terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Só tenho o sonhar

Que importa se o amanhã,
Forem as lágrimas de um mar.
Quando a esperança mesmo vã
No hoje me faz tão longe voar.

Que importa se o sorriso
For uma leve brisa fugaz.
Só dessa brisa preciso,
Se nela encontrar a paz.

E se for somente um esboço,
Criado por laivos de fantasia?
Sinto que podia ser um poço,
Porque feliz nele mergulharia.

Para ter o terno prazer,
De encontrar no seu olhar.
O reflexo do meu a nascer,
E para sempre aí morar.

Na pobreza do meu viver,
Na solidão do meu amar.
Sem nada para lhe oferecer,
Oferecia-lhe o meu sonhar.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Post.it: Brumas da memória

Somos feitos de histórias, umas melhores do que as outras. Diferentes nos momentos, nas personagens, na história que contam. Mas são parte de nós. Compõem-nos, dão-nos traços de riso ou de lágrimas. Iluminam o nosso olhar ou roubam-nos essa luminosidade.
Contas-me uma história, a tua, confessas-me um pouco mais de ti. Revelas -me como foi viver uma dessas histórias, talvez, não a mais feliz, talvez, inclusive, não seja a história que a memória deseje visitar quando a saudade se torna um rio, por onde velejam os barcos dos nossos ensejos.
Mas o tempo, esse sábio curador, atenua e adoça a mácula das horas, que desejaríamos, tivessem encerrado outro sentido. Mas é a história da vida. Não é mais uma, é apenas aquela que deixou atrás de si um rasto de nostalgia no horizonte da sua existência.
 Podia dizer que se arrependeu de a viver, mas não é verdade, admite sem embaraço, porque como escreveu F. Pessoa “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. E a alma é grande, porque nela cabe tudo o que já foi, tudo o que é e tudo o que será. Não se arrepende, até agradece a cada memória, o despertar das mais belas emoções. Tal como agradece a cada pessoa que já saiu do seu caminho e a cada pessoa que nele permanece, a história que lhe permitiu viver e recordar, crescer em maturidade e dilatar o sentir do coração, enquanto a bruma do esquecimento a vem docemente envolver no seu manto de paz. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Post.it: Escrever o caminho

“Vive a vida na ânsia de um cavalo cansado, cansado, mas não derrotado”. Que continua sem desistir, talvez já não corra, talvez apenas trote, caminhe de passos lentos, trôpegos até. Mas quando se tem um objectivo superior,  as forças renascem, o ânimo reacende-se.
E não importa a soma dos anos, nem a neve que se instalou nos seus cabelos.
Escreve, regista cada momento, no diário de memórias, antes que o tempo as roube. Escreve, mesmo que a mão trema, continua firme o coração. Escreve para encontrar um caminho que o leve à meta, conhece-a, ou melhor, adivinha onde ela está. Já tentou seguir por atalhos, numa escrita ténue de sentimentos e suave de emoções. Um a escrita que tocou  uns, que passou ao de leve por outros e ao lado de muitos.
 Mas agora, agora que o fôlego lhe vai faltando, escreve com coragem, com a última réstia de alento. Escreve desejos que já não se escondem, que se assumem reais. Não podemos adiar a vontade, quando esta dita o ensejo, o destino. Mesmo que ele não se cumpra. Que fique aquém do nosso empenho.
Escreve, porque a voz o trai, por timidez ou inibição. Escreve, porque sempre encontrou nas letras a amizade leal que só elas podem oferecer.
No final da tarde, pousa a mão cansada da missão. Pousa os pensamentos. Descansa os desejos. Saboreia cada frase, respira cada palavra e sorri. A obra não está perfeita, mas está igual a si, humana, palpitante de vida. Numa escrita que o eterniza tanto tempo quanto o permitir o papel folhado por muitas mãos que nunca o conheceram como homem, apenas com autor daquele livro de capa bonita que fica bem em qualquer estante e quem sabe em qualquer coração que o leia, ofereça, partilhe e o leve tão longe como o sonhar de quem o escreveu.
A mão continua pousada, incapaz de escrever a palavra fim, porque nenhum livro tem um final definitivo, cabe a cada leitor acabá-lo. Enquanto ele, autor, descansa a pena e adormece ao mesmo tempo que o sol se põe no horizonte.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Post.it: O que nos liga

O que nos liga é esta última gota de orvalho esquecida na madrugada. O que nos liga é este céu, este dia, talvez esta hora. No momento em que o pensamento se reconcilia com as lembranças e dói no peito uma nova dor.
Passam-se dias, meses e a dor instala-se como se tivesse encontrado um lar. Sufoca-nos, rouba-nos o alento. Escurece o sol, entristece as flores, o tempo sem energia, arrasta-se como se carregasse às costas cada hora, cada minuto, cada segundo que demora a passar.
Alteram-se os sons, emudecem as vozes, até Chopin muda de tom, num tilintar copioso, que não é chuva, mas notas de um chorar dentro da alma.
Há palavras a quererem sair mas já sem nada para dizerem, quedam-se silenciosas em respeitosa contemplação.
 Os olhos escondem-se num fechar de pálpebras, que já não querem ver a paisagem, como se o horizonte fosse apenas um vazio de imagens sem emoção.
Por fim, liberta-se um suspiro há muito sufocado no coração. Um suspiro que se eterniza em busca dum eco que lhe corresponda. E a dor... a dor ganha um nome, o teu, saudade.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Post.it: Produtos gourmet

Na vida já experimentámos várias situações, já atingimos um patamar superior, aquele que nos permite ter bom senso para escolher, para avaliar. É uma sensação impar, uma sensação de poder. 
Finalmente podemos optar e dizer, não e, esse não, ser tido em conta. Conquistámos o nosso lugar social e familiar. Agora queremos apenas o melhor, nada menos que isso. O melhor da vida, longe da ansiedade, da dúvida, dos receios de fracasso. Longe da apreensão de não sermos aceites, de sermos avaliados. 
Conscientes de quem somos, do que crescemos, descobrimos que já não é preciso esconder ou fingir uma força que não temos. Aceitamos que somos apenas seres humanos. Redescobrimos o valor da amizade, os amores vêm e vão como ondas na maré, mas os amigos, esses permanecem como um reduto de segurança. Uma amizade que nos permite ser a intrínseca  verdade, conquistada a pulso, numa luta contra gigantes que descobrimos afinal, que apenas estavam em nós. E que essas pequenas fraquezas e vulnerabilidades fazem parte do  nosso “charme”. Partilhamo-las com orgulho delas e com grande surpresa,  encontramos idênticos sentimentos no nosso núcleo de amizade. Agora sim, estamos mais íntimos, mais solidários, mais amigos. E no final desse encontro sentimo-nos mais enriquecidos. Claro que a paixão ainda paira de quando em vez nos nossos pensamentos, ainda nos agita o coração, esse fascínio que faz milagres à pele, ao olhar, à auto-estima. Mas temos consciência que é um pouco como um gelado, cujo sabor já conhecemos, sabe bem, mas não preenche e como tal comemos mais, desejamos mais, quando damos conta estamos uma "baleia" solitária, porque a paixão, essa,  já partiu e, nós acabamos no melhor dos casos num qualquer spa, numa dieta drástica ou num vale de lágrimas. 
Os gourmets da vida já não sentem atracção por “gelado”, ou pelo menos já os escolhemos com mais requinte, com mais calma. Apreciamos a qualidade, informamo-nos dos elementos que o compõem, verificamos as calorias, se é duradouro ou fugaz. Não há garantias, nunca houve. Mas há a tranquilidade de se saber o que se quer e  que finalmente, merecemos produtos gourmets.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Post.it: Na sombra dos dias

