra e sai levianamente do coração.
“Quando visitamos o mar reencontramos nele o reflexo do que nós próprios somos”.


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Post.it: O despertar da preguiça


Quando o dia amanhece e nada nele promete uma nova luz. Ergo os olhos, porque o corpo demora a obedecer às ordens do relógio que não para de tinir sobre a mesa-de-cabeceira. Bem tento repetir essa ordem ao corpo, mas é fraca a voz de comando, apenas um sussurro no pensamento que não chega a incomodar o mais preguiçoso neurónio. Esse neurónio que pede incessantemente, um perpétuo adiamento, com a mesma desculpa de sempre, só hoje, amanhã, prometo, vou levantar-me na hora certa. Amanhã vou encarar a madrugada, atravessar nesse mar de gente, arregaçar as mangas e pegar nas pilhas de documentos para ler e arquivar. Afinal, são só papeis, nada de urgente, não vou salvar vidas, não vou conquistar o mundo nem lutar pela ecologia devido a algum derramamento de petróleo no mar.
Hoje não estou preguiçosa diz-me a inconsciente consciência, não penses isso de mim, estou apenas doente, dói-me a alma, enquanto que o anda coração descompassado e as células dormentes…
Alheia à minha suplica uma centelha de luz invade-me o quarto, como se o sol, qual pai tirano, me obrigasse a encarar o que teimo não querer ver.
Até o vento me bate na janela com uma pressa avassaladora, enquanto que  o despertador na estação de começa a transmitir uma música frenética num convite quase irrecusável para entrar no ritmo. Um pé começa a agitar-se, depois outro, sobe pela coluna, estende-se até aos braços, desenha-se sorridente no rosto, esvoaça nos cabelos “I feel good”, lá vou repetindo o refrão I feel good that i woud now, so good, so good
Não me sinto lá muito “good”, geme o espirito num queixume que já não ouço, já sei que se sente doente, que lhe apenas doente, dói-me a alma, que o anda coração descompassado e as células dormentes…
Mas que importa tudo isso se a manhã já espreita, como uma menina alegre, desejosa de fazer travessuras. Por fim salto da cama e sinto a vitória de  mais um dia conquistado à noite.
Quanto a amanhã, amanhã veremos, se a preguiça não me vem novamente visitar…

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Post.it: O livro que escolhi


Se tivesse que escolher um livro, seria difícil de eleger qual. Seria mesmo impossível selecionar apenas um, quando muitos já me acompanharam ao longo da vida, na pasta da escola, na lancheira do almoço, na viagem do autocarro, debaixo do braço, na relva de uma tarde, na duna de uma manhã, em todas as primaveras que floriam nas frases lidas, em todos os invernos cujos ventos ansiosos viravam rápidos as folhas na antevisão do final. Se tivesse que escolher um livro, talvez escolhesse aquele que me ofereceste e que nunca abri, com receio de ler nele, antecipadamente, todas as palavras que o teu olhar já distante me revelava e que eu fingia não entender. Ou aquele que ainda acaricio a lombada com o olhar, porque continua a adormecer na minha mesa-de-cabeceira, mesmo depois de já o ter lido inúmeras vezes. Ou ainda aquele outro, que te lia todas as noites,  quando te contava histórias para adormeceres e sonhares com um mundo perfeito, cheio de grandes heróis, fortes e imortais.
Se tivesse que escolher um livro, escolheria certamente  este que guardo escondido na alma, o meu diário, o livro da minha vida. Não considerem vaidade esta escolha, que de tantos livros preferira este, especialmente este. Bem sei que não será o mais belo, nem sequer terá conteúdo para se tornar num best seller, talvez lhe falte a história de um grande romance, talvez lhe falte a concretização de um sonho. Não terá grande argumento, mas para ser o melhor livro que já conheci, falta-lhe, sobretudo,  um happy end.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Post.it: Dia do Canhoto


Recordando o dia 13 de Agosto, dia Internacional do Canhoto, com um dia de atraso, ou talvez não, porque todos os dias deviam ser, o dia do Canhoto, dia do Pai, dia da Mãe, dia da Criança, dia de Natal, dia da Água, da Floresta, etc.
Mas voltemos ao dia dos Canhotos. Refere um estudo inglês, que 10% da população mundial é canhoto mas, que devido à discriminação essa proporção era apenas de 3% no início do século 20.
Contudo convém reafirmar que não são diferentes dos destros ou que se houver alguma diferença, não é maléfica como o consideravam em tempos que já lá vão (felizmente). Mas que não foi assim há tanto tempo (infelizmente), porque ainda o senti no meu crescimento já que era e continuo a ser, a única canhota na família. Sem perceber a causa, apenas o efeito, lá ia passando por castigos que pretendiam inverter aquilo que me queriam fazer sentir como um defeito.
 Hoje, já sem esse estigma, olho com orgulho a evolução das mentalidades. Alguns estudos recentes indicam algumas curiosidades relativamente às características dos canhotos; referindo que efetuam uma transferência de informação entre os dois hemisférios e que por isso esta processa-se de forma mais rápida do que nos destros, ou que os canhotos prestam mais atenção aos detalhes, porém sentem algumas pequenas dificuldades de avaliação a nível espacial (talvez por isso vou esbarrando com os obstáculos que se me apresentam sem dar conta deles). Que somos melhor no desporto (por isso vou ginasticando os neurónios). Mais ágeis em jogos virtuais, e com destreza em teclados pela rápida localização das letras. Acrescentando ainda que desenvolvemos mais cedo a linguagem devido a bilateralidade do nosso cérebro. Mas que no essencial somos iguais aos destros, com a grande diferença de que termos um dia especial, só para nós. Um dia que ofereço a todos aqueles que levaram o talento dos canhotos mais longe, não sei se por o serem, ou por humanamente se terem tornado, especiais, são eles: Aristóteles, A. Einstein, Benjamin Franklin, Bill Gates, Franz Kafka, F. Nietzsche, Judy Garland, Júlia Roberts, Leonardo Da Vinci, L. Beethoven, Mahatma Gandhi, Marie Curie, Napoleão Bonaparte, Nicole  Kidman, N. Paganini, P. Picasso, W. Amadeus Mozart, entre muitos, muitos outros.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Este é um blogue de...


De prazer,
e de lazer.
De sonhar,
e de acordar.
De concordar,
e de discordar.
De ler,
e de escrever.
De nós
e de todos  vós.
De quem permanece,
ou esquece.
De qualquer estação,
e do coração.
De sorrisos,
e de quase paraísos.
De mágoas,
e de algumas águas.
De viagens,
e de aterragens.
De partir,
e tornar a vir.

Do teu viver,
do meu ser.
De amigos,
e de entes queridos.
De amor,
sem espinhos de flor.
De ternura,
e alguma loucura.
De fracassos,
e de muitos passos.
De vitórias,
que deixam histórias.
De visitas,
e de conquistas.
De chegar,
e de ficar.
De visitar,
e talvez retornar.
De liberdade,
e de saudade.
De oferta,
de uma janela aberta.