sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Post.it: Mezinhas de colo e carinho

O mundo muda todos os dias, os dias mudam em todas as horas e nós permanecemos. Impávidos e serenos, aparentemente, porque lá dentro o coração pulsa, salta e corre com a pressa de quem quer apanhar o vento.
Cá dentro temos autoestradas de células por onde nos desliza a vida. Por vezes algumas dessas células entram em contra mão e gera-se o caos, de repente ardemos em febre, caímos na cama impotentes, sem forças para travar qualquer batalha.
Depois vêm as mezinhas, um chá com mel, os vírus aplaudem tanto cuidado para os manterem quentinhos e aconchegados, como dizia a minha tia-avó “até lambem os beiços de tanta doçura”. O melhor remédio é um copo de aguardente respingava o meu tio-avô. “ora querem lá ver que o homem quer embebedar a criança!”
E a criança com duas rosetas no rosto esboçava um sorriso, cansada de guerras terapêuticas, adormecia. Era uma criança feliz, à sua maneira, porque as crianças arranjam sempre maneira de serem felizes, de verem tudo com um olhar puro e ingénuo.
Têm uma memória selectiva, amanhã já não se lembram dos “ralhos” de hoje e voltam a brincar, a sonhar, a acreditar, a ter confiança na proteção dos país, a aceitar sem receio os remédios caseiros da tia-avó que a afastava dos disparates do tio-avô.
O mundo muda todos os dias, os dias mudam em todas as horas e nós que aparentemente permanecemos sempre iguais, na realidade também mudamos, ao nosso ritmo. Muitas vezes já sem pais para nos proteger, sem tios-avós para nos curarem com mezinhas de colo e de carinho.
Crescemos e tentamos ser felizes como as crianças, para tal como elas, voltar a confiar, a acreditar, sobretudo a perdoar e a não levar para o amanhã as mágoas do hoje. Entretanto os vírus espreitam sorrateiros por um momento de fraqueza para fazer a sua invasão e nós cansados adormecemos. Não desistimos, não nos damos por derrotados, é uma pequena trégua para recuperarmos as forças, preparem-se vírus amanhã a vitória será nossa.



terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Post.it: O sentir

Escrever é, por vezes, olhar para dentro, falar de nós para nós, dos outros para os outros. Ser um rio que cresce até ao mar e que revela, por vezes, os nossos vendavais. O que escrevemos são fantasias, dizem, supõem. Mas nunca o são totalmente. São sonhos, desejos, aspirações.
É simplesmente o nosso querer que surge, espreitando, em cada letra. A nossa vontade de chegar até vós, que perscruta em cada intervalo de palavras, que se confessa por entre o silêncio. 
Um silêncio que luta para ganhar voz, ser audível aos olhos dos outros, quando captam a mensagem e a enviam para o cérebro, numa intrincada lógica de feixes e neurónios, caminhos e estradas do conhecimento, da linguagem, dos sentimentos, das sensações e, de repente, tudo faz sentido. As letras tornam-se expressão, emoção, fazem rir, fazem chorar, tocam-nos só com o correr da linha, só com a harmonia das frases, com a dança consonante das palavras. 
Lembro-me de quando aprendi a ler, quando as letras unidas começaram a ser identificadas com palavras que, em conjunto com outras, contavam histórias, revelavam coisas que, antes, me pareciam apenas rabiscos ilegíveis. 
Foi uma descoberta, uma conquista, um mundo novo que abriu, que se mostrou perante os meus olhos cheios de curiosidade, famintos de conhecimento. Lembro-me que lia, lia tudo, tudo o que tivesse letras, coisas sem importância que, para quem começa a ler, é magia. 
Uma magia que não sei de onde vem, se das palavras, se dos olhos, se do coração ainda tão puro; ou ainda se vem da vontade, da bondade ou se do cérebro com todas as suas intrincadas ligações, se do simples facto de sermos humanos e não robôs. 
É verdade que tanto nós como eles conseguimos interpretar o código ordenado de símbolos a que chamamos escrita, mas só nós, seres de carne, osso, sangue e alma podemos sentir o que essa escrita nos revela. Por mais sofisticado e inteligente que seja o uso de fibras óticas, por mais pixéis, bytes, mega, terabytes e tudo o mais de que são feitos os robôs, eles podem comunicar, emitir raciocínios lógicos, encontrar soluções. Mas, enquanto não encontrarem uma fórmula lógica para o sentir, só nós, humanos, teremos o privilégio de ter e partilhar sentimentos e emoções.


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Post.It: Mês de S. Valentim

Estamos no mês do amor, mês de S. Valentim. As montras ganham novas tonalidades, novos adereços, lembrando os mais esquecidos, enternecendo os corações mais desatentos. É só um dia, dentro do mês, perdido no ano, hibernando por vezes durante uma vida, mas quando acorda, não é um despertar, antes um renascer.
Não há amor como o primeiro, dizem, mas não é verdade.
Porque não há amor como o último, o que está connosco, o que nos acompanha, o que permanece, o que nos leva cada dia ao seguinte. O que nos faz sonhar e é real. O que nos faz acreditar que o melhor de cada um de nós, afinal, existe e é continuamente dado, continuamente partilhado.
Quanto ao primeiro amor, esse e talvez os seguintes, se por acaso o nosso coração se deixou por mais de uma vez habitar por esse sentimento. Desses amores, fica a história embalando a memória. Foram e serão sempre parte de nós, de momentos, do que nós eramos. E quando a recordação nos questiona se seriamos capazes de sentir aquele amor agora, sabemos, que não. Já não somos totalmente essa pessoa, crescemos, evoluímos, sorrimos, sofremos, houve entretanto tanto mar navegado, tanta terra palmilhada, tanto céu observado, mudamos e hoje somos assim, e assim queremos ser amados. Nós diferentes, os outros, certamente que também passaram pelas suas mudanças e também eles amam de outra maneira, à sua, que já não é a nossa.
Saudades? Certamente que sim, não talvez desse amor, nem dessa flor, mas da primavera que éramos, desse sol que nos inundava o olhar, dessa esperança, confiança, dessa dádiva que sentíamos, no que dávamos e simultaneamente recebíamos.
Seja em que profundidade for que o amor se manifeste, quer seja por uma pessoa que nos é especial, ou por um filho, pais, amigo...
A verdade é que não há sentimento como o amor...






segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Post.it: Homenagem

Passamos dias, meses, largos meses sem trocarmos uma palavra, sem fazermos um gesto, sem nos vermos e no entanto quando há notícias boas ou más lá estás, lá estou, para me ouvires, para te ouvir, para rirmos ou para chorarmos juntas. 
Somos amigas há quanto tempo? Mais de 20 anos, uma grande parte da nossa vida. E nesse, já longo caminho quantas histórias… 
Vi partir o teu filho de mãos dadas, o teu pai, abraçadas, agora a tua mãe que segue para junto deles. 
E quando falo de ti, falo igualmente de outra(s), amiga(s), gosto de sentir que cada uma é especial, única, que a cada uma respondo e correspondo da maneira individual que necessitam, há quem precise de um abraço, há quem lhe baste um estar ao lado, há quem precise de palavras reconfortantes, há quem prefira o silêncio, e ser amiga é isso mesmo saber e respeitar cada um no que é e no que quer nesse seu momento. 
Somos amigas de longa data e isso é bom porque nada se espera, nada se pede, tudo nos é espontaneamente dado. 
Não importa se há outras amigas, se estás mais tempo com elas do que comigo, se não me telefonas, se não me vens visitar. O bom das amizades de longa duração é que não há competição, ninguém é mais amiga que o outra, não há preferidos há apenas o estar e o ser-se amiga. 
O sentimento de amizade deve ser assim, um amor claro e puro, que entra na nossa vida, que se instala no nosso coração e aos poucos torna-se familiar, os seus filhos, são nossos filhos, os seus pais também são um pouco nossos e quando partem, também deixam em nós a mágoa de uma eterna ausência. 
Este ano algumas das minhas amigas estão mais sós, tiveram que dizer adeus aos seus (nossos) entes queridos. Um adeus  a quem nos permanece nunca será uma despedida, ficam na memória. E nós que fomos depositários do seu afecto, levamo-lo mais longe para as próximas gerações. Levamos os seus genes, as suas palavras, os seus ensinamentos o seus que se tornaram nossos momentos. Trocamos o adeus por um perpétuo obrigado. 
Mas porque a amizade não se agradece, partilha-se, o nosso reconhecimento, homenagem e bem-querer para a  D. Madalena, Sr. João e D. Helena. 
Entretanto, um olá de boas vindas à Joana, Diogo, Tomás e Beatriz. 
A vida é igual à primavera, está constantemente a renascer-nos dentro do peito para que as lágrimas não durem para sempre e para que o sorriso nos seja eterno.



sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Post.it: Quedas e afins

Cá estamos nesta “corrida” não em busca da meta, nem a competir uns com os outros, simplesmente a tentar acompanhar a rapidez com que o tempo passa. Tento, acreditem que tento, mas até para mim já vai sendo por vezes difícil acompanhar o ritmo, assimilar tudo o que surge à velocidade que vem e é novidade e à velocidade que se torna obsoleta. 
Temos de nos adaptar às novas realidades, aceitar com similar rapidez as coisas tal como surgem. Mas nem sempre é fácil, ou melhor por vezes é difícil, então agora que ando “coxa”. Eu até tenho alguma “queda” para o disparate, mas desta vez exagerei. E sim é verdade, ainda ando meio ao pé coxinho depois de me ter espalhado ao comprido e ter magoado um joelho.
Percebo agora o quanto é difícil manter  a verticalidade, só não entendia o porquê de tanto esforço, porque não deixar-nos “cair” de vez em quando, ceder ao cansaço, à preguiça, à vontade de nos deixar levar pela força da gravidade. Percebi que pode tornar-se “grave”, que pode magoar, que o chão é duro e a queda dolorosa e morosa no processo de recuperação, felizmente, no meu caso tudo ficou inteiro (acho).
Enfim, tudo por culpa desta “corrida”, deste relógio solar, ou biológico, claro que as bagas das palmeiras caídas no chão também deram a sua ajuda. Mas se andasse mais devagar, se tivesse mais cuidado, se o pensamento não sonhasse, se os olhos não voassem, quem sabe tivesse evitado a queda e hoje não estaria coxeando. A verdade é que não conseguimos evitar todas as “quedas” por mais atentos, ponderados, cuidadosos, por mais joelheiras, cotoveleiras,  capacetes, etc., havemos sempre que cair e rasgar a roupa, a pele, a alma.
São os imponderáveis da vida dirão uns; revelam o quanto somos frágeis, dirão outros, na verdade, mostra o quanto somos simplesmente humanos; sinal de que estamos vivos, prefiro esta ideia. 
Porque estar vivo tem destas e de outras coisas, incapazes de adivinhar o passo seguinte que vamos dar ou noutras situações se esse passo nos trará alegria ou tristeza damo-lo, temos de o dar, parar é morrer e nós para o melhor ou para o pior queremos viver. Nem que seja para nos levantarmos depois de uma queda, sacudirmos o pó, colocarmos um penso rápido na ferida e coxeando ou não, prosseguirmos, se hoje formos mais devagar, amanhã logo recuperaremos o nosso lugar no caminho.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

