Pós-de-bem-querer para partilhar/oferecer: Pensamentos, histórias, aprendizagens.Tudo o que acontece quando se vive e se ama a vida!...
quinta-feira, 29 de março de 2018
quarta-feira, 28 de março de 2018
Post.it: Momentos
Por
vezes agarramos o momento, mas o momento não era o nosso. Por vezes deixamos
passar o momento quando o devíamos ter detido porque ele era, o nosso momento.
É difícil gerir os momentos ou saber em que momento estamos.
E
nesse decidir ou hesitar, eis que por nós passa a vida, como se fosse uma
passadeira rolante com tantos momentos à nossa escolha e, nós sem saber qual escolher.
Será pontaria?
Será do dia?
Será sorte ou azar?
Algo que anda no ar?
Rapidez, lentidão?
Escolher com a cabeça ou o coração?
Tão
pouco sabemos, mas lá vamos vivendo, entre o certo e o errado, tentamos, sem
conseguirmos passar nos intervalos da chuva sem nos molharmos, sem sofrermos a
consequência das nossas escolhas. Claro que por vezes, muitas vezes, essas
escolhas trazem-nos por consequência a alegria impar de nos abraçar e fazer-nos
sentir afortunadas.
Mas
outras tantas vezes o cansaço de tantas escolhas, de tantos momentos, diz-nos para nada fazermos, deixarmos a sorte
navegar, quem sabe em vez de escolhermos, sejamos escolhidos, em vez de
decidirmos, decidam por nós. Mas até isso é uma decisão, até isso é um momento,
aquele em que resolvemos não agir quando, era mesmo ali que devíamos ter agido,
escolhido, para vivermos o melhor possível, o momento.
sexta-feira, 23 de março de 2018
Port.it: Filas de trânsito
O
trânsito está péssimo! Os combustíveis baixaram, o preço dos carros baixou, as
cartas de condução baixaram, a crise “passou”. De repente tudo aumentou, a
estatística dos acidentes, o número de carros em circulação, todos os membros
da família na mesma casa passaram a ter carro, e que juntando ao seu carro
ainda trás para casa o carro do serviço, os estacionamento diminuiu, as filas
de trânsito aumentaram. “Levanto-me cada vez mais cedo, saio de casa muito
antes do que antes saia e chego ao emprego cada vez mais tarde!”
“Antigamente a fila de carros parecia apenas
uma minhoca, agora são enormes serpentes”, comenta uma amiga.
Bem,
do mal o menos, dá para ir apreciando a paisagem e de vez em quando para
bisbilhotar os hábitos dos vizinhos de viagem, no carro vermelho ao lado (não
se pode falar de marcas) 2 crianças dormem nas suas cadeirinhas, vão para o
infantário, ou para a casa da avó? O veículo que está na faixa da esquerda fala
sozinho e esbraceja, deve estar a falar para o telemóvel, hoje em dia já
ninguém fala sozinho, há sempre um outro alguém do outro lado da linha.
À
minha frente uma nuvem de fumo invade o habitáculo do veículo, por instantes
assusto-me, mas depois percebo que é uma nuvem tabágica. O vizinho de trás vai
bebendo um iogurte enquanto a mulher aproveita para fazer a maquilhagem que não
teve tempo em casa. A fila anda um pouco e mudo de vizinhança, os da direita
parecem estar a dormir de olhos abertos de tão estáticos que estão, o da
esquerda debate-se com as andanças do seu cachorro dentro do veículo tentando a
todo o custo passar para o volante fazendo as vezes do motorista, deve estar a
pensar que quem sabe ele conduza mais depressa que o seu dono.
O
sol brilha, uma quase raridade por estes dias de um inverno que nos tem chegado
em versão condensada. Lá mais a diante no horizonte, um arco-íris com a beleza
de todas as suas cores. Mas eis que de repente uma escuridão se aproxima, “vem
lá chuva” dizem os olhares inquietos dos meus vizinhos. Quando atónica vejo uma
nuvem pesada e grande que se vem aproximando devagar, desfilando graciosa,
passa por mim no seu céu límpido e sem filas de trânsito para a minha frente.
Alguém comenta, “Bolas até fui ultrapassada por uma nuvem”!
segunda-feira, 19 de março de 2018
Post.it: o último dia de Inverno
Hoje
o calendário diz que é o último dia de Inverno,
apesar de ter sido uma estação cheia de “personalidade”, deixa-nos
certamente alguma incerteza, será que para o ano regressa?
Porque,
admitamos, nunca um inverno foi tão
desejado, tão esperado, tão ansiado, segundo
sei, chegaram a fazer missas, procissões, e longas e fervorosas orações.
Queríamos
que viesse, mesmo que isso implicasse trazer a “família” e os “ amigos” em
forma de ventos, tempestades, trovoadas.
E assim ela trouxe a Ana que nos abanou logo no início do ano, depois o Bruno,
mais suave mas bem presente, o David não faltou à festa e deixou breves
memórias, quanto à Ema a ilha da Madeira não se esquece dela nos tempos mais
próximos, já o Continente sentiu bem a estadia do Félix, a última visita deste
Inverno foi a Gisele que não se fez rogada em gargalhadas de vento e longos abraços
marítimos. As consequências foram variadas e mal nos deixava um, ainda mal
recuperados, já outro nos entrava pela casa a dentro, abanando portas e
janelas, criando inundações, partindo vidros, arrancando telhados, dando asas
às árvores e ondas aos rios mais serenos.
Foi
realmente um inverno inusitado, dizem os estudiosos destes fenómenos
meteorológicos que o futuro estará repleto deles.
Mas
apesar de todos os problemas que causou, precisávamos deste Inverno, talvez não
tão acentuado, mas precisávamos dele para evitar a seca, para nos apagar os
fogos da lembrança, da dor que o verão deixou neste país escuro de queimada e
de mágoa. Mas precisávamos dele também para nos trazer a Primavera, para que as
flores voltem a desabrochar, para que as andorinhas nos voltem a visitar, para
que os ninhos voltem a ter ovos, para que as abelhas voltem a produzir mel que
nos faça esquecer de todo o fel.
Hoje
também é dia Do Pai, fez-me lembrar uma história que me contaram em criança,
“O Inverno era um pai, por vezes com voz forte e autoritária, mas também
oferecendo caricias de chuva. Que a Primavera era a sua esposa e a mãe da
natureza, quanto aos filhos: Verão, sempre rebelde, rasgando as ondas com o seu
sorriso e uma quente e eterna jovialidade; o Outono, mais atinado, calmo,
obediente, dando ares do pai nos tons cinzentos do céu, mas também parecendo-se
com a mãe na forma como acalenta as folhas caídas sobre o chão”.
