quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Os barcos perdidos

Que saudades tenho,
Dos barcos perdidos,
Dos sonhos esquecidos,
Do lugar de onde venho.

Que saudades de mim,
Quando o sol era eterno,
Até mesmo no inverno,
Brilhava num sem fim.

Que saudades de nós,
Com a felicidade presente,
E a vida cá dentro se sente,
Vibrante num cantar sem voz.

Que saudades de tudo,
Quando o tudo me elevava,
E eu tão jovem, acreditava,
Na beleza humana do mundo.



segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Moda alentejana

 Fui à fonte buscar água,
Desculpa só para puder ver,
Esses olhos sem mágoa,
Que parecem rios a correr.

Fui à fonte buscar água,
Desculpa para te ouvir falar,
Palavras que sem mágoa,
Quer o coração escutar.

Fui à fonte buscar água,
Esperei até o dia anoitecer,
Na vasilha já secava a água,
Que dos teus lábios queria beber.

Fui à fonte buscar água,
E só uma gota te pedia,
Por essa gota de água,
Toda a minha alma floria.

Mas tardaste, voltei sem água,
Pelo meu caminho infeliz.
Fui à fonte, voltei com mágoa, 
E este quer que tanto te quis.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Post.it: Entre conversas

Lembro-me das nossas conversas de outros tempos, falávamos de amores, de encontros e desencontros, de namoros fracassados e de outros começados, de casamentos sonhados e alguns felizes, dos filhos que nasciam de como cresciam, das suas aventuras e cada vez menos das nossas. 
Depois dos 40 começamos a inserir nas conversar outros elementos mais dolorosos (as dores nas articulações e o stress) e outros menos gostosos (as dietas). Tornaram-se moda, de repente passaram a ser uma exigência, fossem magros ou mais cheinhos, todos faziam dieta,  passamos a comer bolos apenas com o olhar e a matemática tornou-se uma constante às refeições,  quase que de máquina de calcular em riste para contar calorias.
Continuámos a somar anos, desenganos, risos alegres e tristes, faz parte da vida vivê-los, faz parte da amizade essa partilha.
 Entrámos para o (clube) dos 50, e com eles outros assuntos inundaram as nossa conversas, mais tranquilos, mais ternos, mais seguros, mais angustiados, mais revoltados, mais receosos, mais felizes, mais infelizes, depende de cada um, da sua vida até aí, da sua maneira de ser e a forma como encara o futuro, “do seu crescimento depende o seu envelhecimento”. Porque é disso que se trata, de com envelhecer.
Falamos do filhos crescidos, com receio do seu futuro. Falamos  da demência dos nossos familiares mais próximos, da degradação da sua saúde, falamos de muitas partidas e de poucas chegadas ou seja, nascimentos.
Falamos entre gracejos e ensejos, da morte. Torna-se presente, latente, primeiro por medo, depois por aceitação, cada vez mais como mera constatação, não de lá chegar mas de viver com premência o antes, a viagem que desconhecemos qual a duração e contornos do percurso, por isso é bom precaver, levar o que se pode e que poderá ser-nos necessário, ou simplesmente nada, deixarmos que tudo aconteça pelo melhor.
- Por qual adjetivo queres ser recordada?
As respostas múltiplas não se fizeram demorar:
Generosa. Boa pessoa. Bonita. Alegre.  Leal, Amiga, Inteligente, Otimista, Bondosa, e tu?
Chegou a minha vez, posso escolher todos esses adjetivos? (pergunto em pensamento) claro não, que ambição desmedida, que falta de humildade, de justeza.
- E tu? Insistiram. 
- Gostava de ser recordada como uma pessoa discreta.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Post.it: És tu, sou eu

Olhas o mar com olhos de infinito, a linha do horizonte tornou-se uma fronteira que te sufoca os pensamentos. Os cabelos dançam a melodia do vento, parecem loucamente felizes, mas o rosto apático cria um alarmante contraste.
Estremeces, quase garanto que estremeces, um arrepio de alma que se aconchega na desculpa de que é o outono que já arrefece. Mas, o ar ainda está morno, foste tu que deixaste o inverno antecipar a sua chegada.
Quase te ofereço um casaco, um abraço de calor humano. Mas hesito, perscruto os teus devaneios, embarco na tua viagem assombrosamente estática. Que idade terás, assim à distância, pareces uma criança indefesa, mas não a tristeza, que é de pessoa adulta. Bebo-te os gestos num golo quase sôfrego, de bêbado deambulante, e nesses passos a medo, aproximo-me. Invade-me uma curiosidade de tudo o que é estranho e queremos conhecer, há um crescente de carinho quase maternal que me magoa. De repente tudo é apenas o nós numa envolvência de sentimentos, surpreendentes, sublimes, ternos, tão docemente humanos, solidários  mas também solitários.
Sinto-te carente, sim carente, desta dádiva que nos faz sentir inteiros,  verdadeiros,  puros. Pé ante pé com pegadas que ficam cravadas na vida em suspense de ser vivida, chego mais perto, e ainda um pouco mais. Não receio, é apenas uma pessoa perdida em busca de si ou de algo para além de si. Quase que te sinto o coração latejante no peito, quase que te ouço os pensamentos cheios de esvoaçantes ideias. Tantas, tão indefinidas, as tuas, as minhas, quem sabe ambas se tenham um dia cruzado, olhado, conversado na galáxia de paixões candentes. Mas agora só temos o silêncio, não precisamos de mais nada. Não te quero roubar as palavras que nunca me dirás.
Por fim a paz, a serenidade parecem ter chegado, vejo isso na mudança do teu olhar, dos gestos, os braços antes abraçados aos ombros, descem ao longo do corpo, as mãos encontram-se, os dedos entrelaçam-se apaziguados. O olhar afasta-se do infinito, aproxima-se de um plano mais curto. Olha-me com surpresa, assusto-me, assustas-te. Envergonhada pelo meu atrevimento, sorriu-te, envergonhada pelo teu afastamento, sorris-me. 
Percebo, és tu, melhor sou eu, a tua sombra.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Post.it: Sair para querer ficar