À volta do Mundo

Nem sempre é preciso andar, nem sempre é preciso questionar para aprender, por vezes, basta parar, basta olhar, basta ver. Um olhar que queira entender o que a vista alcança. Um olhar que queira entender o que o coração sente.
Quantas vezes partimos, vamos para longe em fuga ou ao encontro de algo e não encontramos. Fugimos mas continuamos a ser perseguidos pelos nossos “fantasmas”, pelos nossos medos. Nas voltas que damos à volta do nosso pequeno mundo.
Iniciamos viagens por lazer, por vontade de conhecer os outros, a sua cultura, o seu modo de existir.
Vemos rostos, paisagens, estilos arquitetónicos. Vamos desvendar mundos que desconhecemos, vamos aprender, vamos conhecer.
Procuramos encontrar na distância o que a proximidade não nos dá. O quê? Cada um saberá, ou melhor pensa saber, pode estar à nossa frente, ao alcance da nossa mão, sem o reconhecermos.
Toda a busca é individual, todo o caminho é feito sozinho, mesmo quando acompanhados, aquilo que sentimos é sempre muito pessoal, próprio do que somos no momento.
Lembram-se do que sentiram num lugar e anos depois quando lá voltam? Há uma desilusão, tudo mudou, pensamos, não, mudámos nós…

“A viagem da descoberta não consiste nas novas paisagens, mas em ver com novos olhos” (M. Proust).

sábado, 20 de janeiro de 2018

Os dia de Maria


Há dias em que o silêncio nos pesa como se nos doesse algures no corpo, uma dor indefinida, sem doença, sem ferida, mas que dói, talvez na alma. Nesses dias o silêncio olha para nós e não diz nada, respeitosa companhia, que já nem companhia nos faz.
Acendemos a televisão, mas as suas conversas caiem num estranho vazio, acendemos o rádio e fica-nos idêntica sensação. De repente cresce-nos uma estranha urgência, precisamos de ouvir alguém a pronunciar o nosso nome. O companheiro já partiu, dizem que nos faz companhia do céu, os filhos cresceram e formaram os seus lares, até os vizinhos já não batem à porta, andam demasiado ocupados, consigo próprios ou com a sua família.
Resta a solidão e aquele pão, que murcha, endurece, ganha bolor e desfaz-se tornando-se nada.
Talvez arranje um gato, quem sabe num diálogo entre miados e palavras, nasça uma amizade, uma companhia. Mas não, um gato não sabe pronunciar o nosso nome, embora responda ao seu, aquele que lhe damos. Quem sabe, um papagaio, ensinamos-lhes palavras e ele, repete alegremente. Conheci uma caturra que dizia o seu nome, Mituxa, quem sabe aprende o meu, é mais fácil e começa a chamar por mim, “Maria”, “Maria” como um despertador, não para nos acordar pela manhã, mas para me acordar para a vida. Porque na verdade, sinto-me a dormir, um sono sem sonhos, sem conteúdo algum, como se fosse uma nuvem composta por uma sequência de actos que ao longo do tempo vamos automatizando.
Hábitos que vamos criando ou mudando consoante as situações. “Maria, Maria” mas já não é o Manel que me chama, durante algum tempo ainda cozinhei os seus pratos favoritos, ainda coloquei o seu lugar na mesa. Mas pouco a pouco, deixei de pôr 2 pratos, depois, deixei até de me sentar à mesa. Fico no sofá com uma caneca de chá na mão, espero que arrefeça, depois, já não o bebo,  está demasiado frio, esqueço-me cada vez mais da rotina, esqueço-me cada vez mais de mim, lembro-me tanto dos outros, dos presentes, mas sobretudo, dos ausentes.
Há dias em que não sei se faz sol ou chuva, aqui entre estas paredes que abrigaram risos, o tempo é sempre igual, frio e silencioso…
Outro dia uma vizinha disse-me, “Sabes quem faleceu? A Maria!”. “Maria, aquela senhora que passeava na rua sempre muito aprumadinha e usava chapéus coloridos?”, “Sim essa senhora, faleceu enquanto dormia”.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Onda do mar

Tem sido longa a sua viagem,
Por entre tantos cais de solidão.
Por vezes surge uma miragem,
Que lhe vem qual doce ilusão.

Luz de farol em noite escura,
Parece nortear-lhe o caminho.
Ergue-se em  apelo de ternura,
Eis que desmaia sem um carinho.

Quem sabe surja uma enseada,
Na espuma que esculpe as águas,
Já só anseia pela efémera chegada,
Onde possa por fim jazer as mágoas.


