O vírus existe, anda por aí, não
sabemos onde. Podemos cruzarmo-nos com ele, ele pode fazer de nós seu
hospedeiro sem bater à porta, sem pedir permissão para entrar. Chegou não se
sabe quando, veio não se sabe de onde, mas vai visitando cada um, instalando-se
sem fazer cerimónia, tomando por seu o que é nosso: a vida. É notícia de
aberturas dos telejornais, cada dias mais pessoas são por ele infetadas, mais
vidas dizimadas. Assusta, mas ao mesmo tempo, para muitos parece algo distante.
Mesmo quando alguém conhecido nos telefona
e diz-nos que está infetado. Sentimos a sua aproximação, no nosso
bairro, na nossa rua, no nosso prédio, à nossa porta. No entanto continuamos
todos os dias a levantamo-nos para ir trabalhar, para deixar as crianças na
escola e à noite regressamos para casa e abraçamos a família com o olhar. Sexta-feira 18 de Dezembro de
2020, o João levou a sogra ao hospital, queixava-se de fortes dores de cabeça,
fez exames e estava tudo normal, só a dor lancinante continuava. Fez teste ao
Covida-19 e deram-lhes uns analgésicos. Nesse fim-de-semana ficou na casa da
filha e do genro com o marido e a neta.
No sábado 19, a dor de cabeça mantinha-se persistente ao
qual se juntou um cansaço que a fazia permanecer na cama.
No domingo 20, um telefonema,
veio desperta-la, de rosto lívido entregou o telefone à filha, já não conseguiu
ouvir mar mais nada, correu para o quarto, cerrou a porta. Tarde demais pensou
em lágrimas, de certo já tinha espalhado o vírus por toda a família. Aquele
domingo começara animado, João e Paula faziam planos para a festa Natalícia,
nesse dia iam comprar as prendas de Natal. Por minutos ficaram sem ação, logo
de seguida o João começou a organizar a logística. – A tua mãe fica no quarto
da nossa filha porque tem wc privativo, na segunda-feira vamos todos fazer
testes de despistagem e até lá vamos agir com normalidade. Mas que normalidade? Tudo lhes parecia
estranho, confuso, assustador. O vírus já não estava distante, entrara-lhes em
casa, infetara-lhes a vida. Tanta coisa para fazer, avisar todas as pessoas
com quem contactaram nos dias anteriores, desmarcar compromissos. Não estavam à
espera, não estavam preparados, mas alguém está?
Segunda-feira 21, sentiam-se
angustiados, o tempo arrastava-se lento, a noite fora longa e o amanhecer
sufocante. A Saúde 24 marcou-lhes teste para as 12 horas, como ira ser longa a
espera, mas esperaram. O pequeno-almoço não sabia a nada mas tinham de se
alimentar. Carlota nos seus 4 anos incompletos, mantinha-se alheia a tudo o que
se passava, queria brincar a permanência dos pais em casa para ela era uma
festa, ainda perguntou se não ia para a escolinha, responderam-lhe vagamente
que não.
Quarta-feira 23, a vida era
gerida pelo calendário e pelo relógio, uma espera que desespera. Pelo menos não
temos sintomas dizia o João tentando animar a família enquanto pegava na Carlota
ao colo. O telefone tocou, o coração saltou-lhes no peito, - É a minha mãe, não
ainda não sabemos nada… O telefone
voltou a tocar, novo sobressalto. – É o meu irmão, não, ainda não nos
telefonaram. Ouviu-se novamente o telefone, nº desconhecido – Sim diga… do lado
de lá da linha a enfermeira foi dizendo o nome de todos, toda a família estava
infetada!
E agora? Perguntou? Agora devem ficar em casa, durante um período de
2 semanas, telefonem se tiverem sintomas mais evidentes e se necessitarem de auxílio.
Até lá todo o cuidado, muita higienização e muita calma. Mas e como vamos sobreviver? Os
pais do João estão em casa doentes, os vizinhos mal os conhecemos, o irmão está
longe e a irmã da Paula ainda mais longe, em França. Temos comida mas não deve
chegar até ao final da quarentena.
Paula, olhava para a filha e chorava, este ano não há Natal, deixei para os
últimos dias as compras, nem comprei um
brinquedo para a Carlota, que lhe vamos dizer? Não te preocupes, havemos de
conseguir remediar a situação, faremos o nosso Natal mais tarde, depois de
testarmos negativo. A Carlota nem vai perceber.
Quinta-feira 24, 22h, tocaram a
campainha, a Paula foi atender – Sim, quem é? – O Pai Natal disse uma voz
masculina e uma voz de criança acrescentou e o Menino Jesus! – Como? O quê? Quem é? - Somos nós os teus amigos, vimos trazer-te o
Natal. Abre a porta do prédio que deixamos tudo à tua porta para depois
recolheres. João e Paula abriram a porta
timidamente e a seus pés viram um imenso cabaz, bolo rei, filhoses, fruta, 3
pratos com bacalhau, peru e cabrito. Carlota saltava eufórica e cantarolava, -
O Pai Natal chegou e trouxe-me uma prenda. Porque, sim, nem as prendas
faltavam. Uma boneca e livros para pintar para a Carlota, um jogo de tabuleiro
para o João, um cd para a Paula, uma écharpe para a mãe da Paula e um cachecol
para o pai.
O Pai Natal chegou continuava a
cantarolar a Carlota. – E o Menino Jesus também, acrescentaram em uníssono
Paula e João, porque só ambos unidos
podiam ter encontrado amigos tão generosos como os nossos. Mas a festa estava
longe do fim, o silêncio foi interrompido por melodias de Natal que vinham da rua, correram para a janela do seu
1º andar e por detrás dos vidros
embaciados viam e ouviam o seu grupo de amigos, vozes de adultos e de crianças que
se entrelaçavam e delas ouviam-se canções que simbolizavam a esperança e a
ternura que queriam oferecer.
E porque o Natal continua no
coração das pessoas de boa vontade e de amor ao próximo, o grupo de amigos
organizou-se para que nada faltasse a esta família nos próximos dias. E o
seu/nosso desejo é que este gesto seja repetido em todo o pais, em todo o
mundo, onde existam pessoas a necessitar de ajuda, de amizade e de amor.