Uma
família como a nossa, em que cada um com as suas características, cumpre o seu
papel. Agradecemos ao Inverno a tarefa árdua de “regar” este jardim que é a
terra e desejamos que as outras estações venham também elas na sua faceta de
dar continuidade à subsistência da vida neste Planeta, quanto a nós, também
temos um importante papel, o de respeitar e conservar o meio ambiente, que é o nosso lar.sexta-feira, 16 de março de 2018
Post.it: Faz de conta...
Apõe-se
no meu braço D. Joana. E ela apoia-se, mas nenhum apoio lhe é suficiente, os
pés sem quererem caminhar, não lhe obedecem, o corpo não se move e a voz
outrora sempre tão faladora faz um silêncio sepulcral.
Páro, olho-a, as lágrimas deslizam-lhe pelo
rosto e, no entanto, nem uma palavra, nem uma queixa.
A
Dona Joana vai para um lar de idosos, hoje em dia têm nomes tão pomposos
que quase imaginamos uma estância de
férias, mas não são; como a D. Joana diz, “são armazéns de velhos”.
Quer
sair de casa, ou melhor não quer, precisa. Os filhos não podem cuidar dela, o
marido partiu e ela hoje mais do que nunca, deseja ir para junto dele. Só
conheceu duas casas, a da sua infância que era a casa dos pais e depois a sua,
para onde foi depois de se casar, ali cresceram os filhos e os netos. Aquelas
paredes contam histórias, no corredor ainda ouve os passos em corridas das
crianças. Nos soalhos da sala ainda é visível a nódoa gasta de tão esfregada,
quando o filho mais velho entornou a travessa do cabrito assado, foi um susto,
se ele se queimasse, mas não, acabou tudo em risota, enquanto ele chorava, não
de dor mas por pena de ter ficado sem refeição, foi um almoço de Páscoa
diferente, feito de pizzas descongeladas à última hora.
Este
ano também a Páscoa será diferente, sem filhos, sem netos, à volta da mesa, só
rostos estranhos, com ar de condenados por um crime que desconhecem ter
cometido. E à noite o quarto será partilhado com alguém a quem o destino sempre
diferente, de repente, tornou-se comum. Talvez rezem juntas, talvez chorem
juntas, talvez sonhem o mesmo sonho. Estão nas suas casas, com as suas
famílias…
-
Vamos D. Joana, a sua filha está lá, em baixo no carro, à espera.
Porque
nem ela conseguiu arranjar coragem para ver a mãe sair daquela casa onde sempre
a viu abrindo-lhe a porta, recebendo-a com um sorriso, beijos e abraços. – Ó
mãe só fui passar o fim-de-semana fora. – Eu sei, mas no coração de mãe, as
saudades não se medem em tempo mas em distância, e tu estavas muito longe, não
te conseguia abraçar.
-
Vamos D. Joana, deixe-me só fechar a porta.
-
Não, não feches a porta. Deixa-me fazer de conta que vou só ali e já volto…
segunda-feira, 12 de março de 2018
Post.it: Perder o medo
Um dia, deixamos de
ter 20 anos e, de repente, os 30 anos já passaram. Os 40, foram um saltinho,
apenas um saltinho para os 50. Assim nos foi a vida, um carrossel giratório,
uma montanha russa de altos e baixos, de curvas apertadas. Quantas vezes pensamos
que ia ser o colapso, mas não. Foi apenas o começo de novos momentos.
Contaram-me em miúda
uma história… Havia um menino a quem o Medo chateava e humilhava com
brincadeiras que o deixavam triste e só. Um dia ele decidiu combater o Medo à
sua maneira e dai em diante ignorou-o, desprezou-o como se ele não existisse. O
Medo remetido à solidão, ficou fraco e triste, primeiro, encolheu-se num canto,
depois, foi-se embora e segundo dizem, nunca mais ninguém o viu. Moral da
história, porque estas histórias tinham sempre uma, o miúdo tinha medo de quase
tudo, mas cansou-se de ser gozado pela sua “fraqueza”, por isso, escondeu o
medo no recanto mais profundo do seu ser e dessa forma, revelou uma força de
vontade capaz de superar o seu medo e, daí em diante, todos os o invejaram e o
João-com-medo passou a ser chamado João- coragem.
Histórias infantis,
pequenas lições de crescimento. Porque um dia, seja ele qual for, todos nós “esconderemos”
os nossos medos para que eles não nos dominem e, nessa altura, vinda não se
sabe de onde, surgirá a nossa coragem.
É quando vamos
perceber que, na vida, o importante não é ter ou querer ter muito, mas que o
suficiente nos basta. Desde que tenhamos tentado tudo para vencer.
Que somos felizes com
tudo o que temos, que amamos o que devíamos e, se perdemos, perdemos apenas o
que, no fundo, nunca foi nosso.
Perdemos o medo, mas
em troca ganhámos a coragem.
terça-feira, 6 de março de 2018
Quase segredo
Não chega a ser segredo,
Esse trépido e doce medo,
Em que a alma quase nua,
Dança suave na luz da lua.
Por entre a sombra do amor
Debruça-se em haste de flor.
Tão simples, quase desajeitado
Mas serenamente, encantado.
Lábios sedentos de mil fontes,
Gestos ávidos de horizontes,
Só o luar não ilumina os corações,
De olhos que são constelações.
Depois alegres em sonhos cansados,
Adormecem o amor ainda abraçados.
Se a vida fosse flor, seria malmequer,
Despetalada ganharia o bem-me-quer.
sexta-feira, 2 de março de 2018
Post.it: Dramas de uma mulher do século XXI
Sou
uma mulher ciumenta, assumo! Mas que fazer sinto-me demasiadas vezes sozinha,
traída, abandonada, esquecida…
O
meu marido fica horas a ver televisão, sobretudo os jogos de
futebol, o meu filho leva o dia inteiro a jogar na consola de jogos, a miúda
está sempre a teclar no smartphone
conversando com as amigas, até o mais pequeno prefere brincar com o tablet
do que ir correr no parque, porque está sol, está frio, sei lá que mais...
Outro
dia fui ao médico, que diga-se em boa verdade também não me ligou a mínima,
entrei e mal me olhou, baixou os óculos “tirou-me as medidas” e voltou a fixar o olhar no computador, - Ora diga lá
o que a traz cá.
- Cansaço, tristeza, solidão, uma dorzita aqui,
outra acolá… Respondi-lhe.
