sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Post.it: Livre arbítrio

Sabem aquelas frases de sabedoria popular? Cresci com elas, como se fossem professores de moral, de educação, de formação. Aceitei-as, segui-as, aprendi,  repeti-as até à exaustão. Não por dificuldade em memorizar, mas por dificuldade em encontrar-lhes sentido maior do que o imediato, aquele que nos entra pelos ouvidos, que nos dança com os pensamentos uma melodia que vai ganhando coerência. E de repente torna-se caminho ladeado de muitos e por vezes estreitos limites.
A dada altura os limites, tornam-se sufocantes, asfixiando-nos o sentir. Estava na altura de voar, de superar o mestre, de criar a minha aprendizagem empírica, de cair, de me levantar, esfolar os joelhos.
Experimentar a teoria e perceber a pequenez dos seus horizontes, a diferença que faz o que diz o outro e o que acontece connosco.
Não que acredite que a nós nada de mau sucede, não sou tão positiva a ponto de acreditar que tudo só acontece aos outros, bem, por vezes, a felicidade bate-lhes à porta, quando nem perto da minha passa, mas é melhor parar, porque isso leva-nos por outros labirintos discursivos.
Foi então que percebi que nem tudo é como dizem, que tudo pode ser distinto, que temos a oportunidade de fazer diferente, de fazer melhor, mesmo que o resultado não seja o almejado.
Mas já lá dizia o meu chefe, “é mais importante tentar do que conseguir”. Bom, não sei se é bem assim, porque havia coisas que tentava fazer sem conseguir e ele dizia-me logo,  “pronto, pronto, deixe lá isso, amanhã chama-se o pedreiro, não faça mais buracos porque senão ainda fico com uma janela para a  casa do vizinho, eu só lhe pedi para pendurar um quadro!...”.
Mas cá se fazem, cá se pagam, pensava de imediato. E ele pagou, a conta do pedreiro, quem o mandou dizer-me para fazer coisas que não são o meu ofício?
E depois ainda acrescentam que trabalhar dá saúde?
Que saúde? Contraturas por estar a trabalhar no computador? Tendinites por usar o mouse? Hérnias por carregar caixas e livros. Stress porque nos dão tarefas hoje para estarem prontas (ontem)?
Felizmente existe o livre arbítrio.
Onde cada um tem o direito de fazer o que quiser com a sua vida e escolher o seu caminho.
Mas não esquecer de ler as letras pequenas do contrato civilizacional, 
                                                             desde que isso não prejudique ninguém.






segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Post.it: As estações da natureza

A última flor caiu da haste, uma espera demorada, uma despedida anunciada, uma lentidão dolorosa, dirão uns, ou, esperançosa, dirão outros. Depois a queda, o chão, a  ausência, a solidão. Depois o momento vazio, o vento do esquecimento.
Quanto tempo levou a nascer, a crescer, a revelar as suas pétalas de assombro. Tudo nela parecia um sorriso da natureza, tudo nela resplandecia em macia luminosidade. Todos os olhos paravam nela, ofuscados com o seu encanto e ela deleitava-se mais e mais em gestos que imitavam a leveza de um bailado clássico sem precisar de música, só precisava de ser admirada, amada. E foi, durante um certo tempo, enquanto a primavera a abrigou, enquanto o verão não enlaçou com os seus raios de fogoso calor.
Mas depois, quase logo de seguida, chegou o outono que debruçou a sua suave penumbra sobre a flor. Ela, que dançara ao vento, que desafiara o sol mais ardente, olhava para cada folha que a começava despir, com pena desse fim que lhe chegara antes da última valsa, antes do último olhar a abraçar.
Agarrava-se à haste como um barco que se prende à amurada de um cais.
“Vai” gritava-lhe o outono, “vamos não sejas teimosa, olha que o inverno se te vê ainda por aqui quando chegar, lança-te um tempestuoso sopro que te leva até aos confins do universo”.
 “Não, não quero partir, este jardim é a minha casa, as pessoas que me vêm visitar são os meus amigos”.
“Parte flor e acredita que há sempre um regresso, que estarão à tua espera na próxima primavera”.
Acreditando, partiu. Prometendo a todos que voltaria ainda mais bela.
Assim é a natureza, com o seu ritmo próprio, as suas chegadas e partidas. Cada época desempenha serenamente a sua função: O outono que vem limpar as folhas secas que antes foram sombra e abrigo. O inverno que vem regar a terra e encher os rios. A primavera florescerá replecta de cores e aromas dando as boas vinda ao verão que como sempre, será uma festa de calor e alegria.
Cabe-nos o papel de tudo cuidar, de tudo apreciar, quer seja inverno ou verão, quer esteja frio ou calor, quer o céu derrame lágrimas ou o sol sorrisos.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Post.it: Faz de conta

