sexta-feira, 3 de julho de 2020

Post.it: Nada será com dantes


19 de fevereiro de 2020, 7 horas da manhã, Aeroporto Francisco Sá Carneiro, Porto.
Xin Qian olha para o relógio do telemóvel pela 10º vez, está inquieta, ansiosa por partir, por chegar, está em Portugal a fazer Erasmus tudo corre bem, mas a mãe telefonou-lhe aflita, a avó de 82 anos está muito doente, no início tinham-lhe dito que era uma simples gripe, mas rapidamente evoluiu para pneumonia e agora já estava internada nos cuidados intensivos. Xin Qian sente o coração apertado, chegará a tempo de se despedir da avó? Questiona-se, arrependida, devia ter regressa à China em Janeiro para as festividades do ano novo, mas só tinha chegado há 4 meses, andava a tentar integrar-se neste novo pais com características tão diferentes do seu, já tinha novos amigos, e quase, um namorado, mas isso, ainda não contara aos pais. A notícia da doença da avó apanhou-a de surpresa, ainda sentia no corpo o abraço que ela lhe deu no dia em embarcou, ainda lhe via o sorriso que escondia as lágrimas já cheias de saudades da neta. A sua avó sempre fora uma pessoa forte, saudável, lutadora, até adoecer ainda trabalhava todos os dias 12 horas nos arrozais de Sichuan um dos afluentes do rio Yantzé tão cheio das suas memórias de infância.
- Desculpe posso tirar esta cadeira da sua mesa? Xin Qian levanta o olhar surpreendida com a interrupção dos seus pensamentos. Sorri para a sua interlocutora, não percebe mais do que meia dúzia de palavras em português.
Janice aceita aquele sorriso como um gesto de consentimento e leva a cadeira para a sua mesa onde já se encontram o marido e os 3 filhos. Está ansiosa, mas feliz, faz 5 anos que não regressa ao Brasil, andou a juntar cada cêntimo para a viagem e, finalmente conseguiu, vai apresentar o marido português e os 3 filhos nascidos desse enlace. Quase visualizar na sua imaginação os seus pais a abraçar os netos pela primeira vez, já se vê a caminhar no calçadão das praias do Rio de Janeiro de mão dada com o João. Compõe o vestido, ajeita a roupa dos meninos, endireita a gravata do marido, estão perfeitos, pensa, quase parecemos uma família de doutores, sorri com uma sombra no olhar, a vida não tem sido fácil, trabalha nas limpezas, o marido nas obra e os filhos crescem na casa da avó paterna reformada, não há dinheiro para os pôr no infantário. Mas ainda chega para comprar um bolo e um copo de leite para cada um. As crianças empoleiram-se no balcão indecisos sobre qual bolo escolher, são tantos, gritam saltitantes.
Manuel desespera, está na fila da cafetaria do aeroporto “há horas” diz o seu relógio de impaciência e aquelas 3 crianças nunca mais se decidem sobre que querem comer. Por fim suspira, o melhor é acalmar-me, ainda tenho um ataque cardíaco e não chego à feira em Milão, afinal vim com 2 horas de antecedência para me precaver destas e de outras situações. Tenta controlar os nervos, deixando o pensamento voar, vai para Itália, há muito que anda a projectar esta viagem, tem uma pequena empresa de calçado, investiu lá todo o seu capital, todo o seu potencial humano, todos os seus sonhos. Convenceu a mulher a deixar de trabalhar e ficar ao seu lado na fábrica, juntou às suas, as poupanças dos pais e dos sogros, vai à Feira de calçado procurar novos projectos, quem sabe gostem da sua linha de produtos e consiga arranjar clientes para exportação. Aperta nervosamente a mala de tiracolo onde colocou uma amostra dos seus planos, do seu trabalho, da sua vida. Se ao menos os miúdos chegassem a uma conclusão sobre o bolo que querem… depois a grande dificuldade vai ser arranjar um lugar vago para comer descansado, talvez aquela jovem chinesa não se importe que me sente na sua mesa, parece simpática, está sempre a sorrir.
12 de Março de 2020, Hospital S. João, Porto.
Manuel, fora a Itália para visitar a feira de calçado e lá, concretizara todos os seus objectivos, nunca se sentira tão realizado, tão feliz, não fora aquela maldita gripe que apanhara em Itália, tudo lhe corria bem, em poucos dias a doença prostrara-o para a cama, contagiou a mulher, os pais, os sogros e mais duas dezenas de empregados da sua fábrica. A febre não cedia, o ar rareava-lhe nos pulmões. O médico entrou, escondido por detrás da máscara que  não dava para lhe ver a expressão de portador  de boas ou más noticias.
- Sr. Manuel, os seus exames revelam que está infectado com o novo coronavírus e vai ficar internado.
O seu coração saltou-lhe no peito, o ar sufocou-o, um suor frio desceu-lhe do rosto ou seriam lágrimas? Não o sabia dizer.
Com as emoções em conflito, um pensamento aflito. E agora?
Agora, nada será como antes…


sexta-feira, 26 de junho de 2020

S. Pedro 2020


S. Pedro que tens tantas chaves,
Arranja-nos aquela que tu sabes,
Uma cuja porta por fim fecharia,
Esta já longa e dolorosa pandemia.

