sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Post.it: Um único Setembro na nossa vida

Lembro o momento, o exacto momento, quando o dia na tarde adormecia. Quando o sol sorria e as nuvens repousavam no azul do céu. As flores exalavam no ar cheiro  de pétalas beijadas. O mar parava o seu movimento ondulante, suspenso do mistério, para escutar os corações.
Que teriam eles para dizer? Que palavras sairiam dos lábios trémulos, um adeus, um começo ou apenas um reencontro?
Lembro o momento, o exacto momento em que as sombras se uniram e formaram a perfeita imagem da vida. De como ela deve ser, feita de harmonia e completude. Quando os caminhos se encontram. Quando os passos descobrem um sentido para caminhar lado a lado, num ritmo lento de quem quer apreciar, partilhar, viver em comum esse tempo. De quem já não tem pressa de procurar porque já encontrou.
Lembro o momento, o exacto momento em que percebi nessa união, que a felicidade existe. Porque ela transparecia naquele idílico quadro de perfeição.
Foi nesse instante que a realidade me chamou, despertei. Confusa entre o sonho e a verdade. Uma alegre tristeza foi invadindo-me os sentidos. A beleza do ideal, que não quero supor, fantasia, mas antes a antevisão do caminho que se abre à minha frente. E que um dia, quem sabe um dia, encontrarei esse Setembro, único na nossa existência…

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Post.it: O homem do mar

Quando está no mar, deseja regressar a terra. Quando está em terra só sonha com o mar. Tem o coração dividido e ela tem ciúmes, desse mar feito sereia que o furta demasiadas vezes  aos lençóis ainda quentes, onde dorme o carinho. Que fazer? pergunta ela, enquanto ele encolhe os ombros vencido por dois amores que o seu coração alberga em igual dimensão. Ela chora todas as partidas e todos os regressos com lágrimas diferentes, tem medo de o perder numa qualquer onda mais traiçoeira. Ele sorri da sua mágoa, enquanto esconde a sua por detrás dum orgulho marinheiro. Também ele tem medo de um dia não regressar, mas sabe que a sua vida findará sempre nos braços de um dos seus amores, conforma-se e é feliz. Ela olha-o como se fosse um farol, a sua luz, a sua torre, a sua coragem, a sua vida. Sabe que se um dia o mar lho roubar ficará para sempre à sua espera, porque o coração nunca desiste de ter esperança, quando está ancorado num outro que lhe serve de cais.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Post.it: O namoro do sol e da lua

Para sempre ficarás como a doce lembrança duma história linda que não vivi. Como o sonho mais terno que por momentos sonhei. Por instantes em que acreditei que eras a nuvem onde podia pousar as minhas penas. Fui escrevendo cada capítulo dessa história com tintas que roubava do arco-íris. Foi assim que a colori, foi assim que a entardeci na minha alma. Colhi estrelas e com elas compus o mais belo ramo de cristalina luz. Contei às ondas a nossa história e elas riram-se de mim, não me importei porque sentia que havia algo de verdadeiro em ti, que havia algo de inteiro em mim e que um dia, sem delineamentos temporais, haveria de realizar-se nesta dimensão ou quem sabe noutra, se ela existir. E então eu iluminaria o sol, enquanto o  vento ensaiaria com os ramos das árvores a  mais doce melodia que jamais  saíra do peito das aves, inspiradas por nós. Quando o nós acontecer e por fim caminharmos lado a lado desde a madrugada ao anoitecer. Eu derretida de amor, tu inebriado com o meu luar.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Post.it: A escola

Estas paredes guardam ecos da memória, risos, histórias. Vidas em crescimento, caminhos ainda mal delineados. Esperanças vivas, espíritos ávidos por liberdade. A liberdade de crescer, de conquistar cada pedacinho de sol que sabem pertencer-lhes. Rostos que deixaram marcas, traços imperceptíveis nessas paredes, que a tinta tenta esquecer mas a argamassa teima em lembrar. Perguntam-lhe porquê essa teimosa recordação, saudades? Talvez, não o confessa, faz um imponente silêncio, ou talvez sejamos nós que não consigamos ouvir as suas confissões, apenas vemos a sua imponência, impenetrável na sua alvura. No entanto esconde em cada recanto um nostálgico sentir, por todos  aqueles que a tornaram vibrante de vida, de sons, de alunos que revelaram os seus segredos, que a tornaram quase num espaço maternal, a sua segunda casa, em muitos casos a única onde encontram apoio e carinho, nessa “casa” onde encontram segurança, estabilidade porque ela está cheia de ensinamentos, repleta de rumos que ali se começam a desenhar.
Depois o silêncio de cada final de ano, de cada partida, poderia dizer que eram momentos de uma  paz reencontrada, desejada, mas não, já se habitou ao frenesim das correrias, das brincadeiras, das confissões, dos sucessos e fracassos.
Agora esse sossego, essa monotonia,  um breve momento que lhe parece uma eternidade, até que o portão volte a abrir-se e a deixar entrar uma multidão de sorrisos. Novas histórias para ficarem registadas no âmago da sua existência. Então o sol volta a iluminar cada recanto, afastando a última nostalgia, porque é preciso recomeçar a escrever um caderno em branco, a desenhar em cada vida a estrutura dum caminho que o leve para um melhor futuro.
 Ano após ano, a escola é ainda revisitada por gerações  de alunos que por ali passaram,  e quando cai a noite, quando se fecham os portões,  escutam-se vozes felizes no ressoar das paredes.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Post.it: O canto dos melros

Júlio Resende (1917-2011)
“Não teve tempo para pintar o canto dos melros”. Que ecoariam numa sala de estar, oferecendo-lhe uma luminosidade primaveril,  enquanto lá fora a chuva desenha rios na vidraça. Enquanto a neve cobre de branco a copa das árvores. Os melros, cantariam, alheios à mudança das estações, celebrando a vida, fosse qual fosse a sua dimensão temporal.
Não teve tempo para os pintar, mas sonhou-os, sentiu-os, ouviu-os a dançar nos seus sentidos. Enquanto a mão parada esperava o alento da inspiração, para deixar na tela branca, a harmonia das cores, dos traços entrelaçados que ganham forma,  sentido e alma.
Nós que ainda temos tempo, devemos à vida a homenagem de a olhar, de a sentir. De desenhar em nós a sua esplendorosa beleza. Se nos faltar o talento, pintamos com o pensamento. Se nos trair a mão na delicadeza do traço, fixamos esse encanto no coração. Mas não nos recusemos a pintar só por falta de aptidão, porque a natureza oferece-nos a cada momento, delicados quadros, cuja perfeição nos impele a que fiquemos apenas a admirá-los.
Nós ainda temos tempo de pintar os melros, os desejos, os sonhos…

