sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Post.It: Urbanidades interiores


É curioso este olhar que olha para fora e  tão pouco  para dentro, não de si,  porque esse é um olhar que tem de ser feito por vontade própria, mas para quem está próximo, à distância apenas de um olhar.
Uma distância que por vezes se perde no horizonte das rotinas, das coisas práticas, da organização, da gestão, do capitalismo, da visão de um todo onde se perde a de cada um.
E bastava uma palavra que diz, sei que estás aqui!. Um sorriso mesmo que só transpareça na expressão dos olhos. Um parar mesmo que não seja para ficar.
Quase invejo essa rua, esse alguém que entra e tem um lugar reservado à sua liberdade de ser, de sentir, de se expressar. Todos são importantes, quero acreditar que sim, mas na verdade, eles são mais. Porquê? Porque motivam, porque desencadeiam ideias, porque provocam, estimulam, entusiasmam, são o estranho que querem conhecer. A mim? A mim já me conhecem, já não lhes trago novidade, e, no entanto, pergunto-me, silenciosamente, pergunto-lhes na mesma ausência verbal, que sabem de mim? Quem sou, de onde vim, que caminhos percorri, que vitórias, que fracassos? Que ideais vislumbrei, que esperanças criei, o que falei, o que calei?
Há um diálogo a muitas vozes, que quero escutar, quero falar com elas, sobre elas, sobre nós,  mas apenas escuto o silêncio misturado com o som gritante dos meus solitários pensamentos.
Abro as asas lúdicas que querem escrever nos altos céus com ânsia de comunicar, de partilhar vontades, projectos, sonhos de um amanhã que envolva todos, sem uma hierarquia limitadora, sem empatias elitistas, sem diferenciação etária, sem exclusão, sem solidão. Mas falta-me um pouco mais de sol, um pouco mais de azul, talvez um golpe de asa para eu ser alguém.
Há um convite a quem passa, entrem, vamos conversar…
Estou cá dentro mas sinto que estou lá fora, sem passar da porta, sem vislumbrar janelas abertas, um sem abrigo sem (o vosso abrigo). Tenho urbanidades interiores caladas no peito, querem falar, querem ser ouvidas, querem ver, querem ser vistas. Quem sabe um dia, se olharem não só para a rua mas também para a soleira da porta.



sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Post.it: Assim vão-se os dias


Quando era jovem adolescente sentia que ganhava dias, ganhava em aprendizagem, em crescimento, em desejos, sonhos, esperanças. Com o passar do tempo a nossa noção de tempo muda, passamos a sentir que perdemos dias, não porque sejam mal gastos, mas porque temos a sensação de que cada um deles já não volta para o tornarmos melhor, para o vivermos com maior intensidade, para o guardarmos como quem guarda uma bolacha para um momento posterior em que tenha fome e não tenha nada mais à mão para forrar o estômago, para aconchegar a alma. De repente é-nos imposto um exílio, ficar em casa, com medo do vírus que invade as ruas e ameaça invadir-nos a nós. De repente separam-nos dos outros, condenam-nos à solidão. Para os jovens é apenas um breve momento, um de tantos… Como se fosse apenas uma estrela de tantas que há no céu.
Para os mais velhos a sensação é diferente, pode ser apenas uma estrela mas escurece o seu céu, o dia torna-se curto e a noite longa. Uma avó que perde o primeiro sorriso do neto, os primeiros passos, as primeiras palavras, perde algo irrecuperável. As novas tecnologias podem gravar para recordar, mas não substitui aquele abraço, o calor dos afetos, o cheiro da familiaridade.
Há um vazio crescente no peito, há uma noite de angústias no leito, faz-nos falta o estar, o sentir, o partilhar o corpo, a vida, a esperança, a lembrança, a receita de todos os ingredientes que fazem parte de nós.
O tempo, este tempo doente, vai longo. Há quem se pergunte e nos pergunte, teremos tempo para voltar àquele tempo ou ficaremos demasiado tempo neste?
A finitude tem momentos de infinito, estamos nesse impasse à espera que esta crise passe.
Será que irá passar? Que sabemos nós do futuro, quando ainda estamos a aprender a vivê-lo…



quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Post.it: Beirute

Às vezes, atamos a esperança com fios de cabelo. Colamos os cacos e cada dia com cola de cuspo. Adormecemos e sonhamos sonhos de algodão. Levantamos-nos e damos meio passo porque um passo inteiro nos parece a longa distância de uma auto-estrada. O sol tem um tom de inverno, as nuvens são cinzentas sem água. E tudo nos parece um véu de nevoeiro que cobre o horizonte não de neblina, mas de fumo. Como se fossem resquícios de algo que existiu e já não existe mais, o quê questionamos e o vento responde sem voz: Nós, aqui, cada vez mais sós. Porque mesmo que sejamos, vários, às vezes até, muitos, na nossa existência, no nosso sentir, somos sempre e somente, únicos. Ruiu, explodiu tudo, vidas, casas, passado, presente e futuro. Cada pedra que colocámos, cada tábua que carregamos, os degraus que nos levavam mais longe, as pontes que nos uniam. Não eram apenas edifícios, eram história, a nossa memória, o nosso teto, abrigo, leito. Um barulho ensurdecedor, de queda, de dor, de pavor. Depois parou, parou tudo, até o tempo ficou suspenso, como quem espera a medo a ordem de que pode continuar a avançar. Escuta-se um silêncio que continua a gritar-nos no peito como se fosse um pedido de socorro. Cada um pergunta-se se está vivo, sai lentamente do torpor e começa a procurar os seus familiares, amigos, colegas, vizinhos. Vemos uma mão estendida, corremos para lá tropeçando no chão, tiramos os destroços tentamos dizer-lhe que está tudo bem, mas ao lado há outra mão inanimada que nunca mais voltará a acenar. É o primeiro dia, quem sabe, o último, da nossa vida, tal como a vivíamos, ou de como a voltaremos a viver. Beirute voltará a reerguer-se, claro que sim, mas as cicatrizes, essas, ficam para sempre.