E depois dela fechada, depois dela perdida,
Seja com alegria por todos nós, esquecida.
Que venham as festas, que venham os abraços,
Suplantando medos, dores e até os cansaços.

Que todos os santos em reunião,
Nos tragam a milagrosa solução.
Um planeta sem vírus devastadores,
E dias com arco-íris de todas as cores.

Sem máscaras no rosto
Sem solidão, sem desgosto.
Voltando a estender aos outros a mão
E abraçar com amizade cada coração.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

S. João


Será capaz S. João
De nos afastar a solidão?
E nos dar uma grande festa,
Com o que de esperança nos resta?

Vamos de martelinhos em riste,
Tentando acertar no vírus que insiste,
Em nos deixar cada dia mais sós,
Separando amigos, pais, filhos e avós.

Mas S. João não vai permitir,
Que na sua festa fiquem sem se divertir.
Pede-nos um pouco de fé, e alguma confiança,
Nesta fase da vida, em breve apenas lembrança.

Venha a alcachofra e a sardinha assada,
Mesmo com a nossa porta fechada.
A alma é livre e vai conseguir voar,
O coração é forte para um dia recomeçar.



sexta-feira, 12 de junho de 2020

Santo António 2020


Santo António, meu santinho milagreiro,
Apesar de tanta pobreza não te peço dinheiro.
Santo casamenteiro, nestas festas populares,
Nem sequer te peço amores nem altares.


Santo António, tenho-te na minha devoção,
E  até te guardo o ano inteiro no meu coração.
Mas também és o Santo das coisas perdidas,
Por isso peço-te coisas nunca esquecidas.

Que reencontre o sorriso sem máscara,
E a cada um sem o medo vestindo a cara.
Que volte a sentir o calor de um abraço,
E os beijos carinhosos encurtem o espaço.

Que Lisboa se volte a encher de gente
Festejando com saúde e alegremente.
Se for preciso até o Responso te vou rezar
Para o vírus partir sem nunca mais voltar.



sexta-feira, 5 de junho de 2020

Post.It: O que aconteceu na Lapa, fica na Lapa


Entrar como quem entra em casa, inalar os cheiros familiares de gente, de pão a torrar, de leite com café. Deixar que os sentidos se embalem nas vozes que vão chegando aconchegantes. 
Abrir as janelas, deixar os primeiros raios de sol entrar. Tomar o pequeno almoço com tranquilidade, mergulhar nas tarefas sem pressão, sem olhar critico e vigilante. Vão descendo as escadas uns, devagar, outros a correr, mas na voz a mesma juventude de um bom dia embrulhado num sorriso de quem nos olha como igual. 
As tarefas são diversificadas, por vezes muitas, mas há sempre tempo para mais algumas, aquelas que fazem de uma casa também um lar. 
Porque não deixar o computador e ajoelhar-me para plantar umas flores, ou fazer um pequeno curativo a quem precisa de ajuda? 
Porque não subir o escadote e apanhar fruta no jardim, ou com o mesmo escadote, mudar uma lâmpada nos altos tetos? 
Além disso, seja com quem for, novos, mais velhos, há respeito, consideração, amabilidade e admiração mútuos. 
Há tempo para falar, sugerir, para ouvir e ser ouvido. 
Há tempo para partilhar, para conversar, para distribuir tarefas, para ser patrão e ser amigo. Sim havia afeição, generosidade, solidariedade. Era mais do que um emprego, era uma segunda família, em muitos casos sentida como primeira. 
Festejando quem chegava, chorando as partidas de um até breve ou até nunca mais.
Havia amizade.
Ficou a gratidão envolvida em saudade…

