sexta-feira, 5 de abril de 2019

Post.it: Juras de Primavera

Um dia jurei que nunca mais falaria de amor. Imbuída de um espírito, misto de desilusão e  fracasso. Numa argamassa que não se definia se devia  concluir-se em decepção ou esperança, porque deixava continuamente um rasto de nuvem no horizonte do azul celeste.
Um dia jurei que fecharia o coração a todo e qualquer sonho. Porque se tornava cada vez mais doloroso o acordar e ser arrancada precocemente desse mundo de fantasia. Um dia jurei, que viver seria apenas o somar dos dias e adormecer o corpo cansado sobre os lençóis da noite. Mas, reconheço que não sou grande cumpridora das minhas promessas.
Porque é impossível viver sem amor. Basta abrir os olhos e receber a beleza que nos oferece cada quadro da natureza.
A Primavera, de renascimento e esperança, dá-nos o perfeito exemplo de perseverança, quando no meio mais adverso, desponta a frágil papoila, no seu vermelho imponente que não deixa indiferente a quem por ela passa.
O Verão, quando o sol abre o seu mais radiante sorriso e a sua luminosidade penetra no mais recôndito esconderijo de um peito magoado e o aquece com o seu abraço.
 Ou o Outono que nos embala e desenha no chão um manto de folhas para atenuar a dor da caminhada.
E o Inverno, que com o seu frio, oferece-nos deliciosas alternativas de aconchego, uma lareira que nos reconcilia as dissonâncias, roupas macias que nos confortam a alma. Como não falar de amor. Como não sentir o amor a vibrar em cada recanto do caminho? 
Quando partem de nós, o amor permanece, magoado, é bem verdade. Com saudades, é inevitável, mas florescente porque o coração ainda palpita dentro do peito. Afinal o amor não é o outro que o dá e o  leva consigo ao partir. O amor está em nós, quando o partilhamos e oferecemos, com a alma plena, como se fosse uma fonte inesgotável.


segunda-feira, 1 de abril de 2019

Post.it: Estradas

Há estradas que nos pedem para ser caminho. Há na sua solidão um apelo de companhia, com árvores frondosas que estendem os oramos como abraços. Ramos que atravessam a via e chegam à outra berma num entrelaço que nos protegem da invasão solar, que nos refresca o olhar. E a passadeira de alcatrão estende-se longa e convidativa a um percurso sem pressa.
Aqui e ali, uma curva, um quase embalo. Uma lomba que anima a atenção quase perdida na contemplação da paisagem, campos verdejantes, arados pela mão humana surgem alinhados à espera de florir, tão direitinho parece penteados por um pente gigante, por uma mãe que em gestos graciosos com zelo e amor os tornou mais belos.
Mas eis que surge rebelde e inquieto o vento, lança-lhes vigorosos sopros, mas a mãe natureza sabe como proteger o seu filho campo e sorri dos fracassados intentos que nenhuma ventania consegue abalar.
Há estradas que nos trazem de volta ao caminho de que fazemos parte, que nos levam para longe do reboliço da cidade e nos permitem um reencontro com as nossas raízes.
Há estradas que são mais do que um encontro, são o feliz reencontro, connosco, com a nossa essência, com aquela parte de nós que anda em corrida por estes campos. 
Há estradas e estradas, há as que nos  levam para longe, enquanto outras, as mais belas, são as que nos trazem a um feliz regresso.


sexta-feira, 29 de março de 2019

Post.it: Primeiro...