Às vezes, mas tão somente às vezes, sinto vontade de sair deste lugar. Digo que isto me acontece às vezes, tão raramente que até a mim me surpreende. Sou reservada, pacata, não chego a ser tímida, apenas discreta. Embora o “discreta” não me assente bem, porque tenho uma vontade inquieta. Mas aquieto-me, tranquilizo-me, respiro, medito, aplaco a ira dos dias cheios de gente que contrasta comigo e que se diz na maior parte do tempo, amiga e até para cúmulo dos cúmulos, boa pessoa. Gente que se importa com tudo em geral, e nada em particular. Há tanto alter ego por aí, dourado mas que não é de ouro, nem sequer brilha, nem sequer encanta, cansa, esse vil engano em que cada um mergulha e acredita ou quer fazer acreditar que o é, sem nunca chegar a ser algo que valha a pena.
Então aí, somente aí, apetece-me sair e claro, voltar, porque vá para onde for, tudo/todos são tão similares que se torna  bom regressar e sentir que já conhecemos cada recanto desta casa a que chamamos vida.
Outro dia li esta frase “ A viagem começa nos outros”. Depois de tantas destas viagens, mudei de rumo, mudei de frase, mas também de fase, agora “A viagem começa em mim”. Não é por vaidade, reconheço que há muitos e melhores caminhos, mas para quê seguir estranhos rumos, quando ainda mal conheço os que me compõem? Não quero ser outro alter-ego, colocar-me num pedestal e um dia cair dele sem amparo. Apraz-me a sabedoria quando acompanhada de humildade. Gosto de quem muito sabe, porque teve o gosto de aprender. Gosto de milionários que abraçam grandes causas e não grandes luxos. Gosto de pintores que pintam do coração e não apenas para (de)coração.
Às vezes é preciso sair deste lugar, mesmo que seja apenas um partir nas asas do pensamento, do sentimento, sentir o vento no rosto, a caricia do sol,  os lampejos de chuva, algo que torne mais leve a nossa essência, algo que sopre para longe os mesquinhos devaneios, que incendeie e queime a gratuidade das palavras vãs e lave bem lavada a alma entorpecida da prisão onde nos colocam as horas com os seus aguçados ponteiros. 
É bom sair, saber que temos para onde ir, que há gente  diferente, que é e que torna o mundo contente, que o horizonte é infinito, que o tempo é perpétuo e o universo pacifico, algures, na liberdade de sonhar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O meu presente de aniversário


Ainda não vos apresentei,
É lindo, divertido, brincalhão.
É tudo o que sempre esperei,
Encontrar num aprendiz de cão.

Aprendiz pela tenra idade,
Do saltitante cachorrinho.
Que usufrui da liberdade,
De me mordiscar com carinho.

Quando corre de orelhas a voar,
Quase parece um aviãozinho.
Que infeliz fica o seu doce ar,
Quando o deixo em casa sozinho.

Já começa a ficar educado,
As necessidades faz no jornal.
Só as faz em qualquer outro lado,
Se as notícias, do país falarem mal.

Polinho? Perguntam com admiração,
Que nome tão estranho e diferente!
É o nome que me está no coração,
E agora espero, no de toda a gente.

O meu presente de aniversário,
Há tanto tempo que o queria.
O meu terno e fiel companheiro,
Que me enche a vida de alegria.



terça-feira, 11 de outubro de 2016

Post.it: A perpétua busca

“Toda a vida procurei a felicidade, amei, fui amada umas vezes, outras vezes não. Casei, descasei. Voltei a tentar, voltei a fracassar. Saltei, tentei, parti o orgulho, magoei a esperança.”

