quarta-feira, 30 de março de 2016

Apenas o desejar

Que palavras te dizer,
Que não tenhas já ouvido.
Que flores posso oferecer,
Se já és um jardim florido.

Então de mãos vazias,
Ofereço apenas o desejar.
Que a noite seja nos dias,
O prolongar o teu sonhar.

Quem sabe para um lugar,
Onde a felicidade acontece.
E a conjugação do verbo amar.
Está no gesto que se oferece,

Então palavras novas surgirão,
Flores que só há no paraíso.
E os pássaros, todos eles cantarão, 
A melodia que há no teu sorriso.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Páscoa é...

Dá-me a Páscoa doce de um abraço,
Dá-me a lembrança terna da amizade.
Dá-me um lugar dentro do teu espaço,
Que seja de esperança e de felicidade.

Porque é essa a eterna mensagem,
Que nos enche de amor e de perdão.
Para que ao longo da nossa viagem,
Tenhamos onde pousar o coração.

Páscoa é doce porque o sonho o quer,
Páscoa é fraterna porque a partilhamos.
Páscoa é ter a alegria de um renascer,
Quando com carinho da vida cuidamos.

O mistério da Páscoa só é revelado,
Pela fé de vir a amar cada pessoa.
Que anónima passa ao nosso lado,
Com uma existência que a magoa.

Talvez só com um simples sorriso,
Ou mesmo partilhando o caminho.
E talvez, pouco mais seja preciso,
Para não ficar nesta Páscoa sozinho.


segunda-feira, 21 de março de 2016

Bem-vinda Primavera

Que eu te seja Primavera
Flor suave a amena.
Que cada dia de espera,
Nos seja leve como pena.

Para que esta estação
Que nesta data se inicia.
Traga a cada coração,
A mais perfumada alegria.

E se uma flor algures murchar,
Ela nunca será definitivo fim,
Há de florescer nesse lugar,

Com primaveril esplendor,
O mais belo e florido jardim,
Espalhando pétalas de amor.



sexta-feira, 18 de março de 2016

Abaixo!


Abaixo toda a poesia,
Abaixo toda a fantasia.
Abaixo a noite e o dia,
No acordar sem alegria.

Abaixo toda a alvura,
Abaixo a maior loucura.
Abaixo toda a criatura,
Que descrê na ternura.

Abaixo toda a razão,
Que rouba a beleza,
Que há numa paixão.

Abaixo toda a vida,
Que ao ver só incerteza, 
Não a deixa ser divertida.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Post.it: Puramente sentido

Amei (te), e este (te) suspenso na escrita, revela a ilusão do amar na ficção do ser. Porque sim amei, não exactamente a ti, pessoa exterior a mim. Mas aquela que existia desenhada nos genes devaneadores da minha existência.
Como um pintor, desenhei-te. Como um sonhador, sonhei-te. Como idealista, idealizei-te e como amante, amei-te. Um amor só meu, porque nem a ti o fiz chegar, não por egoísmo de  que o quer manter inteiro, mas por medo de o perder em ti, na descoberta do que eras.
Talvez não fosses, porque, não eras o meu amor. Então o (te) do verbo amar, manteve-se sozinho, prisioneiro do seu parêntesis. Para quê de lá sair, aventurar-se na avalanche das emoções, mergulhar na profundeza das sensações, perder-se num deserto de enganadores oásis.
Não tenho tempo psicológico para viver tal ventura, gastou-se-me no ruminar das dúvidas, escoou-se-me por entre mãos vazias de cândidos alvoroços. Porque sim, hesitei seguir-te. Vacilei em chamar-te, em conquistar-te. Escolhi sem arrependimento o meu caminho, sem ti.
Hoje, sem metas por conquistar, sem metas alcançadas, sinto que afinal a verdadeira meta é  chegar a esse lugar dentro de nós em que reconhecemos as verdades sem os fumos da fantasia. Por fim, há uma lucidez me invade, há uma tranquilidade me abraça.
E se voltasse para trás? Amava(te), sim sei que amaria, com a mesma ternura, a mesma doçura incauta e pura. E a minha felicidade de ontem, tal como a felicidade de hoje é continuar a amar(te) um amor puramente idílico. Bonito, demasiado bonito porque nada tem do meramente humano, foi desenhado no Olimpo, por inspiração dos deuses que nesse dia tinham decidido que amar(te) seria tocar ao de leve o vislumbre da perfeição.
E do sopro infinito da imortalidade saiu o teu nome, ansiosa quis escutar o meu formando com o teu um inseparável elo, mas foi outro sopro que o murmurou, na direcção oposta, deixei-me levar, deixei-me navegar.
Até que da tempestade dos anos imberbes surgiu a quietação. A beleza do sentimento está precisamente no apreciar sem macular, tal como as flores da primavera que é são tão belas colorindo os campos, numa jarra mesmo quando admiradas murcham, perecem de solidão, falta-lhes a raiz, a terra, a sua essência de vida. Falta-lhe o amar(te) tal como eu (te) amei…