Primeiro havia o mundo, o sol, as estrelas, os mares,  as  árvores,  os  pássaros que já cantavam  as  suas  milenares melodias. 
Nós, éramos apenas nada. Havia um passado, histórias, guerras, derrotas e vitórias.
Mas a vida vai crescendo, se antes era nada, depois é-se um, dois, três, milhares, milhões. O mundo já girava sem nós, as pessoas, as terras e animais existiam sem sequer imaginar que um dia chegaríamos.
O mundo é imenso sem nós, tão imenso que nós, nos sentimos nada perante ele.
Entretanto, chegamos, tornamo-nos parte, nem que seja no ser-se um entre muitos. Queremos fazer parte do todo, mas descobrimos que somos apenas uma parte, que somos ímpar nesse universo de pares.
É preciso crescer, por dentro, sem que isso se veja por fora. Do colo, saltamos para o chão, damos os primeiros passos, tímidos, cambaleantes, sem destino. Depois corremos para longe do nada para ficarmos mais perto de tudo. Se as coisas correrem bem, podemos agora dedicar-nos à descoberta do nosso mundo interno, a cimentar as emoções, a plantar razões, a conquistar corações, a lutar pelas nossas visões.
Está na hora de se deixar de ser ímpar e encontrar o que nos torne par.
Nos encontros e desencontros, tornamo-nos dois, nem sempre é fácil, é preciso ser-se livre para respeitar a liberdade do outro. É preciso saber quem somos para reconhecer o outro.
Ser-se dois não implica perdermo-nos de nós próprios ou fundirmo-nos com o outro. O que nos liga uns aos outros é a comunhão de afectos, de projectos e de sonhos.
Depois, uns e outros, acrescentam-se a outros mais e do nada que éramos, tornamo-nos muitos.
Um dia perto do fim do nosso mundo, se pensarmos que voltámos a ser nada, lembramo-nos antes que afinal somos muitos, tanto quantos aqueles a quem tivermos deixado a herança de um pouco de nós.
Porque para se ser, primeiro somos nada, mas isso, é o que define os contornos do caminho.


segunda-feira, 25 de março de 2019

Post.it: Dar tempo ao tempo

É preciso, dar tempo ao tempo. Viver devagar, saborear o ar. Aprender a respirar em cada sopro de brisa.
É preciso sofrer, arranhar os joelhos nas quedas, nas escorregadelas pelos declives da vida. É preciso aprender a dançar com os ramos das árvores. Aprender com elas a firmeza, a perenidade, a constância. Entender a sua luta para subir, para conquistar um pequeno raio de sol que a torne mais fecunda gerando outros ramos cobertos de verdes folhas. Ramos que se estendem apelantes para o céu homenageando-lhe a  estonteante beleza.
“O que depressa vem, mais rápido vai”, dizem os pessimistas, os que têm receio de escancarar as portas do sentir, limitam-se a espreitar por ela entreabrindo a medo. Que há a temer, o futuro? Para quê teme-lo se temos que caminhar para ele? Devemos escolher outro percurso com receio de que o que se avizinha nos faça sofrer? Como saberemos se não o vivermos? 
E se for a felicidade apressada a chegar sem prévio aviso?  E se for apenas mais um engano, uma brincadeira do destino. Já não temos nada a recear já aprendemos a cair sem nos magoarmos. Sabemos que toda a dor passa, que toda a ferida se cura, que o esquecimento é o mais eficaz tratamento que nos pode dar o tempo. Mas sabemos principalmente que tudo é caminho, que não se volta atrás, que tudo está à nossa espera. É agora ou nunca…


sexta-feira, 22 de março de 2019

Reflexo

Queria durar mais que o tempo.
Queria ser mais leve que o vento.
Tocar no simples rosto,
Apagar-lhe o desgosto.
E deixar-me partir.
E deixar-me seguir.

Nas asas do destino.
Como um ser pequenino.
Um pequeno grão.
Perdido na multidão.
Para sentir a liberdade.
De ser a verdade.
Que ninguém vai escutar.
Ninguém vai notar.

Olho o céu.
Invejo-lhe o véu.
De azul tão intenso.
De mar tão imenso.
Queria ser nuvem.
Queria ser viagem.
Conhecer o firmamento.
Abarcá-lo num só momento.

Quando cabe num só olhar.
O reflexo do que é amar.
Um arco-íris invertido,
Um sorriso divertido.
Todo o horizonte num enlaço,
Na fronteira de um abraço.
E tudo o mais somos nós,
Quando do silêncio se faz voz.


segunda-feira, 18 de março de 2019

Post.it: Faz greve

Se se fazem tantas greves,
porque não fazer verdadeiramente GREVE!

Faz greve às palavras negativas - Encontra algo de bom que dizer
Faz greve à maldade - E oferece piedade
Faz greve à ingratidão - E se grato por cada dia
Faz greve à raiva - E partilha momentos serenos
Faz greve ao pessimismo - E encontra o lado positivo da vida
Faz greve às preocupações - E relaxa o teu coração
Faz greve à desconfiança - Confia que vai melhorar
Faz greve à tristeza - Enche-te de alegria
Faz greve ao egoísmo - E reparte a bondade
Faz greve aos ressentimentos - Releva as pequenas coisas
Faz greve ao desânimo - Ganha coragem e ergue-te
Faz greve ao julgar os outros - Todos têm algo de bom
Faz greve às palavras que ferem - Troca-as por palavras de incentivo
Faz greve aos lamentos - Arranja razões para festejar
Faz greve à mentira - Dedica algum carinho à verdade.