sexta-feira, 31 de julho de 2020

Post.it: Biografia de um traço


Era para nascer ponto mas começou a crescer, chamaram-lhe traço mas ele riu-se de quem o diminuía e em crescendo, desenhou-se linha reta. 
Ainda não se lhe conhecia forma definitiva,  mas com passar dos anos começou a ganhar sinuosas curvas. Inspirado talvez por afetos, por uma felicidade que agarrava como se fosse unicamente sua,  tornou-se esboço de um caminho repleto de histórias, saudosas memórias.
Entrou em declive, murmuravam  alguns, mas ele que conhecia como ninguém a fórmula mágica do sentir, ganhava coragem e ascendia contornando as dificuldades, vencendo as intempéries dos dias cinzentos, curando as feridas, evitando outras e sorrindo, sorrindo sempre porque era preciso enganar  as emoções mais fortes evitando assim a descrença nos verdadeiros sentimentos.
Nem sempre foi fácil, mas o tempo revelou-lhe que não era impossível. Houve momentos… Preferiu esquece-los e guardar apenas os que valia a pena guardar. Se não fosse assim tinha-se tornado cúbico, árido, cheio de recantos sombrios.
Com o tempo ganhou forma, descobriu a fórmula de existir sem desistir, sem parar, sem sucumbir. No principio era um ponto, uma linha reta que encontrou a maneira de arredondar cada aresta, cresceu, cresceu e encontrou o contorno perfeito de ser e de partilhar a sua essência.


sexta-feira, 24 de julho de 2020

Post.it: O que diz o olhar


De repente os olhos deixam de ser um simples olhar, começam a falar, a ter conversas inteiras. Os olhos que choravam agora também oferecem sorrisos, aconchego. Os olhos revelam consentimento, discordância. Os olhos dão abraços sem estender os braços. Os olhos aquecem os sentidos, acarinham alma. Os olhos escutam quando nos olham com a atenção de um amigo que tem todo o tempo disponível para nós. Agora que uma situação peculiar nos tapou a boca, que nos roubou o sorriso do rosto, felizmente que temos os olhos para nos dar cor, calor e expressão às palavras. Este vírus quer extorquir-nos o ar, calar-nos, separar-nos, isolar-nos. Este vírus usurpador quer-nos unicamente para si, exila-nos, condena-nos à solidão, remete-nos ao medo, à desconfiança, subtrair-nos a esperança. Faz-nos sair do caminho que tínhamos como certo, leva-nos para dias cheios de deserto. Prende-nos os pensamentos, tapa-nos a boca. Mas mesmo que nos ponham óculos, viseiras, os olhos nunca vão deixar de falar, gritar, sorrir, de dizer que estamos aqui, que vamos resistir e olhar de frente cada desafio, sem virar a cara, sem fechar os olhos!
Ainda há muita beleza para ver, ainda há muito amor para dar, muito afeto para repartir, muitos sorrisos por sorrir e muitas palavras de esperança, de encorajamento que só os olhos conseguem revelar.


sexta-feira, 17 de julho de 2020

Post.it: Tudo me foge


Tudo me foge: O tempo, a vida, as sensações. Os raios de sol no olhar, o sorriso como espasmo do coração, a vontade de tudo e em tudo. Fica este nada, este vazio, esta sensação de partida. 
Há quem diga que se tem muitos nascimentos, será este mais um deles? É difícil nascer, falta-me uma mãe a expulsar-me do útero, falta-me um pai de braços abertos para me receber, falta-me os avós num olhar reconfortante, falta-me a direcção sem medo de me perder.
Nascer depois de tantas mortes é estranhamente dolorosa como se nos arrancassem do antes sem sabermos se será melhor o depois. É absurdo, mas habituamos-nos ao nosso dia a dia, mesmo que não nos faça feliz, é como um sapato velho  e feio que até nos magoa ao caminhar mas já está moldado ao nosso pé, já lhe conhecemos os defeitos e ele conhece os nossos. 
Conhecemos o hoje, o amanhã torna-se um abismo de incógnitas, será fundo, haverá luz, iremos perder-nos, quem nos responde? O silêncio! Velho companheiro, ele está sempre certo porque não se atreve a errar. 
Nós ao contrário, falamos, gritamos, achamos que temos sempre razão, lutamos vencemos mas perdemos sempre algo em cada vitória, um pouco da nossa paz por todas as guerras que travámos, porque há sempre sangue mesmo que não nos saia das veias, na dor,  no sofrimento, o nosso e o que causamos. 
Tudo me foge, olho em frente, será apenas um novo encontro?



