terça-feira, 15 de março de 2022

Post.it: Nunca seremos os mesmos

Nunca mais seremos os mesmos, 
depois de termos sido crianças, adolescentes, 
de termos vivido momentos e experiências irrepetíveis.
Depois das lágrimas e das gargalhadas. 
Depois dos caminhos por onde andámos.
Das pessoas que conhecemos, 
dos amigos que ganhámos e perdemos.
Depois de tanta felicidade entrelaçada com um q.b. de infelicidade.
Depois de todas as vitórias e derrotas. 
Depois do que aprendemos e do que esquecemos. 
Depois das partidas e chegadas. 
Depois das decisões e indecisões. 
Depois de todos os sins e depois de todos os nãos. 
É verdade, nunca mais seremos os mesmos. 
Renovamo-nos a cada instante, a cada manhã em
que despertamos com novas resoluções, 
depois de abandonarmos os medos e cansaços 
da noite anterior. 
Somos como um rio cuja água que passa por 
baixo da ponte nunca é a mesma.
Nós, depois de tudo o que passamos,
depois de tudo o que vivemos, nunca, 
mas nunca mais seremos quem eramos antes, 
nem seremos mais o que somos depois.


segunda-feira, 7 de março de 2022

Post:it. A guerra

Numa guerra perde-se sempre!
Perdem-se vidas, perdem-se lares, empregos.
Perdem-se amigos, pais, filhos, irmãos, tios, primos, avós.
Perde-se o passado, perde-se o futuro.
Perdem-se os sonhos, perde-se a alegria do amanhecer em cada dia.
Numa guerra perde a Liberdade. 
Perde o País, perde o Mundo. 
Numa guerra vence o medo, a dor, a tristeza, a impotência.
Vence a destruição, a fome, a solidão. 
Vence a imposição, a aniquilação. 
Mas o que vence não deixa em ninguém a sensação de vitória mas de fracasso, de derrota.
A guerra escraviza as vontades, desumaniza os seres.
A guerra mata o amor, a boa vontade, a solidariedade. 
Obscurece os corações, neutraliza as emoções. 
A força da guerra é o ódio, a ganância, a raiva, a inveja, a intolerância, o egoísmo, a pequenez. A incapacidade de encontrar em si a coragem para respeitar o outro na sua diferença.
Só faz a guerra quem não consegue idealizar a felicidade de viver em PAZ!


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Post.it: Icebergue

 O icebergue dos nossos problemas é denso, intenso, cheio de arestas que nos magoam, alto, veemente, parece-nos impossível de transpor, de o solucionar. 
Cada passo nessa tentativa causa dor, cansaço, angústia. Insistimos, por vezes quase desistimos, mas prosseguimos.
Temos de o vencer! Antes que ele nos derrote e nos reduza a uma insignificância existencial. 
O icebergue dos nossos problemas revela-nos uma parte difícil da nossa vida, cresce para nós, cresce em nós, deixa-nos a sensação de asfixia. 
Rouba-nos o ar, a coragem, as forças para o suplantar. Mas incapazes de desistir, reerguemo-nos, está na nossa natureza reinventarmo-nos. 
Pegamos as pedras mais pequenas, depois nas maiores e o problema, esse, aos poucos vai diminuindo. 
A esperança ergue-nos, anima-nos, incentiva-nos e revela-nos a verdade do que ainda não tínhamos constatado, revela-nos a capacidade que temos enquanto pessoa. 
São lutas particulares, são batalhas de cada dia. Mas venceremos, porque afinal, o icebergue é apenas água. 


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Post.it: Contra a doença, lutar, lutar!