sexta-feira, 15 de março de 2019

Post.it: Coração

Há noites em que o sono tarda e o sonho se recusa a inspirar-me a espera. Tudo parece estranho, vazio, escuro, silencioso, só a voz dos pensamentos qual roda dentada que ruidosamente se sobrepõe ao descanso que o corpo pede. De repente, quando a tensão diminui e permite uma consciencialização de maior pormenor, eis um ruído, não chega a ser barulho, não incomoda, antes parece que embala. Sustenho a respiração, ponho o ouvido mais atento, é uma batida suave e ritmada, como se realizasse um trabalho incansável, como se tivesse uma missão sem meta, e ele, bate, bate, bate, reconheço-lhe o som, que alegria de reencontro, de agradável companhia, sim, é o coração!
Imagino-o árduo trabalhador durante aquelas horas escuras, enquanto o corpo inerte descansa. Ele arregaça as mangas, mantém-se sério e concentrado na sua jornada, é assim de manhã até à noite, sem queixas, sem greves.
Neste momento sorriu, imagina se o coração fizesse greve, o que seria, eu nem teria tempo para lhe ouvir as reivindicações, ia desta para melhor, num ápice.
Porque, sim, ele tem a minha vida nas suas mãos; senti medo, senti um enorme respeito, amei-o pelo seu cuidado, por ser incansável, imparável até ao dia em que as forças lhe faltarem.
Reconheço que lhe devo dar muito trabalho, aí os doces, as batatas fritas, as autoestradas de vias que ele tem de limpar, filtrar, despoluir. E depois os sustos que quase o fazem cair no chão, ou as paixões  que o  fazem  partir-se em mil pedaços. 
Desculpa coração, nem sempre te dei atenção, não te escutei, obrigada por estares aí para mim. Batendo a cada tristeza, rejubilando em cada alegria, não sou uma companheira fácil, bem sei, mas ainda assim, acredito que não querias estar do lado esquerdo do peito de mais ninguém, pois não, coração?


terça-feira, 12 de março de 2019

Vazio

Da morte,
Só lamento a sorte,
Deixar de ouvir o vento,
Torna-lo apenas lamento.

A suave ondulação do mar,
Essa hesitação, o ir e o ficar.
Perdida confundida a natureza,
Desse sentir, essa vaga tristeza.

Pelas manhãs sem ver o amanhecer,
Pelas noites sem o sol me adormecer.
E as flores, tão intensos odores,
E as flores multiplicidade de cores.

A ferida, o grito, a dor,
O arrancar à terra da flor.
A mão que está tão vazia,
A noite cada vez mais fria.

Depois da turbilhão, só então,
A paz, o parar do coração,
Uma palavra, um adeus,
Cala-se a terra, cantam os céus.



sexta-feira, 8 de março de 2019

Post.it: Dia da Mulher

Hoje dia Internacional 
da mulher, quero oferecer palavras como se fossem flores. Pétalas macias para colmatar as dores. Este dia foi criado para homenagear as mulheres lutadoras, defensoras aguerridas, conquistadoras dos direitos que nunca lhe tinham sido reconhecidos. Este devia ser um dia alegre, de comemoração, no entanto, penso, que uma grande parte das mulheres, hoje, não consegue sorrir, não consegue esquecer a mágoa de tanta dor infligida. De tantas vidas sonegadas por quem lhes prometeu amor eterno. Como puderam erguer a mão, magoar a carne e o coração, como puderam disparar uma arma contra a vida humana, como puderam roubar o sorriso e troca-lo por lágrimas? Quando foi que as palavras de carinho se transformaram em ódio e vingança? De repente, não pensam, não sentem, agem e assim, ficam pais sem filhas, filhos sem mãe, fica a humanidade mais pobre e a vida, toda ela, mais vazia.



Mulher
Coração suave e terno,
Que do seu jeito mansinho,
Torna mais quente o inverno.

Dizem que até o ser Divino,
Ao vê-la com tanta candura,
Perto dela se tornou menino,
E aprendeu o que era ternura.

Então pediu ao homem que a cuidasse,
Como se ela fosse uma singela flor,
E que nesse cuidar sempre a amasse,
Com verdadeiro, generoso e leal amor.

Mas a promessa não foi cumprida,
E tudo o que era amor acabou.
Aumentou a mágoa, cresceu a ferida
E mais uma vida que expirou.