sexta-feira, 10 de julho de 2020

Post.it: Vai ficar tudo bem


10  de Julho 2020, 23:00h, China.
Xin Qian olha para o relógio do telemóvel, está quase na hora de embarcar, já se despediu da família, sem abraços, se havia sorrisos não os viu, estavam escondidos por detrás da máscara. Recorda a última partida, sente a falta dos familiares ausentes, a avó, o tio, as duas primas, sem esquecer alguns amigos de infância, todos partiram levados pela devastadora pandemia do Covid-19. Regressa a Portugal para continuar os estudos, é um regresso de coração magoado, de sonhos roubados. Queria ficar na China  ajudar os pais, os irmãos, o seu país a sair da escuridão, da solidão, mas tem de continuar a construir a sua vida, deve isso a quem partiu, deve isso a quem permanece e a incentiva a seguir em frente.
10 de Julho 2020, 12:00, Brasil
Janice olha para os filhos, tenta sorrir-lhes mas lembra-se que eles não lhe vêem o sorriso, agora é preciso que as palavras tenham mais expressão que os gestos. É preciso abraçar sem unir os corpos, beijar sem tocar a pele. O reencontro com o  seu Brasil desta vez foi diferente, sentiu a falta daquele ambiente alegre e festivo, agora notou-lhe uma apatia, o medo em cada rosto escondido por detrás da máscara. No bairro onde cresceu ouvia-se todo o dia música, agora, ecoa um pesado silêncio por todas as vidas que foram levadas por uma pandemia que não entendem. Chegou como uma onda gigantesca, entrou nos bairros, arrombou as portas, roubou pais aos filhos, roubou filhos aos pais, irmãos, tios, primos, amigos, vizinhos. Também Janice sentiu os efeitos do vírus no seu corpo, sufocando-a. Teve medo, muito medo de nunca mais ver os filhos, os pais, o marido, chorou, rezou, demorou mas passou, sobreviveu. Está de volta a Portugal, um regresso tão diferente da partida. Tem saudade dessa alegria, desse mundo.
10 de Julho 2020, 16:00, Portugal.
Manuel caminha devagar, cansa-se muito, o seu corpo ainda se recente da doença, foram 20 dias nos cuidados intensivos, quando recuperou, teve que reaprender a respirar sozinho, teve que aprender a erguer-se, a mover-se quando o cansaço lhe pesava no corpo e na alma. Por fim chegaram as visitas, precisava tanto dos seus abraços, dos seus sorrisos mas não lhe foi permitido. Vinham com máscaras, viseiras, luvas, batas, pareciam que vinham de outro mundo. Chegou a pensar se era ele que estava noutro mundo. Teria morrido? Questionou-se. Garantiram-lhe que estava vivo. Contaram-lhe que várias pessoas suas conhecidas tinham falecido devido ao Covid-19, sentiu-se quase morrer com a dor de cada partida, amigos, empregados. Teria sido culpa sua, infectou todas essas pessoas? Chorou, pediu perdão. Meses depois continuava a sentir o peso da culpa. Mas ele não sabia que tinha apanhado aquele vírus, não sabia que se transmitia tão facilmente, desconhecia que era tão letal. Nas noites de insónia que eram muitas, continuava a rezar pelos que partiram, continuava a pedir-lhes perdão.
Xin Qian chegou a Portugal, nos placards viu a frase Vai Ficar Tudo Bem, o seu fraco domínio da língua portuguesa fez com que demorasse a entender o que lia. Por fim, sentiu o coração sorrir, uma luz de esperança invadiu-a, pegou na mala e saiu do aeroporto, tinha que acreditar, por ela e por todos o que acreditavam no seu futuro.
Janice saiu do aeroporto devagar, as crianças festejavam a chegada a casa, nas janelas folhas com arco-íris desenhados e a palavra Vai Ficar Tudo Bem, fê-la sorrir, enquanto uma lágrima lhe deslizava silenciosa, o marido abraçou-a e repetiu a frase como quem acredita, Janice acreditou nele, - Sim, Vai Ficar Tudo Bem…
Manuel sentou-se junto do filho de 6 anos, afagou-lhe os ombros e desenhou com ele um arco-íris no papel e uma frase que lhe custou a escrever pela incerteza que lhe toldava o sentir. O filho sorrio-lhe, era um sorriso franco, confiante, - Vai ficar tudo bem, pai. – Sim, vai, filho…