Hoje, depois de tudo ainda me sinto uma aprendiz, ainda persisto, talvez no erro, em busca da solução.
Depois de tanto cair e outras tantas vezes me levantar, fui compreendendo a lição, a minha lição, que não tem de ser igual para os outros. Aqui estou apenas a partilhar,  nada tenho para ensinar. Porque tal como vocês, tentei seguir o certo, aquilo que me diziam ser melhor. Foi? Não. Tive que caminhar com os meus próprios pés, ninguém pode ser os nossos passos. Podem dizer, não vás por aí, mas temos que ir, para perceber a razão dessa proibição. Por vezes é tudo uma questão de momento, se esse momento foi doloroso para uma pessoa, não o será necessariamente para outra. Claro que temos de ter alguns cuidados, ficar alerta, prevenidos, munidos de caixas com pensos rápidos, outras tantas com lenços de papel, para secar as lágrimas, nem todas de dor, algumas, muitas de alegria.
Toda a vida procurei a felicidade, houve momentos em que a senti perto, tão perto que quase a conseguia tocar, mas queria mais do que o seu toque, que o vislumbre do seu sorriso, queria, precisava, do seu abraço apertado e perpétuo. Sufocada, a felicidade partiu.
Voltei a procura-la, em rostos, em gestos, em corações, em primaveras floridas, em verões escaldantes, nos outonos e até no frio do inverno.
A dada altura de  tanto a procurar, começou a crescer-me a dúvida, será que ela existe? Será que  a vi e senti ou foi apenas uma ilusão?
Não, não acredito que tudo tenha sido uma fantasia  da minha ansiedade, do meu querer. Na verdade, conheci momentos belos, vivi tempos lindos, identifiquei um mundo repleto de coisas sublimes. Pode lá ser que não se sinta felicidade ao ver o azul límpido do céu, a vastidão ondulante do mar, a noite estrelada, o verde dos prados, as avenidas de árvores, o voo singelo das aves. 
Só então percebi, procurei toda a vida a felicidade,  mas em cada instante, foi sempre ela que me encontrou.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Post.it: Histórias como a nossa

Histórias, todos temos as nossas, que por serem histórias, são coisas do passado, embora, nem sempre coisas passadas. São situações vividas e que já não podemos repetir para reviver esse momento de felicidade. Coisas que não pudemos alterar para que corram de forma diferente, melhor, pensamos no nosso arrependimento, na nossa idílica esperança.
As novas histórias em nada se comparam com as “velhas”, ainda não ganharam o sabor que a maturidade e o passar do tempo lhes confere. São um pouco como a fruta, verde não sabe a nada, mas quando amadurece resplandece em doçura, em sabor que nos apetece saborear lentamente até ao fim.
Todos gostam de ouvir histórias, sobretudo se tiverem um conteúdo anedótico, essas “quedas” que damos na vida e a forma como lhe colocamos um final feliz que nem sempre teve. Mas só o facto de estarmos aqui para contar já pode ser considerado um final bem-sucedido.
Mas mais do que ouvir contar histórias, todos gostam de contar as suas, todos gostam de as colorir e se tiverem o dom da oratória, porque não ficcionar um pouco para prender a atenção do ouvinte? A vida já é uma chatice, um marasmo, um drama de contínuos actos, para quê ainda estar a partilhar a nossa desventura shakespereana?
Nós, todos nós somos uma escultura esculpida pelo tempo, pelo vento, o sol, pelo olhar dos outros. Sim pelo olhar dos outros, e isto,  de repente, trouxe-me à memória a frase de uma grande amiga “os outros não têm defeitos nós é que os vemos com defeitos, na realidade, o defeito está na nossa visão”. 
Só muito tempo depois é que percebi a sua amplitude. Ao longo da nossa história, na nossa busca incessante do outro, esse alguém que nos completa, que nos faz feliz, construímos um ideal, físico, psicológico, económico, familiar, etc, etc., etc. e etc. A dada altura parece-nos que sem esses predicados ninguém é o ser perfeito. Mas a verdade é que se for a pessoa que nos desperta sentimentos superiores, encontramos-lhe todas e mais algumas virtudes, mesmo que quando nos passe a “pancada” da paixão, acabemos por constatar que não as possui, enfim, lá ficamos nós com mais uma história, que está longe de ser perfeita, mas é a nossa…

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Folha de Outono

Gosto do dourado Outono,
Gosto de cada folha que cai.
Quando adormece num sono,
Que nas asas do vento se vai.

Paira suave, quase sem pressa,
Sem mágoa, talvez deslumbrada.
Com aquela eterna promessa,
De voltar na primaveril madrugada.

Apenas uma folha, dirão,
Perante o meu encantamento.
Não sei se ela tem coração,
Mas sinto-a no meu, nesse momento.