sexta-feira, 11 de março de 2016

Maturidade

Mais que amor era tranquilidade,
Mais que paixão era liberdade.
Era um encontro reencontrado,
O ninho de vida há muito procurado.

Mais que sonho era um acordar,
Mais do que querer era o chegar.
Era um sorriso enchendo o som, 
Quando a felicidade parece dom.


Mais que caminho era o caminhar,
Mais que companhia era acompanhar.
Era como o sol quando já não há luz,

Era o olhar que serenamente conduz.
Era dizer sim, só porque se é assim,
Mesmo quando começa já perto do fim.


quarta-feira, 9 de março de 2016

Post.it: Dia internacional da mulher

Dia internacional da mulher, “ainda bem que existe"
. Porque é o resultado da conquista de mulheres que venceram barreiras, que ultrapassaram impedimentos sociais, culturais e até religiosos.
 “Que triste é que tenha que existir”.  Para que se lembrem dos direitos que na verdade deviam ser nossos por inerência de ser humano. Tivemos de trabalhar, de lutar, porque como diz M. Rodoreda “o papel da mulher que, em definitivo, é a mãe do homem”, haverá força maior, capacidade mais gloriosa do gerar vida, criá-la e dá-la ao mundo? Para depois ser esse mundo quem a olha de soslaio, num patamar de fictícia superioridade, sonegando-lhe a sua verdade, a sua história, a sua vitória, a sua vida feliz.
Hoje não é dia da mulher, pelo menos no calendário das celebrações, das lembranças que podem cair no esquecimento. Não escrevi ontem, foi de propósito, porque não quis cumprir o ritual de ter esse dia, unicamente esse dia como meu. Porque sou mulher, para minha graça, para algumas mulheres,  para sua desgraça, ainda assim é. Seja qual for a bandeira que se erga de vontades, de lutas, para elas, são parcas as vitórias. Terão de nascer e crescer as filhas, as netas, bisnetas e quem sabe quantas mais gerações. Para que nos olhem e nos reconheçam como iguais, mesmo que sejamos em muitas situações melhores, no entanto, uma vez mais, generosamente, maternalmente damos-lhe essa falsa ilusão, essa benesse de deixar nisso acreditar. 
É isso que nos torna humanamente superiores, a nossa generosidade, essa complacência, essa coragem de prosseguir e escrever no parto da história cada retalho da nossa vida.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Regressei

Sempre aqui estive,
Quem por nada já espera.
Porque devagar se vive,
E ao tempo não desespera.

Já as estações mudaram,
Já a chuva por aqui passou.
Já os ventos se dissiparam,
E a primeira flor murchou.

Sempre aqui estive e estarei,
Sem buscar qualquer razão.
Como se me fosse gene ou lei,
Pela vontade ou pelo coração.

Escutá-lo é tudo o que sei.
Senti-lo é tudo o que sou,
Parti mas sempre regressei. 
Ao que de mim aqui ficou.