sexta-feira, 3 de julho de 2020

Post.it: Nada será com dantes


19 de fevereiro de 2020, 7 horas da manhã, Aeroporto Francisco Sá Carneiro, Porto.
Xin Qian olha para o relógio do telemóvel pela 10º vez, está inquieta, ansiosa por partir, por chegar, está em Portugal a fazer Erasmus tudo corre bem, mas a mãe telefonou-lhe aflita, a avó de 82 anos está muito doente, no início tinham-lhe dito que era uma simples gripe, mas rapidamente evoluiu para pneumonia e agora já estava internada nos cuidados intensivos. Xin Qian sente o coração apertado, chegará a tempo de se despedir da avó? Questiona-se, arrependida, devia ter regressa à China em Janeiro para as festividades do ano novo, mas só tinha chegado há 4 meses, andava a tentar integrar-se neste novo pais com características tão diferentes do seu, já tinha novos amigos, e quase, um namorado, mas isso, ainda não contara aos pais. A notícia da doença da avó apanhou-a de surpresa, ainda sentia no corpo o abraço que ela lhe deu no dia em embarcou, ainda lhe via o sorriso que escondia as lágrimas já cheias de saudades da neta. A sua avó sempre fora uma pessoa forte, saudável, lutadora, até adoecer ainda trabalhava todos os dias 12 horas nos arrozais de Sichuan um dos afluentes do rio Yantzé tão cheio das suas memórias de infância.
- Desculpe posso tirar esta cadeira da sua mesa? Xin Qian levanta o olhar surpreendida com a interrupção dos seus pensamentos. Sorri para a sua interlocutora, não percebe mais do que meia dúzia de palavras em português.
Janice aceita aquele sorriso como um gesto de consentimento e leva a cadeira para a sua mesa onde já se encontram o marido e os 3 filhos. Está ansiosa, mas feliz, faz 5 anos que não regressa ao Brasil, andou a juntar cada cêntimo para a viagem e, finalmente conseguiu, vai apresentar o marido português e os 3 filhos nascidos desse enlace. Quase visualizar na sua imaginação os seus pais a abraçar os netos pela primeira vez, já se vê a caminhar no calçadão das praias do Rio de Janeiro de mão dada com o João. Compõe o vestido, ajeita a roupa dos meninos, endireita a gravata do marido, estão perfeitos, pensa, quase parecemos uma família de doutores, sorri com uma sombra no olhar, a vida não tem sido fácil, trabalha nas limpezas, o marido nas obra e os filhos crescem na casa da avó paterna reformada, não há dinheiro para os pôr no infantário. Mas ainda chega para comprar um bolo e um copo de leite para cada um. As crianças empoleiram-se no balcão indecisos sobre qual bolo escolher, são tantos, gritam saltitantes.
Manuel desespera, está na fila da cafetaria do aeroporto “há horas” diz o seu relógio de impaciência e aquelas 3 crianças nunca mais se decidem sobre que querem comer. Por fim suspira, o melhor é acalmar-me, ainda tenho um ataque cardíaco e não chego à feira em Milão, afinal vim com 2 horas de antecedência para me precaver destas e de outras situações. Tenta controlar os nervos, deixando o pensamento voar, vai para Itália, há muito que anda a projectar esta viagem, tem uma pequena empresa de calçado, investiu lá todo o seu capital, todo o seu potencial humano, todos os seus sonhos. Convenceu a mulher a deixar de trabalhar e ficar ao seu lado na fábrica, juntou às suas, as poupanças dos pais e dos sogros, vai à Feira de calçado procurar novos projectos, quem sabe gostem da sua linha de produtos e consiga arranjar clientes para exportação. Aperta nervosamente a mala de tiracolo onde colocou uma amostra dos seus planos, do seu trabalho, da sua vida. Se ao menos os miúdos chegassem a uma conclusão sobre o bolo que querem… depois a grande dificuldade vai ser arranjar um lugar vago para comer descansado, talvez aquela jovem chinesa não se importe que me sente na sua mesa, parece simpática, está sempre a sorrir.
12 de Março de 2020, Hospital S. João, Porto.
Manuel, fora a Itália para visitar a feira de calçado e lá, concretizara todos os seus objectivos, nunca se sentira tão realizado, tão feliz, não fora aquela maldita gripe que apanhara em Itália, tudo lhe corria bem, em poucos dias a doença prostrara-o para a cama, contagiou a mulher, os pais, os sogros e mais duas dezenas de empregados da sua fábrica. A febre não cedia, o ar rareava-lhe nos pulmões. O médico entrou, escondido por detrás da máscara que  não dava para lhe ver a expressão de portador  de boas ou más noticias.
- Sr. Manuel, os seus exames revelam que está infectado com o novo coronavírus e vai ficar internado.
O seu coração saltou-lhe no peito, o ar sufocou-o, um suor frio desceu-lhe do rosto ou seriam lágrimas? Não o sabia dizer.
Com as emoções em conflito, um pensamento aflito. E agora?
Agora, nada será como antes…


sexta-feira, 26 de junho de 2020

S. Pedro 2020


S. Pedro que tens tantas chaves,
Arranja-nos aquela que tu sabes,
Uma cuja porta por fim fecharia,
Esta já longa e dolorosa pandemia.

E depois dela fechada, depois dela perdida,
Seja com alegria por todos nós, esquecida.
Que venham as festas, que venham os abraços,
Suplantando medos, dores e até os cansaços.

Que todos os santos em reunião,
Nos tragam a milagrosa solução.
Um planeta sem vírus devastadores,
E dias com arco-íris de todas as cores.

Sem máscaras no rosto
Sem solidão, sem desgosto.
Voltando a estender aos outros a mão
E abraçar com amizade cada coração.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

S. João


Será capaz S. João
De nos afastar a solidão?
E nos dar uma grande festa,
Com o que de esperança nos resta?

Vamos de martelinhos em riste,
Tentando acertar no vírus que insiste,
Em nos deixar cada dia mais sós,
Separando amigos, pais, filhos e avós.

Mas S. João não vai permitir,
Que na sua festa fiquem sem se divertir.
Pede-nos um pouco de fé, e alguma confiança,
Nesta fase da vida, em breve apenas lembrança.

Venha a alcachofra e a sardinha assada,
Mesmo com a nossa porta fechada.
A alma é livre e vai conseguir voar,
O coração é forte para um dia recomeçar.



sexta-feira, 12 de junho de 2020

Santo António 2020


Santo António, meu santinho milagreiro,
Apesar de tanta pobreza não te peço dinheiro.
Santo casamenteiro, nestas festas populares,
Nem sequer te peço amores nem altares.


Santo António, tenho-te na minha devoção,
E  até te guardo o ano inteiro no meu coração.
Mas também és o Santo das coisas perdidas,
Por isso peço-te coisas nunca esquecidas.

Que reencontre o sorriso sem máscara,
E a cada um sem o medo vestindo a cara.
Que volte a sentir o calor de um abraço,
E os beijos carinhosos encurtem o espaço.