Um adeus, um recomeço, um gesto adiado, um passo parado. Uma espera de tudo, uma espera de nada. Uma pergunta calada. Uma resposta nunca dada. Eis a sua história, sem presente, sem passado e mais ainda supõe, sem futuro. Causas, culpas, não existem. Apenas uma espera cansada de esperar. Que tudo aconteça, que se abra a porta, que alguém bata na janela. Quem? Questiona o coração. “A esperança”. De quê? Menciona a dúvida. “De encontrar a felicidade”. Mesmo que não tenha nome, que surja num rosto desfocado pelo desvanecer da memória.
Mas enquanto há vida, há esperança, repete de sorriso triste, quem já não tem motivos para sorrir. De quem viveu uma vida a esperar, por algo que tardou tanto, que cada vez mais acredita que nunca chegará esse alguém que lhe afague os últimos cabelos brancos e, que lhe encha de sol o olhar já entardecido.
Todas as manhãs ergue a esperança, arranca-a do leito onde teima em ficar, já sem forças para continuar a ser a coragem daquele corpo fatigado, mas não esgotado, refere num ímpeto de teimosa insistência. Porque os seus passos ainda insistem em caminhar na sombra dos dias que passam sem deixar rasto, em busca de outros passos também cansados de andar sozinhos e que queiram fazer companhia aos seus.
Vejo-o afastar-se devagar, porque, embora o coração tenha pressa, a vida não tem pressa de chegar, quer apenas continuar a ser vivida.
Pergunto-me se conseguiria esperar assim, uma vida inteira e, concluo que “depende mais do mar do que da maré”. De encontrar em cada dia uma razão para acreditar. “Dá-me um sonho e eu continuarei a sonhar” e a caminhar ainda que apenas, na sombra dos dias.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Post.it

Pequenos recados,
Não são lições a reter.
Mas que deixo colados,
Para não me perder.

Nada tenho a ensinar,
Mas o pouco que sei.
Para sempre o praticar,
Em lembretes transformei.

Porque a memória,
Já brinca e engana.
Desenhando a história,
Em sonhos de cama.

Alguns são especiais,
Pinturas quase rupestres.
Palavras que de tão banais,
Não igualam as dos mestres.

Pensamentos em viagem,
Por caminhos de emoção.
Quando na sua linguagem,
Fala timidamente o coração.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Romances literários

Romances onde a palavra voa,
E mesmo que não seja boa.
A escrita sempre permanece,
Quando na estante adormece.

Ela liberta-nos deste lugar,
Eleva-nos, faz-nos sonhar.
Com uma outra realidade,
Cheia de paz e felicidade.

Oferece-nos bons amigos,
Que nos afastam dos perigos.
Sentimo-los como quase irmãos,
Tocamo-los no estender das mãos.

Confiamos-lhes as mágoas,
Afogamo-las nas suas águas.
Conhecemos as suas histórias,
E festejamos as suas vitórias.

Desejamos-lhes um final feliz,
O que cada um para si quis.
E na hora da despedida,
Fica a saudade entristecida.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Post.it: A vida que te dei

Porque te dei a vida? Dizes-me isso como se tivesse sido, um acto de egoísmo da minha parte. De quem quer realizar através dum filho os seus sonhos impossíveis. Mas a verdade é que quando pensei em conceber-te, tive apenas como objectivo o desejo de te amar e fazer feliz. Claro que no meu ideal, tudo era possível de te oferecer e de te proteger. Mas fui descobrindo que podia tentar, mas nem sempre, concretizar os meus objectivos e os teus desejos. Em alguns momentos, sinto que fracassei, mas noutros, quando leio uma luz de felicidade no teu olhar, sei que consegui cumprir o meu papel de mãe.
Sobretudo sei que tudo o que fiz foi com o coração cheio de amor e de esperança, sentindo que estava a realizar o melhor para a tua vida. Porque é disso que se trata, a tua vida, a que te ofereci. Pois fui concluindo com alguma angústia, que posso caminhar a teu lado mas não a posso viver por ti.
Porque nunca te prometi que só terias alegrias. Mas tentei ensinar-te a superar as tristezas.
Não te prometi riquezas materiais. Mas tentei que desenvolvesses potenciais para as alcançares.
Não te prometi que viverias num mundo perfeito. Mas tentei que aprendesses a lutar pelos teus sonhos e direitos.
Não te prometi que o egoísmo de algumas pessoas não te magoaria. Mas tentei incutir-te valores para os perdoares nas suas faltas.
Não te prometi imunização contra os obstáculos do caminho. Mas tentei que adquirisses capacidades para os ultrapassares.
Não te prometi que todas as amizades seriam leais e companheiras. Mas tentei que aprendesses a valorizar os verdadeiros amigos e a ser compreensiva com os que o não são.
Não te prometi que serias sempre saudável. Mas tentei ensinar-te a paciência para lidares com os teus males.
Não te prometi que só irias desenvolver pensamentos felizes. Mas tentei fortalecer-te para os aprenderes a direccionar nesse sentido.
Não te prometi que tudo na tua vida iria correr bem. Mas tentei intensificar o teu carácter para que inteligentemente construísses novos objectivos.
Não te prometi que todos te amariam. Apenas disse que te amaria incondicionalmente e para sempre.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Post.it: O que nunca te direi...