Faz de conta que o sol brilha em tons de brisa.
Faz de conta que os tufões e ciclones se acalmam e passam sem levar vidas nem causar destruição.
Faz de conta que aquela filha adotada não matou a mãe, que a abraçou e agradeceu o seu amor maternal.
Faz de conta que aquele homem não roubou a inocência da menina de 7 anos e muitos mais de uma infância feliz que a aguardavam.
Faz de conta que aquele marido não encurtou a vida da sua esposa, nem lhe causou sofrimento, ao quebrar com violência  uma promessa de amor, carinho e respeito.
Faz de conta que no mundo não há avultados investimentos na guerra com tantas pessoas a morrer de fome.
Faz de conta que todos têm direito a serem felizes: homens, mulheres, crianças.
Faz de conta que todos têm um leito onde adormecer e reerguer a esperança de cada dia.
Faz de conta que os ricos não têm receio de perder a sua riqueza ao tornarem-se solidários.
Faz de conta que os pobres são ricos de paz e de amor.
Faz de conta que a justiça derrota sempre a injustiça. Que a sociedade é generosa e correcta. Que a Democracia é um direito de todos os povos. Que a liberdade é a possibilidade de cada um construir a sua felicidade sem restringir a do outro.
Faz de conta que o mundo é perfeito (para nós) e nós perfeitos para o mundo. 
Faz de conta que este faz de conta é a nossa realidade. Que não precisamos fazer de conta, apenas de viver  a vida com apreço e gratidão.



segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Post.it: Humanidade

“As amizades, sobretudo as virtuais parecem-se com pastilha elástica, mastiga-se e deita-se fora”, li esta frase, talvez exagerada, quero supor, quero acreditar. Mas o texto explicava “
Afinal com tanto por onde escolher, 500 amigos no Facebook, 700 no Instagram e mais uns quantos nas redes sociais que ouço falar mas por onde não (navego)”.
Mais uma vez sinto que este texto está carregado de uma mágoa, de um vazio, que se vai espalhando, que nos vai tocando, invadindo por vezes até.
Apresenta os “amigos” como um menu, onde podemos escolher consoante o que necessitamos ou consoante o perfil desse amigo. As qualidades e os defeitos variam conforme a sua ou nossa disposição “Torna-se normal escolher uma “amiga” consoante o momento e sobretudo a disposição em que estamos em que elas estão”… ”Aquela, só relata dramas e queixumes, “para dramas já basta a minha vida”, vou clicar nesta, miúda porreira, sempre em alto astral. Talvez seja um teatro que faz, um papel que desempenha, mas que me importa, só quero que me faça rir, porque de lágrimas já bastam as minhas nuvens karmicas.”
De repente, pensamos, quase acreditamos que tudo é ficção, não falsidade, mas criação, porque ninguém está para nos aturar e, já agora, estaremos nós com vontade de aturar a problemática do outro?
“Já lá vai o tempo em que nos sentávamos e ficávamos horas a ouvir, a partilhar, a cruzar lágrimas, a abraçar, a oferecer um ombro e só partíamos quando o sol brilhava no olhar amigo, só nos despedíamos quando o sorriso aflorava e as palavras magoadas tornavam-se palavras de esperança, de confiança.
Tal como a autora deste texto, também me deixo levar por caminhos saudosos quando ouço as pessoas idosas falarem dessa sensação, imagino-a repleta de afeto. Folheiam álbuns, falam de amigos de infância que as acompanharam ao longo da vida. Conheço algumas assim, ouço-as discutir, como um casal que de tantos anos de vida partilhada, já não têm segredos, mistérios, omissões, numa cumplicidade que faz com que se entendam até no silêncio.
 “Hoje em dia há tantas formas de comunicar e no entanto, estamos cada vez mais calados, mais sós, mais fechados em nós. Chegamos ao mundo sem sair de casa, um mundo que é virtual, uma amizade que é virtual, um amor que é virtual, uma vida que será um dia virtual?”
Acredito que não, sei que não,  porque ainda nos navega células de afeto, moléculas de amor, genes de solidariedade. Porque ainda somos seres sociais, que partilham alegria, que atenuam tristezas,  porque erguemos quem cai, porque amparamos, acompanhamos, porque somos tudo isto e muito mais. Porque  nos está no  ADN e nos define como humanidade.



sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Vem se...

Se tiveres para dar mais que o silêncio,
Se tiveres para mostrar mais que ausência,
Se tiveres para revelar mais que o vazio,
Se tiveres para partilhar mais que inexistência.

Se tiveres o coração tranquilo e puro,
Se te sentares com tempo a meu lado,
Se o teu sorriso for um lugar futuro,
E o passado for um barco naufragado.

Se tiveres palavras com brancas asas,
Se tiveres sonhos cheios de esperança,
Se os teus braços abertos forem casas,
Onde o medo se transforma em confiança.

Vem, mas só se me souberes escutar,
Vem, mas só se um dia quiseres ficar,
Vem, mas só se vires em mim um lugar, 
Onde se quer estar, somente por estar…

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Post.it: Precisamos de infinito

Precisamos de fé, de esperança.
Precisamos de acreditar, de confiança.
Precisamos que o dia nasça, que a noite nos embale e adormeça.
Precisamos que cada sonho nos transporte para lugares felizes, com pessoas alegres, e crianças cheias de futuro.
Precisamos de caminhos sem becos escuros.
Precisamos de uma vezes darmos, outras recebermos.
Precisamos de trocar lágrimas por sorrisos, ausências por abraços.
Precisamos que cada abismo nos empurre para cima. Que as nuvens não nos toldem o brilho do olhar.
Precisamos que o céu não nos caia em cima, que a gravidade não nos esmague os ombros, que o mar não nos afunde.
Precisamos que as estrelas continuem a iluminar a galáxia, que a lua continue a ser o sol da noite escura.
Precisamos de tudo isso, precisamos de quase nada.
Precisamos de infinito, nem que seja de um fragmento de infinito.


