Há
muito, muito tempo trabalhei num infantário, cada criança era linda à sua
maneira, na sua diferença complementar de ser. Todos eram felizes, porque as
crianças até nas maiores desgraças encontram formas de ser felizes. Aprendi
isto com elas, a ter este olhar que vê para além da escuridão e encontra nelas
as estrelas, mesmo até as que não brilham.
As
crianças são alegres, são competitivas, competem desde cedo por tudo e por
nada, por atenção, por carinho, por um colo, por estarem mais perto. E estão
todas dentro do nosso coração. Mesmo as que fazem birra, porque depois da
birra, sorriem, retomam a brincadeira como se nada tivesse acontecido. Mais uma
das características que lhes invejo, esquecerem depressa a mágoa e seguirem em
frente sem mitigarem os porquês de tudo o que lhe acontece.
As
crianças amam sem limites, sem receios, sem pudores, são espontâneas, dão-se
por inteiro. Manifestam esse amor a cada instante, não precisam de ocasiões
especiais.
Na
minha sala tinha diversas crianças, não me recordo de quantas, recordo-me
daquelas que mais me tocaram pelo melhor e pelo pior, porque estar com crianças
horas, dias, meses e anos seguidos tem de tudo um pouco, momentos em que nos
apetece abraça-las, momentos em que nos apetece fugir e não voltar. Mas
voltamos, porque já não conseguimos viver sem aqueles rostos que nos olham com
um olhar límpido, que gritam, partem tudo, rasgam os cadernos, atiram os
brinquedos ao ar mas que também nos abraçam, e com vozinha doce dizem “gosto de
ti”, “gosto muito” dizia o outro querendo mostrar que gostava mais, mas logo
outra vozinha se impunha nesta competitividade de afectos “eu gosto muitão”.
Sim ele venceu, não por gostar mais, mas porque me fez rir, porque quebrou as
minhas barreiras de adulto e me fez querer ser criança a seu lado e como ele
inventar palavras maiores que as dos outros meninos, gostar mais, revelar mais,
dar-me mais.
Passaram-se
anos, muitos anos, já não me recordo do seu nome, já nem dos seus traços, mas
lembro-me da palavra que disse, nessa e em muitas outras ocasiões. Espero que
ele, agora crescido, continue a gostar “muitão”, tal como eu gostei “muitão” do
o ter conhecido.
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