Não era para ser assim,
Chorou o céu e chorou a terra,
Era uma linda flor do jardim,
Vivia para um amor sem guerra.


segunda-feira, 4 de março de 2019

Post.it: Carnaval

Hoje, só hoje, podia ser diferente. Encontrar o rumo, escolher o caminho, dar aos passos mais que um simples compasso. 
Hoje, nem que seja só hoje, podia ser melhor. Encontrar o sentido, deixar de me sentir perdida, esquecida, adormecida na minha ténue vida. 
Hoje, sim, talvez hoje, seja o dia de mudar, de me encontrar sem ter de partir para por fim chegar. 
Então, despi-me da tristeza. Despedi-me da incerteza. 
Enfeitei os cabelos com raios de sol. 
Pus no olhar o brilho das estrelas. 
Desenhei um sorriso com todas as cores do arco-íris. 
Inspirei o ar marítimo e deixei voar o coração sem ter vontade de o pousar. 
Rasguei os pensamentos negativos e lancei cada pedacinho sobre a mais alta montanha. 
Renasci, vivi, corri por todas as planícies, ultrapassei todas as fronteiras, cortei a linha do horizonte. 
Hoje, nem que seja só hoje, fui realidade, fui fantasia,  fui verdade disfarçada de  mentira, fingi e senti com alegria. 
Era eu, mesmo hoje, quando me vesti de Felicidade! 
Se cair, se me sujar, se me rasgar, que importa, não faz mal, hoje, só hoje é Carnaval.



sexta-feira, 1 de março de 2019

Ninguém

Ele era a madrugada,
Fresca e orvalhada.
O caminho desencontrado,
Do destino mal traçado.
Era a folha caída,
Dessa árvore ferida,
Que finge a firmeza,
Para iludir a incerteza.
Tinha os passos perdidos,
Em sonhos esquecidos.
Era a sombra de alguém,
A quem chamaram Ninguém.
E Ninguém era quase nada,
Que dormia na estrada.
Que comia na mesa da rua.
Que tinha a alma quase nua.
A sua morada que nos indicava,
Dizia-a e nunca se enganava,
Moro na Rua do luar,
Na Casa do sonhar,
No único lugar que preciso,
Perto, bem pertinho do paraíso…


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Post.it: Aprendendo

Não nascemos a caminhar, não nascemos a falar, a rir ou a chorar.
Não nascemos a pensar, a organizar, a conquistar. Tudo foi surgindo, ganhando o seu espaço em nós. Os primeiros passos foram uma grande conquista, as primeiras palavras, uma celebração. O primeiro sorriso uma  luz no universo, a primeira lágrima que nos magoou  bem fundo no peito, a primeira queda um misto de dor e de constrangimento. Mas o que nos define não é o cair mas o aprender a levantar.
Depois de tudo isto, largam-nos a mão, incitam-nos a prosseguir sozinhos. Muitos tropeções, muitos erros depois, é tempo de viver a vida, fazer escolhas, mesmo que nos levem para onde não queremos ir. Podemos sempre voltar, podemos sempre recomeçar, porque faz parte de nós sobreviver, ganhar e perder com a esperança de vencer.
Somos  vida, esse encanto e desencanto. Somos o que somos, nem sempre o que gostaríamos de ser. Se pudéssemos escolher, todos escolheríamos ser felizes, ricos, belos, perfeitos aos nossos olhos e aos olhos dos outros.
Mas não temos outra opção e quando pensamos que temos, que somos nós que ordenamos aos nossos passos o rumo a seguir, percebemos que fomos levados a essa escolha por amigos, por fatores múltiplos, por ventos e marés, por sol e chuva. 
Um dia, lá muito à frente, olhamos para trás com dispares sentimentos: nostalgia, podia ter sido diferente; alegria, ainda bem que assim foi; saudade, que pena não ter acontecido; orgulho, porque estamos aqui e quem sabe ainda podemos aprender a fazer melhor…

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Encara a vida

Abre os olhos, sonha.
Tudo pode acontecer.
Desde que em ti se ponha
o desejo de vencer.

Abre os olhos, é mais bonito,
Ver a vida a florescer.
Dar voz a esse grito
Que já não podes conter.

Abre os olhos, luta,
Para conquistares a vitória
Não desistas, perscruta.
Da lição, faz a tua memória.