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Post.it: Síndrome de Hukleberry Finn

Às vezes, a única coisa que procuro é um pastor e eu aconchegado no afecto, deixo-me conduzir. Às vezes, a única coisa que necessito é de uma voz que me encha o silêncio sem ter o ruído de palavras vãs. 
Um olhar que me sorria e não que me prenda de ameaças. 
Às vezes, a única coisa que quero é deitar-me no caminho em vez de o percorrer. Cansado dos meus pequenos pés, os passos tornam-se distantes da meta. 
Às vezes a única coisa que espero é que o ponteiro do relógio pare e seja a hora certa para existir. 
Às vezes, já não quero nada, mesmo nada, porque mesmo o pouco me parece tanto, que nunca chega a vir. 
E o Natal enche-me de luzes de esperança, e acredito Nele, torno-me um eu, criança. 
Escrevo cartas sem remetente. Paro horas em frente às montras e deixo o olhar navegar, entre o que quero, o que desejo, o que sei que nunca terei. 
Mas depois arrumam-se os enfeites, tira-se a toalha da mesa, recolhem-se as figuras do Presépio, acaba-se a festa e voltam os dias em que cada estranho continua a ser um estranho. 
Nos anos, que prendas, talvez, se esqueçam e eu possa festejar esse esquecimento, sem ouvir o cinto cortar o vento e calar-se na pele silenciosa, porque, sim, chorar não basta… 
Às vezes, a única coisa que quero é não querer, não sentir, não temer, não ser.  
Como nada acontece, aprendo que posso ter tudo, aprendo que posso ser quem quiser, que sou grande, que sou forte, que corro mais rápido que o  vento, que voo mais alto que cada nuvem. 
Cresci, sou feliz, aprendi, sim finalmente aprendi, a mentir… 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

As férias

É o que nos fica no olhar,
o que guardamos no coração.
Tanto azul de céu e mar,
tanta paz na suave ondulação.

Momentos, tantos, sempre poucos,
que nos são energia e lembrança,
sadios e um pouco loucos,
um quase voltar a ser criança.

A delicia do quase silêncio,
A alegria do despertador calado.
O deleite de um tempo vazio,
De não ter de ir a nenhum lado.

Aquela gaivota rasgando o céu,
O seu voo debicando nas ondas.
Quando parece que se perdeu,
Regressa e se aninha nas dunas.

As cores, os risos, o sol e a brisa,
As peles nuas, os pés descalços.
As nuances de uma história concisa,
Que se faz de tudo, até percalços.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Meu querido, mês de Agosto

Férias é quando a alma vai a banhos,
enquanto o corpo fica na cama a imaginar,
que se refresca no azul desse imenso mar,
Férias é quando vivemos dias sem planos.

São momentos em que nos permitimos,
acordar sem ter aquela hora marcada.
Quando dos amigos nos despedimos,
julgando ser noite e já é madrugada.

Claro que nas férias há muita ilusão,
acreditamos que tudo é para durar,
e lá deixamos à deriva o coração,
qual barco sem cais para aportar.

Mas há o outro lado que faz parte,
Onde o sol deixa o corpo a escaldar,
E os castelos de areia de rupestre arte,
Vão numa onda que os vem roubar.

Ou a  areia colada na pele molhada,
as crianças na rua pela noite fora,
o calor sufocando a noite cansada,
o sono que tarda, o sonho que demora.

Por vezes o  vento sopra em desatino,
lá vêm os mosquitos para nos devorar,
ou o fumo do peixe assado do vizinho,
E pensamos, para o ano havemos de voltar.


sexta-feira, 27 de julho de 2018

Post.it: Escrevo com caneta

Ainda escrevo com caneta, gosto de ver desenhadas no papel, as linhas sinuosas das palavras. Caminhos que sabemos onde começam, mas raramente onde se encontra o seu términos. Quando se coloca o bico da caneta sobre o papel, por vezes, já temos uma ideia de por onde queremos ir, o que queremos escrever, mas rapidamente a caneta, ganha vida própria na nossa mão, então, desliza, por vezes parece que até voa e nós, apenas tentamos seguir essa pressa, essa urgência de dizer algo. Quando para, retomamos o ar, que de tão ofegante não nos cabe nos pulmões Mas, ainda não refeitos, já a caneta nos puxa pela mão e lá seguimos no rasto de uma estranha inspiração. Quando leio o que a caneta escreveu, pergunto-me, de onde vieram aquelas palavras, aquelas ideias, não que as classifique ou adjective, de boas ou péssimas em qualidade de texto, em consonância de sujeito de predicado, no uso correto dos verbos, ou das figuras de estilo, afinal, que sei eu sobre escrita, na maior parte do tempo sinto-me apenas um grão de trigo, perdida numa imensa seara, torcendo e contorcendo o papel envergonhado, por ousar colocar na sua imaculada brancura, breves laivos de uma alma ainda mal saída da sua nascência.
Ainda escrevo com a caneta, fiel companheira de sorte e infortúnio, como posso, sequer pensar em a substituir pelo matraquear de uma teclas gélidas e insensíveis, falta-lhes o traço de adorno, o estilo quase desenhado e encadeado de letras, palavras e frases. Mais do que o conteúdo, a mensagem, a pintura, o risco transformado em formas, contornos, olhos que nos olham, bocas que nos beijam, braços que nos confortam, lágrimas e sorrisos, quiçá uma gargalhada, ou porventura, um terno e misterioso, suspiro… quando se vira a página e se conclui que está tudo dito.
Porque só a caneta nos oferece generosamente o seu silêncio, um silêncio tão repleto de murmúrios que só um coração atento e delicado consegue escutar e receber deixando que nesse espaço de conforto e reconhecimento pare e se recomponha do cansaço dos dias vazios de essência vital. Dias que nos enchem de coisas, de sons desarmoniosos, de conversas que nos colhem os últimas sementes de esperança em poentes de maresia para os transformar em nuvens cinzentas de um fumo civilizacional, numa força volátil desta adrenalina sedentária e asas que se abrem encetando um voo mas que sem força anímica permanecem no chão sem energia para voarem, para sonharem e acreditarem nesse sonho transformando-o em realidade. 
Ainda escrevo com a caneta, porque só ela me liberta dos grilhões da gravidade atmosférica e me permite voar em busca, não deste, mas de todos os horizontes que não conhecem fronteiras nem muros de pedra e de medo.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Post.it: Os mares do pensamento