Todas as palavras serão sempre demasiadas, quando não temos quem as possa ouvir. Todas as palavras serão apenas ocas, quando não encontramos quem as possa sentir.
Porque as palavras são mais do que letras ou sons. Têm vida, sentimentos, lágrimas, mágoas, lamentos. As palavras têm asas, aproximam ou afastam consoante os ventos da receptividade. Já não sei que palavras use, depois de todas as que já empreguei, num vazio de palavras submergi, porque nem que gaste todas as palavras do português e desempoeire as do meu latim, poderei conquistar o caminho certo para a tua alma para nela repousar o meu querer.
Retidas numa fronteira de sentimentos adversos, murcham as palavras, perdendo o sentido, esquecendo a direcção. Enquanto perecem sem florescerem no encontro de outras similares, de há muito demoradas.
Novas palavras vão surgindo, sem o ímpeto das que outrora. Porque os sentidos ainda aportados, não conseguem levantar a âncora e navegar por novos mares. Quanto às velhas palavras, guardá-las-ei nas entrelinhas, agora que já não as escrevo e serão para sempre as palavras que nunca te direi…

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Post.it: O nosso mundo


Vivemos todos no mesmo mundo, ou talvez não. Há quem viva em mundos de fantasia porque não consegue encarar a realidade. Há quem viva no passado porque não tem coragem de conquistar o futuro. Há quem viva agarrado a impossíveis com receio que os possíveis sejam piores. Há quem viva almejando o amanhã porque não consegue apreciar o hoje. Há quem viva convencido que é o melhor porque tem receio de enfrentar a concorrência. Há quem viva num mundo de revoltas, de batalhas que nunca ganha porque não aceita que ceder também é uma forma de vencer. Há quem se considere único porque não sabe como conviver com os outros.
Vivemos todos no mesmo planeta, mas decididamente em mundos diferentes. Mundos que criamos à nossa medida, para corresponder a modelos, ideais, expectativas. Mundos que muitas vezes se revelam bolas de sabão, castelos de areia, frágeis e perecíveis.
Quando um dia nos encontrarmos no mesmo mundo, talvez consigamos ver os outros e possamos aprender juntos a criar um mundo real, talvez não seja o melhor dos mundos. Mas é certamente aquele onde podemos construir a nossa felicidade.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Esperei por ti


Esperei por ti,
Em cada Primavera,
Que murchou de solidão.
Em cada Verão,
Que não me aqueceu o coração.
Em cada Outono,
Que no silêncio caiu.
Em cada inverno,
Que só o vento se ouviu.

Esperei por ti,
Com a chuva no olhar,
E uma tão vaga esperança,
Que te fez em mim ficar,
Terna e definitiva lembrança.
Essa gota que fechei na mão,
Triste desencontro da felicidade.
Não a quero reter no coração,
Deixo que voe com a saudade.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Post.it: Oração à vida

Vida dá-me a coragem: 
- De viver 365 dias, sem concretizar os meus sonhos. Mas despertar em todos esses dias com vontade de te acolher no meu abraço.
- De para encontrar no vazio, a plenitude de viver grata por ter em ti nascido.
- De encontrar um lado positivo em tudo o que me parece negativo e me desmotiva a seguir     em frente.
- De sentir cada obstáculo como um desafio. Cada pedra como um degrau que me leva ao topo.
- De converter cada lágrima num amplo e sincero sorriso.
- De encontrar na solidão o prazer do reencontro com a minha companhia.
- De vencer os meus receios, as minhas dores e de as transformar em amor.
- De conseguir direccionar sempre os meus pensamentos, os meus sentimentos para um rio de límpidas e tranquilas águas. 
- De acrescentar vida aos meus dias e não me contentar em acrescentar dias à vida.
E quando já nada restar, que encontre nesse nada, a sensação plena de tudo.
E saiba por fim agradecer, cada um desses 365 dias transformados em anos, cada instante desse tempo que me faz renascer e ser um pouco de ti…

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Post.it: Carta para a mãe

“Porque não vieste hoje aconchegar-me os cobertores, nem dar-me um beijo de boa noite?
Onde estás? Já percorri a casa e não te encontrei. O pai permanece em silêncio olhando para o televisor apagado. A mana fechou-se no seu quarto e não me abre a porta. Alguém murmurou em tom de reconforto, que estás no hospital, quero saber mais, mas ninguém me responde. Talvez tenham medo que eu chore. Mas eu choro de qualquer forma, porque tu não estás. Porque me sinto perdido sem ti. Não sei caminhar sem a tua presença a meu lado. Tenho saudades tuas e ainda ontem te vi, mas o hoje parece-me tão já tão longe desse momento, tão imenso no tempo e no espaço. Sempre me chamaram, menino mimado, porque quando te afastavas, chamava logo por ti. Gozavam comigo, mas não me importava, porque tu também não lhes ligavas. A cada expressão de zombaria, apertavas-me mais no teu abraço e fazias-me sentir mais forte. Por vezes diziam-te que tinhas de me “cortar o cordão umbilical”. Olhava-te assustado, com receio que seguisses esse conselho, quando eu ainda me sinto no teu ventre. Preciso dele, porque é   o meu porto de abrigo, que me protege das tempestades do mundo que por vezes me é tão agreste. Mas tu perante esses conselhos, sorrias, era a tua forma de lhes dizeres, que não percebem nada de amor maternal. Dessa magia que só sente quem colocou nos genes todo o seu afecto, que criou na gestação mais do que um ser, mas uma ponte, um laço indestrutível, que não sucumbe ao tempo nem à vida. Sinto-me só, tão só, como se tivessem arrancado do meu ser a alma que tu eras em mim. Escrevo-te esta carta, porque já não sei que mais fazer para chegar a ti, para te dizer tudo o que sinto, para te pedir que não demores ao lar que tens no meu peito.”

“O nosso filho entregou-me uma carta, disse para a entregar à mãe. Olho o envelope, e depois o seu rosto, vejo-o triste, quero abraçá-lo mas ele foge de mim como se fossem só para ti os seus carinhos. Não sei o que lhe dizer, digo-lhe que te entrego a carta. Guardo-a na gaveta da cómoda do nosso quarto. Quem sabe um anjo a vem buscar e a leva até ao céu onde tu certamente estás, olhando para nós, como sempre a sorrir e, lendo a carta que o nosso filho te escreveu.”