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Dizemos obrigado, de tudo e de nada, não é uma questão de sermos pessoas muito educadas, mas de um certo automatismo que adquirimos. Obrigado a quem nos dá passagem, quem nos abre a porta, a quem nos atende na loja, a quem nos dá uma informação básica. É certo, adequa-se, mas por vezes é demais as vezes que agradecemos e quem sabe nem nos apercebamos, porque nos é comum, como dizer olá, bom dia, etc.
Mas quando se trata de um obrigado que queira significar reconhecimento e gratidão, quem o dá, assim, com a mesma ligeireza, delicadeza e generosidade? Infelizmente poucos, mesmo muito poucos. Agradecemos a vida que temos? Claro que não, já que não é a que gostaríamos de ter. Agradecemos a cada dia? Na maior parte das vezes não, porque não nos foi simpático. Agradecemos  aquém  ouve as nossas lamurias? Não, primeiro porque nem nos consideramos lamurientos e depois, são nossos familiares ou amigos, faz parte da sua função ouvirem-nos, ampararem-nos, não precisam de agradecimentos, já sabem, que lhes estamos gratos.
Talvez seja preciso que existam datas especificas que nos façam estar mais atentos, mais despertos para olhar os outros, de coração mais bondoso, dando-lhes o tempo e agradecimento que merecem, claro que não só nessas datas mas durante todo o ano.
Lembramos-nos no Natal, Passagem de Ano, Aniversários, dia do Pai, da Mãe, dos Avós, dos Amigos e porque não acrescentamos mais uma data, 11 de Janeiro, dia do Obrigado, para agradecermos com sinceridade, com justeza, com o coração, com o perdão. E desejar que o carinho, a dedicação, a bondade, o reconhecimento e o obrigado, não sejam apenas o cumprir de datas do calendário, mas que nos aflorem, naturais e espontâneos tal como se nos fossem uma brisa que emana do mais profundo do nosso ser. 
Eu, confesso, que também me esqueço algumas vezes de agradecer, de vos agradecer. Por isso, recebam este obrigada, não como uma flor, um ramo ou um jardim de flores, mas como uma inteira primavera.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Domingo de cachorro

A chuva dorme no colo do domingo,
Logo no dia mais belo da semana.
Desmorona-se tudo num só pingo,
E o frio dum vazio já do dia emana.

Deito-me num sofá desolado,
Todos os meus planos afogados.
Se a alma se deixa abandonada,
O olhar desce as ruas agrilhoado.

A minha dona bem me pede abraços,
Joga-me a bola, afaga-me o rosto.
Mas tudo me são tristes embaraços,
Todas a horas me são de desgosto.

Pedem-me os passos para caminhar,
Para as árvores já lhes tarda a visita.
Os prédios anseiam por ver-me passar,
E até o sol se entristece se não me fita.

Há cães que gostam do inverno escuro,
Até gostam deste céu que assobia ruidoso.
A mim colocam-me uma capa que esconjuro,  
Deixo de ser cão, de quase humano e feioso.

Eu que sou feito de ventos e vendavais,
Preciso de correr até à linha do horizonte.
Todos os dias me são uma prisão de iguais,
O domingo é a minha libertadora ponte.


sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Post.it: Cá estou

Cá estou de novo, aqui, numa manhã cinzenta de inverno, um cinzento que se entranha na pele, que nos penetra as emoções, que nos entristece o olhar. Que nos entorpece os sentidos, que nos rouba até o sorriso.
Cá estou de novo, aqui, nesta sequência de dias, de noites e esta chuvinha miudinha que não é nem deixa de ser. Molha a calçada, faz-nos escorregar e se a arte do equilíbrio não for das melhores, vamos mesmo ao chão, "magoando" a roupa, "sujando" a alma desta humidade. De vez em quando, vem um aguaceiro para nos "animar" e fazer despertar desta letargia. Então, corre-se para o primeiro toldo de café, entrada de prédio ou por debaixo de uma varanda que nos sirva de abrigo, aqui e ali, abrem-se chapéus-de-chuva que mais parecem cogumelos coloridos a despontar.
Cá estou, aqui, descendo os olhos sobre a rua, procurando em cada rosto um diferente, menos cinzento. Há quem goste deste tempo, quem lhe fique indiferente, quem caia e se levante a sorrir, quem escreva mensagens de amor nos vidro molhados, irritam-me! Invejo-as pela sua "louca" felicidade, pela leveza dançante dos seus pensamentos positivos, pelo "bom dia" que nos oferecem quase como quem oferece um bouquet de flores. "Bom dia", respondo, mas o que tem de bom? Esta dor de cabeça fruto da sinusite, rinite e outras (ites), enfim, "chatices". E depois, são os ossos doridos a manifestarem-se; as constipações, as depressões, etc., etc.
Cá estou de novo, aqui, é sexta-feira, que bom, amanhã é sábado, dizem os jovens à saída da escola! O que tem de bom? Quase me apetece perguntar, deve ser bom para eles que nada têm para fazer, apenas relaxar, dormir, sonhar e à noite ir para a borga, as mães tratam das tarefas domésticas, passar e lavar a roupa, que com este tempo não seca. 
Levar o cão que o filho  lhe pediu mas do qual não toma conta, a passear logo pela manhã, ouvir o marido a falar do trabalho, da bola ou de imposto para pagar e os filhos, bem, esses, pouco falam preferem mandas sms, "mãe vou chegar tarde, não te preocupes depois como qualquer coisa na rua", mas preocupo-me, faz parte de ser mãe!
Cá estou de novo, aqui, seja que dia for, em que lugar esteja, estou, pensando, por vezes sonhando, acreditando ou tentando, ser feliz. 
Porque há dias em que, também eu, sou como aquelas pessoas que trazem o sol dentro delas, quer faça chuva ou neve, têm o coração quente, quase ardente de paixão pela vida, por estar aqui. 
Quando estar aqui, significa que se pode fazer algo, por pouco que seja para ter e ser a luz de quem só vê e sente a escuridão. Cá estou de novo, aqui, felizmente...




terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Post.it: Bom Ano

Bom ano novo, um desejo, por vezes um desejo profundo, para que tudo seja diferente do ano (velho). Para que coisas novas aconteçam, ou para que as coisas velhas não voltem a suceder. E repetimos as palavras habituais, com Paz, Saúde, Amor… Esta época, curiosamente, ouvi e repeti, palavras que nos outros anos não eram tão usuais, pedi desejaram-me um futuro com Harmonia e Alegria. Num possível estudo sociológico, isto devia ter uma clara explicação, talvez estejamos menos exigentes, talvez estejamos mais conscientes, mais desejosos de harmonia na nossa vida, de mais alegria nos nossos dias. Com tantos acontecimentos maus, com tantas tendências negativas, ficámos tristes, muito tristes, por nós, pelos outros. Com tantas ameaças belicistas e instabilidade política, falar de Paz, talvez seja um desejo cada vez mais longínquo ou demasiado ambicioso, tornámos-nos humildes, desesperados e, pedidos de harmonia entre as nações e paz aos corações tornou-se o nosso maior anseio.
Desejar um Bom Ano Novo é apenas uma expressão, mas é também uma espécie de acreditar ou não no Pai Natal, quem sabe exista e realize os nossos desejos.  Mas depois da festa, chegamos a casa, abrimos a porta com um sorriso no peito que rapidamente esmorece, a roupa continua no monte por passar, as contas por pagar, o frigorifico avariado, a saúde de um familiar debilitada, as nossas dores, ainda doem.
No dia seguinte, o autocarro continua atrasado, os colegas continuam uns melgas, o chefe voltou a chegar com mau humor nem um bom dia nos deu. Ano novo, sim no calendário, de resto continua tudo igual… Tirando que estamos (tesos) gastámos mais do que podíamos, mais (obesos), comemos/bebemos mais do que devíamos.
Os festejos já lá vão, a realidade desperta-nos mesmo quando os olhos cansados por poucas horas dormidas se querem fechar.
Há ainda quem se (atreve) a lançar um (Bom Ano) misturado com o Bom dia de cumprimento matinal, respondemos automaticamente a mesma frase, por educação, por uma réstia de esperança que ainda nos envolve os sentidos. E lá subimos as escadas, descemos a rua, a vida, ainda bem, continua…
Este ano, tal como nos anteriores, carregamos o desejo, qual? Muitos, todos os que precisamos, acho que desejamos muitos na expectativa de que algum, nem que seja apenas um, nos aconteça… 
Mas este ano, estou tentada a fazer que algo nos seja diferente:  que neste ano, o desejar nos seja semente do querer. Um querer que regamos todos os dias, que alimentamos não só de esperança mas também de luta, de dedicação, de persistência, de vontade de continuar, de mudança. 
Que sejamos nós. Quem? Cada um que quer/precisa que a mudança  lhe aconteça. E se essa mudança não acontecer neste dia, neste mês, então, não desistam. Continuem a regar a semente e acreditem, quando chegarem ao fim deste ano vão ter uma árvore, com flores e com frutos. 
Os frutos do nosso trabalho, da nossa fé, da nossa capacidade em persistir e lutar pelos nossos desejos. No final deste ano quando regressarmos da festa, vamos encontrar algo diferente nas nossas vidas: nós, ao colhermos o que plantámos…

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Post.it: Fazes-me falta

 Fazes-me falta, o Teu calor quando me estás no coração. O Teu sorriso quando me dás pensamentos de alegria. O teu amor quando me sinto reconfortada. A Tua mensagem de esperança que me faz acreditar que o dia de amanhã será melhor.
Fazes-me falta  para que a solidão seja afastada pela Tua companhia. Que o silêncio se preencha pela Tua voz em mim. Que a Tua presença se manifeste nas pequenas e nas grandes coisas, nos gestos de conhecidos e de anónimos.
Fazes-me falta para Te encontrar em cada rosto triste que perdeu a tua luz. Em cada passo lento que se perdeu do Teu caminho.
Em cada mão vazia que já não se estende para o outro num gesto de quem dá ou pede ajuda.
Fazes-me falta para preencher este vazio de sonhos, este frio sem ânimo, esta paisagem a que o fogo roubou o verde, estes rios que sem chuva se tornaram riachos. 
Fazes-me falta, acredito que fazes falta a muitas pessoa  que perderam familiares, amigos, casas, que perderam tudo ou quase tudo que era a sua existência. Aos que sem tecto e sem afecto dormem nas ruas, aos que sofrem nos hospitais, aos que sofrem nos seus lares. Fazes-lhes falta, muita falta, para sentirem que a vida ainda tem sentido, que a felicidade mesmo que tarde, um dia vem. 
Fazes-nos falta, hoje, sempre, vem, estamos à Tua espera neste Natal para festejar  a Tua chegada a cada um de nós.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Trazia no olhar mundos tristes

O que me lembro, não sei, 
Sinto que no seu olhar, viajei,
Por montes, vales, histórias,
tantas, todas, boas memórias.

A voz, qual balada embaladora,
Era de toda a dor conciliadora.
Não era o que por vezes dizia,
Era sobretudo, como o fazia.

Os gestos, asas a pairar
Raios de sol em tons de luar.
Á sua volta tudo era mar,
Mas de um suave navegar.

Mas de tudo a maior recordação,
Foi o silêncio que vem do coração.
Quando um dia timidamente sorriste
Vi que no olhar havia um mundo triste.