Nunca como agora senti a noção de efemeridade, incerto, transitório. 
Nunca como agora percebi a preciosidade do tempo que temos na vida. 
Nunca como agora nos sentimos tão pequenos, humildes, dependentes de tudo e de todos.
Nunca como agora vi e sofri o hoje, que nunca será amanhã, para muitas pessoas. 
De repente o caminho que parecia sereno e longo encheu-se de fronteiras, de pequenos passos que vamos conquistando. 
Parecia que o mundo era todo nosso, que o destino estava nas nossas mãos como uma criança que temos de cuidar e proteger, mas cujo destino é apenas crescer. 
Tornamo-nos essa criança, procuramos essa mão protectora, esse abraço tranquilizador. 
Por vezes numa breve miragem encontramos alguma serenidade na voz que nos liga e pergunta como estamos, essa pessoa desconhecida, que nem sequer é um familiar, amigo, mas que nos trata como tal, ou pelo menos assim o sentimos porque o nosso coração solitário precisa urgentemente desse afeto.
A solidão casou-se com o isolamento, parece ser uma união infeliz mas duradoura, ou assim nos parece de tão longa. 
Perante a situação, sentimos que se afastam de nós como se nos temessem, afastamo-nos dos outros com medo de (tudo) de estar a infringir as regras, de estar a receber ou partilhar doenças.
Talvez seja um momento, uma fase, ou quem sabe, o princípio de um fim ou de outro começo. 
A dúvida torna-se medo. O medo, uma angústia, uma batalha de quem quer teimosamente, corajosamente negar o perigo. 
A febre, a dor, a doença que cresce, a cura que tarda. Venceremos! Ou seremos vencidos!
Erguemos as nossas armas, a esperança, a resiliência. Lutamos, com a nossa força toda num sorriso…




segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Só para te abraçar

 


Leva-me a viajar,

Sem sair do lugar.

Faz-me acreditar,

No meu sonhar.

 

Dá-me um lugar,

Para eu chegar.

Que possa voar,

E chamar de lar.

 

O dia acabar,

Se a noite chegar.

Que tenha o luar,

Para me aconchegar.

 

A força de lutar,

Perder e conquistar.

Talvez, recomeçar,

Só para te abraçar.




segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Desencontros

Vivo desencontrada,

Naquilo que sou,

Na longa estrada,

Por onde vou.

E o sonho me faz sonhar

Mas acordo sem acontecer.

Corro na vida sem parar,

Mas a vida acaba por vencer.

Entre o que tenho e quero ter,

Entre o que sou e quero ser,

A distância sempre a crescer,

E a esperança sempre a perder.

Quis o sol, quase me queimei,

Quis a nuvem mas ela choveu.

A flor que murchou mal a toquei,

O luar que era luz me anoiteceu.

Podia ter sido melhor,

Fui o que deixaram ser.

Também podia ter sido pior,

Podia o dia, não me acontecer.

 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Post.it: Este tempo que somos

Vivemos num tempo que já foi solidário, mas que se tornou solitário. 
Vivemos num mundo ferido, muitos de nós vivemos anestesiados, febris de ansiedade por mudança ou acomodados e com medo dela. 
Outros foram perdendo a vontade, o interesse, a sensibilidade, do tacto, da visão, do sentir, do decidir. 
As feridas quando não são tratadas, transformam-se em prepotência, em negligência, hostilidade, desprezo, indiferença, em solidão, em desunião. 
Devemos estar cientes das fragilidades do mundo, das suas dores que em vez de nos afastarem, nos devem unir. 
Porque afinal, cresce um risco evidente; a ameaça constante à nossa existência, à nossa sobrevivência, com o fim dos milenares valores, da nossa cultura, das nossas raízes. 
Porque nós, todos, sem raízes “nada mais somos do que papagaios no vento”. Não podemos curar o mundo, mas podemos cuidar de quem nos está próximo.
Como? Aproximando-nos mais, escutando, oferecendo uma mão para acompanhar o seu doloroso caminho. 
Oferecendo um olhar que abraça. Dando-lhe uma palavra amiga, ser solidário, generoso, humilde, respeitador do seu espaço, dando-lhe a liberdade de decidir e de construir um lugar onde se sinta em casa, uma vida em que se reencontre e afirme inteiro e simultaneamente plural.


segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Post.it: Leitor ausente

Às vezes, cada vez menos, ainda me pergunto se me lês, se me vês, se me sentes, se me ouves nas palavras que te escrevo. Mas a escrita vai ficando cada vez mais só, mais intima, mais eu, aqui, onde quer que esteja, onde quer que estejas.
  É curioso pensar que não é a distância que nos separa, mas a nossa vontade, ou a falta dela. Escolhas que fazemos a cada passo que damos. Hoje, vou por aqui, porquê? Não sei, para ser diferente, para não me cansar de fazer sempre o mesmo, de ver os mesmos rostos anónimos, porque me cansa o que não sei. Apetece-me perguntar, quem és? O que fazes? És feliz? Tenho inveja da senhora que se senta no lugar da frente e que vai sempre, quase impulsivamente escrevendo frases, soltas, pensamentos, sonhos, desejos, desabafos. Cresce-me a curiosidade, quase, quase lhe pergunto o que escreve, mas paro a tempo desta decisão, não quero interromper, corromper a sua inspiração. Há quem diga que escreve sobre nós, sobre cada um de nós, as sensações que lhe deixamos, as criticas, as queixas. Não acredito, vejo-lhe o olhar distante, mergulhado em si. Escreve numa ânsia desmedida, numa inspiração incontrolável. Escreve, para si, para os outros. Tal como eu escrevo, cada vez mais para mim, já sem sequer me questionar se também escrevo para ti. Podem dizer que é triste, que nos dá solidão, talvez tenha começado assim, mas de repente, ganho consciência da liberdade que ganhei, sou livre, posso escrever o que me apetece, porque tu, meu leitor não estás aí! 



segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Que encontre...

 Que encontre…

A riqueza na maior pobreza,

O bem no meio de tanto mal,

A certeza na maior dúvida,

A beleza das coisas mais feias,

A alegria na maior tristeza,

A companhia no meio da solidão,

A felicidade algures na infelicidade.

A riqueza é muito mais que ter bens materiais,

Há sempre algo de bom até no que está mal,

A certeza mais certa nasce sempre da dúvida,

A beleza está na forma de cada um a olhar,

A alegria é a estrada de saída da tristeza,

Basta uma mão para afastar a solidão,

A felicidade está algures no coração.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

O nosso tempo

 Não há tempo consumido,

Não há tempo a economizar.

O tempo é todo vestido,

Do amanhecer ao luar.

 

O tempo é para viver,

O tempo é para gastar.

Algum pode-se entender,

Mas não há tempo a sobrar.

 

Nem o tempo mal gasto,

Em tempo de sonhar.

É um tempo com rasto,

Que fica para recordar.

 

O tempo é ele todo,

O que somos também.

Luz ou cais de lodo,

De todos e de ninguém.

 

Se eu tivesse mais tempo,

Para o sentir lento a passar.

Correria como se fosse vento,

Só para o tempo apanhar.

 

Mas o tempo é tempo certo,

Só ele sabe a sua longevidade.

Antes que se torne um deserto,

É tempo de o fazer de felicidade.



segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Quem me dera...

Quem me dera ser poeta,
Quando a tristeza nos oferece,              
Uma felicidade de alegria repleta.
 
Quem me dera ser escritor,
De quem ao pintar escreve,
Com todas as cores da dor.

 
Quem me dera ter o coração,
Que ama só por amar,
E afogar-me na suave paixão.
 
Quem me dera ter esperança,
Para viver do sonhar,
E acreditar como criança.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

História do Natal II


Então a maior estrela no céu deslizou,

E ao mundo inteiro ela anunciou,

Nasceu o nosso Menino, o Salvador,

Que nos vai libertar de toda a dor!

 Muitos para o local logo correram,

Perante Ele, reis e pastores se ajoelharam,

Que lhes ofereceu um sorriso abençoado,

Na noite fria, nas palhinhas deitado.

 - Que história triste... Disse Nicolau,

Que era teimoso como um pau.