Sim, é uma folha, mais nada,
Das árvores que se estão a despir.
Mas dessa folha, no chão pousada, 
Não consigo, sem tristeza, me despedir.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Post.it: Vaga lembrança

 Quem fui,  quem sou. Os caminhos que percorri, as sensações que senti.
Morri no dia em que esqueci.
Do meu passado, do meu presente. Das recordações que construí. Das vitórias, dos fracassos. De tudo o que fiz, do que ainda queria fazer. E tinha tanto por fazer. Lembro-me que tinha planos, mas não me lembro quais. Recordo-me que tinha esperança, não sei sobre o quê.
Morri mas ainda encontro a marca dos meus passos, ainda vejo o meu rosto no reflexo do espelho, embora não tenha a certeza de que seja eu, dizem que sim. Por vezes rio-me desse olhar perdido em busca de me encontrar. Num jogo de escondidas, em que estou aqui e não me encontro. Por vezes choro, porque estás ai e não te reconheço, há em ti, qualquer coisa de mim, não só no gesto simultâneo, mas na dor coincidente. Então estendo-te os braços, estendes-me os braços mas não acontece entre nós o abraço. Uma barreira que não consigo identificar. Um muro de medos, uma fronteira de escuridão, aumenta cada vez mais a nossa distância.
Hoje sem saber bem porquê, chamei-te Lembrança, talvez porque me tenha lembrado vagamente do teu nome, curioso, é igual ao meu.
Mas há dias em que te chamo Esquecimento, por similar razão, não me recordo do teu nome, dizem que é igual ao meu, mas, qual é o meu?
No princípio, tinha muitas questões e as respostas magoavam-me porque na verdade já as conhecia, doíam-me porque sendo de situações passadas as sentia novas, num passado que me estava sempre presente. 
Depois, até das perguntas me fui esquecendo e ninguém me veio dar respostas. Cresceu uma paz, um silêncio, um distanciamento, uma morte, como se a vida morresse, quando ela se esqueceu  de terminar e continuou a viver.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A partida do verão

Ainda te procuro em cada pegada,
Na praia que fica agora deserta.
Pegadas de gaivota cansada,
Por voar na corrente incerta.

Peço-lhe a asa, peço-lhe o olhar,
Aceno aos seus altos planos.
Vã esperança a de a encontrar
Em tão vastos e densos oceanos.

De vez em quando uma vaga,
Cresce e eleva-me o coração.
De vez em quando uma calma,

Vem falar-me ao ouvido baixinho,
As tempestades são como a paixão, 
Passam e delas nasce outro caminho.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Post.it: Tudo o que quero

Tudo o que quero é meu. Aquela amizade, aquele amor, aquele sorriso, aquele olhar que navega no meu.
Quero, quero tudo, mesmo que um dia se dilua no tempo, que parta com o vento, que se dissolva nas marés.
Hoje está aqui e pertence-me sem direito de posse, sem prisão de abraço, sem obsessão, sem loucura de paixão, sem gritos de chantagem, sem lágrimas apelativas, É meu  apenas porque quer ficar.
Porque deixo a gaiola aberta e escolhe que sou eu o seu lugar. Quem sabe, mude. Quem sabe o seu coração abra asas e voe para um destino que não já conflua com o meu, deixo-o ir.
Sim, é livre de partir, pura e simplesmente porque me agarro com todo o meu desespero à esperança que volte. Volte sempre e queira definitivamente ficar.
Tudo é meu, no agora em que me sorris, em que me dizes as palavras que preciso de ouvir, que me olhas e sinto que sou o teu mundo. Sou feliz, tão feliz…porque é meu, este infinito, segundo.


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Post.it: Lugares perigosos

O passado é um sítio muito perigoso para se visitar. Tem armadilhas, algumas prestes a explodir ao simples olhar, ao simples suspiro. De repente pode afogar-nos em lembranças, de repente pode fazer-nos vir à tona das nossas fantasias. Porque o passado, tem tanto de verdade como de imaginação, quando o tempo e a distância o tornam mais suave, quando as feridas se tornam lições que tivemos que aprender pelas réguadas da vida. E nós, esfregámos as mãos, para aliviar a dor. Secámos as lágrimas com lenços de esperança, ou desejo de retorquir, “quando eu for grande hei-de fazer-te o mesmo, vais ver se gostas!”. Mas felizmente passou, e ao passar mudou o pano de fundo da história, afinal não foi um deserto árido de ventura, até era um jardim repleto de primaveras. A verdade, o que realmente aconteceu, foi um inverno, gélido e magoado, mas que importa, já passaram tantos verões que todos os icebergues da vida se derreteram e tornaram-se praias douradas, com suaves ondas e fofas dunas.
O passado é um sítio inquietante, pelas aventuras, pelas ternuras. Pelo que foi, pelo que devia ter sido. De quando em quando, perdemo-nos no seu labirinto e vemo-lo através dos olhos da criança que fomos, tudo era tão grande, assustador, havia abismos em todos os lados, mas não os temíamos, eram desafios, só os fortes, só os bons venciam, e nós, éramos, frágeis, sim, mas bons, de alma e coração. Não sei porque  nos acusavam, de reguilas, rebeldes, desobedientes, irrequietos, do que na verdade éramos, crianças. Algo que os crescidos já tinham esquecido, talvez não tenham visitado o seu passado para recordar os bons e os maus momentos, talvez tenham apagado as cores do seu arco-íris e só se lembrem da copiosa chuva.
Mas o ciclo da vida contínua imparável, as crianças tornaram-se adultos, os adultos tornaram-se velhos e os velhos, uns mais do que outros, voltam a ser crianças, sem viverem aventuras mas recordando-as, quiçá, imaginando-as.
O passado, torna-se finalmente um lugar feliz, porque se descobre que apesar de tudo, éramos felizes. A felicidade é viver o ontem que seja para sorrir é olharmos para o amanhã com esperança,  mas sabermos que só no hoje é que podemos sentir-nos plenos de vida.


