sexta-feira, 27 de abril de 2018

Post.it: Sorriso(s)

Os sorrisos, são todos diferentes, raramente reparamos nisso, mas é verdade, são diferentes. Como comparar o sorriso de uma criança, ainda tão cheia de confiança, tão cheia de futuro, tão dona do mundo, com o sorriso parco de quem já viveu todo esse futuro e lhe chama agora passado.
É diferente o sorriso de quem chega, do sorriso de quem parte. Um e outro carregam uma espécie de mágoa, a do regresso por ter partido, a de partir sem saber se regressa.
Se os sorrisos falassem, quantas coisas nos diriam, como nos surpreenderiam pela sua profundidade discursiva, pelas ideias, pelos sentimentos. A verdade é que os sorrisos falam, mas nós não conseguimos escutá-los com os olhos e ficamos a olhar para eles na esperança que sejam isso apenas, sorrisos…
Pensa-se que m sorriso é uma manifestação de alegria, uma espécie de felicidade contida, com receio de nos ser roubada pelos infelizes, esses que já nem sequer sabem sorrir.
Mas o sorriso tem muitos sorrisos contidos no seu, quando ele sorri até aos olhos, quando nos enche o rosto de orelha a orelha, também pode ser tímido, um tanto envergonhado por sorrir sem encontrar para isso uma razão, é apenas um gesto, que diz tudo, ou seja nada, porque quando as palavras já não fazem sentido para justificar a vida, encolhe-se os ombros e sorrisse, assim,  ninguém o questiona e com um pouco de sorte ainda o retribui.
E uma espécie de código, que usamos, que aceitamos, quando os outros nos calam com um sorriso. Quando nos desarmam com um sorriso e, nós, sorrimos também. Que fazer? Matar aquele sorriso? Arrancá-lo de um rosto e ver no seu lugar surgir um rio incontido de pranto? Não, que sorria, que acredite que é um sorriso de alegria, que nos faça acreditar que ele é o caminho para um por pôr-do-sol quando o astro rei, também ele, nos sorri, até mesmo quando chove…



segunda-feira, 23 de abril de 2018

25 de Abril

Com um pouco de boa vontade,
Com palavras de livre expressão,
Pode pelos rios da pura bondade,
Navegar livre e solidário o coração.

Quando o fim à xenofobia.
Der início a cada sorriso.
Onde a paz em cada dia,
Diz que lutar não é preciso.

Dizemos não às armas letais,
Dizemos não a qualquer prisão.
Que nos nega o sermos iguais,
Em direitos, verdade e razão.

Só então haverá democracia,
Só então haverá identidade.
Quando a popular soberania,
Festejar sem medo a Liberdade.

Venham os cravos mais de mil,
Vamos com eles fazer um jardim.
Para que o nosso 25 de Abril, 
Nunca venha a conhecer um fim.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Post.it: Medir a tensão


Agora tenho que medir regularmente a tensão arterial para aferir se aquele pique foi um episódio isolado ou se me tornei hipertensa, coisas de viver nesta vida, nesta sociedade, neste clima, nesta economia, nesta crise humana ou desumana. 
Enfim, faz parte, começo a mentalizar-me, as peças avariam, os feixes entram em colapso, o corpo em queda e a alma, quiçá, um dia em voou. Mas entretanto vou cumprindo as ordens médicas, e medir a tensão é uma delas. Ora lá vamos nós, tirar o aparelho da caixa, espera Polinho, já te mostro o que isto é, tira-te da frente, porque senão nem eu consigo ver como isto funciona. 
Então, colocar a braçadeira no braço, no meu braço, Polinho não no teu focinho peludo. Não espera, isto não é para roeres, ainda furas a câmara de enchimento. Ufa! Consegui prender isto ao braço, foram quantas tentativas? Umas 10, mas quem está a contar? Agora é encher com ar, carregar no botão (iniciar) e deixar a máquina fazer o seu trabalho. 
Não, Polinho era para ligar, não para desligar!
Ok, recomeçar, carregar no botão, desta vez o enchimento começou sem interrupções. Começo a alegrar-me com o facto, mas, Polinho! Sai de cima do aparelho, que apita ERRO, ERRO, ERRO!. Já ouvi, ó máquina, cala-te, ou melhor desliga-te!...
Novamente, respirar fundo, recomeçar… Iniciar, encher de ar e aguardar pelos valores lidos da minha tensão.
Com o braço direito imobilizado para fazer a medição, tento com o esquerdo segurar o irrequieto Polinho que tenta saltar de novo para cima do medidor de tensão. Tanto se mexe que lá consegue libertar-se da prisão do meu braço e aterra feliz sobre o aparelho, este em angústia grita de novo, ERRO. ERRO. ERRO.
Desisto, hoje não vou medir a tensão, mesmo que conseguisse iria certamente dar valores demasiado altos. E o médico se os visse na consulta afogava-me em medicação: hipotensores, calmantes, diuréticos, sei lá mais o quê. 
Enquanto eu, impávida e serena com o meu ar de (quase) infinita paciência, perguntar-lhe-ia, 
-  Posso dar algum deles ao meu cão?


terça-feira, 17 de abril de 2018

Post.it: Boas leituras

Não gosto de escrever assim, como quem arranca flores à primavera e de repente, perdem-se as cores, perdem-se as sensações mais doces, resta apenas um certo vazio no peito, um opaco no olhar e na boca um silêncio cheio de palavras abstractas. Chamam-lhe escrita moderna, uma escrita que se lê veloz e se acaba cansado como quem vai ao ginásio exercitar o corpo e se esquece da mente. Como quem acelera o coração atrás de uma emoção e quando a apanha, sofre uma decepção, não era ela, apenas era parecida com aquela, aquela com que sonhamos e que acordamos sem a chegar a abraçar.
Sim, porque, hoje na escrita, fala-se com demasiada ligeireza de abraços, mas eles nunca nos chegam  a aconchegar. Fala-se de beijos que são deitados ao ar como se fosse um bouquet de noiva, que todos querem apanhar mas nunca apanham.
Mas é escrita moderna, quem não a reconhece, quem não a aprecia, é catalogado de antiquado, retrógrado e uns quantos mais piropos.
E depois, escrevem-se linhas e linhas com palavrões e ultrajes…, linguagem popular, dizem. Estão no dicionário, afirmam,  com as armas literárias de quem as usas sem ter noção do quanto podem ser letais. 
Então, pego nas minhas páginas rabiscadas, porque sim, é assim que as vejo quando as comparo com a tamanha eloquência da novas tendências de moda literária, arrumo-as na gaveta. Dizem que a moda é cíclica, quem sabe um dia, voltam a estar em voga os sentimentos mais ternos, as frases mais extremosas, as palavras mais polidas, a delicadeza dos termos, a cortesia das expressões e o que se escreve ganhe novamente um sentido de viagem que leva o leitor pelos rios da fantasia, desembocando no mar das emoções e depois de vendavais, a bonança de um fim, não necessariamente feliz, mas que nos deixe algo em que pensar, que nos preencha de prazer e de uma felicidade que só conhece quem lê um bom livro.