- Mas gostei do seu final feliz, avó,

- Um Menino tão pobre que mete dó,

 - E que um dia em toda a terra,

- Vai com amor vencer a guerra.

Foi com emocionado coração,

Que Nicolau com gentil compaixão,

 Ali prometeu, que sempre a sorrir,

Viveria continuamente a repartir.

- Quando crescer, rico quero ser,

Para prendas a todos oferecer.

 Terei um carro de renas voador,

Que vai pelo mundo a todo o vapor.

Depois à noite, chego pé-ante-pé,

E em cada casa desço pela chaminé.

Mas desde já um recado quero deixar,

Há condições para o que lhes vou dar,

Se forem todos bem comportados,

Receberão os presentes mais desejados.

 A avó disse, acariciando-lhe a cabeça,

- Meu neto, que tudo isso aconteça,

- Que Jesus te cresça no coração,

- E que como Ele repartas amor e perdão.

 

 


segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Post.it: História do Natal I


Há muito, muito tempo,

Numa terra cheia de lamento,

Vivia um rei que era feroz,

A todos perseguia com ódio veloz,

 Tinham-lhe dito, que um dia,

Um rei muito amado nasceria,

E que na data do advento,

Ele viria acabar com o tormento.

Maria e José, pais dessa criança,

Fugiram para proteger a esperança.

Ora se bem me lembro,

Era o dia 24 de Dezembro,

Era uma noite especial,

A mais bela noite de Natal,

No céu um manto estrelado,

Na terra um momento encantado,

 Maria seguia no burrinho,

José a pé, pelo imenso caminho,

Mas o cansaço já os vencia,

Terminaram por ali aquele dia.

 E foi num palheiro abandonado,

Que Maria deitou o corpo cansado,

Mas as dores começaram a crescer,

O Menino parecia dizer - Quero nascer!

 

 


terça-feira, 23 de novembro de 2021

Post.it: Esquecidos

Esquecidos não são os que se esquecem das coisas, mas os que não são lembrados. A memória tem dessas coisas, lembra quem quer lembrar sem razões para isso evocar. 
Chamar-lhe-ia um acto de egoísmo se não fosse saber que é apenas um acto do cérebro que, de forma voluntária ou involuntária resolveu simplesmente, esquecer! 
Esquece o passado, que apaga o presente e que nos rouba os planos para o futuro. E no entanto cruzamo-nos uns com os outros, até sabemos cada nome sem conhecer o conteúdo desse nome. 
Talvez algo nos leve a pensar que  são apenas letras roubadas ao alfabeto, mas  não, são muito mais que isso, são um  caminho que fizemos juntos, e depois ainda dizem que não tenho sentido de orientação, os outros têm esse gps interior que os leva a todo o lado, a grande questão é querer, é lembrar do que nos foi comum. 
Talvez seja culpa de quem foi esquecido por nunca se fazer lembrado, por já não oferecer risos, por não partilhar emoções, eramos tão somente a voz calada, obediente e boa ouvinte e o quase silêncio só de vez em quando interrompido – Olhe, tem um comprimido para a gripe? E eu tinha ou ia rapidamente comprá-lo.
Alguma vez me perguntou se eu estava bem? Não me recordo, não por me ter esquecido, mas apenas por ter sido mais uma vez esquecida. 
Tanto esquecimento assim junto, faz-me duvidar de tudo e já me pergunto se o que aconteceu terá mesmo acontecido. 
Será que fui eu que lhe pedi um comprimido para a gripe, será que foi ele quem foi rapidamente à farmácia comprá-lo? 
Não claro que não, aconteceu tal como me lembro. Tal como me ficou na memória, com amizade, algo que se vai diluindo, porque também o cérebro, esse guardião das lembranças boas e más, precisa de espaço para guardar novas e apagar as antigas, as sem valor.
Cresce-me alguma tristeza, que só não me entristece mais, porque sei que algures pelo caminho, também essa tristeza vou esquecer.



segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Post.it: Renovação dos votos