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Post.it: Sem retoques

Numa daquelas conversas de café que cultivo como uma tradição, lançaram-me uma pergunta, talvez pouco ética, mas a verdadeira amizade permite certas liberdades sem ficar beliscada. “Qual é o teu estilo?" Perguntaram-me com olhar pouco aprovador. Tesouras afiadas prontas a esquartejar o que resta do meu look. Devo confessar que saí de casa a voar para não chegar atrasada, coisa que valorizo mais do que a conjugação de cores, padrões e peças de roupa. O espelho, bom amigo, manteve o seu silêncio que entendi como aprovação e fechei a porta convencida que estava cheia de style.
- Bom, o meu estilo? Tento responder meio hesitante, enquanto tropeço nas palavras, como se fosse ainda uma aprendiza da língua pátria. Por fim, balbucio algo perceptível. 
- Nunca me debrucei sobre o assunto, mas suponho que o meu estilo seja a inexistência de estilo. Gosto do que é malfeito, de coisas desajeitadas, que caem e pendem por todos os lados num perfeito desalinho, meio hippie, meio cigana.
Observo-me, sem entender a questão, reparo que uso a roupa uns quantos números acima, porque gosto de me sentir confortável. Além disso, não me importa o visual, é apenas um embrulho, mesmo que mal-amanhado. O meu look, é sobretudo um desafio, não para todos, mas apenas para alguns, aqueles que indiferentes à mera aparência, se acerquem e tenham alguma curiosidade em desvendar o conteúdo. No entanto, poucos têm coragem de passar a fronteira do olhar, erguem muros de preconceito, tornam-me invisível. Não sei se hei-de chorar ou se rir dos julgamentos que a mente faz, estigmatizando sem apelo nem agravo, alguém que tem por culpa a determinação de ser verdadeiro, sem retoques de vaidade. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A carta do destino

Haverá sempre um rio, uma ponte,
Haverá sempre um céu como horizonte.
Haverá sempre um mar ondulante,
E uma vaga com o teu nome viajante.

Haverá sempre uma nova primavera
A nascer mesmo, depois de nós.
No jardim duma longínqua quimera,
Que nos deixa cada vez mais sós.

Haverá sempre uma andorinha
Que não sabe se torna a vir.
Haverá sempre uma estrelinha
Na noite escura a tentar sorrir.

Haverá sempre uma nuvem que chora,
Cúmplice da minha perpétua solidão.
Haverá sempre um silêncio que implora,
Sentir o abraço do mais terno coração.

Haverá sempre um frio amanhecer
Que se adia em cada novo despertar.
Haverá sempre escuridão do anoitecer
Reflectindo-se na sombra do meu olhar.

Haverá sempre um novo caminho
Que o tempo nunca consegue deter.
Por muito que lhe chamem destino,
Chamo-lhe carta que estou a escrever.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Post.it: Quantas margens tem o rio?

Quantas margens tem o rio da vida? Suporia que tem duas, a tua e a minha. Mas tem outras, muitas outras, feitas de memórias transformadas em saudades. De desejos fracassados. De sonhos construídos nos braços da noite e despertados na solidão da madrugada.
Quantas margens tem o rio da vida, esse rio feito de lágrimas caladas, e outras, tantas gritadas, mas que acabam sem desenlace, ou tão-somente, enredadas, prisioneiras dum coração que quer, sem saber como, viver a felicidade que acredita é sua e,  está ali. Naquele lugar, naquele olhar, na perdição de uma paixão, ou na salvação duma conciliação. Reconciliação, talvez…
E, então, desenhas margens, soluçantes.
Esboças um futuro que não é feito de nós. Delineias um encontro continuamente desencontrado. Planeias recomeços que não saem do tracejar do pensamento. Gizas um sonho, onde não surjo.
Não podemos deixar de ser quem somos, só porque não conseguimos voar. Não podemos deixar de sentir o que sentimos só porque esse sentir não completa a nossa sorte.
Então extingo as palavras, emudeço a escrita. Tapo os ouvidos para não ouvir o que me dizes dentro do peito. Fecho os olhos, não quero mais, enredar-me no fascínio do que és, quando me brincas na fantasia, quando me envolves de quimeras.
Porque, por muito que o tentemos, seremos sempre silêncios perdidos entre as margens de um mesmo rio, onde tu danças, brisa, sopro de vida, meu derradeiro alento.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Post.it: As datas são ciclos de vida

O dia de hoje fecha um ciclo de festividades, para uns com relativa tristeza, para outros com indiferença. Uma indiferença que lhes é habitual e que nos leva a esta pequena observação.
Que importância tem o que cada um faz com os dias, são deles. Usem-nos bem ou mal, é um direito seu. 
Que importância tem o que cada um faz com as datas mais importantes para o seu ciclo de vida. Se forem  relevantes ou não para si.
Que aufiram dos feriados, reconhecendo-lhe apenas o beneficio do descanso ou a quebra da rotina que estes permitem. Esquecendo que ele conta uma história feita de lutas e de sangue para conquistar aquilo que hoje somos.
Aos aniversários, que podem constituir uma verdadeira chatice, o ter de lembrar quem apetece esquecer, desvalorizando a importância que cada um tem para a construção da nossa sociedade.
Ao Natal, cheio de teorias, de frases clichés. Natalices que para alguns parece rimar com pedinchices,  lamechices, em suma chatices. Porque lá temos de gastar o nosso parco pecúlio em prendas que ninguém precisa ou nem sequer aprecia.
E lá vão ter que assassinar a dieta, trucidar o colesterol, esquartejar a diabetes. Tudo em nome de uma causa, mais que não seja para não ficarem desenquadrados do espírito de comunhão.
Não me atinge que existam tais sentimentos. Que coexistam tais indiferenças. Só me incomoda o facto de não entenderem que nem tudo é pura fabricação, adaptada a cada comemoração. Que não tem que ser entendido como um mero aproveitamento comercial que nos vicia no desenfreado consumismo. 
Se não convivem bem com tudo isto, em vez de se limitarem a ser a oposição crítica, sejam a diferença, a solução. Revelem novas possibilidades de um Natal, aniversário, feriado, etc., mais baseado em valores espirituais e menos materiais. Mas sobretudo entendam que há pessoas que os vivem e sentem no âmago do seu ser. Que os oferecem aos outros, não só em determinadas datas, mas em todos os momentos, que se disponibilizam a estar presentes, de corpo e alma. Porque há pessoas assim. E confesso, com genuína alegria, conheço algumas e acredito que existam muitas mais.
Porque é delas que a humanidade é feita, quando tudo parece perdido, são sempre as primeiras a chegar e as últimas a partir.
São estrelas que nos guiam pelo túnel escuro em que por vezes nos sentimos mergulhados sem encontrar uma saída.
Gostaria que todos os que desconstroem argumentativamente todas as comemorações tenham a capacidade de construir, com ideais positivos, um novo e melhor mundo que a humanidade possa celebrar todos os dias e não em só em determinadas datas.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Post.it: O espelho

É um objecto sem nenhuma característica especial, parece uma coisa sem nada, sem alma, sem vida, sem atitude, sem palavras. E no entanto ele olha para mim e vê-me tal como sou. Revela cada detalhe que aceita de mim. Que mostra sem apontar defeito. Porque para ele eu sou um ser perfeito. 
Sorri-me, quando lhe sorrio. Olha-me nos olhos e vê-me a alma. Nem sempre gosto dele, há dias que não o consigo encarar, mas não adianta negar a sua existência porque há momentos em que por mais que me esconda, ele descobre-me à sua frente. 
Desnuda-me o sentir, obriga-me a ver quem sou em si. Já não tenho segredos para ele. Conhece cada detalhe, cada cabelo branco, cada ruga, cada estria, cada recanto em que me encanto ou por vezes me desencanto. Nem sempre é fácil estar ali, perante ele, sem defesas, é preciso coragem para abrir as pálpebras. 
Por vezes, tenho esperança que não esteja presente, mas está, porque ele sabe que não adianta fugir da realidade, então retribui-me a tristeza que sinto, a lágrima que teima em espreitar. E quando o vejo, tão triste assim, ponho de lado o meu desgosto e ofereço-lhe o mais amplo sorriso.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Post.it: Lagartixa ou jacaré?