De olhos fechados tudo é escuro,
De olhos fechados tudo é incerteza.
Abre os olhos, vê o teu futuro,
Como pode ser de imensa beleza.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Post.it: O amor

O Amor, é curioso ver que ainda move corações. Que se procura em casamentos à primeira vista, em carros do amor, em primeiros encontros, em facebock(s), Instagram, em… tantas formas, mas sobretudo em tantas e diversas idades. Uns pelo encontro, outros pela fuga, todos querem companhia, ninguém quer a solidão. Uns encontram o que procuram, a maioria, não.
Razões? Muitas, diversas. Conclui-se, que o amor não é fácil de se encontrar, de se fazer coincidir sentimentos, personalidades, vontades. Não há o click que tantos referem, não há química que outros tantos comparam, não há borboletas a esvoaçar nos estômago, tornou-se uma moda de definição.
A verdade é que o amor, o verdadeiro amor, dá trabalho, não basta esse olhar e o  nascer de uma certeza, isso é paixão, dizem os entendidos. O amor, esse, vem depois, quando ambos, mas têm de ser ambos, arranjam tempo e vontade para cuidar, para fazer crescer, para partilhar e oferecer o melhor de si ao outro.
Um trabalho que é diário, que é voluntário, mas sobretudo que é feito com agrado e não com sacrifício. Claro que por vezes tem de haver cedências, adaptações, espaços, ideias, sentimentos que se conjugam. Uma aprendizagem de nós sobre o outro e do outro sobre nós.
E depois há a vivência de cada um, a bagagem de uma vida, os filhos, os/as ex, os familiares, as marcas e as mágoas do passado, o receio do futuro.
A grande questão é, será que cabe tudo isso num episódio televisivo? Parece que não, mas quem sabe, seja um principio, o começo de algo novo.  Porque cada vez mais estas são as novas formas de se conhecer alguém, de se chegar ao coração da outra pessoa.
Parece que cada vez mais longe vão os tempos em que as relações começavam na escola, nos empregos, entre grupos de amigos. Que cresciam devagar, que ganhavam maturidade, raízes, que nascia um amor/companheirismo. Agora há uma pressa de se viver, de se ser feliz num amor/paixão, um fogo que quando se extingue, parece não haver forma ou vontade de o reacender, parte-se para outro, recomeça-se a busca pelo amor.
Sim, o amor, é sempre por ele que lutamos, que fazemos loucuras, que nos desmanchamos em ternura. Sim, o amor, é sempre ele que buscamos a vida inteira. 
E, às vezes, felicidade das felicidades!
Alegria das alegrias!
Encontramo-lo…


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Teenager


Fiz tudo para ser ouvida,
Vesti-me para ser olhada.
Comportei-me como betinha,
De repente, senti-me sozinha.
As borbulhas no rosto,
Eram o meu maior desgosto.
O corpo mais gordinho,
Diziam que parecia um anjinho.
Defendi grandes ideias,
Lutava, morria até por elas.
Mesmo quando não acreditava,
Eram minhas e isso me bastava.
Fumei cigarros,
Experimentei charros.
Queimei os pulmões,
Tive até alucinações.
Bati com a porta de casa.
Precisava de “bater a asa”
Não quis ouvir “os velhos”,
Com teorias e evangelhos.
Exigi o meu espaço,
Recusei aquele abraço.
Cortei o cordão umbilical.
Cai, bati fundo e fiquei mal.
Quem sou? Sou o que sou.
A descoberta de para onde vou.
Ou apenas uma adolescente,
Que quer gritar o que sente!



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Post.it: Não sei...