As flores, os caminhos as noites, os dias, os olhares, as mãos entrelaçadas, as chuva copiosa a descer a calçada. A tua pele despida, a tua voz murmurando o meu nome.
Resta-nos o silêncio só interrompido por banalidades. E de repente o romance passa a ser preenchido por esse pequenos nadas, que nos alimenta a saudade de nós, como eramos dantes. 
Aprendemos que deve ser assim em nome da paz e da amizade que começa a substituir o amor. Começo a questionar-me, quando, como, sem encontrar respostas.
Onde nos perdemos? Talvez no reencontro desse novo nós. Curiosamente, não me magoa, esta nova situação. Acabo por a sentir tão doce, tão calma, é como se caminhasse no escuro sem receio, porque já conheço o caminho, cada sinuosidade, cada tonalidade. Os amigos dizem que nos acomodámos, mas dizem-nos como se isso fosse negativo. 
Acento vagarosamente com a cabeça, sim acomodámo-nos, um ao outro como a mão à luva, cabendo cordialmente uma na outra.
Sim é verdade, o mundo perdeu as nuances vibrantes de cor, de calor, agora,  vemos as coisas mais em tom pastel. O meu amigo Ferreira, homem das tiradas filosóficas repete em tom de sabedoria, “dantes perdíamos a calma, agora ganhamos a alma”.
Adormeço na mesma cama, há quantos anos? 50 anos, dizes resmungando, zangada por eu o ter esquecido. Não lembro as datas mas lembro os momentos, quando te vi pela primeira vez, de vestido amarelo dançando ao vento, lembro-me que sorriste e, a partir desse momento já não te ouvi, perdido que estava na tua visão. 
Depois, fizemos um caminho juntos, nasceram os filhos, cresceram, saíram do ninho. Fomos ficando cada vez mais sós, eu sem ti, tu sem mim. 
No entanto, ainda me surpreendo a oferecer-te a minha mão quando caminhamos na rua, já não é amor, penso. Ou melhor é uma nova forma de amar, um carinho, uma compreensão mútua. Saber o que sentes sem que o precises de dizer. 
E isso, conforta-me, saber que estás ali, mais do comigo, para mim e eu para ti. Sei que ainda temos muito para partilhar, para dar, para à nossa “velha” maneira, amar. Aceito-te por mais 50 anos, digo a sorrir, quando renovamos na igreja perante familiares e amigos, os nossos votos de casamento.


segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Post.it: Ver novas todas as coisas

Para ver melhor é preciso usar os 5 sentidos. É preciso ver com o coração, sentir, cheirar, tocar. E realidade do que vemos é uma representação do que somos. 
Quantas vezes olhámos para algo de uma maneira, mas que num outro momento nos pareceu diferente, nos transmitiu sensações distintas. 
Quantas vezes lemos um livro que nos marcou, mas que quando o voltamos ler, anos depois, já nos deixa uma marca diferente. 
Talvez, porque não foi o livro que mudou, mas nós, que crescemos, que amadurecemos, que nos deixamos moldar pelas experiências da vida. Quando nos pedem que vejamos coisas novas, na que para nós já não trazem novidade. 
Pedem-nos que não tenhamos o mesmo olhar, que não sejamos a mesma pessoa de antes, mas a pessoa de agora. Uma pessoa nova, capaz de ter um novo olhar e dessa forma permitir que haja uma nova descoberta. Uma descoberta que signifique, encontro, surpresa, renovamento. 
“Ver novas todas as coisas em Cristo” (Papa Francisco), pede-nos uma nova abertura, um novo sentir, uma nova visão liberta de quem fomos. 
Seja-mos novos nessa conversão, deixemo-nos tocar, renovar. Olhar o outro com todas as categorias do novo eu. 
O outro já lá estava ontem, nos dias anteriores, mas o eu só agora o viu, só agora foi tocado por ele e o recebemos em nós. 
O novo será sempre a minha conversão no outro que me torna um novo eu.



sexta-feira, 29 de outubro de 2021

O meu último poema


Lágrima que não caísse,
Flor que não murchasse,
Amor que não se visse,
Que só o coração sentisse.
 