 “Quem nasceu para ser lagartixa nunca chegará a jacaré”. Um ditado antigo que parece aprisionar-nos para sempre numa terrível estatística. Amartya Sen, prémio Nobel da Economia (1998), defende que  “a pobreza não se mede pela existência de um ou mais dólares na carteira”.
Porque a pobreza, conclui, ou ausência dela, depende menos do dinheiro do que das circunstâncias onde vive cada pessoa, da sua genética, da sorte, dos seus pais, do clima, da roupa que usa, da voz que tem, das emoções que transmite e de um conjunto impressionante de outras possibilidades que salvam uns mas condenam outros.
Contudo Amartays vai mais longe na sua abordagem “O desenvolvimento consiste na eliminação das privações de liberdade que limitam as escolhas e impedem de exercer ponderadamente a sua condição de cidadão”. Dando ênfase à questão de que as pessoas devem ser livres para fazer o seu caminho, ampliando a ideia de que a liberdade molda a evolução do desenvolvimento humano. Concluímos que não é um percurso fácil mas que é possível, libertarmo-nos definitivamente da possibilidade de entrar e permanecer na lotaria Darwiniana. Para tal temos de construir uma nova herança social, quebrar o elo mais fraco e construir outro fortalecido pelo poder da acção. Conscientes de que podemos ter um papel decisivo no sucesso ou insucesso pelo uso da nossa liberdade. Sem ficarmos simplesmente “condenados” , pela sorte ou pela falta dela.
Agora que esperavam que esta fosse a  conclusão indiciando que se deve contrariar a ordem estabelecida tornar-se num self made man, vou virar o rumo da intenção discursiva. Porque “Se é verdade que a lagartixa nunca chegará a jacaré”, observemos pela positiva, terá uma vida feliz num qualquer jardim sem “acabar em exposição numa loja de malas” Quem é que deseja ser um mau jacaré quando se pode ser uma excelente lagartixa? Não é uma questão de acomodação, mas de opção entre andar eternamente atrás de sonhos ou melhorar em cada dia a sua realidade. Afinal a sociedade é composta de tudo e de todos os que representam com brio e perfeição o seu papel. Agora sim, e em conclusão, tudo é válido e meritório, o esforço para conquistar um lugar no topo da hierarquia ou ser a solidez da base que equilibra a pirâmide.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Post.it: O mar do olhar

Olho o mar, e o meu olhar torna-se barco de vela erguida rasgando as suas águas. Estendo os braços, no sonho de abraçar as suas vagas. Como desejava acalmar-lhe os vendavais, amaciar-lhe as rochas para as tornar o seu aconchego. Que solidão a sua, por não ter a liberdade de entrar pela terra adentro, entender-se numa duna e ter sonhos de luar. Como compreendo essa solidão, tão idêntica à minha, prisioneira do meu querer. Só quando o mar ascender às nuvens e nelas escrever o nome da sua ventura. Só quando já não tivermos âncoras... 
Quando já não precisarmos de cais...
Podemos por fim voar com o sentir leve para amar...
Um amor que não nos aprisiona no eterno desencontro. Um amor que nos faz tocar o céu do reencontro.
Poderemos então desenhar na areia um coração que o mar beijará sem apagar. Porque nem sempre o mar do olhar tem de ser triste. Mesmo feito de águas, mesmo feito de mágoas, o sorriso ainda persiste…
Quando o olhar do mar no nosso olhar, repousar.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

post.it: É tempo de construir certezas

Ano Novo, Vida Nova, dizemos num ímpeto de mudança. Erguendo uma réstia de forças que nos trouxe até aqui, ao início deste ano, desta estrada que se estende como uma folha em branco perante nós. 
Claro que não será fácil continuar a escrevê-la, a palmilhá-la. Para trás ficam capítulos de um viver que já preencheu folhas e folhas de momentos bons ou menos bons. Momentos para lamentar as escolhas feitas do nosso leque de opções, mas também de muitos outros momentos que guardamos num cantinho do coração. Felizes ou não, foram eles que nos fizeram atingir cada meta e criaram em nós esta vontade de querer ir mais além.
                                                  Quando sonhar já não basta… 
                                              Quando o esperar já não conforta…
Não podemos continuar a alimentar-nos de vagas esperanças. É tempo de construir certezas. E porque a época ainda é natalícia, vamos abraçar o presente que é a Vida e darmos as boas vindas ao Novo Ano, desejando que nos seja venturoso e nos dê ânimo para concretizar a pessoa que somos. Feliz Ano!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Post.it: Final de Ano

Onde vou passar este final de ano? Talvez a descansar o olhar no mar. Deixar a alma navegar. Deixar que o rumo me escolha, porque o caminho, esse, está cansado de escolher, sem acolher o sentido recíproco do que sente. Lemas ou dilemas, é tempo de libertar no vento o último lamento e deixar espaço no coração para que surja a oferta dum início, que pode vir na promessa de um Ano Novo que se anuncia sem mácula. Um ano inteiro de expectativas. 12 meses para vencer as batalhas do existir. 366 dias de possibilidades para conquistar o almejado desejo. 8784 horas de sonhos que nos fazem despertar com vontade de os realizar. 525600 minutos que nos oferecem a oportunidade de voar no pensamento e aterrar na ternura do sentimento. Milhões de segundos que sem pressa nos convidam:
“A ser vida, sol e mar.
Estrela, arco-íris e luar”.
Perdoem-me se a minha matemática não estiver exacta. Mas nada é exponencialmente exacto, guardemos, apenas a ideia deste imenso tempo que nos é revelado como um percurso de vida. E se nem tudo correr a 100% como desejaríamos, não devemos desistir no primeiro obstáculo que se nos depara, afinal, temos ainda muitos meses, dias, horas, minutos e segundos para aprendermos a ser felizes.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Post.it: Tempo de balanços