Não
me deu resposta, escreveu, escreveu e depois tentou imprimir uma receita para
me despachar, a consulta só pode demorar
no máximo 15 minutos, mas a impressora não
quis colaborar, teve um bloqueio “existencial” e lá ficámos ambos a olhar com
curiosidade para ver se a dita cuja, maquineta
ia ou não “cuspir” a folha com o nome do remédio milagroso para as minhas
maleitas. Coisas “próprias da idade” dizem-me para me consolar, mas tenho para
mim que a causa principal, está nas novas tecnologias que me vão fazendo sentir
cada vez mais “dispensável”. Confesso já lhes tenho raiva, fico furiosa de
ciúmes!
Uma
noite destas quando estava com uma das minhas insónias, o meu marido deixou
escapar num suspiro o nome de uma Sofia enquanto sonhava, surpreendida, abaneio
até o acordar.
-
Estavas a sonhar com uma Sofia? Quem é essa?
Estremunhado
de sono e surpresa, disse que no seu sonho estava na web summit a falar com a robot
Sophia,
aquela criatura de inteligência artificial que disse com ar arrogante que nos
vinha roubar os empregos, mas será que também vem “roubar” maridos?
Desabafei
com uma amiga os dissabores da minha vida, mas ela estava demasiado ocupada em
encontrar no GPS uma forma mais rápida de ir até ao centro comercial fazer
compras.
Cheguei
a casa a atirei-me para cima do sofá, quase de imediato recebi o meu cachorro
aos pulos sobre mim.
–
Só tu é que me ligas não é meu cãozinho?
Como
se me quisesse dizer algo, lambeu-me a cara e correu para a máquina lançadora
de bolas automático, num apelo saltitante.
–
Ok, já percebi, queres que ligue a maquineta para jogares à bola, não é? Nem tu
precisas de mim para brincar, basta que
ligue o botão e ficas horas a apanhar bolas que a dita máquina te lança.
Bom,
do mal, o menos, pelo menos não preciso de cozinhar, a Bimby encarrega-se disso.
Ponho a roupa na máquina e ela lava-a, tiro dessa e coloco na outra que a seca.
A loiça também vai para a máquina e pronto fico com mais tempo para conversar
com… alguém, no facebook.
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018
Post.it: O nosso tempo
O
tempo passa, dizem. Mas talvez não passe, e sejamos nós não quem passa por ele.
Nós com os nossos dias e a nossas noites. Com as pessoas que nos entram pela
vida e as que saem avisando ou não. Pessoas que nos preenchem ou pessoas que
nos esvaziam. Por entre as flores que nascem e murcham. Por entre árvores
vestidas no calor ou se folhas despidas por um sopro de vento. Por entre as
altas ondas e a doce acalmia. Por entre cais que são de chagada mas também de
partida para outros.
O
tempo é sempre o mesmo, existe sem tempo, sem demarcação, não começa, não
acaba, apenas existe. Nós gostamos de o rotular, de lhe colocar por datas, de o
acondicionar nas páginas de um calendário, de o aprisionar em correntes de
horas, em laços de meses, em fios de anos. Guardamo-lo em pedaços de memórias e
chamamos-lhes, recordações. Sufocamo-lo no peito e chamamos-lhe saudade.
Enquadramo-lo
segundo o frio e o calor, entre a chuva e o nascimento das flores e
chamamos-lhes estações do ano, apeadeiros de encontros e desencontros.
Vem
ao mundo e chamamos-lhe nascimento, damos-lhe a mão e dos passos periclitantes
aos passos firmes chamamos-lhe crescimento.
A
tecnologia expande-se, as pessoas mudam, chamamos-lhe evolução. A economia tem
ganhos, tem perdas, a política manda e desmanda em todos os destinos e nós
chamamos-lhe desenvolvimento. Cansamos-nos do nosso tempo, zangamos-nos com ele e
chamamos-lhe revolução.
Culpamos
o tempo da sua pressa, quando é nossa a lentidão. Acusamo-lo de morosidade,
quando somos nós quem vai demasiado depressa.
O
tempo não existe, o tempo não é alegre ou triste. Não tem principio, não tem
fim. São definições nossas, num tempo que não é tempo, é o nosso tempo a
permitir-nos sermos apenas nós.
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
Post.it: Do your mind
Outro dia li
um titulo, nesta moda de se escrever, de
se dizer tudo em inglês, “Do you mind?”. Já comentei que um dia o inglês vai
torna-se a nossa língua oficial, mas dizia eu que li esta frase, mas como nos é
habitual lia apreendendo a ideia em geral, sem ler o lá estava realmente
escrito, e o que li foi “ Do your mind”.
Achei curioso
o engano, talvez influenciado por uma corrente de pensamento que tem vindo a
ganhar forma, que nos demonstra que somos o que pensamos, que o nosso cérebro
por vezes condicionado pelos nossos receios e angústias nos engana, nos
condiciona, apresenta-nos perigos que não existem.
Dá-nos
receios sobre acontecimentos num futuro que podem nem suceder, mas nesse
entretanto criámos expectativas, ansiedades desnecessária. Ora se o cérebro nos
engana, nós também o podemos enganar, dizia-me outro dia a minha mestre de
ioga. Vamos dizer ao cérebro que estamos bem, que estamos felizes, que a dor
não nos dói assim , tanto
Testei a
hipótese, depois de muita insistência em querer contrariar a tendência de ser
condicionada, pasmei; o cérebro acreditou em mim! E devagar, muito devagarinho,
foi relaxando, foi sorrindo, foi-se aconchegando na mensagem de tranquilidade
que lhe ia enviando.
É verdade,
mesmo verdade que nós podemos fazer o nosso cérebro pensar algo positivo em vez
de nos deixarmos dominar por pensamentos negativos que ele cria, quando ele nos
diz que vamos cair, não nos está a evitar o perigo, como sempre nos fez
acreditar, na verdade está a criar em nós o medo da queda, quando nos diz que
estamos a ser traídos, humilhados, não é verdade, quem nos está a magoar são os
nossos pensamentos, os nossos medos infundados, as nossas inseguranças a
falarem mais alto, a gritarem dentro nós.
Está na
altura de sermos nós a falar, a contrariar a tendência que temos em nos
acomodarmos, de nos deixarmos guiar pela imaginação, pelos nossos fantasmas e
assim vermos/sentirmos coisas que na realidade não existem.
Que tal
ganharmos força e coragem não para vencer os outros, mas para vencermos as
nossas próprias condicionantes. Alguns passos:
“Goste mais,
acredite mais e seja mais feliz.”
“Os problemas
têm a exacta importância que lhes damos.”
Até pode ser
que não aconteça mas visualizar um momento bonito viver faz-nos felizes
adormecer.