Estranhos são os mares do pensamento… Orlas marítimas que nos elevam e afundam. Quando o navegar tem por objectivo, apenas um cais onde aportar. Mas as ancoras não encontram  solidez que o segure,  os ventos sopram fortes nas velas erguidas. O pensamento  nada contra a maré, mas não resiste e voa. Neste vai e vem em que parte e regressa, aquele que foi, já não é o mesmo que regressa.
Quantos oceanos  cruzou, quantos vendavais venceu, tudo isso, para que o sonho possa por fim, dormir nas águas calmas de um renovado amanhã.
Sem olhar de novo  para a praia, lá, que ficaram os despojos das suas batalhas perdidas. O caminho agora, é sempre em frente, seguindo a luz de um farol que se acende para si como um sorriso de esperança, em oferta de trégua e de bonança.
Esta água, de tanta mágoa, com a força que esculpe a rocha, com uma voz de silenciosos murmúrios, que em onda se eleva mas rendida, se ajoelha no areal.
Já não lhe quero mal por me afogar os sonhos, por me naufragar as esperanças, por me inundar o peito de medos.
Um dia, sim, um dia,  a maré há-de mudar e as velas vão dançar na brisa. Nesse dia, vou estar ao leme, a emergir das maiores profundezas, a galgar cada crista marítima. E vós meus pensamentos, meus amargos tormentos, acenar-vos-ei da mais alta arriba e, vos verei partir, meus longínquos e, apesar de tudo, doces momentos.


sexta-feira, 20 de julho de 2018

Post.it: Quem diria...

Quem diria…
Dizes num fio de voz cansada. Ultimamente é a única frase que te ouço proferir, todas as outras que se lhe seguem, são como que um balbuciar de um retorcido fonético, numa língua que ninguém entende. O teu neto em tom jocoso diz que agora falas russo e nós, reconhecendo a inocência do menino, sorrimos, com tristeza.
Quem diria, ficamos nós, também a pensar…
Que aquela menina cheia de energia, sempre a pular à corda, ela e as suas tranças negras havia de perder as tranças, e a gargalhada cristalina para se tornar doutora, com óculos de aros grossos e cabelo arranjado no cabeleireiro todas as semanas.
Quem diria que o João, aquele menino de rosto sempre afogueado e caracóis ruivos que nem o vento os desmanchava, havia de casar e ter um rebanho de filhos, cada um igualzinho ao outro, com rosto afogueado e caracóis ruivos.
Quem diria…
Que a Joaninha, tão tímida e certinha, entraria por caminhos perdidos, escondida nas sombras da noite entre uma dose na veia e a seguinte para voltar a casa, se é que aquele conjunto de paredes despidas pode ser uma casa, mas para ela é quanto basta para descansar os ossos.
Quem diria…
Que aquela criançada tão inocente e tão feliz, teria este destino, o que lhes calhou em sorte, ou em falta dela.
Hoje, na mesma rua, talvez ainda nas mesmas pedras da calçada, correm outras crianças. Por vezes apetece-me gritar-lhes calem-se! Já viram as horas que são? As pessoas precisam de dormir sem o vosso barulho! Mas suspendo o impulso, olho aqueles rostos, aperta-se-me o peito, que futuro os espera?
Não o sabem, talvez tenham mais sorte que as outras crianças que por ali passaram. 
Não posso prever o amanhã, apenas posso deixa-las viver o hoje, um agora feliz, antes daquele surpreso, quem diria…