sexta-feira, 13 de abril de 2018

Post.it: Essa menina

Às vezes, sinto-me a menina que nunca fui. Com uma flor no cabelo, de saia florida, sapatinhos brancos e gestos de inspirada bailarina rodopiando sobre a relva. Às vezes sinto-me a criança que nunca fui, correndo num jardim, feliz, tão feliz que quase podia voar e ficar no céu a pairar na companhia das gaivotas. Uma menina que cresce sem mágoa, que tem no rosto o sorriso infantil de quem nada sabe da vida e acredita que tudo não passa de uma brincadeira. Só com a  preocupação de construir  casinhas de legos, arrumar as de panelinhas e fazer chás para as bonecas.
E à noite com o cansaço de quem teve tempo para brincar,  adormecer numa cama fofa como se fosse uma nuvem, num quarto que tem nas paredes desenhos de prados e animais da quinta e no tecto quando a luz se apaga cintilam luminosas  estrelinhas.
Dormir embalada pela  voz melodiosa de  quem conta uma história de aventuras de animais que são heróis, não por terem super-poderes mas porque ajudam os amigos sempre que eles estão em perigo.
Às vezes procuro por essa criança, algures,  dentro do peito, nos confins da memória, enquanto me olho no espelho em busca do sorriso dessa menina. Imagino-me, porque só a imaginação assim me consegue ver, só ela me consegue encontrar por entre os meandros da minha história, a minha verdadeira história.
Então rasgo cada recordação e escrevo em mim a menina que queria ter sido. Conto-me histórias e adormeço a sonhar com elas. Um dia vou ser essa menina e a flor no cabelo lembrar-me-á aquela eterna primavera, a saia florida dançará ao vento, e eu, pobre de mim tão pouco habilidosa para as artes da dança, ganho jeito e danço finalmente nas asas de uma gaivota. Com ela elevo-me até aquela estrela que nas alturas celestes me guia à noite e consigo vê-la mesmo de dia, dizem que é a alma de alguém que gosta de nós, por isso, gosto dela, mesmo sem lhe conhecer o nome.
Às vezes, sinto-me a menina que não fui, sinto-a pulando-me no peito, rindo-se nos meus olhos, estendendo-me as mãos e dizendo-me baixinho, que ainda temos muito que brincar antes que a noite chegue, antes que adormeça para no dia seguinte ao despertar voltar a ser, apenas o que sou.
Mas algures entre a linha do horizonte e a infinitude da vontade, lá, onde não existem delimitações temporais, por um breve instante, sou essa menina, acredito que sim, mesmo que seja apenas num sonho.


segunda-feira, 9 de abril de 2018

Post.it: Um sorriso

 “Tens  uma escrita urgente como se tivesses pressa de dizer tudo o que te vai no coração”. É o que me dizem, não comento, sorrio. Como em tudo na vida, sorrio. Sempre me pareceu a melhor solução, ou pelo menos a de efeito mais rápido.

Um sorriso que a tudo parece responder, que com tudo parece concordar. Mas que penso, que sinto? Confesso que escrevo com pressa, num ritmo que nem eu consigo acompanhar a ordem ou desordem das minhas ideias. Tento apanhá-las, escapam algumas, não desisto da corrida e algures no tempo da escrita, encontro-as, sorrindo, sim, porque também elas sorriem, estão à minha espera.
Na verdade não querem fugir, mas ser apanhadas, captadas algures dentro do peito. Por vezes sinto-as como folhas esvoaçantes no vento, outras, simplesmente pairam no ar, pacientes de que as escreva, que lhes dê visibilidade.
Claro que também há momentos em que as palavras me pesam, me magoam como se para as pronunciar tivesse da as arrastar pela vida fora, aprisionam-me a um passado que quero distante. “Um dia destes emigro, abandono-vos e vou viver para o futuro”. Parece uma frase louca, mas loucura maior é ficar nesta “prisão” que não me redime, apenas me oprime.
Resta-me o sorriso, essa quase “mentira” de um músculo do rosto, o que importa é que acreditem e acreditam.
Já me chamaram emoji! Porquê, estou amarela?
-  Não, estás sempre a sorrir. Então rio ou talvez seja apenas uma ruga de expressão que dá essa sensação.
Viro as costas, meto as mãos nos bolsos e lá vou bamboleando um fado de viela, ou como já dizia o outro “ mais vale só que mal apaixonado”.
Gracejando como se o coração também me sorrisse, “mas para isso é preciso fazer cócegas na alma”. 
Afinal, o passado só está na nossa cabeça, já o futuro estará sempre nas nossas mãos.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

As duas margens

Eram duas margens,
Separadas pelo pôr-do-sol.
Eram duas miragens,
Embaladas pelo rouxinol.

Que numa épica canção,
Faz do sofrer uma melodia.
A história de uma paixão,
Que não saiu da fantasia.

Não, por ser proibida,
Não, por amor não ter.
Porque nasceu dolorida,
Antes mesmo de acontecer.

Amores desencontrados,
Nas margens e no querer.
Corações sem ser amados,
Por quem amado quer ser.