De poucas palavras,
Mas que dissesse tanto,
Que ganhasse asas,
E pousasse no teu recanto.
 
Falasse com alegria,
Da mais triste tristeza.
Cheio de luz do dia,
Na escuridão da natureza.
 
E depois de tudo fosse vento,
Memória que parte mas fica,
Uma brisa de sentimento,
Que em silêncio nos grita.
 
Paz, amor, harmonia,
Um caminho de tranquilidade.
A sensação de magia,
Num segundo de felicidade.



segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Post.it: Os livros são casas

Abrimos a página e entramos pela porta. Conhecemos pessoas, as suas histórias, os seus dramas, os seus romances, alegrias, tristezas, que partilhadas encontram ressonância nas minhas. 
Tornam-se amigos, vivemos aventuras, corremos por longos prados, derrubamos fronteiras. 
Colhemos primaveras, desafiamos um mar de ondas, deixamo-nos cair cansados sobre a areia quente. 
Abraçamos, sentimo-nos abraçados. Vemos a chuva a deslizar nos vidros da janela, aconchegamo-nos no sofá, abrimos um livro que nos leva para mundos secretos. Reencontramos amigos, fazemos novos, guardamos os antigos, num lugar onde cabem todos. 
Passam-se dias, meses, anos, entrecruzamos vidas, por vezes, mortes. 
Nem todas as histórias têm um happy end
Depois, antes mesmo da despedida, há uma saudade que nos envolve, é quase doloroso virar a última página, deixar esse amigo pelo caminho. 
Cresce-nos uma quase solidão. 
Quase uma lágrima, uma tristeza que transformamos em alegria. 
Por fim, fechamos o livro, fechamo-lo devagar saboreando um sentimento de gratidão pelo enriquecimento que nos deixa no peito. 
Amanhã vou escolher outro livro. Há tantas casas que me convidam para entrar.



segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Post-it: Travessa da Espera

Na Travessa da espera, espera-se:
Que o dia amanheça e traga consigo a realização de planos, de sonhos, de momentos bons. 
Espera-se pelos transportes públicos apinhados de gente que vai para o trabalho, são quase sempre os mesmos e já se cumprimentam, já guardam o lugar para que o companheiro de viagem descanse um pouco as pernas já cansadas, não desse dia, mas de todos os anteriores. 
Espera-se pelo pequeno-almoço fumegante que lhe aqueça o corpo e com um pouco de sorte, lhe anime a alma. 
Espera-se por um trabalho que nos incentive, que nos alegre, que nos faça sentir que fazemos a diferença, que contribuímos para um mundo melhor. 
Espera-se que a escola dos filhos lhes ensine mais do que matemática e português, que os ensine a crescer com vontade de serem bons cidadãos. Que lhes dê ferramentas para que a engrenagem de crescer lhes seja favorável  no seu rumo ao futuro.
Espera-se a tarde como um sino da igreja que marca o final de um dia de labuta contra o relógio que corre e as tarefas que vão num crescendo marcando o ritmo da corrida. Há dia em que saímos vencedores, há dias em que saímos derrotados e deixamos  algumas delas para o dia seguinte. 
Espera-se a noite, depois de beijar os filhos, de dobrar a roupa, de arrumar a loiça, de desligar o televisor, de programar o despertador, de aconchegar o cão, de pendurar a roupa para vestir amanhã, de deixar os chinelos no chão e o corpo abandonado na cama. 
Espera-se o descanso, o sono, o sonho. Espera-se a esperança de um melhor amanhecer em cada novo dia. 
Na Travessa da espera, tal como noutras travessas, becos, ruas, avenidas, espera-se constantemente pela felicidade.
 