Quando era miúda estava cheia de certezas, sabia o que queria ser quando fosse (grande), sabia por onde queria ir, sabia de quem gostava, sabia quem gostava de mim. Sabia sonhar acordada,  sabia como tornar reais  os sonhos. Achava que sabia tudo, ou quase tudo, porque tinha a certeza que (crescer) era saber mais,  muito mais. Que desilusão senti com esse passar dos anos, cresci, é verdade, um crescimento físico e mental, um crescimento de alma, um crescimento sobretudo de calma. E, de repente, a célebre frase do filósofo socrático começou a fazer sentido “Só sei que nada sei” sem criar angústias de ignorância, mas a felicidade pela vontade de conhecer, descobrir, de me reinventar.
Mas se antes tinha uma certa avidez por aprender, como se o não saber me condenasse à exclusão, hoje prefiro aprender devagar, para que o que se aprende fique a maturar, a ganhar consistência e não seja como muitas aprendizagens que fazemos e que ganham asas antes mesmo de deixarem em nós a construção de um ninho para o futuro. Hoje dizer que não sei, em vez de me dar tristeza, enche-me de orgulho, porque é um não sei causado pelo esquecimento, mas antes o reconhecimento do tanto que ainda tenho por aprender.
Aprender com os mais velhos, aprender com os mais novos, na diferença de coisas que nos transmitem e enriquecem os nossos dias. Com os mais velhos aprendi a construir caminhos de paz, de solidariedade, de apoio, de companheirismo, de cooperação e de renuncia, de desvalorização, tempestades, se as houver que surjam nos oceanos e não em (copos de água). Com os mais jovens aprendi a abertura, a receptividade, a esperança, a confiança, o viver cada hoje sem me preocupar demasiado com o construir do amanhã.
Às vezes apetece-me dizer, “não sei, nem quero saber”, não quero saber, de violências, de mortes, de corrupção, de injustiças, de ingratidão, de indiferença, de egoísmos, de guerras, de políticas, de ditaduras, de tudo o que nos afasta de nós humanidade e nos transforma em desumanização e solidão. Não o digo por cobardia, por desinteresse, por medo… 
Digo-o por tristeza, por um sentimento crescente de impotência, por me sentir tão pequena e por reconhecer que nada, mas mesmo nada sei para (curar) o mundo da sua ferida existencial. Se houver alguém que saiba, ensine-me, acreditem, quero muito aprender!


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Post.it: Há um silêncio

De repente, há um silêncio, nem uma queixa, uma lamuria. Não é que não se sinta, mas aprende-se a silenciar a mágoa. Talvez assim doa menos, dizemos ao pensamento. Mas a gente sente, sente a ausência, sente o vazio, sente a dor infligida pela indiferença.
De repente, já não sabemos de nós, perdeu-se na vacuidade, diluiu-se rotina amarga das horas, badaladas dos dias, como um sino que toca as Avé Maria e depois emudece.
Há pessoas que se entregam, que a cada mínima coisa, queixam-se, como quem tem necessidade de ser constantemente amparado, constantemente mimado, necessitam de ser o centro das atenções, sentem-se vítimas de uma desgraça que cabe num copo de água. Comparando as suas dores com as dos outros, são sempre vencedores, dessa absurda “competição” sem prémio.
De repente, ouço-os e tento compreender se é força, se é fraqueza. Concluo que é indiferente e que essas pessoas simplesmente não conseguem conter o sofrimento dentro do peito e o extravasam como um rio desgovernado e sem rumo.
De repente percebo que elas são mais verdadeiras do que eu, mais inteiras porque partilham, porque derramam sobre os outros o rol do seu descontentamento. “Eu quando fico doente fico mais doente que tu”. “Quando tenho febre fico a morrer”. Será que percebem quando já não estão a falar de si, mas a alienar os outros, menos humanos, menos de carne e osso, esses que não têm sangue a correr em sobressalto pelas veias.
De repente, há um sorriso que não ri, compreende sem pedir compreensão, isto de se ser crescida dá trabalho, talvez por isso, pouco queiram crescer e outros tantos nem sequer cresçam. 
De repente há um silêncio, puxo os cobertores da cama, fecho os olhos e sinto o meu cão encaixar-se na dobra das minhas pernas, agora é esperar, quem sabe a dor também faça silêncio…

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Caminhos

Caminhos, todos somos caminhos.
Uns mais caminhados que outros,
Acompanhados ou sozinhos,
Todos levamos muito ou pouco.

Somos mares, somos terra,
Tempestades de acalmia,
Vencemos e a nossa guerra,
Com tristeza, com alegria.

E continuamos a caminhar,
E continuamos a construir,
Retalhos do nosso sonhar.

Na esperança de vir a ser,
Esse pedaço de porvir, 
Que nos faz a caminhar viver.


sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Post.it: Confesso...

Já cometi erros, já magoei. Já fugi, já voltei. Confesso, já eliminei amores dentro de mim, já criei dores. Já me vesti e despi tentando ser diferente para agradar.
Já fui por caminhos que sabia não tinham regresso. Já espreitei abismos que me chamavam mas não lhes respondi.
Já gritei ao eco, mas ele nunca me respondeu.
Já mergulhei no mar profundo mas nunca consegui afogar as mágoas.
Já desenhei corações na areia mas o mar apagou-os antes que as estrelas os lessem.
Já menti para me enganar e acreditei que essa era a minha verdade. Já chorei porque não conseguia rir, já ri para esconder a vontade de chorar.
Já cai e não me quis levantar, já me levantei só para demonstrar que não temia a queda.
Já disse sim quando por dentro gritava não. Já disse não só para esconder o quanto queria dizer sim.
Já adormeci só para sonhar um sonho que se tornasse realidade. Já caminhei só para saber que ainda era dona dos meus passos.
 Já tive tudo e acreditei que não tenha nada. Já fui feliz sentindo-me a mais infeliz das pessoas. Já estive presa por grades de preconceito em prisões de medo. 
Fiz tudo isto, e confesso que  já “matei alguns sentimentos por aí”. Mas se o fiz, perdoem-me, mas foi em legítima defesa…


segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Post.it: As palavras despem-se