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Post.it: O mar à tua espera

Esse mar, esse chamado, esse embalo, de onde vêm, para onde vão em ondas que continuamente adornam a costa? Dizem que são lágrimas continuamente derramadas. Tantas, silenciadas, nesse confessionário de mágoas, mas as lágrimas também podem ser de alegria e as confissões de felicidade. Só as conhece esse mar profundo, tão profundo, que nele já se afogaram todas as dores do mundo. Desse mundo tão igual nas suas diferenças. Rico, excêntrico. Paupérrimo, subnutrido. Onde chovem rios, onde crescem desertos.
E nós, desigualmente humanos. Em busca de nós nos outros. Em busca dos outros em nós.
Conhece-nos esse mar que esconde os nossos medos, que guarda tão densos segredos.
Não é fácil, murmura cada onda derramada no areal. Mas venceremos, repete em uníssono a melodia que nos acalenta e atenua o sentir.
Quando as ouvimos julgamos que cantam, uma alegria que se estende sem limites de horizonte. E no entanto, choram. Choram a tua ausência, na espera do próximo Verão, para de novo te abraçar… 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Post.it: Planos de férias

Andamos o ano inteiro a pensar nas férias, a desejá-las, a planeá-las. Nelas vamos fazer tudo o que adiámos ao longo de muitos meses, porque estava frio, porque chovia, porque estávamos cansadas, não tínhamos tempo, porque não tínhamos companhia ou simplesmente porque não nos apetecia. Durante as férias, não chove, não está frio, temos tempo, temos companhia. Bom, num ideal de férias seria assim, mas nem sempre as coisas acontecem como planeado. Pode chover, fazer frio, ou correr tudo ao contrário. No final das férias quando vamos esvaziar as malas verificamos que não lemos os livros que levámos, que não fizemos metade do que nos tínhamos proposto. Olhamos para trás e na pior das hipóteses sorrimos por recordarmos que fizemos coisas muito melhores. A pele brilha ainda com raios de sol, os cabelos em desalinho lembram o quanto dançaram ao vento. A cintilação no olhar trás rasto de luar que inundavam as marés. O espírito resplandece de sonhos, de esperança, de tranquilidade. A alma rodopia na harmonia do sentir, e como uma janela abre-se aos sons, às cores, aos odores. Os pulmões inspiram a natureza. Enquanto um quase silêncio desconhecido aos sentidos os invade, numa invasão consentida, desejada e apreciada em cada momento.
 O despertador emudecido deixa-nos sentir uma sensação de liberdade quase infantil, “vou dormir até ao meio dia”, diz o cérebro enquanto o corpo se espreguiça e se ergue de um impulso para deixar entrar o sol que bate nas portadas.
Voltando às arrumações de final de férias, encolho os ombros num gesto de aceitação, e convenço-me que o  que não foi realizado nestas, pode ficar para as próximas, além disso, temos o ano inteiro para ler os livros da estante, quem sabe num dia de chuva, à lareira, ou simplesmente, quando nos apetecer...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Post.it: Férias com momentos picantes

Pediram-me histórias mais picantes sobre as férias. Fazendo-lhes a vontade, concordo que tenho dois momentos bastante picantes para recordar. Estas férias estavam a correr bem, demasiado bem, dizia-me o pensamento em alerta, habituada que estou que há sempre algo de singular que me deixa um souvenir, estava vigilante. Quem me conhece sabe que sou a distracção em pessoa. Como diz uma amiga minha “Tu até chocas com o Mosteiro dos Jerónimos sem o veres”. Bom, não é bem assim, lá vou murmurando. Mas desta vez, tenho a acrescentar que não tive culpa do sucedido.
Algo que se conta em meia dúzia de palavras: Numa pequena incursão ao país vizinho, as históricas quezílias mantiveram-se, o sistema de segurança esteve presente e um insecto mais nacionalista resolveu espantar-me do local com uma suprema espetadela. Este foi o primeiro momento picante das minhas férias. Momento que prometia não ficar para a história, mas quer por ser espanhol o referido bichinho, quer por eu estar hiper sensível às alergias, a verdade é que as repercussões não se demoraram a fazer-se sentir convidando a uma visita ao Centro de Saúde algarvio. Para além da longa espera que já não é novidade, senti-me estrangeira no meu próprio país, para marcar a consulta de urgência pediram-me todos os cartões possíveis e imaginários, como me faltavam alguns que aliás  já ninguém usa, até me ofereci para lhes mostrar o cartão de eleitor, o de sócia de Sporting, o cartão das farmácias, da perfumaria, da sport zone, do mundo dos bonsais, do clube de vídeo, o do continente, etc, etc., é só escolherem porque plástico não falta.
A amiga que pacientemente me acompanhou, nesse momento deve ter desejado que me dessem rapidamente uma injecção para ver se aqui a criatura acalmava. Desejo realizado, levei uma valente pica intramuscular, mas o efeito não foi o pretendido, senti antes um recarregar de baterias. Quando me perguntou “Vamos para casa porque deves estar com sono?” respondi com surpresa “Sono eu? E se fossemos às compras?”
E este foi o segundo momento picante das minhas férias, satisfeita a curiosidade?

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Post.it: Desportos de praia

A natação já um clássico que sempre apreciei, mas o futebol foi a minha primeira paixão, praticado na água, entre ondas e amigos. Quando foi proibido, voltei-me para o voleibol, mas revelei fraca aptidão. Mais ambiciosa quis conquistar o céu e lancei-lhe coloridos papagaios de papel. A paixão foi correspondida e durante alguns anos não pousei. Mas o espírito irrequieto que me caracteriza fez-me regressar e partilhar novas actividades, cedi à moda das raquetes de praia. Não sendo exímia executora, não fiz má figura. Porque aliás tudo aquilo a que dedico o meu tempo e devoção tem que sair bem ou nem tento. Por isso nunca investi em desportos radicais que poderiam ter desfechos fatais. Mas este ano nas férias, foi diferente. Terá sido por causa da crise, essa a quem todos acusam de tudo o que lhes sucede, ou por nostalgia de tempos remotos, senti vontade de voltar às tradições, ao encontro ou reencontro do prazer nas coisas simples. Alguém se recorda ainda da brincadeira de lançar pequenas pedrinhas para que elas saltitassem na superfície da água?
Perante a tranquilidade desse mar que se perdia na linha do horizonte, invadiu-me o saudosismo, do tempo em que bastava uma pedrinha, a serenidade das águas e um jeito de mão para que ela desenhasse na superfície que espelhava o céu, pequenos círculos, tantos quantos o impulso de voo lhe permitisse. E a pedrinha, qual surfista, deslizava.
Aprendi o gesto, repeti-o, refinei-o, e a pedrinha obedecia feliz. Pinchava, uma, duas, fui até aos cinco ressaltos, atravessando a Ria Formosa. Este tornou-se o meu passatempo, numa longa caminhada à beira mar, ia recolhendo pedrinhas, não qualquer uma, já identificava as campeãs pela forma e alisamento. No final do areal, desenhava-se na paisagem uma lagoa cuja suavidade  convidava ao mergulho e a infindáveis braçadas, lentas, quase numa envolvência de dança e harmonia de existências. Depois seguia-se a diversão, a competição, a ambição de chegar mais longe. Por fim o descanso e um leve banho de sol, enquanto ele ainda sorria lá no alto do horizonte.
É bom reencontrar o prazer de ser feliz na simplicidade da vida.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Post.it: Day after férias