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Post.it: Momentos quase zen


É difícil estarmos connosco, com os nossos pensamentos, com os nossos lamentos, com os nossos sonhos, com os nossos pesadelos, com as nossas preocupações, frustrações e medos. Precisamos fugir, escapar-nos de nós, mergulharmos num vácuo que nos faça sentir leves e livres. Nessa fuga entramos numa espécie de zen ocidental, esvaziamos os sentidos e deixamos simplesmente de sentir.
Depois dos computadores, os telemóveis são um escape, uma fuga para a frente, ou melhor para lugar algum, porque ficamos aqui com a sensação de estar ali, seja onde for, é indiferente, pode ser em qualquer parte do mundo. Deixamos o olhar perder-se em imagens que nos confortam, que nos animam, que parecendo ser o vazio nos enchem de serotonina, a hormona da felicidade.
É verdade, somos felizes, por ver sorrisos, por ver a contagiante alegria dos outros. Crianças a brincar ou a disparatar, cachorros oferecendo-nos gestos quase humanos de carinho, aventuras de quem ousa desafiar a lei da gravidade, ou apenas, mensagens que nos fazem sorrir por fora mesmo quando choramos por dentro.
Coisas importantes, coisas sem importância alguma. Que lembramos para o resto da vida ou que esquecemos no momento seguinte. Mas por breves minutos, por breves instantes, tivemos um encontro fortuito com a nossa paz individual.
Entretanto, a viagem no transporte público chega ao fim, está na hora de voltar à realidade, de voltar a nós…


sexta-feira, 22 de maio de 2020

#SaiDeCasa


Sai de casa,

Deixa o ninho, abre a asa.

Sai de casa, não tenhas medo,

A vida amanhece cedo.

Sai de casa pelo teu país,

É ele que te faz feliz.

Vai para o trabalho com alegria,

Volta a ser o sol de cada dia.

Sai de casa, está na hora,

De mandar o vírus embora.

Dos outros mantém-te distante,

Mas em todos confiante.

Sai de casa, escuta o coração,

Ele quer sair da solidão.

Pé no chão, olhos na rua,

Sorri, porque a vida continua…



sexta-feira, 15 de maio de 2020

Post.it: Depois do confinamento


A aventura de regressar ao trabalho, de sair de casa, de viajar nos transportes públicos, de encontrar rostos cobertos com máscara.
Cada dia tornou-se uma descoberta do melhor e do pior. Digamos que uma larga maioria de pessoas agia com respeito pelas novas regras do uso de máscara, uma maioria mais pequena, pelo cumprimento do distanciamento. Mas diga-se em boa verdade que por mais que tentássemos o distanciamento nos transportes públicos revelou-se no avançar dos dias desta semana, uma cada vez maior impossibilidade. Na carris e no metro, a coisa ainda corria bem nos primeiros dias mas para o final da semana começou a instalar-se a confusão e a involuntária aproximação, com estes transportes cada vez mais apinhados de gente. Mas nota negativa desde a primeira hora recebe a Rodoviária de Lisboa que anunciava regras de só transportar 2/3 dos passageiros mas a verdade é que andava superlotada.
Mas falemos das minorias, felizmente poucas mas merecedoras de destaque e quem sabe de um estudo psicológico ou sociológico. Todos os dias os encontrava, todos os dias tentava falar com eles, aprimorando o discurso para não ferir susceptibilidades. Desde o jovem que no autocarro coloca a máscara para baixo do queixo para mascar pastilha elástica e fazer balões, realmente é impossível fazer balões com máscara, alguém que invente uma máscara para estas situações! Mas do mal o menos, pedi ao jovem que colocasse a máscara e ele acedeu.
Há pessoas que entram nos transportes com a máscara na mão em vez a ter colocada no rosto, deve ser para a mostrar ao motorista, como se fosse a validação de titulo de transporte. Depois alguém diz a outro alguém que coloque a máscara e a resposta não se faz esperar – Em mim ninguém manda! Passando pela senhora ao lado de quem me sentei e que vinha a falar ao telemóvel, mexia e remexia na máscara, tentei perceber o que se passava e a constatei que a senhora tentava a todo o custo baixar a máscara para melhor falar ao telemóvel, acabou por a colocar por baixo do queixo. Fiz-lhe um gesto indicando para subir a máscara, deitou-me um olhar fulminante. Pedi-lhe com bons modos que a colocasse, deitou-me mais um olhar matador. Por fim disse-lhe, “Que não se preocupe com a saúde dos outros, é egoísmo, mas entende-se, mas que não se preocupe com a sua saúde é suicídio”, levantei-me e fui para outro lugar.
No dia seguinte mais uma aventura e à minha frente sentou-se um jovem sem máscara. Lá tentei falar com ele “Jovem a máscara?” Não me respondeu, mas não foi por falta de educação, tinha os ouvidos ocupados com os fones e ouvia-se em fundo a pseudomúsica que deles saia. Quando olhou para mim, aproveitei a oportunidade e gesticulei (a máscara?), sorriu-me e disse “ – Esqueci-me dela em casa” e mergulhou a boca e o nariz para dentro do blusão enquanto o olhar ficava novamente preso ao telemóvel.
Mais um dia mais uma aventura, desta vez sentei-me em frente a um homem, quando levantei o olhar constatei que ele estava sem máscara colocada, lá pendia ela como um brinco de pechisbeque. Sempre persistente na minha missão de salvação/sobrevivência, disse ao homem, “- coloque a máscara se faz favor”. Sorriu-me e nada fez. Insisti, “- É obrigatório podem passar-lhe uma multa” com o mesmo sorriso de ironia, respondeu “- Sou rico, posso pagar”. Sem me abalar com o discurso, tentei de novo, “-Se não se preocupa com a saúde dos outros , pelo menos pense na sua!”, o sorriso foi substituído por um olhar de indiferença, “- Estou protegido, todas as pessoas têm máscara”. Desisti, que fazer para mudar e responsabilidade de cada um?
Já agora, onde pára a polícia? Essa que aparece nos noticiários, mostrando que cumpre e faz cumprir as normas? Pois, é isso mesmo, é aí que estão, em frente às câmaras da televisão, quando esta aparece para fazer uma reportagem, depois ninguém os vê. Compreende-se, estão a manter o distanciamento de (quilómetros).
Perante isto só posso pensar que se nos safarmos do ataque do Covid19 foi apenas por sorte. Resta-me desejar que a sorte nos seja sempre favorável e ter a esperança que apesar da falta dos comportamentos descurados de alguns prevaleça o respeito e cuidado de muitos.