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Post.it: Fim do ano escolar

Final do ano escolar, sempre a mesma agitação, tensão, passa não passa, entra não entra na faculdade, termina ou não termina o curso, sempre o agora e o depois nas nossas e suas preocupações.
Porque eles são os nossos filhos, as nossas sementes de esperança. A força do caminho, a coragem do destino. São o nosso horizonte, a mão que toca cada nuvem por mais alta que esteja. A realidade dos nossos sonhos. São o “nós”  que prossegue e chega muito mais  além. A mão pequenina que recebe o testemunho que lhe damos no ADN envolto de carinho e embalo.
São os passos que nós lhe ensinámos a dar e que passam a ser os seus nesse equilíbrio de quer voar e voa, aos poucos, quando arrisca a ser quem é. Nós, pais ficamos atrás incentivando a que prossiga, ao lado acompanhando para que não se desvie, à frente para lhes desbravar o caminho. E eles vão tropeçando, como quando os ensinamos a andar de bicicleta, um dia, hão-de ir sozinhos, ainda que não completamente, porque estaremos sempre presentes mesmo quando ausentes, estaremos perto, ainda que longe.
Nascem, crescem, vão para o infantário,  para a escola, saem da escola, para a faculdade, para o emprego, se tudo correr bem..
 Nesse entretanto, trazem-nos desenhos num emaranhado de cores que nós colamos na porta do frigorífico orgulhosas do nosso pequeno “Picasso”, trazem-nos os testes com notas que olhamos com desvanecimento ou que preferimos nem olhar.
Até que um dia nos trazem uma fita colorida e lá assinamos não com o nome mas com toda mistura de sentimentos maternais, porque erguemos o olhar e continuamos a ver a criança naquele quase homem/mulher.
O que lhes desejamos? Tudo, que seja deles o mundo, o universo, todos os dias de sol, todas as flores da primavera. Se não poderem ter tudo, que tenham momentos de sucesso, dias de alegria, horas de felicidade. E a certeza de que, podem ir mas sempre voltar. 
Porque aqui, neste coração, está o vosso lar, com um abraço sempre disponível para vos aconchegar.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Post.it: Que nos voe...

Talvez este não seja o melhor ano de cada vida, talvez sobre ele tenham pairado nuvens demasiado escuras.
Talvez algo tenha acabado, mudado, desaparecido. Talvez algumas pessoas queridas, tenham partido e outra chegado.
Talvez este rio leve consigo, um pouco de mim. Talvez no chão não existam apenas passos esquecidos mas, tantos outros perdidos, sem terem  encontrado o seu destino  e permanecem às voltas na sua rotunda existencial.
Talvez o vento não tenha limpo o horizonte do sentir e ainda ande por aí em busca de uma luz no fundo do túnel.
Talvez as estrelas tenham ficado sem brilho porque se extinguiram há anos luz, só nós teimamos em ver a ilusão da sua presença.
Talvez os corações tenham encalhado em cada cais vazio de gente mas cheio de esperas no desencontro das marés.
 Talvez se tenham calado os murmúrios de promessas que pelas arribas ecoavam e nas dunas se aconchegavam.
Talvez o sol tenha tardado e o voou de andorinhas não tenha sequer chegado. Talvez a primavera que se delonga em florir, tenha tirado a cada olhar a razão do seu sorrir.
E quando as velas latina se desfraldam, quando as ancoras se erguem, está na hora de dar novo rumo à proa, girar o leme e confiar nas ondas.
Porque como diz o escritor “Não se pode amar uma ausência sem espessura de gente”. 
Que nos sopre o vento de feição, que nos voe para a felicidade o coração…


segunda-feira, 9 de julho de 2018

Post.it: Planando

 “Cada momento feliz, torna-se um ontem transformado em saudade”.
Então enche-se-me o peito de alegria, porque ele está cheio de saudades, do tempo já ido, do tempo presente e daquele que espero um dia conhecer e transformar em memória que me preencha e me dê vontade de chegar mais além. Porque o horizonte já me chama, porque o amanhã já me reclama. E eu sem pressa, sorrio ao tempo, sim já tive pressa.
Pressa de construir a perfeição, de realizar sonhos mesmo antes de os sonhar. Queria porque queria, ser feliz; queria porque queria este, aquele e o outro amor, não, não era por leviandade, mas pelo desejo fugidio de viver num só instante a eternidade de todo o existir.
Era a juventude, essa juventude que não se contabiliza em anos mas em palpitações, em deslumbramentos do coração. Ou talvez porque já ao longe adivinhasse que a velocidade da esperança abrandaria, que a sede de infinito caberia um dia na palma da minha mão e não se perderia mais por horizontes do olhar.
Digo-o sem melancolia, sinto-o sem pesar, vivo-o sem amargura, porque tudo se transformou em suave ternura. Por vezes ponho a mão sobre o peito, como que acariciando o coração, falo com ele das nossas aventuras e desventuras, ainda não velho, talvez apenas um pouco desgastado, descompassado.
Já não voamos cortando o vento, rompendo as nuvens, brincado com os raios solares. Hoje, planamos, saboreando as correntes de ar quente e pairamos sobre o luar. A vida, essa, tornou-se-nos um jardim de flores que colhemos com a similar delicadeza com que a natureza a faz desabrochar. 
Um certo ar outonal, que ainda tem sorrisos primaveris, espreitando irreverentes, pelos cantos furtivos do olhar. Cada instante da vida é único, porque, irrepetível e feliz, torna-se o melhor, deste agora que é, totalmente nosso.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Post.it: Ponto por ponto