Há momentos em que todos nós fazemos o balanço dos dias, dos meses, dos anos, de isto ou daquilo. Momentos em que decidimos arrumar as gavetas do pensamento, as prateleiras do sentir. Momentos em que questionamos cada passo dado e todos os outros que ficaram por dar. Em que duvidamos do rumo que o futuro nos indicia. Cada um fará a sua análise mais ou menos profunda. Cada um valorizará de diferente forma os acontecimentos com que se deparou. Nessa fronteira entre o que  fomos  e o que pretendíamos ser.  Teremos alcançado os nossos objectivos? Teremos falhado nos nossos planos? Concluímos necessariamente que nem tudo foi sucesso. Nem poderia ser, porque colocámos a fasquia das nossas ambições demasiado alta. Mas houve pequenas vitórias. É para elas que devemos dirigir a nossa atenção. É com elas que devemos aprender a conhecer os limites da nossa dimensão humana. E na próxima vez que delinearmos uma lista de desejos, vamos ser mais humildes nos desejos para que no final os alcancemos todos.
 “Se no final do ano as recordações não te trouxerem uma lágrima de tristeza ou de alegria, então, foi um ano vivido em vão. Porque a alegria faz-te compreender a tristeza. E a tristeza faz-te lutar chegar à alegria”.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Post.it: Eclipses solares

Há pessoas que são um sol de tão positivas, de tão radiantes perante a vida e na superação das suas adversidades. São um sol, por verem um pequeno raio de luz em cada túnel que temos que atravessar. Permanecem um sol mesmo quando as nuvens de inverno o encobrem na sua densidade de lágrimas.
No entanto há outras pessoas que são a lua, na sua penumbra sempre hesitante, sempre perscrutando nessa quase escuridão algum obstáculo, duvidando que ele não exista mesmo quando não o encontram. O seu olhar esconde-se nessa fase lunar sem se deixar iluminar pelo sol dos outros, sem se deixar aquecer pelo seu calor, sem se permitir a recepção de um abraço de esperança. E por mais que a languidez da lua queira inibir o fulgor do astro rei, o calor deste derrete-lhe o esplendor dos seus argumentos, desarma-o com a ternura do seu sorriso. Contudo há momentos em que o próprio sol duvida da vitória perante a obstinação, a acutilação das palavras, a amargura das expressões lunares. E de repente a natureza enuncia-nos o sentido destes desencontros. Talvez o sol e a lua tenham que existir em vidas opostas e, só em pequenos momentos conheçam alguma consonância de sentimentos e aconteça a singularidade celeste do eclipse solar ou lunar.
Por mais que goste da lua, quando o seu luar me acalenta as noites. Por mais que aprecie a beleza dos eclipses, não deixo de pensar nos que permanecem do outro lado da lua, que desenvolvem a aridez do sentir, que permitem que a escuridão os invada e não aceitam nem um raio de sol para iluminar o rumo da sua existência. E atrevo-me e sonhar com a hipótese: Quem sabe no próximo eclipse, o sol prenda definitivamente a lua no seu abraço…

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Post.it: Abraços grátis

Outro dia cruzei-me com um grupo de jovens que oferecia abraços grátis. Sorriu-me o peito celebrando a iniciativa.
Por momentos pensei, estarão eles carentes de afectos? Estaremos nós necessitados de abraços?
Sem dúvida que o gesto encerrava também outra mensagem que desejavam passar. Que num mundo dominado pelo materialismo, há presentes, gestos, que não têm preço, que dinheiro algum os pode pagar. Que há ofertas que não se podem embrulhar, porque são demasiado grandiosas e papel algum as cobriria, caixa alguma as condicionaria.
Mas a verdade, é que estamos carentes de gestos, de atitudes desprendidas, de corações que sejam portas abertas a um convite de afeição, de atenciosos cuidados. A verdade é que andamos de braços cruzados com receio de os estender ao outro. Entregamo-nos facilmente ao comodismo de relações descomprometidas, porque nos parece ser mais fácil ficar sentado, frente ao computador, “conversando” horas infinitas com alguém que verdadeiramente não conhecemos e que não nos conhece, que não sente a nossa mágoa, o nosso calor humano. Porque a tecnologia, embora já permita enviar som e imagem em tempo real,  ainda não consegue deixar passar através dos cabos de fibra óptica o calor da vida a correr-nos nas veias. Desconhece quem está do outro lado, o nosso percurso, por vezes sereno dessa existência, mas desconhece igualmente, os momentos em que no peito nos dilacera um vazio crescente. Porque se é verdade que nos escudamos de laços afectivos e se já não temos de partilhar abraços, o contrário também acontece, porque não os recebemos, porque os sentimos ausentes de nós.
Felizmente ainda há quem nos ofereça abraços grátis, laços cada vez mais ténues duma sociedade que nos distancia e torna pequenas ilhas de cibernautas.
Espero, acima de tudo, que nunca se esgotem os abraços grátis. 
Eu tenho muitos para vos oferecer.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Post.it: O Natal já lá vai...

Gosto do Natal, da sua antevisão, da expectativa, da espera, dos projectos, das esperanças, dos desejos que silenciamos e de todos os outros que oferecemos com o ânimo de aquecer os corações amigos. Gosto do Natal no inverno, de ver as nuvens de palavras que saem das bocas num ramalhete de desejos que, quem sabe num destes natais se concretizem. Gosto do cheiro a madeira a arder nas lareiras que aquecem lares, e as famílias que se reúnem à sua volta, partilhando, histórias, lembranças de anteriores natais ou quem sabe de futuros. Gosto do nevoeiro da noite de Natal que nos convida a mergulhar nele sem medo, para descobrir os seus mais bonitos segredos. Gosto da solidariedade que estreita os abraços. A comunhão de sentimentos que se partilham sem avareza. Gosto da manhã de Natal, quando o sol exibe o seu mais belo sorriso e, nos oferece a paisagem ideal para um passeio pela frescura do dia acabado de nascer. Gosto do Natal quando os meus sentidos são embalados pela sua melancolia que me leva a supor eterna a temporalidade desta quadra.
De repente, o dia seguinte. Sinto-me arrancada desse torpor, que me rouba a nostalgia do sorriso que ainda me emoldura o rosto. Tenha uma certa dificuldade em encarar de novo a rotina. Talvez seja da minha costela alentejana, porém, são os genes sociais que imperam na esgrima de argumentos, nesta cidade que nos molda a vontade, nestas  artérias enfeitadas de veículos que paciente ou impacientemente nos conduzem de volta à realidade da nossa vida, dos nossos dias, já sem Natal.
Porém, o coração ainda sente o teu embalo, e envia-te não uma despedida mas suspiro de saudade, até para o ano, Natal…