“Não devemos levar as palavras demasiado a sério, o mais verdadeiro  acontece no silêncio quando as palavras se calam”. É aí que tudo acontece,  é nesse momento que  aflora o sentir, é nesse instante que se vencem as barreiras ludibriantes de uma realidade construída por palavras. São elas que nos seduzem, são elas que nos conduzem por onde querem e nós, incapazes de conter a força dessas águas, deixamo-nos ir, acreditando, sonhando.
As palavras são roupas, despem-se quando é oportuno, depois de nos vestirem de ilusões, depois de nos desenharem uma verdade que não é a nossa.
As palavras despem-nos depois de nos enfeitiçarem, de nos levarem a ir por onde não queremos ir, mas que por elas, acreditamos piamente que é esse o verdadeiro e único caminho.
Mas não culpemos as palavras dos outros, porque muitas vezes são as nossas próprias palavras que nos mentem, que nos fazem acreditar numa realidade que não é a concreta. Tentam conduzir-nos os pensamentos, tentam controlar-nos os sentimentos, contam-nos histórias, dizem-se nossas amigas, solidárias com as nossas mágoas.
Num dado momento, percebemos que as palavras são dissonantes do que somos, do que queremos, então, está na hora de calar as palavras, tapar os ouvidos, escutar mais o nosso sentir, é preciso encontrar a nossa força antes que as palavras (amigas) nos roubem a essência do que somos. 
É preciso olhar o mundo no que tem de sólido e verdadeiro, aprendermos com as árvores a ser raízes de consistência de resistência e não nos deixarmos iludir pela beleza dos castelos de areia.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

A minha vida

A minha vida,
Tem muita gente,
Alegre, divertida,
Triste e ausente.

A minha vida,
Nunca está completa,
Estação de ano comprida,
Alma ligeira de poeta.

A minha vida,
É como uma casa,
Porta aberta, janela partida,
Um silêncio e um bater de asa.

A minha vida,
Perto ou longe do fim,
Por vezes parece perdida, 
Mas continua a viver em mim.


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Post.it: Desafio

Se te ofenderem – Perdoa.
Quando tiveres medo – Não temas.
Quando tiveres dúvidas – Confia.
Se te sentires angustiado – Encontra a paz em ti.
Quando te invadir o comodismo – Luta pelos outros.
Se pensares que és bom – Tenta ser melhor.
Se gostas de atenções – Serve os mais necessitados.
Se gostas de mandar – Experimenta a obedecer.
Se gostas de compreender – Pára um pouco e crê.
Se pensas em vingança – Encontra-a dando a outra face. 
Quando quiseres descansar – Pensa no que ainda há por melhorar.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Post.it: Ilumina-me