Desculpem-me a falta de ética, de estética, de fonética, de poética, mas é assim que me sinto. Não, não é o síndrome pós-férias, nem sequer depressão, é antes uma espécie de controvérsia interna, quando nos sentimos arrancados a um tempo e atirados para outro completamente oposto.
Fico então a perguntar-me, como vou adormecer sem o som do grilo que me embalava o o sono? Como vou despertar sem o cantar da pomba aninhada no topo da chaminé? Como me vou espreguiçar sem a sonância matinal das ondas?
Como vou distender os pulmões sem a brisa dos pinheiros numa fusão adocicada com as figueiras e um rasto de mar?
Como vou caminhar perdendo o rumo dos passos nesse macio areal. Como vou encher  o olhar de horizontes de  azul, desse sol que tão cedo me convidava a recebe-lo no corpo e na alma.
Hoje num contraste quase agreste, acordei ao som do despertador, ao longe uma buzina de carro gritava a urgência do dia em começar. O ar cheira a monóxido de carbono, a perfume de marca indefinida, a tabaco fumado à velocidade do relógio.
Saio do torpor das férias, mergulho na multidão, confundo-me com ela, sigo-lhe o compasso apressado.
O sol esconde-se, espreitando aqui e ali por entre os prédios, sem espaço para manifestar o seu esplendor.
Olho para trás, na esperança de ainda encontrar o último vislumbre de azul, de uma brisa de mar. Lembro-me de repente que ficou lá, quem sabe, um dia regresse ao seu abraço.
Sacudo a lembrança, afasto a saudade, enfrento o dia, caminho para o futuro, aquele que me levará de novo ao seu encontro.
Porque afinal, somos feitos de sonho e de vida.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011


Post.it: I have a dream

Todos nós temos sonhos, pequenos ou grandes sonhos. Todos nós temos o direito de sonhar e o dever de lutar para o concretizar. Sonhos que nos transportam para um mundo irreal, onde por um momento o vivemos como se fosse real. Sonhos que temos acordados, que nos fazem querer chegar mais além, onde só os sonhos conseguem chegar. Mas um mundo sem sonhos, era um mundo sem objectivos, sem desejos, sem força motora para fortalecer a nossa vontade. Quantas vezes nos falta o ânimo, quase desistimos, damo-nos como fracassados nos nossos intentos, então o sonho eleva-nos faz-nos acreditar na sua possibilidade, mesmo que não se concretize no imediato, mesmo que existiam dificuldades para vencer. A vitória pode acontecer e o sonho realizar-se quando menos o esperamos.
“I have a dream” disse M. Luther King. Não chegou a ver o seu sonho concretizar-se, mas teve a coragem de sonhar, de lutar, de deixar esse sonho como herança. Um sonho que permaneceu vivo em todos aqueles que abraçaram esse ideal.
Eu também tenho um sonho, que talvez seja idêntico ao teu…

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Post.it: Devíamos ser pontes



Cada pessoa que conhecemos devia ser sempre uma ponte, um caminho que  nos leva mais adiante, que nos ensina e faz crescer. Devia ser um destino que fazemos com cada pessoa,  já não estando sós. Devia se uma mão  que nos apoia e evita a queda. Um sorriso de luminoso. Um abraço tranquilizador. Uma mensagem  de paz e harmonia.
* Porque sem pontes ficamos reduzidos à nossa solitária margem.
* Sem caminhos ficaremos estagnados e sem futuro.
* Sem apoio levaremos muito tempo a reerguer-nos da queda.
* Sem um sorriso tudo à nossa volta será mais triste.
* Sem a tranquilidade navegaremos na dúvida em busca da certeza.
* Sem a paz de uma palavra amiga estaremos perdidos nas nossas guerras.
* Pode-se viver sem amigos? Claro que sim. Mas a vida é muito mais inteira 
    quando a amizade nos rodeia e nos presenteia com o seu carinho.


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Post.it: O beijo


Os lábios estavam ansiosos de beijos, de calar as palavras vazias de sentido para no silêncio proferirem outras, repletas de emoção. Mas o beijo não aconteceu, era demasiado cedo. Ficaram as palavras, cresceram as palavras, aumentou a distância. Os lábios continuavam ansiosos de beijos, mas o beijo não aconteceu, era demasiado tarde. O tempo tem consonâncias e dissonâncias que desconhecemos. O tempo de uns decorre nem sempre numa viagem paralela com a dos outros. E por mais que queiramos acertar os relógios, há sempre um que teima em acelerar ou o outro em atrasar-se no seu compasso individual ao ritmo do coração.
Os lábios permanecem ansiosos de beijos, em busca de outros beijos que os queiram beijar, sem ser demasiado cedo, sem ser demasiado tarde, no momento  certo em que nos lábios o beijo acontece.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Post.it: Faz-me falta


Somos mais do que nós, somos um todo. Um cosmos de certezas e de dúvidas. De lágrimas e de sorrisos. De dias solarengos e outros mais cinzentos. Somos vozes que entoam ou noutros momentos, apenas vozes caladas, quase adivinhadas. Somos sentimentos que afloram, que fervilham. Sentimentos partilhados ou sufocados no mais intimo do ser. “Porque a vida é feita de encontros e desencontros”. É o nosso conflito interior, incoerente, insatisfeito, incompleto. Na eterna busca de harmonia, paz, felicidade, completude. Porque somos na nossa solidão, incessante caminhada em busca do nosso destino. Não o que temos mas o que almejamos.
Enquanto isso, estamos aqui e aqui estaremos. Para além dos outros, para além de nós, dos que permanecem, dos que partem. Estaremos aqui, enquanto o coração bater, enquanto os olhos se abrirem para verem o novo dia. Enquanto o corpo se erguer e caminhar pela estrada da vida.
Estamos aqui e aqui estaremos, mais pobres, mais vazios. Porque perder alguém, deixa-nos sempre sem um pouco de nós. Por vezes esse pouco é aparentemente tão pouco que pensamos não o notar ausente do nosso ser, mas não é verdade. Faz-nos falta, esse pequeno nada que nos deixa cada vez mais sós. Mesmo que seja uma gota de água no oceano. Um grão de areia no areal. Uma estrela na galáxia.
Faz-nos falta porque, enquanto existiu, num momento, seja qual for a sua dimensão temporal, fez-nos sentir mais inteiros.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Post.it: À espera de viver