terça-feira, 1 de março de 2016

Post.it: Festa

Festa é quando estamos juntos, não somente num aniversário ou outra celebração específica mas em cada dia. Não precisa de ser todos os dias, nem de ter data ou hora marcada. É quando acontece o encontro numa tarde, numa noite, num qualquer momento. Esse momento que se torna calorosamente especial. Então recorda-se, conta-se, partilha-se, dá-se o melhor de nós. Seguros que somos recebidos com a mesma saudade, com a mesma alegria com que nos damos a esse encontro. 
Crentes de que partiremos tal como chegámos, felizes com a sua felicidade, tristes com a sua tristeza. E prometemos persuadidos de que cumpriremos o nosso e o seu desejo de um novo reencontro, num amanhã, muito em breve. Felizmente que na amizade o tempo não se conta em cronologia, em folhas viradas num calendário, em estações do ano mas em ocasiões, aquelas que vivemos juntos e as outras que passam a ser comuns quando relatadas com risos e lágrimas. 
Faz parte de nós, do nosso viver ir além dos obstáculos, das perdas, das doenças, das quedas. Faz parte de nós a conquista, a busca de metas, de superação, de vencer. Faz parte de nós a dor mas também o amor sem intrínseca correlação.
Faz parte de nós seres sociais o estar com os outros, ajudar, compartilhar; tal como faz parte de nós a solidão, a introspeção, a porta fechada com uma janela aberta. Porque é o festejar a vida connosco e com os outros que nos anima, que nos revela, que nos estimula, que nos desperta e que nos encoraja. Mas, festa só é festa, quando a celebramos com as pessoas de que gostamos e que, sabe-se lá porquê, também gostam de nós.


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Post.it: Não é defeito mas feitio

Gostamos das pessoas tal como são? Não, na verdade, gostamos das pessoas tal como somos. Inconscientemente queremos mudá-las para que se tornem “iguais” as nós, para que nos completem, para que sintamos que nos vão sempre confirmar, apoiar, que são a certeza em quem podemos confiar e que nunca nos vão desiludir.
Claro que os argumentos desta inconsciência manifestam-se de outra forma, afinal, só somos críticos porque “queremos o melhor” para as pessoas de que gostamos. Queremos que andem com roupas apropriadas para não serem gozadas, que tenham atitudes correctas para não serem excluídas. Não é por nós, nunca é, é simplesmente por elas, em última instância pelos outros.
Porque nós que somos amigos, aceitamos cada um como é, nas suas debilidades, nas suas “tolices”, no que afinal não é defeito mas feitio.
Não é isso que deve fazer um amigo? Alertar para possíveis problemas, evitar que se magoem, amparar na queda, curar a ferida com o penso rápido do “eu bem que te avisei”?
A amizade, esse sentimento que gera múltiplas emoções é complexa.
Não é por mal, (acho) somos assim. Entre as boas e as veladas intenções, amamos, mas amamos de verdade. Magoamos, talvez, mas magoamos simplesmente para que não sejam magoados e, simultaneamente, para não nos magoarmos.
E neste estranho jogo psicológico temos amigos, somos amigos. Tentamos ser os melhores amigos e ter os melhores amigos. Aqueles com quem nos identificamos. Aqueles que neles somos.
Mas há um tempo, que nos ensina, que nos adoça, que nos faz perceber o fundamental. E o fundamental não é que se iguala a nós mas o que nos enriquece nem que seja pela diferença. Não há maior elogio do que gostar de alguém por ser como é.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Sei lá...

Se amanhã vai ou não chover,
Sei lá o que escolher para vestir,
Quem sabe se me volto a reerguer,
Se algures no caminho então cair.

Sei lá o que vai acontecer,
Quem vai nascer ou morrer.
De quem me vou despedir,
Quem vou de novo conhecer.

Sei lá se o amanhã haverá,
Se houver o que vou viver.
Se entretanto estiver por cá,
Só então o posso talvez saber.

Só sei que neste momento,
No instante em que estou.
Ao meu viver acrescento,
O que de melhor sei e sou.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Post.it: Projeto