Por  vezes, basta um ponto e tudo muda, começa ou acaba.
Um ponto em que tudo se une, tudo se afasta. Um ponto em comum ou que nos diferencia na continuidade do caminho..
Quando no princípio trocamos ideias em que nos tentamos conhecer, somos nós e são os outros, ponto a ponto.
No momento em que nos encontramos num ponto de partida, uma viagem que imaginamos perfeita, desconhecendo as suas sinuosidades.
Há um ponto de luz, esse túnel tão esperançosamente iluminado, avançamos com um receio replecto de coragem.
Claro que sempre com muitos pontos de interrogação para com este espaço, o nosso ponto de encontro. Porque é bom unir pontos, construir uma recta que é a distância mais curta.
 Porque procuramos que tudo à nossa volta seja um ponto de equilíbrio, mas será? Talvez, depende sempre muito de cada ponto de vista.
Depois, chegamos a um ponto em que se começa a desenhar a resposta e esse ponto foi quiçá, apenas um ponto de passagem. Ou na melhor das hipóteses, significou um feliz ponto de viragem.
Quantas vezes a nossa vida está assente no mais ínfimo e efémero ponto. Mas se mais pontos houver que valha a pena juntar, quem sabe, o conjunto de todos os pontos seja uma linda e real pintura. 
Depois de tantos pontos, quem sabe possamos pôr sobre algumas coisas, um ponto final.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Post.it: Se for amizade


A família calha-nos em sorte por laços de sangue, por herança de um passado, por destino de um futuro. Nem sempre é a que queremos, preferíamos alguém diferente, uns pais parecidos com os pais dos meus amigos. Uns irmãos que brincassem com as irmãs. Uns avós que ainda tivessem paciência para aguentar a nossa energia. Uns primos amigos, uns tios divertidos, uns cunhados mais afeiçoados, mas enfim, é o que nos calha.
Já os amigos, esses, escolhemos, há quem eleja pelo pedigree, pela disponibilidade, pela bondade, pelo carisma. Eu escolho os meus amigos pelo olhar, pelo sorriso, pela lealdade, pela dedicação, pela humildade, por serem um pouco como eu, mas também por serem diferentes e assim me completarem.
A verdade, confesso, é que não há uma escolha, há antes, um encontro, uma energia, uma oferta recíproca. Por vezes insisto em contrariar o destino, e invisto em amizades que tentam sê-lo mas nunca ultrapassam a fronteira de um mero conhecimento.
Nessa altura, cresce-me um vazio dentro do peito, uma mágoa, uma dor sem ferida mas, como diz o poeta, chega a doer. Que fazer, um bote quando só tem um remo acaba por andar em círculos, a amizade também precisa de dois “remos” para chegar a algum lado.
A amizade tal como uma flor precisa de ser regada. A amizade tal como uma ave de asa partida, precisa de um curativo para ser livre, poder partir e voltar.
Na família une-nos o sangue, por vezes, nada mais. Na amizade une-nos a vontade, o querer, os traços comuns de um caminho lado a lado, com as naturais separações que a vida nos impõe.
Mas se for amizade, sabemos, que nos havemos de encontrar...

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Venha S. Pedro



Venha S. Pedro logo a seguir,
Para a grande festa continuar.
Pela nossa equipa vamos pedir,
Para o mundial de futebol ganhar.

Santo António nos afine a pontaria,
São João faça sempre a bola entrar.
São Pedro que nos dê a alegria,
De termos muitos golos para festejar.

Um sopro no ouvido dando-lhes a direcção,
E  os Santos dando-lhes asas nos pés.
Portugal pode assim tornar-se campeão,
Vencendo no futebol como venceu as marés.



sexta-feira, 22 de junho de 2018

Noite de S. João



S. João, S. João,
A noite hoje é toda tua.
Neste Porto campeão,
De alegria até ao partir da Lua.

S. João, S. João,
Meu santinho popular,
Tens em cada coração,
Um recanto e belo altar.

Com balões e martelinhos,
E alho-porro erguido na mão,
Ergam os copos venham os vinhos, 
Que hoje é dia de alegre celebração.


segunda-feira, 11 de junho de 2018

Lisboa de Sto. António

Lisboa linda  cidade,                                                
De manjerico na janela.
Lisboa de eterna mocidade,
Cada ano parece mais bela.

Santo António quando a vê,
As suas ruas cheias de gente.
Homem de fé, quase nem crê,
Nesta Lisboa tão contente.

Feliz por ser visitada,
Por pessoas de todo o mundo,
Lisboa abre o coração encantada,
E guarda-os a todos lá no fundo.



sexta-feira, 8 de junho de 2018

Post.it: Tudo muda

A vida é feita de mudanças, tudo muda, desde que nasce até que perece. Tudo sofre uma mutação, nuns, uma mera substituição, uma espécie de permuta, algo se altera, por vezes uma simples troca, ou quem sabe, uma renovação.
A verdade é que tudo muda, o tempo passa e tudo fica diferente, até o tempo que nos acompanha. 
Pequenas ou grandes metamorfoses, singulares ou múltiplas transferências, numa quase transposição, mas que se modifica, modifica.
Uma mudança é sempre uma inovação, algo que varia da forma original, tão diferente, tão igual, tão quase genética, um quase nada, uma regeneração, o cumprir de um caminho.
Afinal estamos cá para isso, ou talvez não. E tudo nos seja sequência, consequência... Do que fizemos, do que escolhemos, dos dias de chuva em que mudando o nosso percurso, procurámos abrigo, dos dias de sol em que prosseguimos sem preocupação, sem decisão, deixamo-nos apenas ir, sem vermos as sombras porque tudo nos é luz.
De repente uma pedra, de repente, um momento, um motivo, uma queda, uma mudança de direcção e de repente, tudo muda…
Paramos, olhamos, sentimos, rimos, choramos, levantamos-nos sozinhos ou com ajuda. Basta isso, tanto ou tão pouco, um instante e, o olhar deixa de voar e aterra abruptamente no chão.
O depois, sabe-se lá, cada um terá a sua história, talvez esqueça, talvez lhe fique na memória, apenas se sabe que algo em nós mudou.
Foi o destino, para quem acredita nesse culpado, para mim, que sou mais terra-a-terra, foi uma simples distracção, não perco tempo com porquês, não procuro causas, apenas soluções. Se as houver… Dizem. 
Pronto,  lá vem o pessimismo! Claro que há, há sempre, chama-se mudança. Porque a vida é feita de mudanças.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Post.it: Tenho medo