quinta-feira, 7 de maio de 2020

Post.it: Girassós e outros sóis


 A primavera chegou e quase nem demos pela sua entrada. Os jardins encheram-se de coloridas flores, mas nós continuámos a ver a realidade em tons cinzentos. O sol brilhou e nós nem espreitámos pela janela.
A Páscoa foi quase apenas uma data no calendário, sem darmos amêndoas em forma de abraços, sem recebermos ovos de chocolate em forma de beijos. Quase que nem relembrámos a Paixão de Cristo. Na nossa vontade de chegar a todos, de tocar todos os nossos familiares e amigos, telefonámos, enviamos mensagens, desejámos a todos uma Boa Páscoa, menos “doce”, mas presente para compensar a ausência. Compensou? Claro que não! Mas recuperaremos cada momento, prometemos aos outros e a nós.
O 25 de Abril não foi um dia de liberdade e as canções de lutas foram entoadas num grito de desespero e de esperança. Já não se temia as guerras partidárias, os condicionamentos políticos, mas a luta pela vida contra um inimigo viral.
O 1 de Maio passou em marchas silenciosas nas ruas desertas. As lutas pelos direitos dos trabalhadores foram trocadas pela homenagem a quem trabalha para arrancar da pandemia vidas em sofrimento e as trazer de volta à sobrevivência e aos seus lares.
Este vírus que retirou vidas, que separou famílias, que nos isolou em ilhas desertas de afectos, mas cheias, por vezes muito de medos. Revelou a nossa fragilidade, demonstrou a nossa coragem.
Não estamos vencidos, nem convencidos de qualquer derrota. Os dias são de luta, cada um por si, para vencermos todos.
O ficar em casa vai pouco a pouco transformando-se num voltar à rua. Abrimos a porta, espreitamos receosos, olhamos cada pessoa com uma estranha familiaridade, estamos todos no mesmo caminho, com um único objectivo, ficar saudável. Cuidamos da nossa saúde e da dos nossos o que significa igualmente da vossa e dos vossos.
A inconsistência das palavras, tornou-se a consistência dos actos e ideais, nunca houve um isolamento que nos unisse tanto.
O futuro pertence a nós e não ao Covid; temos esperança, tentamos ter confiança e acreditar, é isso que nos dá força para sair para a rua, entrar nos transportes públicos, ir trabalhar e no final do dia regressar a casa. 
Vamos ficar bem…

sábado, 2 de maio de 2020

Mãe não há só uma


Mãe é aquela que no ventre nos carrega,
Que nos torna a sua missão e entrega.
Aquela que traz a nossa vida ao mundo,
E a sua se torna nossa desde aquele segundo.
Mãe é que nos dá colo e adormece,
Aquela que de nós nunca se esquece.
Mãe é quem vela por nós pela noite fora,
E que mesmo cansada não se vai embora.
Mãe é quem nos ergue quando caímos,
E aquela que nos espera quando saímos.
Mãe é quem brinca connosco no chão,
E à noite estuda connosco a lição.
Mãe é aquela que supera a sua dor,
E apenas partilha connosco o seu amor.
Mãe é aquela que nos guarda no coração,
E esconde num sorriso qualquer preocupação.
Mãe é aquela que até no silêncio nos entende,
E tem sempre um abraço que nos estende.

sábado, 25 de abril de 2020

Dia da liberdade


Tenho liberdade para sair – Mas fico em casa.

Tenho liberdade para ir – Mas não vou.

Tenho liberdade para crescer – Mas encolho-me.

Tenho liberdade para ser feliz – Mas não sou.

Tenho liberdade para abraçar – Mas não abraço.

Tenho liberdade para sonhar – Mas não durmo.