Eu sou aquilo que nunca fui, projeto inacabado de um sonho que alguém sonhou, mas que não aconteceu. Chorem as plantas, os rios, as rochas, por mim que nunca aconteci. Riam os mares, as florestas, as pedras da calçada por mim que existo na curva de uma estrada inacabada.
Quem se esqueceu de escrever o meu destino? Quem desistiu de me desenhar a vida? Quem me roubou os passos antes de os chegar a pousar no chão?
E agora? Que faço com tudo o que trago comigo, este saco  de esperança, esta fé do que ainda posso ser. Só preciso que o sol me brilhe um pouco e que o luar não me apague.
Que as ondas me levem até à costa e que os mares não me afoguem. Só preciso que as flores me encham de primavera e que os espinhos não me magoem. Que as margens do rio me sejam suave companhia sem estreitar ou limitar-me o percurso.
Só preciso de ti para  melhorar  os meus dias mesmo que me escureças as noites. Quero ser o que nunca fui, o sonho progenitor tornado realidade: a filha, a irmã, a mulher, a vida, a célula não degenerada, o ADN imaculado. 
Se há arquitetos no céu, que encontrem as linhas do meu esboço. Se há criadores no universo que  me moldem em verdade, sabedoria e liberdade. Se há energias de atração que me tragam uma simples luz de farol mesmo que sem nele haver um mar. Se há felicidade, que me encontre, espero-a, na morada do meu viver
Se me conceberam como projeto inacabado, que encontre a capacidade, a vontade, a possibilidade de me tornar a concretude nem que seja no corpo de gotas suspensas na curva completa do arco-íris.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Post.it: Horizontes

Há dias em que ao acordar apetece-me continuar a sonhar, a voar na liberdade do azul estrelado. E nesses dias, as paredes parecem-me fronteiras, as portas obstáculos a transpor para chegar mais longe.
Apetece-me caminhar, caminhar sem parar, até à exaustão. Tenho sede de infinito, tenho fome de horizontes. Sinto-me prisioneira na vida, cercada pela morte a minha e a dos outros. Sinto que as constantes rotinas me encarceram, que as obrigações me guilhotinam o ânimo. Então fecho os olhos e permito-me ser livre, permito-me abrir as asas do pensamento e partir à descoberta do sol, não o que brilha resplandecente bem alto no céu, mas o sol que me inebria a alma, que aquece cada célula do meu ser.
De repente, mergulho a pique na corrente do meu sangue e partilho-me com cada globo vermelho deste rio tépido, seguimos na mesma descida, subida, por cada curva abismal.
Numa corrida cheia de perigos, mas também, cheia de esperança, pela certeza de que não há meta mas sempre, continuidade. Uma continuidade que nos fortalece e incentiva a fazer desta viagem a melhor viagem possível. Haverá sempre a seguinte, sim, talvez seja verdade, mas nem por isso nos acomodamos. Temos de tentar que cada uma seja sempre melhor que anterior, mais feliz a cada passo, a cada onda que nos eleva e faz descer.
Depois abro os olhos, saio desse instante de torpor, estou cansada e descansada, sei que fui, sei que voltei, um suspiro solta-se do peito, navega-me até aos lábios e esvoaça, deixo-o partir, não chego a invejá-lo na sua leveza e liberdade. Uma liberdade que também é minha, a cada passo, a cada ideia, cada momento, só meu ou partilhado. 
Percebo então que já não preciso de vastos espaços, de carregar  as malas, de sair, posso simplesmente permanecer, e nessa permanência, encontrar a forma mais elevada de voar a felicidade porque na verdade, só tem paredes quem se aprisiona por elas, quanto a mim, já não “tenho paredes, só tenho horizontes” (M. Quintana)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Ter um amigo

A amizade é um mistério,
Tudo de bom ela contém.
É livre, só tem um critério,
Aos amigos fazer o bem.

Pode estar sempre perto,
Ou do outro lado do mundo.
É quem atravessa um deserto,
E chega até nós num segundo.

A amizade não se conquista,
Ela é muito mais que atitude.
Nasce em quem acredita,
Que a amizade é uma virtude.

Ter um amigo é estar de parabéns,
E quando ele celebra aniversário.
O maior presente és tu que o obtens,
Ao seres da sua amizade beneficiário.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Post.it: Dia mundial do doente