Que Lisboa se volte a encher de gente
Festejando com saúde e alegremente.
Se for preciso até o Responso te vou rezar
Para o vírus partir sem nunca mais voltar.



sexta-feira, 5 de junho de 2020

Post.It: O que aconteceu na Lapa, fica na Lapa


Entrar como quem entra em casa, inalar os cheiros familiares de gente, de pão a torrar, de leite com café. Deixar que os sentidos se embalem nas vozes que vão chegando aconchegantes. 
Abrir as janelas, deixar os primeiros raios de sol entrar. Tomar o pequeno almoço com tranquilidade, mergulhar nas tarefas sem pressão, sem olhar critico e vigilante. Vão descendo as escadas uns, devagar, outros a correr, mas na voz a mesma juventude de um bom dia embrulhado num sorriso de quem nos olha como igual. 
As tarefas são diversificadas, por vezes muitas, mas há sempre tempo para mais algumas, aquelas que fazem de uma casa também um lar. 
Porque não deixar o computador e ajoelhar-me para plantar umas flores, ou fazer um pequeno curativo a quem precisa de ajuda? 
Porque não subir o escadote e apanhar fruta no jardim, ou com o mesmo escadote, mudar uma lâmpada nos altos tetos? 
Além disso, seja com quem for, novos, mais velhos, há respeito, consideração, amabilidade e admiração mútuos. 
Há tempo para falar, sugerir, para ouvir e ser ouvido. 
Há tempo para partilhar, para conversar, para distribuir tarefas, para ser patrão e ser amigo. Sim havia afeição, generosidade, solidariedade. Era mais do que um emprego, era uma segunda família, em muitos casos sentida como primeira. 
Festejando quem chegava, chorando as partidas de um até breve ou até nunca mais.
Havia amizade.
Ficou a gratidão envolvida em saudade…

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Post.it: Momentos quase zen


É difícil estarmos connosco, com os nossos pensamentos, com os nossos lamentos, com os nossos sonhos, com os nossos pesadelos, com as nossas preocupações, frustrações e medos. Precisamos fugir, escapar-nos de nós, mergulharmos num vácuo que nos faça sentir leves e livres. Nessa fuga entramos numa espécie de zen ocidental, esvaziamos os sentidos e deixamos simplesmente de sentir.
Depois dos computadores, os telemóveis são um escape, uma fuga para a frente, ou melhor para lugar algum, porque ficamos aqui com a sensação de estar ali, seja onde for, é indiferente, pode ser em qualquer parte do mundo. Deixamos o olhar perder-se em imagens que nos confortam, que nos animam, que parecendo ser o vazio nos enchem de serotonina, a hormona da felicidade.
É verdade, somos felizes, por ver sorrisos, por ver a contagiante alegria dos outros. Crianças a brincar ou a disparatar, cachorros oferecendo-nos gestos quase humanos de carinho, aventuras de quem ousa desafiar a lei da gravidade, ou apenas, mensagens que nos fazem sorrir por fora mesmo quando choramos por dentro.
Coisas importantes, coisas sem importância alguma. Que lembramos para o resto da vida ou que esquecemos no momento seguinte. Mas por breves minutos, por breves instantes, tivemos um encontro fortuito com a nossa paz individual.
Entretanto, a viagem no transporte público chega ao fim, está na hora de voltar à realidade, de voltar a nós…


sexta-feira, 22 de maio de 2020

#SaiDeCasa


Sai de casa,

Deixa o ninho, abre a asa.

Sai de casa, não tenhas medo,

A vida amanhece cedo.

Sai de casa pelo teu país,

É ele que te faz feliz.

Vai para o trabalho com alegria,

Volta a ser o sol de cada dia.

Sai de casa, está na hora,

De mandar o vírus embora.

Dos outros mantém-te distante,

Mas em todos confiante.

Sai de casa, escuta o coração,

Ele quer sair da solidão.