Estou prisioneira  - Não matei, não roubei, não fiz mal.

Estou prisioneira – Não da doença,  dor ou de ordem superior.

Estou prisioneira – Não da política, nem sequer da legislação.

Estou prisioneira – De um vírus que me condena à solidão!


terça-feira, 21 de abril de 2020

Era um velho...


Dizem que era um velho,
Muito velho.
Dizem que era um pobre,
Muito pobre.

Tinha pouco mais que pão,
E um lugar certo no chão.
Mas todos os dias se levantava,
E com um sorriso caminhava.

Chamavam-lhe louco.
Feliz, com tão pouco?
Mas ele em poucas palavras dizia,
A alegria está em ter este dia.

Bastava-lhe ser quem era,
Que após o inverno viesse a primavera.
Vencera muitas guerras, curara muitas dores,
Conhecera, suspirava, bonitos amores.

Chorar, cria vendavais, e aprofunda o mar,
Devemos agradecer por o sol brilhar.
Acreditem, tenham esperança,
A vida é como uma criança.

Que cai e se levanta sem desistir,
Porque ainda há muito para descobrir.
Por cada escuridão que nos escurece,
Há uma luz maior que nos amanhece.

Era um velho muito jovem,
Como se fosse um começo de viajem.
Era um pobre muito rico,
Tinha um coração de ouro infinito.



terça-feira, 7 de abril de 2020

Post.it: A vida está cheia de nascimentos

“Nascemos muitas vezes naquela idade
onde os trabalhos não cessam, mas reconciliam-se
com laços interiores e caminhos adiados” J. Tolentino

Gosto de pensar que nasço na experiência de cada amanhecer, na descoberta de cada raio de sol que me invade o dia. Gosto de pensar que nasço em cada passo que dou, que já foi mais firme, não pela certeza do caminho mas pela capacidade de o fazer sem pensar que um pé vem depois do outro.
Mas sim, há uma calma que me acalma os sentidos, que me reconcilia com a sucessão de momentos, uns mais dóceis, outros mais angustiantes, outros ainda, os melhores, são aqueles que me sopram brisas inspiradoras de esperança. Sim, porque há esperança em qualquer idade, em qualquer crise, em cada fim que se torna começo.
Crescem os  laços interiores, forma terna de sublimar as nossas pequenas prisões, éticas, morais, educacionais. Compromissos que assumimos com os outros, mas sobretudo connosco. Gosto de pensar neles como algo que se dá porque nos é fonte inesgotável.
Outros laços há que os ato como quem guarda um molhe de cartas para que não se percam da memória que como se fossem pedacinhos de história vivida, sentida, sofrida com lágrimas e risos. Em tempos passados sentia gozo em desenlear nós, tinha paciência para essa tarefa, agora prefiro atá-los, para que não se percam, para que vão formando um fio encadeado de pequenas paragens onde temos de permanecer um pouco mais para saborear essa lembrança.
Como se fossem contas de um rosário, não para rezar e sublinhar as perdas, mas para contar e recontar os ganhos.
Houve caminhos por onde não fui, adiados? Não,  escolhas que fiz. Pouco importa agora, se foram os caminhos certos ou errados. Foram os certos para esse momento. Viver de arrependimentos é não encarar o presente que se torna passado a cada instante sem ter futuro.
O hoje pode parecer um momento estranho porque não sabemos como o viver. O amanhã pode parecer uma noite escura que receia amanhecer.
Mas enganam-se os que pensam que isto significa desistir. Continuaremos aqui, sempre que nos descobrimos amados e capazes de amar. Sempre que reencontramos o riso sobrevivente das lágrimas, porque a vida, acreditem, está cheia de nascimentos. E um amanhã sem Covid-19, sem dores, sem mágoas; está à distância da nossa coragem, da nossa esperança...


terça-feira, 31 de março de 2020

Post.it: #Fiqueemcasa


Pela sua saúde, pela minha, pela saúde de todos.
Fique em casa porque respeita a humanidade, porque gosta dos seus vizinhos, porque ama os seus amigos e familiares.
Fique em casa também por todos aqueles que não podem ficar e têm trabalhos essenciais para manter a sua e nossa sobrevivência.
Quem amassa o pão para que que nos chegue fresco ao pequeno-almoço.
Quem transporta e vende os alimentos que nos alimentam no dia a dia.
Quem vela pela nossa segurança nas estradas e nas zonas habitacionais fazendo cumprir as regras da boa conduta que um estado de emergência a todos exige.
Quem assegura pela nossa saúde em farmácias, serviços de emergência médica e hospitais. Pessoas que não podem ficar em casa, que trabalham horas infinitas, que arriscam a sua vida para melhorar e em muitos casos salvar a nossa.
Para eles, todos eles, a nossa homenagem, que traduzida em palavras, em aplausos e canções, não basta!
A melhor forma de lhes agradecer é ficar em casa, evitando apanhar e propagar um vírus que nos quer dominar e  em última instância matar.
Fique em casa, activo e atento, aceda a todos os meios tecnológicos que disponha, agora sim é a hora certa para se viciar em telemóveis, tablets e computadores, não só para jogar e ver as novidades, mas, para da sua casa chegar e entrar na casa de quem mais gosta, partilhar beijos e abraços que mesmo virtuais, estão carregados de emoção.
Fique em casa, horas, dias, meses, o que for necessário, sem se deixar cair na solidão desse aparente isolamento. Sinta que estando em casa cumpre um dever, encare-o como uma tarefa, viva cada instante com espírito de entreajuda porque neste momento, ficar em casa é a sua e nossa grandiosa missão.