Limpe a mente
e cultive apenas bons pensamentos.
“Não podemos
ter todos os dias bons mas podemos ter algo bem todos os dias.”
O cérebro
precisa de motivação, incentive-o, encoraje-o.
O cérebro
precisa de inspiração, diga-lhe coisas bonitas. Afaste os pensamentos negativos.
Nada é tão mau quanto parece.
Se o seu
cérebro dominar o seu espaço não viva com esse nó, faça um laço…
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018
Post.it: Gaivota de asa ferida
Há
dias em que sinto que nada me derruba, sento-me imortal, construtora da minha
vitória, sabe bem esta confiança quase inabalável, esta fé, esta coragem, esta
alegria, esta… hesito um instante para a nomear e concluo num desabafo, esta
felicidade!
Sim
porque sou feliz, nesses dias, nesses momentos e celebro o sol por entre a
chuva e as flores por entre os espinhos.
Mesmo
que amanhã tudo seja diferente. Que o amanhã me roube este sentimento, que
venha qual ladrão voraz e queira alienar-me do hoje, do ontem, daquele momento
quase mágico, quase perfeito, ainda que essa força negativa venha usurpar as
minhas recordações, tenho o agora, e ele está guardado em segurança dentro do
meu coração.
Não
sei o que é feito de ti, se ao menos, me deixasses cuidar de ti, se ao menos viesses cuidar de mim, se
chegasses envolta de num manto de luz e
amizade para me contares os teus segredos, aqueles que te fazem rir ou até
mesmo os que te fazem chorar. A amizade é isso mesmo, a partilha de momentos de
luz e de escuridão, se viesses, sei que os meus dias ficariam certamente mais
completos com os teus…
Porque
na verdade, sinto-me sempre incompleta, nesta ilha singular que nos vamos
tornando.
Por
companhia, as ondas do mar, os cais vazios, os barcos de redes lançadas, os
pescadores sem horizontes, os navios fantasmas mergulhados no oceanos, os
peixes em cardume, mas, por vezes ouço ou a minha solidão pensa ouvir o canto
de uma sereia… De
novo a realidade, uma gaivota irmã solta gargalhadas às asas da minha
imaginação e eu batendo asas, procuro uma corrente de ar para fugir, para me
encontrar...
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
Post.it: Porque é Carnaval
Hoje,
só hoje, deixem-me ser quem sou, deixem-me guiar os meus passos, soltar os meus
gestos, despir-me de qualquer obrigação moral, religiosa, cultural, educacional
e ser apenas eu, pessoa, humana.
Hoje,
só hoje vão vou trabalhar, nem acordar cedo e enfrentar a multidão de gente
anónima, de rostos que me olham e não me vêem.
Hoje,
só hoje vou deixar o smartphone desligado e ter conversas cara a cara,
partilhando o mesmo ar que respiramos, o mesmo sorriso que oferecemos.
Hoje,
só hoje, vou gritar a minha verdade, dizer que não sou assim, como me imaginas,
como queres que seja. Vou dizer-te que também tenho lágrimas mesmo quando rio,
que também me magoas mesmo quando digo que está tudo bem. Vou confessar-te que
detesto a distância que o silêncio impõe, que preciso de palavras que me
abracem.
Hoje,
só hoje vou desfilar nua de preceitos, de preconceitos, de mentiras piedosas.
Vou fingir que esta que vês, que ouves, a quem chamas amiga, a quem dizes amar,
não sou eu, que me disfarcei de pessoa frágil, sensível, delicada.
Hoje,
só hoje, vou desfilar neste Carnaval que
é a vida, iludindo-vos, desiludindo-me, mas sendo (real).
Porque
hoje, só hoje, Vou soltar o meu espírito de criança e dançar à chuva, saltar
nas poças de água, escorregar na lama, deitar-me na relva e rebolar pela
encosta abaixo, desenhar figuras com as nuvens do céu. Soltar bolas de sabão, e
abraçar as cores do arco-íris.
Depois, adormecer cansada e sonhar que o hoje, mesmo que seja só o hoje me vai ficar eterno e feliz, escondido no coração.
Depois, adormecer cansada e sonhar que o hoje, mesmo que seja só o hoje me vai ficar eterno e feliz, escondido no coração.
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
Post.it: Mezinhas de colo e carinho
O mundo muda todos os dias, os dias mudam em todas as horas
e nós permanecemos. Impávidos e serenos, aparentemente, porque lá dentro o
coração pulsa, salta e corre com a pressa de quem quer apanhar o vento.Cá dentro temos autoestradas de células por onde nos desliza a vida. Por vezes algumas dessas células entram em contra mão e gera-se o caos, de repente ardemos em febre, caímos na cama impotentes, sem forças para travar qualquer batalha.
Depois vêm as mezinhas, um chá com mel, os vírus aplaudem tanto cuidado para os manterem quentinhos e aconchegados, como dizia a minha tia-avó “até lambem os beiços de tanta doçura”. O melhor remédio é um copo de aguardente respingava o meu tio-avô. “ora querem lá ver que o homem quer embebedar a criança!”
E a criança com duas rosetas no rosto esboçava um sorriso,
cansada de guerras terapêuticas, adormecia. Era uma criança feliz, à sua
maneira, porque as crianças arranjam sempre maneira de serem felizes, de verem
tudo com um olhar puro e ingénuo.
Têm uma memória selectiva, amanhã já não se lembram dos “ralhos” de hoje e voltam a brincar, a sonhar, a acreditar, a ter confiança na proteção dos país, a aceitar sem receio os remédios caseiros da tia-avó que a afastava dos disparates do tio-avô.
Têm uma memória selectiva, amanhã já não se lembram dos “ralhos” de hoje e voltam a brincar, a sonhar, a acreditar, a ter confiança na proteção dos país, a aceitar sem receio os remédios caseiros da tia-avó que a afastava dos disparates do tio-avô.
O mundo muda todos os dias, os dias mudam em todas as horas
e nós que aparentemente permanecemos sempre iguais, na realidade também mudamos,
ao nosso ritmo. Muitas vezes já sem pais para nos proteger, sem tios-avós para
nos curarem com mezinhas de colo e de carinho.
Crescemos e tentamos ser felizes como as crianças, para tal como elas, voltar a confiar, a acreditar, sobretudo a perdoar e a não levar para o amanhã as mágoas do hoje. Entretanto os vírus espreitam sorrateiros por um momento de fraqueza para fazer a sua invasão e nós cansados adormecemos. Não desistimos, não nos damos por derrotados, é uma pequena trégua para recuperarmos as forças, preparem-se vírus amanhã a vitória será nossa.