Assim canta o rouxinol,
No despertar da madrugada.
Quando já se avizinha o sol,
E no coração a emoção é calada.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Post.it: O pescador

Um dia, promete-me que irás contar-me o teu segredo, esse que te faz sorrir como se conhecesses todos os mistérios do universo. Um dia ainda me irás contar o que te faz contemplar cada dia com o olhar ainda maravilhado, como se fosses uma criança que só agora começa a descobrir a vida.
Um dia irás revelar-me a fonte de ternura que tens dentro de ti, de onde ela vem, que foz leva até esse rio caminho para o mar e a torna assim tão imensa,  tão inesgotável.
Diz-me por palavras, por gestos, por silêncios tão cheios de conversas, aí onde me desvendas quem és, nessa tranquilidade e nessa harmonia de existir.
Porque uns passam sem ver quem os rodeia, outros passam simplesmente sem ser vistos.
Uns e outros passam. Uns e outros ficam, algures, na história ainda que célere da nossa memória.
 “O que importa é a passagem e não o passar”, diz empertigado um intelectual com ares de filosofia egocêntrica e pouco, muito pouco metafisica.
O velho pescador não se perde em devaneios, ele que é, um mar com um rosto queimado de sol, com olhos cansados ainda conservam o olhar de farol cuja luz que se estende para lá do horizonte, já pouco ou nada tem para dizer, tudo lhe fica em silêncio no peito.
“Sei lá o que importa”, murmura com voz cavernosa de tantos cigarros chupados enquanto espera que o peixe morda o isco.
Talvez apenas o ar que nos enche os pulmões, o sol que nos inunda o olhar, as nuvens que nos são suaves sombras. Tudo o resto é filosofia, tudo o resto é fantasia. “Tudo o resto é gente nesta ilha que somos”. E o que somos é um pouco de tudo e um pouco de nada, como “o oceano que contém a gota de água mas também a gota de água contém o oceano”, nós contemos a pessoa humana, mas também a pessoa humana contém a humanidade.
“O que importa é passar, sinal de que se esteve”, comenta o velho lobo-do-mar enquanto remenda a rede de pesca.


quarta-feira, 28 de março de 2018

Post.it: Momentos

Por vezes agarramos o momento, mas o momento não era o nosso. Por vezes deixamos passar o momento quando o devíamos ter detido porque ele era, o nosso momento. É difícil gerir os momentos ou saber em que momento estamos.
E nesse decidir ou hesitar, eis que por nós passa a vida, como se fosse uma passadeira rolante com tantos momentos à nossa escolha e,  nós sem saber qual escolher.
Será pontaria?
Será do dia?
Será sorte ou azar?
Algo que anda no ar?
Rapidez, lentidão?
Escolher com a cabeça ou o coração?
Tão pouco sabemos, mas lá vamos vivendo, entre o certo e o errado, tentamos, sem conseguirmos passar nos intervalos da chuva sem nos molharmos, sem sofrermos a consequência das nossas escolhas. Claro que por vezes, muitas vezes, essas escolhas trazem-nos por consequência a alegria impar de nos abraçar e fazer-nos sentir afortunadas. 
Mas outras tantas vezes o cansaço de tantas escolhas, de tantos momentos,  diz-nos para nada fazermos, deixarmos a sorte navegar, quem sabe em vez de escolhermos, sejamos escolhidos, em vez de decidirmos, decidam por nós. Mas até isso é uma decisão, até isso é um momento, aquele em que resolvemos não agir quando, era mesmo ali que devíamos ter agido, escolhido, para vivermos o melhor possível, o momento.


sexta-feira, 23 de março de 2018

Port.it: Filas de trânsito

O trânsito está péssimo! Os combustíveis baixaram, o preço dos carros baixou, as cartas de condução baixaram, a crise “passou”. De repente tudo aumentou, a estatística dos acidentes, o número de carros em circulação, todos os membros da família na mesma casa passaram a ter carro, e que juntando ao seu carro ainda trás para casa o carro do serviço, os estacionamento diminuiu, as filas de trânsito aumentaram. “Levanto-me cada vez mais cedo, saio de casa muito antes do que antes saia e chego ao emprego cada vez mais tarde!”
 “Antigamente a fila de carros parecia apenas uma minhoca, agora são enormes serpentes”, comenta uma amiga.
Bem, do mal o menos, dá para ir apreciando a paisagem e de vez em quando para bisbilhotar os hábitos dos vizinhos de viagem, no carro vermelho ao lado (não se pode falar de marcas) 2 crianças dormem nas suas cadeirinhas, vão para o infantário, ou para a casa da avó? O veículo que está na faixa da esquerda fala sozinho e esbraceja, deve estar a falar para o telemóvel, hoje em dia já ninguém fala sozinho, há sempre um outro alguém do outro lado da linha.
À minha frente uma nuvem de fumo invade o habitáculo do veículo, por instantes assusto-me, mas depois percebo que é uma nuvem tabágica. O vizinho de trás vai bebendo um iogurte enquanto a mulher aproveita para fazer a maquilhagem que não teve tempo em casa. A fila anda um pouco e mudo de vizinhança, os da direita parecem estar a dormir de olhos abertos de tão estáticos que estão, o da esquerda debate-se com as andanças do seu cachorro dentro do veículo tentando a todo o custo passar para o volante fazendo as vezes do motorista, deve estar a pensar que quem sabe ele conduza mais depressa que o seu dono.
O sol brilha, uma quase raridade por estes dias de um inverno que nos tem chegado em versão condensada. Lá mais a diante no horizonte, um arco-íris com a beleza de todas as suas cores. Mas eis que de repente uma escuridão se aproxima, “vem lá chuva” dizem os olhares inquietos dos meus vizinhos. Quando atónica vejo uma nuvem pesada e grande que se vem aproximando devagar, desfilando graciosa, passa por mim no seu céu límpido e sem filas de trânsito para a minha frente. Alguém comenta, “Bolas até fui ultrapassada por uma nuvem”!