domingo, 22 de março de 2020

Post.it: Neste recanto


Num recanto do mundo, é onde me sinto estar. Há quem se sinta num recanto da vida, escondido, com medo de um encontro funesto com a doença ou com outros medos que nos podem bater à porta. Sentimos-nos frágeis, vulneráveis, impotentes, sentimos-nos sós, obrigados a uma solidão que não escolhemos.
Não temos escolha, é o que nos desespera, esta espera, esta incógnita. O que não controlamos mas que nos controla.
Mas temos escolha. Podemos agir, deixar de esperar e seguir em frente, tornar cada dia a construção de algo melhor, uma dádiva. Uma palavra, um gesto, mesmo que seja na distância de segurança. E há cada vez mais quem o faça, cada pessoa começa a partilhar o que tinha de si para dar. Os ginásios colocaram aulas na Internet para quem estiver em casa se manter saudável e activo. Quem está ligado a áreas culturais disponibilizou conteúdos para que o tempo livre seja um tempo mais enriquecido. Ideias inovadoras vão surgindo para quem se quiser manter ocupado em casa, bricolage, trabalhos manuais, novas aprendizagens.
É claro que muitos nem sequer têm tempo para terem tempo livre, estão em casa mas estão a trabalhar nos seus ofícios. Mas mesmo esses, que no início pensavam que estavam numa situação ideal, sem horários rígidos, sem a perda de tempo nas filas dos transportes, constatam aquilo de que estudos recentes já tinham demonstrado. Estas pessoas, em tele-trabalho, confrontam-se com a sua própria exigência e caiem no extremo oposto de excesso de trabalho e muitas vezes numa solidão que lhes inibe a criatividade e sociabilidade no lar. É a fase que atravessamos, não gosto de lhe chamar crise, quero olha-la ainda com um olhar de esperança, quero acreditar que em breve vamos voltar a fazer longas caminhadas sem máscara, que vamos dar e receber abraços sem receio de estar dar e a receber, nada mais do que afeto. 
Até lá é preciso tomarmos consciência do que nos rodeia mas também interiorizarmos as nossas necessidades, capacidades e limites. E sobretudo é preciso que sintamos e façamos os outros sentir que, mesmo longe nunca estivemos tão perto, que cada um na sua casa, não está sozinho. Por isso, telefone, mande emails, fale, dê beijos e abraços aos seus familiares, amigos, colegas, vizinhos, todos precisamos de todos.


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Post-it: Ideais


Somos humanos incompletos, sempre em mudança, em construção.  Faz parte de nós esta insatisfação que nos faz procurar, descobrir, crescer. Temos sonhos, esperanças, ou seja ideais. Olhamos para o lado e sempre essa visão, talvez por nos ser exterior, nos parece melhor do que a nossa realidade.
 Queremos  a família ideal, os amigos ideais, a escola, os professores, os vizinhos, crescemos e começamos a delinear as relações afectivas ideais, os empregos ideais, os chefes, os colegas. O cônjuge ideal, os filhos, o futuro dos filhos, dos netos e do seu crescimento.
 Os nossos ideais vão diminuindo, começamos a idealizar pouco mais que a saúde ideal, dizem que isso é sinónimos de maturidade, mas pressinto que é também de  desilusão. Quando nos confrontamos com o passar da nossa já longa caminhada e constatamos que poucos ou nenhuns foram os ideais concretizados. Conformamos-nos, mas preferimos afirmar que simplesmente percebemos que a nossa felicidade não está nesses ideais mas na valorização da realidade vivenciada, fica bonito dizer isto, torna-se difícil senti-lo. É arrancar do peito anos e anos de planos, de um caminho que fizemos nessa direcção.
 Atrevemos-nos a idealizar, somos humanos, parar de sonhar, de ter esperança, de acreditar, de ter fé em algo melhor, é morrer antes da morte nos levar consigo. Por isso mesmo que baixinho, quase em silêncio, ainda aspiramos a um futuro sem data marcada, que nos seja solarengo de esperança, que nos encha de primaveril inspiração, que nos faça voar nem que seja apenas em pensamento e que se tivermos que pousar pesadamente despertando de mais um ideal fracassado então que seja sobre uma montanha de nuvens.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Do que precisas?