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Post.it: Quadro de Natal

Se eu soubesse pintar, faria uma pintura de Natal com todas as cores de um arco-íris, feito de mãos unidas numa corrente de amor. Pintaria sorrisos inocentes nos rostos cansados. Desenharia crianças sentadas no chão, rodeadas de prendas coloridas à espera de serem desvendadas. Colocaria um pinheiro verde no centro da sala para que todos o vissem e nele deixassem pendurados, recados de esperança. Junto ao presépio, os avós abraçariam os netos e contar-lhes-iam a história do Menino Jesus, como já o tinham feito noutros tempos aos seus filhos.
Enquanto isso, lá fora, um anjo debruçava-se sobre a janela e as suas asas agitavam-se de alegria por sentir que tinha cumprido a sua missão de trazer paz e felicidade a cada lar, nessa noite de Natal.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Post.it: Senti um Natal

Senti um Natal, há muito tempo, ou talvez não, a saudade marca um tempo diferente do relógio. Um tempo humano que nos bate descompassado dentro do peito.
Senti um Natal como se fosse o presente de uma vida. De tão esperado, de tão desejado, de tão esperançado. Um presente que vi nos seus olhos, que recebi do seu abraço. Senti um Natal tornado caminho no rumo, que desejávamos fosse a felicidade.
Senti um Natal com o sentir repleto de carinho. O coração ofereceu-o com a gentileza de uma flor cuja haste se sublima ao vento e partilha com ele o seu perfume de pétalas.
Nesse ano, recebi outros presentes que me tocaram a alma, mas se tivesse que escolher entre todos os que recebi ou mesmo entre toda a riqueza existente no mundo, escolheria tão somente, a sua mão, para a aquecer na minha…

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Post.it: O Natal da minha vida

Houve um Natal, muitos diriam, que foi apenas um, para mim, foi um que se perpetuou no coração e na memória pela infinitude de todos os outros. Sobrepondo-se aos de antes e valorizando os que vieram depois. Houve um Natal que, em pleno inverno, o sol sorriu mais do que no Verão. Em que as flores anteciparam a Primavera e ofereceram-nos um jardim de esperança. Um Natal em que vi o presépio acontecer, quando todos à volta da vida, sentiram e partilharam momentos de amor. Nessa noite, as estrelas iluminaram com mais brilho o manto escuro do céu e as vozes calaram todas a mágoas, discussões, cansaços e soaram a cânticos que embalaram cada coração. Quando por fim encontraram a harmonia de um mesmo compasso. Nesse Natal, vislumbrei o futuro no sorriso de cada criança, de cada homem e de cada mulher que uniram as suas mãos a outras, para seguirem juntos pela mesma estrada.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Post.it: História de um happy end

Ouço a tua história, sinto-a igual à minha. Sofrida, magoada, feita de entregas. De sonhos que nunca se concretizam. Percursos paralelos que não se chegam a cruzar. Falamos das mesmas dores, de similares amores. Calamos por fim as palavras, já não são necessárias. São a repetição da tua, da minha existência. Sorrimos, enquanto o pensamento questiona o momento, talvez seja uma armadilha, pensamos... Recuamos, mas de novo encaramos o mútuo olhar, não, há demasiada verdade no teu rosto. Há demasiada tristeza no meu. Já não sei se queres prosseguir, já não sei se quero admitir perante ti a minha fragilidade, carente de harmonia.
Hesito, hesitas e partimos, como chegámos, com a alma vazia, o coração dolorido. Meto as mãos nos bolsos, estão vazios, tal como o meu sentido de vida. Meto as mãos nos bolsos simplesmente porque não tenho outras mãos que queiram as minhas preencher. Paro, viro-me, quero ver-te a desvanecer no horizonte. Já fiz das partidas um hábito, é mais uma, penso. Fico suspensa, também paraste, olhas-me como se me chamasses…
E agora que nos espera?
Um, Happy End?
Se é um final, nunca poderá ser feliz, e o “foram felizes para sempre”, já não nos convence.
Por agora basta-nos que seja um começo.
Um, Happy new beginning.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Post.it: A ternura dos quarenta

“A riqueza depois dos 40...” Numa curiosa citação. "Nunca pensei que a partir dos 40 pudéssemos ter uma riqueza tão grande!!! Prata nos cabelos. Ouro nos dentes. Pedras nos rins. Açúcar no sangue. Chumbo nos ossos. Ferro nas articulações…”
Li isto algures, esbocei um sorriso, esqueceram-se de dizer que temos ouro no coração. Sim é verdade, ouro, esse material precioso que levamos anos a guardar para construir o nosso tesouro de memórias. Mas sendo de ouro é igualmente moldável, adaptando-se generosamente àquele outro coração que tão bem se conjuga com o nosso. Já sem os fulgores da Primavera, cheia de flores mas também de muitos espinhos. Já sem os arroubos das tardes de Verão, salpicados de mar mas também sem lágrimas de inquietação. Repletos de cor mas também de ansiedade, de desassossego por medo de perder esse sentimento que nos extasia e aniquila na sua intensidade. Chegamos à ternura dos quarenta, a esse encanto de Outono, apaziguado, feito de partilha, de estabilidade, de imenso carinho. Aprendemos finalmente que o amor é um barco que descendo o rio nos leva por viagens infinitas de afeição…

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Post.it: I need you now

Agora que o coração entardece,  nas  horas  anelantes dum suspiro.
Agora que o sono não me adormece, na espera que desespera o existir.
Agora que Inverno me anoitece, mas o olhar te procura na bruma do horizonte
Agora que a memória me esquece, sem nunca te esquecer.
Porque busco em ti o sentido, que a vida nunca teve no desenhar do caminho
Num destino que não é nosso, mesmo quando o escrevemos com linhas de luar.
E sinto o sonhar desvanecido, em anos dum tempo que o peito aconchegou.
Num querer, que querer já não posso, viver assim, neste precipício de mim.
Preciso de ti enquanto é tempo, de aprisionar o último alento do nosso sol
Mas o tempo já faz a nossa história, páginas em branco que é preciso escrever.
Antes que sejam asas de vento, na derradeira tentativa de tocar o infinito.
Morrendo sem ânimo nem glória. Sem a coragem de ir mais além do ser.
Preciso de ti enquanto me és, fôlego, riso de Primavera que nos faltou cumprir.
Encanto dum mar navegante, onde fui navio em terra sem a ternura das tuas águas.
Feitiço de tão doces marés, que somente vislumbrei no meu eterno devanear.
Meu ser é de ti, eterno expectante, que apenas beijei na orla da tua brisa.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Post.it: Essencialmente mulher