Crescemos e tentamos ser felizes como as crianças, para tal como elas, voltar a confiar, a acreditar, sobretudo a perdoar e a não levar para o amanhã as mágoas do hoje. Entretanto os vírus espreitam sorrateiros por um momento de fraqueza para fazer a sua invasão e nós cansados adormecemos. Não desistimos, não nos damos por derrotados, é uma pequena trégua para recuperarmos as forças, preparem-se vírus amanhã a vitória será nossa.
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
Post.it: O sentir
Escrever é, por vezes, olhar para dentro, falar
de nós para nós, dos outros para os outros. Ser um rio que cresce até ao mar e que revela, por vezes, os nossos vendavais. O que escrevemos são fantasias, dizem, supõem. Mas nunca
o são totalmente. São sonhos, desejos, aspirações.É simplesmente o nosso querer que surge, espreitando, em cada letra. A nossa vontade de chegar até vós, que perscruta em cada intervalo de palavras, que se confessa por entre o silêncio.
Um silêncio que luta para ganhar voz, ser audível aos olhos dos outros, quando captam a mensagem e a enviam para o cérebro, numa intrincada lógica de feixes e neurónios, caminhos e estradas do conhecimento, da linguagem, dos sentimentos, das sensações e, de repente, tudo faz sentido. As letras tornam-se expressão, emoção, fazem rir, fazem chorar, tocam-nos só com o correr da linha, só com a harmonia das frases, com a dança consonante das palavras.
Lembro-me de quando aprendi a ler, quando as letras unidas começaram a ser identificadas com palavras que, em conjunto com outras, contavam histórias, revelavam coisas que, antes, me pareciam apenas rabiscos ilegíveis.
Foi uma descoberta, uma conquista, um mundo novo que abriu, que se mostrou perante os meus olhos cheios de curiosidade, famintos de conhecimento. Lembro-me que lia, lia tudo, tudo o que tivesse letras, coisas sem importância que, para quem começa a ler, é magia.
Uma magia que não sei de onde vem, se das palavras, se dos olhos, se do coração ainda tão puro; ou ainda se vem da vontade, da bondade ou se do cérebro com todas as suas intrincadas ligações, se do simples facto de sermos humanos e não robôs.
É verdade que tanto nós como eles conseguimos interpretar o código ordenado de símbolos a que chamamos escrita, mas só nós, seres de carne, osso, sangue e alma podemos sentir o que essa escrita nos revela. Por mais sofisticado e inteligente que seja o uso de fibras óticas, por mais pixéis, bytes, mega, terabytes e tudo o mais de que são feitos os robôs, eles podem comunicar, emitir raciocínios lógicos, encontrar soluções. Mas, enquanto não encontrarem uma fórmula lógica para o sentir, só nós, humanos, teremos o privilégio de ter e partilhar sentimentos e emoções.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
Post.It: Mês de S. Valentim
Estamos no mês do amor, mês de S. Valentim. As
montras ganham novas tonalidades, novos adereços, lembrando os mais esquecidos,
enternecendo os corações mais desatentos. É só um dia, dentro do mês, perdido
no ano, hibernando por vezes durante uma vida, mas quando acorda, não é um
despertar, antes um renascer.
Não há amor como o primeiro, dizem, mas não é verdade.
Porque não há amor como o último, o que está connosco, o que nos acompanha, o que permanece, o que nos leva cada dia ao seguinte. O que nos faz sonhar e é real. O que nos faz acreditar que o melhor de cada um de nós, afinal, existe e é continuamente dado, continuamente partilhado.
Quanto ao primeiro amor, esse e talvez os seguintes, se por acaso o nosso coração se deixou por mais de uma vez habitar por esse sentimento. Desses amores, fica a história embalando a memória. Foram e serão sempre parte de nós, de momentos, do que nós eramos. E quando a recordação nos questiona se seriamos capazes de sentir aquele amor agora, sabemos, que não. Já não somos totalmente essa pessoa, crescemos, evoluímos, sorrimos, sofremos, houve entretanto tanto mar navegado, tanta terra palmilhada, tanto céu observado, mudamos e hoje somos assim, e assim queremos ser amados. Nós diferentes, os outros, certamente que também passaram pelas suas mudanças e também eles amam de outra maneira, à sua, que já não é a nossa.
Saudades? Certamente que sim, não talvez desse amor, nem dessa flor, mas da primavera que éramos, desse sol que nos inundava o olhar, dessa esperança, confiança, dessa dádiva que sentíamos, no que dávamos e simultaneamente recebíamos.
Seja em que profundidade for que o amor se manifeste, quer seja por uma pessoa que nos é especial, ou por um filho, pais, amigo...
A verdade é que não há sentimento como o amor...
segunda-feira, 29 de janeiro de 2018
Post.it: Homenagem
Passamos
dias, meses, largos meses sem trocarmos uma palavra, sem fazermos um gesto, sem
nos vermos e no entanto quando há notícias boas ou más lá estás, lá estou, para
me ouvires, para te ouvir, para rirmos ou para chorarmos juntas.
Somos
amigas há quanto tempo? Mais de 20 anos, uma grande parte da nossa vida. E
nesse, já longo caminho quantas histórias…
Vi
partir o teu filho de mãos dadas, o teu pai, abraçadas, agora a tua mãe que
segue para junto deles.
E
quando falo de ti, falo igualmente de outra(s), amiga(s), gosto de sentir que
cada uma é especial, única, que a cada uma respondo e correspondo da maneira
individual que necessitam, há quem precise de um abraço, há quem lhe baste um
estar ao lado, há quem precise de palavras reconfortantes, há quem prefira o
silêncio, e ser amiga é isso mesmo saber e respeitar cada um no que é e no que
quer nesse seu momento.
Somos
amigas de longa data e isso é bom porque nada se espera, nada se pede, tudo nos
é espontaneamente dado.
Não
importa se há outras amigas, se estás mais tempo com elas do que comigo, se não
me telefonas, se não me vens visitar. O bom das amizades de longa duração é que
não há competição, ninguém é mais amiga que o outra, não há preferidos há
apenas o estar e o ser-se amiga.
O
sentimento de amizade deve ser assim, um amor claro e puro, que entra na nossa
vida, que se instala no nosso coração e aos poucos torna-se familiar, os seus
filhos, são nossos filhos, os seus pais também são um pouco nossos e quando
partem, também deixam em nós a mágoa de uma eterna ausência.