segunda-feira, 19 de março de 2018

Post.it: o último dia de Inverno

Hoje o calendário diz que é o último dia de Inverno,  apesar de ter sido uma estação cheia de “personalidade”, deixa-nos certamente alguma incerteza, será que para o ano regressa?
Porque, admitamos,  nunca um inverno foi tão desejado, tão esperado, tão ansiado,  segundo sei, chegaram a fazer missas, procissões, e longas e fervorosas orações.
Queríamos que viesse, mesmo que isso implicasse trazer a “família” e os “ amigos” em forma de ventos, tempestades,  trovoadas. E assim ela trouxe a Ana que nos abanou logo no início do ano, depois o Bruno, mais suave mas bem presente, o David não faltou à festa e deixou breves memórias, quanto à Ema a ilha da Madeira não se esquece dela nos tempos mais próximos, já o Continente sentiu bem a estadia do Félix, a última visita deste Inverno foi a Gisele que não se fez rogada em gargalhadas de vento e longos abraços marítimos. As consequências foram variadas e mal nos deixava um, ainda mal recuperados, já outro nos entrava pela casa a dentro, abanando portas e janelas, criando inundações, partindo vidros, arrancando telhados, dando asas às árvores e ondas aos rios mais serenos.
Foi realmente um inverno inusitado, dizem os estudiosos destes fenómenos meteorológicos que o futuro estará repleto deles.
Mas apesar de todos os problemas que causou, precisávamos deste Inverno, talvez não tão acentuado, mas precisávamos dele para evitar a seca, para nos apagar os fogos da lembrança, da dor que o verão deixou neste país escuro de queimada e de mágoa. Mas precisávamos dele também para nos trazer a Primavera, para que as flores voltem a desabrochar, para que as andorinhas nos voltem a visitar, para que os ninhos voltem a ter ovos, para que as abelhas voltem a produzir mel que nos faça esquecer de todo o fel.
Hoje também é dia Do Pai, fez-me lembrar uma história que me contaram em  criança,  “O Inverno era um pai, por vezes com voz forte e autoritária, mas também oferecendo caricias de chuva. Que a Primavera era a sua esposa e a mãe da natureza, quanto aos filhos: Verão, sempre rebelde, rasgando as ondas com o seu sorriso e uma quente e eterna jovialidade; o Outono, mais atinado, calmo, obediente, dando ares do pai nos tons cinzentos do céu, mas também parecendo-se com a mãe na forma como acalenta as folhas caídas sobre o chão”.
Uma família como a nossa, em que cada um com as suas características, cumpre o seu papel. Agradecemos ao Inverno a tarefa árdua de “regar” este jardim que é a terra e desejamos que as outras estações venham também elas na sua faceta de dar continuidade à subsistência da vida neste Planeta, quanto a nós, também temos um importante papel, o de respeitar e conservar o  meio ambiente, que é o nosso lar.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Post.it: Faz de conta...

Apõe-se no meu braço D. Joana. E ela apoia-se, mas nenhum apoio lhe é suficiente, os pés sem quererem caminhar, não lhe obedecem, o corpo não se move e a voz outrora sempre tão faladora faz um silêncio sepulcral.
 Páro, olho-a, as lágrimas deslizam-lhe pelo rosto e, no entanto, nem uma palavra, nem uma queixa.
A Dona Joana vai para um lar de idosos, hoje em dia têm nomes tão pomposos que  quase imaginamos uma estância de férias, mas não são; como a D. Joana diz, “são armazéns de velhos”.
Quer sair de casa, ou melhor não quer, precisa. Os filhos não podem cuidar dela, o marido partiu e ela hoje mais do que nunca, deseja ir para junto dele. Só conheceu duas casas, a da sua infância que era a casa dos pais e depois a sua, para onde foi depois de se casar, ali cresceram os filhos e os netos. Aquelas paredes contam histórias, no corredor ainda ouve os passos em corridas das crianças. Nos soalhos da sala ainda é visível a nódoa gasta de tão esfregada, quando o filho mais velho entornou a travessa do cabrito assado, foi um susto, se ele se queimasse, mas não, acabou tudo em risota, enquanto ele chorava, não de dor mas por pena de ter ficado sem refeição, foi um almoço de Páscoa diferente, feito de pizzas descongeladas à última hora.
Este ano também a Páscoa será diferente, sem filhos, sem netos, à volta da mesa, só rostos estranhos, com ar de condenados por um crime que desconhecem ter cometido. E à noite o quarto será partilhado com alguém a quem o destino sempre diferente, de repente, tornou-se comum. Talvez rezem juntas, talvez chorem juntas, talvez sonhem o mesmo sonho. Estão nas suas casas, com as suas famílias…
- Vamos D. Joana, a sua filha está lá, em baixo no carro, à espera.
Porque nem ela conseguiu arranjar coragem para ver a mãe sair daquela casa onde sempre a viu abrindo-lhe a porta, recebendo-a com um sorriso, beijos e abraços. – Ó mãe só fui passar o fim-de-semana fora. – Eu sei, mas no coração de mãe, as saudades não se medem em tempo mas em distância, e tu estavas muito longe, não te conseguia abraçar.
- Vamos D. Joana, deixe-me só fechar a porta. 
- Não, não feches a porta. Deixa-me fazer de conta que vou só ali e já volto…

segunda-feira, 12 de março de 2018

Post.it: Perder o medo

Um dia, deixamos de ter 20 anos e, de repente, os 30 anos já passaram. Os 40, foram um saltinho, apenas um saltinho para os 50. Assim nos foi a vida, um carrossel giratório, uma montanha russa de altos e baixos, de curvas apertadas. Quantas vezes pensamos que ia ser o colapso, mas não. Foi apenas o começo de novos momentos.
Contaram-me em miúda uma história… Havia um menino a quem o Medo chateava e humilhava com brincadeiras que o deixavam triste e só. Um dia ele decidiu combater o Medo à sua maneira e dai em diante ignorou-o, desprezou-o como se ele não existisse. O Medo remetido à solidão, ficou fraco e triste, primeiro, encolheu-se num canto, depois, foi-se embora e segundo dizem, nunca mais ninguém o viu. Moral da história, porque estas histórias tinham sempre uma, o miúdo tinha medo de quase tudo, mas cansou-se de ser gozado pela sua “fraqueza”, por isso, escondeu o medo no recanto mais profundo do seu ser e dessa forma, revelou uma força de vontade capaz de superar o seu medo e, daí em diante, todos os o invejaram e o João-com-medo passou a ser chamado João- coragem.
Histórias infantis, pequenas lições de crescimento. Porque um dia, seja ele qual for, todos nós “esconderemos” os nossos medos para que eles não nos dominem e, nessa altura, vinda não se sabe de onde, surgirá a nossa coragem.
É quando vamos perceber que, na vida, o importante não é ter ou querer ter muito, mas que o suficiente nos basta. Desde que tenhamos tentado tudo para vencer.
Que somos felizes com tudo o que temos, que amamos o que devíamos e, se perdemos, perdemos apenas o que, no fundo, nunca foi nosso.
Perdemos o medo, mas em troca ganhámos a coragem.


terça-feira, 6 de março de 2018

Quase segredo

Não chega a ser segredo,
Esse trépido e doce medo,
Em que a alma quase nua,
Dança suave na luz da lua.