Pé no chão, olhos na rua,

Sorri, porque a vida continua…



sexta-feira, 15 de maio de 2020

Post.it: Depois do confinamento


A aventura de regressar ao trabalho, de sair de casa, de viajar nos transportes públicos, de encontrar rostos cobertos com máscara.
Cada dia tornou-se uma descoberta do melhor e do pior. Digamos que uma larga maioria de pessoas agia com respeito pelas novas regras do uso de máscara, uma maioria mais pequena, pelo cumprimento do distanciamento. Mas diga-se em boa verdade que por mais que tentássemos o distanciamento nos transportes públicos revelou-se no avançar dos dias desta semana, uma cada vez maior impossibilidade. Na carris e no metro, a coisa ainda corria bem nos primeiros dias mas para o final da semana começou a instalar-se a confusão e a involuntária aproximação, com estes transportes cada vez mais apinhados de gente. Mas nota negativa desde a primeira hora recebe a Rodoviária de Lisboa que anunciava regras de só transportar 2/3 dos passageiros mas a verdade é que andava superlotada.
Mas falemos das minorias, felizmente poucas mas merecedoras de destaque e quem sabe de um estudo psicológico ou sociológico. Todos os dias os encontrava, todos os dias tentava falar com eles, aprimorando o discurso para não ferir susceptibilidades. Desde o jovem que no autocarro coloca a máscara para baixo do queixo para mascar pastilha elástica e fazer balões, realmente é impossível fazer balões com máscara, alguém que invente uma máscara para estas situações! Mas do mal o menos, pedi ao jovem que colocasse a máscara e ele acedeu.
Há pessoas que entram nos transportes com a máscara na mão em vez a ter colocada no rosto, deve ser para a mostrar ao motorista, como se fosse a validação de titulo de transporte. Depois alguém diz a outro alguém que coloque a máscara e a resposta não se faz esperar – Em mim ninguém manda! Passando pela senhora ao lado de quem me sentei e que vinha a falar ao telemóvel, mexia e remexia na máscara, tentei perceber o que se passava e a constatei que a senhora tentava a todo o custo baixar a máscara para melhor falar ao telemóvel, acabou por a colocar por baixo do queixo. Fiz-lhe um gesto indicando para subir a máscara, deitou-me um olhar fulminante. Pedi-lhe com bons modos que a colocasse, deitou-me mais um olhar matador. Por fim disse-lhe, “Que não se preocupe com a saúde dos outros, é egoísmo, mas entende-se, mas que não se preocupe com a sua saúde é suicídio”, levantei-me e fui para outro lugar.
No dia seguinte mais uma aventura e à minha frente sentou-se um jovem sem máscara. Lá tentei falar com ele “Jovem a máscara?” Não me respondeu, mas não foi por falta de educação, tinha os ouvidos ocupados com os fones e ouvia-se em fundo a pseudomúsica que deles saia. Quando olhou para mim, aproveitei a oportunidade e gesticulei (a máscara?), sorriu-me e disse “ – Esqueci-me dela em casa” e mergulhou a boca e o nariz para dentro do blusão enquanto o olhar ficava novamente preso ao telemóvel.
Mais um dia mais uma aventura, desta vez sentei-me em frente a um homem, quando levantei o olhar constatei que ele estava sem máscara colocada, lá pendia ela como um brinco de pechisbeque. Sempre persistente na minha missão de salvação/sobrevivência, disse ao homem, “- coloque a máscara se faz favor”. Sorriu-me e nada fez. Insisti, “- É obrigatório podem passar-lhe uma multa” com o mesmo sorriso de ironia, respondeu “- Sou rico, posso pagar”. Sem me abalar com o discurso, tentei de novo, “-Se não se preocupa com a saúde dos outros , pelo menos pense na sua!”, o sorriso foi substituído por um olhar de indiferença, “- Estou protegido, todas as pessoas têm máscara”. Desisti, que fazer para mudar e responsabilidade de cada um?
Já agora, onde pára a polícia? Essa que aparece nos noticiários, mostrando que cumpre e faz cumprir as normas? Pois, é isso mesmo, é aí que estão, em frente às câmaras da televisão, quando esta aparece para fazer uma reportagem, depois ninguém os vê. Compreende-se, estão a manter o distanciamento de (quilómetros).
Perante isto só posso pensar que se nos safarmos do ataque do Covid19 foi apenas por sorte. Resta-me desejar que a sorte nos seja sempre favorável e ter a esperança que apesar da falta dos comportamentos descurados de alguns prevaleça o respeito e cuidado de muitos.


quinta-feira, 7 de maio de 2020

Post.it: Girassós e outros sóis


 A primavera chegou e quase nem demos pela sua entrada. Os jardins encheram-se de coloridas flores, mas nós continuámos a ver a realidade em tons cinzentos. O sol brilhou e nós nem espreitámos pela janela.
A Páscoa foi quase apenas uma data no calendário, sem darmos amêndoas em forma de abraços, sem recebermos ovos de chocolate em forma de beijos. Quase que nem relembrámos a Paixão de Cristo. Na nossa vontade de chegar a todos, de tocar todos os nossos familiares e amigos, telefonámos, enviamos mensagens, desejámos a todos uma Boa Páscoa, menos “doce”, mas presente para compensar a ausência. Compensou? Claro que não! Mas recuperaremos cada momento, prometemos aos outros e a nós.
O 25 de Abril não foi um dia de liberdade e as canções de lutas foram entoadas num grito de desespero e de esperança. Já não se temia as guerras partidárias, os condicionamentos políticos, mas a luta pela vida contra um inimigo viral.
O 1 de Maio passou em marchas silenciosas nas ruas desertas. As lutas pelos direitos dos trabalhadores foram trocadas pela homenagem a quem trabalha para arrancar da pandemia vidas em sofrimento e as trazer de volta à sobrevivência e aos seus lares.
Este vírus que retirou vidas, que separou famílias, que nos isolou em ilhas desertas de afectos, mas cheias, por vezes muito de medos. Revelou a nossa fragilidade, demonstrou a nossa coragem.
Não estamos vencidos, nem convencidos de qualquer derrota. Os dias são de luta, cada um por si, para vencermos todos.
O ficar em casa vai pouco a pouco transformando-se num voltar à rua. Abrimos a porta, espreitamos receosos, olhamos cada pessoa com uma estranha familiaridade, estamos todos no mesmo caminho, com um único objectivo, ficar saudável. Cuidamos da nossa saúde e da dos nossos o que significa igualmente da vossa e dos vossos.
A inconsistência das palavras, tornou-se a consistência dos actos e ideais, nunca houve um isolamento que nos unisse tanto.
O futuro pertence a nós e não ao Covid; temos esperança, tentamos ter confiança e acreditar, é isso que nos dá força para sair para a rua, entrar nos transportes públicos, ir trabalhar e no final do dia regressar a casa. 
Vamos ficar bem…

sábado, 2 de maio de 2020

Mãe não há só uma


Mãe é aquela que no ventre nos carrega,
Que nos torna a sua missão e entrega.
Aquela que traz a nossa vida ao mundo,
E a sua se torna nossa desde aquele segundo.
Mãe é que nos dá colo e adormece,
Aquela que de nós nunca se esquece.
Mãe é quem vela por nós pela noite fora,
E que mesmo cansada não se vai embora.
Mãe é quem nos ergue quando caímos,
E aquela que nos espera quando saímos.
Mãe é quem brinca connosco no chão,
E à noite estuda connosco a lição.
Mãe é aquela que supera a sua dor,
E apenas partilha connosco o seu amor.
Mãe é aquela que nos guarda no coração,
E esconde num sorriso qualquer preocupação.
Mãe é aquela que até no silêncio nos entende,
E tem sempre um abraço que nos estende.

sábado, 25 de abril de 2020

Dia da liberdade


Tenho liberdade para sair – Mas fico em casa.