Este
ano algumas das minhas amigas estão mais sós, tiveram que dizer adeus aos seus
(nossos) entes queridos. Um adeus a quem
nos permanece nunca será uma despedida, ficam na memória. E nós que fomos
depositários do seu afecto, levamo-lo mais longe para as próximas gerações.
Levamos os seus genes, as suas palavras, os seus ensinamentos o seus que se
tornaram nossos momentos. Trocamos o adeus por um perpétuo obrigado.
Mas
porque a amizade não se agradece, partilha-se, o nosso reconhecimento,
homenagem e bem-querer para a D.
Madalena, Sr. João e D. Helena.
Entretanto,
um olá de boas vindas à Joana, Diogo, Tomás e Beatriz.
A vida é igual à primavera, está constantemente a renascer-nos dentro do peito para que as lágrimas não durem para sempre e para que o sorriso nos seja eterno.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
Post.it: Quedas e afins
Cá
estamos nesta “corrida” não em busca da meta, nem a competir uns com os outros,
simplesmente a tentar acompanhar a rapidez com que o tempo passa. Tento,
acreditem que tento, mas até para mim já vai sendo por vezes difícil acompanhar
o ritmo, assimilar tudo o que surge à velocidade que vem e é novidade e à velocidade que se torna obsoleta.
Temos de nos adaptar às novas
realidades, aceitar com similar rapidez as coisas tal como surgem. Mas nem
sempre é fácil, ou melhor por vezes é difícil, então agora que ando “coxa”. Eu
até tenho alguma “queda” para o disparate, mas desta vez exagerei. E sim é
verdade, ainda ando meio ao pé coxinho depois de me ter espalhado ao comprido e
ter magoado um joelho.
Percebo
agora o quanto é difícil manter a
verticalidade, só não entendia o porquê de tanto esforço, porque não deixar-nos
“cair” de vez em quando, ceder ao cansaço, à preguiça, à vontade de nos deixar
levar pela força da gravidade. Percebi que pode tornar-se “grave”, que pode
magoar, que o chão é duro e a queda dolorosa e morosa no processo de recuperação,
felizmente, no meu caso tudo ficou inteiro (acho).
Enfim,
tudo por culpa desta “corrida”, deste relógio solar, ou biológico, claro que as
bagas das palmeiras caídas no chão também deram a sua ajuda. Mas se andasse
mais devagar, se tivesse mais cuidado, se o pensamento não sonhasse, se os
olhos não voassem, quem sabe tivesse evitado a queda e hoje não estaria
coxeando. A verdade é que não conseguimos evitar todas as “quedas” por mais
atentos, ponderados, cuidadosos, por mais joelheiras, cotoveleiras, capacetes, etc., havemos sempre que cair e
rasgar a roupa, a pele, a alma.
São
os imponderáveis da vida dirão uns; revelam o quanto somos frágeis, dirão
outros, na verdade, mostra o quanto somos simplesmente humanos; sinal de que
estamos vivos, prefiro esta ideia.
Porque
estar vivo tem destas e de outras coisas, incapazes de adivinhar o passo
seguinte que vamos dar ou noutras situações se esse passo nos trará alegria ou
tristeza damo-lo, temos de o dar, parar é morrer e nós para o melhor ou para o
pior queremos viver. Nem que seja para nos levantarmos depois de uma queda,
sacudirmos o pó, colocarmos um penso rápido na ferida e coxeando ou não,
prosseguirmos, se hoje formos mais devagar, amanhã logo recuperaremos o nosso lugar
no caminho.
terça-feira, 23 de janeiro de 2018
À volta do Mundo
Nem sempre é preciso andar, nem
sempre é preciso questionar para aprender, por vezes, basta parar, basta olhar,
basta ver. Um olhar que queira entender o que a vista alcança. Um olhar que
queira entender o que o coração sente.
Quantas vezes partimos, vamos
para longe em fuga ou ao encontro de algo e não encontramos. Fugimos mas
continuamos a ser perseguidos pelos nossos “fantasmas”, pelos nossos medos. Nas
voltas que damos à volta do nosso pequeno mundo.
Iniciamos viagens por lazer, por
vontade de conhecer os outros, a sua cultura, o seu modo de existir.
Vemos rostos, paisagens, estilos
arquitetónicos. Vamos desvendar mundos que desconhecemos, vamos aprender, vamos
conhecer.
Procuramos encontrar na distância
o que a proximidade não nos dá. O quê? Cada um saberá, ou melhor pensa saber,
pode estar à nossa frente, ao alcance da nossa mão, sem o reconhecermos.
Toda a busca é individual, todo o
caminho é feito sozinho, mesmo quando acompanhados, aquilo que sentimos é
sempre muito pessoal, próprio do que somos no momento.
Lembram-se do que sentiram num
lugar e anos depois quando lá voltam? Há uma desilusão, tudo mudou, pensamos,
não, mudámos nós…
“A viagem da descoberta não
consiste nas novas paisagens, mas em ver com novos olhos” (M. Proust).
sábado, 20 de janeiro de 2018
Os dia de Maria

Há
dias em que o silêncio nos pesa como se nos doesse algures no corpo, uma dor
indefinida, sem doença, sem ferida, mas que dói, talvez na alma. Nesses dias o
silêncio olha para nós e não diz nada, respeitosa companhia, que já nem
companhia nos faz.
Acendemos
a televisão, mas as suas conversas caiem num estranho vazio, acendemos o rádio
e fica-nos idêntica sensação. De repente cresce-nos uma estranha urgência,
precisamos de ouvir alguém a pronunciar o nosso nome. O companheiro já partiu,
dizem que nos faz companhia do céu, os filhos cresceram e formaram os seus
lares, até os vizinhos já não batem à porta, andam demasiado ocupados, consigo
próprios ou com a sua família.
Resta
a solidão e aquele pão, que murcha, endurece, ganha bolor e desfaz-se
tornando-se nada.
Talvez
arranje um gato, quem sabe num diálogo entre miados e palavras, nasça uma
amizade, uma companhia. Mas não, um gato não sabe pronunciar o nosso nome,
embora responda ao seu, aquele que lhe damos. Quem sabe, um papagaio,
ensinamos-lhes palavras e ele, repete alegremente. Conheci uma caturra que
dizia o seu nome, Mituxa, quem sabe aprende o meu, é mais fácil e começa a
chamar por mim, “Maria”, “Maria” como um despertador, não para nos acordar pela
manhã, mas para me acordar para a vida. Porque na verdade, sinto-me a dormir,
um sono sem sonhos, sem conteúdo algum, como se fosse uma nuvem composta por
uma sequência de actos que ao longo do tempo vamos automatizando.