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Dá-me os parabéns

Dá-me os parabéns de nascimento,
Se o meu viver teve algum significado.
Se atenuei cada doloroso momento,
Se deixei  alegria por todo o lado.

Dá-me os parabéns se queres festejar,
A história deste já longo caminho.
Que em cada amigo encontrou lugar,
Para se dar e receber com carinho.

Dá-me os parabéns se valeu a pena,
Cada instante de amor e de amizade.
Se deixei a semente mesmo pequena
Que cresceu desabrochou em felicidade.

Dá-me os parabéns em prenda,
E que nela encontre ao desembrulhar.
Algo que alegremente me surpreenda,
Porque não existe em nenhum outro lugar.

Dá-me os parabéns pelo meu aniversário,
No desejo de uma  perpétua repetição.
Desta força de mar, desta doçura de rio,
Com que me recebeu cada coração.


Dia especial

Há dias diferentes,
dias especiais
dias de ficar contente e sorrir.

Esses dias são raros,
sentidos como únicos.

Este é um deles.
Não por ser 12,
a magia da perfeição,
Não por ser mês de semear,
de acreditar na promessa de vida.
Não, este dia é especial porque é teu.
Ele sentiu-te espreitar a vida
 e fez-te respirar.

E tudo mudou,
porque passaste a existir!

O mundo sorriu,
esperando o teu sorriso.
O mundo acreditou em ti,
que algo haverias de mudar.

E mudaste!

Tocas a vida de quem por ti passa,
de quem vai ficando
E espalhas sementes
  de acolhimento
  de verdade
  de generosidade
  de inspiração
  de amizade
  de confiança
  de amor!

É isso a vida: acolher, sentir e partilhar!

            Obrigada por existires!

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Aquela que sou

Aquela que sou,
Casa, hotel, banco de jardim.
Na certeza que sempre estou,
De portas abertas em mim.

Por quem passa, quem vem,
Quem em mim adormece.
Que me fica como alguém,
Que no coração permanece.

Casa que sonha ser lar,
Recanto de vivente felicidade.
Queria tanto aconchegar,
A vida em qualquer idade.

Resta agora o jardim,
Aqui e ali, quase outonal                       
Com recantos de jasmim.
Neste olhar de madrigal.

Aquela que sou,
Talvez, apenas caminho.
Quando por ele vou, 
Percorrendo o meu destino.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Post.it: Regresso

Regresso de férias, de uma outra rotina sem horas marcadas, de descanso, de cansaço da viagem, das limpezas, das arrumações. Regresso da paz ou da euforia, do sol, do mar, do caminhar, da roupa leve, do chinelo no pé, dos cabelos ao vento.
Mas antes, por um momento, antes do regresso, deixem-me encher o painel solar do coração com toda esta luminosidade antes que o inverno o invada de escuridão. Que os olhos se inundem de azul, de verde, de areais, de gente colorida, da espuma branca da última onda marítima. Que os lábios congelem ao prolongarem mais e mais o toque com o último Corneto de chocolate estaladiço, que o último jantar de férias seja uma bola de Berlim com um generoso sorriso de creme de pasteleiro. Hoje, mesmo que seja só hoje, vamos esquecer a dieta, o colesterol, a glicose, temos todo o inverno para nos penitenciarmos do pecado da gula.
Merecemos cada momento deste verão, destas férias, pela paciência e desgaste despendido ao longo do ano, com todos os sacrifícios que tivemos de fazer para conquistar o direito a uns dias no paraíso. Estes momentos nossos, só nossos para partilharmos com quem queremos, sem obrigações, sem ralações, sem discussões, sem colegas, sem patrões.
Mas eis que chega a altura de regressar, lembro-me que em tempos distantes, esta época era de alegria, de espectativa, significava reencontro, novidades, histórias partilhadas com os amigos da escola, mas também isso já passou e o regresso agora tem um sabor de reconforto, cada vez mais é um sabor de reconforto, cada vez mais é bom saber que se tem para onde regressar, e que é isso nos possibilita no próximo ano ter novas férias, pagar o conforto de um lar, ver os filhos crescer sem sentirem dificuldades e adormecer à noite no sofá da sala com o som embalador da televisão. Amanhã, regressamos, talvez não ao que mais desejaríamos, mas apreciando e valorizando o que temos e, se dermos o nosso melhor, quem sabe também ele seja melhor para nós, pelo menos na sensação de realização porque fizemos o que estava ao nosso alcance. 
A todos os que regressam, bem vindos.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Imprevistos

O imprevisto acontece,
Quando dia nos amanhece.
De repente um trambolhão,
E ficamos estendidos no chão.