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Post.it: Um bocejo

Devem achar-me um bocejo, sinto-me por vezes realmente um bocejo no olhar dos outros. Imagino quantos bocejos dará quem me lê e se tiver coragem, quem me relê, porque é verdade há quem me relei-a.
Ouço os meus amigos a falar de política e o meu pensamento voa pela copa das árvores, ou por voos rasantes sobre o mar desafiando a crista das ondas. Mergulho de tal maneira nesta espécie de fantasia que por vezes até dou por mim a sorrir, o sorriso de quem não está presente nas discussões sobre o aumento dos impostos, sobre as guerras nacionais e internacionais. Sobre as privatizações empresariais, os créditos malparados, etc, etc, e muitos etc. mais. Sou completamente desligada, não por falta de interesse, não é que não me importe, que não me doa quando  mão alheia  me entra no bolso e “rouba” sem prévio aviso o parco pé-de-meia que vou guardando para velhice. Quem não teme pelas consequências normalmente funestas de uns e de outros e que de um  momento para o outro podem virar as nossas vidas do avesso. A verdade é que vivo no aqui e agora, ainda que aparentemente fantasioso, fico cada vez mais distante do passado, cada vez menos ansiosa com o futuro, só o agora me importa. E agora apetece-me voar com o olhar para horizontes mais soalheiros. Quando os meus sentidos regressam à mesa do café, ouço apenas um silêncio aterrador, quase reprovador, por fim alguém questiona – E tu o que achas? – O que acho, sei lá, não “pago” aos deputados para defenderem os meus interesses? Não elegi um ministro e um presidente para melhor servirem o meu país? Cada um que cumpra a sua função, tal como eu como cidadã cumpro as minhas! Mas os meus desabafos ficam para a escrita e mesmo nela sempre encontro um sentido positivo para quase tudo.
Mais uma vez, tenho a sensação de bocejo do leitor que mesmo sendo amigo, não deixa, talvez  de enfadar-se. Imagino o seu sussurrar contestante “Deixa lá de ser uma Virgem Maria sem altar, espevita esses neurónios, acaba com essas balelas de generosidade, de amor ao próximo. Tira do rosto esse sorriso conciliador, cala de vez essas palavras de esperança. Esse copo que para ti parece sempre cheio enquanto para mim está sempre vazio”. E num rasgo de quase malícia, acende centelhas de ténue sarcasmo “se eu fosse governo havias de pagar imposto só por te armares em boazinha, em benevolente e positiva, isso lá existe?” Ou existe? 
De repente a dúvida. Por essa dúvida, mas só mesmo por ela, vale a pena continuar a estar  aqui, a criar bocejos nuns, algum motivo de interesse para outros. No entanto, não vou cansar a voz, não vou gastar as palavras, só para te convencer de algo que não aceitas. Um dia o descobrirás (suponho/desejo)  se voltares aqui, é porque já o descobriste, então vem, mas traz contigo as asas do sonhar, do acreditar e vamos ser um bando de pássaros à solta, libertos do peso de ser infeliz. E respondo ao teu bocejo “Quem me dera que a infelicidade pagasse imposto, aposto que todos tentaríamos verdadeiramente, ser felizes”...

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Poesia

É através de ti que falo.
É em ti que tanto calo.
É em ti que adormeço.
É em ti que esqueço.

É contigo que sonho.
Em ti a esperança ponho.
És a cura do passado.
És o futuro desenhado.

És neste passo a passo,
O mais terno enlaço.
A minha fonte de luz,
Que na noite me conduz.

És a palavra do meu querer,
Cada silaba do meu crescer.
Em ti liberto-me de cada dor, 
E em ilusão sou tão melhor.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Post.it: Mês do Natal

Já estamos com um pé no mês do Natal, mas falar de Natal neste tempo, é-nos doloroso, para uns mais do que para outros, para os que perderam familiares, amigos, uns por questões de saúde, outros por acidentes, outros ainda nos incêndios que avassalaram o nosso país, falar do Natal, talvez não faça sequer sentido. 
Mas também será difícil falar de Natal para os que, perderam os seus bens fruto de uma vida de trabalho, ou o seu único meio de sustento, nesses mesmos incêndios ou em outras catástrofes naturais. Não esquecendo o mundo que nos rodeia, esse universo de relações, que nos faz sentir cada vez mais próximo o perigo das ameaças belicistas entre países que se radicalizam. Ou, ainda, para todos nós que começamos a sentir as manifestações das alterações ambientais e o quanto nos choca a falta de consciência dos poderes de decisão sobre esta questão. 
Não esquecendo os muitos, que por razões várias sentem que a dor quase supera a fé, que nos rouba a  alegria da festa, e enche de penumbra o nascimento que deveria ser de renovada esperança.  
Falar hoje de Natal, abala-nos, confunde-nos, por tudo o que aconteceu e que nos deixou tão pouco para agradecer nesta época.  
Contudo, talvez seja agora que o Natal deve ser mais sentido, mais reforçado, mais unificado por cada um. Revelando a nossa capacidade de lutar para renascer das cinzas e seguir em frente, construindo, ou reconstruindo os sonhos perdidos, queimados, sonegados à nossa confiança. 
Devemos, por tudo isso, oferecer a quem mais precisa um Natal mais solidário, mais humanitário. Devemos presentear cada  coração com um abraço.  Oferecer a cada dia uma semente de esperança.  
Sairmos da nossa “ilha” não lhe chamarei “indiferença” mas de rotineira “apatia”  e darmos-nos aos outros em generosidade, em partilha, em presença. 
Este ano, devíamos em vez de acolher o pinheiro em nossa casa, plantá-lo numa floresta devastada, e ver surgir à volta do nosso, muitos outros. 
Vamos entrar no mês do Natal, vamos recebe-lo com carinho, ainda que a nossa alegria esteja magoada, que sintamos a nossa alma vazia, vamos enche-la de fé e leva-la a  quem mais precisar. Que este Natal não seja de presentes medidos pelo seu valor, mas que o seja pelo seu amor. Se o Natal vos bater à porta, sejam generosos, deixem-no entrar…