Somos ilhas procurando continentes. Somos mares procurando areias quentes e macias. Somos navios aninhados no cais. Somos um procurando o outro, essa âncora que nos salve das nossas derivas existenciais.
Tentar encontrar o amor, o sentir que nos completa e enleva, é obrigação de todos. Porque temos o direito de procurar a felicidade, de a esperar e a encontrar, esteja ela onde estiver, nem que seja nessa miragem que construímos em nós. Nesse castelo de areia que a corrente leva insensível aos nossos apelos para o salvar. Ou nesse precipício de emoções, nesse mergulho que desejamos tenha no seu final o início. O princípio da nossa história, aquela que o coração espera para viver.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Post.it: Mais que coincidências

Gosto de pensar que a vida é mais do que nos revela, que é mais do que um caminho, que tem um propósito, um objectivo, que desvenda a cada dia, a cada passo que damos, em cada queda, em cada encontro e desencontro. Seria um vazio existencial pensar que somos apenas uma sucessão de horas, de momentos que se cruzam e entrecruzam connosco por uma feliz ou infeliz coincidência.
É triste existir sem um objectivo que nos mova, sem um sonho por conquistar, sem uma esperança por pequena que seja para alcançar uma estrela no céu, aquela que temos a certeza que é nossa, que nos guia e torna menos escura a nossa noite.
É doloroso sentir que cada pessoa que conhecemos nunca fará parte da nossa vida para a tornar mais rica, ou que outras não permaneçam o tempo suficiente para nos completar um pouco mais.
Peço à vida muito mais, que cada nuvem não seja apenas passageira, mas a fonte de água que vai tornar o rio mais cantante, encher o mar para que fique mais ondulante, fazer desabrochar a natureza e florir o jardim da nossa existência.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Post.it: Raízes



Aquilo que nos prende à terra, que nos prende à vida. Estreitamos raízes, estendemos raízes, criamos raízes nos laços com quem nos envolvemos, com quem partilhamos momentos e criamos sementes de vida para o surgimento de novas raízes. As raízes são braços por onde corre a seiva que quer ir mais além, na luta do que quer resistir às intempéries, suplantar os obstáculos, fortalecer-se para sobreviver. São a força impetuosa da natureza que não se deixa aprisionar. Corajosa permanência, presas à terra, estão sempre a estender-se para chegar a novos lugares. Para chegar à vida. Porque viver tornou-se a sua única vontade, o seu mais alto desejo. A sua busca incessante. Olhando para toda esta energia, vitalidade, força e luta, questiono-me que beleza terão encontrado na vida que as faz querer alcançar a eternidade? 
Talvez tenham descoberto o segredo, aquele que permanece encerrado nos confins do universo: que só a perseverança consegue conquistar a mudança. Porque tudo na vida tem resolução, mesmo que demore a acontecer.
Que só a capacidade do querer nos faz chegar mais longe, a esse lugar onde mora a felicidade.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Post.it: As horas


Entre nós sempre as Horas. As que marcamos e não cumprimos, as que chegamos na hora marcada, mas o momento passou, antecipou-se. Entre nós sempre as horas, as que demoras a marcar, com receio de fracassar nelas. Entre nós as horas, as que passam por nós e que se gastam não sabemos onde. Entre nós, sempre o amor, que vivemos em separado, com o coração magoado.
Entre nós sempre o Amor, sentido, esperançado ou aquele outro que espera, numa espera de horas que já o deixam cansado.
Entre nós sempre os Anos, que vão passando, já sem planos para não padecer desenganos.
Entre nós sempre os anos que se vão preenchendo de horas, de amores, de momentos roubados à vida.
Entre nós os anos, que não vivemos enquanto sofremos pelos anos que passaram e por todos aqueles que ainda não chegaram.
Entre nós sempre um Rio, porque somos apenas margens, nunca nos encontramos no mesmo lado do coração, ficamo-nos olhando na distância.
Entre nós sempre um rio que segue o seu percurso enquanto leva na força da corrente os sonhos já não sonhados.
Entre nós sempre uma Ponte e a dúvida, se ela nos une ou marca a separação.
Entre nós sempre uma ponte que hesitamos em atravessar.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Renascer

Hoje desfiz-me,
Desmanchei-me por inteiro.
Depois refiz-me,
Sem norte ou paradeiro.
Livrei-me de todas as marcas,
De todas as lembranças.
Das mais pesadas arcas,
De tão ingénuas esperanças.
Nada quero do passado,
Do que fui, do que sou.
Que mantêm o destino parado,
Num porto onde me ancorou.
Preciso dum barco para partir,
Preciso de navegar.
Não tenho para onde ir,
Nem tenho onde ficar.
Vou por esse mar,
Quando a onda me estender,
Um embalo para abraçar,
A coragem de renascer.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Felicidade

Felicidade,
Tem aquele condão,
De brincar com o coração,
E semear a saudade.

Felicidade,
Tem o dom de fazer sorrir.
E nos impede de fugir,
Quando nos rouba a liberdade.

Felicidade,
Que nos controla e cativa.
Quando nos deixa à deriva,
Na confusão desta cidade.

Felicidade,
Pode ver-se num olhar,
Onde o sol permanece a brilhar,
Pela  nossa  eternidade.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Esta ponte

Esta ponte
Feita de sonhos.
Esta ponte
Feita de medos.
Lembra-me os teus olhos
Tão cheios de segredos.
Duas margens desunidas
Que uma ponte ligou.
A solidão de duas vidas,
que o destino juntou.
Mas a ponte é um caminho
e sempre uma passagem.
A lembrança dum carinho,
que se perdeu na viagem.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Desencontro

Que sei sobre ti?
Tens um rosto que apenas visionei,
Um corpo que não abracei,
Mãos que nunca acariciei,
Um coração que nunca amei,
Um olhar que nunca me deste,
Um sorriso que não me ofereceste,
Uma voz que mal escutei,
Lágrimas que não sequei,
Emoções que não me contaste
Recordações que não criaste
Sei apenas que um dia te vi…

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Post.it: A velha e o mar


Se eu visse mais além da linha do horizonte, por esse mar adentro, por onde se me naufragou o coração quando se afundou com o teu. Partiste, tão jovem, se me visses agora, o meu rosto onde o tempo cavou rugas, caminhos por onde desceu a saudade, derramada em tantas lágrimas que aumentaram este mar que um dia nos separou. Se me visses agora, ainda terias desejo de voltar para o cais do meu peito? Este cais que tantas vezes te abrigou dos ventos e vendavais para ser o teu refúgio. Lembro-me do teu olhar marinheiro sempre distante como quem sonha. O que sonhavas, questionava, envolta no ciúme, quem sabe com outro cais? Sorrias com uma tranquilidade de maré, “sonhava com o dia em que ancorarei na tua praia e jamais terei que partir". 
Agora, fico aqui neste porto que te viu partir e nunca mais regressar. Permaneço aqui presa, não na esperança, mas neste mar que se tornou o teu lar, e neste porto onde a minha alma se aportou.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Post.it: O baloiço