Com o corpo todo dorido,
Com o orgulho quase ferido.
Depois é ver qual o estrago,
Quando o susto ainda é vago.

Nódoas negras, quiçá arranhões,
Com sorte na roupa alguns rasgões.
Talvez passe só  com um beijinho,
Ou não baste esse gesto de carinho.

Desinfectante ou até alguns pontos,
Que nos deixam de dor meio tontos.
Mas a situação pode ainda ser pior,
E temos que recorrer ao Sr. Doutor.

Para engessar-nos a alma magoada,
Cozer-nos a existência envergonhada.
Sem desanimar só por um imprevisto,
Quando viver é um maravilhoso risco.


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Post.it: Sempre com eles

Viver significa caminhar em frente enquanto outros ficam para trás ou desencontram-se da nossa direcção. Ficam ou vão, nós prosseguimos sem eles, outras vezes com eles, na memória, no coração. 
Uns amamos, outros apenas pouco mais conhecemos que o rosto, o nome, desconhecemos a sua história, a sua experiência de vida, as suas alegrias, as suas tristezas, de onde vêm, como aqui chegaram, mas mesmo esses, ao partirem, doem-nos algures no corpo.
Como se de alguma forma fizessem parte de nós e fazem, fizeram-nos rir, chorar, escreveram ou representaram papeis que marcaram os nossos momentos, cruzaram-se com os nossos dias, na paragem do autocarro, no café, no cabeleireiro, eram a caixa do supermercado onde vamos todas as semanas, estavam na papelaria onde vamos buscar o jornal, na padaria onde compramos o pão, algures num ponto de intersecção do nosso caminho.
Amigos, colegas, professores, vizinhos, conhecidos, desconhecidos, todos, tantos… 
Doem-nos, talvez porque partem demasiado cedo ou porque já os “conhecemos” há tanto tempo que criaram raízes na nossa história. Talvez pela forma como lhes “roubam” a vida, porque deixam de ilustrar a rotina da cada manhã, de cada anoitecer ou no fundo, num inconfessado sentimento; doem-nos porque de alguma forma nos relembram da nossa própria precariedade.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Post.it: Mar de agosto

O mar de agosto tem uma cor diferente, nuns sítios mais azul celeste, noutros mais verde prado. O seu ondular, também ele é diferente, mais harmonioso, mais doce leito. E o seu murmurar, único, especial,  mais cantante, mais relaxante. 
Não há mar como o de agosto que se estende num abraço pela praia, que lhe acaricia o areal, que lhe leva presentes; conchinhas, pedrinhas bem redondinhas. E à noite sob a luz do luar oferece-lhe estrelas que espelha nas suas águas só para a enfeitar. 
Até as vagas que conduzem os barcos aos cais são menos cavadas, menos apressadas, há que levar todos ao seu destino, na esperança que regressem com saudade deste mar, deste amar doce e sereno. 
O mar de agosto é uma festa de sons vibrantes, cores dançantes, os convidados vão chegando juntando-se à comemoração estival. Já se sente a brisa marítima, já se ouve o eco das falésias, o rumor amante das dunas, os ramos das árvores na orla da praia, o tilintar das conchas que vão indo e vindo com o embalo das ondas. 
Aqui e ali, há um salpico de gente, alegre, contente, suspiram como se quisessem levar nos pulmões esse mar, esse calor, essa paz, essa harmonia, esse mar que só agosto tem.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Uma pena

Era uma pena pousada,
Na ondulância do mar.
Era uma pena cansada,
De há tanto tempo voar.

Era uma pena calada,
Com uma história para contar.
Talvez amarga ou deslumbrada,
Do que um dia chegou a sonhar.

E a gaivota que a pena perdeu,
E a gaivota que sem ela existe.
Quem sabe já a esqueceu,
Deixando-a ainda mais triste.

Era apenas uma pena perdida.
Uma pena e  mais nada.
Ficou uma memória querida,
Dentro da minha alma fascinada.