Escreviver, gosto desta palavra, expressão do meu existir, porque sim, escreVivo, hoje agora, para, quem sabe, permanecer viva. Viva na tua memória, mesmo que apenas em tom de história. Porque confesso, tenho medo de morrer, não de perder a vida, mas de me perder de ti, que me esqueças. Que deixe de ter um lugar na tua vida, no teu coração, onde gosto tanto de me aconchegar nas noites de inverno e acreditar que não é o frio que nos une nesse abraço, mas o desejo de que as primaveras continuem a florir-nos em cada amanhecer.
Tenho medo que um dia tudo isso acabe, que os sentimentos nos abandonem, que a paixão nos seja uma onda que perece na praia e, que de repente, a minha vida se transforme num árido deserto e eu, apenas uma ilha, rodeada de solidão.
Escrevo, numa corrida contra o tempo, um tempo marcado pelo bater do coração, e se o teu se descompassar do meu, seguindo outro ritmo, outro rumo? Talvez consiga na escrita encontrar as palavras que te desenhem tal como te sinto e mesmo que toda a beleza um dia finde ao olhar, na escrita ela ficará, eternizada como uma pintura com os suaves traços de um aspirante a Renoir na força das palavras.
Triste ambição a minha, porque sei que nunca te poderei aprisionar nas linha de uma pálida folha.  
Nem tão pouco te posso deter  porque és como água que escorre por entre os meus dedos,  livre de seguir o seu caminho para o mar por entre rios que te afastam de mim.
 Outras vezes sinto-te fugaz como uma ave que abre as asas e enceta um voou rumo ao horizonte e nele se torna luz, depois sombra, e por fim ausência.
Por tudo isto tenho medo, não que vás e não regresses, mas que quando fores não me leves e quando regresses não me encontres dentro de ti. 
Então calo as palavras, rasgo a escrita, risco cada traço, tudo isto são apenas grilhões e tu mereces toda a leveza que me vai no coração. Calo a razão e confesso a este silêncio que me é fiel, tenho medo, muito medo, de viver sem o teu amor…


sexta-feira, 1 de junho de 2018

Post.it: Vou sentar-me na tua cadeira

Hoje, vou sentar-me na tua cadeira, vestir a tua roupa, calçar os teus chinelos. Hoje vou dormir na tua cama e acordar antes do sol se levantar, tomar os teus filhos como meus, chama-los uma a um com um beijo, preparar-lhes o pequeno almoço e levá-los à escola. Antes disso, vou passear o teu cão, deixar-me arrastar por um caminho que só tu e ele conhecem.
Hoje vou para o teu trabalho, enfrentar a tua rotina de chefes e colegas, de papéis cuja ordem só tu sabes por uma experiência de anos que torna fácil o que a mim me parece complicado e difícil de fazer. Almoçar ou talvez não, quantas vezes me disseste que nem tinhas tido tempo para almoçar, e eu pensava, que disparate, que falta de organização! Mas não, por vezes é mesmo assim, as tarefas são-nos exigidas e o dia não tem mais de 24 horas.
Está na hora de ir buscar as crianças à escola, de as levar ao ginásio, hoje é o dia da consulta do mais pequeno, não posso esquecer que tenho de levar o mais velho à explicação de matemática. E o trânsito que não anda e os semáforos que hoje estão todos vermelhos e o estacionamento que é quase como procurar uma agulha no palheiro.
Horas depois, finalmente o regresso a casa, ao descanso, mas depois de fechar a porta da rua, recomeça o reboliço, os banhos, meninos cuidado não se magoem com as brincadeiras! O jantar por fazer, o cão que salta à minha volta, já passa da sua hora de ir à rua. Espera, vou gritando em desespero, uma coisa de cada vez, vais à rua depois das crianças jantarem. Até vai ser giro, um passeio relaxante, não achas? Mas o Buddy, não concorda comigo e acha que deve ser tudo na ordem inversa. Pronto, venceste, primeiro o teu passeio higiénico, depois o banho das crianças, o jantar, lavar a loiça e sentar-me no sofá a ver um pouco de televisão. Parecia um bom plano, mas o sentar no sofá, raramente acontece, depois do jantar é a hora da partilha, cada um conta um pouco do seu dia e depois está na hora de irem para a cama, de confirmar se os dentes foram lavados, de os aconchegar, de lhes dar um beijo na face rosada e deixar sobre a cadeira a roupa que vão vestir amanhã.
Agora sim, o sofá é meu, digo eu e semelhante pensamento tem o Buddy, o golden retriver que é mais rápido e de um salto estende-se todo sobe as almofadas. Ok, vou para a cama, assim, como assim, se me deitasse no sofá adormecia de imediato.
O despertador toca, já é manhã, está na hora de acordar o dia, as crianças, a vida, a tua vida. Só então percebo o quanto é difícil, a força e a coragem que tens para a viver. Invejo-te, não o que tens, mas o que és.
E penso, de vez em quando todos nós devíamos calçar os sapatos dos outros, antes de os julgar, criticar, devíamos ajudar, devíamos agradecer-lhes o existirem, tal como são.