Dum raio de sol?
Vou buscar o mais quente para te aquecer.
Duma nuvem para repousares?
Já te trago a mais fofa para te adormecer.
Dum arco-íris cheio de cor?
Descobrirei o mais belo para colorir a tua vida.
Dum oceano para afogares as tuas lágrimas?
Transportarei o pacífico para te acalmar a dor.
De uma onda que leve para longe as mágoas?
Encontrarei a mais alta para de novo te erguer.
De uma rocha onde te apoiares?
Acharei a mais firme para confiares.
Duma sombra para te refrescares?
Vou buscar a maior palmeira para te proteger.
De uma estrela para brilhar na tua escuridão?
Escolherei a mais cintilante para te iluminar.
De um abraço leal?
Ofereço-te, simplesmente o meu…



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Post.it: Somos diferentes


Sempre achei que éramos iguais, acreditava no senso-comum. Que a única diferença entre nós humanos residia no género, masculino ou feminino, apesar de agora se falar de outros géneros, não vou discutir a questão. Dizia-se em tom de brincadeira citando o título de um livro que os homens eram de Marte e as mulheres de Vénus, daí as diferenças planetárias de maneiras de ser e estar na vida. Mas o tempo foi-me ensinando que as diferenças vão muito além do género, das fronteiras, da fé, da cultura, do meio social, das gerações. Que as diferenças são raízes que crescem em nós e nos separam, há quem goste de orgulhosamente preferir dizer que nos individualizam, que nos caracterizam, mas a verdade é que nos afastam, que criam mares onde não chegam pontes.
Sempre achei que éramos iguais, mesmo quando debatíamos horas infinitas a mesma questão nos seus diversos pontos de vistas,  quando tu vias o copo meio vazio e eu sempre o via meio cheio. Não éramos diferentes, partíamos de premissas distintas, seguíamos por caminhos díspares mas chegávamos sempre ao mesmo ponto de encontro. E isso, descansava-me.
Claro que me cansava a discussão, para te revelar o meu ponto de vista, para tentar perceber o teu, mas sabia que chegaríamos à mesma meta fosse qual fosse a rota seguida, o argumento mais ou menos eloquente.
Havia, diálogo e por diálogo, entenda-se eram duas pessoas a falar ainda que com argumentos diferentes, sobre um mesmo assunto. E sobretudo, quando diálogo era falar mas também saber escutar e entender o que o outro dizia.
Sempre achei que éramos iguais, mas afinal, somos todos diferentes. Talvez a única coisa que nos torna semelhantes é querermos todos o mesmo: sermos felizes. E  lutarmos por isso, mas com “armas” diferentes.
Essa diferença, de repente, “torna-nos, tão sós, cada vez mais sós, fechados no nosso mundo, longe de todos, mas com a sensação errónea de que tudo nos está perto, quase ao toque da nossa mão estendida.”
Mas, não perdi a esperança de encontrar o nosso ponto análogo, por pequeno que seja, que seja  um principio, um começo, uma descoberta, um olhar simultâneo, um sorriso partilhado, um simples, o mais pequeno, o mais ínfimo encontro no caminho que um dia, quem sabe nos seja comum.




segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Invejo-te


Invejo-te, a ti que recebes um sentir que não sabes cuidar.
Invejo-te o sentimento que lhe despertaste no coração.
Invejo-te que sejas tu que lhe povoas os sonhos,
Que lhe iluminas o olhar, que lhe cultivas a esperança.
Que o seu abraço tenha o desenho do teu corpo.
Que os seus lábios tenham os teus beijos.
Que sejas a inspiração dos seus pensamentos.
Que sejas a razão da sua coragem.
Invejo até as lágrimas que trazem o teu nome
Porque são mágoas apenas da saudade
Que apaga quando lhe trazes a felicidade.
Invejo-te porque és tudo o que eu nunca fui
Essa fonte imediata dos mais doces sorrisos.
Invejo-te porque vais onde nunca fui,
Até à essência profunda do seu ser.
Invejo-te porque és esse mar,
E eu serei sempre e apenas
Uma pequena gota…



quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Post.it: Pequenos sucessos ou grandes progressos