(Ana Clara), não é esse exactamente o meu nome, mas durante muitos anos saboreei-o, escutei-o da boca da minha prima, nunca mais o ouvirei da sua voz que foi repentinamente silenciada pela foice contundente do intemporal. Parece foi hoje, que ainda a escuto, de vez em quando dentro da lembrança, “Ana Clara, que vive escondida na sua penumbra, eu sei, ai como sei a luz que te brilha no peito mas que fechas no olhar”, e eu sorria, bem, nem chegava a ser um sorriso o que lhe oferecia com enorme constrangimento, era mais o desenho de uma linha tosca no rosto de expressões fugidias.
Descobri muito cedo que um sorriso pode ser a resposta para tudo, para o que se diz e sobretudo para o que se cala. E eu calava, calava, porque, talvez, não o conseguisse falar, ou por achar que ninguém me queria escutar. “Ana Clara”, quem me dera ser ‘clara’, de ser um sol que consegue brilhar sem medo de ser demasiado luminosa, demasiado reveladora, do eu interior, esse que pouco importa aos outros.
Não, não me imaginem escabrosa de pensamentos ou desejos pecaminosos, de ideias proibidas, de actos vergonhosos, era apenas, tão ternamente e ingenuamente, infantil.
Mas receava o choque de uma alma desnudada e ávida por se anunciar um ser capaz de voar, de sonhar sem temer o sonho. Ansiosa por gritar a plenos pulmões os ideais, as formas, os horizontes infinitos de afectos. Mas quem, quem parava um segundo para me ver, escutar, ler, para caminhar em passo pequeno, porque eu era ainda pequena, ainda que grande, demasiado grande para caber na intensidade do meu coração, então extravasava dele, e escrevia, escrevia, rios de tinta, mares do meu estranho e alegre descontentamento.
Porque na dissonância dos passos, na desarmonia dos sentimentos,  por impossível que possa parecer, consegue-se ser feliz.
No meu mundo exclusivo, de espaços serenos, nos meus lugares secretos, escondia-me das guerras exteriores e era, sem o saber, imensamente feliz.
“Ana Clara”, tenho saudades de te ouvir chamar-me assim, porque na verdade, os anos, escureceram-me e hoje a penumbra tornou-se numa agradável companhia. De vez em quando ainda perscruto um raio de sol a espreitar-me de mansinho nas janelas do olhar, ainda descubro no risco informe do sorriso, um sopro de luminosidade emergente e sinto, por um instante que seja, sinto que sou a Ana Clara que resgatavas dos labirintos do meu viver.
Também eu gostava de te chamar “Ana Clara” mas temo que não me escutes, por isso fica-me a esperança cada vez mais ténue de que um dia me ilumines com a luz que só tu possuis, mesmo que o não saibas, porque sem saberes tu foste para mim a claridade mais resplandecente de um universo a que me era débil de luz e de amor. 
Farias anos hoje, ou melhor, continuas a fazer anos nesta data, porque as velas do teu bolo de aniversário continuam acesas na minha lembrança.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Eu não era assim...

 
Eu não era assim…
Esta calma, esta tristeza,
Com este tom de jasmim,
Que me mistura com a natureza.

Não tinha as mãos geladas,
Meio perdidas, meio mortas.
Este sorriso de águas passadas,
Este olhar de lembranças absortas.

O meu cabelo não tinha neve,
A pele não tinha caminhos.
A memória que não se esquece,
Em sonos mal dormidos.

Eu não tinha este coração,
Que bate em mim escondido.
Eu não tinha esta solidão, 
Nem este encanto perdido.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Post.it: Be the best

Ano novo, vida nova, ouvimos e no nosso interior prometemos cumprir essa promessa.
Que o novo ano seja melhor para nós, ou será que devíamos dizer que cada um de nós seja melhor para este ano novo?
Sê a mudança que queres que aconteça.
Muda, faz mudar, esta parece a roda que nos move os pensamentos, as festividades. Queremos que nada fique por fazer, que nada fique por dizer. Que não restem culpas, que não se criem desculpas.
Que olhemos para nós não como o centro do mundo, mas como a diferença que muda o segundo.
É fácil apontar os erros dos outros, é ainda mais fácil não assumirmos os nossos. Cada ano que começa, festejamos a esperança de que nos seja benéfico, olhamos para ele com expectativa de que os nossos sonhos sejam realizados. Desejamos a todos um Bom Ano Novo, melhor que o anterior gostamos de referir, esse anterior que se deve rir nesse momento, porque quando ele chegou fizemos-lhe os mesmos desejos, os mesmos pedidos, as mesmas promessas.
Será que foi ele que não cumpriu? Foi ele que nos defraudou as ilusões? Se lembrarmos as nossas acções, o que fizemos e o que deixámos de fazer, se calhar, uma parcela do incumprimento foi afinal nossa.
Mas continuamos aqui, em mais um ano de confiança, mas que essa confiança seja sobretudo em nós. Mais um ano de fé, uma fé nas nossas capacidades. Mais um ano de alento, um alento que nos dê vontade de ultrapassar as nossas limitações. Mais um ano em que aprendemos a dizer cada vez mais, não, ao que nos subjuga e um grande sim, ao que nos trás alegria, paz e tranquilidade. Que sejamos assertivos o suficiente para conquistar o nosso lugar no coração dos outros, mas não em excesso que nos leve a magoar os que nos são próximos.
Não nos devemos limitar a ser quem somos e a esperar que isso seja o suficiente.
Não nos devemos condicionar por acharmos que não somos capazes.
Por isso, tenta ser não apenas melhor, se é para voar, abre as asas da liberdade e sê o melhor, não só porque tentas mas porque realmente o és!... 
Então sim, terás um Bom Ano Novo