A sociedade mudou, ou melhor tem vindo a mudar. Para uns, demasiado depressa, para outros de uma forma demasiado lenta. Sem dúvida que demorou muito tempo para a nossa noção de temporalidade, pouco, muito pouco para a história da civilização. A que se deveu esta grande e radical alteração? Às mulheres, sim a elas, que têm sido a estrutura do universo. Mulheres, mães e esposas. Mulheres que conjugaram os filhos, o lar e a carreira. Mas o que levou as mulheres a arregaçar as mangas e a trabalhar lado a lado com os homens? A necessidade de independência económica? O desejo de darem aos seus filhos, um futuro melhor? Há quem diga que a grande revolução das mulheres começou com os electrodomésticos, que vieram facilitar as tarefas domésticas e libertar tempo para outras actividades. Os homens, mais aguerridos no seu machismo, dizem que a culpa é das telenovelas, que vieram abrir uma imensa janela à discussão de muitos assuntos que até então as mulheres tinham silenciado. Os políticos referem que a grande causa foi o 25 de Abril que forneceu às mulheres uma arma muito valiosa: A liberdade.
A verdade é que a sociedade mudou, que a mulher mudou e mudou essa sociedade. Hoje a mulher reivindica o direito à felicidade, esteja ela onde estiver, no casamento ou no términos dele. Em pessoas diferentes ou a si semelhantes.
Porque na verdade, a maior e verdadeira causa da emancipação da mulher, foi o Amor. Chamem-me romântica, idealista, sonhadora, lutadora, realista. Chamem-me o que quiserem, porque sou essencialmente Mulher.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Post.it: A ventura de te encontrar

Sempre, Hoje, Eternamente (SHE). Poderia ser o teu login, tem um sentido de infinito, tem direcção de caminho imenso, interminável, mas agradável na antecipação da meta.
Tem o que procuramos sem encontrar, porque não se encontra, o que não se constrói, com traços de persistência. Com esboços desenhados na alma, moldados no coração. Mas é também Ela, aquela que dá sentido à nossa existência, que vivenciamos numa espécie de missão que vem do passado mais ou menos longínquo, que nos condiciona o presente e se prolonga em cada minuto do futuro. Que sentimos por vezes como um fracasso, quando a experimentamos tão longe, demasiado longe, quase impossível de alcançarmos. Encontramo-la, reflectida em outras vidas, em sorrisos luminosos que não nos são dirigidos, em abraços que já estão preenchidos por outros braços. Questionamos na nossa existência, porque é que ela existe para uns e não para outros? Como escolhe ela os que a vão receber no âmago do seu ser e outros permanecem  indefinidamente à espera que chegue a sua vez. O que fazer? Com que armas lutar? Que destino seguir para ir ao seu encontro? Onde está ela? Porque se esconde, dos que mais a procuram? Daqueles que vivem no deserto da sua ausência, sem um oásis que de quando em vez, os faça vislumbrar um pouco da sua presença, num rasto de infinitude, de passos sobre a areia que o mar teima em apagar. Mas encontrá-la é, repetir constantemente SHE num grito humanamente imperceptível que só o coração pode escutar quando chama por ti, Felicidade.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Não sei se existes

Não sei se existes,
Ou se te criou o coração.
Nas suas horas tristes,
Ou na minha solidão.

Só sei que o amor
Veio e desabrochou.
Como se fosse uma flor,
Que um dia me encantou.

Desde que te vi,
E em cada momento.
Vivo a chamar por ti,
Nas asas do vento.

Porque não vens?
Gritam os sonhos perdidos.
Porque não tens?
Este amor nos teus sentidos.

Não sei se existes,
Preciso sentir que sim.
E que nasceste,
Para fazer parte de mim.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Post.it: Presépios de vida

Aproximamo-nos do Natal, e o Presépio volta a ser construído nas ruas ou nas nossas casas. Mas quando o tema é o  Presépio, de imediato a nossa lembrança cultural navega para aquele que aconteceu há mais de 2000 anos e, que é contado todos os anos de uma forma renovada. Em presépios de esplendorosa arte. Presépios que entrelaçam a sensibilidade artística, com a liga de ouro, prata, marfim, pedra, madeira ou cristal. Mas há outros, que nos deixam sentimentos diferentes, não de adoração, mas de espanto e ternura. Presépios que acontecem numa ambulância a caminho do hospital mais próximo. Mas também é presépio aquela cabana ou barraca por onde entram a chuva e o vento. É presépio a rua, o beco sombrio, onde uma mãe abandonada, sem-abrigo e sem tecto, dá à vida um novo ser, sem lhe adivinhar um futuro promissor. Foi presépio o caixote do lixo onde uma vida recém-nascida é encontrada e, por um novo amor cuidada. É presépio um barco que encoberto na penumbra noite, tenta passar a fronteira no sonho de dar aos seus filhos um vislumbramento de felicidade. É presépio aquela cela de prisão onde a vida nasce já aprisionada por um crime que não cometeu.
Tantos e tantos presépios que acontecem a cada instante da história, presépios onde, sem meios e sem aconchego, recebem em amor, a única oferta que o maternal coração lhes pode dar. Sejamos presépio, não só agora que se aproxima o Natal, mas sempre que uma vida precise do nosso apoio para crescer e ser feliz.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Post.it: O vale dos lençóis

É o lugar onde repousa o amor. Um amor que “é grande e cabe na cama e no colchão de amar”. Mas demasiadas vezes descansam nela apenas a dor silenciada, confessada ao travesseiro. Ela que também é o local onde navegam os sonhos. Onde se fazem e desfazem as nossas guerras intimas. Onde adormece o cansaço de uma vida de rotinas entre maratonas ao ritmo de um relógio que sempre nos ultrapassa e vence a corrida. Muitas vezes o ninho onde o corpo se aconchega para “descansar a medula”. Um vale de lençóis em reboliço de vento que entra pela janela sempre aberta, na esperança que uma estrela entre por ela para anunciar a felicidade. Aconchegados, amparados dos medos, fechamos os olhos e voamos na nossa cama mágica, por lugares onde os impossíveis conseguem ser possíveis. Nessa cama de conforto, onde a vida dorme tranquila até ao amanhecer. Essa cama, por vezes nuvem, que nos transporta para um universo de esperança, um paraíso que por vezes, quase, quase alcançamos, porque a luz do dia nos arranca demasiado cedo a essa possibilidade. Mas todas as noites envolto num manto de escuridão, o corpo entrega-se sem reservas ao calor desse leito que o reconforta e lhe permite sonhar, por breves momentos de olhos abertos, “quem sabe amanhã tudo corre melhor”, diz o suspiro que parte transportado  nas  asas do sono, porta de entrada para o universo dos possíveis.