Sou uma pessoa positiva, mas de pés bem assentes no chão, por isso prefiro dizer que sou realista. Sou persistente, acredito na esperança como primeiro e último recurso. Insisto, teimo em não desistir. Se é difícil procuro torna-lo fácil, tem de haver algo bom mesmo no que é mau. Se tentar encontrar algo de positivo mesmo no meio de tantas coisas negativas já é uma pequena luz na escuridão. Defendo que nunca é tarde, que nada é tão mau quanto parece. Mas a cada passo as energias parecem esgotar-se, de imediato penso, amanhã é outro dia. Se não for este mês quem sabe no próximo. Não consegui este ano, mas vou fazer tudo para que seja no próximo. Afinal não dizem Ano Novo vida nova?
Sim com o começo do ano, é quase inevitável não desejarmos a renovação: seja dos nossos sonhos, seja das promessas que fazemos ou da esperança que continuamos a manter. E é por isso que iniciamos 2020 tal como nos outros anos tomando resoluções, quase sempre inexequíveis. Numa tentativa de nos mantermos fieis ao seu cumprimento, à frustração que sentimos quando não as conseguimos realizar. Isto acontece porque existe uma enorme diferença entre desejar a mudança e desejar-se mudar.
Outro factor importante diz respeito à tão falada e desejada força de vontade. Muitas pessoas assumem-na como uma característica da personalidade com a qual se nasce ou não. Mas há quem diga que pode ser treinada, como se fosse um músculo e quando exercitada pode tornar-se mais forte.
Todos nós somos um trabalho em progresso. E implementar mudanças nas nossas vidas não é algo que devamos fazer apenas no início do ano. Não existe melhor altura para mudar do que o presente. Mas se não conseguir alcançar grandes mudanças, há que ter em mente que pequenos sucessos conduzem a grandes progressos.



segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Desejos para 2020


Que o Ano Novo nos traga a força necessária para corrermos atrás dos nossos objectivos.

Que o Ano Velho se torne apenas uma lembrança e o Ano Novo a concretização da nossa esperança.

Que continuemos a cultivar bons sentimentos e perseguindo os sonhos que ainda não foram alcançados.

Que sejamos felizes desde o primeiro ao último dia repetindo o mesmo no ano  seguinte.

Que neste Novo Ano os nossos sonhos sejam tão grandes quanto a vontade de os realizar.

Vamos deixar no Ano Velho tudo o que de mau nos aconteceu e levar para o Ano Novo apenas a vontade  de conquistar coisas boas.

Que façamos das próximas 365 páginas da nossa vida um livro que sempre tenhamos prazer em reler.

Jamais haverá Ano Novo se continuarmos a repetir os erros dos anos velhos.

Que o Ano Novo tenha a dose certa de:

Esperança, perseverança, ousadia e de alegria.



segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Não adianta


Não adianta querer,
Que o sol esteja triste,
Ou na nuvem esconder,
A dor que em ti persiste.

Não adianta,
O vento vai soprar,
O sol vai brilhar,
Não fiques parada,
À mágoa agarrada.

Não adianta,
Querer esquecer,
Não adianta,
Lembrar,
Não adianta,
Sofrer,
nem chorar.

Deixa o coração,
Navegar,
Deixa a recordação,
Se apagar.

Deixa a vida,
Caminhar,
Deixa a ferida,
Sarar.


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Post.it: Sem asas


Quando nos tiram o chão ficamos sem poder caminhar, em redor surge como que um nevoeiro, não daqueles que nos aconchega mas o outro, aquele, quase tenebroso, que nos isola de tudo o resto. Que nos deixa numa margem distante de tudo o resto, como se já não pertencêssemos ali.
Procuramos desesperadamente o nosso lugar no  conforto  do passado esse tempo em que tudo nos era perfeito, os risos, os olhares, a vontade de realizar sonhos mesmo que acordássemos a meio deles e nunca os concretizássemos, nada nos demovia havia sempre outros para construirmos.
Era o futuro a chamar por nós, era cada amanhã, fonte inesgotável de energia onde tudo nos parecia eterno. Podíamos gastar, esbanjar sem receios, sentíamos que tudo em nós se renovava mais forte, mais rico de esperança.
 Quando foi que tudo foi que tudo isso mudou, que a fonte da juventude secou, que nos roubaram os sonhos, que nos aniquilaram as quimeras, que nos secaram as primaveras antes de florir, quando foi que as andorinhas escolheram outros rumos e deixaram de nos visitar.
 Quando é que as ondas deixaram de nos banhar e as dunas se tornaram cidades à beira mar. Quando foi que o farol se apagou, que a gaivota se silenciou.
São as fases de uma vida feita de socalcos, feita de ventos, tormentos, doces momentos, alguns lamentos. Somos nós, atando e desatando os confusos e intrincados nós de cada dia para conseguir por fim descansar nos braços da noite. Precisamos de nos encontrar, algures, onde estejamos, perdidos que estamos da criança que fomos. Precisamos de voltar a sorrir, voltar a acreditar, voltar a sonhar.  Talvez ainda não seja hoje, nem amanhã, desde que continue a haver muitos amanhãs solarengos dentro de nós, um dia as andorinhas hão-de voltar.