 

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Post.it: Os nossos heróis

Para os que querem ser heróis, para os que querem ajudar todos sem olhar meios ou distância. Para os que querem ultrapassar fronteiras. 
Para os que querem rasgar horizontes. Dar de si chegar ao outro. 
Para os que quando passam não viram os rostos. 
Para os que têm sempre um sim para dar. Para os que têm sempre um sorriso para partilhar. 
Para os que fazem do seu tempo um tempo de estar com mais alguém. 
Para os que fazem da vida um caminho para ser feito a dois ou muitos mais. 
Para os que encontram a felicidade no momento em ajudam quem de ajuda precisa. 
Para os que não acham que é uma obrigação mas sim um acto do coração. 
Para os que são amigos dos seus amigos. 
Para os que fazem todos os dias novos amigos. 
Para aqueles que sabem que fazer o bem não tem dia nem hora marcada, não escolhe agir, age-se. 
Não se pensa dar, dá-se. E não é preciso partir para encontrar, basta olhar para ver, pode estar ao seu lado, mesmo sem mão estendida, rosto sujo, roupas velhas. 
Pode ser aquela pessoa que perdeu o sorriso, que se fechou em casa, que calou as palavras, que escondeu as lágrimas. 
Para os que vêm com o coração e onde cabe sempre mais um. 
Sim, esses como tu, como muitos de vós pessoas anónimas, que continuam a ser poucas e ainda pequenas comparadas com a dimensão do que nos rodeia.
Aqueles que tentam ser heróis de silenciosas causas, que tentam vencer as contrariedades de cada dia e dar um pouco de sol à escuridão de cada olhar, o nosso OBRIGADO.


segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Post.it: O céu e a terra

A terra, o céu, um casamento de longa data, uma ligação feliz. Claro que há dias tranquilos e outros de maior diversidade. Há dias em que as nuvens regam a terra e esta, retribui com flores, com frutos, com searas douradas. 
Há dias em que o vento sopra gentil para oferecer brisas de frescura, mas também tem outros em que quase numa fúria de mau humor parece que tudo desarruma. Mas a terra gentil e serena vai deixando tudo voar a contento desse feroz sopro, ela confia que quando o vento amenizar, a aparente turbilhão revelará uma ordem que só a terra entende.
Há dias em que o  sol sorri resplandecente convidando a sair da penumbra até os mais tímidos, e os bezerros não se fazem rogados, correm pelos prados, onde são acompanhados pelos cães de guarda e pelo olhar atento do pastor. 
Na cidade, as pessoas correm para os transportes, mas não deixam de espreitar pelas janelas do autocarro, quem resiste a um sorriso tão belo do astro rei? Bem que gostariam de aproveitar em pleno a oferta solar e fazer um passeio pelos jardins ou ir mais longe e relaxar o olhar numa amena praia, mas o dever chama, e um suspiro adia para o fim de semana tais planos. 
Por fim, quando o dia adormece depois das mais diversas peripécias, o céu escurece e torna-se um manto de estrelas que cobre toda a terra, como a quisesse aconchegar. 
Amanhã, bom, amanhã veremos que novas e maravilhosas surpresas chegam do céu até à terra e com que longo abraço ela lhe retribui… 
As relações felizes são feitas de partilha, de generosidade, de espaço e de união, de problemas e de soluções, de respeito e de liberdade, de um caminho que se faz sempre, com o coração entrelaçado.


domingo, 26 de setembro de 2021

Post.it: Emigrantes

.”

"Aqui, emqualquer lado, onde esteja, onde vá, sinto-me órfã de continente. Nasci em áfrica, mas perdi África aos 3 anos"