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Post.it: Solidão

O meu amanhecer é à noite, quando só as estrelas me olham e partilham comigo esse olhar de quem tem tempo para ficar, de quem tem tempo para brilhar. Então, a  lua parece sorrir-me, um sorriso de quem entende, um sorriso de quem se estende em neblinas de escuridão, em névoas de solidão.
A solidão, pobre palavra tão maltratada, tão dolorosamente magoada, porque dói, dizem. Porque mata, defendem. Mentira! Mentira, garanto-vos. Como é terna a solidão, quando o seu silêncio nos envolve no mais doce abraço.
Então o corpo dolente de tempos idos, deixa-se navegar nos pensamentos, longe, cada vez mais longe dos lamentos. Dando-se ao luxo de sentir. De se sentir invadido por uma paz conciliadora dos sentidos, como quando a alma e o espírito se casam e prometem ser felizes para sempre. 
Num para sempre, que dura… O que durar. Mas enquanto dura, permite-nos num vislumbre de felicidade, contemplar o infinito. Esse finito que agora, liberto dos limites do horizonte espraia-se para além do existir condensado em nós. E nós, os que reverenciam a noite como se nos fosse madrugada, tornamo-nos estrelas, solar de lua, luminosa escuridão e agradecemos cada sensação que só o silêncio, que só a solidão consegue ouvir com o coração…

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Férias e mar

Depois de muitos passos dados,
De tantas viagens de encantar,
Acabamos de olhos mergulhados,
No mais sereno azul do mar.

Como se nos fosse morada,
Leito de sonhos perdidos.
Vida que a ele confessada,
Nos deixa menos feridos.

Mas férias devem ser alegria,
Paz, desordem, libertação.
Cumprir a velha fantasia,
De agir só pelo coração.

Mas o mar, o mar já chama,
Para um abraço de regresso.
Naquele silêncio que reclama,
Toda a atenção do universo.

Pergunto, quanto de mim há nele,
Escondido na sua transparência?
Como se me fosse segunda pele,
Na mais sublime e terna inocência.

Nado, afasto-me da orla do cais,
Torno-me em si uma pequena ilha.
Onde deflagram os grandes vendavais,
Do oceânico pai com as marés da filha.

sexta-feira, 15 de julho de 2016


Nem flor nem fruto

Se o coração fosse uma flor
Iria planta-la num jardim.
Onde quem sabe, o amor,
Ao passar olhasse para mim.

Mas nem flor, nem fruto,
Nem aroma perfumado.
Apenas um querer de luto,
E um sentir abandonado.

A Primavera o faz renascer,
O verão e paixão aquecer.
Ai outono que ao esmorecer,
Fá-lo no inverno perecer.

Mas o sol, o vento, o mar,
O verde, o azul, o infinito.
São asas que fingem voar,
E de novo, no voo acredito.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Ser do litoral

Ser daqui, do litoral,
Marca-nos o corpo e a alma.
É trazer nos lábios o sal,
Deste mar que nos acalma.

E no ventre vento e espuma,
De ondas que nos vão deslizar.
Por suaves céus desta bruma,
Que o sol leva ao madrugar.

A saudade ao nos delinear,
São abraços para o horizonte.
São águas deste navegar,
Que nos leva para tão longe.

Um longe aqui sempre perto,
No contorno desta velha costa.
Cais de espera, olhar inquieto, 
Por vezes sorri, outras desgosta.


sexta-feira, 8 de julho de 2016

Post.it: Trapos

Como somos, como nos vêem, a consonância, a discrepância. Apenas o olhar. Um olhar que nos adora, que nos odeia. Porque lhes somos semelhantes, porque lhes somos antagónicos.
Apenas o olhar, mas que nos aproximas, que nos afasta.
São panos, são cores. Usados mais acima, mais abaixo. Em desalinho que para quem usa parece alinhado.
Há quem diga que o que usamos nos define, nos revela o carácter, “diz-me o que vestes, dir-te-ei quem és”. Ou talvez não. Talvez te enganes, visto de preto mas não tenho a alma negra. Visto de vermelho e na verdade apesar do meu ar de festa, sinto-me triste. Por vezes, na maior parte das vezes (confesso) quero apenas ser aceite. Não é isso que significa andar na moda? Se gosto, bom no início, não. Mas depois de tantas vezes me cruzar com o mesmo modelito, o olhar acaba por ficar “conquistado”. Mas passado um tempo, canso-me, e começo a ver o mesmo por todo o lado e esse “mais do mesmo”, em vez de me seduzir, cansa-me.
Está na hora de mudar, de seguir outra moda. Quem sabe as calças subam, quem sabe as bainhas das saias desçam. Quem sabe se cubram as pernas e se tape o rabo, já cansa andar a ver cuecas, mesmo que seja de marca (compradas na loja do chinês).
Mas tudo isto são apenas “trapos”. Alguns com aspecto de velhos de tão rasgados, de tão corroídos, “nem para panos de chão os queria”, já dizia a minha avó. Mas que custam uma “pipa de massa”. Porque têm uma marca na etiqueta, porque são da loja mais “in” do momento. Mas a verdade dão um ar completamente “out”.
Mas o que importa para uns é estar  “cool”. Para outros o que importa é sentirmo-nos “cool”, mesmo que nos digam o contrário, que nos olhem com desdém, estamos bem connosco e é connosco que temos que viver, adormecer, acordar, crescer e aprender. Sem cair em narcisismos, em ou exacerbadas vaidades.
Bom seria que nos vissem para além das aparências, que chegassem mais perto, que não cedessem à tendência de criar inibidores rótulos. Que nos tocassem, humanos e não bonecos produzidos por uma sociedade de consumo imediato. E depois, que nós, fossemos nós, sem seguir modas só porque “sim”. Afinal, não precisamos de chocar, de conquistar, de chamar  a atenção, de sermos aceites. Precisamos unicamente de nos sentirmos bem na nossa pele, nos nossos trapos. Porque as modas mudam, nós permanecemos.