terça-feira, 28 de novembro de 2017

Post.it: Terra

Sinto-me feita de ti, de vento, de folhas caídas, de salpicos de mar. Sou montanha e planície, rio que te delineia as margens em voos que rasgam  a linha do horizonte. Sou onda que se estende pelos 7 mares onde ecoam sereias; sou nuvem que se alonga qual preguiça infinita no azul celeste. Sou como tu, feita de sonhos, de ilusões, de estranhas e doces paixões, ainda tenho esperança, ainda guardo resquícios de confiança, sou um velha no olhar, mas no coração uma criança. 
Sou tua, abraço-te e beijo-te, adormeço em ti e cubro-me com um manto luar. 
Sou eu, a ultima andorinha da Primavera, sim, as minhas irmãs já partiram. Eu, ando sempre atrasada, sempre perdida, sempre esquecida do tempo. Porque o tempo são-me asas e as asas só querem voar por terras sem fronteira, por regiões sem muros, por olhares sem grades, por corações sem medos. 
Estou atrasada, reconheço, mas culpa não é totalmente minha, afinal, a natureza não tem horas, não usa relógio, não segue as badaladas do sino da igreja, nem se rege por um calendário de folhas removíveis. Vivo ao sabor do vento e da chuva. Cantando ao namoro desencontrado do sol e da lua. 
Terra, és a minha mãe, a minha casa, o meu cais, o meu ninho, és o meu calor, o frio, a dor e a felicidade, a alegria e a tristeza, até a saudade.  
Por isso parto, por isso regresso, só porque quero, só porque me chamas, sigo-te, estou sempre onde estás, aqui, ali, pintando de verde e de azul a minha solitária existência.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Numa aldeia

Queria viver numa aldeia do interior,
Onde o frio se atenua com amor.
Viver numa casa de pedra baixinha,
Ter uma amiga em cada vizinha.

Casa de pedra escura,
Onde a noite mais tempo dura.
Campos cheios de neve,
Onde a brisa que nos toca é leve.

Acordar com os sinos na passagem,
Dos rebanhos que vã para a pastagem.
O pastor com o cajado comandando,
O cão ao redor dando ordens ladrando.

Queria viver numa pequena aldeia,
Onde a todos com bom dia se presenteia.
Partilhar histórias ao calor da lareira,
E nos Santos cantar e saltar a fogueira.

Queria viver numa aldeia aconchegante,
Onde o tempo passa suave e devagar.
O rio percorre a margem deslizante,
E o olhar parece pelos campos voar.



terça-feira, 21 de novembro de 2017

Post.it: Estatisticamente estática

Queria construir jardins feitos de tinta, uma tinta     que não pinta mas escreve e descreve a aura da emoção. Queria fazer flores, oferecer amores em tons de primavera em ternos odores, mas, eu que apenas escrevo, ou melhor, tento escrever, acreditando que pelas palavras consigo dar um pouco de mim, sinto e sei nada mais faço do que míseros rabiscos sobre as linhas.
Rabiscos que parecem, ou melhor que quase, mesmo parecem, palavras. Tão simples, tão banais, mas também elas têm de passar pela mudança, uma quase transformação onde ainda me sinto aprendiz e criança, o papel passa a ser um ecrã e a caneta é uma tecla.
Felizmente ainda há dedos dedilhando e aquecendo a frieza do teclado. Felizmente ainda há a mão ponta do caminho que começa suave no coração para que possa desenhar jardins e que nele cresçam flores. Para que cada semente em forma de letras cresça em árvores com doces emoções que embalam o fim das tardes.
Por fim, quando os sentidos se desligam das máquinas e são novamente humanas, frágeis, sensíveis, quando libertam olhar prisioneiro desse plano direito e estático,  podem, então, abrir as asas e voar sem receio, pelos contornos do horizonte.
De vez em quando, é preciso, ser-se pessoa e viajar pelos caminhos da alma, ser mais do que estatística, ficar mais do que estática e, ouvir os passos ao compasso do coração.


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O meu lugar

A vida é o meu lugar,
Onde eu sou apenas eu,
Essa gota tão leve de ar,
Dançando no azul do céu.

A vida é o meu estado,
Meu já corpo cansado,
Sonho algures abandonado,
Horizonte de pó, apagado.

A vida é a minha noite,
Um renascer após a morte,
Onde arrisco a minha sorte,
E busco um rumo sem norte.

A vida é o meu longo dia,
Sol que explode no peito,
Estranha dor sabe a alegria, 
E me expulsa do quente leito.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Post.it: A nossa história