Por entre a sombra do amor
Debruça-se em haste de flor.
Tão simples, quase desajeitado
Mas serenamente, encantado.

Lábios sedentos de mil fontes,
Gestos ávidos de horizontes,
Só o luar não ilumina os corações,
De olhos que são constelações.

Depois alegres em sonhos cansados,
Adormecem o amor ainda abraçados.
Se a vida fosse flor, seria malmequer,
Despetalada ganharia o bem-me-quer.




sexta-feira, 2 de março de 2018

Post.it: Dramas de uma mulher do século XXI

Sou uma mulher ciumenta, assumo! Mas que fazer sinto-me demasiadas vezes sozinha, traída, abandonada, esquecida…
O meu marido fica horas a ver televisão, sobretudo os jogos de futebol, o meu filho leva o dia inteiro a jogar na consola de jogos, a miúda está sempre a teclar no smartphone conversando com as amigas, até o mais pequeno prefere brincar com o tablet do que ir correr no parque, porque está sol, está frio, sei lá que mais...
Outro dia fui ao médico, que diga-se em boa verdade também não me ligou a mínima, entrei e mal me olhou, baixou os óculos “tirou-me as medidas” e  voltou a fixar o olhar no computador, - Ora diga lá o que a traz cá.
-  Cansaço, tristeza, solidão, uma dorzita aqui, outra acolá… Respondi-lhe.
Não me deu resposta, escreveu, escreveu e depois tentou imprimir uma receita para me  despachar, a consulta só pode demorar no máximo 15 minutos,  mas a impressora não quis colaborar, teve um bloqueio “existencial” e lá ficámos ambos a olhar com curiosidade para ver se a dita  cuja, maquineta ia ou não “cuspir” a folha com o nome do remédio milagroso para as minhas maleitas. Coisas “próprias da idade” dizem-me para me consolar, mas tenho para mim que a causa principal, está nas novas tecnologias que me vão fazendo sentir cada vez mais “dispensável”. Confesso já lhes tenho raiva, fico furiosa de ciúmes!
Uma noite destas quando estava com uma das minhas insónias, o meu marido deixou escapar num suspiro o nome de uma Sofia enquanto sonhava, surpreendida, abaneio até o acordar.
- Estavas a sonhar com uma Sofia? Quem é essa?
Estremunhado de sono e surpresa, disse que no seu sonho estava na web summit a falar com a robot Sophia, aquela criatura de inteligência artificial que disse com ar arrogante que nos vinha roubar os empregos, mas será que também vem “roubar” maridos?
Desabafei com uma amiga os dissabores da minha vida, mas ela estava demasiado ocupada em encontrar no GPS uma forma mais rápida de ir até ao centro comercial fazer compras.
Cheguei a casa a atirei-me para cima do sofá, quase de imediato recebi o meu cachorro aos pulos sobre mim.
– Só tu é que me ligas não é meu cãozinho?
Como se me quisesse dizer algo, lambeu-me a cara e correu para a máquina lançadora de bolas automático, num apelo saltitante.
– Ok, já percebi, queres que ligue a maquineta para jogares à bola, não é? Nem tu precisas de mim para  brincar, basta que ligue o botão e ficas horas a apanhar bolas que a dita máquina te lança. 
Bom, do mal, o menos, pelo menos não preciso de cozinhar, a Bimby encarrega-se disso. Ponho a roupa na máquina e ela lava-a, tiro dessa e coloco na outra que a seca. A loiça também vai para a máquina e pronto fico com mais tempo para conversar com… alguém, no facebook.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Post.it: O nosso tempo

O tempo passa, dizem. Mas talvez não passe, e sejamos nós não quem passa por ele. Nós com os nossos dias e a nossas noites. Com as pessoas que nos entram pela vida e as que saem avisando ou não. Pessoas que nos preenchem ou pessoas que nos esvaziam. Por entre as flores que nascem e murcham. Por entre árvores vestidas no calor ou se folhas despidas por um sopro de vento. Por entre as altas ondas e a doce acalmia. Por entre cais que são de chagada mas também de partida para  outros.
O tempo é sempre o mesmo, existe sem tempo, sem demarcação, não começa, não acaba, apenas existe. Nós gostamos de o rotular, de lhe colocar por datas, de o acondicionar nas páginas de um calendário, de o aprisionar em correntes de horas, em laços de meses, em fios de anos. Guardamo-lo em pedaços de memórias e chamamos-lhes, recordações. Sufocamo-lo no peito e chamamos-lhe saudade.
Enquadramo-lo segundo o frio e o calor, entre a chuva e o nascimento das flores e chamamos-lhes estações do ano, apeadeiros de encontros e desencontros.
Vem ao mundo e chamamos-lhe nascimento, damos-lhe a mão e dos passos periclitantes aos passos firmes chamamos-lhe crescimento.
A tecnologia expande-se, as pessoas mudam, chamamos-lhe evolução. A economia tem ganhos, tem perdas, a política manda e desmanda em todos os destinos e nós chamamos-lhe desenvolvimento. Cansamos-nos do nosso tempo, zangamos-nos com ele e chamamos-lhe revolução.
Culpamos o tempo da sua pressa, quando é nossa a lentidão. Acusamo-lo de morosidade, quando somos nós quem vai demasiado depressa.

