O rosto perdeu a expressividade, a solidão pesa-lhe nos ombros, as mãos desenham no ar linhas sem destino. É assim que se sente, um homem que não encontrou o seu caminho. Foi outrora um quase eremita, a ciência era a sua paixão, não pela carreira mas pela descoberta. – “Cuidei que era feliz. A vaidade é infinita”. É a declaração que lhe invade a alma quando confrontado com a felicidade da sobrinha que se diz apaixonada. Sorri, relembra o seu percurso de vida. Fugiu de todos os casamentos ideais porque nenhum deles seria perfeito, usou com abundância essa desculpa vaidosa que o afastou do risco e da responsabilidade, que garantia tornar-se um dia infelicidade, refere como justificativa.
Observa com nostálgica inveja a paixão da sobrinha, que ri e rodopia envolta em sonhos de amor. Fecha os olhos, suspira, pensa, no que daria para ter vivido um qualquer casamento imperfeito, mas feliz, pela vida inteira ou por um breve momento. Podia talvez, ter voado sem ter asas, num sonho de felicidade eterna ainda que efémera. O que não daria para ter o brilho que vê agora naqueles olhos cheios de sol que lhe vêm do coração, do amor e, que cresce em esperança dum futuro perfeito, ainda que saiba que a perfeição não existe.
Ele, numa melancólica saudade, confessa que, nunca encontrou no seu amor, silenciando o que do fundo, bem lá do fundo lhe grita a verdade escondida, fugiu, fugiu sempre desse sentimento com medo do seu final. E que ao fugir dum possível fim, nunca viveu o seu início, nem a ventura do durante.
Na parede do escritório, vários diplomas surgem perfeitamente alinhados, outrora um orgulho, agora a sua tristeza. Quanto tempo perdeu em busca da perfeição. Quando a perfeição está no que se sente pela vida, pelo amor, pelos sonhos e até pelos despertares, se eles tiverem de acontecer...