Estas são as memórias de Agoa Baldé, recolho-as, uma a uma, como se apanhasse as pétalas de uma flor que ela vai desfolhando em lembranças que se vão perdendo no escoar do tempo.
“Resta-me a herança dos traços, da cor da pele, o cabelo encarapinhado e sobretudo o sentimento de pertença misturado com um vácuo que magoa, a saudade, como água numa caverna que vai deixando marcas cada vez mais  profundas. 
Ficaram os cheiros que já identifico, uma mistura de sal, suor e lágrimas. Os sons distantes mas que intuo perto quando a noite me vêm embalar, as vozes no trabalho, o mugir do gado a pastar, as crianças nos seus jogos, o vento que à noite despenteia o capim seco e assobia melodias que só África conhece. 
Há vozes que entoam mornas, tambores que ressoam como que imitando os passos dos animais na savana. O céu, tão imenso, o horizonte tão vermelho e quente, onde o  olhar corre, corre sem se cansar e sem conhecer limites; as chuvas repentinas, rios que descem e rapidamente se transformam em mares barrentos, a tristeza dos incautos que se molham sem o desejar e as crianças que festejam essa praia repentinamente nascida, com mergulhos do cimo das rochas. 
A nudez dos costumes, a oferta generosa e ingénua de cada sorriso, os bebés pendurados no dorso curvado, as vestes parcas mas marcadas por tons coloridos como se vivessem sempre em alegre festa. E lá seguem as mulheres, com os cântaros na cintura e o molhe de lenha na cabeça, bamboleando a anca, esquecendo a lonjura e a dureza do caminho. 
Lembro-me de quando pisava essas terras, quando respirava o mesmo ar quente e seco. Essa África que por vezes,  reencontro no rosto dos meus irmãos de nação, sorriu-lhes, sorriem-me, sabemos, como sabemos o que nos vai no coração, esta orfandade, esta saudade… 
Mas à noite quando fecho os olhos, volto a ser aquela menina que corria pelos trilhos lapidados no rigor das montanhas, que na rebeldia dos seus 3 anos fugia à vigilância do irmão de 6 anos, outra criança a quem incumbiam a responsabilidade de se tornar adulto roubando-lhe a infância. 
Nasci em África, há tanto, tanto tempo, que já mal me lembro, vai-me ficando cada vez mais distante, embora sempre perto do coração.

Se você pode andar, você pode dançar. Se você pode falar, você pode cantar. (provérbio africano)

26 de Setembro  Dia do Migrante

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Post.it: Amizade em tempo de pandemia

Amizade, mais que uma palavra, mais que um conceito, mais que um sentimento, amizade é uma forma de estar com os outros. 
Neste momento tão particular, tão solitário, tão desolador, tão isolador que tem sido o tempo de pandemia, a amizade ganha contornos mais marcantes, adquire raízes mais profundas e une o que tudo o resto separa. A amizade é um privilégio, é uma necessidade sociológica. Mas nem sempre foi assim... 
Já os gregos falavam de amizade definindo-a como um sentimento de amor, aquele que sentimos pelos verdadeiros amigos, um amor que não prende, que não limita, que confere autonomia e que nasce da livre escolha. 
No entanto a amizade uma característica da era moderna, nasce numa sociedade atual, que se quer livre. 
Aristóteles já falava dessa liberdade, dessa relação sem compromisso. Mas durante muito tempo, a amizade, era reservada às classes superiores, enquanto as classes menos favorecidas, sem tempo para momentos de lazer, encontravam no seio familiar algo semelhante a essa ligação. 
Até meados do século XX a maior parte da população não tinha amigos. Talvez por isso tenha sido surpreendente o resultado de um estudo alemão, realizado em 2019 que  revelou que 85% dos inquiridos respondeu que não havia nada de mais importante que um bom amigo, em segundo lugar com 81% vinha  “cuidar da família”, a amizade era assim uma prioridade. Em 2020 essa prioridade tornou-se uma necessidade. 
Em plena crise pandémica, em período de confinamento, os amigos foram a nossa janela aberta, o nosso arco-íris de esperança, porque sabíamos que do outro lado alguém estava lá para nós tal como nós para os outros. 
Nas grandes cidades ou nas aldeias mais remotas, tiram-se os smartphones das caixas onde tinham ficado guardados depois de oferecidos por filhos ou netos e ligando-os ouviam-se vozes amigas que entravam em cada casa como um sol que rompe as nuvens cinzentas do inverno. Estávamos em março, mas cada palavra, transportava o calor quente de agosto.