Tenho liberdade para ir – Mas não vou.

Tenho liberdade para crescer – Mas encolho-me.

Tenho liberdade para ser feliz – Mas não sou.

Tenho liberdade para abraçar – Mas não abraço.

Tenho liberdade para sonhar – Mas não durmo.

Estou prisioneira  - Não matei, não roubei, não fiz mal.

Estou prisioneira – Não da doença,  dor ou de ordem superior.

Estou prisioneira – Não da política, nem sequer da legislação.

Estou prisioneira – De um vírus que me condena à solidão!


terça-feira, 21 de abril de 2020

Era um velho...


Dizem que era um velho,
Muito velho.
Dizem que era um pobre,
Muito pobre.

Tinha pouco mais que pão,
E um lugar certo no chão.
Mas todos os dias se levantava,
E com um sorriso caminhava.

Chamavam-lhe louco.
Feliz, com tão pouco?
Mas ele em poucas palavras dizia,
A alegria está em ter este dia.

Bastava-lhe ser quem era,
Que após o inverno viesse a primavera.
Vencera muitas guerras, curara muitas dores,
Conhecera, suspirava, bonitos amores.

Chorar, cria vendavais, e aprofunda o mar,
Devemos agradecer por o sol brilhar.
Acreditem, tenham esperança,
A vida é como uma criança.

Que cai e se levanta sem desistir,
Porque ainda há muito para descobrir.
Por cada escuridão que nos escurece,
Há uma luz maior que nos amanhece.

Era um velho muito jovem,
Como se fosse um começo de viajem.
Era um pobre muito rico,
Tinha um coração de ouro infinito.



terça-feira, 7 de abril de 2020

Post.it: A vida está cheia de nascimentos

“Nascemos muitas vezes naquela idade
onde os trabalhos não cessam, mas reconciliam-se
com laços interiores e caminhos adiados” J. Tolentino

Gosto de pensar que nasço na experiência de cada amanhecer, na descoberta de cada raio de sol que me invade o dia. Gosto de pensar que nasço em cada passo que dou, que já foi mais firme, não pela certeza do caminho mas pela capacidade de o fazer sem pensar que um pé vem depois do outro.
Mas sim, há uma calma que me acalma os sentidos, que me reconcilia com a sucessão de momentos, uns mais dóceis, outros mais angustiantes, outros ainda, os melhores, são aqueles que me sopram brisas inspiradoras de esperança. Sim, porque há esperança em qualquer idade, em qualquer crise, em cada fim que se torna começo.
Crescem os  laços interiores, forma terna de sublimar as nossas pequenas prisões, éticas, morais, educacionais. Compromissos que assumimos com os outros, mas sobretudo connosco. Gosto de pensar neles como algo que se dá porque nos é fonte inesgotável.
Outros laços há que os ato como quem guarda um molhe de cartas para que não se percam da memória que como se fossem pedacinhos de história vivida, sentida, sofrida com lágrimas e risos. Em tempos passados sentia gozo em desenlear nós, tinha paciência para essa tarefa, agora prefiro atá-los, para que não se percam, para que vão formando um fio encadeado de pequenas paragens onde temos de permanecer um pouco mais para saborear essa lembrança.
Como se fossem contas de um rosário, não para rezar e sublinhar as perdas, mas para contar e recontar os ganhos.
Houve caminhos por onde não fui, adiados? Não,  escolhas que fiz. Pouco importa agora, se foram os caminhos certos ou errados. Foram os certos para esse momento. Viver de arrependimentos é não encarar o presente que se torna passado a cada instante sem ter futuro.
O hoje pode parecer um momento estranho porque não sabemos como o viver. O amanhã pode parecer uma noite escura que receia amanhecer.
Mas enganam-se os que pensam que isto significa desistir. Continuaremos aqui, sempre que nos descobrimos amados e capazes de amar. Sempre que reencontramos o riso sobrevivente das lágrimas, porque a vida, acreditem, está cheia de nascimentos. E um amanhã sem Covid-19, sem dores, sem mágoas; está à distância da nossa coragem, da nossa esperança...


terça-feira, 31 de março de 2020

Post.it: #Fiqueemcasa


Pela sua saúde, pela minha, pela saúde de todos.
Fique em casa porque respeita a humanidade, porque gosta dos seus vizinhos, porque ama os seus amigos e familiares.
Fique em casa também por todos aqueles que não podem ficar e têm trabalhos essenciais para manter a sua e nossa sobrevivência.
Quem amassa o pão para que que nos chegue fresco ao pequeno-almoço.
Quem transporta e vende os alimentos que nos alimentam no dia a dia.
Quem vela pela nossa segurança nas estradas e nas zonas habitacionais fazendo cumprir as regras da boa conduta que um estado de emergência a todos exige.
Quem assegura pela nossa saúde em farmácias, serviços de emergência médica e hospitais. Pessoas que não podem ficar em casa, que trabalham horas infinitas, que arriscam a sua vida para melhorar e em muitos casos salvar a nossa.
Para eles, todos eles, a nossa homenagem, que traduzida em palavras, em aplausos e canções, não basta!
A melhor forma de lhes agradecer é ficar em casa, evitando apanhar e propagar um vírus que nos quer dominar e  em última instância matar.
Fique em casa, activo e atento, aceda a todos os meios tecnológicos que disponha, agora sim é a hora certa para se viciar em telemóveis, tablets e computadores, não só para jogar e ver as novidades, mas, para da sua casa chegar e entrar na casa de quem mais gosta, partilhar beijos e abraços que mesmo virtuais, estão carregados de emoção.
Fique em casa, horas, dias, meses, o que for necessário, sem se deixar cair na solidão desse aparente isolamento. Sinta que estando em casa cumpre um dever, encare-o como uma tarefa, viva cada instante com espírito de entreajuda porque neste momento, ficar em casa é a sua e nossa grandiosa missão.