terça-feira, 5 de julho de 2016

Post.it: Apenas esse pouco

Não é o muito que nos preenche e sacia, mas o saborear de cada sensação, de cada momento.
Será que isto vos diz algo? Gostava que sim, que já tivessem sentido este sentimento, esta tranquilidade que os torna quando em nós vividos, verdade.
Fazer anos, somar aniversários, festas lembradas ou esquecidas, não é isto que nos torna melhores, mais sábios. Quando muito torna-nos menos “surdos” ao que nos rodeia, ao que é realmente importante.
E o importante, descobrimos um dia, é a tranquilidade com que vivemos cada dia, sem questionar o seguinte. Cada degrau daquela velha escada que já subimos e descemos tantas e tantas vezes, hoje cansa-nos mais, é verdade, mas vejamos pelo lado positivo, obriga-nos a subir de forma pausada, apreciando a paisagem e a descer admirando o horizonte.
Vamos perdendo… mas também ganhando… sobretudo vamos adaptando-nos, ao fim de algum tempo já sem queixumes e até, quem sabe, achando graça, à “desgraça” que é deixar de ser como eramos há 20 anos, mesmo quando nessa altura já tínhamos mais de 20 anos de existência.
A memória, essa leal mas também traiçoeira amiga, que um dia nos contará outras histórias, sobretudo as mais belas. Não sei se mais belas porque o tempo lhes conferiu encanto ou se foram realmente inesquecíveis. Muitas, poucas, que importância isso pode ter, quando se tem o suficiente e esse suficiente nos basta para sermos felizes
Vai-se-nos enevoando a visão, ela que nos encheu o olhar de tantas aventuras e tantos deslumbres, fechando os olhos, passamos a ver cada vez mais com o coração.
Também as forças vão diminuindo, já não erguem os filhos, quase que nem os netos, mas que ainda amparam e sobretudo acarinham com mais doçura.
E todos os anos, em que buscamos nas amizades uma harmoniosa companhia, descobrimos a melhor, paciente, silenciosa,  que esteve sempre connosco, a nossa.
Afinal não precisamos de conquistar o mundo, apenas necessitamos do nosso mundo.


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Post.it: Escrever nas linhas da vida

Às vezes escrevemos o que a memória nos permite, o que a fantasia nos possibilita, o que a vontade de alcançar nos faculta. Mas são sempre histórias, as nossas, as dos outros e as daqueles que passam por nós e deixam uma qualquer inspiração.
 Nem tudo é verdade, nem tudo é mentira, depende de quem lê, a tornar a sua verdade ou a sua mentira ou apenas fantasia. “Lemos porque buscamos na leitura a história que não vivemos”. Lemos porque precisamos de sonhar ou por vezes de acordar.
Lemos para voar e cada página é uma asa aberta ao horizonte de infinitos. Lemos porque necessitamos de aterrar, de encontrar portos de abrigo para vencer as nossas tempestades.
Os livros nada mais são do que pedacinhos de nós. “A minha estante está cheia de gente”. E essa gente que tenho por amigos, fieis, companheiros, sempre presentes, quando, de repente, o silêncio enchesse de vozes, de palavras, de pensamentos.
Deitada no sofá, corro por cada página atrás de cada frase, que mais parece um comboio em permanente viagem. Cada momento empolgante, rouba-me o ar, o olhar fica em suspenso, preciso parar, preciso de retomar a história, percorrer o fio desses intrincados meandros.
Sofro, como sofro pelo sofrer de cada personagem. Apetecia-me rasgar aquela página, rescreve-la, dar-lhe um destino melhor.
Porque se na vida real não temos essa possibilidade na literatura “o céu é o limite”. Mas isso é roubar as palavras ao autor, furtar-lhe os pensamentos, distorcer-lhe os sentimentos, usurpar-lhe a intenção, invadir-lhe o coração e tornar nosso o que não nos pertence, mesmo que o tenhamos comprado, que esteja na nossa estante.
Nessa estante onde esteve toda uma vida quando por um qualquer acaso resolvemos folheá-lo e agora, agora estamos armados em críticos da sua inspiração. 
Que vaidade a nossa! Querermos rescrever uma obra editada, quando nem sequer conseguimos passar da escrita ingénua que desenhamos nas primeiras linhas da nossa vida…