Dizem que voltamos sempre aos lugares onde fomos felizes. É uma necessidade quase uterina, o regresso, a recordação. A comparação do antes e do agora, a mudança. A sensação de grandeza, parece que tudo diminuiu de tamanho, quando afinal fomos nós que crescemos. Esses lugares, onde corremos, onde sonhámos não com o futuro, mas com a próxima aventura. Porque é-se assim na infância, despreocupado, corajoso, com desejos possíveis, que nos fazem saltar da cama mais cedo que o sol, e correr enquanto ele corre atrás de nós com medo que lhe roubamos o lugar no céu. E roubaríamos, tal é a nossa energia, “se pudéssemos voar”. E voamos, abrimos os braços e deslizamos pelo monte abaixo, rompendo o vento. Esse monte que agora nos assusta pela sua dimensão e perigoso declive. Quando é que perdemos o gosto pela aventura, quando é que começámos a ter medo? Esse medo que nos limita, enclausura. Confortamo-nos, com débeis justificações, dizendo que ganhámos juízo, será essa a razão?
Observo o parque vazio, toco com ternura aquele baloiço de madeira carcomida, agora vazio, abandonado. Já foi o meu palco de ilusões, sonhei voar e voei, toquei o céu, senti o infinito agarrei-o na mão, guardei-o no coração. Hoje só recordo o final da viagem, a queda, o braço partido. Mas naquele momento que durou a infinidade de uns segundos, senti a liberdade do corpo e da alma.
Empurro-o com nostalgia, velho amigo, não te culpo das minhas desventuras, culpo-te de não teres continuado a baloiçar dentro de mim, de me teres abandonado, de me teres deixado partir, de não teres esperado por mim, brilhante, de madeira polida, como se o tempo não tivesse passado.
Mas passou, hoje, ofereces-me um último baloiçar, num silêncio triste. Sento-me receosa que não suportes o meu peso no teu acento enfraquecido. Permaneço, recordo. Obrigada, velho amigo, pela infância que me permitiste ter, agora sim é hora de partir mas sem nunca te dizer adeus, afinal, fazes parte do que sou.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Post.it: Cheguei atrasada


Cheguei atrasada, dizia desolada. Cheguei atrasada, eu que sou sempre tão pontual, cheguei atrasada! Repetia constantemente.
Depois de tantos lamentos entendi a situação e tentei explicar-lhe: Que ninguém chega atrasado à Vida. Estamos sempre no tempo certo, aquele que temos que viver. Podemos chegar tarde a certos acontecimentos que compõem o nosso dia-a-dia, mas talvez mesmo assim não estejamos atrasados. Lembro-me de ter lido a história de um americano que atrasou-se para o emprego, ficou aborrecido, porque todo o seu dia iria ser diferente, e foi. Porque nesse dia as Torres Gémeas foram atacadas e com isso perderam-se muitas vidas, mas não a sua. Somente porque chegou atrasado. 
Pensando bem será que não chegamos na hora certa, aquela que é a nossa hora? Se esta minha amiga tivesse chegado a tempo, àquele encontro, podia, talvez ter mudado a sua vida, teria dado um passo em direcção à felicidade ou quem sabe pelo contrário? Nunca o saberemos mas não nos preocupemos demasiado com o relógio, contudo não descuremos os nossos compromissos, adiando o tempo. Não usemos esta ideia de que tudo acontece na hora certa como desculpa para não ser pontual. 
Porque a hora certa pode passar ao nosso lado enquanto estamos distraídos com coisas a que nos apegamos para não termos que lutar por novos caminhos.
Os novos caminhos obrigam a novas decisões e, para além da dúvida que a novidade sempre encerra, há uma certeza, a dor de cortar cada (cordão umbilical) a que nos agarramos. Uma falsa segurança. Porque a vida vive-se sem rede por baixo. No entanto, não há maior vitória do que aquela em que nos enchemos de coragem e caminhamos para o futuro, deixando para trás o passado. Quem sabe esteja na hora? 
Não podemos deixar de agir só porque achamos que já é tarde demais. Nunca é tarde demais enquanto aqui estivermos estamos no tempo (certo).

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Post.it: Nasceu uma criança

Hoje uma criança vai nascer num país pobre. A mãe que a acalentou em si durante os meses de gestação, sonha abraçá-la, alimentá-la, confortá-la, cuidar dela, dar-lhe o  de melhor de si. É uma mãe igual a tantas outras, que existe em qualquer lugar do mundo, com os mesmos desejos de felicidade para a sua criança. Mas nem esses actos mais básicos que são a estrutura da vida humana, essa mãe, lhe pode dar. A humanidade é una nas suas características, é una nos seus desejos de prosperidade, é una nos seus direitos, mas o mundo tem as suas cisões, as suas desigualdades. Hoje uma criança vai nascer num país pobre, vai nascer sem privilégios, sem direitos, sem sonhos, sem esperança, por berço, terá o colo materno, por roupa, os braços quentes da mãe. Por alimento, o parco leite dum corpo mal nutrido. Hoje uma criança vai nascer num país pobre, talvez consiga crescer, talvez consiga aprender a sorrir, talvez até consiga sonhar, com um novo amanhecer.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Post.it: Curta a vida



Para quê:
- Questionar tudo o que acontece e o que não acontece?
- Viver buscando no infinito o que não alcançamos?
- Cultivar angustias e regá-las com lágrimas salgadas?
- Travar lutas das quais nunca sairemos      vencedores?
- Viver no passado com medo do futuro?
- Desistir de começar com receio de fracassar?
- Dizer não quando o coração diz sim?
- Dizer sim quando a razão diz não?
- Interrogar a vida em vez de a viver?
- Adiar a decisão com temor da conclusão?
- Trilhar caminhos que já sabemos onde vão dar?
- Insistir no erro que sabemos errado?

Não complique, não queira que tudo se explique.
“Curta a vida porque a vida é curta”

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Post.it: No canto da circunferência

Sozinha no meio da multidão, por entre vozes que nada lhe dizem, que lhe deixam a alma vazia. Nesse mar feito deserto de paixões, nem um oásis se vislumbra. Caminhos, tem tantos, mas nenhum lhe parece uma opção. Todos eles a levam para o mesmo labirinto existencial. Quando o sol já se apaga e o luar ainda demora. As luzes da cidade apenas criam mais escuridão. Será lá fora, será em si, tem tantas perguntas, mas tão poucas respostas. Caminha devagar, cumprindo mais um final de dia que é para si o começo. Vive na esquina da vida, ali onde o amor e desejo se cruzam sem se tocarem. Encontros instantâneos de nada que a mente idealiza, como um princípio que não o chega a ser. Rostos sem nome, incógnitos nas sombras da noite. Quando os primeiros raios da manhã varrem o que resta das silhuetas, a vida sem pressa arruma-as por mais um dia, num qualquer canto da circunferência.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Post.it: Esse amanhã