domingo, 22 de março de 2020

Post.it: Neste recanto


Num recanto do mundo, é onde me sinto estar. Há quem se sinta num recanto da vida, escondido, com medo de um encontro funesto com a doença ou com outros medos que nos podem bater à porta. Sentimos-nos frágeis, vulneráveis, impotentes, sentimos-nos sós, obrigados a uma solidão que não escolhemos.
Não temos escolha, é o que nos desespera, esta espera, esta incógnita. O que não controlamos mas que nos controla.
Mas temos escolha. Podemos agir, deixar de esperar e seguir em frente, tornar cada dia a construção de algo melhor, uma dádiva. Uma palavra, um gesto, mesmo que seja na distância de segurança. E há cada vez mais quem o faça, cada pessoa começa a partilhar o que tinha de si para dar. Os ginásios colocaram aulas na Internet para quem estiver em casa se manter saudável e activo. Quem está ligado a áreas culturais disponibilizou conteúdos para que o tempo livre seja um tempo mais enriquecido. Ideias inovadoras vão surgindo para quem se quiser manter ocupado em casa, bricolage, trabalhos manuais, novas aprendizagens.
É claro que muitos nem sequer têm tempo para terem tempo livre, estão em casa mas estão a trabalhar nos seus ofícios. Mas mesmo esses, que no início pensavam que estavam numa situação ideal, sem horários rígidos, sem a perda de tempo nas filas dos transportes, constatam aquilo de que estudos recentes já tinham demonstrado. Estas pessoas, em tele-trabalho, confrontam-se com a sua própria exigência e caiem no extremo oposto de excesso de trabalho e muitas vezes numa solidão que lhes inibe a criatividade e sociabilidade no lar. É a fase que atravessamos, não gosto de lhe chamar crise, quero olha-la ainda com um olhar de esperança, quero acreditar que em breve vamos voltar a fazer longas caminhadas sem máscara, que vamos dar e receber abraços sem receio de estar dar e a receber, nada mais do que afeto. 
Até lá é preciso tomarmos consciência do que nos rodeia mas também interiorizarmos as nossas necessidades, capacidades e limites. E sobretudo é preciso que sintamos e façamos os outros sentir que, mesmo longe nunca estivemos tão perto, que cada um na sua casa, não está sozinho. Por isso, telefone, mande emails, fale, dê beijos e abraços aos seus familiares, amigos, colegas, vizinhos, todos precisamos de todos.


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Post-it: Ideais


Somos humanos incompletos, sempre em mudança, em construção.  Faz parte de nós esta insatisfação que nos faz procurar, descobrir, crescer. Temos sonhos, esperanças, ou seja ideais. Olhamos para o lado e sempre essa visão, talvez por nos ser exterior, nos parece melhor do que a nossa realidade.
 Queremos  a família ideal, os amigos ideais, a escola, os professores, os vizinhos, crescemos e começamos a delinear as relações afectivas ideais, os empregos ideais, os chefes, os colegas. O cônjuge ideal, os filhos, o futuro dos filhos, dos netos e do seu crescimento.
 Os nossos ideais vão diminuindo, começamos a idealizar pouco mais que a saúde ideal, dizem que isso é sinónimos de maturidade, mas pressinto que é também de  desilusão. Quando nos confrontamos com o passar da nossa já longa caminhada e constatamos que poucos ou nenhuns foram os ideais concretizados. Conformamos-nos, mas preferimos afirmar que simplesmente percebemos que a nossa felicidade não está nesses ideais mas na valorização da realidade vivenciada, fica bonito dizer isto, torna-se difícil senti-lo. É arrancar do peito anos e anos de planos, de um caminho que fizemos nessa direcção.
 Atrevemos-nos a idealizar, somos humanos, parar de sonhar, de ter esperança, de acreditar, de ter fé em algo melhor, é morrer antes da morte nos levar consigo. Por isso mesmo que baixinho, quase em silêncio, ainda aspiramos a um futuro sem data marcada, que nos seja solarengo de esperança, que nos encha de primaveril inspiração, que nos faça voar nem que seja apenas em pensamento e que se tivermos que pousar pesadamente despertando de mais um ideal fracassado então que seja sobre uma montanha de nuvens.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Do que precisas?



Dum raio de sol?
Vou buscar o mais quente para te aquecer.
Duma nuvem para repousares?
Já te trago a mais fofa para te adormecer.
Dum arco-íris cheio de cor?
Descobrirei o mais belo para colorir a tua vida.
Dum oceano para afogares as tuas lágrimas?
Transportarei o pacífico para te acalmar a dor.
De uma onda que leve para longe as mágoas?
Encontrarei a mais alta para de novo te erguer.
De uma rocha onde te apoiares?
Acharei a mais firme para confiares.
Duma sombra para te refrescares?
Vou buscar a maior palmeira para te proteger.
De uma estrela para brilhar na tua escuridão?
Escolherei a mais cintilante para te iluminar.
De um abraço leal?
Ofereço-te, simplesmente o meu…