Neste dia mundial do doente, lembramos particularmente os que vivem esta situação. E cresce-nos maior a obrigação de respeitar a saúde. E admirar com profunda gratidão os que se dedicam de alma e coração ao acompanhamento e ao tratamento destes doentes. Quer seja por razões profissionais, quer seja por relações pessoais ou laços familiares,  são pessoas  que na  entrega que devotam aos  mais necessitados
lembram que cada um de “ nós, podemos ser mãos, braços, corações que ajudam…, nós sãos ou doentes podemos oferecer as nossas canseiras e sofrimentos…” , tornando cada momento numa  vida melhor “dando claro testemunho de como é importante tornarmo-nos responsáveis uns pelos outros”. Esse outro, que um dia poderemos ser nós, com as mesmas similares dores e angústias. 
Porque “a doença, sobretudo se grave, põe sempre em crise a existência humana e suscita interrogativos que nos atingem em profundidade. Por vezes, o primeiro momento pode ser de rebelião: Porque havia de acontecer precisamente a mim? Podemos sentir-nos desesperados, pensar que tudo está perdido, que já nada tem sentido…”
“Nestas situações, a fé é posta à prova, por outro lado, revela toda a sua força positiva; e não porque faça desaparecer a doença, a tribulação ou os interrogativos que daí derivam, mas porque nos dá a chave para podermos descobrir o sentido mais profundo daquilo que estamos a  viver.”
Quando falamos de fé, falamos de nós, do que somos, do caminho que nos trouxe até aqui, e do que nos falta percorrer. A fé que nos faz reencontrar as forças para não sucumbir à mágoa, à doença, à revolta dela nos ter atingido. A fé de encontrar respostas no desespero e essas respostas nos iluminarem o olhar, vendo quem sabe, a luz para além da profundidade do nosso túnel de desânimo.
Porque há uma luz, por pequena que inicialmente nos surja, que vai aumentando, quando a aceitamos, quando a abraçamos. Uma luz que pode vir de nós, da nossa esperança. Uma luz que pode vir para nós dos que nos acompanham, nos auxiliam, que tentam minorar, ou até curar a nossa doença.
Para quem está doente, uma palavra de confiança, não desistam de acreditar na vossa fé, em vós e nos que vos amam.
Para quem cuida, toda a gratidão que será sempre pouca, todo o amor nunca será suficiente.
A todos desejo melhoras e para breve o reencontro com a felicidade.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O tempo não passa

Afinal, o tempo não passa,
Não aqui, dentro do peito.
Para felicidade ou desgraça,
Se não corre ao nosso jeito.

E porque o tempo não passa,
No amor que em nós perdura.
Quando na vida nos trespassa,
Aquela doce seta da ternura.

Não há tempo perdido,
Nem tempo para mudar,
O sentimento bem vivido,
Que é o tempo de amar.

Em quanto que no rosto,
Um outro tempo parece falar.
Sem contornos de desgosto,
Mas dos ventos ao soprar.

Se pudesse o tempo rasgar,
Como folha de um calendário.
Para na vida inteira celebrar,
O renascer em cada aniversário.


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Post.it: Escrever

Escrever é traduzir para um código convencional, o que vemos, o que sentimos. É plantar nos outros a responsabilidade de se deixar tocar por cada semente de palavras que ecoam dentro do peito. 
Se não germinar, talvez seja culpa de quem escreve por não ter escolhido a melhor forma de oferecer cada partícula do seu sentir. 
Talvez seja culpa de quem lê por não ter em si desperto o código de sensações prontas a reconhecer o outro quando ele se lhe oferece. 
Talvez, não exista uma culpa nem um culpado e simplesmente seja intraduzível o que somos, o que sentimos, a forma como vemos o mundo à nossa volta. 
Talvez seja indizível a emoção que em certos grandes e pequenos momentos nos invade o ser. 
Talvez seja inexprimível o deslumbramento monumental que sentimos perante a mais pequena flor que nasce no solo mais árido e aparentemente do nada. 
Talvez seja inexpressável o momento fugaz em que a felicidade nos enche de plenitude. 
Talvez seja inexplicável a palavra que nos traça um rasto no caminho. Simplesmente, seguimo-lo, na esperança de a encontrar, de a pronunciar, de a viver. E com ela descobrir o sentido que nos faz continuar a escrever.




segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Memórias de petiz

Grandes são as memórias,
Que ainda contam histórias.
De uma vida ainda aprendiz,
Que por ser criança era feliz.

A lembrança das brincadeiras.
Das emoções tão verdadeiras.
Tudo era tão estranhamente belo,
Até o caminhar de raso chinelo.

O passado era tão recente,
O futuro parecia ausente.
Cada dia o simples despertar
Sempre trazia algo para revelar.

Quanto à dor, mas qual dor?
Do arranhão curado com amor?
Lágrimas do rosto a descer?
Que a brisa fazia desaparecer?