Nada sei sobre o amanhã, e essa inconstância não me cria angústias, antes a sinto como um desafio de surpresas.
O amanhã é para cada um de nós a Terra das oportunidades, aquela em que podemos construir algo novo ou melhorar o já existente.
O amanhã pode trazer-nos encontros, sonhos, promessas, esperanças. Passos que acompanharão os nossos, que lhes darão novos rumos.
Quando nos deitamos na noite fazemos esboços de luar para o amanhã, quem sabe ele nos traga a infinitude dos nossos desejos.
Porque foi num amanhã que podia ser igual a tantos outros que nasceram todos os momentos que celebramos. Com a alegria de não sabermos no dia anterior que esse amanhã, tornaria o hoje especial, tão especial que em vez de se converter em passado transformou-se no futuro.
É isso que nos faz adormecer, desejar que o sono venha, para encurtar a noite até esse amanhã que recebemos de braços abertos como quem recebe o seu melhor amigo, aquele que nos faz sentir que vale a pena viver cada dia para que ele nos presenteie com um novo amanhã.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Post.it. Maria Mar

Podia ser este o seu nome, cresceu no embalo das ondas entre os abraços do mar e a areia da praia. Tinha uns olhos de céu e um sorriso luminoso. Era feliz a Maria, mas foi mais feliz no dia em que lhe ofereceram uma prancha de surf. Agora sim podia voar nas ondas, agora sim podia percorrê-las em toda a sua extensão, perceber o mistério da sua densidade e acariciar-lhes o corpo de água.
Era feliz a Maria Mar, mas foi ainda mais feliz quando reconheceram que surfava tão bem como uma sereia nadava no mar.
Era feliz a Maria Mar, conhecia os ventos e as marés, o oceano não tinha segredos para si, ou talvez tivesse. Descobriu-o da pior forma, que o seu grande segredo era a exigência de respeito.
Maria Mar desafiou o mar e perdeu, perdeu quase tudo restando-lhe apenas um fio de vida.
Por dias, meses e anos, criou o seu mar, também ele salgado, também ele solitário.
Até ao dia em que abriu a janela do seu quarto e o reencontrou. O mar permanecia sereno, anelante, quase silencioso, com receio de a perturbar. Agitou-se ao vê-la, que saudades daquela ninfa, de a sentir, de ver o seu espírito de rebeldia e o  seu riso cristalino. Então cresceu no seu alento e da maior calmaria criou a maior onda que todo o mar já vira e depositou-a com doçura na beira da sua janela. Maria Mar pensou por momentos que estava de novo a chorar, ao sentir deslizar do seu rosto gotas de água, depois percebeu que não eram lágrimas mas ternos beijos que o mar lhe oferecia. Maria Mar descobriu novos motivos para se sentir feliz.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Post.it: Férias cá dentro

Estamos em Agosto, Portugal vai a banhos se a crise deixar e o tempo ajudar. Portugal vai a banhos “cá dentro”, dentro de casa, com mergulhos na banheira que voltou a estar na moda substituindo o polibã. Uma espreguiçadeira na varanda e uma coca-cola bem geladinha por debaixo da sombra de uma palmeira de plástico. Para parecer mais época de lazer, não esquecer de desligar o telemóvel, o pc e a tv. Para manter a boa forma cerebral, ler: todas as revistas cor-de-rosa, porque os livros estão caríssimos. Para não perder a boa forma física, conquistada à custa de muitas horas no ginásio: subir e descer 100 vezes a escada do prédio.
E por um mês, um mês inteirinho, vamos fazer de conta que tudo está bem e que estamos de férias no paraíso.
Aproveitem sobretudo a companhia dos amigos, para uma boa conversa e para muitas gargalhadas, enquanto rir não paga imposto e a amizade é grátis.
E já agora, Boas Férias....


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Post.it: Nunca desvalorizes Ninguém

Ninguém era alguém que apenas queria ser ninguém. Já tivera heróicos sonhos de querer mudar o mundo. Mas ninguém pode mudar o mundo sozinho. Ninguém amou alguém que não amou Ninguém. Por isso partiu um dia, quando descobriu que ninguém pode amar alguém sozinho.
Fez-se à estrada, fez-se à vida, venceu os seus medos, derrotou os seus fantasmas e tornou-se alguém. Alguém que todos veneravam e queriam ter como amigo. Até que um dia estando de novo pobre e doente, Ninguém, precisou de alguém, mas não tinha ninguém. Então percebeu que para ser esse alguém, preferia ser ninguém. Passados anos, muitos anos, o sol voltou a brilhar no seu horizonte e Ninguém voltou a sorrir, afinal, até Ninguém tem o direito de encontrar Alguém. E encontrou, encontrou a felicidade nesse Alguém que também se julgava ninguém. E que desta forma passou a ter alguém que anteriormente era ninguém, no seu coração.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Livro


Esse que guardas na estante
Esse que esqueceste de ler
Se olhares, verás, lá estarei,
Mas se um dia me folheares,
Voarás nas minhas asas.
Em folhas de encantamento,
Momentos do meu sonho.
Ensejos da nossa fantasia.
Por esse mundo partilhado,
Por um universo revelado.
Amores que te contarei,
Todos com finais felizes.
Porque a dor já basta,
Na realidade em que vives.
Serei a tua doce companhia
O embalo do teu final de dia
Mas se me esqueceres,
Sabe, que aqui continuarei.
Com as asas fechadas
E sem conseguir voar…


quinta-feira, 28 de julho de 2011

Post.it: Não quero ser adulta!

Nunca compreendi os adultos, nunca entendi as suas permanentes angústias, lutas e derrotas. Por isso jurei que quando crescesse nunca me iria tornar adulta. Já sinto os raciocínios a agitarem-se ao ler isto e a esboçarem um sorriso de reconhecimento entre esta minha decisão e a atitude dos adolescentes tardios de muitos adulto desta nossa geração. Mas não é esse o sentido que foi a minha decisão, porque sempre admiti a necessidade de se ser responsável, organizado, coerente, civilizado e humano nesta sociedade de comuns direitos e deveres.
Insurgi-me sobre o ser adulto na sua faceta egoísta de disputas vãs. De casamentos em que assinam um contrato sem aptidão para lhes respeitar os termos. Da educação que não conseguem passar aos filhos, valores que não lhes ensinam, talvez porque também não os conheçam. Das rivalidades nos empregos. Das quezílias entre vizinhos ou entre amigos que se revelam pouco amigos.
E sobretudo por perderem a capacidade de se surpreenderam, de se extasiarem com um pôr-do-sol, ou com aquela sensação de rolar na relva, de ficar deitada tentando adivinhar que figuras desenham as nuvens no céu, ou ainda de correr num imenso campo de girassóis.
Um dia, porque há sempre um dia, num momento em que somos obrigados a questionarmo-nos sobre o que nos tornámos, como temos crescido e agido, quando olhamos em redor e não gostamos da nossa realidade, da nossa vida. Recordamos, o que pensávamos sobre os adultos que nos antecederam. Que jurámos nunca imitar, nem seguir-lhes as pegadas. Afinal acabámos por “calçar-lhes os sapatos”. Não por admiração, mas porque não resistimos à tentação de nos acomodarmos e algures no nosso percurso de crescimento esquecemos as nossas promessas. 
Numa tradução adaptada, recordo uma velha canção “Algures por baixo do arco-íris existe um lugar onde a felicidade pode habitar se te atreveres a sonhar”.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Post.it: Ecos