O tempo não existe, o tempo não é alegre ou triste. Não tem principio, não tem fim. São definições nossas, num tempo que não é tempo, é o nosso tempo a permitir-nos sermos apenas nós.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Post.it: Do your mind

Outro dia li um titulo,  nesta moda de se escrever, de se dizer tudo em inglês, “Do you mind?”. Já comentei que um dia o inglês vai torna-se a nossa língua oficial, mas dizia eu que li esta frase, mas como nos é habitual lia apreendendo a ideia em geral, sem ler o lá estava realmente escrito, e o que  li foi “ Do your mind”.
Achei curioso o engano, talvez influenciado por uma corrente de pensamento que tem vindo a ganhar forma, que nos demonstra que somos o que pensamos, que o nosso cérebro por vezes condicionado pelos nossos receios e angústias nos engana, nos condiciona, apresenta-nos perigos que não existem.
Dá-nos receios sobre acontecimentos num futuro que podem nem suceder, mas nesse entretanto criámos expectativas, ansiedades desnecessária. Ora se o cérebro nos engana, nós também o podemos enganar, dizia-me outro dia a minha mestre de ioga. Vamos dizer ao cérebro que estamos bem, que estamos felizes, que a dor não nos dói assim , tanto 
Testei a hipótese, depois de muita insistência em querer contrariar a tendência de ser condicionada, pasmei; o cérebro acreditou em mim! E devagar, muito devagarinho, foi relaxando, foi sorrindo, foi-se aconchegando na mensagem de tranquilidade que lhe ia enviando.
É verdade, mesmo verdade que nós podemos fazer o nosso cérebro pensar algo positivo em vez de nos deixarmos dominar por pensamentos negativos que ele cria, quando ele nos diz que vamos cair, não nos está a evitar o perigo, como sempre nos fez acreditar, na verdade está a criar em nós o medo da queda, quando nos diz que estamos a ser traídos, humilhados, não é verdade, quem nos está a magoar são os nossos pensamentos, os nossos medos infundados, as nossas inseguranças a falarem mais alto, a gritarem dentro nós.
Está na altura de sermos nós a falar, a contrariar a tendência que temos em nos acomodarmos, de nos deixarmos guiar pela imaginação, pelos nossos fantasmas e assim vermos/sentirmos coisas que na realidade não existem.
Que tal ganharmos força e coragem não para vencer os outros, mas para vencermos as nossas próprias condicionantes. Alguns passos:
“Goste mais, acredite mais e seja mais feliz.”
“Os problemas têm a exacta importância que lhes damos.”
Até pode ser que não aconteça mas visualizar um momento bonito viver faz-nos felizes adormecer.
Limpe a mente e cultive apenas bons pensamentos.
“Não podemos ter todos os dias bons mas podemos ter algo bem todos os dias.”
O cérebro precisa de motivação, incentive-o, encoraje-o.
O cérebro precisa de inspiração, diga-lhe coisas bonitas. Afaste os pensamentos negativos. Nada é tão mau quanto parece. 
Se o seu cérebro dominar o seu espaço não viva com esse nó, faça um laço…

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Post.it: Gaivota de asa ferida

Não sei o que é feito de ti, de mim, em resumo, ando por aqui. Uns dias melhor, outros pior. Há dias de chuva, há dias de sol. Há dias cheios de histórias, acontecimentos que à noite, apenas quero esquecer no dormir. Há dias em que acontecem coisas tão boas, que à noite não quero adormecer, para não esquecer. Há dias em que me questiono sobre o objectivo do existir, sobre mim, sobre os outros, sobre a diferença, sobre a indiferença. Há dias em que sinto que sei todas as respostas e isso tranquiliza-me, por outro lado que sobre as que não sei, simplesmente aceito a forma como são e sigo em frente. No fundo a vida é isso mesmo, seguir em frente com maior ou menor dificuldade.
Há dias em que sinto que nada me derruba, sento-me imortal, construtora da minha vitória, sabe bem esta confiança quase inabalável, esta fé, esta coragem, esta alegria, esta… hesito um instante para a nomear e concluo num desabafo, esta felicidade!
Sim porque sou feliz, nesses dias, nesses momentos e celebro o sol por entre a chuva e as flores por entre os espinhos.
Mesmo que amanhã tudo seja diferente. Que o amanhã me roube este sentimento, que venha qual ladrão voraz e queira alienar-me do hoje, do ontem, daquele momento quase mágico, quase perfeito, ainda que essa força negativa venha usurpar as minhas recordações, tenho o agora, e ele está guardado em segurança dentro do meu coração.
Não sei o que é feito de ti, se ao menos, me deixasses cuidar  de ti, se ao menos viesses cuidar de mim, se chegasses  envolta de num manto de luz e amizade para me contares os teus segredos, aqueles que te fazem rir ou até mesmo os que te fazem chorar. A amizade é isso mesmo, a partilha de momentos de luz e de escuridão, se viesses, sei que os meus dias ficariam certamente mais completos com os teus…
Porque na verdade, sinto-me sempre incompleta, nesta ilha singular que nos vamos tornando.
Por companhia, as ondas do mar, os cais vazios, os barcos de redes lançadas, os pescadores sem horizontes, os navios fantasmas mergulhados no oceanos, os peixes em cardume, mas, por vezes ouço ou a minha solidão pensa ouvir o canto de uma sereia… De novo a realidade, uma gaivota irmã solta gargalhadas às asas da minha imaginação e eu batendo asas, procuro uma corrente de ar para fugir, para me encontrar...