As memórias cresceram,
As histórias esmoreceram.
Até o sol pela noite apagado,
Obscureceu o olhar encantado.

Bem que tentou não crescer
Bem que lutou para não perder.
A criança feliz que então era,
Quem lhe roubou a Primavera?



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Post.it: O futuro

O futuro foi ontem, e eu estive lá, com todos os desejos, com todas as lutas, com todas as vitórias e alguns fracassos.  Sei como foi o futuro, porque o plantei, porque o cuidei, é verdade que nem sempre é o suficiente para que resulte em sucesso, há elementos que não controlamos, que nos escoam por entre os dedos em rios de vida. E tudo o que idealizámos, de repente segue um rumo diferente ou simplesmente não nos acontece.
O futuro que não se concretiza torna-se passado que arrumamos nos confins da nossa existência. De vez em quando revisitamos essas memórias, abraçamos com carinho aquelas que nos deixaram algumas saudades.
Porém, é uma visita que se quer breve,  para que não nos prenda na análise magoada do que foi, do que poderia ter sido, porque não foi, porquê. Porquê?
Não há resposta, nunca houve, além disso, à porta, o futuro clama por nós, exige a nossa atenção, dedicação, antes que também ele se torne passado repleto de dúvidas, de arrependimentos, de saudades que nos impedem os passos. E depois, como já dizia o meu avô na sua filosofia arrancada à aridez do solo no trabalho de sol a sol,  “o tempo não espera e cada minuto perdido, é um minuto não vivido”. 
O futuro foi ontem, o hoje é a sua materialização e o amanhã a recolha do fruto. Mais doce, mais amargo, consoante o grau de amenidade que caracteriza cada uma das suas moléculas de vida.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Post.it: O silêncio de um abraço


“Tudo o que tem de ser dado soletra-se no silêncio”.
- Então porque continuamos a falar, a questionar?
- Porque ainda não ultrapassamos a surdez do sentir.
Este poderia ser um diálogo, e é. São as questões que me coloco, são as dúvidas que vos coloco.
Se só o vosso silêncio me responder, congratulo-me, é porque ficaram a sentir, a reflectir,  a ter o aprazível encontro com o senso comum algo que sempre tive dificuldade em reconhecer na continua mutação de cada momento humano.
Como humilde ignorante, confesso  que os meus neurónios continuam aos gritos, ambiciosos no seu discurso de perscrutação. É bom querer saber, dizem. É saudável questionar para que se possa evoluir. 
Mas também é magnânimo reconhecer a verdade e o valor de tudo o que não se diz. Sentir que basta simplesmente aquietar o peito, a mente,  deixar que cada pensamento se livre da sua demanda e se permita levemente voar. 
 Para perceber que é naquele silêncio  que o melhor de nós é dado. Quando a oferta de um abraço contem e transmite todo o dicionário de sinónimos de afecto, de carinho, de amizade e amor.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Rimas magoadas

Tinha vontade de escrever,
De reinventar a poesia.
Sentia no peito a crescer,
Rimas de generosa alegria.

Mas parou-se-me a escrita,
Pereceu-me a inspiração.
A escrita já não acredita,
Que algures a escutarão.

Ficaram as emoções magoadas,
Ficaram as palavras ofendidas.
O vento não lhe apaga as pegadas,
O tempo não as torna esquecidas.

O porquê, insiste a memória,
Em repeti-las quando tento.
Risca-las da minha história,
Varre-las do pensamento.

E às emoções que me eram rio,
A expressão “Verbo-de-encher”.
Ficou uma sensação de vazio,
Roubando a naturalidade ao dizer.