Procuramos ecos que nos prolonguem, que nos eternizem. Que ultrapassem a nossa finitude e nos elevem para o espaço sideral. Procuramos ecos no que somos, no que fazemos, no que damos. Porque o eco é a confirmação de que conseguimos chegar, de que conseguimos tocar, de que conseguimos entrar e quem sabe, permanecer.
Ecos de sons levados pelo vento mesmo quando são ressonância de lamentos. Ecos de luz, de cor, no desejo de se estender para lá do arco-íris. Ecos de voz que chama e clama por outra voz que a si retorne. Que o adorne de palavras que ecoem dentro do peito. Num doce chamado, que o longe responde e que nele se  esconde. Não sei se brinca, se mente ou apenas intenta. Quando à pergunta feita, aceita ou rejeita, na resposta que me alenta e inquieta. Faço silêncio, escuto com atenção. Palavras que são as minhas, palavras que voltam sozinhas. Nunca foram reflexão, apenas repetição, ecos do coração.


terça-feira, 26 de julho de 2011

Post.it: A direcção do olhar

Há quem seja feito de passado. Viva de histórias guardadas a que chama recordações. Há quem caminhe sem sair do mesmo lugar. Passam os dias, passam os anos, e um dia quando o final se aproxima de si, não o aceita porque não caminhou para ele. Então dá-se conta que não tendo passado pelo tempo, o tempo, passou por si. Não adianta negar, não adianta parar o tempo só porque nós parámos, ele prossegue alheio à nossa vontade. Passa como se tivesse asas de vento. E quando reclamamos da sua rapidez. Responde-nos com altivez , - O tempo é igual para todos, uns vivem-no com o olhar preso no que passou, na infelicidade que viveram, outros têm o olhar apontado para o futuro, aproveitam cada instante para procurar a felicidade que ainda não alcançaram. 
E porque o tempo continua a passar, não se esqueçam de escolher a direcção do vosso olhar.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Post.it: Promete-me

Promete-me que serás diferente. Que lutarás por aquilo em que acreditas. Que não desistirás até atingires a meta. Que superarás todos os obstáculos. Que te levantarás todas as vezes que caíres. Que não te acomodarás só porque é difícil. Que não te deixarás ir na corrente só porque é mais fácil. Que não te deixarás convencer a ser assim, só porque todos o são. Que saberás dizer não quando for necessário, mesmo quando te implorarem um sim. Promete-me que não te tornarás indiferente ao mundo em que vives. Que não lhe virarás as costas só porque não é bonito. Que o enfrentarás mesmo que te magoe. Que não te desculparás com a falta de tempo e arranjarás força de vontade para cuidar dele.
Promete-me que não sufocarás a tua consciência só para não a ouvires chamar-te à realidade.
Promete-me que não te deixarás dominar pela inveja. Que não entrarás em rivalidades só para subires na vida.
Promete-me que serás gentil com os mais fracos e compreensivo com os que se julgam mais fortes. Que darás a mão a quem precisar dela para se apoiar. Que calarás os teus problemas para escutar quem os tem muito maiores. Que não sobrevalorizarás a tua dor perante a dor dos outros.
Promete-me que farás tudo para teres orgulho em quem és. E que um dia, daqui a muitos anos, olhes para trás e sintas que mesmo não tendo tudo, tens aquilo que conquistaste com o teu esforço. E se tiveres perdido muitas batalhas sabe que venceste a guerra, a tentação de ser apenas mais um, igual a todos os outros. 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Eterno devaneio

Dá-me o hoje, o agora,
Aquele breve instante.
Em que a última estrela
Já se vai embora,
e o dia bate radiante,
na vidraça da tua janela.

Dá-me um último beijo.
Não lhe chames o primeiro,
Muitos te dei em devaneio,
Quando à noite a navegar,
Por sonhos de marinheiro,
Não conseguia despertar.

E então viajava pelo teu ser
E dele fazia o meu lar.
Tornando-te o meu mundo,
Onde me queria perder
Para então me encontrar
Nesse milésimo de segundo.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Post.it: Medos

Tenho medo que a vida passe por mim e não a viva.
Que o amor passe por mim e não se detenha. Que a Primavera se encha de flores e não as veja. Que o sol amanheça e não me aqueça. Que o mar me estenda uma onda e não mergulhe nela. Que a noite venha e não me adormeça. Que a madrugada se anuncie e não me desperte. Que o vento sopre em meu redor e não o sinta. Que a chuva caia sem me refrescar. Que tudo aconteça e que nada me aconteça.
Porque estava distraída. Porque buscava o certo no lugar errado. Somos as escolhas que fazemos, somos o futuro que construímos. Tudo nos foi oferecido, esteve nas nossas mãos. Deixámos partir, deixámos voar, deixámos acabar sem começar. Desistimos antes de lutar, ou lutámos pelas coisas erradas com receio de nunca encontrarmos as certas. Porém resta-nos sempre a possibilidade de enquanto aqui estivermos possamos mudar a nossa história. Escrever-lhe um novo capítulo. Acrescentar-lhe um anexo. Podemos trocar o medo pela coragem.

Era uma vez: Tempo de mais

“Tu sorrias e falavas comigo sobre nada e eu sentia que, por isso, tinha esperado tempo de mais!” (R. Tagore)
Descobriu esta frase num daqueles livros de pensamentos sobre temas etéreos como a amizade e o amor. Tocou-lhe porque era exactamente isso que sentia. Quando a encontrou, a primeira coisa que viu foi o seu olhar. Seguiu esse olhar como se tivesse encontrado um lugar conhecido. Viu-a e quis abraçá-la! Pensou que era tolice, pois nem a conhecia! Mas cumprimentou-a, deu-se a conhecer, descobriu o seu nome, soube quem era e o seu coração ficou aí, nesse lugar conhecido que passou a ser o seu.
Ao ler esta frase de Tagore percebeu: toda a vida tinha esperado por ela. Uma espera de tempo a mais! Por isso, assim que sentiu o seu olhar, reconheceu-a e ela passou a ser o seu tempo e o seu lugar!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Post.it: Bastam algumas gotas