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Post.it: Porque é Carnaval

Hoje, só hoje, deixem-me ser quem sou, deixem-me guiar os meus passos, soltar os meus gestos, despir-me de qualquer obrigação moral, religiosa, cultural, educacional e ser apenas eu, pessoa, humana.
Hoje, só hoje vão vou trabalhar, nem acordar cedo e enfrentar a multidão de gente anónima, de rostos que me olham e não me vêem.
Hoje, só hoje vou deixar o smartphone desligado e ter conversas cara a cara, partilhando o mesmo ar que respiramos, o mesmo sorriso que oferecemos.
Hoje, só hoje, vou gritar a minha verdade, dizer que não sou assim, como me imaginas, como queres que seja. Vou dizer-te que também tenho lágrimas mesmo quando rio, que também me magoas mesmo quando digo que está tudo bem. Vou confessar-te que detesto a distância que o silêncio impõe, que preciso de palavras que me abracem.
Hoje, só hoje vou desfilar nua de preceitos, de preconceitos, de mentiras piedosas. Vou fingir que esta que vês, que ouves, a quem chamas amiga, a quem dizes amar, não sou eu, que me disfarcei de pessoa frágil, sensível, delicada.
Hoje, só  hoje, vou desfilar neste Carnaval que é a vida, iludindo-vos, desiludindo-me, mas sendo (real). 
Porque hoje, só hoje, Vou soltar o meu espírito de criança e dançar à chuva, saltar nas poças de água, escorregar na lama, deitar-me na relva e rebolar pela encosta abaixo, desenhar figuras com as nuvens do céu. Soltar bolas de sabão, e abraçar as cores do arco-íris. 
Depois, adormecer cansada e sonhar que o hoje, mesmo que seja só o hoje me vai ficar eterno e feliz, escondido no coração.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Post.it: Mezinhas de colo e carinho

O mundo muda todos os dias, os dias mudam em todas as horas e nós permanecemos. Impávidos e serenos, aparentemente, porque lá dentro o coração pulsa, salta e corre com a pressa de quem quer apanhar o vento.
Cá dentro temos autoestradas de células por onde nos desliza a vida. Por vezes algumas dessas células entram em contra mão e gera-se o caos, de repente ardemos em febre, caímos na cama impotentes, sem forças para travar qualquer batalha.
Depois vêm as mezinhas, um chá com mel, os vírus aplaudem tanto cuidado para os manterem quentinhos e aconchegados, como dizia a minha tia-avó “até lambem os beiços de tanta doçura”. O melhor remédio é um copo de aguardente respingava o meu tio-avô. “ora querem lá ver que o homem quer embebedar a criança!”
E a criança com duas rosetas no rosto esboçava um sorriso, cansada de guerras terapêuticas, adormecia. Era uma criança feliz, à sua maneira, porque as crianças arranjam sempre maneira de serem felizes, de verem tudo com um olhar puro e ingénuo.
Têm uma memória selectiva, amanhã já não se lembram dos “ralhos” de hoje e voltam a brincar, a sonhar, a acreditar, a ter confiança na proteção dos país, a aceitar sem receio os remédios caseiros da tia-avó que a afastava dos disparates do tio-avô.
O mundo muda todos os dias, os dias mudam em todas as horas e nós que aparentemente permanecemos sempre iguais, na realidade também mudamos, ao nosso ritmo. Muitas vezes já sem pais para nos proteger, sem tios-avós para nos curarem com mezinhas de colo e de carinho.
Crescemos e tentamos ser felizes como as crianças, para tal como elas, voltar a confiar, a acreditar, sobretudo a perdoar e a não levar para o amanhã as mágoas do hoje. Entretanto os vírus espreitam sorrateiros por um momento de fraqueza para fazer a sua invasão e nós cansados adormecemos. Não desistimos, não nos damos por derrotados, é uma pequena trégua para recuperarmos as forças, preparem-se vírus amanhã a vitória será nossa.



terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Post.it: O sentir

Escrever é, por vezes, olhar para dentro, falar de nós para nós, dos outros para os outros. Ser um rio que cresce até ao mar e que revela, por vezes, os nossos vendavais. O que escrevemos são fantasias, dizem, supõem. Mas nunca o são totalmente. São sonhos, desejos, aspirações.
É simplesmente o nosso querer que surge, espreitando, em cada letra. A nossa vontade de chegar até vós, que perscruta em cada intervalo de palavras, que se confessa por entre o silêncio. 
Um silêncio que luta para ganhar voz, ser audível aos olhos dos outros, quando captam a mensagem e a enviam para o cérebro, numa intrincada lógica de feixes e neurónios, caminhos e estradas do conhecimento, da linguagem, dos sentimentos, das sensações e, de repente, tudo faz sentido. As letras tornam-se expressão, emoção, fazem rir, fazem chorar, tocam-nos só com o correr da linha, só com a harmonia das frases, com a dança consonante das palavras. 
Lembro-me de quando aprendi a ler, quando as letras unidas começaram a ser identificadas com palavras que, em conjunto com outras, contavam histórias, revelavam coisas que, antes, me pareciam apenas rabiscos ilegíveis. 
Foi uma descoberta, uma conquista, um mundo novo que abriu, que se mostrou perante os meus olhos cheios de curiosidade, famintos de conhecimento. Lembro-me que lia, lia tudo, tudo o que tivesse letras, coisas sem importância que, para quem começa a ler, é magia. 
Uma magia que não sei de onde vem, se das palavras, se dos olhos, se do coração ainda tão puro; ou ainda se vem da vontade, da bondade ou se do cérebro com todas as suas intrincadas ligações, se do simples facto de sermos humanos e não robôs. 
É verdade que tanto nós como eles conseguimos interpretar o código ordenado de símbolos a que chamamos escrita, mas só nós, seres de carne, osso, sangue e alma podemos sentir o que essa escrita nos revela. Por mais sofisticado e inteligente que seja o uso de fibras óticas, por mais pixéis, bytes, mega, terabytes e tudo o mais de que são feitos os robôs, eles podem comunicar, emitir raciocínios lógicos, encontrar soluções. Mas, enquanto não encontrarem uma fórmula lógica para o sentir, só nós, humanos, teremos o privilégio de ter e partilhar sentimentos e emoções.