Temos uma história, um passado, um presente, uma história feita de histórias, como se nos fossem degraus para chegarmos mais adiante. Somos a nossa história, escrita nas células do viver que por dentro lhe vão dando sentido. Que por dentro nos vão erguendo muros de separação, ou construindo pontes de união. Tudo se passa aqui, algures, entre o cérebro e o coração, entre o querer e a razão. Por vezes há uma sintonia, um encontro de ideais, uma harmonia e nesse instante, nesse mero instante, tudo faz sentido. Como se víssemos para lá do finito que a vista alcança, um horizonte que só o sentir consegue revelar-nos. 
Por isso, nem que seja só por isso, por esse instante de luz interior, tudo vale a pena é o nos identifica, nomeia, compõe. Temos afinal uma missão, que talvez não seja feita de heroísmos, de grandes dádivas, sacrifícios, é antes um encontro, não aquele que tão ansiosamente procuramos, mas o que tão discretamente encontramos ou que nos encontra. Nesse  mediar  existir ente a luz e a escuridão, entre as cores mais luminosas e os tons mais pálidos e cinzentos, aprendemos a subsistir, a sorrir. 
Enquanto nos dizem, que toda a dor passa. O tempo tudo cura. Mas não passa, mas não cura, apenas muda de nome, apenas muda de tom. E já não dói tanto e já não se chama assim. Passa a chamar-se saudade. Passa a ser uma lembrança, uma memória, uma cada vez mais breve história. 
Afinal a dor passa, passa por nós e o que fica, torna-se ténue como um rasto de rio, que no seu percurso se vai transformando em ribeiro, em riacho, em pequeno curso de água, quase no fim em gota e depois em, pouco mais do que nada. 
Seca-se nos olhos, enquanto ainda escorre no coração e um dia passa a ser um consolador embalo. 
Afinal, o tempo que tudo cura, quando nos vai afagando as mágoas, com palavras de vento, com abraços de brisas.  Em nós vai crescendo uma história, a da nossa vida...


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Ode ao mar

Tens um olhar de alvoradas,
Mesmo até na noite escura,
Que no teu abraço de enseada,
Encontro um cais de ternura.

Se ao menos não fosses quem és,
Se ao menos tivesses tempestades.
Partiria com as mais frias marés,
E não voltaria nem pelas saudades.

Não querendo sempre a ti regresso,
Pelo desejo dessa tua felicidade,
Que une o meu querer disperso.

Em sol ardente contenho o ensejo,
A mais doida e apaixonada vontade, 
De por inteiro me afogar no teu beijo.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Post.it: Como se tivesse asas

As palavras, ai as palavras, sempre as palavras, não as que escrevo, mas as que gostaria de escrever, essas que fazem voar como se tivéssemos asas, não são minhas, apenas me saem da  boca, do pensamento, do sentimento. 
Por vezes, agarro-as, prendo-as na voz com laços de suspiro, mas elas desprendem-se num sorriso e partem. Depois, fica um silêncio que magoa, uma saudade crescente. Porque, sim, gosto delas, sinto que algumas, chegam, também, a gostar de mim. A abraçar-me e num atrevimento que me surpreende, roubam-me um beijo num gesto de brisa. Ruboriza-se-me o rosto, escondo o embaraço, mas não me ofendo. 
Gosto delas, tanto ou mais do que elas gostam de mim. Só me entristece que nem sempre as encontre, que me deixem só perante a folha em branco, o pensamento vazio, o horizonte replecto de um estranho nada. 
Porque sem elas, que importam as flores, as ondas do mar, as montanhas, os prados cobertos de relva, o sol radiante, a chuva pungente. São elas que me fazer ver e sentir tudo o que existe em meu redor. 
São elas que me fazem navegar na orla marítima, correr pelas verdes planuras, saltar riachos, atravessar pontes, romper a linha do horizonte e adormecer feliz numa duna com lençóis de maresia, mesmo que sejam apenas por palavras de sensações, algumas apenas sonhadas e nunca vividas.

Nos dias solitários murmuro-as no vento e ouço-lhes o eco que segue rumo ao infinito. Invejo-lhes a liberdade, elas que já sofreram milenares prisões. Continuam a ser humildes, tímidas, retraídas, por vezes até inseguras, outras vezes envergonhadas, mas também são corajosas, arrojadas, destemidas, valentes, tudo o que queria ser e, reconheço, não sou. 
Estremeço de medos infindos, escondo-me nos armários das emoções e choro, sim, por vezes, demasiadas vezes, choro, lágrimas inexplicáveis aos olhos, à razão. Elas são melhores e maiores do que eu, erguem bandeiras, ultrapassam fronteiras, chegam à lua e dançam com as estrelas.  
 Por vezes sinto que as tenho nas mãos e fecho-as com receio de que fujam, mas logo elas numa gargalhada intrépida revelam que  não estão nela mas sim no coração e eu, por fim, descanso, enquanto as sinto a ser-me.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Post.it: A herança

Quando se fala de herança, de imediato pensamos em bens materiais, quando há outras quiçá, bem mais importantes, a herança genética, essa que transporto e prolongo mas que, por opções do destino não transmiti para o futuro.
A verdadeira herança, no entanto,  é a que vamos deixando ainda em vida, as pequenas ou grandes marcas que ficam de nós nos outros e dos outros em nós quando somos também seus herdeiros. É essa a herança, que posso e tento deixar em forma de gratidão.
O que fica de nós na vida dos outros e na natureza que nos recebeu e aconchegou é uma herança imortal, infinita no tempo e no espaço. Gostava de pensar que a minha pegada humana não foi demasiado grande e  que se  não tornei  o mundo um pouco melhor, pelo menos que não o deixei pior à minha passagem por ele.
Quanto aos outros, a família, os amigos, colegas, vizinhos, conhecidos e até desconhecidos, entristeço-me sempre que causo uma lágrima, uma mágoa, uma tristeza por mais pequena que seja. Já a minha alegria nasce de um simples sorriso, sobretudo se a tiver causado.
Os bens materiais, podem comprar, (quase) tudo no mundo, mas as coisas que mais importam, a serenidade, a paz, a conciliação, a concórdia, a harmonia, a solidariedade, a cooperação, o companheirismo, a amizade, isso não se compra, herda-se na aprendizagem e no carácter.
Permitam-me que vá deixando em vós a minha herança, “que a minha presença vos  anime e a minha ausência vos conforte” (S. Estanislau)