Porque o assunto geral é a crise. Que entrou nas nossas vidas, de uma forma mais ou menos agressiva. Que prometeu ser provisória mas que  ameaça permanecer por tempo indefinido. Que nos prometeu ser pequena e pouco incomodativa mas tende a dilatar-se pelos quatro cantos da nossa existência, limitando as nossas vontades, desejos e sonhos. Questionamos esses limites, queremos conhecer os passos que podemos dar. Entretanto vamos cortando aqui e ali, para diminuir a nossa crise. A angústia cresce cada vez mais em nós como se fosse uma nuvem que ameaça tornar-se um nevoeiro que nos rouba o brilho do sol, então recolhemo-nos numa mágoa que não conseguimos retribuir aos culpados, porque os desconhecemos, porque tememos que em parte tenhamos sido nós, com gastos inconscientes. Afastamo-nos, fechamo-nos, silenciamos o sentir. No entanto esta crise não pode gerar uma outra crise, a de falta de entreajuda, de solidariedade e de amizade, quando para isso bastam algumas gotas:
- Gotas de perdão para quem nos magoa sem o perceber.
- Gotas de carinho para quem necessita dele.
- Gotas de amor para que este nunca sucumba.
- Gostas de afecto por todos aqueles que se cruzam connosco.
- Gotas de paciência para com aqueles que têm uma perspectiva diferente da nossa.
- Gotas de tempo para oferecer a quem necessita de contar com o nosso apoio.
- Gotas de silêncio para saber escutar o desabafo dum amigo.
- Gotas de amizade para a repartir por todos em nosso redor.
- Gotas de justiça para não incorrer em erro.
- Gotas de humildade para reconhecer o nosso engano.
- Gotas de alegria para repartir por quem a perdeu
- Gotas de ânimo para construir a felicidade.
Porque mesmo sendo pequenas, todas as gotas juntas, constituem um vasto oceano.

Era uma vez: o "vagabundo"

Andava pelas ruas da pequena cidade, à beira-mar. Parecia ter sempre um destino certo, mas nunca ninguém o viu chegar a nenhum lugar concreto, pois caminhava, caminhava e raramente parava. Aparecera há pouco tempo na cidade e ninguém conseguira descobrir donde vinha nem ao que viera, muito menos dizer a sua idade ou conhecer o seu nome. Começaram a falar dele como o “vagabundo”, não só pelo seu caminhar incessante, mas também pelas suas roupas muito usadas e pelos sapatos gastos e sem atacadores. Apesar do seu aspecto limpo e do olhar lúcido, a alcunha pegou.
Quando ouviu falar dele, Joana sentiu-se diferente, como se algo novo tivesse nascido dentro dela. E desejou conhecê-lo. Sentia-se presa, como se tivesse caído num buraco da vida onde acabara por se refugiar segura, no seu trabalho e na sua casa. Queria mais, mas tinha medo e não sabia como alcançá-lo. Passou a olhar para todos os homens, na esperança de que algum fosse ele. Nesse fim de tarde, passeava na rua larga, à beira mar e viu-o, ao longe, a caminhar na praia com os pés na água. Soube que era ele Quis vê-lo cara a cara e desceu à praia. Transpôs o areal e começou a caminhar em direcção ao “vagabundo” também com os pés na água. Joana reparou na sombra que o acompanhava, muito alongada, devido ao sol já baixo, também em passo decidido e ritmado. Quando se encontrava já próxima, Joana ficou impressionada e parou.
A expressão do “vagabundo” era a de alguém que vivera desde sempre e transportava no coração e na mente recordações e saberes que ninguém mais guardava ou sequer adivinhava e o seu olhar parecia ter a idade do mundo e poder ver coisas que ninguém mais via. Mas, o corpo direito e quase esquelético, o rosto levantado e o andar firme davam a sensação de ser ainda jovem e de esperar tudo da vida e dos outros.
Ela ficou a olhá-lo, de coração inquieto Conheceria ele o lugar onde ela estava, as resposta que ela procurava? Poderia ele ajudá-la, acalmar nela a inquietação e o medo de descobrir a respostas para ela?
O homem aproximava-se sem alterar o ritmo do passo nem a direcção do olhar. Passou por Joana, que permaneceu parada, seguindo-o com o olhar e ainda a pensar se ele saberia responder-lhe e perguntando a si própria “será que não me viu ou apenas me ignorou?”
Como se tivesse ouvido a pergunta silenciosa, ele parou e voltou-se. Fixou o seu olhar no dela. Não disse nada. Olhou-a apenas, intensa e demoradamente. Foi como se lesse os seus pensamentos e compreendesse toda a inquietude que lhe ia na alma.
Com grande surpresa e um pouco assustada, Joana sentiu que o estranho se preparava para falar.
- Vi-te, obviamente, estavas mesmo à minha frente e não tiravas os olhos de mim.
A sua voz soou límpida e clara, macia e aconchegante, serena e cheia de uma força que também transparecia no olhar profundo, brilhante e meigo.
Joana não chegou a assustar-se. Pelo contrário, aquela voz serenou-a por dentro e ela sentiu-se como se tivesse chegado a um lugar conhecido, confortável e seguro.
- A inquietação e o medo que trazes contigo não vão desaparecer de um momento para outro e não sou eu nem ninguém que te vai ajudar a resolver ou a descobrir as respostas que procuras. Só tu o podes fazer.
Sem se dar conta, Joana quase gritou:
- Como?
- Com serenidade, vontade e esperança!
- E como as encontro?
- Dentro de ti e em algumas pessoas.
- Como tu?
- Como todos os que sabem ouvir o coração e criam pensamentos de verdade e paz. Esses sabem sempre onde buscar e que caminho seguir porque seguem a verdade do que são e do que sentem e agem de acordo com ela.
- Mas eu não sei qual é a minha verdade: o meu coração quer uma coisa e eu quero outra.
- O coração é sempre verdadeiro. A mente é mais habilidosa, sabe encontrar desculpas e explicações. A verdade está no coração – o que sentes é verdadeiro.
- Como sabes o que sinto?
- Porque estás inquieta e pensas que não sabes o que fazer. Mas o teu coração já to disse, tu é que não queres acreditar e refugias-te no teu silêncio, escondida da verdade que está dentro de ti.
- É mais seguro.
- Será? Só tu podes seguir o teu coração. Também podes ficar, calá-lo e lamentar para sempre não o teres seguido.
- Mas é tão longe onde ele me quer levar!
- Sim. Os outros são sempre longe! É preciso sair de nós e essa é uma viagem difícil de fazer!
- Tenho medo!
- Nunca tenhas medo do coração. Ele é verdadeiro.
- Segues sempre o teu coração?
- Sigo.
- Foi ele que te trouxe até aqui?
- Trouxe-me a ti.
- És um anjo?
- Segue a verdade do teu coração. Confia e terás a coragem de ir onde ele te quer levar.
Voltou-se e partiu.
Joana ficou imóvel a vê-lo desaparecer na praia deserta, com a sua sombra cada vez mais comprida e ténue. Estranhamente, sentiu-se tranquila e liberta.
Ninguém mais o viu na cidade e, mesmo sem saberem quem era, sentiram a falta do homem que parecia trazer a eternidade consigo. Ficou apenas a lembrança do seu contínuo caminhar e do seu olhar. No coração de Joana, ficou a paz daquele encontro e quem a conhecia descobriu nela uma nova luz. Por isso, ninguém estranhou quando fechou o consultório e partiu, dizendo que, do outro lado do mundo, “os outros esperavam por ela.”