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Post.It: Mês de S. Valentim

Estamos no mês do amor, mês de S. Valentim. As montras ganham novas tonalidades, novos adereços, lembrando os mais esquecidos, enternecendo os corações mais desatentos. É só um dia, dentro do mês, perdido no ano, hibernando por vezes durante uma vida, mas quando acorda, não é um despertar, antes um renascer.
Não há amor como o primeiro, dizem, mas não é verdade.
Porque não há amor como o último, o que está connosco, o que nos acompanha, o que permanece, o que nos leva cada dia ao seguinte. O que nos faz sonhar e é real. O que nos faz acreditar que o melhor de cada um de nós, afinal, existe e é continuamente dado, continuamente partilhado.
Quanto ao primeiro amor, esse e talvez os seguintes, se por acaso o nosso coração se deixou por mais de uma vez habitar por esse sentimento. Desses amores, fica a história embalando a memória. Foram e serão sempre parte de nós, de momentos, do que nós eramos. E quando a recordação nos questiona se seriamos capazes de sentir aquele amor agora, sabemos, que não. Já não somos totalmente essa pessoa, crescemos, evoluímos, sorrimos, sofremos, houve entretanto tanto mar navegado, tanta terra palmilhada, tanto céu observado, mudamos e hoje somos assim, e assim queremos ser amados. Nós diferentes, os outros, certamente que também passaram pelas suas mudanças e também eles amam de outra maneira, à sua, que já não é a nossa.
Saudades? Certamente que sim, não talvez desse amor, nem dessa flor, mas da primavera que éramos, desse sol que nos inundava o olhar, dessa esperança, confiança, dessa dádiva que sentíamos, no que dávamos e simultaneamente recebíamos.
Seja em que profundidade for que o amor se manifeste, quer seja por uma pessoa que nos é especial, ou por um filho, pais, amigo...
A verdade é que não há sentimento como o amor...






segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Post.it: Homenagem

Passamos dias, meses, largos meses sem trocarmos uma palavra, sem fazermos um gesto, sem nos vermos e no entanto quando há notícias boas ou más lá estás, lá estou, para me ouvires, para te ouvir, para rirmos ou para chorarmos juntas. 
Somos amigas há quanto tempo? Mais de 20 anos, uma grande parte da nossa vida. E nesse, já longo caminho quantas histórias… 
Vi partir o teu filho de mãos dadas, o teu pai, abraçadas, agora a tua mãe que segue para junto deles. 
E quando falo de ti, falo igualmente de outra(s), amiga(s), gosto de sentir que cada uma é especial, única, que a cada uma respondo e correspondo da maneira individual que necessitam, há quem precise de um abraço, há quem lhe baste um estar ao lado, há quem precise de palavras reconfortantes, há quem prefira o silêncio, e ser amiga é isso mesmo saber e respeitar cada um no que é e no que quer nesse seu momento. 
Somos amigas de longa data e isso é bom porque nada se espera, nada se pede, tudo nos é espontaneamente dado. 
Não importa se há outras amigas, se estás mais tempo com elas do que comigo, se não me telefonas, se não me vens visitar. O bom das amizades de longa duração é que não há competição, ninguém é mais amiga que o outra, não há preferidos há apenas o estar e o ser-se amiga. 
O sentimento de amizade deve ser assim, um amor claro e puro, que entra na nossa vida, que se instala no nosso coração e aos poucos torna-se familiar, os seus filhos, são nossos filhos, os seus pais também são um pouco nossos e quando partem, também deixam em nós a mágoa de uma eterna ausência. 
Este ano algumas das minhas amigas estão mais sós, tiveram que dizer adeus aos seus (nossos) entes queridos. Um adeus  a quem nos permanece nunca será uma despedida, ficam na memória. E nós que fomos depositários do seu afecto, levamo-lo mais longe para as próximas gerações. Levamos os seus genes, as suas palavras, os seus ensinamentos o seus que se tornaram nossos momentos. Trocamos o adeus por um perpétuo obrigado. 
Mas porque a amizade não se agradece, partilha-se, o nosso reconhecimento, homenagem e bem-querer para a  D. Madalena, Sr. João e D. Helena. 
Entretanto, um olá de boas vindas à Joana, Diogo, Tomás e Beatriz. 
A vida é igual à primavera, está constantemente a renascer-nos dentro do peito para que as lágrimas não durem para sempre e para que o sorriso nos seja eterno.



sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Post.it: Quedas e afins

Cá estamos nesta “corrida” não em busca da meta, nem a competir uns com os outros, simplesmente a tentar acompanhar a rapidez com que o tempo passa. Tento, acreditem que tento, mas até para mim já vai sendo por vezes difícil acompanhar o ritmo, assimilar tudo o que surge à velocidade que vem e é novidade e à velocidade que se torna obsoleta. 
Temos de nos adaptar às novas realidades, aceitar com similar rapidez as coisas tal como surgem. Mas nem sempre é fácil, ou melhor por vezes é difícil, então agora que ando “coxa”. Eu até tenho alguma “queda” para o disparate, mas desta vez exagerei. E sim é verdade, ainda ando meio ao pé coxinho depois de me ter espalhado ao comprido e ter magoado um joelho.
Percebo agora o quanto é difícil manter  a verticalidade, só não entendia o porquê de tanto esforço, porque não deixar-nos “cair” de vez em quando, ceder ao cansaço, à preguiça, à vontade de nos deixar levar pela força da gravidade. Percebi que pode tornar-se “grave”, que pode magoar, que o chão é duro e a queda dolorosa e morosa no processo de recuperação, felizmente, no meu caso tudo ficou inteiro (acho).
Enfim, tudo por culpa desta “corrida”, deste relógio solar, ou biológico, claro que as bagas das palmeiras caídas no chão também deram a sua ajuda. Mas se andasse mais devagar, se tivesse mais cuidado, se o pensamento não sonhasse, se os olhos não voassem, quem sabe tivesse evitado a queda e hoje não estaria coxeando. A verdade é que não conseguimos evitar todas as “quedas” por mais atentos, ponderados, cuidadosos, por mais joelheiras, cotoveleiras,  capacetes, etc., havemos sempre que cair e rasgar a roupa, a pele, a alma.
São os imponderáveis da vida dirão uns; revelam o quanto somos frágeis, dirão outros, na verdade, mostra o quanto somos simplesmente humanos; sinal de que estamos vivos, prefiro esta ideia. 
Porque estar vivo tem destas e de outras coisas, incapazes de adivinhar o passo seguinte que vamos dar ou noutras situações se esse passo nos trará alegria ou tristeza damo-lo, temos de o dar, parar é morrer e nós para o melhor ou para o pior queremos viver. Nem que seja para nos levantarmos depois de uma queda, sacudirmos o pó, colocarmos um penso rápido na ferida e coxeando ou não, prosseguirmos, se hoje formos mais devagar, amanhã logo recuperaremos o nosso lugar no caminho.