Agora, a rima no seu recanto,
Ainda semeia sem primavera,
Flores que não têm o encanto,
Que já tiveram numa outra era.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Post.it: Anestesia

Uma espécie de sono involuntário. Quando nos dizem “conte até 10”, mas só até ao 2 deve bastar. Depois o nada, o vazio, o infinito do espaço, o eterno do tempo. De repente, “roubam-nos um momento de vida, porque ficamos ali inertes, sem possibilidade de animicamente o viver.
“E se não acordar?” perguntam-me. (Maravilha das maravilhas), penso sem verbalizar. Ficar para sempre a sonhar e ninguém saber que sonho, sem o interromper. “Mas e o que fica por dizer, e o que fica por fazer?”. Se não se disse em algum momento, se não se fez em altura alguma, então,  não era para dizer, não era para fazer, nem que nos fosse permitido viver mais 100 anos.
E, confesso, é tão bom ficar anestesiada, nada sentir, nem dor, nem mágoa, nem alegria, nem tristeza.
Mas e se acordar? Se voltar à realidade sem sonhos concretizados? Aos dias de chuva que me inundam o coração? Às noites sem luar que me escurecem os pensamentos? Posso pedir mais um pouco de anestesia? Posso voar mais um pouco? Posso fugir? Posso lá ficar sem ter de regressar?
E o que fica por dizer, e o que fica por fazer? Ora, depois penso nisso. Tenho tempo. Quando voltar. Quando acordar. Quando deixar de sonhar, de acreditar.
Agora, feche os olhos e conte.
 1, 2, 3…

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Post.it: Nascendo

Quem somos? Sim quem somos? Depois de alguns anos, muitos, talvez, já sabemos tudo sobre nós, e às vezes numa falta de humildade, julgamos que sabemos tudo, ou quase tudo sobre os outros.
Mas que sabemos sobre nós, que sabem os outros do que somos? Altos, baixos, gordos, magros, loiros, morenos, brancos, pretos, mas isso é só a forma do “embrulho”, não nos revela, embora em muitos casos, condicione a forma de existirmos. Simpáticos, generosos, bondosos, benevolentes, amáveis, atraentes, francos, leais, persistentes, firmes, convictos lutadores, sim, tudo isto já são características do que somos em qualidades, possivelmente em defeitos.
Mas a verdade é que podemos ser mais, muito mais, coisas que nem nós que há tanto tempo nos “conhecemos”  sabemos. E de repente, por vezes, do nada, surge a revelação, surpreendemos os outros, surpreendemo-nos a nós. E a história, a nossa história muda por completo.
Olhamos para o passado em busca de um indício, lá onde tudo começou, no berço, na infância, na adolescência, nas relações, na solidão. Em algum tempo, em algum lugar, estava lá, não o vimos, não sentimos, ou não quisemos (por medo) sentir. Afinal, apenas queríamos ser “normais”, iguais aos outros, e igualmente felizes como eles. Mas tudo não passou de uma conveniente aparência, ilusão que criávamos não para iludir os outros mas sobretudo a nós.
Não, não era fingimento, como fingir o  que nem sabíamos que éramos? Ou sabíamos, no fundo sabíamos, mas era como que uma mágoa, uma dor fina que não chegava verdadeiramente a doer, uma loucura “pensava”. Disparates da juventude, mas queria, queria muito ser aquele outro que não era, num outro corpo, numa outra alma.
Mas numa torrente impossível de suster por mais tempo, surge, revela-se como um  susto de onda avassalava-me o peito, o desejo de calar um grito que me ecoa na veias. 
Depois, muito tempo depois,  num tempo que nos parece eternidade, uma calma de impotência, tinha de aceitar, de me aceitar. Que há de errado em se ser quem se é? E o que sou! Sim, o que sou? Não sei, vou-me nascendo, de dentro para fora. Um parto doloroso, mais de ansiedade do que de tudo o resto. Na ávida esperança de que um dia, um feliz dia, seja realmente Eu!...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Post.it: Dá-me...

“Dou-te  para que me dês”, sim é verdade. Não o digo em tom de escondida confissão. Afirmo-o, reconheço-o. Não é egoísmo, não é fraqueza, é a necessidade humana de um feedback.
Pode não ser no agora, nem no hoje em que te dou, mas no amanhã, mesmo que num amanhã que ainda vem distante. Não entendes, dizes que não tens nada para dar, nem sequer dinheiro ou vontade para o comprar. Recebes com medo de um compromisso de reciprocidade, encolhes o gesto da recepção, estendes as mãos semi-fechadas, enclaustras o olhar, cerras o coração.
Mas eu insisto, continuo à tua  porta sem bater, à espera. Numa espera de esperança porque sei que o que me move és tu, a ausência desse sorriso que quero  ver de novo desenhado nos teus lábios.
Se não tiveres nada para dizer, nada digas. Prefiro o silêncio ao “obrigado” frio que obedece ao mero protocolo educacional, ou como reflexo condicionado. Até porque sei, sim sei ou acredito,  que o silêncio não será necessariamente o mutismo dos sentimentos.
Não, não temas, não precisas dar-me nada que exija gasto material, gasto de energia, ou de querer. Dá-me um dia, nesse dia em que o sintas em ti.
Dá-me, preciso de receber, o sol do teu olhar.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Feliz Ano Novo