Hábitos
que vamos criando ou mudando consoante as situações. “Maria, Maria” mas já não
é o Manel que me chama, durante algum tempo ainda cozinhei os seus pratos
favoritos, ainda coloquei o seu lugar na mesa. Mas pouco a pouco, deixei de pôr
2 pratos, depois, deixei até de me sentar à mesa. Fico no sofá com uma caneca
de chá na mão, espero que arrefeça, depois, já não o bebo, está demasiado frio, esqueço-me cada vez mais
da rotina, esqueço-me cada vez mais de mim, lembro-me tanto dos outros, dos
presentes, mas sobretudo, dos ausentes.
Há
dias em que não sei se faz sol ou chuva, aqui entre estas paredes que abrigaram
risos, o tempo é sempre igual, frio e silencioso…
Outro
dia uma vizinha disse-me, “Sabes quem faleceu? A Maria!”. “Maria, aquela
senhora que passeava na rua sempre muito aprumadinha e usava chapéus
coloridos?”, “Sim essa senhora, faleceu enquanto dormia”.
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
Onda do mar
Por entre tantos cais de solidão.
Por vezes surge uma miragem,
Que lhe vem qual doce ilusão.
Luz de farol em noite escura,
Parece nortear-lhe o caminho.
Ergue-se em apelo de
ternura,
Eis que desmaia sem um carinho.
Quem sabe surja uma enseada,
Na espuma que esculpe as águas,
Já só anseia pela efémera chegada,
Onde possa por fim jazer as mágoas.
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
Dizemos
obrigado, de tudo e de nada, não é uma questão de sermos pessoas muito
educadas, mas de um certo automatismo que adquirimos. Obrigado a quem nos dá
passagem, quem nos abre a porta, a quem nos atende na loja, a quem nos dá uma
informação básica. É certo, adequa-se, mas por vezes é demais as vezes que
agradecemos e quem sabe nem nos apercebamos, porque nos é comum, como dizer
olá, bom dia, etc.
Mas
quando se trata de um obrigado que queira significar reconhecimento e gratidão,
quem o dá, assim, com a mesma ligeireza, delicadeza e generosidade?
Infelizmente poucos, mesmo muito poucos. Agradecemos a vida que temos? Claro
que não, já que não é a que gostaríamos de ter. Agradecemos a cada dia? Na
maior parte das vezes não, porque não nos foi simpático. Agradecemos aquém
ouve as nossas lamurias? Não, primeiro porque nem nos consideramos lamurientos e depois, são nossos familiares ou amigos, faz parte da sua função
ouvirem-nos, ampararem-nos, não precisam de agradecimentos, já sabem, que lhes
estamos gratos.
Talvez
seja preciso que existam datas especificas que nos façam estar mais atentos,
mais despertos para olhar os outros, de coração mais bondoso, dando-lhes o
tempo e agradecimento que merecem, claro que não só nessas datas mas durante
todo o ano.
Lembramos-nos
no Natal, Passagem de Ano, Aniversários,
dia do Pai, da Mãe, dos Avós, dos Amigos e porque não acrescentamos mais
uma data, 11 de Janeiro, dia do Obrigado,
para agradecermos com sinceridade, com justeza, com o coração, com o perdão. E
desejar que o carinho, a dedicação, a bondade, o reconhecimento e o obrigado,
não sejam apenas o cumprir de datas do calendário, mas que nos aflorem,
naturais e espontâneos tal como se nos fossem uma brisa que emana do mais
profundo do nosso ser.
Eu,
confesso, que também me esqueço algumas vezes de agradecer, de vos agradecer.
Por isso, recebam este obrigada, não como uma flor, um ramo ou um jardim de
flores, mas como uma inteira primavera.
segunda-feira, 8 de janeiro de 2018
Domingo de cachorro
Logo no dia mais belo da semana.
Desmorona-se tudo num só pingo,
E o frio dum vazio já do dia emana.
Deito-me num sofá desolado,
Todos os meus planos afogados.
Se a alma se deixa abandonada,
O olhar desce as ruas agrilhoado.
A minha dona bem me pede abraços,
Joga-me a bola, afaga-me o rosto.
Mas tudo me são tristes embaraços,
Todas a horas me são de desgosto.
Pedem-me os passos para caminhar,
Para as árvores já lhes tarda a visita.
Os prédios anseiam por ver-me passar,
E até o sol se entristece se não me fita.
Há cães que gostam do inverno escuro,
Até gostam deste céu que assobia ruidoso.
A mim colocam-me uma capa que esconjuro,
Deixo de ser cão, de quase humano e feioso.
Eu que sou feito de ventos e vendavais,
Preciso de correr até à linha do horizonte.
Todos os dias me são uma prisão de iguais,
O domingo é a minha libertadora ponte.
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
Post.it: Cá estou
Cá estou de novo, aqui, numa manhã cinzenta de inverno, um cinzento que se entranha na pele, que nos penetra as emoções, que nos entristece o olhar. Que nos entorpece os sentidos, que nos rouba até o sorriso.
Cá estou de novo, aqui, nesta sequência de dias, de noites e esta chuvinha miudinha que não é nem deixa de ser. Molha a calçada, faz-nos escorregar e se a arte do equilíbrio não for das melhores, vamos mesmo ao chão, "magoando" a roupa, "sujando" a alma desta humidade. De vez em quando, vem um aguaceiro para nos "animar" e fazer despertar desta letargia. Então, corre-se para o primeiro toldo de café, entrada de prédio ou por debaixo de uma varanda que nos sirva de abrigo, aqui e ali, abrem-se chapéus-de-chuva que mais parecem cogumelos coloridos a despontar.
Cá estou, aqui, descendo os olhos sobre a rua, procurando em cada rosto um diferente, menos cinzento. Há quem goste deste tempo, quem lhe fique indiferente, quem caia e se levante a sorrir, quem escreva mensagens de amor nos vidro molhados, irritam-me! Invejo-as pela sua "louca" felicidade, pela leveza dançante dos seus pensamentos positivos, pelo "bom dia" que nos oferecem quase como quem oferece um bouquet de flores. "Bom dia", respondo, mas o que tem de bom? Esta dor de cabeça fruto da sinusite, rinite e outras (ites), enfim, "chatices". E depois, são os ossos doridos a manifestarem-se; as constipações, as depressões, etc., etc.
Cá estou de novo, aqui, é sexta-feira, que bom, amanhã é sábado, dizem os jovens à saída da escola! O que tem de bom? Quase me apetece perguntar, deve ser bom para eles que nada têm para fazer, apenas relaxar, dormir, sonhar e à noite ir para a borga, as mães tratam das tarefas domésticas, passar e lavar a roupa, que com este tempo não seca.