segunda-feira, 28 de maio de 2018

Post.it: As letras

Tenho saudades do bico da esferográfica, do fio de tinta que deixava na folha branca, como se fosse um rasto que o olhar segue. De repente, uma subida, logo depois, uma curva e por fim uma rápida descida. Uma, depois outra e mais outra, surgem as letras, num movimento que quase se identifica a uma vertiginosa montanha-russa, tudo isto para que no papel surja desenhada a mais simples palavra.
Pouco importa o que ela diz, ou que história nos quer contar, porque a sua beleza, o seu requinte está na sinuosidade da forma, no emaranhado das suas linhas, que se unem num estreito abraço para logo a seguir se separarem e entenderem-se como raízes em busca de água, ou erguerem-se como ramos com fome de sol.
Pergunto-me que divino pintor criou a nobreza destes elos, que magistral autor lhe deu tão particular significado, que mestre criador lhe deu tão sublime sentido. Independentemente do seu conteúdo, independentemente do que ele encerra, o seu código, um segredo sempre disposto a revelar-se, que quer ser de todos para que cada um o tenha ao seu dispor e dele disponha para levar mais longe o que num passado longínquo foi imaginado pelo ser humano quando saiu da caverna e olhou para o universo, mudo de espanto, quis falar, mas o som das palavras não lhe fez jus, então, desenhou no chão caracteres, e chamou-lhes letras, casou-as com harmoniosos pares e surgiram as palavras, nenhuma quis faltar à festa, reunidas formaram frases, o texto nasceu e cresceu saindo do chão, fixando-se em esvoaçantes folhas. Foi preciso uni-las para não fugirem, cozer uma a uma para lhes dar um lar a que chamaram livro.
Obra que folheamos,  por vezes sem grande acuidade, sem lhe dar-mos grande valor, esquecendo de onde veio, só nos interessa para onde vai. Ele que veio da inspiração, ele que veio de um coração. Quando o abrimos, há uma luz que vem do seu interior, a luz da sabedoria, porque nos ensinaram a perceber cada traço, cada curva, cada subida e descida, porque aprendemos a ler, aprendemos a compreender as linhas e por vezes até as entrelinhas. 
Paramos de ler e pensamos, mesmo que fosse só por isso, vale a pena olhar sempre com olhos de espanto, a celestial obra que é a escrita, quando ela, sem emitir um único som, grita e chora e ri em nós. Fala e cala mistérios. Adormece e embala. Amiga e companheira nas nossas vidas.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Post.it: Virtualmente (amiga)

Tenho uma amiga, ou melhor tinha, melhor ainda, achava que tinha.
Daquelas amizades modernas, daquelas em que não cruzamos o olhar, daquelas em que não partilhamos sorrisos. Não há beijos na face, não há abraços, nem um ombro de consolação. Uma amizade virtual, mas a que nos habituamos a sentir como real, porque nos preocupamos, porque questionamos se está tudo bem, porque contamos os nossos momentos, porque revelamos segredos que talvez não tivéssemos coragem de revelar se estivéssemos frente a frente. Uma amizade sem receio de se expor porque a sentimos efemeramente (eterna). Era uma amizade perfeita, à distância de um clic, a decisão de estar ou partir estava na nossa mão quando simplesmente carregávamos num botão acendíamos ou desligávamos a nossa (amizade).
Imagino que devem estar a pensar que a minha amiga era um robot, a (Sophia) que anda por aí nos anúncios da televisão a falar com figuras VIP, um dia destes ainda a vejo a conversar com o nosso 1º Ministro ou a abraçar o Presidente da República. Mas não a minha amiga é humana, de carne e osso, humana no sentir, no viver, no sofrer até no sorrir que não vejo mas leio, nas palavras que escreve. 
Ela anda por aí, na sua vida, por vezes, esporadicamente, até na minha. Tem os seus compromissos, a sua profissão, a sua família. Vivemos no mesmo país, sob o mesmo céu, o mesmo sol, o mesmo luar, separa-nos ou une-nos o mesmo rio. Já temos um passado, já temos uma história, pequena como um conto que um dia contaremos aos netos enchendo-a de detalhes imaginários para colmatar as lacunas que sempre existem numa amizade virtual como a nossa. 
Nessa altura, encolhemos os ombros, sorrimos e desculpamo-nos, dizendo que a nossa memória que já não é a mesma, coisas da velhice, acrescentamos com humilde ingenuidade. 
Tenho uma amiga, ou melhor tinha, porque uma amiga, que é amiga, ainda que  virtual, ainda que distante, preocupa-se, cuida da sua amiga, sobretudo quando ela está doente. 
Talvez não a possa visitar,  dar-lhe um ramo de flores, uma caixa de chocolates, mas pode enviar uns terabytes de conforto, uns gigabytes de aconchego, uns megabytes de estímulo ou quiçá, até, um pequeno byte de alento. 
Porque é essa oferta real ou virtual, é essa dádiva ao outro que nos diferencia das máquinas e faz com que a amizade independentemente do meio como nos une e da distância, se torne verdadeiramente real.