       Neste quase final de Dezembro,
       Neste quase culminar de ano.
       Em que esqueço e relembro,
       Cada ventura e desengano.

       Foram tantos, tantos meses,
       De mágoa e de esperança.
       Chego aqui e os revezes,
       Tornam-se mera lembrança.

       É preciso continuar a sorrir,
       É preciso continuar a amar. 
       É preciso de novo repetir,
       O sonho para o alcançar.


      É disto que é feita a nossa vida,
      É disto que somos feitos nós.
      Quando vemos em cada subida,
      O desafio que nos cresce veloz.

       No final o que sempre resta,
       É esta vontade de recomeçar.
       Vamos deixar a porta aberta,
       Para o Novo ano possa entrar.

       Que seja um ano de felicidade,
       Que venha repleto de alegria.
       Para que toda a humanidade,
       Viva em paz e amor cada dia.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Post.ti: E depois do Natal?

E depois do Natal? Cabe a cada um cuidar da “prenda” que recebeu. Esse abraço quente, essa palavra amiga, esse sorriso franco, esse olhar que nos olha nos olhos. “Prendas” que esperámos o ano inteiro, que tardaram, dizem uns; que chegaram na hora certa, dizem os que as sabem receber. Porque até para receber é preciso saber. Receber sem criticar, sem analisar, sem esperar mais.
Porque receber é também dar, dar o agradecimento dessa chegada, dessa lembrança, dessa partilha. Lembro-me tantas vezes da minha avó “adoptiva”, das suas sábias e generosas palavras “tudo o que é recebido com gratidão é também dado com o coração”. 
Noutros tempos, quando era miúda, ouvia esta frase e não a entendia completamente, soava-me a ternura e por isso a acalentava no pensamento. Foi preciso crescer para não só a perceber, mas também a sentir. Por vezes temos de “crescer”, para as coisas mais simples nos começarem a fazer sentido dentro do peito.  
Coisas simples como o Natal, não a data, a azáfama das compras, a mesa recheada, as luzes a piscar. Porque se o Natal fosse apenas isso, o depois era triste, doloroso, a expectativa áurea da chegada o desalento da partida, os presentes transformados num monte de papeis rasgados,  a mesa replecta de pratos meio vazios, as luzes ainda a piscar em cores solitárias. 
Felizmente, o Natal é mais, muito mais do que isso. É a mensagem que nos fica a dançar nos sentidos, que nos faz prometer coisas que nunca conseguimos cumprir na sua totalidade, mas que desejamos tanto manter. 
O calor daquele abraço que nunca vamos esquecer, aquela palavra que fez todo o sentido no nosso rumo, aquele sorriso que nos prolongou a esperança mesmo que se torne um dia apenas lembrança, e aquele olhar, sim aquele olhar que nos diz tanto sem usar as palavras cansadas de serem ditas e por vezes esquecidas de serem verdadeiramente vividas. 
Não, o Natal não é fingimento, o Natal não é ficção, obrigação. Natal é  como estamos, por vezes com lágrimas, com solidão, com doença, com uma certa escuridão, mas Natal é também o que somos, a capacidade de transformar a dor em ternura, a solidão em carinho, a doença em luta e esperança na vitória e encontrar  algures em nós a luz do caminho. 
E depois do Natal? Volta a questão. Natal não deve ser um final, mas um começo. Abrimos as “prendas”, está na hora de as apreciar, de lhes dar uso. Vamos desembrulhar a esperança, desenvolver a confiança,  conservar a expectativa, aumentar o ânimo, guardar o alento, ampliar a fé, estimular a coragem,   sonhar mesmo quando a realidade nos acordar e acreditar que o Natal não tem um antes e um depois mas um contínuo presente.