Levar o cão que o filho lhe pediu mas do qual não toma conta, a passear logo pela manhã, ouvir o marido a falar do trabalho, da bola ou de imposto para pagar e os filhos, bem, esses, pouco falam preferem mandas sms, "mãe vou chegar tarde, não te preocupes depois como qualquer coisa na rua", mas preocupo-me, faz parte de ser mãe!
Cá estou de novo, aqui, seja que dia for, em que lugar esteja, estou, pensando, por vezes sonhando, acreditando ou tentando, ser feliz.
Porque há dias em que, também eu, sou como aquelas pessoas que trazem o sol dentro delas, quer faça chuva ou neve, têm o coração quente, quase ardente de paixão pela vida, por estar aqui.
Quando estar aqui, significa que se pode fazer algo, por pouco que seja para ter e ser a luz de quem só vê e sente a escuridão. Cá estou de novo, aqui, felizmente...
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
Post.it: Bom Ano
Bom
ano novo, um desejo, por vezes um desejo profundo, para que tudo seja diferente
do ano (velho). Para que coisas novas aconteçam, ou para que as coisas velhas
não voltem a suceder. E repetimos as palavras habituais, com Paz, Saúde, Amor…
Esta época, curiosamente, ouvi e repeti, palavras que nos outros anos não eram
tão usuais, pedi desejaram-me um futuro com Harmonia e Alegria. Num possível estudo
sociológico, isto devia ter uma clara explicação, talvez estejamos menos
exigentes, talvez estejamos mais conscientes, mais desejosos de harmonia na
nossa vida, de mais alegria nos nossos dias. Com tantos acontecimentos maus,
com tantas tendências negativas, ficámos tristes, muito tristes, por nós, pelos
outros. Com tantas ameaças belicistas e instabilidade política, falar de Paz,
talvez seja um desejo cada vez mais longínquo ou demasiado ambicioso, tornámos-nos humildes, desesperados e, pedidos de harmonia entre as nações e paz
aos corações tornou-se o nosso maior anseio.
Desejar
um Bom Ano Novo é apenas uma expressão, mas é também uma espécie de acreditar
ou não no Pai Natal, quem sabe exista e realize os nossos desejos. Mas depois da festa, chegamos a casa, abrimos
a porta com um sorriso no peito que rapidamente esmorece, a roupa continua no
monte por passar, as contas por pagar, o frigorifico avariado, a saúde de um familiar
debilitada, as nossas dores, ainda doem.
No
dia seguinte, o autocarro continua atrasado, os colegas continuam uns melgas, o
chefe voltou a chegar com mau humor nem um bom dia nos deu. Ano novo, sim no
calendário, de resto continua tudo igual… Tirando que estamos (tesos) gastámos
mais do que podíamos, mais (obesos), comemos/bebemos mais do que devíamos.
Os
festejos já lá vão, a realidade desperta-nos mesmo quando os olhos cansados por
poucas horas dormidas se querem fechar.
Há
ainda quem se (atreve) a lançar um (Bom Ano) misturado com o Bom dia de cumprimento matinal,
respondemos automaticamente a mesma frase, por educação, por uma réstia de
esperança que ainda nos envolve os sentidos. E lá subimos as escadas, descemos
a rua, a vida, ainda bem, continua…
Este
ano, tal como nos anteriores, carregamos o desejo, qual? Muitos, todos os que
precisamos, acho que desejamos muitos na expectativa de que algum, nem que seja
apenas um, nos aconteça…
Mas
este ano, estou tentada a fazer que algo nos seja diferente: que neste ano, o desejar nos seja semente
do querer. Um querer que regamos todos os dias, que alimentamos não só de
esperança mas também de luta, de dedicação, de persistência, de vontade de
continuar, de mudança.
Que sejamos nós. Quem? Cada um que quer/precisa que a
mudança lhe aconteça. E se essa mudança
não acontecer neste dia, neste mês, então, não desistam. Continuem a regar a
semente e acreditem, quando chegarem ao fim deste ano vão ter uma árvore, com
flores e com frutos.
Os frutos do nosso trabalho, da nossa fé, da nossa
capacidade em persistir e lutar pelos nossos desejos. No final deste ano quando
regressarmos da festa, vamos encontrar algo diferente nas nossas vidas: nós, ao
colhermos o que plantámos…
quinta-feira, 28 de dezembro de 2017
sexta-feira, 22 de dezembro de 2017
quinta-feira, 21 de dezembro de 2017
Post.it: Fazes-me falta
Fazes-me
falta, o Teu calor quando me estás no coração. O Teu sorriso quando me dás
pensamentos de alegria. O teu amor quando me sinto reconfortada. A Tua mensagem
de esperança que me faz acreditar que o dia de amanhã será melhor.
Fazes-me
falta para que a solidão seja afastada
pela Tua companhia. Que o silêncio se preencha pela Tua voz em mim. Que a Tua
presença se manifeste nas pequenas e nas grandes coisas, nos gestos de
conhecidos e de anónimos.
Fazes-me
falta para Te encontrar em cada rosto triste que perdeu a tua luz. Em cada
passo lento que se perdeu do Teu caminho.
Em
cada mão vazia que já não se estende para o outro num gesto de quem dá ou pede
ajuda.
Fazes-me
falta para preencher este vazio de sonhos, este frio sem ânimo, esta paisagem a
que o fogo roubou o verde, estes rios que sem chuva se tornaram riachos.
Fazes-me falta, acredito que fazes falta a muitas pessoa que perderam familiares, amigos, casas, que
perderam tudo ou quase tudo que era a sua existência. Aos que sem tecto e sem
afecto dormem nas ruas, aos que sofrem nos hospitais, aos que sofrem nos seus
lares. Fazes-lhes falta, muita falta, para sentirem que a vida ainda tem
sentido, que a felicidade mesmo que tarde, um dia vem.
Fazes-nos
falta, hoje, sempre, vem, estamos à Tua espera neste Natal para festejar a Tua chegada a cada um de nós.
segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
Trazia no olhar mundos tristes
O que me lembro, não sei, Sinto que no seu olhar, viajei,
Por montes, vales, histórias,
tantas, todas, boas memórias.
A voz, qual balada embaladora,
Era de toda a dor conciliadora.
Não era o que por vezes dizia,
Era sobretudo, como o fazia.
Os gestos, asas a pairar
Raios de sol em tons de luar.
Á sua volta tudo era mar,
Mas de um suave navegar.
Mas de tudo a maior recordação,
Foi o silêncio que vem do coração.
Quando um dia timidamente sorriste
Vi que no olhar havia um mundo triste.
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